O que nos cabe nas lutas alheias?

Quando pensamos em causas sociais, lutas pessoais ou coletivas ou qualquer campanha ou esforço sobre algum tema, precisamos lembrar de algumas premissas básicas. Inicialmente, se a luta em questão for específica pra um grupo ou fatia da sociedade, automaticamente essa luta tem protagonistas, que são os próprios interessados e beneficiados pelos resultados da causa.

Em outros casos, as lutas podem ser abrangentes a um coletivo mais genérico e, a princípio, todos podem se tornar ativos igualmente na ação. Há causas, porém, que apesar de não sermos os beneficiários diretos dos resultados, nos tornamos, de alguma forma, como os porta-vozes, devido a questões como ausência de voz ou liberdade daqueles a quem vamos representar (como causas de proteção à natureza, animais ou, então, pessoas que se encontrem em situações onde praticamente não podem responder por si mesmas, seja por razão de suas condições físicas, mentais, emocionais ou pelo contexto específico do problema ao qual estão submetidas).

Essas são algumas diferenças básicas. Nos segmentos de lutas humanas, encontramos os protagonistas e, por isso, é deles o papel de falar em nome da causa da forma que lhes for mais oportuna. Não se pode querer, por exemplo, falar em nome de um grupo ao qual não seja protagonista. Isso não quer dizer, porém, que devemos ser omissos ao assunto ou de não interferirmos diante de uma situação que cobra uma ação ou reação.

Da mesma forma que um astrônomo é escolhido pra falar de astronomia, nas lutas sociais, cada grupo torna seus próprios membros as pessoas mais indicadas a representarem o assunto do qual elas tratam. Na luta do Movimento Negro, por exemplo, não cabe aos demais dizer como essa luta deve ser feita. Para a luta do Feminismo, são as mulheres que dizem como as coisas serão encaminhadas pela causa. Assim o é para o movimento LGBT, para a luta de direitos de cadeirantes, para proteção de culturas e etnias (como entre os indígenas), entre tantos outros.

Para as pessoas que desejam se alinhar com esses direitos e não fazem parte dos grupos específicos, o papel que lhes cabe é de apoio, ou seja, ceder o espaço pros protagonistas de cada causa e apoiar socialmente, procurando intervir com ações somente quando notar que sua ação possa ser útil e/ou ao mesmo tempo a única ou mais provável opção pra evitar uma situação indesejada naquele contexto.

Cabe aos de fora, também, aproveitar os meios de socialização entre seus eventuais amigos e espalhar, dentro do possível, exemplos e correções a equívocos de pensamento ou conduta que estejam alimentando estereótipos, preconceitos, violências e outras abusos e desrespeitos. Muito mais pode ser feito, claro. E nada nos impede, enquanto pensantes, aprender e dividir mais dessas noções de realidade para aprimorarmos nossa conduta em toda a sociedade.

Há alguns anos atrás, especialmente com a consolidação do Facebook como rede social definitiva (aparentemente), foi possível observar um aumento significativo do uso desse palco como forma de expressão social de diversas culturas e grupos sociais. Devido ao acesso um pouco mais democrático que a internet tenta oferecer, pessoas de diversas classes sociais, diversas causas sociais, nichos culturais e com os mais variados conhecimentos e ideologias, puderam finalmente expor ao mundo suas realidades e abrir espaço na multidão, tornando-se mais visíveis.  E isso trouxe repercussões, tanto positivas quanto negativas.

De positivo, podemos citar o acesso e visibilidade dos assuntos, o que permitiu que muita gente se desconstruísse acerca das ignorâncias e equívocos que vinham sendo alimentados por outros meios sociais ou até mesmo sozinho em suas pobres deduções. Então, claro, mais informação transformou o cenário para um ambiente de maior autoestima e valorização desses grupos. Mas como todo opressor tem desprazer de ver seus oprimidos crescerem, é claro que toda essa visibilidade na internet ampliou o número de conflitos virtuais (pois os não virtuais sempre existiram em grande número). Inconformados de se verem expostos em rede e com o ilusório pensamento de proteção e/ou anonimato por trás de uma tela de computador, muita gente se colocou a despejar o entulho interno como forma de reação.

Empresas como o Facebook, Microsoft, Google e tantas outros grandes nomes da modernidade, sempre se mostraram receptivos às causas sociais e, frequentemente, expressaram publicamente este apoio. Devido ao tamanho e influência social que essas empresas possuem na vida de bilhões de pessoas, é possível prever que a tendência natural é que os espaços se tornem cada vez mais inclusivos, afinal, o público dessas empresas é, teoricamente, toda a diversidade de pessoas no mundo.

Embora isso pareça promissor e poético, é preciso manter a atenção, pois existem muitos casos de omissão ou superficial e/ou falsa atenção a casos de desrespeito à certas pessoas e grupos, especialmente em redes sociais, onde o que deveria ter sido repudiado, não teve o desfecho esperado por parte dos responsáveis pelas mídias. Isso não pressupõe exatamente que estejam sendo coniventes, mas que o sistema pelo qual filtram os conteúdos é falho. Digo isso especialmente do ponto de vista humano, onde, pode-se perceber claramente, que em certos casos, pessoas completamente inaptas pra avaliar abusos de certos nichos, estão entre as que trabalham como responsáveis nestas empresas e, por isso, acabam, desviando a justiça para benefício de seus próprios ideais de opressão.

Cabe ao indivíduo que não tem o mesmo poderio de interferir em grandes projetos como essas megaempresas, de fazer também novas pautas ou novas causas para tal finalidade. A omissão não pode ser o padrão, senão acabaremos tendo que nos sujeitar a decisão de alguns poucos alheios aos nossos próprios direitos e interesses. Faça parte do seu grupo local, seja do Centro Cultural do seu bairro, de um Coletivo, de uma ONG ou algum projeto de cunho social. Esteja à frente do seu grupo de amigos, da sua vizinhança, sua comunidade escolar, seus espaços na internet e onde mais achar que há meios de se ampliar seus objetivos. Esteja sempre engajado na política pessoal e coletiva e seja uma peça crucial de transformação do mundo ideal no qual você gostaria de viver.

Rodrigo Meyer

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