A complexidade de tudo.

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Quando refletimos sobre um assunto qualquer, a primeira impressão é, quase sempre, a mais equivocada possível. Para exemplificar isso, vou fazer uma analogia. Se um indivíduo leigo olha para o céu noturno, ele pode se aperceber da presença do nosso satélite natural, a Lua, e ter a impressão de que o que vê é suficiente. Ao erguer sua mão, aqui da Terra, a Lua parece, facilmente, caber na palma da sua mão. Mas, se esse indivíduo se aproximasse de fato da Lua, ele iria perceber, à medida em que avança, que ela se tornaria substancialmente maior, até o ponto em que, mesmo ainda sem pousar em sua superfície, já seria impossível mantê-la inteira em sua mão. Ele se daria conta de que existe uma relação entre aparência, tamanho real, distância e/ou localização do observador, que transforma, visualmente, o objeto observado conforme cada combinação desses fatores todos. Assim, ele entenderia que objetos enormes, quando vistos de muito longe, parecem pequenos. E que aquilo que parece não abriga o total da realidade de um objeto, cenário ou evento. Faz-se necessário uma aproximação daquilo que se pretende observar e entender, assim como comparações entre o que já se conhece, para traçar uma regra que realmente faça sentido. Em resumo, observar e entender a realidade exige um conhecimento mais profundo que vai além das aparências, das primeiras impressões, etc.

Citada essa analogia e as devidas conclusões, imaginemos isso pra outras áreas, como o entendimento de pessoas, sociedades, ideias, ideologias, conjunturas políticas, econômicas, questões de saúde, relações culturais, a psicologia por trás de cada pessoa ou evento e tudo o mais que quisermos entender de verdade e não apenas nos aplaudirmos pelas nossas primeiras impressões, deduções rasas, equívocos e preconceitos.

O Brasil é um país em que, segundo os dados estatísticos apresentados na última notícia que li há um ou dois anos atrás, tinha cerca de 73% da população figurando na condição de não leitores. Pra piorar essa situação, o desgoverno atual, em 2020, está propondo a taxação adicional de livros. Ou seja, um país que já tem uma bruta crise econômica, com a maior parte da população vivenciando a pobreza e outros tantos retornando para linha abaixo da pobreza (a miséria), agora completa seu plano de devastação, barrando o acesso aos livros que sempre foram caros no Brasil, tornando-os ainda mais inacessíveis. Uma maneira eficiente de cortar o acesso da população à informação e cultura, na tentativa de remover o senso crítico. Os efeitos disso em médio e longo prazo, permitem uma destruição tal do intelecto da população, que, facilitaria e muito a disseminação de fake news (notícias falsas) ainda piores e de um empobrecimento do debate das questões sociais e pessoais, simplesmente cortando o raro acesso à qualquer área de assunto.

Nos últimos 5 ou 10 anos, o Brasil teve diversas livrarias fechadas, simplesmente porque não se sustentaram mais pela pouca demanda. Muitos autores, literalmente, passam fome com aquilo que recebem de direitos autorais ou de suas tentativas de monetizar suas carreiras em quaisquer outras plataformas. Já não haviam muitos leitores por conta da precarização da Educação e da sociedade em geral e pelos preços elevados dos livros que, muitas das vezes, tem tais valores justamente pra compensar a escassez de consumidores e tentar manter o lucro. Porém o efeito disso é o inverso. Quanto mais caro é o livro, mais inacessível ele se torna para a maioria das pessoas e, portanto, menos interesse essas pessoas terão em se aproximar desse universo. Por mais que você instigue nas pessoas o interesse pela leitura, se ela não puder comprar os livros, ela acaba se afastando desse meio.

Na minha infância, eu não tive condições financeiras de investir em livros e o pouco contato que tive foram com livros antigos que meus pais mantinham em casa, sem nunca adicionar itens novos. Os livros que estavam disponíveis para serem lidos eram, geralmente, informações obsoletas, formatos que resumiam conhecimentos gerais mal compilados ou alguns romances que pareciam ter sido escritos em outro século. Aquele típico conteúdo que a maioria dos sebos recusaria de receber mesmo se fosse doação. As raras exceções eu fiz questão de pinçar e preservar.

A televisão, naquela época, era puro entretenimento barato, feito pra ocupar o tempo e encantar adultos e crianças com a chegada das telas coloridas. Jornalismo, muitas vezes, era tão informal e desnecessário quanto é hoje em dia na maioria das mídias ou até mais. Internet não existia e revistas e jornais impressos eram, quase sempre, usados pra forrar o chão contra urina de cachorro e embrulhar objetos na mudança. Assim, olhar pra realidade lá fora era a mesma coisa que ver a Lua e deduzir que ela era pequena o suficiente pra caber na palma da mão. Tínhamos a percepção equivocada de que tudo era simples como pareciam para nossas cabeças desinformadas. Ter crescido curioso foi uma combinação de fatores improváveis. Neste sentido, posso me considerar a pessoa destoante na família. Enquanto descartavam a cultura e informação como se fossem puro lixo, eu tentava preservar e absorver aquilo que encontrava de novo, que me parecesse mais complexo, ter mais camadas de realidade ou significado.

Por uma imensa sorte do acaso, eu cheguei a ter condições de comprar alguns livros pra ampliar minha realidade nos assuntos que eu me sentia mais envolvido. Adorava ler e escrever, mas se eu levasse um caderno de anotações pra viagem em família, isso se tornava um ponto negativo aos olhos dos outros, em especial o meu pai. Na cabeça de quem tem o espírito amargo e a cabeça vazia, raciocinar era quase um crime. Como esperar que desse cenário de ignorâncias geradas e incentivadas, pudesse nascer qualquer melhoria nas condições de vida, na percepção da realidade? Fica óbvio perceber que essas pessoas replicavam um padrão de ignorância e distanciamento da informação, de geração pra geração. Sair desse redemoinho destrutivo me exigiu curiosidade nata acima da média, um esforço gigantesco para me conectar com pessoas e conteúdos que pudessem me tirar da ignorância e a minha constante ajuda à mim mesmo em favorecer esses momentos através de, por exemplo, conversas com professores, contato com pessoa de bairros vizinhos, filtro sistemático dos conteúdos da televisão e aumento da prioridade de se pagar internet, por mais lenta e rudimentar que fosse. Também não foram poucas as vezes que tive que abarrotar meus colegas com perguntas sobre tudo o que eles já sabiam mais que eu sobre determinado assunto.

Muito do que eu conheci começou, literalmente, a partir de verbetes no dicionário e, então, buscando quaisquer referências sobre aquilo em qualquer lugar. Às vezes eu simplesmente lia a enciclopédia saltando de um verbete pra outro, conforme os assuntos que eram apresentados durante o texto. Se não haveria ninguém pra me incentivar a conhecer mais da realidade, eu teria que fazer isso por mim mesmo. Mas, ainda hoje, eu não sei dizer qual foi o fator propulsor dessa vontade e conduta. Eu poderia ter me acomodado na ignorância ao mesmo modo que outras tantas pessoas ao meu redor, mas algum fator, que ainda me é desconhecido, me levou à um desfecho diferente. Pra não cair na mesmas deduções rasas que eu evito, eu preciso olhar pra isso e tentar ver mais de perto. De longe, a primeira impressão sugere alguma característica especial nata, mas o que é que encontramos depois disso? Ainda não tive a oportunidade de me aprofundar nessas questões, mas conheço diversos outros casos em que as pessoas destoam da tendência de seus meios de convívio, dos padrões estabelecidos na família, na escola, na sociedade, no trabalho, etc. Sei, claro, que pessoas são diversas, mas nem sempre sei o que gera cada característica e contexto de um indivíduo sob essa tal diversidade.

Quanto mais eu aprendia sobre diversos temas, mais eu percebia que precisava entender melhor da composição das sociedades, das famílias, das relações, da psicologia por trás de tudo isso, das questões políticas, da História e, talvez, principalmente da própria antropologia, da biologia e de tudo que pudesse explicar a constituição do ser humano. Qualquer oportunidade que eu tinha de viajar, mesmo que fosse pra uma cidade ao lado, eu aproveitava cada segundo. Pra mim, observar a realidade era a principal ferramenta que me permitiria raciocinar à fundo aqueles temas, mastigando novos livros, novos blogs, novos artigos na internet. Visitei muitos sebos, aprendi idiomas, assisti muitos filmes. A internet me salvou, por muito tempo, da falta de esperança. Eu achava que, com o suporte dela, eu entenderia boa parte do mundo, incluindo os livros que poderia comprar a partir dela. Visitei livrarias e tive até a possibilidade peculiar de conhecer donos de editora e autores dos mais variados segmentos e estilos literários. Mas, nada disso me deu o que eu realmente precisava. Faltava nessa equação algo que me desse firmeza naquilo que eu aprendia. Eu que sempre fui autodidata, sinto muito orgulho de ter aprendido tanta coisa sem depender dos sistemas de ensino que eu tanto criticava. Pra mim, o distanciamento da escola e da faculdade, era visto como algo saudável. Porém, era conveniente para meus objetivos na vida, que eu os aturasse pra poder concluir formalmente essas etapas e ser diplomado. Terminei a escola e fiz faculdade, mas me decepcionei muito com a quantidade de tempo investido com pessoas que, infelizmente, nem sempre sabiam o que estavam fazendo ali. Algumas figuras, ganhando rios de dinheiro, chegaram a replicar inverdades baratas enquanto “ensinavam”. Isso só reforçou o meu desapreço por esse sistema de ensino, o modelo social que empurrava gananciosos ignorantes para cargos de professor ou mesmo para a execução dessas profissões todas em outros ambientes.

Por tudo isso que citei, fica fácil ver que o entendimento de qualquer assunto não esbarra só na falta de acesso aos livros ou à escolas e universidades. Em muitos dos casos, mesmo depois de percorrer esse imenso labirinto que, apesar de falho ainda é um privilégio, chegamos tropeçando na verdade. Como é que vamos aprender sobre o mundo, se nem os “profissionais” dedicados às suas especialidades, conseguem nos entregar, pelo menos, a verdade? Temos, então, que aprender a aprender. Temos que filtrar quem é que tem um ensino decente, um respaldo sincero de conhecimento, de intelectualidade, um aprofundamento técnico sobre o assunto e os detalhes em questão. Depois do bacharelado nas universidades, as pessoas podem seguir inúmeros outros níveis de especialização até que possam dominar com mais firmeza uma pequeníssima fatia do conhecimento. Enquanto o generalista entende superficialmente sobre tudo, o especialista usa do conhecimento abrangente como plataforma de salto para dentro de um detalhe. Só assim é que se consegue absorver a complexidade de determinada coisa.

Quando iniciei meus estudos de Fotografia lá pelos 20 anos de idade, eu já tinha contato com diversas outras artes e áreas de comunicação como a escrita, a pintura à óleo, a música (piano, teclado e órgão), mas nunca havia me sentido tão conectado com algo como foi com a Fotografia. Ela se tornou extensão de mim e por quase 20 anos eu desenvolvi essa atividade. Da mesma forma que o acesso à literatura foi escasso na minha infância, a Fotografia me parecia uma realidade de outro mundo, quando eu comecei. E de fato, ainda hoje, percebo que existe uma escassez de demanda por ela em toda a sociedade e que essa escassez foi reforçada com a chegada da internet. Assim como os programas de televisão e noticiários eram rasos e pouco profissionais, a Fotografia, nos últimos 10 anos, pelo menos, se transformou, magicamente, naquilo que ela não é: registro de imagens. E dizer isso para uma sociedade que está convicta da “verdade” que só é verdade na cabeça delas, é a mesma situação de tentar mostrar que a Lua, mesmo parecendo pequena, não cabe na palma da mão. Esse contraste entre a percepção superficial e o real conhecimento de algo é algo que gera um atrito social que desgasta demais as pessoas envolvidas. Se por um lado o leigo que acredita ter a verdade se sente incomodado com a crítica, por outro lado há quem domine o assunto e se sente incomodado com a destruição da verdade, de uma profissão, de uma possibilidade de existência e atuação.

Imagine você, por exemplo, que, da noite pro dia, começassem a propagar a ideia de que livros são simplesmente pesos de porta e nada mais. Imediatamente veríamos escritores e professores revoltados, tal como se tivessem dito para um astrônomo que a Lua não passava de um pequeno objeto menor que a palma da mão. Vivemos numa era de ignorância e, pior do que isso, numa era em que se incentivam as ignorâncias. Embora pareça cômico e exagerado as analogias feitas, na vida real, no cotidiano, em diversos outros assuntos as pessoas agem de igual maneira, tirando conclusões absurdas sobre algo que elas não entendem de fato. E pra onde caminhamos com a predominância dessa cultura? Vamos para um obscurantismo cada vez maior, perdendo qualquer chance de dignidade humana, pois onde o conhecimento é desmerecido em detrimento do avanço da ignorância, o mundo se torna não só mais raso, como mais incompetente para resolver todos os pequenos problemas pessoais ou coletivos. Esse é exatamente o cenário que fomenta mais pobreza, mais doença, mais miséria, mais estelionato, mais preconceito, mais golpe, mais violência, mais desesperança, mais guerra e mais desconfiança. A idade das trevas não levou esse nome por acaso. Hoje vivemos um obscurantismo talvez ainda pior, se considerarmos o ano em que estamos e os supostos avanços tecnológicos e sociais. Se tudo que temos em ferramenta não for utilizado para nos tornar pessoas melhores, mais livres e mais cultas, de nada terá servido. É por meio da lapidação do indivíduo que conseguimos remar na direção contrária do obscurantismo. Quando cada um de nós se recusa, individualmente, a endossar o retrocesso, formamos um coletivo que trabalha numa mesma direção. É esse coletivo que nos garante, apesar das diferenças, chegarmos em alguns consensos em benefício de todos nós.

A complexidade da vida passa, com toda certeza, pela complexidade do indivíduo. Enxergamos somente até onde nossa visão alcança. A complexidade das coisas muda conforme mergulhamos mais à fundo nelas. O indivíduo raso pode ver a vida como algo simples, mas aquele que se presta a ser um pouco mais curioso e estudado, logo descobre que nada na vida é tão simples como parece. As pessoas dedicam anos e mais anos de muito estudo, vivência e testes em todo tipo de área do conhecimento, incluindo o conhecimento do próprio ser humano, da mente, da Psicologia, da Educação, da Sociologia, etc. Um mundo que pretende ser mais fácil de ser vivido precisa, antes de tudo, priorizar que o maior número possível de pessoas sejam alfabetizadas e, mais do que isso, que aprendam a ter pensamento crítico e curiosidade por todas as coisas. Quando isso estiver arraigado dentro de cada ser, aí teremos uma sociedade vitoriosa que fará questão de eliminar a fome, a pobreza, as injustiças sociais, enquanto avança com eficiência no desenvolvimento tecnológico e cultural. Uma sociedade só se torna realmente emancipada, quando ela intenciona a qualidade de vida de seus membros, à começar pelos direitos mais essenciais de acesso à sobrevivência digna, o conhecimento e uma perspectiva de futuro.

Muitos dos que me leem aqui, provavelmente já sabem que eu tenho histórico de depressão. Tenho essa condição há muito tempo, mas, felizmente, estou tendo uma fase boa nas últimas semanas. Ter esse contato com a depressão por tanto tempo me fez perceber o quanto ela me privou da esperança por dias melhores. Então, uma sociedade que priva as pessoas dessa esperança, está, basicamente, causando um dano similar ao da depressão. Mergulhar pessoas num cenário onde elas sintam que não possuem mais espaço nessa sociedade ou nessa vida, é uma maneira de matá-las de dentro pra fora. Mesmo quando eu tenho picos de melhora da minha condição, eu sei que o mundo continua igual na maioria dos países. A crise social, política, ética e humana é proposital na realidade de quem exerce suas psicopatias para extrair lucro fácil e imediato de pessoas exploradas em situação precária de vida, sem sentirem o menor remorso por isso. Nada disso deveria ser novidade pra qualquer pessoa hoje em dia. Porém, na prática, há pessoas qua ainda insistem em abraçar seus próprios algozes porque, infelizmente, elas também gostariam de estar nesses postos se assim pudessem. Como disse Paulo Freire, “Quando a Educação não é libertadora, a vontade do oprimido é de ser opressor.”.

Aquele que não tentar desviar da agenda de idiotização das sociedades e desgovernos, estará fadado a viver em uma realidade potencializada para a destruição, para a infelicidade, para a dor, a violência, a indignidade, a falta de esperança, a extinção de qualquer fagulha de conhecimento que possam salvá-los das mazelas e dos acasos. Sociedades altamente evoluídas já se formaram no nosso mundo e, não foi preciso muito tempo pra que elas se degradassem e sumissem do mapa. Cazuza cantava “eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um museu de grandes novidades”. Assim tem sido a humanidade com suas eras de destruição e ignorância tentando se reconectar com tecnologias e conhecimentos que já foram extirpados. Haverá um tempo em que as pessoas descobrirão novamente a Fotografia, o Jornalismo, a Política, e diversos outras áreas do conhecimento que hoje parecem tão artificiais e imprestáveis, que, talvez, nem devessem mais carregar os mesmos nomes originais. Na maioria dos países, as sociedades se tornaram qualquer coisa, no pior sentido do termo. A pessoas não só ses mostram racistas, fascistas e golpistas, como chegam a falar abertamente sobre tudo isso com profundo orgulho. Essas pessoas se tornaram aquilo que o mundo fez delas, ao deixá-las apodrecer na mais profunda miséria ética e intelectual. Ninguém que tenha estudado o mínimo sobre a realidade do mundo, aceitaria se deturpar de forma tão imunda, para extrair benefícios tão ilusórios. Só mesmo a psicopatia aliada ao apodrecimento da alma e do intelecto, podem explicar os rumos que o mundo tem tomado todo dia.

A pequena ponta do enorme iceberg que vemos já cheira podre o suficiente para odiarmos todo o resto. E quando pudermos observar a magnitude da origem de todo esse iceberg, nos especializaremos nas inúmeras questões imundas que são compostas das pessoas e ideias mais abjetas possíveis. Não existe beleza depois de certa profundidade na merda. É só falta de perspectiva, sufocamento, nojo e revolta. Esse caminho terá que ser percorrido em algum momento, pois como ele foi ignorado por tantos séculos ou até milênios, acumulou-se o suficiente pra que a maior parte dele se tornasse completamente intocada e desconhecida, mas que, pela ponta em que estamos vivendo hoje, sabemos que é nossa origem e que, por isso mesmo, precisaremos aprender tudo sobre ela se quisermos ter alguma chance de desvendar a complexidade da humanidade, da vida, do momento presente e nossas reais alternativas para o futuro. Ignorar esse nosso desconhecimento sobre o mundo só nos coloca em posição ainda pior, dando tiros cada vez maiores em nossos próprios pés. Ou você faz o necessário pra ajudar a si mesmo, ou estará eternamente lutando contra a maré e fracassando dia após dia, ano após ano, geração após geração. Qual é o presente e o futuro que você quer construir? A resposta pode ser tão simples quanto dizer ‘melhor’ ou ‘pior’, pois seja lá quais forem as ferramentas escolhidas para isso, a ignorância e a falta de aprofundamento no conhecimento jamais darão a solução pretendida. Ou você é do time que acredita equivocadamente que a Lua cabe na palma da sua mão ou você é do time curioso que se propõem a estudar além das primeiras impressões.

Veja, eu não estou dizendo o que é que você tem que estudar ou qual caminho ou sistema de ensino deve escolher. Estou apenas dizendo que você precisa se aprofundar no conhecimento de algo, ao invés de fingir que sabe e se contentar com isso. Na pior das hipóteses, se você não quiser dedicar sua vida ao estudo, você pode, pelo menos, dar espaço para quem faz isso, apoiando alunos, professores e profissionais que dedicam tempo nos assuntos com seriedade. Dar esse espaço significa que você, pelo menos, está favorável ao conhecimento e a melhora do mundo. Basta que você não seja uma pedra no caminho e já estará ajudando muito.

E, lembre-se: embora nem todo conhecimento seja adquirido exclusivamente em escolas e universidades, é sempre necessário que se tenha embasamento, experiência de vida em torno desse tema, contato prático que vá além das teorias e, o mais importante de tudo, uma curiosidade verdadeira que te faça questionar as próprias informações obtidas, pra não cair no terrível beco das informações obsoletas, desatualizadas ou que já foram desmentidas ou ampliadas. Não se contente com a superfície de nada. Muito do que nos ensinaram no colégio sobre História, por exemplo, é completamente defasado e cheio de inverdades. Pode parecer estranho, mas a verdade é que, como diz o ditado popular, “o papel aceita qualquer coisa”. Por isso, mais importante do que apenas ler o que está escrito nele é ter senso crítico e as ferramentas que lhe permitam contestar ou confirmar o que ali foi dito. Quando professores, especialistas ou profissionais trazem uma informação para o seu mundo, a função dele deve incluir a de ensinar a aprender. De nada adianta replicar frases prontas como um papagaio, se não possui pensamento autônomo e crítico por trás disso. Só quem está realmente comprometido com a verdade fará o esforço devido pra ensinar outras pessoas a conhecer e manusear corretamente as ferramentas que nos permitem averiguar e avançar nas informações.

Embora eu tenha um importante conhecimento de Fotografia, eu nem mesmo me senti apto a lecionar, pois percebi rapidamente o quão distante eu estava do necessário. Lecionar envolvia muito mais do que apenas entender de Fotografia. Por mais organizado que eu fosse, exemplificando questões técnicas com analogias, eu não dominava a arte de ser professor, de lidar com o buraco que havia no ensino prévio das pessoas que tentaram ter aulas comigo. Eu simplesmente vi, por experiência própria, que aquilo não funcionaria. Foi assim que parei de lecionar, fiz as pazes com a frustração de não ter conseguido levar a Fotografia pra mais pessoas e, desde então, tento ocupar a minha mente em produzir, primeiramente, pra minha satisfação pessoal e, se sobrar tempo e surgir alguém que realmente tenha aptidão pra entender a complexidade da Fotografia, aí, talvez, dividiremos alguma troca de informações sobre o assunto. Dizem que o conhecimento não serve de nada se não for utilizado para melhorar a vida das pessoas e concordo com isso. Se, por um lado, não posso gerar novos fotógrafos para o mundo, vou gerar, pelo menos, muitas novas fotografias. Vou exercer aquilo que eu conheço e gosto e tentar cativar as pessoas a redescobrirem o mundo, as diversas realidades, com pensamento crítico, com curiosidade, com apreço pela verdade. Essa talvez seja a única maneira, ao meu alcance, de transformar meu conhecimento em melhoria na vida da humanidade. É algo que eu sempre fiz desde o início na Fotografia, na Pintura e na Literatura, mas, provavelmente, não terei o necessário pra levar outras formas de melhoria para o mundo. Venho aprendendo mais todo dia e incentivando outras pessoas que fazem aquilo que eu não faço ou que fazem o mesmo que eu de forma igual ou melhor.

É preciso dar vazão para o conhecimento, o aprofundamento, a especialidade, de diversas outras pessoas, para que o quebra-cabeça se torne cada vez mais completo. O conhecimento é infinito, mas tudo que que puder ser dominado em benefício da humanidade, deverá ser apoiado, feito e replicado. Eu entro com a Fotografia, outro entra com a Astronomia, alguém contribui na História, na Medicina, na Pesquisa, na Educação, na Sociologia e assim por diante. Cada um dá aquilo que tem de melhor para construção do mundo. Essa noite eu tive um sonho onde me sentava no fundo de um ônibus quase lotado. Alguém havia dito uma asneira e logo começaram a pipocar comentários de pessoas concordando e apoiando, enquanto a maioria dos passageiros ignoravam calados. Eu, então, saturei de ouvir todas aquelas mentiras e comecei a despejar críticas raivosas de lá do fundo. Seria esse sonho um desabafo da consciência pelo momento absurdo que estamos vivendo no Brasil e no mundo? É possível que seja isso. Talvez, sem conectar uma coisa com a outra de forma consciente, eu cheguei em um tema semelhante pra esse texto. Agora, relembrando do sonho, vejo como tem sido oportuno ter um espaço pra escrever e ser lido, mesmo que isso seja relativamente pequeno. Se esse pingo de informação e reflexão puder chegar em, pelo menos, mais uma pessoa, já será válido o esforço. Mas é preciso que chegue não só nos olhos, porque ler não é só passar os olhos pelas letras. Também não basta que sejam entendidas as palavras e as frases, pois ler também não é tão simples quanto isso. Ler, de verdade, é ter capacidade de compreender o que está por trás daquelas palavras escritas ou ditas. E isso tem sido raro ultimamente. As pessoas juram de pé junto que leram os textos e mensagens, mas, na prática, ainda estão como aquele coitado observador que ergue a mão pro céu na direção da Lua e chega à conclusão equivocada que já entendeu o suficiente sobre tudo que seus olhos viram.

Confesso estar bastante cansado e com pressa de sair dos mesmos cenários em que estou, pois essa parece ser minha única chance de experimentar qualquer coisa nova e promissora pro meu eu do futuro. Eu quero voltar a fotografar, voltar a sorrir, voltar a sonhar, voltar a explorar o mundo, tentar sentir novamente o amor, aprender mais das mesmas áreas e, talvez, começar em uma área nova do conhecimento. Eu quero me sentir vivo novamente e isso só será possível quando eu tiver a liberdade de acessar todo esse conteúdo e avanço que a maioria dos países nos privam desde muito cedo, com muita força, de muitas maneiras. Quero sentir novamente, o gosto de poder descobrir prazer pelas coisas, sabendo que, se for necessário, posso estar perto de mais ferramentas, mais livros, mais tecnologia, mais conhecimento, mais experiência de vida, própria e alheia. A depressão já me parou muitas vezes, mas eu tenho que aproveitar qualquer momento de trégua para sabotá-la e percorrer um pouco mais de vida, de prazer e de emoção. Todos nós queremos viver e nos sentirmos com, pelo menos, um mínimo de paz e segurança. Por isso, faço tudo que está ao meu alcance para transformar o cenário desfavorável em uma oportunidade criativa e contra a tendência de obscurantismo. Os exploradores não nos querem ver vencer, então temos que partir dessa premissa e desviar do senso comum, do óbvio, da mesmice, do conformismo, da ignorância e da passividade, para construirmos nossa saída pra mundos maiores, melhores e mais livres. Ou você caminha em direção à dignidade ou será prensado por um sistema que te oprime e te emburrece até o ponto em que você se torna aliado fanático do malefício ao invés de resistência. A escolha está na mão de cada um, considerando as diferenças de realidades e oportunidades. Eu fiz a minha escolha, dentro do que estava ao alcance do meu contexto e cabe aos outros fazerem as escolhas que puderem e decidirem fazer.

Rodrigo Meyer – Author

O que é ser interessante?

A imagem que ilustra esse texto é baseada numa fotografia de Roman Koval marcada como livre para utilização segundo os filtros de pesquisa de imagem do Google.

É comum ouvirmos as pessoas dizerem que tal pessoa é interessante, mas é preciso esclarecer que ser interessante ou desinteressante depende completamente dos critérios pessoais de cada indivíduo. Quando alguém acha uma pessoa interessante, significa simplesmente que essa pessoa tem características que suscitam interesse nesse alguém. É uma conexão entre uma demanda e uma oferta, por assim dizer.

Ser interessante pode ser o jeito com que a pessoa fala, o tipo de visão que a pessoa tem, os hábitos, o estilo de vida ou mesmo a aparência. É impossível listar todas as possibilidades que tornam alguém interessante para cada indivíduo, pois o ser humano é essencialmente diverso. As pessoas podem se interessar por detalhes que nem imaginamos que sejam uma questão para alguém. E mesmo se simplificarmos tudo em grandes clichês, já é suficientemente divergente o que cada pessoa prioriza nas relações com outras pessoas, o que as cativa, os que lhes chama atenção.

Quem ainda utiliza a internet na intenção de encontrar fórmulas milagrosas, respostas fáceis e verdades absolutas, está na contramão do mínimo necessário pra compreender a vida, burlar os problemas que surgem e progredir à caminho dos seus objetivos, sejam eles quais forem. Assim, descrever o que significa ser alguém interessante, nunca passará por aqueles artigos de revista para o público pré-adolescente. Essas fantasias ditadas pra gente inexperiente com a vida, servem apenas pra colocar um cabresto num determinado público e induzir que a realidade seja aquilo que ela, na verdade, nunca foi, não é e nunca será, exceto numa camada superficial, posada, artificial, insatisfeita e feita “pra inglês ver”.

A realidade prática da vida está em se conhecer. Quem não se conhece não tem a oportunidade de descobrir o que é que lhe interessa, o que lhe agrada, o que lhe incomoda, o que lhe suscita curiosidade, ou qualquer outro fator. É natural que em uma fase inicial da vida, sejamos todos inexperientes e estejamos descobrindo bem lentamente quem somos e o que o mundo possui à nossa disposição. A vida é feita de experiências. É preciso provar um pouco da diversidade que existe pelo mundo, pra saber o que cada pessoa, lugar ou contexto, lhe causa. E pra que isso seja realmente eficiente, nunca podemos nos acomodar dentro de bolhas. Já nascemos em uma determinada bolha familiar com modelos predefinidos de socialização, de afeto, de ordem, de liberdade, além das questões de âmbito financeiro, espiritual e as inúmeras nuances de questões psicológicas menores ou maiores que entrelaçam cada uma dessas áreas da vida. Isso sem falar das demais bolhas, dentro do nosso círculo de amigos, os colegas de escola, colegas de trabalho, a nossa classe social, o modelo médio de nossa sociedade e país e toda a conjuntura da época vivida. Quebrar essas bolhas todas, exige ter uma postura de navegação livre entre lugares, pessoas, temas, ideias, ideologias, modos de se experimentar o dia, o trabalho, a família, os relacionamentos todos e a nossa relação interna com nós mesmos.

Me lembro sempre do músico João Gordo, da banda Ratos de Porão comentar o quanto a cabeça dele mudou quando ele e os demais membros da banda tiveram a grata oportunidade de se apresentarem em outros países. Diz ele que conforme foi conhecendo novas culturas e pessoas, a cabeça foi se abrindo pra além daquele espaço inicial de convívio e pensamento que eram as cenas alternativas de São Paulo ou arredores. E é compreensível esse tipo de relato, pois o choque de culturas nos obriga a comparar os dois mundos e ver o que temos e o que não temos, o que sabemos e o que não sabemos, o que nos parece normal ou anormal, enquanto pra outros pode ser bem diferente. Esse tipo de contraste obriga a refletir com mais rapidez sobre a limitação da nossa visão ou do nosso pensamento em relação à alguns temas. Trocar experiências com outras sociedades pode ser um meio brusco de aprender sobre a unidade humana no meio da diversidade, mas nem sempre temos essa oportunidade. Para muita gente a vida é restrita à própria cidade e, às vezes, apenas ao próprio bairro. Então, um modo de aprendizado que serve à todos os tipos de pessoas, independente de quão longe elas possam ir ou onde possam estar, é se permitir observar e ouvir.

Aquele que não consegue olhar pro outro com alguma curiosidade, com atenção e com a mente aberta, pouco ou nada vai absorver do conteúdo dessa pessoa. Olhar para um rótulo, um corpo, uma fachada ou uma camada superficial da personalidade ou da vida de alguém nunca é suficiente pra entender porque as coisas são como são e nem o que existe de bom e de ruim no labirinto que cada pessoa é. Se quiser descobrir quão interessante uma pessoa pode ser, é preciso, obviamente, conhecê-la primeiro. E isso não acontece da noite pro dia. Leva tempo entender o que leva uma pessoa à fumar, à beber, à ler os livros que lê, a morar onde mora, à falar como fala, à escrever sobre os temas que escreve e à desejar os objetivos que deseja. Nada é tão simples quanto ter um dicionário pra definir pessoas, coisas, lugares, ideias, ideologias e condutas. O ser humano é único o suficiente pra requerer anos de convívio até conseguir sentir e ver aquilo que o outro sente e vê. Mas, mesmo que demore, é preciso fazer, é preciso, pelo menos, tentar.

Algumas pessoas podem ter a necessidade de se sentirem interessantes diante dos demais. É compreensível que se queira ser percebido como alguém que valha a pena conhecer, que se queira ser desejado ou querido pelas pessoas, mas é preciso entender que ninguém nunca vai ser interessante pra todas as pessoas. Não existe como agradar à todo mundo e nem mesmo é possível agradar muitas pessoas com o mesmo impacto ou pelos mesmos motivos. Mesmo quando uma persona é lida por uma multidão de pessoas como alguém interessante, isso pode se dar por inúmeros motivos diferentes pra cada um dos indivíduos nessa multidão. Então, não fique tentando encontrar uma maneira ideal de ser pra que consiga agradar o maior número possível de pessoas. Isso é o erro mais primário que se pode cometer na hora de viver em busca da satisfação pessoal. Você se sentirá pleno quando descobrir que pode ser interessante à sua maneira natural, pelas coisas que é ou faz de forma espontânea. Quando alguém te apreciar, a conexão estará traçada sem a necessidade de nenhuma ficção criada, nenhum marketing falso, nenhuma pose ou fachada para enganar. Apenas não prometa ser aquilo que você não é e vá construindo o seu mundo no seu ritmo. Pessoas mudam e quem vive de fachada parece sempre estar preso num padrão, porque só pessoas de verdade evoluem conforme o tempo e a situação.

A pessoa que eu sou hoje, por exemplo, já não é mais a pessoa que eu fui há 15 ou 20 anos atrás e nem a que fui nos últimos 5 anos. De fato, mudei de realidade inúmeras outras vezes, mas as mudanças são tão graduais que se tornam imperceptíveis. Quando comparamos grandes blocos de tempo é que percebemos que o começo da escada é muito distante do topo, enquanto é difícil distinguir os degraus que estão lado a lado. Então, a resposta sobre o que seria ser interessante, habita dentro de cada ser. Mas, claro, ninguém precisa se conformar com a realidade que tem hoje e parar no tempo. Não é porque você já é interessante pra alguma pessoa no mundo que sua missão de vida se encerrou. Seu papel é justamente lapidar à você mesmo, primeiro pra si mesmo e depois, pra sociedade em que você vive, na qual você vai deixar algum legado entre seus amigos, seus professores, seus colegas, seus familiares, suas companhias ou até mesmo alguma marca significativa na História pela sua atuação política, social ou vinda do seu trabalho.

É importante, também, que você se sinta interessante pra você mesmo. Não que deva ficar se contemplando como um narcisista, mas é preciso que se sinta satisfeito com aquilo que pensa, aquilo que faz, o modo de vida que leva, etc. Deve ter orgulho da pessoa que você está sendo ou está construindo. Se você tem orgulho da sua honestidade, das coisas que estuda, dos temas pelos quais você tem curiosidade, entre outras coisas, é sinal de que você está sendo interessante pra você mesmo. Muito provavelmente, você vai encontrar pessoas que se identificam com essas suas realidades e temáticas e o interesse poderá ser mútuo. No entanto, é muito comum, também, que pessoas diferentes tenham interesse umas nas outras, justamente pelo componente desconhecido, pela novidade, pela possibilidade de aprender algo que elas talvez não tenham tido grande contato antes. É assim, por exemplo, quando as pessoas conhecem conteúdos ou pessoas de outros países e ficam interessadas de conhecer mais detalhes. Se relacionar com uma pessoa de um país diferente é uma boa oportunidade de se manter uma pessoa aberta, que caminha e se transforma todo dia. Talvez isso lhe torne interessante pra muito mais pessoas do que simplesmente se resumir em um cenário menor.

Por isso, se tiver oportunidade, assista vídeos de outros lugares, leia livros de autores de outros países, converse com pessoas das quais não tem muito contato, procure novos sites na internet pra não ficar ancorado nas mesmas redes sociais, descubra filmes antigos ou fora dos destaques recomendados nas principais mídias. Vá atrás de conhecer a literatura marginal, os artistas de rua, os autores independentes, os artistas do underground, as ideologias que destoam do seu país, outros sistemas de ensino, outros cursos, outros modos de se comunicar, diferentes traços de desenho, outros idiomas, outras portas, outros prédios. Percorra a cidade atrás de lugares menores, se jogue pra dentro de mais casas, vá conhecer como vivem outras pessoas, o que elas comem, o que fazem pra se divertir, onde elas gostam de dançar, as receitas incomuns de bebidas, outros perfumes, outros modelos de relacionamento, outros sentimentos, outras manias e outras memórias, antes que elas sejam esquecidas.

Um dos motivos pelos quais eu escrevo é pra deixar um registro da minha trajetória, das coisas que eu vi, aprendi, me importei, lapidei ou nunca entendi. Escrevo pra contar para as pessoas do hoje ou de um possível longínquo amanhã, que há muito mais pra se fazer da vida do que apenas deixar ela acontecer. Você precisa ir atrás das coisas, para que as coisas possam se mostrar pra você, pra que você possa arregalar os olhos para as coisas completamente novas e aprender a ser uma pessoa melhor, maior, mais criativa, mais reflexiva, mais curiosa, mais apaixonada pelas possibilidades. É só pra isso que estamos nesse mundo. Não vamos sobreviver, na melhor das hipóteses, mais do que uns 130 anos, sendo a média da expectativa de vida, a metade disso. Então, não perca tempo enxugando gelo ou tentando parecer aquilo que você não é. Não perca tempo dando ouvido pra quem não te respeita e nem sonhe em se desgastar com mazelas que são perfeitamente evitáveis. Apenas viva o seu dia explorando as possibilidades e pense o quanto é bom poder falar sozinho, conversar com os seus próprios pensamentos e rir de suas bobagens, inventar frases, piadas, ideias descabidas, planejar um conteúdo novo, guardar um lembrete para uma conversa que você gostaria de ter com alguém sobre algum assunto específico, descobrir um jeito improvável de fazer um artesanato ou simplesmente abrir um canal de vídeo pra tentar fazer uma receita culinária. Dê vazão pra sua vida ser interessante, seja lá o que ‘interessante’ signifique pra você.

Ser interessante, no final da contas, é se deixar acontecer, ser você, exercitar ao máximo o seu potencial na vida, à tua maneira muito própria, muito característica, sem cair no vício ou no conforto de achar que precisa ser sempre a mesma coisa pro resto da vida. Pessoas mudam e, felizmente, a vida também muda pra gente.

Rodrigo Meyer – Author

Nem tudo é comércio.

A imagem que ilustra esse texto é uma arte feita a partir de uma fotografia que, por sua vez, foi marcada como livre pra utilização, segundo os filtros de pesquisa de imagem do Google.

Grande parte do mundo enfrenta uma significativa proximidade com a pobreza, ficando em uma busca constante por oportunidades e melhores condições. É natural que as pessoas estejam interessadas em trabalhos e fontes de rendas que sejam uma janela aberta para a solução de suas necessidades. A maioria das sociedades enfrenta uma desigualdade social gigante, o que dificulta o acesso à todo tipo de bens e serviços, incluso o acesso à cultura, ao lazer, a educação, etc. Como resultado disso a internet se tornou, assim que foi possível, num aglomerado de usuários disputando espaços de lucratividade.

Em princípio, imaginarmos a internet como estrutura, pode parecer algo muito positivo, cheio de oportunidades de comunicação onde as pessoas teriam, teoricamente, um mesmo nível de acesso à todas as informações, jogos, notícias, meios de troca de mensagens e tudo o mais que pudesse ser imaginado e adaptado pro formato digital. Se inicialmente éramos apenas leitores de grandes portais de notícias, com o tempo pudemos criar nossos próprios sites. De espectadores de áudio e vídeo nos tornamos criadores desses conteúdos. Era tudo pelo entretenimento. Pagávamos a internet para usufruir desse prazer de nos divertirmos no final do dia.

Mas, se todos nós queríamos passar tempo absorvendo esses conteúdos online, então estava gerada a demanda pra que tudo isso virasse um produto à ser oferecido. Apenas os banners de propagandas já não eram mais suficientes para quem entrava nesse modelo de negócio. As assinaturas de conteúdos especiais ou de acesso à sites pagos vinham se tornando a opção de muita gente ganhar dinheiro com a internet. Mas, para se criar um site dessa complexidade, exigia um grande investimento que o usuário comum não podia fazer. Levou tempo até que as pessoas migrassem da internet discada para o padrão atual. As velocidades foram crescendo de tempos em tempos e isso permitiu fenômenos como, por exemplo, assistir vídeos longos no Youtube ou fazer upload de fotografias em boa qualidade, programas de rádio e muito mais.

Passar tanto tempo assim produzindo e editando todos esses conteúdos se tornou uma atividade desgastante buscando por alguma recompensa. As pessoas podiam ganhar alguma visibilidade, se viralizassem algum conteúdo, mas, claramente, a recompensa financeira se tornou a principal meta, já que esse tipo de atividade era tão trabalhosa quanto qualquer outro trabalho convencional. A princípio as pessoas tentaram se manter por meio do comércio paralelo. Se tinham, por exemplo, um blog ou canal de vídeos, a fonte de renda pra essa criação de conteúdo seria um outro trabalho vinculando a mídia à algum pequeno comércio. Há bons anos que isso já ultrapassou até mesmo os modelos de comércio offline. Hoje em dia, vender na internet é tão natural que o incomum mesmo é o comércio físico pela cidade.

Mas, existe um problema nessa história toda. Assim como na vida offline, não é possível que toda a sociedade se torne comerciante, pois outras funções são necessárias. O que a internet faz é passar a impressão de que qualquer um que tenha acesso à internet tenha a oportunidade de se tornar mais uma pessoa à lucrar com ela. Se antes, na era onde a televisão predominava, as pessoas não costumavam sonhar em participar dos conteúdos da televisão, com a internet elas se sentiram aproximadas, de igual pra igual, com todos os demais criadores de conteúdo, comerciantes, celebridades e afins. Até mesmo a política tomou outros rumos por conta da internet e das redes sociais. Nos imaginamos parte dessa sociedade digital, apenas por termos acesso às plataformas de criação e interação. Mas, será que somos todos criadores?

Quando o Youtube nos mostrou os primeiros famosos a pagarem suas contas estritamente com os lucros obtidos na plataforma, toda a sociedade desejou fazer parte dessa realidade também. Era a promessa aparente de que, se alguém conseguiu, todos poderiam conseguir. Mas, muitos usuários não se aperceberam que, assim como na vida offline, a sociedade é sempre marcada por contrastes. Em especial pelo capitalismo, não existe forma de que, nesse sistema, todas as pessoas alcancem o mesmo sucesso, justamente porque o sucesso de uma minoria é conseguido pelo aproveitamento de uma massa de outras pessoas que estarão lá pra consumir e elevar aquelas minorias, enquanto todo o resto permanece invisível ou com baixíssima visibilidade. A ideia de que há espaço pra todos na internet é um mito. Eu adoraria, de verdade, que isso fosse real. Mas isso é tão inexistente quanto a meritocracia dentro ou fora da internet. Acreditar que basta nos esforçarmos pra alcançar nosso lugar ao sol é desconsiderar todo um sistema que é construído pra funcionar de maneira completamente diferente.

Quem realmente ganha muito dinheiro com a internet são as próprias plataformas que lucram com o conteúdo criado pelo usuário até mesmo quando nem ele mesmo ainda pode lucrar. Plataformas como o Youtube, por exemplo, veiculam anúncios em vídeos de canais que ainda não cumpriram os pré-requisitos para serem monetizados. Além disso, quando finalmente começam a monetizar, grande parte desse dinheiro fica com a própria plataforma, deixando o usuário apenas com uma parte do lucro obtido por seu trabalho. Exatamente como ocorre fora da internet, tudo que produzimos é a base de todo o lucro para as empresas, mas o valor devido aos verdadeiros trabalhadores é infinitamente menor e desproporcional. O trabalhador tudo produz, mas não tem direito pleno aos frutos do próprio trabalho, simplesmente porque uma minoria já muito rica, domina os meios de produção (as plataformas, no caso) e mantém o trabalhador mais próximo de ser um mero usuário sem poder de compra ou decisão, do que um verdadeiro trabalhador que domina os rumos do seu próprio trabalho.

Uma vez ciente de tudo isso, podemos agora refletir sobre a terrível tendência que assola o mundo digital. As pessoas se apercebem dessa miséria e desemprego tanto fora quanto dentro da internet e, muitas vezes, passam anos trabalhando de graça, enriquecendo outras pessoas, na esperança de que um dia elas tenham a sorte ou o milagre de serem amplamente reconhecidas diante do grande público. Embora isso seja sim uma possibilidade, ela não é o padrão, mas a exceção. A maioria das pessoas não chegarão aos mesmos patamares de fama e lucratividade, por mais que elas se esforcem pra isso. Simplesmente a equação não fecha. Não existe como cada uma das mais de 7 Bilhões de pessoas do mundo consumirem, sozinhas, 7 Bilhões de conteúdos diários, semanais ou mensais, para que todas elas recebam os lucros advindo das propagandas visualizadas ou das formas derivadas de comércios dessas mídias. É exatamente por isso que existem muito poucos canais na televisão aberta e muito poucos canais de sucesso na internet. É natural que algumas mídias se tornem icônicas e mais famosas que outras, conforme uma série de contextos. Quem conquistou um espaço de destaque na rede e fez algum dinheiro com isso, teve mais tempo e dinheiro pra investir na própria mídia e a cada vez que se tornava mais famoso com um grande número de espectadores, mais recebia atenção e patrocínio de anunciantes interessados em pegar carona nessa fama.

Um anunciante que pretenda tornar seu produto ou serviço visto e desejado por milhões de pessoas, vai escolher justamente as mídias que já alcançaram essa rara fama e vão se manter sempre em torno dos mesmos nomes, conforme a posição no ranking de público. É pura questão de comércio e lucro entre os grandes. Quanto aos pequenos, aos anônimos e aos invisíveis, é dada a ilusão de que podem tentar. E como tentam. Tentam todo dia. Passam a vida desviando de coisas mais concretas, à espera de uma mudança repentina no futuro. Não quero menosprezar o talento e o esforço de ninguém, mas é matematicamente certo de que não haverá vitória pra todos nesse tipo de sistema. E, o que vejo, infelizmente, é muita gente se apercebendo disso, porém tomando decisões pouco sensatas para desviar desse problema. As pessoa começam produzindo um certo conteúdo e quando descobrem que aquilo não dá os frutos pretendidos, começam a apelar para um comércio desenfreado. Vende-se tudo que possa ser desejado e precificado. Vendem os cliques, os comentários, as oportunidades de parceria numa live, a indicação de um simples link para outro artista, músico ou pintor. É tudo sempre uma relação comercial, nunca uma interação sincera e espontânea.

A internet se tornou completamente artificial. Mediante pagamento, as pessoas dizem o que você quiser ouvir, mostram o que você quiser ver e fingem apoiar aquilo que surgir. Se um livro é horrível, pagando algum dinheiro, pode-se ter alguém falando bem dele. Se sua arte é monótona, anuncie ela em uma mídia especializada e o dinheiro fará a mágica. Tudo está à venda e tudo se torna corrompível. Nada mais é verdadeiro e tudo é um imenso jogo de interesses. Onde tem gente buscando fama, tem gente atendendo essa demanda em troca de dinheiro.

Você sabe, a vida prática nesses contextos é o velho teste do sofá. Alguém oferece o que o outro quer e o caminho pro sucesso fica aberto, independente da capacidade real dos indivíduos. Uma lista interminável de celebridades são puramente um investimento de marketing. Assim como as chamadas boy-bands, inúmeras celebridades não eram de verdade, mas apenas um mero produto criado para render lucro em uma fórmula predefinida. Alguns “músicos” chegaram a ser meramente dublês fotográficos e de palco para canções criadas nos bastidores e encenadas com playback nos clipes e shows. Espero que eu não esteja trazendo nenhuma novidade aqui, ao falar dessas realidades. Na internet, as coisas não são muito diferentes. Você pode acreditar que certos conteúdos são famosos por puro mérito, mas a verdade é que a maioria deles recebe um alto investimento por trás, simplesmente pra torná-los visíveis ao grande público. Seja por interesses políticos ou estritamente comerciais, a fama na internet é muito mais dependente do dinheiro prévio do que da sorte de agradar um público repentinamente.

Já disse, não existe milagre que feche a equação. Não há como conhecermos todos os artistas do mundo, nem se dedicássemos uma vida inteira à consumir conteúdos na internet. Figuras específicas são eleitas, patrocinadas, compradas, moldadas e potencializadas para chegar onde os demais não chegam. Há interesses midiáticos, políticos e financeiros por trás de cada um dos raros milionários da internet. Você pode até admirar o conteúdo que eles fazem ou a pessoa que eles são (ou parecem ser), mas, é exatamente por isso que essas mídias são escolhidas para serem o elo de ligação entre as empresas e o grande público que inclui você. Você pode não se importar com as marcas, com as propagandas ou com os políticos, mas todos eles se importam com o que podem obter de você. De forma consciente ou inconsciente, todo mundo está sendo induzido a pensar algum modelo de pensamento, a ter algum tipo de posicionamento, a comprar um determinado produto e assim por diante.

Quando você pensa em plataforma de vídeos, tenho certeza de que você lembra do Youtube e nunca se questionou porque não existe outra grande opção nesse mundo. Querendo ou não, a marca está consolidada na sua memória e no seu emocional. Você aprende a depender da plataforma e a enxergar a plataforma de um jeito que não faz (e nem pretende) com qualquer outra que não seja a tal. É isso que o investimento faz. Quando o Youtube nasceu, ele não pertencia à Google. Logo o projeto ganhou atenção do público e onde há consumidores, há grandes empresas de olho. A Google comprou o Youtube assim que percebeu o potencial da plataforma e assumiu um bom período de prejuízo, simplesmente porque sabia que o que ela lucraria depois, seria infinitamente mais. E hoje, ela dita quem pode ou não pode lucrar com a criação dos vídeos, simplesmente editando, de tempos em tempos, as regras e diretrizes da plataforma, pra impor cada vez metas maiores de inscritos e tempo de visualização, para garantir que apenas projetos realmente promissores que parecem estar conquistando muitos espectadores, possam se tornar uma mídia em que haja interesse de viabilizar. O lucro nunca chegará aos pequenos, mas somente aos que parecem ter algo grandioso que conecte multidões à marcas e políticos.

Para a maioria de nós que sequer tem qualquer noção sobre o funcionamento dessa intrincada “fórmula mágica” de conquistar o grande público, o que nos resta é tentarmos ser coerentes com nossas próprias ideias e usar a ferramenta pseudo-gratuita da internet para promover mudança de pensamento em outras pessoas, mesmo que seja um trabalho de formiga. A internet não é e não deve ser um espaço de mero comércio. Tem potencial pra ser muito mais que isso, pra quem quiser assumir esse compromisso. Você está aqui, me lendo de graça, em troca de absolutamente nada, simplesmente porque, talvez, se interesse pelo que te digo, pelos assuntos que eu exploro, pelas reflexões que eu faço pra minha própria vida. Estamos aqui, dividindo nosso tempo, sem nenhuma pretensão inicial de que isso seja lucrativo ou moldado pra se adequar à qualquer fórmula mágica de fama, lucro ou algo do tipo. É apenas eu escrevendo o que penso, ciente de que, como milhões de outros usuários, provavelmente, nunca viverei da renda ou fama que esse conteúdo possa, eventualmente, me gerar no futuro.

Posso te dizer com tranquilidade de que eu escrevo por aqui há 3 anos e nunca recebi um único centavo com isso, mas mesmo assim gastei muito dinheiro do próprio bolso pra continuar conectado à internet e com um computador ativo. O mundo de coisas que a gente escreve também é baseada nos livros que compramos, nos filmes pagos que assistimos, nos sites da internet que só visitamos graças ao pagamento do boleto mensal do provedor de internet. Nada disso é de graça. Pagamos muito por tudo isso. Somos, antes de tudo, usuários consumidores e, com alguma sorte (ou um investimento profundo), nos tornaremos criadores de conteúdo. Mas, não temos que ficar à espera disso, porque quem cria expectativas, sempre se frustra quando não acontece o que esperava. O melhor que podemos fazer na internet e em toda a vida, é vivermos o momento com sinceridade, cutucar e ampliar nossa própria personalidade, descobrir um mundo ao nosso redor e evitar que nossa vida se torne um incessante trabalho, principalmente se esse trabalho não lhe for remunerado e você ainda tiver que desembolsar uma grande quantia pra se ver conectado, tentando, esperando e, talvez, não vendo nada disso acontecer.

Apesar de tudo isso que eu escrevi, não significa que não podemos apoiar e compartilhar os conteúdos daqueles que gostamos. Há pessoas incríveis na internet, produzindo informação, cultura e entretenimento, por vezes à troco de nada e outras vezes por meio de financiamento coletivo. Hoje em dia com as ferramentas de pagamento para projetos, diversas mídias e pessoas captam colaborações de seu próprio público, pra que continuem a fazer o que elas fazem. Essa é uma maneira interessante de incentivar e tornar possível ou mais viável que pessoas pequenas, sem muita fama ou completamente invisíveis, possam ser reconhecidas. É muito mais realista que muita gente doe um pequeno valor que não interfere em nada no final do mês, mas que quando somado por todos os que apoiam, geram algo expressivo para a pessoa apoiada. Essa equação sim faz sentido, é possível e totalmente recomendável. Ajude as pessoas e projetos que você gosta. E isso nem precisa ser uma ajuda financeira. O simples fato de você se engajar por uma mídia, comentando, absorvendo, compartilhando e recomendando, às vezes vale muito mais que qualquer quantia. Nem tudo na vida é comércio. Muitas pessoas querem apenas serem ouvidas pra levarem uma mensagem adiante, tentar promover alguma mudança no mundo ou se sentirem mais leves socializando e se entretendo com as possibilidades.

Rodrigo Meyer – Author

Quem não admite a própria ignorância, está se sabotando.

Não existe contexto nenhum que torne uma pessoa detentora de todos os conhecimentos. A vida tem informações infinitas que podem ser parcialmente descobertas por quem se empenhar em conhecer. Em um primeiro momento, pode parecer tentador para algumas pessoas abrirem mão do conhecimento concreto e se munirem de uma camada forjada de saber baseada meramente em senso comum e dedução rápida. Mas, conhecimento não se trata do que acreditamos, nem do que achamos que sabemos por alguma força milagrosa, um dom ou coisa similar. Conhecimento é resultado de uma busca por ele, de maneira que ele se prove coerente, correto, verdadeiro, embasado, etc. Por isso, quando fingimos saber de determinado assunto sem ter o real conhecimento dele, não estamos admitindo nossa própria ignorância. Estamos negando ela para nós mesmos e/ou para os outros. Quem tem essa postura, normalmente acredita que está se beneficiando dessa fachada que aparenta conhecimento, acreditando que vai ter melhor desempenho diante da vida, diante das pessoas. Mas, a verdade é que, na prática, essa pessoa está se sabotando, pois quando ela não admite sua própria ignorância sobre algo, ela já se sente detentora de um conhecimento que não tem e, por isso mesmo, não dá espaço pra que esse conhecimento seja aprendido. É como se você tivesse uma lista de compras pra fazer, mas antes de comprar os itens, marcasse como ‘comprado’ em todos os itens da lista. Acabará apenas com uma ilusão de que os itens foram comprados, mas continuará sem os itens. Pode até sentir prazer pela ideia de que “comprou” todos os itens da lista, mas na verdade não os comprou e encerrou a tarefa de comprá-los. Chegará em casa, o armário e a geladeira estarão vazios e sua lista forjada não servirá pra se alimentar, nem servirá à qualquer outra pessoa. Em resumo, não existe como uma ficção ter o mesmo efeito da verdade. Ela só tem algum efeito, temporariamente, na mente de quem acredita nela. E a realidade da sociedade e da vida não depende das crenças de um indivíduo.

Se quiser realmente causar um impacto em si mesmo e em outras pessoas, com os benefícios do conhecimento, terá que adquiri-lo de verdade em algum momento. Não importa, a princípio, o grau de conhecimento que você obtenha, desde que seja sincero, verdadeiro. Se você se interessa, por exemplo, por Astronomia, mas não é um profundo conhecedor do assunto, você pode começar pela base, aprendendo as definições básicas, a composição do Sistema Solar, o nome dos planetas, alguns princípios sobre gravidade, órbita, tamanho, etc. Saber, por exemplo, quantos planetas temos no nosso Sistema Solar pode ser um conhecimento pequeno perto de outros assuntos astronômicos, mas já é um conhecimento se for obtido de maneira real, com base em dados científicos e não em deduções. E você poderá divulgar esse conhecimento com orgulho, porque não há nada nele que lhe desabone. Algumas pessoas podem se sentir complexadas, com um certo sentimento de vergonha por saberem tão pouco perto da vastidão e complexidade do conhecimento que outras pessoas possuem sobre determinado assunto. É compreensível isso, mas também denota que você tem visão crítica e admiração pelo conhecimento mais aprofundado de quem se empenhou em uma área de estudo. E saber que não sabe tanto quanto especialistas, faz de você uma pessoa com mais conhecimento que muitas outras também. Quanto mais aprendemos, mais sabemos o quanto ainda não sabemos. E todas as pessoas, em algum assunto e grau, passam pela mesma situação, pois o conhecimento é infinito e ninguém nunca terá absorvido ele por completo, por mais especializado que seja.

Assim, quando admitidos finalmente que não temos todo esse conhecimento, deixamos um espaço em aberto para aprender algo novo. Deixamos uma lista de metas, sonhos e conquistas à ser cumprida. Tenha certeza absoluta de que todo especialista em algum determinado assunto, começou do zero, como todo mundo. Ninguém acordou um belo dia tendo domínio sobre um assunto. As pessoas seguiram o percurso natural do conhecimento, ingerindo os conceitos mais simples em seus primeiros contatos, seja na infância ou em qualquer fase da vida, seja na escola, na família, na comunidade do bairro, entre os amigos, na internet ou onde for. Basta ter a preocupação de absorver um conteúdo verdadeiro e, então, crescerá até onde puder e quiser. Se você tem a oportunidade de frequentar um grupo de estudos, uma escola, um curso técnico, uma oficina ou uma mídia na internet, tire proveito desse privilégio, pois o Brasil é um país onde, atualmente, metade da população não possui acesso à internet e os que possuem, muitas vezes, enfrentam limitações de acesso à sites, tendo apenas o contato com aplicativos de mensagens ou redes sociais, o que já restringe muito a oportunidade de aprender um assunto de forma confiável. E se você ainda não se sente confortável ou curioso o suficiente pra ir atrás de conhecimento, já será de grande valia pra sociedade e pra você mesmo, se você não se sabotar com uma aparência falsa de ter, ser ou saber aquilo que não tem, não é e não sabe. Tenha de exemplo a vergonha que foi a exposição de várias figuras públicas do atual desgoverno brasileiro, com currículos completamente fraudados, inventando cargos e formações que nunca tiveram, na esperança de se sentirem maiores do que realmente são. No fim, tornaram-se menores ainda do que já eram. Fingir que sabe é mais vergonhoso do que simplesmente não saber.

Encare tudo isso como de fato é: uma opinião sincera de quem gostaria de ver o mundo melhor, com pessoas mais felizes, com uma redução dos absurdos índices de suicídio, redução das taxas de evasão escolar, eliminação do desemprego e dos subempregos, com maior qualidade de vida, engajamento político e social para tornar realidade uma mudança em benefício direto da população para a própria população. Se valeu de algo tudo que eu disse até aqui, procure mais sobre ‘poder popular’ e entenda como isso tem tudo a ver com dar o protagonismo na sociedade para os que realmente são e sempre serão os verdadeiros protagonistas em qualquer lugar do mundo, em qualquer setor ou situação. A população deve ser sempre a origem e o destino de tudo, afinal vivemos em sociedade para que o coletivo se beneficie do que o grupo consegue organizar para melhorar o bem-estar de todos os indivíduos. Pense fora da caixa, pense fora do individualismo, do egoísmo e desse modelo político de hierarquia onde uns poucos comandam os rumos de uma imensa população, quase sempre sem carregar a verdade com eles. Comece a pensar na inversão dessa estrutura, onde o poder popular é que toma a frente da situação como origem e objetivo de todo benefício. Pense nisso. Não estou aqui pra dizer o que você deve pensar, mas pra te fazer pensar. Seja uma pessoa curiosa e encontre o seu próprio caminho, suas conexões, seus assuntos, seus interesses. E se achar pelo meio dessa jornada pessoas que tem algo pra acrescentar de verdadeiro, terá a oportunidade de ver que não está sozinho e tem alguém à quem se inspirar pra ser melhor, pra aprender mais, pra ser mais.

Rodrigo Meyer – Author

O sol é para todos?

A imagem que ilustra esse texto faz menção ao girassol, uma planta que se tornou símbolo da campanha para alertar sobre a depressão. O simbolismo do girassol na conscientização sobre a depressão faz uma alusão à busca por luz, característica marcante do girassol, adaptada de modo figurativo, embora haja até uma relação literal entre o tratamento da depressão e a exposição do indivíduo aos raios solares.

Segundo dados da OMS, 322 Milhões de pessoas no mundo sofrem com depressão, seguido de um alerta sobre o aumento progressivo de casos no planeta. No Brasil esses dados são de, pelo menos, 11,5 Milhões de pessoas na depressão, além de 18,6 Milhões de pessoas em distúrbios relacionados à ansiedade. Esses números já são imensos e é fácil prever que eles provavelmente são muito maiores, já que a coleta de dados é difícil pela própria circunstância da doença.

Dados do Ministério da Saúde do Brasil, do final de Maio de 2019, demonstraram um aumento de 12% no risco de suicídio na população jovem negra, enquanto o índice se manteve estável entre brancos. O índice de suicídio entre adolescentes e jovens negros é 45% maior do que entre brancos, reforçando a condição social e psicológica a que essas pessoas são submetidas na cultura estruturalmente racista do Brasil.

De volta aos dados da OMS (Organização Mundial da Saúde), em 2019 estipulou-se que a cada 40 segundos ocorre um suicídio no mundo. A cada parágrafo que você está lendo, uma pessoa está se matando. Não há como achar isso banal ou pouco e é inevitável perceber que é sintomático de uma realidade que adoenta massivamente as pessoas, por diversos contextos e gatilhos. O suicídio, embora muito associado à pessoas com depressão, nem sempre é fruto dessa condição. Um número muito maior é o de pessoas com distúrbios de ansiedade, sendo que ao redor desses dois cenários há incontáveis situações menos conhecidas que também podem gerar um desfecho em suicídio, como, por exemplo, uma tentativa de se livrar de uma doença incômoda ou mesmo da dificuldade em aceitar uma realidade injusta imposta.

O suicídio pode ser visualizado em situações diversas como no desemprego, na doença, na solidão (em especial os idosos), em vítimas de abuso sexual, em cenários de guerra, em crises políticas e na perda de esperança diante do avanço desregrado das condições de vida. De forma resumida, o suicídio acaba sendo como a busca de solução para questões que aparentemente estão inaceitáveis. Quando o mundo não vale mais a pena, a vida começa a ser questionada. E quando viver não traz mais prazer, a dor se acumula até que não se aguente mais senti-la. Morrer, para muitas pessoas, é o encerramento de um sofrimento ou de uma condição indigna. Para muitos outros, o tema ainda é um enorme tabu, motivo pelo qual muitas pessoas sofrem, de certa forma conformadas, como quem tenta desviar da morte por não achá-la aceitável. Em todo caso, cedendo ou não à morte, é fato que grande parte das pessoas está remoendo problemas e dores. É difícil saber quanto tempo as pessoas aceitam ou aguentam sofrer, já que para cada pessoa o peso dos problemas e sua resistência são combinações que variam imensamente.

Nos Estados Unidos a taxa de suicídio bate recorde já em 2017, chegando ao maior patamar desde a Segunda Guerra. Enquanto em 1999 os dados mostravam que a cada 100 pessoas, 10,5 se matavam, em 2017 esse número sobe pra 14 suicídios a cada 100 pessoas.

De forma geral, as taxas de suicídio caíram na maior parte do mundo, porém o Brasil, sem surpreender, teve aumento ao invés de redução, conforme notícia de Abril de 2019. Além disso foi estimado que, depois dos 13 anos, meninos tem 3 vezes mais chance de cometer suicídio do que meninas. Apesar dessa tendência, há por trás desses dados o fato de que mulheres fazem muito mais tentativas de suicídio, porém atingindo menos êxito que os homens, em razão do modo mais agressivo e letal que os suicídios masculinos são tentados, incluindo enforcamento e arma de fogo, por exemplo. Para as mulheres as maneiras mais comuns de suicídio incluem pesticidas, drogas e saltos de lugares altos.

Observa-se que suicidas masculinos são mais impulsivos e agressivos, geralmente, enquanto suicidas femininos costumam buscar ajuda mais cedo e com mais frequência.

Esses são dados críticos de uma sociedade que não parece estar caminhando minimamente onde se espera. Por mais que o mundo sempre tivesse problemas, a proporção de tragédias sociais e políticas acumulando ao longo da História acaba por somar uma percepção triste e desesperançosa pelos rumos da vida da humanidade em geral. Dados apontam que crises econômicas e políticas possuem influência no aumento de suicídios, assim como as políticas que facilitam o acesso à armas de fogo. No Brasil, conforme dados destacados anteriormente, as taxas de suicídio seguem aumentando, contrariando uma tendência de muitos outros países. Isso se dá por inúmeros fatores, em especial o contraste da realidade dessas populações e os rumos políticos desastrosos. Tal problema pode ser medido por notícias como a do suicídio do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que foi denunciado sem provas por um crime que não cometeu, cercado de arbitrariedades e teatralismos patéticos de um desgoverno corrupto que tomou o Brasil de assalto, promovendo guerra à universidades, professores e alunos, combatendo Ciência, Cultura e a dignidade humana com discursos ultrajantes, perseguições políticas, muito ódio e nenhuma aceitação social. Diante de tal miséria política e humana, é compreensível o aumento do suicídio no Brasil.

Há muito que pode e precisa ser feito em apoio à essas situação, porém quero alertar as pessoas que lidam pessoalmente com a depressão ou que possuem amigos ou parentes nesse contexto que jamais, em hipótese alguma, entrem em contato com canais de comunicação como o CVV – Centro de Valorização da Vida, que, infelizmente, figura como uma péssima opção de atendimento, tendo relatos desastrosos por parte do público “atendido”, incluindo assédio, abusos, negligência, deboche, descaso, colocando em risco a vida de pessoas em situação de emergência. São inúmeros os casos relatados de suicidas que tentaram contato com o CVV e tiveram de ouvir o telefone ser colocado de volta ao gancho. Esse tipo de conduta é totalmente inaceitável, imprudente e eu diria até que é criminosa, uma vez que trata-se de um canal exclusivo para lidar com pessoas que estão sensibilizadas por depressão ou ansiedade e quem possuem grande probabilidade de cometer suicídio. Colocar uma pessoa que é avessa à causa, que não se interessa de fato pela vida das pessoas que são atendidas é o mesmo que condenar diversas dessas pessoas à um suicídio que poderia ter sido evitado se fosse lidado de maneira ética, lícita e humana.

Setembro é o mês de conscientização sobre as questões da depressão, cuja campanha é nomeada de ‘Setembro Amarelo’. Mas, não consigo, infelizmente, recomendar esse termo, simplesmente porque é uma iniciativa atrelada ao CVV. Outro ponto que pesa nesse sentido é o fato de que a ferramenta de prevenção ao suicídio oferecida pela rede social Facebook consiste basicamente em instruções que direcionam o usuário para uma tela final de contato para o CVV, o que é lamentável. Ninguém precisa passar pela roleta russa de contactar uma instituição que se intitula como Centro de Valorização da Vida e que, na prática, não valoriza a vida de seus atendidos, muitas vezes sendo a própria razão de suicídios ou uma contribuição fatal como a “gota d’água” para pessoas que estão em situação de desespero e recorrem ao contato do CVV como um último esforço de sobrevivência. Em todo e qualquer lugar que eu for eu seguirei não recomendando e alertando as pessoas para igualmente não recomendarem isso em hipótese alguma. Sendo o CVV uma organização não governamental (ONG), é preocupante saber que estão se valendo de voluntários para um desserviço tão grande em um tema tão importante. É sinistro imaginar qual seria a intenção de voluntários que se aliam ao CVV e que, na prática, figuram como causa de suicídios. Seria algum incentivo financeiro a razão por trás desse nicho? Em um país onde a depressão só cresce, seria possível imaginar pessoas tentando se valer da popularidade do tema e das vítimas da depressão e ansiedade para angariarem algum recurso financeiro ou vantagem. E se imaginarmos que o motivo não é financeiro, torna-se ainda mais sinistro, deixando margem pra interpretarmos que seja o puro sadismo em ver gente sofrer e morrer. Precisamos ficar atentos e desviar daquilo que não se presta como uma ajuda sincera.

Do outro lado, bem longe dessa catástrofe, deixo recomendações universais para lidar com a depressão:

A exposição do corpo ao sol é uma recomendação médica e psiquiátrica recorrente e básica, em razão do efeito que gera no organismo pela proliferação de Vitamina D, um componente conhecido no trato da depressão. Além disso, é preciso buscar apoio entre as pessoas de sua confiança, sejam amigos, parceiros, familiares, professores, colegas de trabalho, etc. Também é importante buscar a ajuda de um profissional da área médica, seja ele um clínico geral, um psiquiatra ou até mesmo profissionais do campo da Psicologia ou terapeutas. É preciso lidar com o problema e caso não sinta disposição pra buscar essas ajudas sozinho, é importante aceitar a ajuda externa de quem possa te encaminhar, acompanhar e incentivar você nessas ações.

Outros pontos que são básicos no assunto é a mudança de rotina e a atividade física. Embora pareça apenas simbólico para alguns, a atividade física dispara diversas químicas no organismo que são responsáveis pela sensação de prazer. Isso ajuda muito a colocar o indivíduo em uma condição favorável pra que ele consiga concretizar outros passos para sua recuperação. Em alguns casos o psiquiatra poderá recomendar medicações que deverão ser seguidas respeitando as doses e os prazos e, caso ache necessário, solicite uma revisão do seu medicamento junto ao profissional, para que, eventualmente, haja uma mudança da composição, da dose ou da frequência. Em alguns casos a suspensão do medicamento poderá ser recomendada ou aceita pelo profissional, mas é importante que o indivíduo não tente fazer automedicação.

Para pessoas que fazem uso de álcool ou outras drogas, é importante dividir essa realidade e personalizar o atendimento, o diagnóstico e o tratamento, fugindo de medidas como os fraudulentos centros de recuperação de dependentes químicos mantidos por quadrilhas que exploram a família dos dependentes colocando os pacientes em situações degradantes, trabalho escravo, violência física e psicológica, transformando os espaços em verdadeiras prisões de sadismo e enriquecimento ilícito.

À parte de todas essas decisões práticas de tratamento, procure preencher sua vida com objetivos e ideais para mover-se em direção à algo que você considere um parâmetro, um destino idealizado ou melhor, tal como o girassol que se move para acompanhar e absorver a luz do sol. Encontre algo a que se apegar que lhe seja positivo e viável. De repente isso pode ser o aprendizado de um instrumento musical, cantar músicas, escrever, desenhar, caminhar, contemplar a natureza, adotar um animal para companhia, visitar pessoas necessitadas para que você possa ser útil à elas, aprender um novo assunto ou se encorajar a tornar-se melhor em algo por meio de um hobby, profissão ou desafio. Faça algo que lhe instigue a perseguir um momento à frente, um ideal, e isso te manterá ativo. Quanto mais ativo você estiver, mais fácil será de conquistar espaços e descobrir novos contextos pra sua vida.

Se você é naturalmente uma pessoa solitária e que, nem por isso, sofre de solidão, tudo bem permanecer em seu mundo, assim como também será bom quando decidir cortar esse padrão ir ir buscar socialização. Se você é uma pessoa que normalmente prefere a companhia, procure equilibrar isso, filtrando bons momentos e lugares que possam somar na sua vida e te trazer memórias boas dali pra frente. Sorrir diante das coisas, seja do silêncio ou de um show de música, pode ser uma ponte para outros grandes passos. Eu não tenho as respostas para as questões da depressão e ansiedade e, até onde sei, nada disso tem cura. Todo tratamento vinculado a esses contextos é algo que deve ser feito com a certeza de que não há garantias de que as coisas não possam decair ou de que você não volte a ter crises e intervalos até maiores de depressão ou ansiedade. Infelizmente, sabe-se que uma vez que se tenha tido depressão, você corre o risco de ter recaídas. Não se pode prever quando e quão intensas elas ocorrerão, mas você poderá aproveitar tudo que sabe sobre o assunto pra desviar delas e buscar ajuda pra tentar se reerguer. Eu espero que todos os meus outros conteúdos possam contribuir de alguma forma para apontar ideias e mudanças e que você possa resolver e superar seus problemas, seja lá quais forem.

Rodrigo Meyer – Author

Um alerta de Esquerda pra Esquerda.

Durante esses tempos de disputa política, em especial após as Eleições de 2018-2019, acompanhamos o aumento do caos, devido aos imensos escândalos de corrupção, fakenews (notícias falsas), casos de ódio, disseminação de crimes de todo tipo e uma manifestação torta e desregrada pela internet. Esse cenário já é bem conhecido por ambos os lados dessa disputa polarizada que se tornou o Brasil nos últimos anos, mas algo tem me incomodado de forma igual ou até maior. Estou me referindo a certa ingenuidade por parte de diversas mídias e grupos da Esquerda que, embora desejem atuar como resistência, estão, ao meu ver, um tanto despreparados para entender o real motivo da ascensão do fascismo no Brasil e no mundo e o motivo pelo qual parte da população brasileira atrelada ao desgoverno do quadrilheiro Bolsonazi ainda permanece em apoio à ele, apesar de todos os crimes vinculados.

Sempre que vejo uma mídia decepcionada com o desgoverno do Brasil de 2019, predomina por lá um discurso de que os absurdos que a quadrilha de Bolsonazi tem manifestado são fruto de uma crença do próprio Bolsonazi e seus aliados em teorias da conspiração. Citam, por exemplo, que essa turma de fascistas se posicionam contra as coisas por acreditarem em ideias como terraplanismo, nazismo de esquerda, marxismo cultural, ideologia de gênero entre outras asneiras (infelizmente a lista é imensa demais pra citar num artigo só). Temos que deixar claro algumas coisas sobre isso:

Primeiramente, esses vagabundos que tomaram de assalto o Brasil não possuem crença alguma em coisa nenhuma. São céticos a tudo e todos e tudo que os importa é poder, violência, racismo, machismo, homofobia, corrupção e a perpetuação da ignorância no Brasil e no mundo para que se torne cada vez mais fácil manipular e explorar as pessoas enfraquecidas por essa ignorância. Porém, pra que possam fazer essa conexão entre a figura de poder deles e a massa de manobra na população, eles precisam se valer de ícones na linguagem da comunicação que evidenciem uma direção, uma ideologia e uma cultura, facilitando pra que, consciente e inconscientemente, as pessoas se sintam representadas e compreendam aquilo que lhes é proposto como figura e ideia de poder.

Por exemplo, quando a extrema-direita discursa insinuando que as escolas estão distribuindo a chamada “cartilha gay” ou “kit gay”, ela faz uso de duas mentiras (a mentira de que existe esse tal material e segundo de que a finalidade dele seria a de convencer pessoas a se tornarem homossexuais) para que a presença dessa ideia absurda em contato com pessoas com tendências preconceituosas, medos e muita ignorância as façam acreditar nessa lorota e, quase que automaticamente, se posicionarem em favor da extrema-direita e contra as figuras opostas (homossexuais, professores, grupos de direitos humanos, causas sociais, etc).

Uma vez que você tenha entendido esse exemplo da estrutura ou modus operandi da extrema-direita nos discursos criminosos e falsos que ela faz, basta estender isso pra todo e qualquer tema que eles lidam. Foi assim quando tentaram negar o aquecimento global, o incêndio na Amazônia, a própria corrupção no desgoverno da quadrilha, os crimes cometidos contra seus opositores políticos, o histórico criminoso e pouco punido da ditadura militar no Brasil, o machismo, o racismo, a homofobia, o ódio de classes, a xenofobia, a matança de indígenas, a destruição do meio-ambiente para favorecimento do agronegócio, o trabalho escravo, trabalho infantil, o tráfico de drogas, tráfico de armas, tráfico humano, o aumento do feminicídio, os vínculos criminosos da corporação militar nas polícias e exércitos, a corrupção e o desmantelamento das instituições do país como a Justiça, a censura nas mídias (comerciais, cinema, jornalismo, shows de música, etc), o assassinato de inimigos nas diversas esferas do poder, etc.

Poderíamos ficar dias listando aqui tudo que está vinculado às ações criminosas do desgoverno, porém seria mais eficiente listar o que não faz parte da lista. Pra simplificar, bastaria dizer que praticamente todo e qualquer assunto que chega ao conhecimento da extrema-direita e que não favorece a eles no objetivo de poder e controle das massas, eles geram uma narrativa absurda contrária para disseminar uma versão conveniente da realidade que, embora não acreditem, é super útil no objetivo de perpetuação da corrupção, poder e manipulação do público. Simples assim.

Chega desse papo de que eles estão indo longe demais nos absurdos por estarem convencidos dessas ideias e teorias da conspiração. Simplesmente não estão, mas é útil a eles discursar como se estivessem. Quando, por exemplo, eles sabem exatamente o que é Feminismo e sabem claramente que isso anula o projeto de machismo, combatendo o estupro, o abuso, as desigualdades entre gêneros, os privilégios de homens imbeciloides que se beneficiam de todo esse lixo, é claro que eles vão se opor pra perpetuar os benefícios e crimes a que eles são favoráveis. Não se espante, portanto, de ver que essas figuras estão atreladas a estupradores, feminicidas e outros tipos de escórias. Para fazer valer essa perpetuação criminosa eles vão usar artifícios clássicos como mentir sobre quem são e como agem as mulheres feministas, por exemplo, denegrindo sua imagem, forjando situações em que elas pareçam absurdas, exageradas ou equivocadas. Vão distorcer palavras, contextos e até mesmo dados técnicos de estatística, pra reforçar a ideia falsa que eles intencionam construir no discurso frente ao público deles.

Não se pode ser ingênuo de achar que isso é de fato a crença deles, menos ainda de que essa suposta crença é fruto de uma visão cega sobre a realidade. É extremamente o inverso. É por terem uma visão claríssima da realidade é que conseguem se posicionar contra a realidade, arquitetando discursos e contextos que os favoreçam em termos de corrupção, poder, crime, preconceitos, etc.

A pessoa que realmente tem interesse de aprender sobre um assunto para mudar seus pensamentos equivocados, ela simplesmente senta a bunda na cadeira e lê sobre o assunto insistentemente, até conseguir entender todos os pontos, questionando tudo e todos a todo momento. O sujeito que não tem muito interesse de questionar de tal maneira, certamente está acomodado no aprendizado pois é muito mais conveniente manter os próprios defeitos, sejam eles o racismo, a homofobia, a conivência com a violência gratuita, a criminalidade, a corrupção, etc.

Quais são as chances de você convencer um nazista de que xenofobia e racismo é algo absurdo, abominável e sem nenhum fundamento ou lógica? Zero. Você jamais vai convencer alguém desse meio a mudar essas posturas, exatamente porque essas posturas não são baseadas em lógica. É diferente de, por exemplo, tentar mostrar à um matemático que a equação dele está errada, demonstrando motivos matemáticos para o erro, justamente porque entre matemáticos, a lógica é desejada e é a base de toda a argumentação, tanto da pessoa que cometeu o erro quando da que vem pra apontar e corrigir o erro. Percebe?

Portanto, de nada adiantará você convencer um estuprador sobre feminismo, ou de convencer um racista sobre o combate ao racismo. Nenhuma figura que faz o que faz de forma consciente, sem empatia alguma, aceitará alguém que venha tentar mudá-lo, brecá-lo ou apontá-lo contra a parede. O termo “psicopata”, embora popularmente seja utilizado pra descrever um serial killer (matador em série), não se limita a isso. Um psicopata, basicamente é alguém que age de forma egoísta em seus próprios interesses, sem se importar com ninguém. É alguém que, por exemplo, vê as pessoas como algo totalmente irrelevante e sem valor diante da busca dele por um objetivo ou satisfação pessoal. Você encontrará facilmente essas pessoas em relacionamentos abusivos, em empresários, em pseudo-líderes religiosos, em políticos, juízes, bandidos fardados (alguns chamam de policiais), etc.

O indivíduo que não sente nenhuma culpa, remorso ou impulso de resistência diante do ato de prejudicar as pessoas é basicamente um psicopata. As pessoas só se tornam recuperáveis quando há a premissa de que podem desenvolver o arrependimento diante dos erros cometidos contra outras pessoas ou contra o mundo. Alguém que assiste crianças inocentes sendo assassinadas por bandidos fardados e consegue relativizar isso e falsamente sugerir que as vítimas não eram inocentes, basicamente é um psicopata, uma pessoa sem empatia alguma. O mesmo pode ser dito de quem assiste uma população negra ser dizimada e preterida na sociedade e não demonstra nenhum incômodo por esse crime e a disseminação disso em nível estrutural. A conivência nesses casos demonstra não a mera incompreensão da realidade, mas uma indiferença com as vítimas, uma falta de empatia e uma colaboração aberta ao erro.

Diferente dos psicopatas, em outro grupo de pessoas há os que cometem erros por uma série de contextos em que foram submetidas e é evidente que, como tudo na humanidade, flui em graus. Há pessoas que, por exemplo, aceitam roubar, mas não aceitam matar. Entre os que roubam, há quem o faça por falta de opção ou até mesmo por uma deformação do contexto. Nem sempre são pessoas que ignoram o valor do outro. Muitas das vezes são pessoas que só estão tentando situações extremas como instinto da própria sobrevivência. Se ético ou não é outra história. Mas é bem diferente você tratar pessoas que estão em uma situação por uma série de contextos que nem elas mesmas gostariam de estar, com pessoas que, sistematicamente e irrestritamente, estão e gostam de estar nessas condutas, principalmente as extremas, uma vez que, no caso de psicopatas, a falta de empatia também estabelece uma ausência de limites sobre até onde as pessoas podem errar contra os outros em benefício próprio.

Citemos, por exemplo, o caso do golpe na democracia do Brasil, onde pessoas claramente psicopatas tomaram o governo sem nenhum arrependimento de terem colocado milhões de brasileiros de volta à miséria e pobreza, de terem incentivado direta e indiretamente a matança e estupro de milhares de pessoas, como também de ter colocado tantas outras em situação deplorável de desemprego, doença sem suporte, corte de direitos básicos, falta de dignidade humana em diversos setores e assuntos, entre outras coisas. Quem faz uma ação nessa direção sem nenhum pudor, freio, incômodo ou arrependimento, está frio o suficiente pra ser tachado de psicopata. Relembremos, por exemplo, a desgraça que foi o nazismo na Alemanha resultando em uma atrocidade tamanha que jamais conseguiremos apagar o estigma gerado ao país. O nazismo virou sinônimo do que há de pior no mundo e a vergonha que uma nação carrega por ter se envolvido em apoio é um tema sensível a eles até hoje. Para o que acontece no Brasil de 2018-2019 com a trituração da Constituição Federal e da Democracia no país, as ações e narrativas problemáticas que, em certos pontos, geraram danos irreversíveis configuram um crime contra a humanidade em vários níveis. A sede por poder a qualquer custo, não levando em conta nada nem ninguém, é o que faz um desgoverno cheio de psicopatas encontrarem respaldo em um eleitorado totalmente vinculado pela cultura em torno dos mesmos crimes e discursos. Essa sim é a única e real doutrinação ideológica que vem sendo plantada e encontrando muitos frutos, uma vez que o terreno está fértil, como todo terreno cheio de esterco está.

Pra finalizar, eu gostaria de esclarecer que eu compreendo a intenção de diversas mídias da Esquerda em tentar elucidar o cenário político e social do Brasil e do mundo, mas estou olhando de forma racional em como essas mídias estão falhando na percepção precisa dos problemas ou na origem dos problemas. Sem que se saiba exatamente o que está ocorrendo, é difícil ou até impossível de combater o inimigo. Se observamos que fakenews (notícias falsas) estão sendo espalhadas pela Direita, o papel da esquerda precisa ser mais do que apenas lamentar ou tentar esclarecer os fatos de forma verdadeira. É preciso identificar qual a real intenção por trás de quem cria essas mentiras e cortar essa ingenuidade de que disseminam essas informações por mera crença e não por que sabem abertamente que é mentira mas vai servir ao propósito deles. Por isso, peço encarecidamente às mídias todas da Esquerda que saiam um pouco dessa ideia viciada de que o que falta é informação. Não falta informação alguma. Pelo contrário. Sobra informação e a Extrema-Direita tem até mais informação que a própria Esquerda, se observarmos que eles saem na frente na criação das fake news (notícias falsas) surpreendendo a todos da Esquerda com tamanho absurdo e pauta. Se a Esquerda é surpreendida com essas asneiras, é sinal de que os dados preexistem na análise e compreensão por parte da Direita e, mais do que isso, são rapidamente convertidos numa ação contra a Esquerda pra tentar frear, denegrir, mentir ou desmentir, ridicularizar, minimizar, ameaçar, anular, censurar, etc. Enquanto a Esquerda continuar no papel de achar que tudo não passa de falta de instrução, vai levar chapéu dia e noite com cada vez mais desgraças acontecendo na prática, uma vez que nem as mídias e iniciativas da Esquerda dão conta de expor o ponto fraco e a origem doentia e fraudulenta da Direita.

Menos ingenuidade e mais ações e mídias combativas, investigativas e que façam um importante serviço de esmiuçar o miolo do problema e não só debater e lamentar os efeitos da permanência da quadrilha de corruptos no mundo. O mundo está infestado de gente adoecida em diversos sentidos, mas como dizia Martin Luther King, ativista negro: “O que me incomoda não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”.

Rodrigo Meyer – Author

Permita-se recomeçar.

Ouço muita gente citar o tempo como desculpa para a inação. Alguns dizem ter pouco tempo no dia, outros dizem ter pouca vida pela frente devido a idade e outros dizem que ainda são jovens demais para tomar certas decisões. Em todos os casos, usam o tempo como pretexto para uma inação, para fugir de situações das quais possuem, geralmente, medo.

Quando alguém está em um cenário de insatisfação naquilo que está vivendo, é comum que a pessoa desanime e não veja opções de recomeço. Mas sabe, apesar de tudo, que recomeçar seria algo benéfico, já que apontaria para um caminho de concretização de um ideal ou de uma possibilidade diferente daquela em que se via antes. A barreira para esse recomeço costuma se instalar na mente de muitas pessoas, tornando-as procrastinadoras ou negligentes sobre suas próprias realidades.

Em conversas com algumas pessoas, sondei o quão interessadas elas estavam em adotar recomeços em suas vidas, seja profissionalmente, no campo dos estudos, nos relacionamentos, na vida social, na troca de país, na iniciativa de escrever um livro ou começar um canal no Youtube, aprender a cozinhar ou terminar de ler aqueles livros que elas listaram um dia e nunca mais entraran em contato. Por mais engajado que eu estivesse em mostrar a realidade de todas essas opções, foi notório a reação exacerbada das pessoas em claro sinal de resistência para tudo isso. Algumas pessoas se declaravam desinteressadas de certas mudanças, mas não diziam explicitamente que era por conta de medo. Talvez admitir medo fosse, para algumas, uma maneira intragável de se verem sem a liberdade necessária sobre si mesmas. O medo paralisa e coisas paradas não repercutem. A pessoa que deixa de viver por medo, sofre em silêncio e muitas vezes sem nem saber porque sofre.

Outras pessoas, ainda que interessadas pelas mudanças, sugeriam repetidamente que mudar era difícil, que exigia uma lista de requisitos das quais elas não dispunham. Colidiam com qualquer tentativa minha de demonstrar que esses requisitos eram lendas e que a realidade disponível para as mudanças estava bem acessível. Contudo, eu deixava claro que a maior e única barreira pra determinados casos de mudança era simplesmente o ‘querer’ de cada indivíduo. Não se pode convencer ninguém a mudar se ele não quiser. A mudança, para todo e qualquer cenário da vida começa, primeiro, dentro do próprio indivíduo. É a mudança de paradigma, de pensamento, de postura e de valores que vai determinar as possibilidades de mudança no lado exterior, nas questões práticas da vida.

A exemplo disso, ninguém se atreve a mudar de país, por exemplo, se tudo na mente da pessoa ainda aponta que essa ação é errada, incerta, perigosa, pouco vantajosa, difícil ou impossível, dispendiosa, para poucos ou com qualquer característica de barreira que se atribua. Não ocorre a ação, se a mente não está minimamente alinhada com essa realidade hipotética. É natural que as pessoas tenham dúvidas sobre o dia de amanhã, sobre seus potenciais e sobre questões técnicas acerca daquilo que pretendem mudar, mas isso não é o mesmo que ter medo, insegurança ou desistência. Quando não sabemos nada sobre mudança de hábitos, por exemplo, procuramos a informação, antes de afirmar que é possível ou impossível, fácil ou difícil, interessante ou dispensável. Talvez algumas pessoas não saibam as opções existentes sobre novos modelos de trabalho, sobre como exercitar o corpo, como trocar de sistema operacional no computador, como abrir um comércio, como aprender um idioma, como adquirir o hábito da leitura ou como cozinhar com pouco dinheiro. Talvez não tenham a maior parte das informações que serão necessárias para a mudança em suas vidas, mas é exatamente por isso que a mudança é sinônimo de algo novo, de um passo em direção ao recomeço, ao aprendizado, à experiência, ao futuro, ao desenvolvimento, ao momento em que se olha para algo, se vivencia e se descobre mais daquele contexto. Fugir é que não ajuda em nada para aprender e vivenciar a mudança.

Quando eu era adolescente eu tive contato com softwares de modelagem 3D. Foi algo que me encantou por um tempo, devido as possibilidades de criação realistas de tudo aquilo que estava na minha mente. Embora eu não soubesse nada sobre meu potencial nessa área, nem soubesse nada especificamente das configurações atreladas a modelagem nos softwares, nem tivesse qualquer aspiração definida no campo profissional, eu me vi experimentando algumas opções. Assisti a tutoriais, entendi melhor os atalhos e me habituei a eles. Em pouco tempo, o que era improvável se tornou algo banal. Algum tempo depois, com a prática e o incentivo de um conhecido que também lidava com modelagem 3D, eu comecei a criar cenas mais complexas, experimentar materiais, efeitos, iluminações, recursos para renderização realista e até cheguei a montar um computador todo voltado pra esse alto desempenho requerido pra área. Não me tornei um artista 3D prolífico, nem dominei os softwares aos quais fazia uso, mas tive a grata oportunidade de gerar diversas imagens que me felicitam ainda hoje.

Olhar pra trás e ver que eu fiz algo na área, ativa a nostalgia e um orgulho somado com a memória positiva disso. Saber que fui capaz, que tentei e realizei, traz uma recompensa para o cérebro que me faz sentir prazer e motivação. Com isso eu me tornei muito mais ativo em outras atividades. Uma vez motivado, desenvolvi melhor meus desenhos em papel, minhas pinturas à óleo, minhas pinturas digitais, o desenho vetorial e o Design Gráfico, a própria Literatura e, claro, como fotógrafo, onde ampliei muito mais minha confiança artística, profissional, social, etc. Em resumo, ter me permitido aprender algo difícil como a modelagem 3D, repercutiu em toda a minha vida, porque mesmo que hoje eu não esteja mais modelando, todo o restante que eu faço, faço com motivação, com orgulho, com um histórico na memória e com um rastro de interação com as pessoas que conheci pelo caminho. Ter lembrado disso, me fez inclusive reabrir essa área no momento presente e voltar a estudar 3D, para, eventualmente, trazer essas modelagens como imagens descritivas de cenas nos meus livros ou até mesmo a criação de pequenas animações para os meus projetos paralelos. É improvável (ou pelo menos bastante incerto) que eu me torne um artista de 3D com os rumos que eu escolhi pra minha vida atualmente, porém eu nunca fecho uma porta, enquanto há a remota possibilidade de eu me beneficiar de algo em algum momento futuro.

Entendido o exemplo deixado acima, fica a reflexão para qualquer pessoa, em qualquer área da vida. É preciso estabelecer metas (até mesmo se a única meta for não ter metas definidas). Entender que a vida é dinâmica e que o futuro é uma surpresa constante, nos permite vivenciar mais profundamente cada um dos momentos presentes. Nada sei como será o dia de amanhã, mas quero que o dia de hoje seja o melhor possível. É isso que me coloca em uma postura aberta para a mudança. Se hoje aprendo algo que transforma meu pensamento, minha compreensão, meus valores, minha percepção, meus desejos, meus sonhos, etc., eu caminho, automaticamente, para uma realidade nova, para a mudança. E quando isso acontece automaticamente, acontece sem medos, sem barreiras, sem pesares, sem inseguranças. Mesmo sem saber nada sobre onde o rio vai desaguar, a água da nascente escorre com confiança e se entrega ao rio, percorre o rio, descobre as pedras pelo caminho, se molda por novas margens a cada distância que avança. O rio da nascente já não é o mesmo em nenhum outro ponto do caminho e a água se oxigena justamente por conta desse movimento. De certa forma ela é conduzida por uma série de contextos, mas é a força dela que registra o caminho possível de ser percorrido. Se a água for pouca e fraca, logo evapora, seca e o rio não se forma. Para viver uma vida intensa, com significado e prazer, é preciso deixar a vida acontecer.

Rodrigo Meyer – Author

2019: o ano em que o Brasil morreu.

Chegamos no ano de 2019 onde tudo se revelou tragicômico no Brasil. Uma massa de pessoas despolitizadas, completamente alheias à realidade, foram responsáveis diretas para a facilitação da chegada do atual desgoverno. O que alivia um pouco é saber que, nestas eleições atípicas de 2018/2019, o eleito não ganhou por maioria de votos, mas por maioria de votos válidos. Na prática isso significa que a maioria da população continua figurando como não apoiadora do atual desgoverno, ao menos por meio do voto. Contudo, há também um lado triste nisso, pois por omissão do voto ou por anulamento do voto, facilitaram pra que, mesmo com poucos votos, o incompetente desgoverno ganhasse por votos válidos. Figuramos com um número enorme de pessoas que não puderam votar, devido a uma inédita regulamentação sobre telemetria que impunha prazos pra coleta de digitais dos eleitores e impedia os atrasados de terem direito ao voto. Uma parcela de descontentes, preferiu pagar a multa do que votar, se esquecendo que essas eleições eram atípicas e precisavam de um posicionamento claro, ainda que não tivessem grande apreço pelos candidatos em geral. Já não se tratava mais de escolher um candidato, mas simplesmente de garantir que, entre eles, um único fosse eliminado.

Mas, considerando o desastre cultural e educacional da população brasileira média, foi praticamente esperado que, na primeira oportunidade, transformariam o cansaço com a política em uma ação impensada, pouco ou nada politizada, inconsequente e acompanhada de inúmeras cicatrizes difíceis de serem apagadas. A entrada do atual desgoverno deu brecha para um número colossalmente maior de corrupção, violência, prejuízo social, político e democrático. Assistimos o desmonte do país logo nos primeiros dias e a cada mês que cruzamos no ano de 2019, o grupelho que invadiu a política do país, transformou o Brasil, direta e indiretamente, num palco de piadas nacionais e internacionais, tamanha a catástrofe e ignorância despejadas. Todo o idiotismo acumulado por gerações encontrou vazão na marionete que simbolizou essa descarga de dejetos em cima do Brasil.

O brasileiro, que já era, há muito tempo, tido como o povo mais mal-educado de toda a internet, conseguiu ir além ao sentir respaldo e representatividade para a parte da população que era justamente a mais ignorante, imatura, corrupta, violenta e inapta a estar em contato social (tanto presencialmente, quanto pela internet). A leva de reacionários e/ou imbeciloides que foram manipulados a sustentar o atual desgoverno (por Síndrome de Estocolmo ou cumplicidade no crime), figuraram em infindáveis notícias de crimes de racismo, estupro, estelionato, assassinato, homofobia, feminicídio, machismo e outras ilegalidades. Direta ou indiretamente serviram de aval para neonazismo, disseminação de ‘fake news‘ (notícias falsas), aumento da destruição de direitos trabalhistas, comprometimento da educação, aniquilação do meio ambiente, envenenamento em massa dos alimentos e da água de consumo nacional, deterioração dos serviços públicos em geral, entrega da tecnologia, dos recursos e das empresas públicas ao setor privado, em especial para a mão dos estrangeiros (basicamente para os Estados Unidos), tornando-se, assim, a maior e pior piada de mal gosto que qualquer país ou pessoa já presenciou em qualquer era e lugar desse planeta. Simples assim.

O Brasil conseguiu colocar à frente do desgoverno, algo ou alguém que, diante de um discurso em outros países, conseguiu arrotar meia-dúzia de palavras em um evento onde esperava-se que, pelo menos, discursasse por 45 minutos. Não tendo nada para dizer, pois, aparentemente, sequer pensa, mostrou ao planeta que o Brasil não é um país a quem uma pessoa com sanidade possa querer ter relações políticas ou comerciais, enquanto o atual desgoverno vigorar. Estrangeiros gravaram na mente que o Brasil talvez nem seja um país de verdade, pois já não se leva a sério. Vivenciamos em 2019 o reflexo de um anterior golpe na democracia e, pior do que isso, estamos diante de uma massa aparentemente passiva, acomodada em não lutar contra isso tudo que está corroendo o passado, o presente e o futuro do Brasil.

O brasileiro médio, ainda que avesso a essa postura nojenta do atual desgoverno e os respectivos eleitores deste, não parece estar nada engajado em reverter a situação com urgência. Estão tão anestesiados pela desgraça que reina cada vez mais no país, que desviam facilmente a atenção para as futilidades do esgoto que escorre pela tela da televisão e pelo humor empobrecido da internet. Acabam ainda mais ignorantes, menos politizados, mais ansiosos, infelizes, deprimidos, doentes, vítimas, nulos, capados de qualquer potencial e com uma pretensa esperança de fuga para melhores trabalhos ou estudos, esquecendo que nada disso será possível no Brasil de 2019. Quando se dão conta da urgência em sair do território e recomeçar a vida em outro país, já é um tanto tarde para a maioria, que desperdiçou massa cefálica, tempo e dinheiro com coisas que não colaboram pra que tenham um posicionamento digno lá fora. Ficam a espera de um milagre dentro ou fora do Brasil, mas esquecem que não haverá milagre algum enquanto a ação não ocorrer. Ficam mastigando as superficialidades, as asneiras, as mentiras, as atuações porcas de um mundo fracassado habitado por pessoas fracassadas. Querem o sucesso, sem ter que buscar o sucesso também (e primeiro) em si mesmos, enquanto pessoas, enquanto intelectuais, enquanto trabalhadores, estudantes, parceiros de relacionamento, indivíduos políticos, etc.

Como consequência dessa inércia, estão cavando tempos ainda mais sombrios, não só pelos próximos meses de desgoverno, mas pelos atos desastrosos irreversíveis que vão repercutir em qualquer momento do futuro. Quando estiverem em guerra por água ou quando estiverem sendo dizimados pela miséria e violência, não haverá força popular que seja suficiente pra reverter a situação instaurada. Rios e solos envenenados não podem ser desfeitos. Pessoas mortas não ressuscitam. Cultura de violência, racismo, machismo, homofobia e mistura de pseudo-religião com pseudo-política, tornam-se modelos tirânicos contra gerações, simplesmente porque cultiva o aval da própria população para manutenção desse ódio e ignorância, através dos discursos tóxicos herdados nas famílias, nas escolas, nos espaços de trabalho, nas mídias, nas pseudo-literaturas, até que tudo esteja tão arraigado no inconsciente que se torne inevitável a propagação desse câncer de idiotismo.

Talvez lhe incomode a sinceridade, mas, quando todo e qualquer país estiver figurando em qualidade de vida exemplar, o Brasil, infelizmente, ainda será um buraco de desgraças. Se você tem esperanças de que o Brasil melhore, talvez conheça pouco dos dados por trás desse circo. Talvez ignore que a corrupção está em todos os setores e níveis e que, por isso mesmo, jamais, em momento algum, será permitido que ela seja reduzida ou eliminada. Sobra ao Brasil apenas a perpetuação do crime, do ódio, do controle, da opressão, da roubalheira, da violência, da destruição de tudo e todos. Em troca de uma miséria em dinheiro, alguns inúteis encarnados na Terra fazem qualquer negócio. Ingênuo aquele que vê com positividade o futuro do Brasil, apostando simplesmente no frágil nascimento de uma resistência política, de uma melhoria nas relações sociais ao lado das minorias, com o empoderamento de classes sociais marginalizadas. Eu desprezo o pessimismo e o positivismo. Sou eterno defensor do realismo.

Se te incomoda que eu descreva a desgraça que o Brasil é e será, não deve tentar mudar a mim, mas a si mesmo. A aversão com a desgraça nacional não deve ser motivo para não querer enxergá-la tal como ela é, mas exatamente vê-la e enojar-se o suficiente para querer mudá-la com urgência. Se no teu discurso predomina a esperança aleatória por dias melhores, sem nenhuma ação direta e urgente, então nada do que você disser ou pensar será útil ou suficiente para reverter o Brasil de 2019. E quanto mais tempo demorar pra agir, mais difícil será para conseguir ser efetivo nas eventuais próximas ações diretas. O tempo está passando e o desgoverno está montando nas costas de todos. Quando estiver acorrentado e sem opções de resistência, será tarde demais para concordar comigo e tomar iniciativas coletivas de ação e reação. Não deixe para amanhã o que só pode ser feito hoje.

Está nas mãos de boa parte dos brasileiros, expurgar o câncer que cresceu sobre o país. Caso não reaja de forma drástica e imediata, será tarde demais. Se já não tenho esperanças pela mudança do Brasil, agora perco as esperanças no próprio brasileiro. Já deixo de me solidarizar com essa população marcada por pessoas débeis, sem nenhum posicionamento definido, passivos, frouxos, sem união, desorganizados, acomodados, fúteis e preguiçosos. Poderia alimentar esperança pela melhoria do brasileiro, mas manterei sempre o realismo. Contra fatos não há argumentos. Olhe para o Brasil de 2019 e me diga onde estão os corruptos, fascistas e racistas que não estão expostos em praça pública para decapitação em massa. Um povo que é injustamente violentado por um grupelho de bandidos de paletó ou farda e assistem essa ruína calados, estão colaborando para essa injustiça, seja por covardia, por medo, passividade ou Síndrome de Estocolmo. E, enquanto estiverem nessa condição, serão, infelizmente, merecedores do desgoverno e caos que recaem sobre suas cabeças. Espero que esse modelo de população não prospere, pois desse mato infestado de inação não surgirá nada além de mais desgraça pro país. Eu lavo as minhas mãos e me isento de apoiar ou ter esperança por um povo que não se ajuda, não se move, não se coloca como prioridade no enfrentamento do desgoverno. Tão culpados quanto os carrascos, são as vítimas caladas. Tem uma frase de Martin Luther King, ativista negro, que diz: “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”.

Rodrigo Meyer – Author

Minha ideia sobre bons momentos acompanhado.

Embora seja fácil pra mim citar uma infinidade de cenários que me interessam, é importante antecipar que isso não restringe as possibilidades, nem torna o que foi citado como premissa. O que vem a seguir, demonstra, sobretudo, como as coisas podem ser diversas, diferentes, permeando desde o convencional ao exótico, indo de coisas simples até sonhos que exigem maior preparo. O importante nisso tudo é o que está por trás de cada momento, de cada interação, o que ocorre na mente de cada um, o que se abriga no sentido subjetivo, simbólico, emocional e ideológico por trás. Muito disso traz aspectos de liberdade, de ousadia, de cumplicidade, de transformação, de coragem, de tranquilidade, proteção, mudança, sinceridade, confiança, mistério e também a beleza dos dramas.

Pensar em bons momentos pra se viver, me fazem viajar em realidades das mais diversas. Eu sou uma pessoa diversa. Muito. Eu consigo permear inúmeras realidades e me sentir pleno em todas elas. Eu sei ver o que há de bonito em todo tipo de realidade. Eu consigo transformar a minha vida em diversas outras vidas. Eu sou uma biblioteca à ser escrita, podendo ter uma história diferente em cada livro. Eu não sei qual vai ser a próxima realidade que eu vou vivenciar, mas todas as realidades que me chegam, eu vivo intensamente, entregue totalmente, em sinceridade.

É um bom momento pra mim, andar pela cidade, lado a lado, em dois, em trio, em grupo e chegar recebido e convidado para um apartamento. Apartamentos são diferentes de casas. Eles tem uma atmosfera diferente. Sentar num chão é tão bom quanto sentar num sofá e ambos são mil vezes melhor do que sentar numa cadeira. Eu penso que seja o viés social e informal. Cadeiras são unitárias, enquanto o sofá e o chão são espaços coletivos. Cadeiras são construções formais para fins quase sempre muito específicos, enquanto que os sofás são um recanto de acolhimento, de conforto, de socialização e do imprevisto. Se quer me ver brilhar os olhos, me chame pra sentar no chão, beba junto comigo e me mostre algo bonito. Estejamos alí sem hora pra acabar. Deixa o tempo fluir, enquanto o dono da casa não tiver que sair pra trabalhar. Coloque uma música baixinho, vamos só sentir o momento. Olhares, muitos olhares. Isso é a base da melhor comunicação.

Outra possibilidade encantadora é viajar o mundo. Que eu acorde cedo, tarde ou mesmo de madrugada. Vamos cansar e descansar nas filas de estações de ônibus, nos trens, aeroportos, a pé ou de carro. Não importa como, a gente vai sair e chegar. Será ótimo ver o dia passar. E de repente apertar o passo, pra não perder o horário, mas tudo bem se não chegarmos à tempo e tivermos que mudar os planos. A gente sobrevive, dorme na calçada, segura o sono até podermos sentar, mas a gente faz, porque tudo isso é viver. Conversa comigo, observe as pessoas, vamos rir, vamos brincar, vamos imaginar. Me mande uma mensagem inesperada, no meio da madrugada e me peça pra ir aí. Os melhores dias começam assim. Gente intensa, gente viva, que percebe o segredo da vida nestes pequenos grandes atos. Se nada der certo a gente enfrenta junto. É preciso se entregar pra que coisas incríveis comecem a acontecer.

Também é bom estar em casa, deitado na cama, fazendo coisa nenhuma, recebendo um carinho, ouvindo conversas ao pé do ouvido, dormindo, ouvindo a chuva cair ou uma música de fundo que nos faça sorrir. Dividir uma pizza, uma bebida, um incenso, uma lareira, um vento na janela, uma cadeira na varanda, um chão, meu chão, o chão de quem vier. Vamos sentir a maciez do cobertor e o cheiro diferente que toda casa tem. Vamos redescobrir o sentido do tempo, se permitir sentir-se em casa na casa do outro, abrir a geladeira, tomar um banho, despir-se, usar a internet, convidar mais gente, inventar uma festa ou não ter ninguém e deixar espaço pra fechar os olhos e sentir. Não traga nicotina, tem coisa melhor pra se fumar. Se tens tempo, fica o dia todo, vira o dia, passa uns dias, volte quando precisar voltar.

Gosto também de estar mergulhado na noite, nas ruas, sentindo o movimento, a ação, a incerteza, a novidade, gente diferente, gente estranha, gente feia ou bonita, mas gente, muita gente, por onde possamos nos perder e encontrar novas portas, novos cantos, novas conversas, novas possibilidades. Vamos puxar assunto com alguém que acabamos de conhecer. Olho nos olhos, assistindo a linguagem dos corpos e vendo se tem alguém alí que pode nos acender. Vamos dividir uma mesa, brindar à beleza e descobrir só na hora pra onde vamos ir. Precisamos escutar bem as conversas, ouvir os detalhes. Lá habitam mundos. Pegue no braço, sinta os perfumes. Assim estaremos vivos o suficiente pra morrermos antes do sol nascer. Não deixe a janela aberta. A penumbra filtra o necessário pra que tudo seja mais aceitável. Não precisamos descobrir as coisas como elas são, mas só sentir o que elas podem ser por aquele momento.

Que lindo momento seria se houvesse um piano. Sentar um instante e matar saudade dos tempos de música. Entender que tudo fica mais fácil se estamos despreocupados com a vida. Apenas sentir os dedos encontrando as teclas, como se sempre soubesse onde precisa tocar. Brincar de poeta, inventar melodias, exercitar a alma. Fique por perto, sente na poltrona, use tua droga preferida e entre na viagem daquele momento. Mas não apague, não fique totalmente perdida, deixe pra se perder na sua vez de tocar o piano, de ser arte, fazer arte, fazer parte. Vamos vedar a casa, pra não incomodar os vizinhos ou morar num lugar onde eles apreciem nossos desvios. Que as janelas possam ser de vidro, porque quero olhar as luzes da cidade lá fora ou um espaço de natureza onde o vento agite uns galhos de árvore no meio da escuridão. Se estivermos acordados de dia, que possamos, pelo menos, sentir o laranja da tarde ou algum frio congelante que nos faça sentir melancolia.

Do outro lado da vida, ainda se vive a mesma vida, se não deixamos de ser a mesma pessoa. A vantagem em ser diverso é poder apreciar também um simples momento em família. Vamos visitar uns parentes ou desconhecidos, numa festa de aniversário, num evento beneficente ou qualquer coisa parecida. Vamos conversar com idosos, conhecer histórias, prestar memória, deixar aquilo ser algo bom pra se lembrar. Fazer ser importante pra quem recebe a presença e encontrarmos importância também no que eles podem nos dar. Vamos rir de crianças, das coisas bobas e bonitas que fazem, sentir ternura e relembrar como é bom essa fase. Vamos ver animais, abraçar cavalos, assistir uns patos, libertar passarinhos e inventar nomes pra uns gatos. Vamos espalhar uns panfletos na avenida, nas caixas de correio da vila, nos arredores das escolas. Vamos fotografar, escrever, desenhar, promover, apoiar. Vamos pras ruas em tempos de luta, chutar pra longe as bombas de gás lacrimogêneo. Vamos nos juntar a milhares de outras pessoas com vida. Amarra o coturno, apressa o passo, segura no braço, vamos se entrelaçar formando uma fila.

Em companhia, não fecho as portas pra nada. Não me importa se é um amigo, um mendigo, um perdido ou uma namorada. Por aqui você pode contar comigo, não tem tabu, não tem frescura, não tem perigo. Se está feliz ou triste, se perdeu a saúde ou precisa ser ouvido. Eu não sei qual é o seu momento, mas eu estarei lá pra fazer a minha parte. Pode me contar, eu vou ouvir, me pergunte, eu vou responder. Não tem problema nenhum se você é diferente, se sua vida anda meio perdida ou se você sente que não tem espaço pra se explicar. Aperta minha mão, dá um abraço, perde o medo, não tenha vergonha, fale do seu jeito, no seu tempo, o que achar que deve. Vamos conversar, vamos trocar. Estamos vivos, somos gente de valor, vamos se valorizar. Aceita um convite, deixa eu oferecer uma comida, talvez uma bebida, talvez um conselho pra dar. Me conte sua história, vamos dar a volta por cima, fazer isso ser motivo de glória e não motivo pra chorar. Incômodo são somente os outros que nos ignoram e não sabem nos fazer brilhar. Pode vir, com sua roupa furada, sua bagagem amassada, seu olhar maltratado, seu tesouro quebrado, sua insegurança, sua timidez, seus medos. Traga o que tiver e será suficiente. Aproveita o dia, pois todos merecemos. Fique tranquilo, encontre prazer em ser, em ter alguém pra chamar de amigo.

Há de se ver prazer também em cenários menos entristecidos. Vamos escrever cartas, cruzando distâncias curtas ou transoceânicas. Vamos agradecer, enviar desenhos, flores, histórias, pedaços valiosos de nossas próprias memórias. Vamos levar o nosso dia a dia pra alguém que nos seja importante. Dividir a vida à distância, pode ser tão ou mais vibrante do que pessoalmente. Tudo depende do que estamos fazendo e para quem. Pessoas incríveis encontram prazer e aventura em coisas que pra muitos é pura loucura. Vamos ter ideias, pensar junto, lembrar do outro, enviar um mimo, um presente, uma proposta, uma pergunta, um lembrete, um conselho, um elogio ou uma simples foto tirada na frente do espelho. Nos tornamos mais humanos quando conseguimos ser livres o suficiente pra aceitarmos múltiplos planos. Me surpreenda com um pacote de guloseima que só tem no lugar onde você vive. Eu vou me sentir feliz pela surpresa e lembrar disso vai me fazer me conectar melhor contigo. Não importa que nome isso tenha. Faça isso ser leve, intenso e sempre valerá a pena.

Também gostaria de momentos desafiadores. Conhecer o extremo nos lugares de neve, o calor pesado de grandes desertos e sumir por meio de vilarejos pequenos. Subir montanhas, descobrir cachoeiras, acampar por aí, deixar as aventuras serem elas mesmas. Me chama pra te ver acordando, de cara inchada, se espreguiçar olhando pro horizonte, sentar e contemplar. Vamos sorrir, abraçar, meditar, descobrir que pouca ou muita comida pode ser igualmente suficiente. Vamos lavar os pés no mar, deixar o sal limpar e o vento secar. Corre ali, volta com uma novidade, descobre um lugar, um bar, uma outra cidade. Vamos ficar, vamos partir, vamos dividir. Na praia, no campo e pra onde mais quisermos ir. Isso nos faz saudáveis, nos faz admiráveis, nos faz sorrir.

Trabalhar junto também é possível. Como em um jogo de vôlei, um levanta e o outro corta. Ser equipe, ser parceria é fazer a coisa funcionar de uma maneira que seja boa pra nós. É encontrar uma atividade que nos seja divertida, que dominemos e que tenhamos prazer em nos esforçar. Ver resultados não pode ser só uma meta a ser atingida, mas o cenário de quem tem objetivos pessoais naquela investida. É isso que nos faz investir, nos faz sentir seguros no que fazemos. Levante um dia com uma dúvida, uma proposta, uma pergunta, uma ideia nova. Me apresenta um livro, vamos comprar alguma coisa necessária qualquer pra tentarmos realizar nossos sonhos e loucuras. Faça tudo ser bonito, se empenhe, não se contente com algo inferior. Vamos fazer do trabalho um ato de amor. Se teus olhos não brilham pelo que você faz, vamos mudar de trabalho, vamos correr atrás de mais. Eu não preciso que teu trabalho seja fixo, nem me importaria se tivéssemos que esperar um pouco mais. Eu estou aberto, eu apoio, eu quero ver sorrisos, eu quero fazer parte, inclusive com bastante improviso, porque começar é apostar no que ainda não existe para os outros, mas já é realidade dentro de nós. Se mudamos de cidade, se perdemos a conexão com a realidade, tudo bem, a gente vai encontrar uma forma de nos fazer sermos percebidos, de vencer aquilo, pelo menos, no nosso interno desafio.

Você pode ser quem você quiser, encarar a vida de mil maneiras. Pode ser mãe, aprendiz, solteira, alegre ou infeliz. Você pode gostar de rock, de samba ou ser como eu que gosta de tudo que me faça sentir. Você pode preferir a noite, pra poder dormir de dia, pode inverter o jogo e me arrastar pra debaixo do sol. Eu vou estar lá, admirando a chuva, o vento, o sol, a paisagem, a casa quebrada, a porta velha, a cama improvisada, e também o teu imenso candelabro escondido na cera da vela. Você pode ser de toda forma, qualquer medida, qualquer estilo de vida. Mas, que seja confidente, que se entregue junto, que venha pros momentos pra ser gente como a gente. Que se permita errar, não saber, conhecer muito e me ensinar a ser. Você pode estar comigo, pra correr da noite, no meio de lugares desconhecidos, pode estar na paz de uma escada no alto de um prédio, dividindo um segredo, sendo você mesma um mistério. Pra ser companhia por aqui, é preciso estar sendo algo verdadeiro. Se simpatiza com a minha forma de ser flexível, temos o dobro de possibilidades. E se tua vida for um pouco mais restrita ou concentrada, vou adorar entrar nesses trilhos pra seguirmos juntos a mesma jornada. A vida não precisa ser de um jeito muito específico. A realidade que alguém escolher ter ou mesmo qualquer outra realidade que nos aparecer, eu vou encarar com gosto, vou me sentir protagonista, vou estar lá pra mergulhar fundo, experimentar a realidade daquele mundo. Eu não me incomodo com nada. Tudo que eu conheço da vida é que a vida está aí pra ser explorada.

Talvez você não enxergue em mim, logo de cara, tudo que eu posso ser em qualquer outro momento, em outro cenário, com outro pensamento. Talvez você não perceba que, do jeito que eu vim, é só uma das inúmeras possíveis facetas. Aquilo que somos não é necessariamente aquilo que estamos. A vida é sempre transição (ou não). E está tudo bem em permear mundos diversos. Se não experimentamos em profundidade uma determinada história, uma face da vida deixa de existir. Estamos aqui pra usufruir. Se você se permitir e se estivermos em sintonia pra dizer mais sim do que não, então, temos uma boa razão. Dividir bons momentos em companhia é ser companhia em qualquer momento. Não importa o cenário, nem importa o que é que vamos fazer das nossas vidas. Não sabemos. Chegamos lá e descobrimos o que temos e teremos. É sempre uma surpresa. E fica tudo melhor se quem nos surpreende também acredita nesse ideal. Assim a vida fica cheia de aventuras, até mesmo nos momentos em que nada acontece. Viver, por si só, se nos permitirmos sentir o momento, é aventura suficiente.

Rodrigo Meyer – Author


O tempo que você não tem, lhe foi roubado.

O tempo, além dos ciclos naturais das estações do ano e o movimento dos astros, é também uma construção social. E dentro dessa construção social é comum de vermos as pessoas criarem construções derivadas desse modelo. O tempo é relativo, mas também tem seu fator concreto. Mais importante do que entender o que é o tempo, é saber o que você faz dele.

Quando as pessoas dizem que não possuem tempo para determinada atividade, geralmente isso significa o oposto na realidade. O que ocorre é que as pessoas que sentem-se sem tempo, por vezes, estão apenas cegas de si mesmas, justamente por estarem ocupando o tempo delas com coisas superficiais e que não são reais prioridades. Quando elas notam alguma coisa da qual elas gostariam ou precisariam muito fazer e se apercebem sem tempo, é preciso refletir que outras coisas estão preenchendo o tempo a ponto de não haver espaço para algo que se quer muito

O dia na Terra tem em torno de 24 horas. É bastante tempo para o modo como estamos acostumados a experimentar nossas rotinas. Uma pessoa comum dentro da média, acorda pela manhã, segue para o trabalho ou estudo, pausa para almoçar, encerra o dia lá pelas 19h00 e retorna pra casa ou segue para alguma atividade de cunho pessoal. Considerando o percurso triste de muitos lugares, isso pode se arrastar por mais algumas horas de transporte. Com alguma sorte essa pessoa vai conseguir dormir as recomendadas 8 horas de sono, pra acordar à tempo de ir pro trabalho ou estudo no dia seguinte.

Se você segue essa rotina descrita acima, é muito provável que você esteja cansado. Seu trabalho te ocupa o dia todo, se levar em conta a soma do transporte, da refeição e do sono que te mantém vivo pro próprio trabalho. Em nenhum desses horários você teve lazer ou algum prazer incluso. É provável que não tenha tido sequer o tempo necessário para se questionar sobre sua condição atual e suas possibilidades paralelas. Como buscar alternativas, quando tudo que você tem é a rotina te algemando à um modelo que te cansa e te ocupa o dia todo?

Se você teve tempo e oportunidade pra ler esse texto, provavelmente você está com uma margem nos seu horário ou então teve a grata oportunidade de folgar por alguns dias na semana inicial do ano. Talvez, ainda, você tenha insônia e, ao invés de cumprir suas 8 horas de sono, você se cansa ainda mais diante da internet, em busca de atender o chamado da mente. Eu não tenho como prever com exatidão qual a sua situação, mas posso lhe dizer algo importante sobre tudo isso. Em qualquer cenário que você estiver, uma coisa não muda: o dia continuará tendo 24 horas e você tem nas mãos escolhas e responsabilidade para colocar na balança. Vejamos.

Se você é uma pessoa solteira, sem responsabilidade com cônjuge, filhos e nem lhe é requerido cuidados mais constantes e presenciais para seus pais ou parentes, você já está em vantagem em relação a muita gente. O Brasil é um país onde raramente as pessoas alcançam qualidade de vida e, por isso, mais atribuições de responsabilidade acabam por se tornar um fardo que faz muita gente desistir ou transbordar em condutas e sentimentos indesejados. Se lhe foi dada a condição da escolha sobre esses aspectos da vida, sinta-se agradecido, pois a maternidade ou paternidade, o cuidado de enfermos ou a aceitação de um trabalho que rouba todas as horas do dia em troca de um salário que custeia apenas a sobrevivência, é uma triste realidade de grande parte da sociedade.

Nessa altura você deve estar se perguntando, como é que pode haver tempo de sobra, se acabei de mostrar que a maioria das pessoas não dispõem de tempo suficiente. A verdade é um contexto mutável e não algo fixo e eterno. Se nos apercebermos de nossas funções no mundo, do nosso esforço, nosso potencial, nosso valor, nosso trabalho, nossas relações com o tempo, com as pessoas e com a sociedade, teremos condições de estimular em nós um senso crítico sobre o que não parece justo, certo ou realista sequer. Quando você se dá conta de que está trabalhando simplesmente pra continuar vivo para o próprio trabalho, você está sendo, em certa forma, escravizado pelo trabalho, apesar da ilusão do salário. Digo isso porque seu salário não é dado para você exatamente, mas custeia apenas sua alimentação, sua moradia, seu transporte e evita que você amanheça morto no dia seguinte e deixe de trabalhar por quem “precisa” da sua fracionada mão-de-obra. Se aperceba que você não usufrui do seu salário para nada que seja destinado à você mesmo, como o seu aprendizado, seu lazer, seu relacionamento afetivo com as pessoas, sua exploração da espiritualidade, o cuidado com a saúde do seu corpo e mente, a elaboração de uma rede firme e saudável de amizades, uma pausa para pensar o mundo, pensar você, pensar a vida, questionar os caminhos e os porquês. Perceba que num modelo de vida apertado assim, ocupando todas suas 24 horas, o tempo lhe é roubado. E se lhe roubam o tempo, é porque você tem tempo de sobra pra ser roubado. Ficou mais claro?

Todos nós temos, tivemos e sempre teremos 24 horas do nosso dia, para fazermos nossas escolhas. É claro que, diante de certas responsabilidades éticas, escolhemos, por exemplo, não negligenciar os cuidados com filhos e família, não subestimar o salário que nos permite dar assistência e sobrevivência para aqueles a quem tutelamos e/ou amamos ou simplesmente para cumprir nosso instinto de sobrevivência e nos mantermos vivos e à salvo nas necessidades mais básicas da Pirâmide de Maslow. Mas, acima das urgências de respirar, urinar, comer, se proteger do frio e do calor, dormir, se manter vivo e com o máximo de saúde possível, temos um outro patamar de realidade, que é talvez igualmente importante por mais que não seja exatamente o motivo da nossa sobrevivência como seres orgânicos.

Além da sobrevivência, temos o viver. Viver é infinitamente diferente de sobreviver. Enquanto o sobrevivente pulsa o coração e mantém ativa as ondas cerebrais para ser tachado de vivo, a pessoa que realmente quer viver e não apenas sobreviver, precisa encontrar função e satisfação além da manutenção do organismo, afinal o ser humano não é apenas o próprio corpo. Ser um ser humano é, antes de tudo, ser dotado de uma individualidade, uma consciência, uma personalidade, uma vontade (e aqui permita-me listar também a Vontade, com ‘V’ maiúsculo, em referência a essência de um indivíduo, como anunciado por uma certa vertente de conhecimento). Viver é, sobretudo, abandonar a servidão da sobrevivência e desfrutar a vida ao lado de seus potenciais e anseios. Existimos para nossos próprios propósitos e não temos que nos sujeitar a nenhum modelo imposto de sociedade, trabalho ou relacionamento. As premissas do mundo, são criações de outros seres humanos, tão comuns e/ou especiais como qualquer outro. Somos todos iguais e o problema na administração do nosso tempo e valor está justamente em alguém ser subjugado por outro, pra que o outro faça o que quer do tempo dele, enquanto a vítima segue pressionada a não ter nada, a não ser nada, a não poder querer nada.

As pessoas que detém 24 horas do seu tempo, tem um tesouro nas mãos. Deveriam fazer bom proveito disso, pra não acabarem infelizes, com sentimento de derrota, frustradas, deprimidas, doentes ou distantes dos seus potenciais, sonhos e responsabilidades. Escolhemos vender a nossa força de trabalho, pois acreditamos pouco na nossa autonomia. Desde que eu me conheço por gente, sempre almejei e sempre fui um profissional autônomo. Trabalhar para os outros nunca me foi uma opção a ser considerada. Claro que se eu me sentisse sem nenhuma segurança ou esperança, viria o pensamento de me sujeitar à exploração do trabalho convencional, afinal tentamos sempre nos mantermos ao menos vivos pela sobrevivência e depois pensamos em viver. Mas, enquanto me foi dada a oportunidade de escolher minha própria vida, escolhi arcar com a responsabilidade de viver na incerteza dos ganhos como autônomo, mas desacorrentado da falsa promessa de estabilidade de um salário mensal em uma empresa. Não me arrependo jamais de ter escolhido o meu caminho.

Eu não posso dizer que você tenha as mesmas condições que eu para tomar essa decisão assim, da noite pro dia, mas posso te contar da experiência de inúmeras outras pessoas em diversos contextos sociais e familiares. Posso te dizer que há pessoas que mesmo tendo uma vida relativamente confortável, escolheram ir para as ruas, para morar e explorar a realidade paralela, como também conheço os que abandonaram as ruas ou o risco de estar morando nelas, para coletar materiais recicláveis descartados, para construir sua própria autonomia na vida, sua moradia, seu tempo livre, sua relativa paz. Sorriso no rosto de pessoas tão distintas falam mais sobre quem elas são por dentro, do que o cenário que deduzimos no mundo físico delas. Para algumas pessoas, certas atividades parecem degradantes, para outras é a oportunidade de se sentirem livres. Obviamente, a sensação de encaixe e satisfação dessas pessoas não anula o fato de que outras muitas sentem-se invisibilizadas ou maltratadas pela vida exatamente por estarem na condição ou cenário em que estão. Para muita gente o abandono familiar, a miséria, a ausência de um lar além do improviso nas calçadas, é uma realidade dolorosa que as pessoas tentam contornar por meio da transformação de significado da vida, mas que, quando não conseguem, caem no abuso de álcool e outras drogas, como fuga de suas próprias realidades.

Começar a falar de tempo e terminar falando de classes sociais é o tipo de realidade que precisa ser visitada mais vezes por aqueles que não perceberam a conexão entre assuntos aparentemente desconexos. O texto não desvia sequer do título. O texto tenta suscitar na sua mente consciente, aquilo que o seu inconsciente já sabe. Por meio das críticas e exemplos que trago, eu espero com sinceridade que você levante um dia e perceba que há valor no seu indivíduo, por mais que a vida tenha insistido em mentir pra você, em te reduzir ou te desacreditar. A vida, de um modo mais subjetivo, são as relações humanas pelo mundo. É o que fazemos uns com os outros que determina como será a vida de cada um. Qualidade de vida nada mais é que manter relações positivas e justas entre as pessoas que interagem em um mesmo ambiente. Se cada indivíduo estiver são e feliz, acaba por descobrir que todos possuem 24 horas do dia pra serem cada vez melhores, num nundo cada vez mais consistente, sem ódio, sem preconceito, sem separação de classes, sem pressão, sem guerra sem coisas desnecessárias que ocupam o tempo de muitos.

E nem vou entrar na questão, por hoje, do desperdício de tempo de atividades como a obrigatoriedade ilusória de sair todo fim-de-semana, de dedicar horas do seu dia pra assistir passivamente a timeline do Facebook, Instagram e Youtube. Essa crítica da vida pós-internet é tão conhecida quanto a própria internet e as pessoas são conscientes disso mesmo quando incorrem no vício que elas não gostariam pra si. Disso já falei em outros textos e, se necessário, voltarei com abordagens diferentes futuramente. Retomemos a linha do pensamento.

Após você ter se apercebido do necessário, é hora de fomentar suas mudanças no coletivo. Sozinho, talvez faça boas coisas, mas em conjunto poderá fazer coisas maiores. Se tornar livre no seu próprio mundo pode ser uma bela conquista, mas, estimular para que todo o mundo seja o seu e de todos os demais pode ser a melhor coisa que você já fez. Encontre-se com as pessoas que pensam de maneira similar com a sua, esclareça os pontos falhos sobre o assunto, divida apoio, esteja lá para empoderar, para deixar um sorriso, um novo modelo de vida, um teor de esperança, um perfume de vitalidade, um pensamento que vá além da opinião e que permita que mais pessoas sintam-se engajadas como você a querer mais da vida do que apenas sobreviver. De início isso poderá ocupar boa parte do seu tempo, mas é uma boa maneira de ocupá-lo, bem melhor do que se enforcar em horas e mais horas de trabalho sem significado, pra que seu patrão compre um carro novo, reforme a casa, viaje pra praia, abra outra empresa e siga enriquecendo às custas do seu suado trabalho.

Me parece mais justo que você escolha pros seus dias a incerteza no final do mês, porque só se torna difícil quando pouca gente está fazendo. Se todos estivéssemos vivendo em um cenário de trocas entre autônomos pelo mundo todo, seríamos todos livres para sermos quem quiséssemos ser. Seriamos livres para pensar, ler, sentir, escrever, desenhar, construir, sonhar, viver. Viver! Vamos redescobrir o sentido da vida, olhando exatamente para os lugares onde ela não está. Se não há vida no seu trabalho ou nas suas relações sociais, mas apenas sobrevivência, é hora de repensar. Tudo bem se você concluir que não é uma mudança boa para você ou que você não tem os contextos necessários para tomar essa decisão. Eu não estou aqui pra te julgar. Eu vim exatamente pra lhe enxergar, dizer que você existe, que você importa e que você deve ser livre o máximo que puder. Tudo que eu posso fazer por você, na posição em que estou é te provocar reflexões, abrir as portas do meu mundo e sorrir diante da reciprocidade e sintonia que houver. Eu não posso tomar as decisões por ninguém e nem mesmo cobrar as pessoas para que tomem qualquer decisão na vida delas. Somos indivíduos e, como tal, há uma vida em cada um de nós, uma autonomia, uma responsabilidade própria, uma liberdade, um hall de escolhas e ações. Exerça sua individualidade, seja o protagonista da sua vida.

Obrigado pelo seu tempo e espero que o meu tempo dedicado nesse texto tenha gerado algo de útil pra você também, pois foi útil pra mim e só seria uma troca se fosse útil à ambos. Isso é o que fiz desse pequeno momento do meu dia e tenho certeza que ele vai me render mais tempo livre em algum momento lá na frente. Eu escolhi viver e escrevo porque é isso que eu desejo fazer.

Rodrigo Meyer – Author