Nossas prioridades dizem muito sobre nossos valores e sentimentos.

Não é preciso ir muito fundo na observação pra saber que as pessoas tem prioridades diferentes. E os motivos por trás disso podem ser variados. Algumas pessoas priorizam o trabalho ao invés de relacionamentos, por exemplo. Outras pessoas, priorizam aparência sobre conteúdo. Há quem priorize o prazer acima das responsabilidades, há quem faça o inverso e há quem tente dar igualdade pra esses aspectos. Mas de que forma essas características podem contar algo sobre os valores e sentimentos das pessoas?

Se duas pessoas estão hospitalizadas e escolho visitar uma delas, crio uma prioridade. Se ambas estão na mesma gravidade de situação, a escolha pode ser baseada no valor ou sentimento que conferimos a estas pessoas. Priorizamos as pessoas e momentos a quem gostamos mais ou que nos dá aquilo que queremos mais. Pessoas interesseiras, por exemplo, podem, eventualmente, priorizar a companhia de quem lhe oferte dinheiro.

Outro dia, conversando com uma senhora sobre trabalho e relações sociais, ela me contava do descontentamento de receber convites para eventos que não tinha grande potencial de traçar contatos profissionais. Em resumo, se o evento não fosse recheado de pessoas influentes que pudessem lhe abrir alguma porta no âmbito profissional, ela simplesmente não tinha tempo, interesse ou paciência pra ir. Reclamava, inclusive, de quem prestava o convite a tais festas que ela julgava serem inúteis, afinal, sua prioridade naquele momento estava em trabalho e não em pessoas, amizades e diversão.

Deveria eu ter dito, com todas as letras, que a postura dela espantava as próprias oportunidades de trabalho. Costumo dizer que ‘suscitar trabalho exige não falar de trabalho.’ e que a melhor maneira de ser convidado para atividades profissionais é mostrar-se bom amigo, sincero e sem interesses. É muito mais sensato que as pessoas te valorizem como pessoa primeiro e que, por isso, estejam abertas a te incluir nas questões de trabalho. Quem vive por interesse, raramente percebe que nem todas as pessoas ao redor são como ela e que, muitas vezes, ela já foi desmascarada a tanto tempo que, por isso mesmo, há tempos não é convidada pra nenhum dos eventos que ela priorizava em razão dos potenciais contatos profissionais.

As pessoas precisam distinguir ‘relações de amizade’ de ‘relações profissionais’ ou, pelo menos, entender que relações profissionais, quando através de amigos, surgem depois da amizade preestabelecida. Logo, se quiserem ter benefícios advindos de qualquer relacionamento, precisam compreender melhor quem são as pessoas com quem estão lidando e quais as verdadeiras possibilidades ou prioridades que estão em jogo.

As prioridades das pessoas, apontam o que é que elas valorizam mais. Conto por experiência própria que as pessoas, geralmente, pouco se importam com as outras. Somos uma sociedade materialista e egoísta. As pessoas estão muito mais centradas em seus próprios interesses financeiros e bem-estar pessoal temporário do que em construir relações com o mundo, com as pessoas e com os valores que ajudam a mais gente viver melhor. Não é preciso ser um gênio pra ver isso.

Centenas de vezes estabeleci convites pra que as pessoas me visitassem, desde que mudei de casa. Queria que os amigos dividissem comigo meu momento de alegria pelo meu novo espaço de trabalho e moradia. Algumas pessoas se prestaram a isso e vieram olhar nos meus olhos novamente. Outras, pra evitar o desprazer de visitar quem elas pouco se importavam, simplesmente ignoravam a situação e seguiam suas vidas. Por vezes, entediadas em suas casas, mostravam que bufar de tédio ainda era menos ruim do que convidar um amigo pra sair, afinal, pra elas, esse “amigo” aí era qualquer coisa menos isso. Assim você descobre, facilmente quem são as pessoas que estão ao seu lado de verdade e as que só fingem proximidade enquanto você oferece o que elas queriam de fato. Por vezes queriam apenas dinheiro, bebida ou suas habilidades profissionais.

Pergunte-se onde estão as pessoas quando você está pobre, doente, morando longe, solitário, deprimido. As pessoas que queriam somente o oposto disso tudo e não a sua amizade, elas somem automaticamente. As que queriam sua amizade, sem interesses, continuam por perto, mesmo se você estiver na pior. E quando estamos felizes, saudáveis, atraentes, bem resolvidos financeiramente, as pessoas interesseiras brotam até dos bueiros para tentar uma reaproximação. Quando temos o que elas querem, elas aceitam cruzar metade do planeta só pra ir buscar essas migalhas. Triste.

Independente de como estejamos na vida, precisamos filtrar com cautela as pessoas com quem nos relacionamos. A maioria delas estão pelo mundo usurpando umas às outras, da forma que conseguem. Terminam sempre infelizes, acompanhadas de pessoas igualmente falsas em relações superficiais que não entregam nada além daquela pequenez que elas aspiravam desde o começo como prioridade. Essas pessoas descobrem, às vezes, quase sempre tardiamente, que essa prioridade delas não era a melhor das prioridades pra se ter.

Sempre vou me lembrar de quantas vezes me procuraram apenas pra pedir ajuda financeira. Pra algumas pessoas eu só tinha serventia pra isso e elas jamais pensariam em dividir uma atividade, uma saída pra beber uma cerveja ou uma conversa. Para essas pessoas, o dinheiro é prioridade. Se sobrar tempo elas fazem amigos reais. Para mim, a prioridade é fazer amigos. Se sobrar tempo penso em dinheiro. E com certeza, pessoas interesseiras não tem espaço na minha checklist. Qualquer coisa que eu faça no mundo é mais importante do que atender aos anseios de pessoas interesseiras. E ria comigo, por saber que muitas dessas pessoas buscavam migalhas, pois eu não era uma pessoa bem-sucedida. Pra essas pessoas, qualquer troco de pinga valia mais que uma amizade sincera. Pobre dessas pessoas que agora ficam sem o troco de pinga e sem a amizade.

Prioridades são grandes reveladores de nossos valores. As pessoas se mostram por dentro, quando, por exemplo, preferem namorar uma pessoa bonita por fora e feia por dentro. Mostram que se importam mais com a embalagem do que com o conteúdo. O prejuízo é todo delas, ao terem que conviver com um entulho embrulhado em papel de presente. Pra mim, vale mais encontrar uma pessoa bonita por dentro, independente de como seja sua embalagem. O benefício se torna todo meu.

As pessoas também se revelam interiormente, quando preferem perder um emprego do que serem coniventes com um preconceito, uma postura errada, uma fraude, etc. Quem se cala diante de um ato errado para manter seu emprego está dizendo que seu emprego vale mais que a honestidade e o respeito, por exemplo. Cada um é que sabe quais são suas prioridades. O mundo certamente seria um paraíso se as pessoas não tivessem essas podres prioridades. Eventualmente, problemas surgiriam, claro, mas seriam lidados sem conflito, sem desprazer, sem pisar ou usar os outros e sem colocar dinheiro, poder ou influência social na frente do respeito humano, do bem-estar físico e psicológico das pessoas.

E você? Quais são suas prioridades? Você atira no próprio pé apenas pra não deixar de atirar? Ou você é daqueles que valoriza mais a integridade de seu pé do que um banal e desnecessário disparo, ainda mais se for contra si mesmo? Pense sobre isso e vai ver que, todo aparente benefício passageiro e superficial, não leva ninguém a desfrutar de momentos realmente bons. Existe uma ilusão de vitória e bem-estar nas pessoas que tentam extrair somente benefícios egoístas das relações. No final das contas elas terminam sempre vazias, tristes e cercadas de pessoas que não as valorizam por dentro. Além disso, viver e propagar esse modelo, só faz com que o ambiente ao redor seja igualmente tóxico e completamente desinteressante. Em qual realidade você quer viver? A sociedade é apenas a soma dos indivíduos. Se a sociedade não é interessante, a culpa está em cada indivíduo dela. Se cada pessoa mudar a si mesma, o mundo mudará automaticamente.

Rodrigo Meyer

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