Perdemos o que abandonamos.

A imagem que ilustra esse texto é parte de uma fotografia de 2007, de autoria de Majorly, da ruína da prisão de Birkenau / Auschwitz, na Polônia.

Muitas das coisas na vida são baseadas num sistema de reciprocidade. É natural e automático que as pessoas queiram benefícios pra suas vidas, porém quando elas deixam de fazer o necessário em troca, elas acabam percebendo o distanciamento, o insucesso, etc. Um exemplo fácil é quando uma pessoa leva uma vida de pouco uso do cérebro e incorre em uma velhice com sinais de esclerose, demência, Mal de Alzheimer, entre outros. Médicos recomendam que as pessoas levem uma vida intelectual mais ativa para assegurar que futuramente não estejam nesses cenários citados. É claro que não é apenas a falta do exercício mental que leva pra esses desfechos. As doenças podem ter inúmeros fatores e boa parte é influenciada pela genética em tom de predisposição. Mas, em paralelo à isto, ocorre o chamado ‘fator ambiental’, que é só um nome bonito pra dizer que contextos, substâncias e ocorrências ao longo do crescimento da pessoa em sociedade (ou fora dela), podem funcionar como gatilhos que impulsionam ou ativam as doenças e características do corpo e da mente vindas da predisposição genética ou geradas de forma isolada ao longo da vida.

Se observarmos com um mínimo de atenção, logo vemos que isso se estende para inúmeros outros setores da vida. As amizades, por exemplo, se não cultivamos e não damos o devido valor, com o tempo deixam de existir. Aqueles números massivos de pessoas que os usuários nutrem nas redes sociais ou até mesmo “pessoalmente”, acabam se tornando só mais um número, se não houver um contato real, profundo e constante. A interação humana ganha sentido e valor quando ela consegue deixar um rastro no tempo. Claro que às vezes sentimos que algo já tem grande valor, mesmo que tenha sido breve, porém isso só se mantém intenso se for levado adiante. Perdemos facilmente os amigos, conhecidos, contatos de trabalho, simplesmente porque deixamos de participar da realidade deles e, consequentemente, eles da nossa.

Nos relacionamentos amorosos, vê-se bem como o abandono e o descaso, acabam por gerar a perda desse relacionamento. Mesmo que unidos pela formalidade ou um teto, inúmeros casais deixam de dividir cumplicidade, felicidade, amor e respeito, simplesmente porque alí já não era nutrido nada disso há muito tempo e adoeceu como um prédio em ruínas por falta de manutenção. O desgaste que vemos nas relações com as pessoas e o mundo são exemplos constantes para podermos observar e aprender que quando não somos mais ativos em algo, perdemos o direito da companhia, do desfrute, do amor, da alegria, do prazer, do significado, etc.

Outro exemplo de como perdemos pelo desuso, são os dons, talentos, habilidades ou similares. Se você é um artista e fica sem criar por muito tempo, é natural que você se torne menos capaz ou que tenha mais dificuldade para chegar nos mesmos resultados de antes. Tudo na vida exige que estejamos engajados o tempo todo, para não ficarmos pra trás. Se levarmos esse conceito para cenários políticos e sociais, também podemos perceber que negligenciar certos assuntos do país ou mundo, acaba nos tirando os benefícios, a qualidade de vida, as conquistas, as liberdades. Este ano, no Brasil, vimos como a ausência do pensamento crítico, da desconstrução dos preconceitos e da Educação em geral, pode gerar a ausência de todo ambiente sadio dessas temáticas. De tanto as pessoas negligenciarem a Educação, por exemplo, estão hoje, aos montes, aplaudindo um ignorante, que é fortemente embasado por um outro pseudo-intelectual que diz coisas insanas como “a Terra é plana” e sentem-se felizes de fazer parte de uma quadrilha que, em última instância, são tão ou mais ignorantes que seus próprios seguidores. Isso mostra que, se as pessoas não fazem uso do intelecto, o intelecto deixa de estar disponível pra elas. E quando isso ocorre, é só tristeza, pois não poderão perceber sua própria condição.

Ao menos nos outros setores da vida, nossas perdas podem ser um pouco mais fáceis de se notar, já que nem sempre comprometem a percepção e a intelectualidade. Um artista inativo, por exemplo, pode até reduzir suas habilidades em algum momento, mas, se tudo estiver bem com seu intelecto, ele saberá reconhecer sua condição, as causas disso e, se quiser, retornar para a condição anterior, treinando e se fortalecendo.

Nos últimos tempos eu estive distante de várias atividades práticas, mas nunca das temáticas em si. A Fotografia, por exemplo, que tive de pausar a prática, nunca deixou de fazer parte da minha realidade. Estive sempre aprimorando, estudando, vendo, compartilhando e pensando em Fotografia. Isso mantém minha mente ocupada com as informações, de maneira que o distanciamento não se concretiza. Enquanto sua mente estiver recebendo estímulos para uma determinada área do cérebro, para um certo assunto ou modelo de atividade, aquilo lhe será fortalecido automaticamente. Alguns gostam de fazer uma analogia entre o cérebro e um músculo, pois de maneira simbólica, o cérebro também pode “atrofiar” por falta de uso / exercício. A questão é que a mente humana é muito mais que simplesmente a parte orgânica. A estrutura invisível que não vemos é, talvez, a parte mais poderosa da nossa mente. É por meio dos nossos pensamentos e da organização das nossas sinapses em constelações de significado, que conseguimos definir se teremos uma mente mais poderosa, mais capaz, mais diversa, mais resistente ou se seremos levados a caminhos de degradação.

Gosto de associar a perda de vitalidade / saúde física e mental com a perda de direitos em geral, inclusive os direitos sociais e políticos. Se analisarmos os dois universos sob o mesmo preceito difundido à pouco, veremos que a inação de muitos diante de si mesmos e do mundo, os leva pra um caminho sórdido de Síndrome de Estocolmo, onde são manipulados por seus próprios opressores a se tornarem fiéis escravos, cegos e ignorantes de tudo que lhes ocorre de ruim. Não é de se espantar que recentemente, diante do desastre das Eleições de 2018, regadas à muita fraude, corrupção e Fake News, tenha surgindo a expressão ‘gado demais’ pra definir essa massa de eleitores sendo encaminhados para o abate social e intelectual, em troca de absolutamente nada. O triste é que, pela inação de uns, o prejuízo se estende também para os que sempre lutaram pelo uso e manutenção de seus direitos.

Por isso, fica a lição de que preservar e exercitar é sempre a melhor saída pra você não terminar ignorante, viciado, preconceituoso, fraco, equivocado, inexperiente, sem traquejo, doente, descontrolado e sem razão. Se você não quer se tornar um entulho na sociedade é preciso dedicar-se firme à sua própria transformação, dia após dia. Todo segundo que você abandona o seu potencial, você cava sua própria miséria. Seu sucesso pessoal (que é só o qual você tem algum controle), está relacionado com as ações que você faz pra si e pro mundo, numa relação de observação, contemplação, troca, ação, compreensão, transmutação, etc.

Tão importante quanto não ser teu próprio fardo, é não ser um fardo pra outras pessoas. Empenhe-se em ser alguém melhor todos os dias, longe de falácias, longe de discursos prontos, de bordões viciados e vazios, longe de pessoas mal intencionadas que transbordam ódio e reinam na escassez da intelectualidade, do bom-senso e da utilidade ao mundo. Fuja pra longe daquilo que te reduz, porque no final das contas, tudo que você vai precisar hoje, lá na frente e sempre, é estar de pé e pleno, mesmo que hoje você não ache nada disso tão preocupante ou iminente. As maiores desgraças da humanidade foram justamente as que foram negligenciadas e tratadas inicialmente como ‘não tão problemáticas’, ‘não tão absurdas’, ‘não tão nocivas’, ‘não tão extremas’ até que fosse tarde demais. O arrependimento foi certo e o passado não pode ser desfeito. Então faça algo de bom no momento presente e todos sairão ganhando, inclusive você.

Rodrigo Meyer – Author

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Estou de volta.

Sim, eu voltei. Eu estou aqui mais uma vez, porque escrever é o que faço sempre que tenho condições. Foram dias difíceis nos últimos meses e isso é até fácil de imaginar. Mas eu não vim pra reclamar, nem lhes contar histórias tristes. Eu vim anunciar que os textos estão seguindo.

Quem acompanha o blog a mais tempo, sabe que os textos que estão por aqui, fazem parte de um projeto de mais de 600 temas que eu predefini. São artigos escritos com o objetivo de reflexão e transformação social, pessoal e intelectual. É um espaço pra que possamos cutucar temas adormecidos ou desconhecidos, mas de uma maneira mais eficiente. Por aqui, sempre que eu aponto um problema, aponto algumas soluções. Este projeto já conta com metade, cerca de 300 textos, no ar. Você pode descobri-los pela pesquisa na lupa do blog ou através das tags de assuntos.

Este ano será de suma importância que nos voltemos para as artes, para o pensamento, para a reflexão, para o empoderamento, para a resistência com muito intelecto, bom humor, sensatez, equilíbrio (dentro do possível) e mudanças, muitas mudanças. Por aqui, encontram-se leitores de mais de 20 países do mundo e já atingimos quase 6 mil visualizações em tão pouco tempo. Isso denota certo interesse e apreço das pessoas pelos conteúdos que aqui são feitos e pelo modo como eu escrevo. Os textos são criados em momentos onde algo realmenre precisa ser dito, pra que a mensagem seja a mais sincera possível e que traga uma boa trilha de leitura, num começo, meio e fim que acrescente algo pra quem lê ao invés daqueles conteúdos genéricos que vemos aos montes pela internet, onde lotam letras na tela, com repetições vazias, tentando não parecer que só há duas linhas de conteúdo real naquele mar de texto.

Aqui faço as coisas com um propósito real, voltado para transformação social e pesoal, deixando algum insight e esclarecimento sobre as coisas do mundo, do nosso interior, da mente, da sociedade, das vivências, experiências e aprendizados, desmembrando aspectos da socialização, do convívio sadio em sociedade, da quebra de preconceitos, tabus, equívocos, além da transformação pessoal de cada um para atingirem os seus potenciais ao máximo. As reflexões que aqui são apresentadas, não são uma mera maneira de opinar sobre algo, mas são, acima de tudo, a oportunidade de demarcar a estrutura da realidade e das relações humanas, pra que as pessoas possam se redescobrir no meio de algum assunto, fazer as escolhas e mudanças que acharem necessárias e tornarem-se elas mesmas uma célula de propagação da nova vivência, nova experiência, nova conduta, nova mentalidade, nova vida. Somente você pode fazer a mudança. Eu estou aqui pra apontar as portas que eu conheço, mas não posso atravessar as portas por ninguém.

Como forma de orientar melhor o caminho que eu trilho na criação dos textos, além dos temas preexistentes, eu preciso que vocês interajam com os conteúdos, deixando comentários abaixo das publicações, seja no blog ou no Facebook ou que enviem mensagens ou e-mails para tirar dúvidas, pedir temas, enviar sugestões, críticas, elogios, indicações, etc. Essa interação é importante pra que eu siga sendo útil pra você que me lê e para os que estão por vir. Por isso, se houver um texto que você goste, compartilhe pra que mais alguém tenha a oportunidade de entrar em contato com o assunto ou mesmo de descobrir outros assuntos no blog. Assim como é feito pra vocês, é também feito pra mim, pois escrever é minha terapia e parte da minha essência. Quando escrevo, tenho a oportunidade de tirar um peso das costas e tentar levar alguma leveza e estímulo pra outras pessoas.

O ano está começando com notícias desastrosas, mas estarei aqui cheio de novidades, pra evitar de sucumbir. Conte com esse epaço para se concentrar em si mesmo e naquilo que pode fazer por melhoria na sua realidade. Junto com essa plataforma de textos, outras atividades vão ganhar novos patamares de criação e visibilidade. Quem me conheceu um pouco mais, sabe que fui fotógrafo por quase 20 anos e, apesar de ter pausado a atividade em razão da venda dos equipamentos, estou reconstruindo minha vida em outro canto e assim que tudo se estabilizar, pretendo voltar a fotografar. Esses dias eu voltei a desenhar e pintar e já tem algumas obras na minha página de Arte (aqui). Façamos arte, porque teremos que ficar de pé para o que está por vir. Precisamos ficar, antes de tudo, com saúde mental para não perdermos a energia de resistir e lutar pelas mudanças que serão necessárias.

Este texto é só um comunicado de retorno, mas sinta-se à vontade pra ler uns textos aleatórios no blog, pra conhecer um pouco da abordagem que faço nos temas, a linguagem, o modo de estruturar a trilha da mensagem, etc. É um formato sincero, espontâneo e também bem cuidadoso. Fico feliz pela receptividade das pessoas, que já somam quase 6 mil visualizações em tão pouco tempo. Há leitores frequentes e até numerosos de diversos países. Adoraria conhecer mais detalhes sobre a comunidade, se são estrangeiros nativos ou se são brasileiros morando no exterior. Por isso, reitero, é importante a interação.

Obrigado por continuarem presentes. Nos vemos logo mais. Assim que eu tiver mais centrado, entro com um novo artigo. Quem quiser acompanhar um pouco da minha realidade, pode seguir neste Instagram: rodrigomeyer.author.

Grato,
Rodrigo Meyer – Author

A receita do caos e a esperança.

A imagem que ilustra esse texto é uma adaptação de uma fotografia de 7 de Maio de 2006 feita em um evento de Democracia Direta, em Glarus, na Suíça.

É difícil não falar de política quando tudo na vida do homem em sociedade é política, querendo ou não. Ao falar do ser humano, temos que, necessariamente, falar sobre política. Mas, engana-se quem pensa que política é somente aquilo que compõem a esfera das ideologias partidárias, dos planos de governo, das eleições e das decisões e repercussões dos assuntos ministrados pela classe dos chamados ‘políticos’.

Em verdade, todo ser é um ser político e não apenas os engravatados que ocupam cargos oficiais em um governo. Quisera eu não precisar falar de política, um dia após o 1º Turno das Eleições brasileiras. Seria tão mais fácil e agradável seguir a vida pensando no próximo livro, na próxima ilustração, no trabalho, na companhia dos amigos, nas viagens e nos prazeres adiados a tanto tempo. Mas, por isso mesmo, é importante erguer os punhos e direcionar um pouco mais de energia, mesmo sabendo o quão desgastante é lidar com a situação do Brasil.

Desde o “descobrimento” do Brasil, com a invasão dos portugueses, a tomada de nossos bens, a destruição e/ou apropriação da cultura indígena e dos negros, em paralelo a escravização destes, até os momentos ditos ‘modernos’, que de modernos não possuem nada, ficamos em situações vergonhosas, desastrosas e incompatíveis com qualquer sonho de progresso que atribuímos aos chamados ‘países de primeiro mundo’. O Brasil tentou por muitas vezes reverter sua própria condição, apostando em iniciativas que nasceram de baixo pra cima, das gerações de pessoas empobrecidas pela exploração, netos dos netos de muita dor e pouco respeito recebido. O Brasil se formou, basicamente, pelo trabalho de quem sobreviveu ou deu a vida por uma esperança de mudança. As pessoas que mudaram esse país, goste você ou não, não foram os banqueiros, nem as pessoas que sistematicamente receberam heranças de nobres, que por sua vez, só se tornaram assim ricos (porque nobres mesmo nunca foram), pela exploração das pessoas. Tempos depois, ainda vemos isso acontecer, sob outros métodos e cenários. Agora, relativizam até mesmo os direitos e salários conquistados, na busca por um retorno à época em que as pessoas tinham o que comer, mas eram escravizadas. Estamos em um país quebrado financeiramente, mas mais do que isso, quebrado moralmente.

Mas, por hoje, não vim falar exatamente desse tipo de política, muito menos sobre economia e mercado. Embora seja verdade que isso tudo é importante, porque é a consequência atual que vivemos, temos que compreender, antes, como chegamos no caos. E pra entender isso, precisamos lembrar de tudo que tentam omitir ou apagar diariamente.

Há alguns dias eu lia o depoimento de um rapaz que quando adolescente sentia orgulho de apoiar um determinado pensamento, chegando a admirar uma figura de liderança desse meio na política brasileira. Os anos se passaram e ele despertou de uma imensa ilusão. Não foi tão simples quanto esperar o tempo passar. Foi necessário que ele tivesse a decência de se valorizar o suficiente pra se desvencilhar de falácias e má informação. Teve que estudar História, Política e se empenhar na sua própria compreensão, descobrindo os motivos que o faziam ter falta de empatia e uma conduta e/ou pensamento simplista demais para os problemas do mundo. Tal rapaz discursava em seu depoimento de arrependimento como um pedido de ‘mea culpa‘, se retratando sobre o seu passado e explicando o erro cometido que culminou na atual mudança de postura.

É bonito ver que uma pessoa, sozinha, por assim dizer, apenas com a ajuda de sua própria curiosidade e força de vontade, conseguiu refletir sobre si mesmo, seus erros, a causa de seus pensamentos equivocados, seus transtornos, seus medos, suas inseguranças e seus preconceitos sobre o mundo. Munido de informações sobre si mesmo, ele percebeu que o melhor caminho era munir-se também de informações aprofundadas sobre o mundo. Eis que nasce alguém novo, disposto a aprender ao invés de replicar bordões e ilusões. Eis que nasce alguém questionador que pensa sozinho e não depende de ninguém ditando o que ele precisa fazer ou pensar. Eis que surge alguém que realmente tem potencial de transformar o mundo.

Observando esse caso isolado de transformação, logo podemos notar que as mudanças são possíveis, mas depende de um esforço sincero. Quando você busca a liberdade de entender mais daquilo que não conhecia, você transforma preconceitos em conhecimentos, ilusões em dados realistas. O inverso disso, sendo a estagnação pura ou o retrocesso, aniquila o potencial humano de se lapidar, de melhorar, de progredir, de evoluir, de adquirir conhecimento e de quebrar os preconceitos. O Brasil chegou num estágio de sufocamento social onde corremos o risco de tristes novos desmembramentos dos fatos que ocorreram, principalmente, de 2014 pra frente. Durante estes anos recentes, o Brasil se viu em uma guerra de corrupção imensa, onde até os que deveriam ser responsáveis pelas prisões, figuraram em crimes de corrupção e prisão (vide o caso do apelidado ‘Japonês da Federal’, pra citar apenas um das centenas de envolvidos). Cruzamos por um processo fraudulento de Impeachment, com votos comprados entre os políticos, recoberto com a certeza de que a corrupção continuaria ainda mais vigorosa, apesar da ‘Operação Lava Jato’. Áudios vazados mencionavam que a corrupção só conseguiria seguir adiante se houvesse “um acordo com o Judiciário, com tudo.”. De lá pra cá, nunca se viu tanta parcialidade, hipocrisia, corrupção e banalização da vida. Viciados em corrupção e dinheiro, os políticos aproveitaram o caso generalizado pra agir ainda mais, já que era tanta confusão, que ninguém teria tempo pra discernir todas as falcatruas que estavam ocorrendo em paralelo.

Enquanto o brasileiro assistia entusiasmado pelas cenas dos próximos capítulos nas sagas diárias dos telejornais ou dos sites de notícias na Internet, os políticos riam em dobro, matando delatores, juiz e até mesmo o delegado que investigava a morte deste juiz. Em uma sucessão de crimes pra queima de arquivo, o recado foi dado: após o aval dos corruptos na Justiça e na Política, todos estariam segurando seus ossos de forma incondicional, tivesse ou não que matar alguns pra isso. Com o juiz, Sérgio Mouro, o mesmo que recebe ilicitamente salário acima do teto permitido por lei, diversos casos convenientemente foram ignorados por ele. Em se tratando de seletividade e hipocrisia, esse parece ganhar de muitos outros. Abraçou de forma notória o partidarismo e fez todo o possível pra inventar um cenário que corroborasse com a teoria que ele e sua turma escolheram pra pintar a caveira de certas figuras políticas. Tanto fez e tanto recebeu respaldo da mídia, que conseguiu não só forjar a condenação de Lula, como mobilizar um mar de incautos a expandir a semente do ódio que nutriam pelo PT.

Tais pessoas, enviesadas pela ideia de que o Partido dos Trabalhadores (PT) representava automaticamente uma ideia ou consenso abraçado por todos os políticos que ali estavam inscritos, formaram um grande número de brasileiros que não tinham disposição de aprender ou discutir verdadeiramente os assuntos políticos, criaram um muro de ignorância, exatamente ao sentido real de ignorar algo. Ignoraram fatos, ignoraram a manipulação política que sofreram, ignoraram as pendências internas de si mesmos, ignoraram as falácias cometidas, o ódio pregado e até mesmo as ‘fake news’ criadas e compartilhadas massivamente pela internet e até mesmo pelas mídias ditas ‘convencionais’. O brasileiro aprendeu de forma completamente distorcida e limitada, que bastava ter ódio à um monstro imaginário e tudo ficaria bem. Foi exatamente esse cenário desastroso de desafeto pelo estudo e reflexão da política que cultivou uma plateia sedenta por manipulação, por discursos de ódio compatíveis, por uma plantação ostensiva de falácias e conceitos pré-fabricados que levasse o eleitor a ficar tão indignado com o cenário desenhado por alguns ao ponto de começaram a achar válido ideias descabidas como, por exemplo, dar voz, poder e espaço pra figuras completamente despreparadas e mal intencionadas como a do candidato à presidência de 2018, Jair Bolsonaro.

Mas, engana-se novamente, quem pensa que esse espaço nasceu simplesmente da repetição sistemática dos discursos de ódio contra os governos anteriores. Esta repetição foi, se muito, apenas o embrulho de um contexto prévio muito maior que estava sendo gestado no brasileiro. Descobrimos em 2018 um abismo aparentemente sem precedentes, composto de um número grande de pessoas abertamente cegas sobre valores e dignidade humana, adeptas de um discurso aberto de xenofobia, racismo, machismo, homofobia, ódio de classes e uma alusão fictícia e pré-fabricada de um suposto combate aos regimes totalitários comunistas. Muito se nota disso, quando se percebe que essas pessoas desconhecem até mesmo que Comunismo nunca se resumiu aos citados regimes totalitários que visualizamos na União Soviética ou em outros exemplos similares. As pessoas que apontam ódio ao Comunismo, tentam, em vão, alçar do fundo da História um cenário que não tem nenhuma conexão com os ideais abraçados pela diversificada esquerda no Brasil e em vários povos do mundo. Independente de qual seja seu posicionamento ideológico, é um poço de ignorância acreditar que é suficiente pautar seus discursos e pensamentos em algo que você simplesmente desconhece e, mais do que isso, replica um discurso se posicionando ardorosamente sobre, sem nem mesmo poder ter coerência ou respaldo de fatos. E quem sai perdendo com isso, além de você mesmo, são todos os demais na sociedade que vão ter que mastigar as consequências da falta de informação, das mentiras e preconceitos plantados, do ódio gerado e, claro, da manipulação ainda mais feroz dos corruptos e sedentos por poder, em cima, justamente, desses que nada sabem sobre aquilo que os está explorando e manipulando no campo da política (pra dizer o mínimo).

Perceba que é natural e sensato as pessoas terem pensamentos diversos, desde que estejam sempre almejando conhecer ao invés de reduzir preconceituosamente uma suposta oposição que desconhecem. Na vida política, em espaços democráticos, por exemplo, vê-se algo em comum com modelos de diferentes vertentes políticas, que é justamente a concordância em se fazer uso dos mecanismos políticos em comum pra preservar, antes de tudo, o direito de todos terem espaço possível na política, restringindo, paralelamente e automaticamente, as opções que derrubam e ameaçam a democracia, como é o caso do fascismo. Por essa simples razão, vertentes ideológicas até mesmo fora do campo da democracia, ainda encontram sintonia com os democratas, no sentido de manterem, pelo menos, o antifascismo como requisito. Não tarda muito pra que as pessoas olhem estas informações apontadas e fiquem assustadas ou receosas sobre o que isso possa significar. Tantas e tantas vezes já se foi feito o discurso depreciativo sobre a auto-gerência ou o Anarquismo, que as pessoas já se esqueceram de que é exatamente nestes modelos que você tem liberdade e autonomia, inclusive pra pensar por conta própria. Ser livre exige muita responsabilidade e, se você recusa ou minimiza o valor de uma ideia que prega justamente a liberdade, você está minando a sua própria liberdade e sua própria coerência. Ao se pautar pelo cerceamento do seu próprio pensamento, você está admitindo um encurtamento de seus potenciais de reflexão, de decisão de sua própria vida e da sua capacidade em ser quem você realmente quer ser.

E onde quero chegar com isso? Gostaria, se possível, conduzir os passos desse texto até o ponto em que você possa perceber que, ter se prestado ao papel sórdido de marionete não fará ninguém ser realmente alguém com potencial de transformar sua própria vida em algo melhor, incluindo nisso, claro, a transformação do seu país. Aqueles que verdadeiramente querem ver uma solução para os problemas do país, precisam, antes de tudo, estarem munidos da autonomia necessária pra pensarem sozinhos, por conta própria, sem apoio de muletas oportunamente criada por manipuladores que vão sugar sua moral, sua índole, seu dinheiro, sua força, seu poder de discernimento, sua educação, sua empatia, seu senso de percepção sobre a aproximação de problemas e até mesmo sobre a percepção do grau dos problemas ao redor. Não seja essa pessoa que cresce sendo levado pelas ideias de qualquer um, espumando seu ódio em discursos rasos que não podem sequer ter comprovação ou respaldo da realidade. Não seja a pessoa que passa vergonha desnecessária na internet e nas conversas de mesa, tentando ensinar a História que nem mesmo você teve paciência de estudar. Faça como o citado sujeito do depoimento que teve a grandeza de rever seus equívocos e começou a estudar política com seriedade, justamente por não aceitar continuar na cegueira, na manipulação, no prejuízo causado pela corrupção dos políticos e nas mentiras e iniciativas nefastas criadas por aqueles que exploram sua mente, seu trabalho, sua família, sua esperança, sua dignidade, sua individualidade e seu valor como ser humano.

Nos próximos momentos, chegaremos ao 2º Turno das Eleições 2018, onde as pessoas precisarão deixar um pouco mais claro aquilo que elas não aceitam pro futuro de si mesmas. Infelizmente, em um cenário como o atual, não tenho como ficar feliz em descrever ou apontar as opções, justamente porque sei que temos opções rivalizadas demais pra conseguir flexibilizar. De um lado temos o que deveria ser inaceitável: um candidato que representa os absurdos do fascismo, com apoio aberto ao horror da Ditadura, tendo como discurso, a homenagem à torturadores, o preconceito violento contra negros, gays, mulheres, índios e minorias em geral. Fosse este qualquer outro candidato de direita concorrendo às eleições, não teria erguido em grande parte da população (não só do Brasil) um repúdio automático expresso em manifestações ao redor do mundo. Você pode achar que essa rejeição é mais um plano mirabolante conspirado por um político opositor, um partido ou um grupo de viés ideológico, mas engana-se duas vezes. E é por não se permitir compreender a fundo quem são as pessoas que expressaram claramente a não aceitação do fascismo como opção política, que você acaba manipulado mais uma vez pelo seu próprio opressor. Ainda que você simpatize ou solidarize com algumas das supostas ideias pregadas ou discursadas por Bolsonaro, precisa, antes de tudo, entender o que te levou a esse desespero que te jogou à um equívoco na interpretação da realidade, no aprendizado sobre fatos históricos, no que é benéfico ou eficiente pra transformação da corrupção do país ou até mesmo no que é útil pra aproximação da sua ideologia na vida até você. Se hoje você pode pensar com liberdade sobre todas essas questões, é porque livros não foram queimados, rasgados ou confiscados, ideias na internet, no rádio e em outras tantas mídias, não foram censuradas, espetáculos de música ou teatro não estão controlados, etc.

Uma figura tão polarizada como a deste candidato do PSL, ao lado de outra figura que tem sido vista como um mascote do Partido dos Trabalhadores (PT), fez com que os ânimos ficassem aflorados. O Brasil conseguiu cair em um contexto de anti-PT muito grande, onde até mesmo a figura de um ex-prefeito que cumpriu resultados na sua gestão, tem sido visto com maus olhos por muitos que aderiram aquela ideia fácil de seguir o vento dos discursos de ódio que pressionaram os últimos presidentes do Brasil. Esse tipo de polarização impensada, coloca na balança figuras com pesos completamente diferentes. Você pode até mesmo não achar ideal o potencial do candidato do PT à presidência e suas propostas de governo, mas o que você não pode negar é que, entre as opções que restaram, ele é o único que pode lhe assegurar a continuidade da sua própria liberdade de escolher próximos candidatos em próximas eleições. Feliz ou infelizmente, em 2018 passamos por eleições atípicas neste primeiro turno e seguirá sendo uma eleição atípica no segundo turno. Diferente de outros anos de eleição, o atual momento nos colocou pra escolher algo muito além do que planos de governo ou até mesmo de ideologia partidária. Estamos diante de um cenário que pode comprometer gravemente a democracia, extirpando ela à força ou maquiado de meios “legais”. Um candidato que não reconhece a legalidade e a democracia, que acredita que pode resolver problemas da grandeza do país por meio da violência, não é só uma pessoa violenta e sem empatia, mas alguém que desconhece sobre como as coisas realmente funcionam. O Brasil já vive um caos generalizado desde a colonização e tudo tem se agravado dia após dia, por falta de investimentos suficientes nas áreas que realmente importam. Negligenciar a base e a causa dos problemas não vai resolver os problemas existentes, vai ampliá-los e ainda trazer novos problemas. Esse é o perigo que muita gente notou e quis distância de forma incondicional.

Você tem nas mãos a oportunidade de tolerar um governo que não aprecia tanto, mas que será tua opção possível na democracia, pra rejeitar o fascismo embutido na única figura que restou como concorrente deste. Infelizmente, quando o mundo fica polarizado, as pessoas ficam apenas com duas opções e isso é desastroso. Queira pra si, sempre, ter todas as opções possíveis e imagináveis. Isso é liberdade, isso é, até mesmo, ser liberal e ter a possibilidade de definir e discutir ideias. Lembre-se que, por mais que você pense pelo ódio, quando você, eventualmente, descobrir que se arrependeu, talvez não encontrará mais as portas abertas pra sair de onde você nunca quis ter entrado. Pense nisso e lembre-se que eu dediquei meu tempo escrevendo tudo isso, justamente porque nenhum dos dois candidatos que figuram no 2º Turno, são alinhados com os meus valores e ideais, mas, certamente, entre estes dois há um deles em que escolho tolerar e esperar pelas próximas Eleições e o outro eu não concordo de maneira nenhuma em ter que engolir, sem opção, fruto de um eleitorado manipulado que venceu pelo ódio e não pelas ideias, pela disseminação das ‘fake news’ que rodeiam a internet há muito mais tempo do que a candidatura de ambos. Eu escrevi esse imenso texto, por me opor sistematicamente ao fascismo e à qualquer porta aberta para tal. Escrevi, porque acredito que boas ideias e ações honestas valem mais do que corrupção e violência. E, finalmente, escrevi tudo isso, porque estudei, porque me permiti pensar sozinho e porque não aceito nada menos que a minha liberdade. Almejo continuar, vivo, respeitado, com espaço para pensar, escrever, refletir, discutir, mudar, evoluir, construir o que possa ser melhor não só pra mim, mas também pra você. Se a sua estrela não brilha, por favor, não tente apagar a minha. Eu prefiro me dispor a ajudar a fazer a sua estrela brilhar também. Liberdade é onde todos tem a oportunidade de vencer, horizontalmente. Opressão é onde um “vence” os demais verticalmente.

Rodrigo Meyer – Author

Sobre cercar-se de gente produtiva.

De forma simplista, a ideia de cercar-se de gente produtiva já parece interessante, afinal quando pensamos em pessoas produtivas, imaginamos algo positivo, mesmo sem nos atentarmos aos detalhes do que está sendo classificado como ‘produtivo’ nestas hipotéticas pessoas. Todo mundo, a princípio, acharia vantajoso estar cercado de tal gente. Contudo, na prática, isso pouco ocorre e, na verdade, muita gente descobre que não tem real apreço por gente produtiva. Faz-se necessário, então, explicar um pouco sobre as vantagens que este tipo de pessoa traz e, a partir disso, quais as vantagens que absorvemos por nos rodearmos delas, além de, claro, tornar esse processo espontâneo.

Pessoas produtivas são aquelas que estão sempre envolvidas em alguma criação, trabalho, ideia ou iniciativa. São as pessoas que estão sempre colocando pensamentos em prática, transformando sonhos e vontades em algo concreto. Estou falando, por exemplo, da pessoa que converte um sonho em uma série de desenhos, que observa o mundo e escreve sobre ele, que coleta material reciclável e converte em produtos reutilizáveis, que organiza ações de ajuda social, que conserta objetos quebrados, que restaura uma informação útil que estava perdida, que intervém em uma briga pra defender ou apoiar uma vítima, etc. Aqui são alguns pouquíssimos exemplos de gente produtiva no mundo. Mas, nem de longe isso resume a totalidade e diversidade do que são as pessoas produtivas. Existe algo de muito especial nestas pessoas e isso a gente só nota quando começa a identificar muitas delas e a perceber o que elas possuem em comum.

Enquanto alguns evitam o contato com pessoas produtivas, eu fixo meus olhos brilhantes sobre elas e agradeço pela oportunidade de conhecê-las. Fico feliz em saber o que cada pessoa faz, não apenas na profissão e estudos, mas, principalmente, nos hobbies, porque é o que a pessoa, aparentemente, ama fazer e de onde se pode, provavelmente, extrair oportunidades interessantes para atividades conjuntas a curto ou médio prazo. É fácil imaginar, por exemplo, que uma pessoa que compõem música, tenha maiores chances de se interessar por alguma proposta sua que envolva edição de som, restauração de instrumentos musicais ou mesmo de participar de um blog ou livro sobre arte. Por outro lado, se esta mesma pessoa fosse pouco produtiva, seria indício de que ela não está verdadeiramente engajada nessa atividade, seja por falta de tempo, de estrutura ou de paixão suficiente. Por isso, é importante diferenciar quem apenas está conectado à um assunto e quem realmente é produtivo nesse meio. Em uma analogia, uma coisa é o usuário comum de computador e outra, bem diferente, é o entusiasta de antiguidades da informática que vai tão fundo nisso que chega a restaurar os equipamentos para utilizá-los novamente, mesmo que tenha que aprender a soldar placas de circuito e a restaurar a cor envelhecida do plástico, sem desanimar se precisar reaprender comandos de um software estranho.

Mas, algo que sempre se vê em comum em pessoas produtivas é que elas nunca estão engajadas apenas em um tipo de atividade ou assunto. Como se estivessem eternamente curiosas e inquietas, se desdobram em tantas outras faces pra aprender segundas, terceiras e quartas profissões, outros idiomas, outros talentos, etc. São as pessoas que estão sempre à um passo de uma nova viagem, de um novo curso, de um novo livro, de uma nova conversa, outra amizade, outra cidade, outro modo de ver a vida. Essas pessoas estão sempre caminhando pra inúmeras direções, mas, sobretudo, estão consolidando cada uma dessas atividades. São pessoas, geralmente, de muito talento e esforço. Se dedicam muito em estudar e dominar um assunto com excelência suficiente pra serem admiradas. E é aí que entram as trocas. Pessoas assim, possuem a grata oportunidade de converter suas vantagens em mais vantagens. Quando você une dois entusiastas da Música, por exemplo, de repente tem-se uma banda por surgir. Ou, ainda, quando você é um talento na Fotografia e conhece um bom ator ou modelo que também aprecia Fotografia, você tem ali o caminho facilitado para falar disso, propor projetos fotográficos e ideias onde ambos possam fazer algo novo disso tudo, porém juntos.

Parcerias, como se pode ver, são frutíferas quando as pessoas possuem alguma afinidade. E pra que aumentem as chances de encontrar afinidades com alguém, nada melhor do que ter muitas áreas de interesse e estar em contato com pessoas que também possuem interesses diversos. Em um jogo invisível de tentativa e erro, vamos conhecendo pessoas, seus planos, seus sonhos, sua personalidade, suas manias, seus gostos, suas invenções e, quando menos se espera, estamos atuando junto em busca de satisfazer nossa curiosidade, completando incertezas, deixando questionamentos ou até mesmo apontando uma solução. É muito mais provável que estas interações resultem em um novo projeto, trabalho, produto ou até mesmo em um novo hobbie muito mais incrementado ou divertido. Por vezes, é a brecha que faltava pra que alguém elevasse o nível de uma prática que já fazia sozinho.

Com esse networking especial você está facilitando sua vida em todos os setores, sem saber em qual deles vai ter mais sucesso inicialmente, mas certamente será alguém mais satisfeito com a vida, porque terá preenchido seu tempo e sua mente com coisas e pessoas que realmente lhe instigam a ser e fazer mais. E mesmo que sua produtividade não cresça atrelada à uma parceria com estas outras pessoas, ainda sim será graças à elas que você terá desenvolvido seu caminho isolado.

Muito do que eu aprimorei em informática, por exemplo, se deu pela interação com pessoas que tinham afinidades comigo em outras áreas em comum. A troca de experiências possibilitou que ambos dessem o melhor de si em algo e recebessem o esforço do outro igualmente. É o milagre da multiplicação. Somar é fácil, mas multiplicar é arte. Ao longo da vida, estive em contato com muita gente, ficando particularmente encantado quando notava que a pessoa tinha disposição mental pra permear mundos diferentes, assuntos desconexos entre si e manter clareza em tudo que se propunha a investigar, estudar, compartilhar ou praticar. Isso me faz pensar que, em última análise, o sucesso dessas pessoas está atrelado a um enorme esforço que só é possível pelo imenso prazer que elas possuem em dedicar muitas horas em algo. E não seria exatamente essa paixão que faz delas pessoas produtivas em suas áreas de interesse? Penso que sim.

Pessoas comuns, torcem pro dia acabar logo, mas pessoas produtivas, não estão sequer olhando pro relógio. Conta-se que Albert Einstein, frequentemente, se trancava no quarto por dias, isolando-se de tudo e todos, até que pudesse sair dali com a resposta que precisava. Seu networking se deu, indiretamente, pelo contato com invenções que via e estudava durante seu trabalho no órgão de registros e patentes. Algo similar ocorria com Nikola Tesla que se motivava a descobrir novas possibilidades com a eletricidade, devido a discordância no trabalho de outros inventores e empreendedores. Não tão diferente, em tempos mais modernos, ocorreu o mesmo com os criadores da Google, Larry Page e Sergey Brin, o criador da Microsoft, Bill Gates, e o criador do Linux, Linus Torvalds. E de maneira bem clara, vemos que eles concretizaram suas ideias pelo apoio de pessoas que estavam profundamente relacionadas com seus hobbies e trabalhos tão incomuns.

Talvez você nãos visualize de imediato ou tão facilmente as conexões possíveis entre as coisas que você faz ou gosta com as oportunidades que isso pode lhe render junto à outras pessoas. Mesmo assim, as oportunidades estão potencialmente presentes. Você precisa simplesmente dedicar tempo em viver um contexto diverso, desde que toda essa diversidade faça sentido pra você e seja espontânea. É muito possível que o estudo de idiomas, por exemplo, lhe renda contato com pessoas que já viajaram ou que gostariam de viajar. E quantas outras conexões se formariam, se o sonho de viagem de algumas dessas pessoas fosse pelo apreço em História, por exemplo? Quanto mais diverso é um indivíduo, mais caminhos lhe surgem. Quanto mais caminhos são absorvidos, mais produtivo o indivíduo se torna. Por fim, quanto mais produtivo, mais chances tem na troca com outros indivíduos produtivos e diversos. Sucesso garantido, pra uma vida que pode até não render dinheiro, mas provavelmente vai lhe manter vivo no melhor sentido do termo.

Dito tudo isso, cabe à você descobrir seus potenciais, seus campos de interesse e definir suas estratégias, por assim dizer, de como se relacionar ou permear o mundo das pessoas e assuntos que lhe parecem úteis. Mas, acima de tudo, esteja lá por verdadeiro gosto no que faz ou pensa, porque os insights e as oportunidades serão sempre frutos ocasionais e quase aleatórios de sua própria dedicação incansável e do seu mergulho despretensioso que lhe reverte suficiente prazer.

Rodrigo Meyer

Nenhuma ignorância ficará impune.

Independente dos sistemas sociais e das interações humanas, tudo aquilo que existe, traz consigo a inevitável consequência de sua existência. E o que isso quer dizer? Quer dizer que se existe uma fruta pendurada em uma árvore, haverá um momento em que ela cairá do galho ou será digerida por algum pássaro. Da mesma maneira, se uma pessoa chacoalha uma árvore carregada de frutos, alguns frutos poderão cair. Assim como nenhuma ação fica sem reação, a ignorância humana também não percorre sem consequências diretamente relacionadas.

Se pegarmos exemplos simples, já conseguimos demonstrar esse fato. Imagine que uma pessoa tente construir uma casa, porém sem nenhum domínio de engenharia, construção ou mesmo de física básica e empírica. Visualize uma pessoa tentando erguer 3 andares de pedras pesadíssimas, apenas apoiadas numa base frágil de bambu. O simples fato da pessoa desconhecer as propriedades de resistência do bambu, a torna ignorante nessa tentativa e traz como consequência a impossibilidade do feito e/ou um terrível acidente com as pedras quebrando o bambu e vindo toda obra ao chão.

Na vida, nem tudo que exige noção, conhecimento e controle da ignorância, são tarefas tão óbvias como estas. Ainda que estejamos em uma época dito “tecnológica”, ainda temos que enfrentar muita ignorância que sobrevive ou renasce do passado. A informação precisa chegar pra todos, porém vivemos tempos difíceis onde até a pouca informação começa a faltar e falhar. As pessoas já começam a crer, novamente, em ideias como ‘Terra plana’, resgatando um culto à ignorância que parece ser o centro de suas vidas. Haveria tempo pra simplesmente criticar essas pessoas, porém isso não contribuiria em nada para a melhoria do cenário. Deixemos que as críticas vazias fiquem somente entre os ignorantes. Tomemos pra nós, se objetivamos alguma melhora no mundo, o papel de transformar as pessoas ao nosso redor. Ainda que seja difícil fazer despertar o interesse pela cultura, sabedoria, intelectualidade, noção, razoabilidade, realidade, verdade, educação, etc., precisamos, pelo menos, tentar.

Tudo na vida tem um preço intrínseco que é dado automaticamente, conforme cada pessoa interage na realidade. Seja lá quem for e como for, tudo que for feito, pensado ou intencionado, trará uma proporcional consequência. Assim sendo, nada mais inteligente e útil do que tentar pautar suas ideias, ações e intenções em coisas coerentes, produtivas, positivas, que vão te retornar benefícios ao invés de prejuízos, que vão te abrir caminhos ao invés de lhe fechar portas, que vão lhe tornar alguém mais esclarecido ao invés de alguém mais facilmente enganado, que vão lhe dar mais paz ao invés de lhe tornar alguém que muito odeia e se torna inconveniente por isso.

Você pode jogar pedras para o alto, livremente. A liberdade é justamente poder fazer o que se quer, mesmo que seja uma idiotice completa. Contudo, em toda liberdade existe o preço da responsabilidade com a colheita obrigatória das consequências. Nada que fazemos vem sem consequências, mesmo que elas demorem a chegar ou a serem notadas. Inclusive, é justamente entre os ignorantes que estão as pessoas que menos notam a consequência das coisas, sendo isso, portanto, o principal motivo pelas decisões pouco inteligentes destes indivíduos. Quando assistimos conteúdos de humor, rimos, muitas vezes, das trapalhadas que o ser humano consegue fazer ou dizer. De alguma forma, rimos daquilo que nos parece incabível demais pra ser levado a sério. Contudo, séries de desenho animado como “Os Simpsons”, nos faz lembrar que grande parte da sociedade real é passível de piada. Se procurarmos com um pouco mais de sinceridade, certamente encontraremos em muitos de nós, inúmeras atitudes, pensamentos ou intenções, que nos tornam ridículos. Sabendo disso, precisamos estar preparados para lidar com essas questões, muito além do simples ato de rir e esquecer de tudo após o fim de um episódio televisivo.

A ignorância é o que faz, por exemplo, uma pessoa ser vítima fácil de uma notícia falsa ou um estelionatário. Quem desconhece a realidade, acaba por ser como um papel em branco que tudo aceita. Aquele que nada conhece sobre a vida, não tem parâmetros e nem memória pra se orientar sobre o que é suspeito, estranho, problemático, falho, inverídico, perigoso, etc. A criança que nunca viu o fogo agir, certamente, corre o risco de queimar a mão diante da curiosidade pela chama luminosa. O esclarecimento sobre os perigos do fogo e a reiteração de que o fogo é perigoso, através das demonstrações de como ele sobreaquece tudo, como ele destrói as coisas e como ele pode sair de controle se for negligenciado, são formas de instruir uma criança ou leigo sobre o funcionamento do fogo, o uso correto desta ferramenta e as precauções diante do tema. De maneira semelhante, instruir pessoas na sociedade sobre todas as demais questões, as ajudará a lidar melhor naquilo que elas não possuem, inicialmente, nenhuma prática ou afinidade.

Em situações difíceis como a do Brasil nos diversos setores, é preciso, mais do que tudo, investir pesado na transformação das pessoas, no discernimento da realidade, na valorização de si mesmas, na valorização do raciocínio, do conhecimento, da intelectualidade, do embasamento, do discurso, da reflexão e do preparo pra que estas pessoas transformadas sejam também agentes de transformação nos próximos indivíduos. É desse ciclo perpétuo que extrairemos alguma chance de nos tornarmos um coletivo que consegue desfrutar de cada vez mais qualidade de vida. Qualquer país com qualidade de vida (e, claramente, Estados Unidos e Brasil não são um deles), o investimento no que realmente importa é a prioridade sempre. No Brasil, a maioria dos políticos, por questões de agenda ideológica, parece ter como principal atividade a desvalorização de tudo que é urgente, justamente para enfraquecer a mente do brasileiro médio, tornando-o mais fácil de ser controlado e subjugado. É tarefa constante para tais políticos mencionados, ampliar, dia após dia, os mecanismos de cerceamento da autonomia, do aprendizado, da liberdade e da reflexão, tal como os exploradores da vida alheia que colocam cabrestos em cavalos e similares, para melhor poder conduzi-los até o destino, sem que os animais se distraiam com os perigos que os circundam. Aliado ao cabresto, está o freio, um mecanismo covarde colocado na boca do cavalo, que tensiona a língua para que ele desista de uma reação livre, pelo condicionamento à punição que é controlada pelas rédeas do explorador que o monta.

Para se ver próximo da tão sonhada liberdade e qualidade de vida, é preciso se aproximar de tudo que alguém lhe oferece rumo à transformação do seu ser. De nada adiantará ter acesso à uma Universidade, por exemplo, se sua consciência política e social é nula. De nada servirá um salário, se lhe falta discernimento sobre como fazer bom proveito do dinheiro. Toda conquista social deve incluir avanços paralelos em todos os setores. Entender seus direitos, seus valores e seus potenciais, lhe ajudará a tomar decisões mais inteligentes e úteis em tudo que você for fazer ou falar. Quando você tem bem claro na sua mente quais são as prioridades em determinado assunto, você consegue agir de forma coerente, se afastando da ignorância e, portanto, das consequências tristes dela. Em resumo, você ganha qualidade de vida, colhe coisas úteis por saber como plantar coisas úteis. Essa regra de realidade nunca vai mudar. Quanto mais você aprende, mais você reforça essa verdade. E quanto mais verdades um coletivo conhece, mais força tem pra exigir o necessário.

Se você observar a sociedade ao redor, verá um mar de gente errando e errando muito. Embora hajam todos os níveis de equívoco em uma sociedade, se a maior parte da população fica largada ao acaso, o grau dos erros começam a subir pra todos em velocidade espantosa. Por isso, a base é sempre a prioridade de uma ação. Você deve sempre tentar apoiar e instruir as pessoas que estão iniciando a jornada na vida. Repassar seu conhecimento e suas ferramentas de transformação para crianças, adolescentes, cidadãos que estão começando a ter noção de História, de Política, de Sociologia, de Economia, de Trabalho ou qualquer tema primário que afete ele diretamente em sua existência no coletivo. Você nunca conseguirá fazer uma pessoa vencer a si mesma, se negar-lhe o direito de se conhecer e de conhecer o mundo. Se a informação e o esclarecimento não chega em todos os cantos, é papel dos detentores da informação, levar isso a quem não tem. Mas, esteja atento! Isso não pode ser, jamais, um pretexto para o nefasto papel de levar ainda mais alienação às pessoas. Você não pode usar o pretexto da informação, para iludir pessoas, desinformá-las sobre a verdade, convencê-las a força de suas crenças ou preferências pessoais, fomentar pensamentos equivocados ou preconceitos, entre outros lixos tóxicos. Há uma frase de Paulo Freire que diz:

“Quando a educação não é libertadora, a vontade do oprimido é de ser opressor.”

A liberdade conquistada, quando realmente é uma liberdade, visa transformar o entorno em um coletivo igualmente livre. Aquele que desperta de alguma ilusão qualquer que seja, caso veja-se livre pela visão obtida, deseja que o próximo também tenha o direito a esta percepção. Mas, entenda que o direito não é um dever. Retornamos para a ideia de que as pessoas devem ser livres inclusive para errar, senão não é liberdade de fato. Montar uma casa em cima de um frágil bambu é um direito, mas tal ignorância de ato não virá sem uma consequência automática, como já explicado inicialmente. Dito tudo isso, quando uma pessoa conquista o direito de pensar o que quiser, ela arca com as consequências da gerência que faz de seus próprios pensamentos e atos derivados. Agora comece a pensar na consequência de tapar os olhos e a mente diante dos riscos de uma casa em cima de um bambu; de idolatrar políticos imorais que financiam notícias falsas pra tirar proveito fácil de ignorantes que acreditam em tudo; de pseudo-jornalistas que plantam o medo e a discórdia na população ignorante que torna-se facilmente reativa e inconsequente; dos carrascos que riem da cara de seus apoiadores que são pisados e usados em benefício próprio, etc.

A ignorância nunca lhe trará nada de bom, apenas prejuízos. Você nunca se verá livre, próspero, satisfeito, feliz ou com qualidade de vida, por manter-se ignorante sobre as coisas. Não conheço ninguém que prefira ser enganado por um estelionatário ou alguém que prefira ter a casa ruindo ao chão. Se ninguém quer levar prejuízo, porque é que algumas pessoas continuam fazendo as decisões erradas? Porque será que continuam construindo casas em cima de bambus e continuam desinformadas sobre a vida que lhes usa e abusa? A resposta é simples e direta: a ignorância está presente. A boa notícia é que ninguém precisa se contentar com a ignorância, podendo sempre dar espaço pra que ela venha a ser limpa, transformada e substituída em algo que agregue conhecimento, noção, valores, princípios, dignidade, compreensão, visão, velocidade de reação, etc. Quando você investe em você mesmo, se livrando da ignorância, você entende, entre outras coisas, que você é livre pra pensar sozinho, pensar fundo, pensar diferente, pensar de forma mais complexa e completa. Quando você rejeita a ignorância, você se ajuda, você constrói sua vida de maneira mais realista e assertiva. Foi assim com o pedreiro que aprendeu a fazer colunas e vigas, a montar lajes e paredes e a discernir a quantidade necessária de concreto, pra consolidar uma ideia de projeto. Tão importante quanto sonhar / desejar ter a casa construída, é saber como funciona a construção e quais os assuntos que você vai precisar dominar antes de se arriscar debaixo de toneladas de concreto.

Com essa analogia da construção, coloque-se no papel de morador de sua própria vida. Comece a construir sua sociedade, seu bairro, sua escola, sua família, seu grupo de trabalho, seu círculo de amizades, seu espaço de informação e apoio na internet, suas fontes de aprendizado, seu espaços para exercer arte, cultura, reflexão, interpretação de texto, interpretação da realidade, observação crítica e observação criteriosa. Comece a tomar voz para si e comece a ser independente. Como diz o ditado popular, a plantação é opcional às vezes, mas a colheita é sempre obrigatória. Então, escolha com muito carinho as sementes que você vai plantar, porque lá na frente, mesmo que você não tenha capacidade ainda de perceber, virão as consequências de tudo que você foi, fez, pensou, disse e apoiou. Não se deixe levar pelas coisas simplistas, evitando, assim, ser enganado e tropeçar justamente nos problemas que tentaram te vender como soluções. Abra o olho, senão vão implementar ainda mais projetos pra te manter em uma ignorância ainda mais funda. O sonho de muitos exploradores é ver seus explorados convencidos de que não estão sendo explorados, mas apoiados. As vítimas que se deixam levar por essa imensa ilusão, são descritas como tendo a chamada ‘Síndrome de Estocolmo’, onde o oprimido admira seu próprio opressor.

Esse texto se encerra subitamente, justamente pra criar o espaço necessário pra você exercitar sua autonomia e começar a completar o espaço com seus próprios pensamentos, a reflexão de tudo que aqui foi apontado e a oportunidade de, talvez, começar a planejar melhor o que é que você vai construir no presente, pra não se ver ainda mais derrotado no futuro. Seja lá qual for sua condição, estarei aqui pra continuar meu papel de luta, de esforço pela informação. Desejo que todos um dia, cedo ou tarde, encontrem-se no meio da realidade e consigam, pelo menos, compreender que precisam mergulhar mais a fundo e com sincera autonomia, pra conseguir chegar no bem-estar pessoal e coletivo que desejam, mesmo que estejam perdidos por uma vida confusa de conflitos e sentimentos desconexos, mesmo que tenham caído no equívoco do vício pelo ódio gratuito, pelas ações violentas ou desonestas. Se não é possível mudar as sementes plantadas no passado é, porém, possível escolher quais sementes plantar no presente e ter uma colheita melhor no futuro. Faça sua parte e, se precisar, solicite ajuda, sem precisar sentir vergonha, medo ou qualquer outra coisa que seja uma barreira pra sua mudança. Obrigado por ler e até breve.

Rodrigo Meyer

Como desenvolver conversas produtivas.

Não é de hoje que as pessoas esquecem que nascemos com dois ouvidos, dois olhos, mas apenas uma boca. É muito comum que as pessoas usem da comunicação estritamente para tentar impor, premeditadamente, alguma ideia sobre as outras. Isso começa a se tornar um problema quando é a única (ou mais frequente) forma de comunicação da pessoa. Ao simular uma tentativa de conversa com outros, este tipo de pessoa está sempre procurando uma brecha ou pretexto para inserir alguma informação preconcebida que ela estava conveniente procurando alguém pra ter um pretexto pra falar, mesmo não tendo qualquer necessidade ou encaixe com os demais. De certa forma, são monólogos. Igualmente comum é que duas ou mais pessoas tracem esses monólogos, apesar de estarem juntas em um mesmo espaço de interação, seja na internet ou numa mesa de bar.

Conversas produtivas são aquelas que proporcionam algo além do que já havia inicialmente e que, claro, seja um algo útil para o interlocutor. Conversas produtivas precisam ser, antes de tudo, conversas. Muita gente se esquece que monólogos são facilmente confundidos com conversas, pois estiveram tão habituadas ao egoísmo de só falar, que até na hora de trocar informação com outros, ficam trancados cada um em um monólogo, ousando chamar isso de conversa, devido a substituição recorrente da conversa original pelo monólogo. As pessoas perdem a habilidade de discernir o passado, quando ele é deturpado para que fique apagado.

Acrescentar algo de relevante para outra pessoa depende de quem você é, o que você tem no seu interior e com quem você vai interagir. A combinação de fatores determina se você será apreciado ou rejeitado. É exatamente por isso que algumas pessoas adoram o vazio improdutivo dos monólogos coletivos e outras pessoas não. Para algumas pessoas, o acréscimo do vazio improdutivo cumpre uma função sobre o cenário patológico do indivíduo, quase como a droga que “resolve” a crise de abstinência, mesmo sendo ela mesma um problema (inclusive por gerar crise de abstinência quando falta). Portanto, penso eu, se for pra sentir falta de algo, que seja de algo que soma na minha vida e não de um vazio.

Se você já conseguiu definir quem você é e chegou a conclusão de que realmente quer ter conversas produtivas, aqui vão algumas considerações sobre. Uma conversa produtiva não pode ser uma simples checagem de concordância entre os presentes. Se tudo que você quer saber do outro é se ele concorda ou não com seu pensamento, você já está perdendo tempo nessa interação. O motivo é simples: se a pessoa concorda com seu pensamento, você não tem nada novo pra oferecer a ela e se ela já discorda do seu pensamento, provavelmente você vai apenas se opor e se afastar desta pessoa ou simplesmente ficar numa inútil batalha trocando farpas, cada um com seu posicionamento contrário. Perceba que, seja lá qual dos casos for, não se soma nada. Claro, a menos que o que você busque seja exatamente o já citado vazio improdutivo, com a devida analogia da abstinência de droga.

Em segundo momento, uma conversa produtiva, faz você chegar em visões novas, diferentes, inusitadas, pouco vistas, menos fáceis ou tão fáceis e óbvias que você não tinha pensado como opção para refletir. Conversas precisam traçar conexões entre assuntos diferentes ou, pelo menos, entre pessoas diferentes para um mesmo assunto. Você precisa sentir que está ganhando um presente, um conforto, seja para sua caixa interna de conhecimento, para sua visão de mundo ou para seu estado emocional. Precisam produzir, gerar, acrescentar, fabricar algo que ainda não existia em tipo, qualidade ou quantidade.

Muitas vezes uma conversa não vem acompanhada de fala, deixando os olhares se encontrarem. Decifrar o que o outro é, o que ele vale, o que ele pensa ou sente, também pode nos colocar desarmados diante daquilo, se assim nos permitirmos. Quando duas pessoas estão sintonizadas conversando sobre algo, elas esquecem do passar do tempo e simplesmente tudo que importa vai fluindo. É satisfatório quando mergulhamos no outro sem nos importar com detalhes e aparências e acabamos com os olhos revigorados, a saúde emocional restabelecida, a sanidade ajustada para a direção que nos convém, permitindo que sejamos pessoas mais vividas, com maior número de experiências, com menos covardias, menos hipocrisias, menos mentiras, menos máscaras, menos patologias, menos equívocos, menos inutilidades, longe de qualquer coisa que nos tire a inconfundível humanidade.

Perdemos qualidade de vida quando paramos de viver o necessário. Olhe pras pessoas ao redor e descubra rapidamente quais delas, provavelmente, traçam conversas úteis. Pegue uma fila de banco ou supermercado e note quem são as pessoas que estão satisfeitas com elas mesmas e quais são as que estão apenas tentando fabricar uma interação completamente artificial para projetar uma palavra vazia. Todo dia você vai encontrar diversidade nas pessoas, mas, também muita mesmice nessa diversidade. Em resumo, é bem comum que as pessoas sejam bem diversas no modo como apresentam as mesmices, tal como ter milhares de marcas de roupas, onde todas estas tentam vender padrão social de corpo, moda e consumismo. Esse tipo de diversidade não é uma diversidade útil. É só um vazio viciante a quem se deixa cair por isso.

Uma meta boa de interação humana é conseguir estar de ouvidos abertos para que os interlocutores tenham conforto suficiente para fazer surgir junto a coragem de dizerem coisas profundas, sinceras, espontâneas, verdadeiras, complexas, completas, peculiares, impopulares, nada fáceis, raras, geniais, originais, secretas, ácidas, tristes, bonitas em estado de arte, lapidadas em estado de coerência ou sabedoria, reorganizadas de forma a conseguir convencer que bordões podem ser enojantes diante da honestidade ou simplesmente que existe vida após a mesmice, mesmo que nem toda essa novidade faça realmente muito sentido ou não seja muito duradoura, desde que consiga proporcionar um momento de originalidade, satisfação e diversão, podendo recobrar a razão em outro momento.

Conversa produtiva, pra mim, vem acompanhada de princípios, mas também de humor. Precisa saber encaixar manobras entre um disparo e outro, pra que aquilo se torne uma dança, tal qual é para o corpo que escuta e aprecia uma música e reage com movimentos praticamente inevitáveis. Seria essa a luz responsável pela paz que buscamos? Precisamos experimentar pra tentar responder essa pergunta. Permita-se sentar no chão de um apartamento ou na calçada de um bar, com seu copo na mão, seu olhar atento, seus ouvidos livres da cera do preconceito, mas ágeis o suficiente pra exigirem do cérebro uma resposta inteligente quando ouvirem alguma asneira muito grande. É preciso estar profundamente envolvido com o campo das ideias para preferir infinitas vezes discutir ideias do que discutir pessoas. As fofocas, por exemplo, por discutirem apenas pessoas, caem na toxidade do vício pelo vazio. Pessoas são passageiras, ideias são imortais.

No final das contas, a receita de produtividade em conversas é realmente estar minimamente lapidado, limpo, transformado, tranquilo, pronto, nutrido, embasado, vivido, preenchido de experiências e pontos de vista para mostrar. Quando você se torna a pessoa necessária para a vida, a vida se torna um ambiente fácil de se desfrutar. Você precisa corrigir primeiro a si mesmo e depois, junto com outras também corrigidas, procurar e encontrar os lugares e momentos onde vocês se sintam confortáveis e ao mesmo tempo desafiados. Que seja um lugar com pouca ou nenhuma rotina, mas que tenha a atmosfera necessária pra te deixar confiante e tranquilo em ser, ver, estar e fazer aquilo que você tem sinceramente pra oferecer, sem máscaras, sem fachadas, sem padrões inventados, sem olhares atravessados, sem desconfianças, sem medos, sem inseguranças, sem qualquer tipo de barreira inútil que tire de você a individualidade e atue como uma ferramenta extra que abra portas, aperte parafusos, raspe a ferrugem, solde pedaços soltos, etc.

Este texto, talvez, esteja abstrato demais, uma vez que tenta incluir na equação as diferentes ideias das diferentes pessoas que possam estar imaginando os cenários particulares / específicos em suas próprias mentes e vidas. Eu não sei exatamente quais são as realidades de cada um que cruza com meus textos. Tudo que eu sei (e parcialmente) é o que carrego dentro de mim e o que espero da realidade em torno. Sei que não quero bocejar diante de um diálogo, nem perder tempo com quem fala muito e diz coisa nenhuma. Não quero estar muito tempo ao lado de quem não consegue fazer mais do que desejar ‘bom dia’ e também sei que o que atiça a minha esperança pela humanidade é saber que tem mais gente do outro lado que pode ser divertida e irreverente enquanto o mundo pega fogo. Eu sei, completamente, que quando vou à um sebo passear no aroma envelhecido dos livros, quero alguém que, por exemplo, se convide pra ir junto, só pra exigir que o vendedor dê o preço pela loja toda, pois quer aquele sebo como casa pra morar e que, por não ter sequer uma cozinha, espera que seja feito um bom desconto. Se não for pra brincar com as palavras e situações assim, com as possibilidades e os momentos, dançando junto com as personalidades, não há motivo pra gastar energia em uma interação. Viver custa caro, nos aponta faturas simbólicas todos os dias e precisamos de outras pessoas que nos ajudem a pagar essa conta, multiplicando o capital intelectual, emocional e energético. Precisamos rir do que é incerto, abraçar a coerência, explorar o mistério, vencer em ambientes desconhecidos pelo simples motivo de poder chegar na velhice (ou no finado dia da juventude) e ter algo valioso pra recordar e deixar que a humanidade (ou pelo menos teus amigos e/ou conhecidos) tenham o que herdar.

Você não precisa estar em contato todos os dias, nem precisa escrever um livro ou ter as viagens e experiências mais longas ou esquisitas. Só precisa estar bem encaixado em seu próprio ser, mesmo que (ou principalmente) se sinta desencaixado no mundo. Precisa ter descoberto a sua personalidade verdadeira e não aquela máscara que muitos se esquecem de tirar a vida inteira, mesmo quando bebem, transam ou vão dormir. Você precisa se livrar das correntes pra só depois descobrir quão livre e inteligente você foi, é ou pode ser. Talvez os outros pesem um pouco na sua liberdade, mas, sob certo sentido, a tua liberdade, mesmo quando tentam removê-la, é algo totalmente sobre você. O primeiro passo para tentar ver-se livre é a decisão que você toma na vida sobre quem você é, quem o mundo é e o que você pode fazer a respeito disso tudo. Eu escolho sentar e conversar, escolho virar uma esquina mais de uma vez, só pra descobrir o que mudou, o que repetiu e o que nunca existiu. Primeiras impressões continuam sendo importantes, mas elas não vão nunca me dar as respostas que eu preciso, pois as boas respostas estão sempre abaixo de outras ainda melhores. Eu sigo sempre adiante, em mergulhos cada vez mais fundos. Eu vou e volto várias vezes no mesmo lago, até entender qual é a relação entre as ondas na água e o meu nado. Saio de lá molhado, mas saio de lá com muito mais do que água escorrendo no corpo.

A minha bagagem vem das minhas frases ditas e também das não ditas, das bocas que eu toquei, dos momentos de sexo interrompidos, dos livros que me encontraram enquanto eu estava igualmente perdido, dos idiomas que eu esqueci de aprender e também daqueles que eu insisto e não esquecer. Minha bagagem de conversa aceita café, água, whisky, festa, silêncio, promessa, viagens e passeios no meio da floresta. Todas as minhas memórias estiveram pelo chão das casas noturnas, pelos convites em cima da hora, pelos trens com nomes difíceis de pronunciar. Eram aquela senhora idosa catando latas de alumínio para a reciclagem, a dona do bar namorando um cliente alcoólatra e também o garçom escritor daquela cidade que ninguém nunca ouviu falar. Trago comigo as frases, gírias, manias e todo tipo de comentário corrompido que precise ser reformado e completado pra fazer florescer o brilho do sentido que já existia. Devolvo perguntas estúpidas com perguntas piores, deixando claro a desvantagem em andar pra trás. Eu corro pra interromper, só pra dizer que é hora de atualizar a bebida ou que está tarde e, por isso mesmo, é a melhor hora pra conversar sobre a vida.

Eu chego sem livros nas mãos, porque assim eu tenho motivos garantidos pra arrastar multidões pra perto do beco dos livros. Se empresto inteligência, quero toda ela de volta, com juros compostos contabilizados. Quero sentar na frente de alguém e ser cobrado de sentar especificamente do lado ou o exato contrário. Quero alguém que fale comigo e não de mim, alguém que entenda bem o jogo de ser ambíguo pra fomentar prazer. Quero alguém que me exija senhas simbólicas pra filtrar as possibilidades entre um portal e outro. Quero alguém que me leve pra conhecer problemas, mas que no mesmo dia me mostra uma das possíveis soluções. Quero alguém que fale comigo sobre suas próprias gambiarras e tecnologias, mesmo que elas não funcionem sob nenhuma ocasião. Quero pessoas contando histórias sem um claro ponto de partida, com um meio bastante estranho e um desfecho surpreendentemente engraçado. Quero poder confiar, mesmo que temporariamente, na grandeza do ser humano e ficar um pouco mais perto de uma vida em que eu possa me orgulhar de ter feito algo positivo, honesto, intenso e aberto, mesmo que, em alguns destes momentos, eu estivesse distorcido, perdido, deprimido, doente à beira de cair em um retrocesso.

Agradeço a todos pelas conversas tidas, as que sigo tendo e as que estou plantando para minhas próximas fases na vida. Estaremos conectados pelos textos, pelas mensagens, pelos convites cada vez mais inusitados. Seja lá onde você estiver, você precisa andar além de si mesmo. Corra muito de um lado pro outro, pra saber onde você realmente está e pra onde você quer ir. Faça da sua vida uma gigante conversa produtiva entre você e sua existência. Tão importante quando ser lúcido é estar em contato com sua essência. Descubra-se para além das frases feitas, das noites repetidas, dos bordões idiotizados, das propagandas gratuitas, do papel de trouxa nos tapas recebidos da vida, nos vícios quadrados que só te jogam em ruas sem saída. Comece a ter iniciativa e leve isso pra sua comunicação, falada e escrita. Seja autor da sua própria história e mesmo que não possa controlar todo desfecho ou audiência, terá sempre material importante pra oferecer. E você? O que tem pra me dizer?

Rodrigo Meyer

Quem é que avalia a genialidade de um gênio?

A imagem que ilustra esse texto, retrata Albert Einstein em seu escritório na Universidade de Berlim.

Quando olhamos os acontecimentos do passado, vez ou outra nos deparamos com figuras que foram classificadas, em algum momento, como gênios. Às vezes cientistas, filósofos, escritores, diretores de cinema, políticos, artistas, etc. A princípio, parece natural que alguém se destaque em determinado setor e seja apontado como um nome importante, uma personalidade de grande conhecimento, sabedoria ou estratégia naquilo que faz ou propõem. Ideias inovadoras surgiram derivadas da iniciativa destes que foram apontados em destaque como inteligentes, vanguardistas, líderes ou gênios. Mas, fica a a pergunta: quem é que avalia a genialidade de um gênio? Pressupondo que o gênio esteja acima da média das pessoas, sua genialidade só poderia ser compreendida por alguém de igual ou superior condição. E se fosse feito por alguém de superior condição, deixaria de enxergar, talvez, como gênios os que estão abaixo de seu patamar. Pensando estritamente na questão da hierarquia simples dos graus, um gênio está sempre acima dos que estão abaixo e, portanto, não cabe aos que estão abaixo medir ou compreender sua genialidade.

Que é certo que existem pessoas diferentes no mudo, isso não há de se negar, mesmo que quisessem. É verdade, também, que muitos dos que foram apontados como especiais em qualidades ou setores, de fato figuram como alguém que detém características e ações acima da média, fora do convencional. Portanto, se isso não muda, então há de haver mudança no modo como interpretamos a constatação da genialidade e da chamada “média da sociedade”. É o momento onde deve-se levar em conta que, entre as pessoas medianas, ou seja, entre as pessoas que detém pouca ou nenhuma variação se comparadas com a maioria de uma população, o parâmetro de classificação são elas próprias. Isso significa que uma pessoa mediana é apta a reconhecer outra pessoa mediana e fazer constatações sobre a similaridade entre estas. E, embora não sejam os alegados ‘gênios’, conseguem, por contraste, diferenciar uma pessoa mediana de um gênio, por conta de não conseguir enquadrar os ‘gênios’ no grupo das pessoas medianas. Em resumo, o simples fato de uma pessoa não se enquadrar no padrão mediano esperado, pode render à ela o título de gênio. E, claro, os gênios não são tidos como abaixo da média, pelo simples fato de que as pessoas medianas, por sua vez, já conseguiram compreender e classificar, a grosso modo, as pessoas que estão abaixo da média / abaixo delas.

Até aqui, pensamentos simples foram dispostos, dados óbvios ou quase óbvios foram esmiuçados a fim de deixar registrado o embasamento para o que desenvolverei a seguir.

Numericamente, a população mundial é sempre tida como mediana, mesmo que ao longo da evolução e história tenham desenvolvido habilidades, conhecimentos e tecnologias. Conforme a humanidade sobe de patamar em conjunto, a média humana também sobe. Bastaria citar que a capacidade do homem pré-histórico, deduz-se, era menor do que a do homem moderno, deixando claro que houve uma progressão coletiva. Assim como as pessoas medianas evoluem, os gênios também, seja pelo progresso individual, seja pela melhoria na capacidade de reconhecimento, aceitação e inclusão das figuras ‘geniais’ em destaque no coletivo mediano. De certa forma, o “gênio” só aparece quando as massas medianas estão minimamente prontas a notá-los e reconhecê-los. Quando digo isso, não significa que os “gênios” deixam de existir se não forem notados, mas que passam a figurar publicamente em destaque dotados do título de genialidade concedido quando há esse suporte das pessoas ditas ‘comuns’.

Há uma frase que diz “para os micróbios, o corpo humano é o Universo”. Muitos de nós, inclusive, nos sentimos particularmente assim, quando olhamos pra imensidão de estrelas, enquanto estamos presos em um planeta do qual não podemos sequer vê-lo por completo, sem ter que agrupar registros e lembranças ao longo de uma extensa e lenta caminhada por todos os cantos geográficos. Na questão da intelectualidade (ou da ‘genialidade’ se preferir), seguimos admirando qualquer coisa que nos pareça maior, porém somente até o ponto em que conseguimos compreender. Ou seja, para um leigo em astronomia, a Lua e o céu estrelado visível é a totalidade do Universo concebido, da mesma forma que a inteligência humana é vista até os limites da observação simples pelas pessoas de inteligência mediana. Ironicamente, a inteligência artificial tem mais chances de potencializar a si mesma do que o próprio ser humano que a criou. Fica a dúvida se isso é mérito da genialidade de quem desenvolveu a inteligência artificial na informática ou se é um acaso da própria Matemática fazendo o que nasceu pra fazer: formar potencial em si mesma de forma infinita, aguardando apenas a compreensão dos humanos.

Para a Matemática, os humanos são derivados e inferiores. Não somos infinitos em potencial e nem temos a precisão nata dela. Somos parte do que ela faz e do que ela é, mas temos pouco conhecimento e controle sobre ela. Precisamos, rapidamente, terceirizar nossas funções cerebrais pra que máquinas, robôs e computadores façam a difícil tarefa de tentar abraçar a imensidão de dados e complexidade das variáveis que dão realidade para a realidade. Em última análise, o Universo é simplesmente a manifestação completa, infinita e precisa de si mesmo, sendo, pelo menos até o momento, demasiado para a compreensão racional do parco ser humano. Nos limitamos, portanto, a contemplar o Universo não pelo que conhecemos dele, mas justamente pelo fato de que não é possível conhecer por completo o que é infinito. Tudo que se pode dizer do infinito é que ele é mais do que se pode compreender, por mais que se compreenda um tanto a mais a cada dia. O infinito é inatingível. Por outro lado, fora dessa poesia filosófica da cosmologia, nos limitando a falar superficialmente da realidade do ser humano e das nossas consciências enquanto cérebros formados e alimentados por conhecimentos, genética e químicas, tudo que sabemos sobre a genialidade humana é que ela é, a princípio, infinita em potencial, porém sem nos deixar ver quão longe ela pode chegar.

De forma divertida e mesmo assim, aparentemente, bem realista, Albert Einstein dizia:

“Só existem duas coisas infinitas: o universo e a ignorância humana. Mas eu não estou bem certo da primeira.”

Einstein, geralmente visto e classificado com um gênio na humanidade, em seu provável posto de visão, nota as falhas da humanidade e, mais do que isso, brinca com a ideia de que a ignorância humana é tanta que alcança a infinitude, mas que, por outro lado, nem o próprio Universo, a que se supõem ser necessariamente infinito, recebe de Einstein o título de infinito com todas as certezas, uma vez que o cientista reconhece a limitação dele em relação a infinitude do Universo, não podendo, portanto notá-la ou comprová-la, provavelmente pelo simples fato de que o infinito não é mensurável, uma vez que não tem limites a serem auferidos em definitivo. Essa simples afirmação de Einstein, nos coloca em reflexão sobre o que podemos observar, compreender, dominar e superar. De certo, a ignorância humana deveria ser possível de ser superada, mas, uma vez que compreendemos a infinitude das coisas, para qualquer direção que seja, recebemos como consequência o fato der que não se pode nunca superar em definitivo uma limitação. Isso vai de encontro ao que disse Sócrates, o filósofo grego:

“Só sei que nada sei.”

Sócrates, de maneira similar à Einstein, reconhece sua ignorância relativa, uma vez que vislumbra do alto da montanha de conhecimento e esclarecimento que subiu, todo o imenso horizonte além ao qual nunca sequer havia tocado ou visto de maneira tão abrangente e integrada. Assim, quando um astrônomo olha para a imensidão do Universo, entende, pelo menos, que aquele infinito é impossível de ser superado, por mais que se avance em estudos e explorações de mais e mais áreas. É preciso que alguém saia da condição de leigo, para erguer-se um pouco acima da multidão para constatar uma obviedade que antes não era percebida. Embora sejam obviedades depois de percebidas, eram ignoradas pelas massas, simplesmente porque difícil mesmo é enxergar o simples. Na vida, as pessoas seguem tentando ver as coisas como se dominassem o Universo, mas não dominam sequer a própria bolha de convívio em seu planeta, seu país, seu bairro, suas casas, suas famílias, seus relacionamentos e o interior de suas próprias mentes. Para não me prolongar demais, encerro esse parágrafo apenas dizendo que aquele que não reconheceu sua própria ignorância é o mais ignorante de todos.

Filosofar sobre a genialidade humana, principalmente quando elencamos só figuras clássicas, praticamente extraídas do mainstream, resulta em um texto um tanto quanto simplista. É verdade, contudo, que não se pode querer abarcar todo um assunto e nem mesmo se aprofundar tão mais longe que isso, quando estamos em um formato de mídia que exige ser conciso e objetivo. Um texto em um blog cumpre sua função enquanto conteúdo digital absorvível em certo contexto e tempo. Há muito que se falar sobre os potenciais humanos, as mudanças de paradigmas, as tecnologias, os aprendizados técnicos e práticos, as sabedorias, as filosofias, as propostas intelectuais e ideológicas de indivíduos e coletividades. Reconhecer que há essa imensidão pela frente é justamente fazer o mesmíssimo papel de Einstein e Sócrates de entrar com a progressão, sem deixar de reconhecer a própria limitação. Enquanto eu escrevo, eu dou voz para minha ignorância, mas também adiciono um pouco de reflexão, sabedoria e transformação a qualquer outro que desejar navegar junto em cada ideia anunciada. No final das contas, o ser humano encontra conforto na oportunidade de se ver acompanhado de outras figuras que acrescentem algum conforto ou que instiguem nele a curiosidade sobre algum tema ou sobre si mesmo. Desvendar os mistérios e as infinitudes dentro e fora de nós, nos permite tocar aquela área de contemplação das coisas geniais, sejam elas próprias ou alheias. É sustentando as discussões sinceras que conseguimos lapidar nossas limitações e sair dos cenários que não apreciamos. Podemos nunca nos vermos como completos, mas nosso desejo constante é tapar nossas incompletudes, mesmo que isso seja uma tarefa infinita. Só não deseja este mergulho constante, quem ainda não conseguiu enxergar em si mesmo a completa ignorância diante da infinita sabedoria. Perto da infinitude do Universo, somos explicitamente insuficientes, mas é exatamente por isso que não podemos parar de nos lapidarmos, senão corremos o risco de nos tornarmos incompatíveis com a coletividade que nos rodeia. Quando os absurdos da ignorância humana não fazem mais parte da maioria de um coletivo, os ignorantes acabam por ser dominados e afastados das questões que demandam competência.

Contudo, quando a ignorância se alastra demais, corre-se o risco de dividir espaços preocupantes com os esclarecidos. Uma sociedade que, por exemplo, é composta de 50% de ignorantes e 50% de esclarecidos, entra num conflito grande tentando dar prevalência para o bom-senso, a verdade e o conhecimento. É nestes cenários catastróficos, que um pouco mais de ignorantes pode acabar por arruinar uma sociedade que, provavelmente, vai tentar gerir o mundo conforme sua limitadíssima visão em oposição aos numericamente derrotados da oposição. Cenários assim podem ser vistos agora mesmo, sem uso de computadores especiais, sem grandes telescópios e sem a necessidade de teorias complexas de gênios como Einstein. Com praticamente nenhum recurso, estamos aptos a ver que, em vários lugares do mundo, as pessoas estão convencidas de que, aquela curta compreensão das coisas, é suficiente pra opinar sobre realidades das quais já foram vistas por pessoas melhor capacitadas. A única dica que posso dar é que procure encontrar sua própria ignorância para poder reconhecê-la. Se você realmente se considera inteligente e apto, vai adorar essa tarefa de observar-se com sinceridade e se, durante a tentativa, descobrir que não quer nem tentar, você já constatou que está inapto. Uma vez inapto, tenha ao menos a qualidade de caráter de deixar essas questões maiores para pessoas maiores e melhor preparadas. Não queira ser o leigo em Astronomia que se considera mais capaz que as pessoas de destaque dessa área. Não queira discordar de uma calculadora antes de ter noção mínima de como a Matemática funciona. Simplesmente não tente vencer naquilo em que você simplesmente não pode. Apenas lapide a si mesmo, amplie seu conhecimento, sua sabedoria e seus métodos de aprendizado. Somente quando se livrar de equívocos primários de lógica e argumentação é que terá os seus primeiros passos válidos rumo à qualquer direção que intente.

Rodrigo Meyer