Cultura de fachada.

Muitos de nós cresceu ouvindo e admirando Raul Seixas, Cazuza, Legião Urbana e diversos outros nomes marcantes da música. Mas com a vinda da internet, especialmente das redes sociais, onde as pessoas expressam e compartilham massivamente suas realidades, brotou uma terrível conclusão: grande parte das pessoas é um poço de contradição. Vejo gente admirando Legião Urbana, enquanto expressam completa aversão a toda ideia que é expressa nas letras de suas músicas. É intrigante ver as pessoas ouvindo Raul Seixas com imensa admiração e até fazendo covers, ao mesmo tempo em que são desconectados com todo o universo de assuntos, críticas sociais e ideologias apresentados nestas canções.

É inevitável perguntar se essas pessoas realmente apreciam estas músicas ou apenas dizem gostar porque é a única coisa que brota na memória delas com um ar de nostalgia. Certamente muitas destas contraditórias pessoas, parecem estar tão órfãs de cultura que nem a riqueza destas músicas puderam suscitar alguma curiosidade, reflexão ou atenção ao conteúdo. Chamo isso de ‘cultura de fachada’. É como ter um enorme crachá pendurado, mas não ser nada próximo do que o crachá atribui e, pior que isso, ser avesso a tudo que o crachá representa.

Se você pesquisar em redes sociais, verá muita gente passando algumas vergonhas, demonstrando paixão e até fanatismo por conteúdos dos quais elas nada entendem e que, muitas vezes, são expressões opostas ao que elas mesmas são ou apreciam. Muita gente gosta, por exemplo, de citar “Star Wars” como algo incrível e admirável, mas parecem não ter absorvido nada sobre o roteiro e mensagem do filme. É impressionante como uma imagem e um barulho podem angariar muitos admiradores perdidos. Se assemelha muito aquela ideia de que efeitos especiais no cinema vendem mais ingressos do que uma história ou uma boa atuação do elenco.

Não há como negar que a estética de muitos filmes, de muitas artes e até mesmo a sonoridade de muitas músicas são encantadoras por si só, mas isso não significa que se possa estagnar apenas nisso, caso queira admirar os autores e cobrar do mundo um senso de cultura que nem mesmo se tem. As pessoas precisam ter noção do papel de ridículo que fazem ao tentarem parecer críticas, cultas ou envolvidas com uma determinada ideia ou conteúdo a ponto de se expressar como um fã enquanto, ao mesmo tempo, desprezam ou desconhecem tudo que vem dali.

Em tempos mais drásticos, como em épocas de ditadura, ter uma letra útil e liberada era uma certa dificuldade, afinal a censura predominava. Pessoas muito criativas transformaram a limitação em arte duas vezes. Primeiro pela mensagem em si e depois pela habilidade ímpar de substituir ideias por metáforas. Muita gente, inclusive, ganhou fama exatamente pela importância social de suas letras ou da sua ação política através das letras tentando burlar a censura da ditadura.

Esse descompasso entre consumidores de obras e autores, não é uma exclusividade de uma ou outra época. Mas tornou-se mais evidente com a chegada da internet, porque pudemos finalmente conhecer de perto pessoas de todo canto, em diversos níveis de expressão. Gostaria muito que as pessoas tivessem igual empenho para manifestar tanto os seus detalhes nos formulários de redes sociais quanto para criações próprias de arte ou ofício de algum tipo. Sinto falta de ver mais pessoas descobrirem seus talentos ou de encontrarem em alguma arte ou ofício um meio de expressão mais coordenado ou autoral. Tudo está tão seco e repetitivo, como uma casa noturna que apresenta covers por falta de demanda por música autoral.

Clássicos são ótimos e por isso mesmo se tornaram clássicos. Mas é preciso que mais gente comece a criar, pois senão daqui 5, 10 ou 20 anos, não teremos absolutamente mais nada para chamar de clássico além do que já existia. As pessoas não criam, talvez por medo ou até mesmo por falta de estrutura cultural. Fico um pouco preocupado quando vejo uma juventude investindo grande parte de seus salários pra incrementar sons potentes nos carros, mas sem sequer ter interesse por nenhum instrumento musical. Pode se investir em tudo que se quiser. Da caixa de alto-falantes, uma guitarra, uma passagem de ônibus pra dividir espaço num grupo de canto ou até mesmo fazer melhor uso da internet e correr atrás de algum vídeo que ensine a fazer ou aprimorar alguma arte.

Não digo que todos precisam ser artistas ou autores e nem que precisem gostar de tudo que existe pelo mundo. Aliás, nem mesmo a compreensão das coisas é algo que é obrigação, mas é sempre bom ter bagagem, conteúdo, noção da realidade e um pouco de pensamento crítico sobre a vida, sobre as coisas e, principalmente, sobre si mesmo. Acredito que a melhor forma de conhecermos a situação em que estamos é, também, conhecer o mundo todo, as ideias escondidas nas páginas de um livro novo, de uma música com uma letra que antes passava desapercebida, as conclusões obtidas em conversas numa mesa de bar sobre alguma coisa mais concreta do que o que bordões, piadas infantis, fanatismos e preconceitos. Talvez fosse especialmente útil ao ser humano, falar mais sobre o que é ser esse tal ser humano.

Me lembro que quando criança, tive contato com uma determinada instituição. Nunca havia chegado perto, exceto por ter visto um livro presenteado a outra pessoa e conversas de beira de ouvido. Cresci curioso, instigado a querer saber mais. Não demorou muito pra eu buscar e encontrar informações sobre. Mas pelo que havia aprendido, participar de certos grupos requeria ser convidado, como se fosse descoberto e escolhido. Me sentia apto, pois parecia me enquadrar naquilo que eu acreditava que tal grupo exigia. Mal sabia eu que fantasiei demais, pra um mundo onde as pessoas já não são tão profundas. Somente depois de muitos anos, já adulto e desacreditado, fui saber que uma esmagadora maioria das pessoas que se escondiam atrás desse ar de mistério, na verdade não levavam nem eles mesmos a sério. Foi decepção, claro. Esse era eu tentando encontrar ouro onde não tinha.

Episódios similares marcaram muito a minha mente. Sempre fico imaginando como as pessoas que vivem por estas fachadas desperdiçam as possibilidades incríveis da vida, figurando em instituições, comunidades, plateias de shows, livrarias, salas de cinema e na própria internet, sem terem sequer noção de que nada sabem e nada são. Ficam amortecidas por algum efeito mágico, algum ornamento, algum status, algum possível mérito sem haver de fato, apenas por se fazerem presentes ou vinculadas as coisas das quais elas não degustaram ainda.

Soa engraçado até, como se uma criança viesse falar de experiência de vida. É fácil de fazer tal analogia, especialmente quando se pode dizer que ter cultura de fachada é um ato imaturo também. A irresponsabilidade e o descaso diante das coisas que se faz, absorve ou “pensa” pode ser lida como inaptidão para o patamar de certas coisas. Claro que até mesmo na cultura real (a que não seja de fachada) existem níveis de relevância e até mesmo diferentes complexidades ou razões de existir. Tudo que o ser humano produz, é e compartilha, acaba sendo cultura, afinal em termos mundiais, a expressão humana é o que forma a humanidade além da carne e osso. Mas, quando falamos em produção extensiva, intencional, engajada e comprometida com princípios e ideais sólidos, aí começa a haver uma escassez assustadora.

Conhecendo pessoas de outros países, sempre pude ver uma certa ingenuidade delas em relação a como enxergam o Brasil. Apontam aquele estereótipo de cordialidade, calor humano, agitação, felicidade, cores, diversidade, beleza natural e todo tipo de virtudes idealizadas. Mas pouco disso é correspondido de fato e mesmo quando é, não resume a realidade total do Brasil. Somos lidos pela internet, especialmente pelas interações via Youtube como se fôssemos o eterno país do Samba, do Funk e da Bossa-Nova. Ainda somos estigmatizados por limitadas opções como uma culinária pautada apenas em feijoada e tendo apenas caipirinha como bebida. Nada disso é menor em valor, porém onde está o resto da cultura? Será que o Brasil é sempre carnaval e futebol? E apesar de não sermos restritos assim, é basicamente estes estereótipos que as pessoas arrastam na hora de apresentar o Brasil para os estrangeiros.

Outro lado problemático nessa temática de cultura é quando as pessoas tentam transformar modismos passageiros em representações icônicas de nossa própria cultura ou realidade. Me dói o coração ver as pessoas desvendando culturas de outros países com base no que está pulsando nas redes sociais durante um mês isolado na História. Isso não significa, claro, que estes conteúdos também não possam ser absorvidos, mas a contemplação ou entendimento de uma cultura não se dá por algo tão raso e desconexo. Uma pessoa pode viver 5, 10 ou 20 anos em um determinado país e ainda não absorver a cultura local em essência.

Se já é tão difícil compreender e absorver o que já está firmemente estabelecido, imagine se encerrarmos a criação de mais cultura ou de pararmos de ter curiosidade em esmiuçar o significado das coisas, como nas letras de uma música, nas ideias de um livro, nas pinturas de uma exposição, no conceito por trás de uma roupa ou nas sutilezas que constituem os motivos para uma festividade. Acho que o tempo passou por mim e me deixou demasiado deslocado. E se engana que pensa que isso é sinal de apego ao passado. Embora eu seja o primeiro a apoiar e contemplar as modernidades, eu sinto que é exatamente isso que as pessoas não estão fazendo. Sinto como se estivesse sedento por pessoas ousando e morrendo de sede diante de gente que não tem coragem ou competência pra ousar em nada. Estamos perdendo a batalha, estamos sendo substituídos pelo passado por falta de opção. Estamos engordando a internet com Petabytes de semi-conteúdos, mas muito pouca informação, cultura e mudanças. Isso me cansa, me desmotiva e me deixa incerto sobre quem eu quero ser, onde quero estar ou até mesmo se preciso ou não morrer.

E se me perguntam o que é que tenho feito de minha própria autoria, listo minhas investidas em todo tipo de ofício e mídia, mas logo se cansam porque se você é entusiasmado demais com tanta coisa, parece um excesso, um peso ou alguém pretensioso demais. Sinto como se o esperado pela sociedade, em média, fosse nunca fazer nada novo, nada a mais, nada diferente e nada tão profundo. Ouço simbolicamente as pessoas “dizerem” que não devo ler, não devo escrever, não devo falar, não devo pintar, não devo olhar pras estrelas, nem estudar. Ouço também que não deveria me importar com Filosofia, Psicologia, Medicina, História, Astronomia, Idiomas, Computação, Música, Vídeo, Fotografia. Às vezes essas vozes me cansam e eu acabo pausando, mas assim que volto é como se tivesse compensando a parada.

Me sinto com energia, embora não seja o ápice do talento nas coisas que adoro conhecer e fazer. Eu sigo tentando, gosto da experiência em si e de como posso transformar meu dia e o histórico da minha vida apenas tentando. Claro que me esforço pra ter um bom resultado, mas o principal sempre está comigo: intenção e ação.

Rodrigo Meyer

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