O que causa seus bloqueios criativos?

Um assunto recorrente nas área de criação, como é o caso da Literatura, são os chamados ‘bloqueios criativos’. As pessoas se sentem sem inspiração ou ideias para concretizar uma tarefa relacionada a criação. Talvez lhes falte mais do que criatividade ou talvez estejam sobrecarregadas de outros aspectos que impedem que a criatividade flua. Façamos uma reflexão sobre isso.

O ser humano é, por essência, um ser criativo. Nascemos em determinado contexto e aplicamos nossa percepção de mundo para compreendê-lo, dominá-lo e mudá-lo. Em parte, isso é a expressão da nossa criatividade, a capacidade do ser humano de criar coisas novas, diferentes, úteis ou que suscitem transformações. Está ao nosso alcance o potencial de cumprir essa criatividade sempre que for necessário. Contudo, o modo como vivemos pode interferir na fluidez desse processo.

Quando eu era criança, gostava muito de escrever. Era bem comum juntar um punhado de folhas, nem que fossem destacadas de uma agenda telefônica. Gostava de me sentar sozinho e transpor minha imaginação ou meus dramas para o papel. Se isso refletia qualidade é outra história e, para fins de criatividade, não importa, pois o aspecto essencial daquele processo permanecia sendo a criatividade. Hoje em dia, muitas pessoas atribuem o termo “criativo” para algo que pareça genial ou muito bem elaborado. Mas não é isso que deve representar o exercício da criatividade. Ser criativo é estar simplesmente dando vazão para a criação. Em oposição a isso, temos aquela sensação de vazio ou embargo, como se não conseguíssemos executar nada. Perceba que, o simples fato de concretizar uma criação é um ato criativo, é expressão de criatividade, fazendo oposição ao vazio e a inação.

Com o passar do tempo, eu acumulei muitos manuscritos. Não existia computador na época e tardou o meu encontro com uma máquina de escrever. Eu escrevia entre cadernos, bordas de livros, página avulsas e até pelos vidros embaçados do espelho. Anotava tudo que me brotasse na mente. Executar esses processos me permitia colocar tudo pra fora. Filtrar o que era bom ou proveitoso para algo, era outro momento. Mas, assim que despejava aquelas ideias pra fora da mente, cumpria um processo e eliminava um peso ou incômodo, mesmo que fossem sutis. Esse hábito de estar sempre criando me permitiu olhar o mundo com novos olhos, pois estava sempre à um passo além do nada anterior. Mesmo que muitas de minhas ideias nunca tivessem gerado nenhum fruto, elas nunca brotaram em vão, já que o próprio processo de colocá-las pra fora me foi útil.

Bloqueios criativos existem e parecem desconectar nossa mente das coisas e das ideias. É como se estivéssemos em um mundo diferente e que não pudéssemos mais interpretá-lo ou dominá-lo a nosso favor. Quando isso acontece, é preciso entender quais são as condições necessárias pra que uma ação criativa aconteça. Não se pode esperar que as coisas surjam magicamente apenas por desejarmos que os resultados surjam. Embora isso seja parte de uma equação maior de motivação, o ato criativo depende, apenas, da necessidade de se criar algo. Pode parecer óbvio, mas, infelizmente, muita gente não se atenta a isso. Vejo muita gente idealizando um futuro onde possam se tornar tão criativas quanto outras pessoas as quais elas admiram, como se isso fosse um dom milagroso. A criatividade colocada em prática é nada mais que cumprir a necessidade de se criar algo. Quando nos sentimos compelidos a fazer algo, isso traz, automaticamente, a tal criatividade.

Assim, o bloqueio criativo seria como a consequência da falta de necessidade de se criar. É muito difícil inventar o que não se precisa, por isso, tudo que se inventa é pautado nas necessidades humanas. A roda para o transporte, a lâmpada para a luz, o detergente para desengordurar. Se não temos, dentro de nós, motivos para criar, não temos também as guias para este processo ou a pauta dessa criação. O que vamos escrever, pintar ou inventar, se não precisamos de nada? Querer resultado sozinho é querer o impossível. Mas, se tivermos na mente uma necessidade observada na nossa vida, nossa mente ou nosso mundo, aí temos algo com o que lidar, um caminho com começo e destino. Criar, então, torna-se a tentativa de ligar esses dois pontos entre a necessidade e a sugestão de solução ou mesmo de pesquisa. Independente de resultados em tempo e/ou qualidade, estaremos criativos enquanto estivermos ativos na criação.

No campo da Literatura vi muita gente desistir da criação de livros, pois diziam não conseguir começar. Isso nunca me desceu pela garganta. Pra mim, não existe essa ideia de que não se pode começar algo. Talvez as pessoas desistam de tentar, por não encontrarem algo que lhes pareça satisfatório, pronto e acabado. E esse é o maior entrave pra quem deseja exercitar a criatividade. Escrever um livro, por exemplo, consiste, basicamente, em ter algo pra contar, mesmo que você não goste do resultado inicial. É permitido errar, errar novamente e seguir errando até descobrir que tentar e errar ajuda a compreender o que se pode fazer de diferente. Se você está tentando encontrar uma carta no baralho, cada vez que você encontra as indesejadas, vão aumentando suas chances de encontrar a carta certa. E é só isso que precisamos fazer nas nossas tentativas de criar qualquer coisa. Aprende-se muito errando, mas só erra quem faz alguma coisa. Siga criando, coloque em prática suas necessidades e verá como tudo começa a ser um constante jogo de ligar pontos. Mas nunca se esqueça que sem a necessidade, você não terá nada além de uma folha em branco e uma mente frustrada.

Essa é a dica que eu dou pra quem deseja trazer a novidade, criar um poema, escrever um artigo, fazer um desenho, cantar uma música, cozinhar algo novo, decorar a casa ou programar um software. Não importa em qual atividade você esteja, não haverá nada de consistente pra se buscar, se não houver, antes, uma demanda consistente por algo, uma necessidade por um serviço, um produto, uma expressão de ideia, um ativismo, etc. Tudo que o ser humano faz é pautado nos impulsos diante das necessidades pessoais ou do mundo. Tais necessidades, claro, podem estar vinculadas a aspectos emocionais, racionais ou de qualquer outra natureza. Então, se você achar que está com bloqueio criativo, pergunte-se qual é a necessidade que você tem para aquela criação. O mundo precisa dela? Você tem uma razão pessoal pra expressar aquilo? Às vezes nossa necessidade em determinado momento é de silêncio. Nem tudo na vida é só criação; o mundo também é feito de pausas, contemplações e até de destruições. Harmonize-se com um estilo de vida mais realista para evitar frustrações.

Rodrigo Meyer

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