Não se pode ensinar nada a quem não quer aprender.

A imagem que ilustra esse texto é uma composição incluindo parte da obra “A Philosopher” (1637) do pintor espanhol Jusepe de Ribeira (1591 -1652).

Idealizamos que tudo que pensamos, criamos e desejamos, funcione. Mas, somos logo lembrados de que a realidade não se trata do que nós queremos, mas do que pode ser feito no momento, considerando todas as limitações das pessoas e contextos. Quando o assunto é aprendizado ocorre o mesmo. Bom seria que todo conhecimento pudesse chegar igualmente a todos, mas além das diferenças de personalidade, cada pessoa tem também suas próprias barreiras sobre o que lhe é proposto.

Deixando de lado questões neurológicas, gostaria de me concentrar no aspecto da conduta diante do aprendizado. Tudo aquilo que estiver ao nosso alcance de percepção e assimilação, é de nossa responsabilidade o papel de recusa ou aceitação ao aprendizado. É bastante comum, no mundo inteiro, que as pessoas reajam à realidade em decorrência de seus complexos, traumas, medos, inseguranças, manias, vícios, preconceitos, etc. Tudo que fazemos e pensamos está, de certa forma, relacionado com o que somos, mesmo que sejamos algo incoerente em algum momento. E disso, nascem muitas bobagens e desencontros na comunicação, no ensino, na socialização e no respeito e tolerância a novas ideias, pessoas diferentes, etc.

Aprender não é tarefa fácil e, portanto, não é mesmo tarefa pra qualquer um. Deveria ser, mas a realidade, como já disse, não é baseada no que queremos. Uma das barreiras mais óbvias que podemos notar na disseminação da Educação e Cultura é o próprio indivíduo, seja ele o receptor ou o transmissor desse conteúdo. A diversidade de pessoas não se resume só ao quão distintas elas são em termos de personalidade e preferências. Atrás de todo esse personagem construído, está um emaranhado de situações, muitas vezes oriundas da infância, que repercutem de forma desordenada ou mal planejada.

Nosso modelo familiar, as condições psicológicas, os traumas, os preconceitos, os erros e acertos, os dramas, as inseguranças, os complexos e até mesmo outras questões ainda não totalmente conhecidas de maneira formal, contribuem pra que os indivíduos desenvolvam direções específicas no caráter, no pensamento, na ideologia, na percepção do mundo, etc. Nunca se conseguirá ensinar a mesma coisa de maneira idêntica para duas pessoas, pois cada pessoa é diferente e cada conexão entre quem ensina e quem aprende, é uma conexão única.

Na minha ingenuidade inicial acreditava que, com um pouco de esforço, qualquer pessoa poderia aprender um conceito ou uma estrutura lógica, por exemplo. Mal sabia eu que um indivíduo poderia ser o próprio carrasco de si mesmo. Levei uns bons anos pra me deparar com a frase de que ‘não se pode ensinar nada a quem não quer aprender’ e, desde tal momento, carrego comigo esse bordão que me é útil em diversas situações.

Com o passar do tempo, vamos nos acostumando, por repetição, que muita gente tem aprendizado seletivo, ou seja, filtra aquilo que está disposto a aprender com base em suas conveniências. É comum, por exemplo, vermos teimosos, fanáticos e preconceituosos persistirem em determinados pensamentos e posturas, mesmo quando colocados diante de fatos contrários a esses equívocos. As pessoas são seletivas no aprendizado, escolhendo o que querem aprender e o que querem ignorar. E é disso que surge o termo ‘ignorante’, aquele que ignora algo. Ser ignorante não é simplesmente não ter um saber, mas ignorar o saber.

Me lembro como se fosse hoje, um episódio cômico e triste da época de colégio, quando computadores ainda eram lentos feito uma carroça parafusada no chão. Diante de um impasse com o computador a beira de travar, uma pessoa leiga clicava insistentemente em um ícone na esperança de que enviar mais comandos idênticos pra um sistema com o desempenho comprometido, fosse agilizar a tarefa. Tentei informar o que talvez não fosse tão óbvio para essa pessoa, citando que quanto mais clicasse, mais lento ficaria e mais distante estaria do objetivo dela. Mas, uma pessoa desinteressada de aprender, certamente ouviria aquilo e ignoraria em seguida. E foi o que fez. Persistiu agindo na contramão do necessário e continuou se frustrando com o fato de que o computador ficava cada vez mais travado. Faltava nessa pessoa, paciência, mas faltava também aceitação sobre o que estava sendo ensinado ali, sobre aquela situação.

Esse foi um exemplo bobo, mas que fica na minha memória pois resume bem a expectativa que temos diante das máquinas e eletrônicos e como nós mesmos somos lentos, travados e insuficientes pras tarefas mais simples da vida. Assim como faltava memória e desempenho pro computador daquela época, faltava ao ser humano médio, como a muitos de nós até hoje, o desempenho necessário pra lidar com o necessário da vida.

Em conclusão, se recusarmos um aprendizado, o maior prejudicado será nós mesmos. A cada vez que escolhemos ignorar algo, teremos de colher as consequências dessa nossa ignorância. Desde sempre eu fui um curioso pelas coisas. Sempre me coloquei em papel de observador e aprendiz e não havia nada que eu recusasse conhecer. Esse deveria ser o papel de qualquer indivíduo. Você não precisa se forçar a uma enxurrada de conteúdos dos quais não vai ter tempo ou fôlego de absorver, mas não deve jamais estar fechado ao aprendizado em si. Diante de uma situação da qual você nada sabe, esteja receptivo para a mudança, principalmente se você se ver contrariado de alguma forma. Aquilo que difere do que somos, conhecemos ou acreditamos, é, por vezes, algo novo, desconhecido, do qual não dominamos. E, se é algo desconhecido, é algo que, em algum momento, de alguma forma, em algum grau, ignoramos. Para não deixarmos que esse desconhecimento vire ignorância, precisamos nos abrir para conhecer, senão acabaremos sendo ignorantes no sentido pejorativo do termo.

E você? Tem curiosidade, mente aberta e humildade pra aprender diante da infinitude ao seu redor? Ou se contenta em aceitar como verdade apenas aquilo que você já mastigou e enterrou dentro de seu pequeno mundo? Está aberto pra novas e diferentes conexões ou está sempre andando em círculo, feito um cachorro que corre atrás do próprio rabo? A vida só começa a fazer sentido quando trocamos interações mais profundas com melhores pessoas, ideias, contextos, etc. Quando você está aberto ao mundo, você está beneficiando a si mesmo. E quando você se ajuda, o mundo todo sai ganhando. Seja uma boa peça nesse grande quebra-cabeça que é a vida.

Rodrigo Meyer

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