Sobre empoderar-se.

Diversos grupos humanos ou tipos de pessoas passam por situações de desafio na vida, onde podem acabar depreciados indevidamente pelos outros e/ou por si mesmos. Diante dessa irrealidade, coletivos, famílias, grupos de amigos ou colegas de espaços na internet, frequentemente estão no papel de tentar desconstruir e reverter a visão depreciativa que foi plantada e, então, alicerçar sobre os indivíduos uma noção positiva sobre si mesmos. Tudo isso soa excelente e, a princípio, é exatamente isso que deve ser construído no geral. Contudo, precisamos falar sobre detalhes e nuances desse processo, para entender papeis, lugares, momentos, direções, significações, espaços, equívocos, entre outras coisas.

Quando se fala em empoderamento, especialmente nos tempos modernos de lutas sociais e pessoais em evidência nas mídias e nos espaços de apoio, cultura e educação, geralmente estamos falando em reconstruir um pensamento, uma visão ou um sentimento sobre o indivíduo (ou um coletivo) que, até então, sentia-se aquém de seus potenciais, valores, direitos, etc. Para deprimidos, mães solteiras, mulheres, idosos, enfermos, cadeirantes, neuro-diversos, homossexuais, trans, desempregados, como também determinadas etnias, classes sociais, nacionalidades e qualquer pessoa que disponha de qualquer característica ou condição que lhe afete, no sentido de reduzir a autoestima, a inclusão ou a sensação de valorização e respeito na sociedade, quando se usa a ideia de empoderamento, normalmente isso vem acompanhado de uma tradicional carga de reforços positivos com o objetivo de corrigir e enaltecer o que antes estava equivocado e desmerecido, por assim resumir.

Mas, é preciso pontuar que nesta iniciativa, deve-se vigiar de dentro pra fora o tipo de intervenção ou resultado que se está fazendo na mente ou na sociedade. Quando olhamos pra dentro de nós mesmos em busca de uma imagem melhor, não podemos simplesmente descartar os parâmetros de nossa própria realidade ou mesmo o respeito diante daquilo que consideramos um ideal. Da mesma forma que não devemos nos subestimar nem subestimar os outros, não devemos nos superestimar nem superestimar os outros. E qual é a medida realista para cada caso? Por sermos diversos, cada pessoa tem uma realidade e condição diferente, e é sobre esta realidade em particular que o indivíduo deve pautar sua reflexão ou parâmetro para entender quem é e o que deve ajustar para se expressar tal como é.

Muitas vezes as pessoas se sentem menos capazes ou menos aceitas para uma determinada tarefa, por exemplo, podendo se afastar de certas tentativas ou interesses, como um resultado de frustração, desistência, vergonha, medo, insegurança ou até mesmo por algum outro motivo que não saiba definir forma e origem. Crescer, dentro desse contexto, é empoderar-se no exato sentido de ganhar poder, o poder que antes não se tinha ou não se sentia ter. Não significa exercer poder sobre os outros, mas descobrir e exercer seu poder sobre si mesmo e sobre as atividades a que tem potencial para tal. É o caso, por exemplo, do indivíduo que se reconhece diante de si mesmo e do mundo, como uma pessoa habilidosa em Comunicação e usa esta habilidades com liberdade e orgulho para ocupar seus possíveis espaços, exercer sua personalidade, seu talento, sua vontade, seu estilo, seu trabalho, seu hobby, etc.

Em uma situação normal, essa habilidade já seria reconhecida e apoiada desde o início ou, pelo menos, não seria negada ou recusada de forma tão incisiva. Mas, em casos onde as pessoas são descriminadas, pode ocorrer ausência de apoio no círculo social, familiar, profissional, de amigos, etc. É nesse momento que a pessoa pode sentir um descompasso entre o que ela é e o que outras pessoas permitem que ela seja. Tal como um pássaro aprisionado em uma gaiola, que, embora tenha o impulso natural de voar, está limitado pelo cárcere. Por vezes, não notamos exatamente o que é que nos desvia de nossos potenciais ou objetivos e, tardamos a descobrir que nos sentíamos inferiores ou tolhidos em nossa expressão, devido a desvalorização desproporcional ou preconceituosa de outras pessoas ou grupos. Isso afeta até mesmo a nossa percepção de quem somos e quem gostaríamos de ser. É como se mudássemos nossa escala de parâmetros de realidade, aceitando como “realidade” um contexto que é, na verdade, ilusório.

É pela repetição que o ser humano detecta padrões em tudo. As condutas, as tendências, os resultados, as chances de vitória ou de fracasso, os conceitos subjetivos do que é bom ou ruim, do que é certo e errado, do que tem ou não valor, do que pode ou não ser feito. Porém, essas repetições podem estar presentes na vida mesmo não conferindo com a realidade. O preconceito e a repetição de padrões equivocados, forja um esquema social que transforma as condições e as oportunidades para determinadas pessoas, mudando completamente o tipo de realidade que elas terão repetidas vezes, até se tornar algum tipo de tendência para um padrão. Isso significa que, por exemplo, se a sociedade nega emprego a cadeirantes repetidas vezes, acabará gerando um grande coletivo deles em situação de desemprego e, em razão disso, torna-se padrão o desemprego acompanhado da condição de cadeirante. Mas perceba que esse padrão é forjado por uma determinada conduta externa e não pela condição do indivíduo em si.

Apesar de esclarecido isso, muita gente não se apercebe dessas amarras sociais e sente como se sua condição atrelada a alguma recusa ou insucesso, fosse algo “compreensível” e “normal”, uma vez que esse parâmetro se tornou comum / massificado na média de como as pessoas ao redor lidaram com o tema. Assim, as pessoas podem se depreciar, antes mesmo de terem tentado uma expressão em algo. Inúmeras vezes vimos frases similares a “eu não tenho nenhuma chance, sou apenas um qualquer, filho de … (insira aqui alguma profissão que normalmente é vista como secundária ou de menor valor na sociedade)”. A autoestima das pessoas vai ruindo a cada vez que elas recebem palavras, ações e recusas por parte das demais, pois o ser humano, como a maioria dos animais, é um ser social e, na exclusão, se vê podado de sua natureza, de sua essência e de seu direito nato de se expressar como indivíduo e como peça encaixada em um coletivo ou sociedade.

Quando a cultura local está comprometida a ponto de não conseguirmos fomentar ações de fora pra dentro ou do cenário macro para o micro, as ações nascem, da forma que podem, de dentro pra fora e do cenário micro para o macro. Porém, esta tentativa improvisada de resistência traz consigo algumas barreiras, como é de se esperar. Enquanto o coletivo convencional da sociedade ainda não está aberto para determinadas mudanças e realidades, toda iniciativa de empoderamento, chacoalha e incomoda o espaço convencional, porque evidencia nele a inação, o preconceito, as falhas, as fraquezas, etc. A cada vez que alguém se empodera em um grupo ou mesmo individualmente, isso repercute nas demais pessoas, quase que instantaneamente, pois estamos, saibamos ou não, interligados enquanto sociedade. Todo ser que divide este mundo, está agindo e reagindo em um cenário onde toda ação e percepção é compartilhada através dos vínculos nas relações físicas, emocionais, geográficas, profissionais, políticas, etc. Tudo que fazemos ou deixamos de fazer, afeta algo e/ou alguém e isso não pode ser anulado ou coibido, pois é um efeito automático e natural indissociável da existência no mundo.

Entendidas tais premissas, plantar empoderamento, sem levar em conta o cenário, é ignorar planos e objetivos no próprio ato de luta para a transformação da sociedade em favor de uma causa ou grupo. Partindo da premissa de que devemos suscitar mudanças para a realidade que gostaríamos de ver, não podemos acreditar que a repetição de erros já identificados possam, dessa vez, serem usados em tom de acerto. Há uma frase de Paulo Freire que fala exatamente disso:

“Quando a educação não é libertadora, a vontade do oprimido é de ser opressor.”

Por vezes, o empoderamento escapa pelos dedos da mão e as pessoas acabam usando o resgate de si mesmas como uma forma de vingança onde perpetuam um papel ou cenário que, no final das contas, não consolida a transformação desejada e, reforça uma certa validação social, mesmo que inconsciente, de que não há objetivos válidos, apenas lados buscando assumir a opressão, conforme melhor conseguirem se posicionar nessas batalhas imaginárias de tomada de espaços e valores acima de outros.

É claro que, devemos compreender também que o efeito de uma opressão enraizada por muito tempo, fomenta uma explosão de conduta e que deve ser compreendida tal como apontado pela frase que diz “Não se deve confundir a reação do oprimido com a violência do opressor.”, apontando exatamente que, nem toda reação “drástica” é uma violência por si só. A reação para uma ação não é uma ação por si só, mas um resultado da ação inicial do outro. Assim, não se pode esperar controle ou supressão de determinada reação ou vontade de reação, depois de já se ter demonstrado ações ou vontade de ações de forma arbitrária e gratuita. É exatamente isso que explica porque em um cenário de normalidade, não há reação a violência, posto não haver violência inicial para requerer algum tipo de reação. E de igual maneira, para uma violência inicial, a defesa na reação é o esperado, para equiparar em tom de justiça a equação que se desviou da normalidade ao brotar indevidamente. E é este exato caso que explica como e porquê expressões de fascismo não são toleradas. O empoderamento humano, sob a premissa da liberdade e da dignidade humana, combate a “célula cancerígena” no ambiente social, mesmo ainda se tratando de “célula” como as que ainda estão saudáveis.

Considerações importantes para o empoderamento humano exigem reflexão extensa e, certamente, dariam bibliotecas inteiras de conteúdos e questionamentos para mais desenvolvimentos. Enquanto o ser humano estiver cercado desse tipo de ambição de dominar e expor a realidade dos indivíduos, no âmbito pessoal e coletivo, teremos chances de corrigir equívocos não só na origem externa, como também os de origem íntima, como quando nos deixamos levar pela ilusão plantada pelos preconceitos e opressões da sociedade. Da mesma forma que há indivíduos buscando empoderamento para superar esses cenários onde foram vitimados de alguma forma e/ou em algum grau, há também pessoas precisando de extensa transformação para elas mesmas se redescobrirem como pessoas, fora daqueles espaços convencionais onde habitaram por muito tempo, iludidos por poder, violência, preconceito, ganância, etc.

Ainda que eu consiga ver com certa clareza esses dois espaços, jamais poderei negar a mim mesmo a necessidade de dar preferência aos massivamente vitimados por tais opressores, do que aos opressores que são, em última análise, também vitimados por algum outro cenário que os colocaram nesse terrível papel. Tal escolha, além de instintiva é a mais adequada do ponto de vista racional, bastando retornar para a analogia com o câncer e perceber que se quisermos ter alguma chance de salvar o total de um paciente, precisamos ponderar os limites entre a quantidade de células saudáveis, a quantidade de células cancerígenas a serem eliminadas e a resistência para o processo de combate. Assim, quanto mais cedo se intervém no câncer, melhores são as chances de cura, conforme os próprios médicos explicam tais estatísticas. E, para um corpo onde o câncer já se espalhou em tempo e quantidade, torna-se mais difícil ou impossível de reverter o quadro geral. Assim posto, todo esforço de ajuda deve abrir os olhos para prioridades, tempo, quantidade, efeitos, ferramentas e nível de ‘resposta’ do paciente a determinadas iniciativas de tratamento.

É sob esta expectativa que pauto minha estratégia para refletir e reagir ao mundo que me é apresentado. Não espere de mim um produto pronto e acabado, mas também não tome como garantida a falha por padrão, pois estou, constantemente, em batalha por mim mesmo e por tantos outros. Teoricamente, haveria espaço ilimitado para continuar a desenvolver o tema deste texto, porém, já está extenso o suficiente para a média do que tenho ofertado na maioria dos artigos desta mídia. Espero, contudo, poder retornar e pinçar este texto como referência de base para o que de novo eu puder adicionar. Acredito que, construindo a expressão ao longo de todos esse artigos já escritos, exige, proporcionalmente, que os que me leem se pautem pela cruza de informações que se pode ter no total dos textos e não apenas de uma publicação em isolado. Por isso, convido a todos vocês que chegaram até aqui por conta desse tema em específico, que visitem o restante do material, desde o início, assim poderão viajar junto nessa jornada. A minha missão, sobretudo, é sinalizar e apoiar a missão de todos vocês, enquanto houver algum norte em comum. Bem-vindos e obrigado por me “aturar”.

Rodrigo Meyer

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