O tempo que você não tem, lhe foi roubado.

O tempo, além dos ciclos naturais das estações do ano e o movimento dos astros, é também uma construção social. E dentro dessa construção social é comum de vermos as pessoas criarem construções derivadas desse modelo. O tempo é relativo, mas também tem seu fator concreto. Mais importante do que entender o que é o tempo, é saber o que você faz dele.

Quando as pessoas dizem que não possuem tempo para determinada atividade, geralmente isso significa o oposto na realidade. O que ocorre é que as pessoas que sentem-se sem tempo, por vezes, estão apenas cegas de si mesmas, justamente por estarem ocupando o tempo delas com coisas superficiais e que não são reais prioridades. Quando elas notam alguma coisa da qual elas gostariam ou precisariam muito fazer e se apercebem sem tempo, é preciso refletir que outras coisas estão preenchendo o tempo a ponto de não haver espaço para algo que se quer muito

O dia na Terra tem em torno de 24 horas. É bastante tempo para o modo como estamos acostumados a experimentar nossas rotinas. Uma pessoa comum dentro da média, acorda pela manhã, segue para o trabalho ou estudo, pausa para almoçar, encerra o dia lá pelas 19h00 e retorna pra casa ou segue para alguma atividade de cunho pessoal. Considerando o percurso triste de muitos lugares, isso pode se arrastar por mais algumas horas de transporte. Com alguma sorte essa pessoa vai conseguir dormir as recomendadas 8 horas de sono, pra acordar à tempo de ir pro trabalho ou estudo no dia seguinte.

Se você segue essa rotina descrita acima, é muito provável que você esteja cansado. Seu trabalho te ocupa o dia todo, se levar em conta a soma do transporte, da refeição e do sono que te mantém vivo pro próprio trabalho. Em nenhum desses horários você teve lazer ou algum prazer incluso. É provável que não tenha tido sequer o tempo necessário para se questionar sobre sua condição atual e suas possibilidades paralelas. Como buscar alternativas, quando tudo que você tem é a rotina te algemando à um modelo que te cansa e te ocupa o dia todo?

Se você teve tempo e oportunidade pra ler esse texto, provavelmente você está com uma margem nos seu horário ou então teve a grata oportunidade de folgar por alguns dias na semana inicial do ano. Talvez, ainda, você tenha insônia e, ao invés de cumprir suas 8 horas de sono, você se cansa ainda mais diante da internet, em busca de atender o chamado da mente. Eu não tenho como prever com exatidão qual a sua situação, mas posso lhe dizer algo importante sobre tudo isso. Em qualquer cenário que você estiver, uma coisa não muda: o dia continuará tendo 24 horas e você tem nas mãos escolhas e responsabilidade para colocar na balança. Vejamos.

Se você é uma pessoa solteira, sem responsabilidade com cônjuge, filhos e nem lhe é requerido cuidados mais constantes e presenciais para seus pais ou parentes, você já está em vantagem em relação a muita gente. O Brasil é um país onde raramente as pessoas alcançam qualidade de vida e, por isso, mais atribuições de responsabilidade acabam por se tornar um fardo que faz muita gente desistir ou transbordar em condutas e sentimentos indesejados. Se lhe foi dada a condição da escolha sobre esses aspectos da vida, sinta-se agradecido, pois a maternidade ou paternidade, o cuidado de enfermos ou a aceitação de um trabalho que rouba todas as horas do dia em troca de um salário que custeia apenas a sobrevivência, é uma triste realidade de grande parte da sociedade.

Nessa altura você deve estar se perguntando, como é que pode haver tempo de sobra, se acabei de mostrar que a maioria das pessoas não dispõem de tempo suficiente. A verdade é um contexto mutável e não algo fixo e eterno. Se nos apercebermos de nossas funções no mundo, do nosso esforço, nosso potencial, nosso valor, nosso trabalho, nossas relações com o tempo, com as pessoas e com a sociedade, teremos condições de estimular em nós um senso crítico sobre o que não parece justo, certo ou realista sequer. Quando você se dá conta de que está trabalhando simplesmente pra continuar vivo para o próprio trabalho, você está sendo, em certa forma, escravizado pelo trabalho, apesar da ilusão do salário. Digo isso porque seu salário não é dado para você exatamente, mas custeia apenas sua alimentação, sua moradia, seu transporte e evita que você amanheça morto no dia seguinte e deixe de trabalhar por quem “precisa” da sua fracionada mão-de-obra. Se aperceba que você não usufrui do seu salário para nada que seja destinado à você mesmo, como o seu aprendizado, seu lazer, seu relacionamento afetivo com as pessoas, sua exploração da espiritualidade, o cuidado com a saúde do seu corpo e mente, a elaboração de uma rede firme e saudável de amizades, uma pausa para pensar o mundo, pensar você, pensar a vida, questionar os caminhos e os porquês. Perceba que num modelo de vida apertado assim, ocupando todas suas 24 horas, o tempo lhe é roubado. E se lhe roubam o tempo, é porque você tem tempo de sobra pra ser roubado. Ficou mais claro?

Todos nós temos, tivemos e sempre teremos 24 horas do nosso dia, para fazermos nossas escolhas. É claro que, diante de certas responsabilidades éticas, escolhemos, por exemplo, não negligenciar os cuidados com filhos e família, não subestimar o salário que nos permite dar assistência e sobrevivência para aqueles a quem tutelamos e/ou amamos ou simplesmente para cumprir nosso instinto de sobrevivência e nos mantermos vivos e à salvo nas necessidades mais básicas da Pirâmide de Maslow. Mas, acima das urgências de respirar, urinar, comer, se proteger do frio e do calor, dormir, se manter vivo e com o máximo de saúde possível, temos um outro patamar de realidade, que é talvez igualmente importante por mais que não seja exatamente o motivo da nossa sobrevivência como seres orgânicos.

Além da sobrevivência, temos o viver. Viver é infinitamente diferente de sobreviver. Enquanto o sobrevivente pulsa o coração e mantém ativa as ondas cerebrais para ser tachado de vivo, a pessoa que realmente quer viver e não apenas sobreviver, precisa encontrar função e satisfação além da manutenção do organismo, afinal o ser humano não é apenas o próprio corpo. Ser um ser humano é, antes de tudo, ser dotado de uma individualidade, uma consciência, uma personalidade, uma vontade (e aqui permita-me listar também a Vontade, com ‘V’ maiúsculo, em referência a essência de um indivíduo, como anunciado por uma certa vertente de conhecimento). Viver é, sobretudo, abandonar a servidão da sobrevivência e desfrutar a vida ao lado de seus potenciais e anseios. Existimos para nossos próprios propósitos e não temos que nos sujeitar a nenhum modelo imposto de sociedade, trabalho ou relacionamento. As premissas do mundo, são criações de outros seres humanos, tão comuns e/ou especiais como qualquer outro. Somos todos iguais e o problema na administração do nosso tempo e valor está justamente em alguém ser subjugado por outro, pra que o outro faça o que quer do tempo dele, enquanto a vítima segue pressionada a não ter nada, a não ser nada, a não poder querer nada.

As pessoas que detém 24 horas do seu tempo, tem um tesouro nas mãos. Deveriam fazer bom proveito disso, pra não acabarem infelizes, com sentimento de derrota, frustradas, deprimidas, doentes ou distantes dos seus potenciais, sonhos e responsabilidades. Escolhemos vender a nossa força de trabalho, pois acreditamos pouco na nossa autonomia. Desde que eu me conheço por gente, sempre almejei e sempre fui um profissional autônomo. Trabalhar para os outros nunca me foi uma opção a ser considerada. Claro que se eu me sentisse sem nenhuma segurança ou esperança, viria o pensamento de me sujeitar à exploração do trabalho convencional, afinal tentamos sempre nos mantermos ao menos vivos pela sobrevivência e depois pensamos em viver. Mas, enquanto me foi dada a oportunidade de escolher minha própria vida, escolhi arcar com a responsabilidade de viver na incerteza dos ganhos como autônomo, mas desacorrentado da falsa promessa de estabilidade de um salário mensal em uma empresa. Não me arrependo jamais de ter escolhido o meu caminho.

Eu não posso dizer que você tenha as mesmas condições que eu para tomar essa decisão assim, da noite pro dia, mas posso te contar da experiência de inúmeras outras pessoas em diversos contextos sociais e familiares. Posso te dizer que há pessoas que mesmo tendo uma vida relativamente confortável, escolheram ir para as ruas, para morar e explorar a realidade paralela, como também conheço os que abandonaram as ruas ou o risco de estar morando nelas, para coletar materiais recicláveis descartados, para construir sua própria autonomia na vida, sua moradia, seu tempo livre, sua relativa paz. Sorriso no rosto de pessoas tão distintas falam mais sobre quem elas são por dentro, do que o cenário que deduzimos no mundo físico delas. Para algumas pessoas, certas atividades parecem degradantes, para outras é a oportunidade de se sentirem livres. Obviamente, a sensação de encaixe e satisfação dessas pessoas não anula o fato de que outras muitas sentem-se invisibilizadas ou maltratadas pela vida exatamente por estarem na condição ou cenário em que estão. Para muita gente o abandono familiar, a miséria, a ausência de um lar além do improviso nas calçadas, é uma realidade dolorosa que as pessoas tentam contornar por meio da transformação de significado da vida, mas que, quando não conseguem, caem no abuso de álcool e outras drogas, como fuga de suas próprias realidades.

Começar a falar de tempo e terminar falando de classes sociais é o tipo de realidade que precisa ser visitada mais vezes por aqueles que não perceberam a conexão entre assuntos aparentemente desconexos. O texto não desvia sequer do título. O texto tenta suscitar na sua mente consciente, aquilo que o seu inconsciente já sabe. Por meio das críticas e exemplos que trago, eu espero com sinceridade que você levante um dia e perceba que há valor no seu indivíduo, por mais que a vida tenha insistido em mentir pra você, em te reduzir ou te desacreditar. A vida, de um modo mais subjetivo, são as relações humanas pelo mundo. É o que fazemos uns com os outros que determina como será a vida de cada um. Qualidade de vida nada mais é que manter relações positivas e justas entre as pessoas que interagem em um mesmo ambiente. Se cada indivíduo estiver são e feliz, acaba por descobrir que todos possuem 24 horas do dia pra serem cada vez melhores, num nundo cada vez mais consistente, sem ódio, sem preconceito, sem separação de classes, sem pressão, sem guerra sem coisas desnecessárias que ocupam o tempo de muitos.

E nem vou entrar na questão, por hoje, do desperdício de tempo de atividades como a obrigatoriedade ilusória de sair todo fim-de-semana, de dedicar horas do seu dia pra assistir passivamente a timeline do Facebook, Instagram e Youtube. Essa crítica da vida pós-internet é tão conhecida quanto a própria internet e as pessoas são conscientes disso mesmo quando incorrem no vício que elas não gostariam pra si. Disso já falei em outros textos e, se necessário, voltarei com abordagens diferentes futuramente. Retomemos a linha do pensamento.

Após você ter se apercebido do necessário, é hora de fomentar suas mudanças no coletivo. Sozinho, talvez faça boas coisas, mas em conjunto, poderá fazer coisas maiores. Se tornar livre no seu próprio mundo, pode ser uma bela conquista, mas estimular para que todo o mundo seja o seu e de todos os demais, pode ser a melhor coisa que você já fez. Encontre-se com as pessoas que pensam de maneira similar com a sua, esclareça os pontos falhos sobre o assunto, divida apoio, esteja lá para empoderar, para deixar um sorriso, um novo modelo de vida, um teor de esperança, um perfume de vitalidade, um pensamento que vá além da opinião e que permita que mais pessoas sintam-se engajadas como você a querer mais da vida do que apenas sobreviver. De início isso poderá ocupar boa parte do seu tempo, mas é uma boa maneira de ocupá-lo, bem melhor do que se enforcar em horas e mais horas de trabalho sem significado, pra que seu patrão compre um carro novo, reforme a casa, viaje pra praia, abra outra empresa e siga enriquecendo às custas do seu suado trabalho.

Me parece mais justo que você escolha pros seus dias a incerteza no final do mês, porque só se torna difícil quando pouca gente está fazendo. Se todos estivéssemos vivendo em um cenário de trocas entre autônomos pelo mundo todo, seríamos todos livres para sermos quem quiséssemos ser. Seriamos livres para pensar, ler, sentir, escrever, desenhar, construir, sonhar, viver. Viver! Vamos redescobrir o sentido da vida, olhando exatamente para os lugares onde ela não está. Se não há vida no seu trabalho ou nas suas relações sociais, mas apenas sobrevivência, é hora de repensar. Tudo bem se você concluir que não é uma mudança boa para você ou que você não tem os contextos necessários para tomar essa decisão. Eu não estou aqui pra te julgar. Eu vim exatamente pra lhe enxergar, dizer que você existe, que você importa e que você deve ser livre o máximo que puder. Tudo que eu posso fazer por você, na posição em que estou é te provocar reflexões, abrir as portas do meu mundo e sorrir diante da reciprocidade e sintonia que houver. Eu não posso tomar as decisões por ninguém e nem mesmo cobrar as pessoas para que tomem qualquer decisão na vida delas. Somos indivíduos e, como tal, há uma vida em cada um de nós, uma autonomia, uma responsabilidade própria, uma liberdade, um hall de escolhas e ações. Exerça sua individualidade, seja o protagonista da sua vida.

Obrigado pelo seu tempo e espero que o meu tempo dedicado nesse texto tenha gerado algo de útil pra você também, pois foi útil pra mim e só seria uma troca se fosse útil à ambos. Isso é o que fiz desse pequeno momento do meu dia e tenho certeza que ele vai me render mais tempo livre em algum momento lá na frente. Eu escolhi viver e escrevo porque é isso que eu desejo fazer.

Rodrigo Meyer – Author

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