Escrever ou não escrever? Eis a questão.

Quem lida com a escrita, certamente já se deparou com momentos onde não se sente disposto, inspirado ou com facilidade para escrever. Às vezes também paira alguma incerteza sobre a qualidade ou relevância do que se cria. Tudo isso é natural e não é diferente a nenhum tipo ou nível de autor. Penso, inclusive, que essas situações são ótimos sinais para mudarmos nossa visão do nosso momento pessoal. Enquanto estivermos, de certa forma, barrados para a escrita, devemos acatar esse distanciamento e exercer outra atividade ou até mesmo nenhuma.

Quando nos colocamos a escrever de maneira forçada, caímos na ilusão de acreditar ser produtividade. Na verdade não produzimos mais, pois não progredimos ou não demos continuidade ao que estávamos exercendo quando motivados e satisfeitos. Cumprir quantidade ou periodicidade não é garantia de qualidade e, portanto, isso não é um aumento real da produção. É muito mais produtivo poupar esforços para brilhar no próximo momento favorável, do que estar constantemente tentando fazer a diferença com algo que, no final, não será recebido pelo público e pelo autor como uma diferença de fato, exceto, provavelmente, para pior. Uma queda na qualidade é algo comum e até aceitável se houver uma certa constância no que se faz. Contudo, se notar que está diante de um episódio muito destoante de sua média de criação, é melhor mudar o foco e deixar o tempo resolver.

Pessoalmente tive inúmeros desses momentos, inclusive um bem recente. Há uma semana, aproximadamente, pausei a escrita, pois me sentia cansado pelo calor excessivo e o barulho recorrente na vizinhança. Embora eu seja apaixonado por escrever, a situação ideal é importante pra eu conseguir ser rápido e assertivo no meu modo costumeiro de produzir, na organização das ideias e no resultado final pretendido para determinado tema. Coincidência ou não, assim que tirei o foco da escrita e me voltei pra algumas de minhas outras atividades, me vi muito mais criativo e disposto por lá. Talvez a desmotivação em uma determinada área de criação seja um sinal de que outra área está clamando pra ser executada. Alternando de uma atividade pra outra, sinto como se estivesse sempre vencendo, cada momento em uma coisa diferente. Isso, no final das contas, me deixa satisfeito com o meu histórico de criação geral.

Isso me fez lembrar de uma analogia com algo que descrevi em outro texto, sobre as curvas nas estradas serem projetadas para quebrar a monotonia gerada pela constância da linha reta, pois obriga o motorista a fazer movimentos diferentes de um lado pra outro e controlar outros aspectos da direção com mais atenção. Na vida, penso que seja semelhante. Quando nos colocamos muito tempo em uma certa atividade, é preciso tirar férias ou buscar um momento de lazer. Isso nada mais é que mudar o foco para outra coisa da qual precisamos ou gostamos de fazer. Até mesmo pela Psicologia e Filosofia, fala-se que o ser humano se motiva pelos desafios e novidades e que quando se cai na mesmice, a mente parece perder a concentração ou disposição.

Inúmeras vezes me vi buscando solução pra um projeto e quando não vinha com facilidade, arrastava horas em vão até a desistência. Mas, com uma noite de sono ou uma mudança no período de criação, a solução brotava como mágica. Este seria o cenário ideal pra quem lida com criação, embora saibamos que nem sempre teremos essa liberdade, se tivermos que cumprir a tarefa por trabalho. Nas minhas atividades profissionais, sempre ocorria de agendar uma data com algum cliente e, quando estava próximo do dia, ficava torcendo pra que o cliente ligasse desistindo ou reagendando. Um disparate aos olhos de alguns, mas pra mim era a coisa mais sensata. Isso porque, fora das condições ideais, ninguém ali teria o melhor resultado para o dia. Muito melhor do que cumprir datas é satisfazer o cliente e a nós mesmos. Deixar uma marca positiva envolve não só o resultado do trabalho, mas também o modo como estamos durante o processo para atender as pessoas e compartilhar um bom semblante e uma impressão positiva sobre quem somos e o que fazemos. E, se pararmos pra pensar, isso vale pra todas as áreas da vida, independente se é trabalho ou relacionamento pessoal.

Tenho visitado muito conteúdo pela internet e a proporção de conteúdo ruim encontrada, obviamente, supera facilmente as coisas úteis. Torna-se raro encontrar um texto harmonioso, um assunto incomum, um humor criativo, uma foto que não seja mais do mesmo, uma arte que se possa chamar de ‘autoral’ de verdade, etc. Há vezes em que fico com a impressão de que estou diante de uma falha nos sites, tamanha é a quantidade de coisas que se repetem em tempo real. Pude ver um exemplo triste disso ao montar meu espaço no Pinterest. Visitando o feed para encontrar fotos de determinados temas, vi inúmeros usuários que dispunham de cópias de uma mesma imagem, mas alimentando o site como se aquilo fosse uma inserção nova. Uma coisa é usar o recurso da plataforma pra agrupar e organizar as imagens encontradas numa apresentação simbólica das referências em um álbum (pois é esse o propósito do site) e outra, completamente diferente, é absorver conteúdo do próprio site para recolocar ao ar um novo arquivo mas com o mesmo conteúdo. E quando não são as tais cópias, são imagens com muita semelhança, nas cores, na ideia, no ângulo, na luz, no estilo, etc.

O resumo: o mundo não está criando, só está reproduzindo. Isso é o que acontece quando as pessoas não estão inspiradas a fazer, mas precisam, a todo momento, preencher lacunas imaginárias na internet ou na vida. É a compulsão por criar, sem criar. Vejo isso de forma mais evidente no Youtube, por conta dessa nova tendência de mídia e de trabalho. Por lá, na esperança de atingirem cada vez mais tempo de visualização e dinheiro, as pessoas estão vivendo para a internet full time. Esse excesso de produção de “conteúdo” tem gerado uma tonelada de tráfego de dados desnecessários. Em algum tempo os servidores dessas plataformas serão um cemitério bizarro dos efeitos da compulsão humana em gerar. Do outro lado da moeda, as coisas úteis estão sob risco. Recentemente assisti a notícia de que fanáticos “religiosos” estavam destruindo peças históricas de Nimrud, a antiga cidade síria. Monumentos de valor incalculável viraram pó diante de explosivos e marretas. Enquanto nada se cria de útil, destrói-se o que já foi criado. Nesse ritmo o mundo será um imenso vazio, dentro e fora das cabeças humanas. Estamos cavando nossa própria extinção, como se soubéssemos, consciente ou inconscientemente, que não somos dignos de estar aqui.

Essas situações tristes da vida nos ensina algo que corrobora com o tema inicial desse texto. Mostra que forçar-se a preencher lacunas apenas para crescer infinitamente é o exato caso das células cancerígenas. Sem propósito e sem utilidade, tomam o corpo até a morte. Por essa razão, diante de momentos pouco interessantes, eu faço pausas com o maior orgulho. Paro de escrever, de pintar, de ler ou até de socializar. Volto quando tenho algo relevante pra dividir, algo proveitoso pra mim e pros outros, que seja fruto de uma sincera vontade de expressar, com disposição, com capacidade, com qualidade, com sentido, etc. Na ausência de uma expressão útil em algum momento na vida, um hiato vale ouro.

Rodrigo Meyer

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