Receita para suprir o vazio.

Viver é um desafio. A vida é um mistério que precisa ser desvendado, uma vez que não vem com manual de instrução ou com objetivos predeterminados. Se deparar com a vida e ter que decidir o que fazer dela é uma tarefa que, pra muitos de nós, leva todo o tempo e, mesmo assim, pode não chegar em nenhuma solução satisfatória. Fato é que muitas pessoas sentem uma sensação de vazio diante da vida e tentam completar esse vazio com coisas igualmente vazias. Parece óbvio, mas está em alta a necessidade de se dizer obviedades, então digo que se as pessoas querem preencher seus vazios, não devem fazer isso com coisas vazias. Mas, o que são esses vazios?

Quando sentimos um vazio na vida, esse termo pode representar uma sensação de que o sentido para a vida é superficial ou insuficiente ou que a vida não parece ofertar valor apesar das coisas que existem e ocorrem (ou exatamente pelas coisas que existem e ocorrem). Superar essa sensação de vazio na vida é uma tarefa de cunho psicológico e filosófico, por vezes com algum viés da meditação, da postura diante do mundo, dos preceitos de espiritualidade, etc. Mas quando tentamos suprir esse sentido da vida, que é algo tão importante, com paliativos ilusórios, é claro que não haverá resultado satisfatório. É como ter fome e ingerir água pra tentar suprir. Por algum tempo você pode até enganar a fome, enchendo seu estômago de líquido, mas se a nutrição pela comida não ocorre, a água será inútil no final das contas.

Tentar levar uma vida com o máximo de satisfação possível é a meta de qualquer pessoa. A menos que a mente da pessoa esteja demasiadamente adoentada para chegar a corromper essa premissa, entende-se que todo ser humano deseja, a princípio, ter uma vida satisfatória, com tranquilidade, felicidade, conforto, etc. Quando não encontramos essa qualidade de vida, nos colocamos a pensar nas razões para esse insucesso. As pessoas que passam por essa reflexão podem chegar a sentir a vida pesada, desinteressante, cansativa, injusta ou até mesmo desnecessária e insuportável. É o caso de muitos que adentram pra depressão, pra abuso de drogas de todo tipo, incluso os medicamentos e produtos legalizados e as demais substâncias.

Em todo canto se vê pessoas buscando soluções para seus problemas, mas sem buscar soluções realistas. Veem-se com insônia, por exemplo, mas ao invés de resolver a causa da insônia, apenas se dopam com algum medicamento que as faça cair em um sono forçado. É evidente que essa qualidade de sono não reflete o mesmo benefício de um sono que ocorre naturalmente e de forma tranquila. Além disso, o uso constante destas medicações pode fazer as pessoas desenvolverem adicionais problemas na saúde e na mente. Como se não bastasse, condicionam a si mesmas a só dormirem mediante o uso destas substâncias, o que as colocam em uma situação de dependência e infelicidade pela ausência de controle de algo simples como o sono. A percepção desse quadro psicológico, físico e até social, pode transformar essas pessoas em geradoras de seus próprios problemas. A infelicidade e a má saúde plantadas nesse modelo de vida gera ainda mais motivos para a insônia e elas entram em um círculo vicioso de problemas.

Preencher o vazio com vazio não funciona. E como é que eu, na minha posição, poderei dizer o que é que cada pessoa pode ou deve fazer pra suprir seus vazios? Simplesmente não posso. Tudo que me cabe é tentar esmiuçar o tema e entregar algumas informações aprendidas ao longo da vida, sobre medicina, psicologia, meditação, espiritualidade e um pouco de empirismo na busca de minha própria libertação. Eu tive depressão por grande parte da minha vida e nunca havia me imaginado fora desse quadro. Acreditava que estaria fadado a uma morte precoce. Durante grande parte desse percurso eu fiz aquilo que estava mais propenso a fazer: nada. Eu me rendi de forma a ter muitos e muitos anos de sono, isolamento, procrastinação, sedentarismo, pouca ou nula socialização e uma constante vontade de desistir de toda e qualquer atividade. Mas, por incrível que pareça, foi exatamente por não fazer nada que tive tempo de observar, analisar e compreender a situação, minha mente, a realidade do mundo, entre tantas coisas. Foi nesse período que pude transformar algo aparentemente infértil na melhor plantação que eu poderia fazer.

Durante meus anos de reclusão, pude sentar diante do espelho, simbolicamente, olhar pra dentro de mim e refletir com sinceridade sobre quem eu era, o que eu queria, o que eu fazia, o que era ilusório, o que era útil. Aprendi muito comigo mesmo. Dizem que todos nós temos um mestre interior, que alguns chamam de ‘Eu Superior’. Talvez seja essa a explicação sobre a capacidade do ser humano de meditar, conversar consigo mesmo e superar barreiras. Por vezes, percebemos que nós mesmos é que inventamos barreiras por conta de nossas crenças, hábitos, imaginações, etc. E isso deixa uma lição importante: somos poderosos! Temos poder de determinar muita coisa para nós mesmos. Da mesma forma que nos submetemos a situações indesejadas, podemos fazer o mesmo para situações melhores. Não posso afirmar que controlamos toda nossa vida, mas controlamos, ao menos, como nos sentir diante da vida e o que fazer com a situação que nos é apresentada.

Em tempos de depressão, tapava meu vazio e afogava minha dor com sono, álcool, comida, isolamento, direção em alta velocidade e permeando um universo de cultura ou estilo de vida de companhias que estavam igualmente ruins ou até piores que eu. Estava claro pra mim que nada daquilo que eu estava fazendo resolveria meus problemas, mas eu já não estava querendo solução pro vazio, mas apenas soluções para estes novos problemas que eu adotei. Queria algo que pudesse resolver esse estilo de vida destrutivo. Estava preso, condicionado a viver uma realidade que já não desejava. E não desejava porque percebia, finalmente, que tudo aquilo era igualmente vazio e que não poderia servir pra suprir o meu vazio sobre a vida. Então, ao menos pra mim, resolver o dilema da vida foi simplesmente me recusar a opções rasas e ilusórias. Comecei a ser exigente comigo mesmo e com os outros. Me coloquei contra pessoas e ideias que não favoreciam os meus objetivos de me tornar uma pessoa livre, tranquila, feliz e preenchida.

Não foi fácil e nem foi rápido. A transição não foi exatamente contínua, uma vez que tive diversas recaídas. Porém, descobri que a cada vez que eu caía, ficava mais resistente aos danos e aprendia os sinais de quando eu estava me aproximando de uma recaída. Minha principal meta nos tempos de recuperação era me manter preenchido de pessoas e situações que realmente tinham valor. No fundo, era somente isso que eu queria mesmo, mas, por muitas vezes, na depressão, não tinha essas presenças ou as ignorava por desconfiança ou insegurança. Muitas vezes eu me boicotei, fechando minhas próprias portas e depois me via sem esperança em um mundo sem caminhos para seguir. Quando parei de andar em círculos, comecei a ver meu potencial surtir efeito simplesmente por ter colocado em prática, com confiança, sem medo, sem procrastinação.

Foi isso que me colocou em um estilo de vida funcional. Sempre que me sinto sobrecarregado com algo, meu instinto de defesa contra a depressão me faz agir e criar mais. Me considero uma pessoa muito ativa, quando comparo com as pessoas ao meu redor. De certo que temos atividades muito diferentes, não só pela quantidade, mas pelos objetivos, pela motivação essencial por trás de cada feito. Olho ao meu redor e vejo muita gente de cara amarrada, infelizes com seus empregos, com seus relacionamentos ou mesmo infelizes de maneira geral com a vida ou a sociedade. Raras vezes encontro pessoas que se permitem ser e fazer aquilo que as preenche verdadeiramente. Grande parte das pessoas buscam apenas válvulas de escape, tapando o sol com a peneira. Podem passar o tempo com isso, mas chegarão, cedo ou tarde, a mesma conclusão: de que não viveram e que continuam infelizes, sendo, provavelmente, ainda mais infelizes por terem desperdiçado tempo na contramão da solução.

O resumo é que temos que nos entregar a valores intrínsecos. Não adianta querer que uma garrafa de álcool, rostos conhecidos numa festa, noites de sexo, sono e comida, possam resolver um problema que não nasceu pela escassez de tudo isso. O vazio da vida não é o vazio por álcool, por sexo, por companhia, dinheiro ou sono, mas sim pela transmutação do indivíduo diante da percepção do valor intrínseco da própria vida. Trocando em outras palavras, o recheio que preenche a vida é a própria vida. É sentar-se em harmonia consigo no espelho e estar satisfeito com sua existência, em poder olhar pela janela e ver o céu, respirar, se presentear com uma refeição saborosa, um cuidado de saúde, um refino estético para contemplar sua própria expressão. A vida, no final das contas é dividir uma risada, mesmo que sóbrio, dedicar tempo em conversar, abraçar, sentir, se entregar, se entreter.

A vida é um espetáculo que nós mesmos dirigimos. Contracenamos com muita gente em múltiplos cenários. Cabe a nós, como atores e diretores, definir a mensagem, o timing, a trilha sonora, os planos, os closes, os cortes de cena e assim por diante. No final de tudo teremos um espetáculo digno de se assistir na memória, pelo que fizemos a nós mesmos e aos outros. Isso preenche, isso transborda. É isso que me faz acordar todo dia pra continuar, com disposição mental e física. É isso que me mantém esperançoso pelo meu futuro, independente da condição dos demais. E quando se tem paz, a pressa some e sobra disposição pra correr mais. E pra você, o que é que te satisfaz?

Rodrigo Meyer

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2 comentários sobre “Receita para suprir o vazio.

    • Obrigado José. Fico feliz de poder dividir minhas ferramentas com mais gente. Tudo isso me ajudou a estar de pé e espero que todos possam estar. Convido você e a todos pra conhecer todos os textos desse projeto. São mais de 600 temas que eu predefini como uma espécie de legado à sociedade. Já tem 220 textos no ar e sigo completando até os 600. Depois passarei a escrever artigos com outro objetivo e também me concentrar mais em contos, prosas, poesias, entrevistas, resenhas e outras áreas.

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