O abismo entre ler, entender e praticar.

Fala-se muito que a leitura é importante pra Cultura e Educação. De fato ela tem um papel importante neste e outros itens, mas, ainda que as estatísticas fossem melhores, nada muda o fato de que não basta apenas as pessoas estarem lendo, pois muita gente consegue passar os olhos pelas linhas de texto, porém poucos conseguem extrair daquilo algum significado consistente, uma compreensão razoável, um entendimento que faça daquele conteúdo algo útil pra transformação da mente e da vida de si mesmos. E igualmente problemático é ler, mas não entender e não praticar. É comum vermos as pessoas adentrando para conhecimentos novos dos quais, supostamente, são interessadas, mas que, na prática, ignoram tudo aquilo.

Assim, há um abismo entre ler, entender e praticar. Exercer um item não pressupõem exercer o outro. Há uma ilusão triste das pessoas associarem leitura com intelectualidade. Chega a ser contraditório alguém se considerar mais sábio ou instruído simplesmente por ter lido mais, uma vez que falta o entendimento de que uma coisa não tem a ver com outra. A intelectualidade, embora possa ser alimentada com o conhecimento ofertado pelos livros, não é dependente destes. Em verdade, existem muitas e muitas pessoas que sequer tiveram a oportunidade de se alfabetizar ou que nem mesmo possuem acesso a livros, textos impressos em geral ou internet. Mas, isso não significa necessariamente que sejam pessoas sem intelectualidade, sem sabedoria, sem conhecimento, sem domínio sobre os assuntos.

Você se surpreenderia em como algumas pessoas que chegaram a cruzar faculdades e a ter prestígio social em grandes mídias, possuem dificuldades crônicas no discernimento de simples composições de ideias, de lógica, de argumentação ou de preparo mental geral pra lidar com certo cenário de dados da realidade. É decepcionante ter que dizer que muitos professores universitários, a quem esperamos, ingenuamente, um preparo intelectual acima da média, por vezes sabem menos que os alunos a quem tentam ensinar. Destaco, inclusive, que muitos são um desserviço para educação, por replicarem aos seus alunos informações equivocadas dos temas que eles deveriam dominar. Me sinto constrangido em ter que dizer que, ao longo do meu percurso de escola e faculdade, foram frequentes os casos em que eu tive que corrigir erros grosseiros de professores ou simplesmente fazer vista grossa e “me conformar” que o ensino no Brasil é lamentável, em muitos sentidos e níveis.

Na hipótese de termos mais leitores e com uma frequência de leitura melhor, ainda estaríamos no abismo da dificuldade de compreensão. Enquanto as escolas se esforçarem apenas pra ensinar as pessoas a grafarem letras e lerem os símbolos grafados, teremos ótimas máquinas de leitura, tal como as que leem códigos de barra ou o moderno QR Code. Aliás, talvez isso explique porque muita gente não se interessa de ler, depois de ter passado pela alfabetização, escola e até mesmo faculdade. É como se o sistema pelo qual passaram não instigasse a perceber benefício em decifrar além das letras. As pessoas acham a leitura maçante, especialmente se aquilo parecer apenas um aglomerado inútil de letras, palavras e frases. Há de se pensar em como as pessoas estão sendo encaminhadas para o ensino, para a cultura, para a reflexão dos assuntos.

Ler pode ser útil, mas, nas mãos erradas, tem papel nulo ou até prejudicial. Há uma frase que diz que “meia informação é mais perigoso do que informação nenhuma”. E isso significa que, entender um assunto de forma incompleta dá uma falsa sensação de domínio para a pessoa, mas não complementa com o mais importante: detalhes, desfechos, poréns, ressalvas, condições, interpretações, sentidos, entre tantas outras coisas.  Seria o mesmo que dizer para uma criança que água é um líquido seguro, mas nunca explicar nada sobre o ‘capítulo 2’ do assunto, sobre o perigo da água fervente. Se a pessoa só aprende as coisas pela metade, está sempre em risco de fazer mal uso da informação.

E, pra finalizar, depois de ler e entender, há de se praticar, pra não ser como muitos que tudo sabem, mas nada fazem, como se fossem médicos a negligenciar a própria saúde. Em situações piores que esta, podemos citar os juízes e advogados que ignoram a justiça e a lei, ou ainda os que mergulham em ativismo social, mas ficam reclusos apenas na teoria. Assim ocorre, aos montes, em todo campo, em todo canto, com todo tipo de gente. O mundo tem solução, mas pouca gente se debruça sobre os problemas pra coletar as soluções. Há muito para se crescer se simplesmente pegarmos aquelas ideias lidas e, eventualmente, compreendidas e colocarmos em prática. Como mágica, da noite pro dia, as coisas se transformariam. Mas, enquanto uma massa de pessoas tomar a decisão exatamente contrária, veremos uma forca avançar pra cima de todos nós, tornando a educação um tema chato, cansativo, que suscita um aumento colossal de evasão escolar, de distanciamento da leitura e da cultura e, principalmente, do distanciamento da reflexão sobre sua própria existência. E esse é o caminho garantido para o desmoronamento social em todos os sentidos.

Gostaria de ver iniciativas e visões diferentes daquela ideia romantizada de que produzir cultura e fortalecer a educação se resume a feitos numéricos de gerar mais alunos alfabetizados, aptos a ler um texto. Gostaria de ver iniciativas com viés filosófico e psicológico, resgatando valor e interesse nas pessoas, não só de consumir informação, mas de serem elas mesmas autoras. E pra isso, claro, precisarão dominar a reflexão e a interpretação como nunca antes. Suscitar mudança social, no final das contas, é suscitar mudança dentro de cada indivíduo, muito além de suas habilidades escolares ou técnicas. Não somos máquinas e não vamos passar nossa vida digerindo código de barra. Antes de sermos leitores de qualquer coisa, precisamos ter a necessidade de absorver alguma coisa, de compreender uma ideia ou sentido para torná-los ferramentas de nossa própria liberdade e felicidade. Sem isso, ainda seremos os velhos diplomados de sempre, aptos para o preconceito, para a intolerância, para a guerra, para a depressão, para a miséria social, para a violência física e psicológica, para a corrupção, para os relacionamentos desarmoniosos e para a degeneração do sentido da vida, em tempos onde viver é o próprio motivo de não queremos pensar na vida.

Rodrigo Meyer

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