Relato | Mentiras, drogas, racismo, agressões e exploração financeira.

A imagem que ilustra esse texto é uma composição incluindo uma fotografia de uma pessoa fictícia aleatória, pra fins de ilustração do texto. Esse é o relato de uma pessoa que passou por um relacionamento abusivo. Por questões de privacidade, substituiremos o nome dela pela letra aleatória A.

“Quatro anos atrás eu estava inscrita em um desses sites de relacionamento. Foi lá que conheci um rapaz. Ele veio falar comigo e eu me senti prestigiada, pois estava em um momento difícil da vida, onde meu pai havia falecido e eu estava frágil e carente. A vinda desse rapaz veio de encontro à minhas necessidades de acolhimento, principalmente por todos os elogios que ele fazia, que era bem o que eu queria ouvir.

Em dado momento, aconteceu de sairmos do virtual para o mundo real. Fomos nos encontrar. Mas algo não ia bem. Ele estava muito agitado, ansioso, preocupado. Olhava para todo lado como se estivesse com medo de ser visto por alguém. Aquilo me deixou um alerta, mas logo eu abafei aquilo da minha cabeça, pois sempre que eu recuava de insegurança sobre ele, ele mudava tentando passar uma imagem melhor. E assim as coisas foram acontecendo, mesmo que já de início os sinais ruins estivessem lá.

Em seis meses, ele já havia me proposto casamento. Eu me sentia contemplada e na época nem percebia o quão cega e vulnerável eu estava. Ele queria que eu encontrasse um vestido de noiva e planejamos até uma festa. Eu tinha minha vida relativamente estável, com um bom trabalho, meu apartamento, meu carro. Ele dizia ter trabalho e de início me pareceu tudo plausível. Tínhamos realidades um pouco diferentes nesse sentido, mas isso não era nenhum problema para mim.

Eu tinha um filho de relacionamento anterior e ele também anunciava ter um. Não demorou muito pra que ele começasse a contar histórias pra me pedir dinheiro. Alegava que o filho dele estava passando por problemas com droga e diante do contexto, eu ajudava. Mas, cada vez era uma necessidade diferente. De repente era um carro quebrado ou outra coisa qualquer. Eu não via nada daquilo na ocasião. Ele sempre tentava demonstrar que estava estudando ou trabalhando, mas tudo vinha muito só da boca pra fora. Quando algo não parecia muito crível ele se esforçava pra reverter a situação.

O casamento ocorreu no civil, abandonamos a ideia da festa, porque o buffet havia dado errado. Foi o começo de mais situações. Ele passava a depender muito de mim, me pedia dinheiro pra muita coisa e, provavelmente, se aproveitava do fato de eu ter um bom trabalho ou de simplesmente ter um trabalho, já que eu nunca soube se ele realmente tinha um também. Quando eu não dava dinheiro à ele, ele ficava agressivo, me ofendia, discutíamos e mais um sinal estava alí, sem eu notar bem o que estava acontecendo.

Houveram momentos em que o descontrole dele evidenciou o racismo. Ele branco e eu negra, dividíamos um teto pra que eu ouvisse dele expressões horríveis que nunca mais vou esquecer. Diante de meu pai, tudo isso parecia o pior cenário. Tentativas de agressões físicas ocorreram, mas a presença dos meus pais, em especial a minha mãe, foram um oportuno freio. De alguma forma ele tentava passar uma imagem positiva na frente dos meus pais, para ganhar a simpatia deles. Mas, como citei, em momentos mais drásticos, nem isso impedia ele de expressar as piores palavras nos cenários mais errados. Já não havia mais nada de bom alí. Eu só estava me sentindo derrotada.

As mentiras dele foram aparecendo e eu fui me dando conta de que ele mentia para tudo. O filho dele não tinha problema algum com drogas e o mais triste é que, era ele mesmo quem estava mergulhado nelas. Me pedia dinheiro pra sustentar o vício em álcool e cocaína. Os cursos que dizia fazer, nunca frequentou ou sequer existiram. Frequentemente era demitido dos trabalhos e eu não me dava conta desse imenso sinal. A nossa vida sexual era ruim, bem ocasional. Nunca suspeitei que o motivo disso fosse os hábitos dele com drogas. Eu só fui me dar conta da loucura que eu estava vivendo dentro de casa, quando eu encontrei um pino de cocaína no bolso da calça dele. Pensei o quão ruim era tudo aquilo, tendo eu um filho novo em casa. Eu não queria nada daquilo pra mim e nem pra minha família.

Não havia motivos consistentes pra estarmos juntos. Tudo que havia era exploração, agressão, mentiras e ciúmes. Com o meu sucesso profissional e meu círculo de trabalho e amizade, ficou muito claro na mente dele que eu tinha um cenário positivo na minha frente e não faria sentido nenhum eu estar com uma pessoa abusiva como ele. Por isso começaram as críticas ensinuando todo tipo de coisa ou tentando controlar minha vida. Roupas curtas eram um problema e até meu trabalho se tornou um alvo pra ele. De certo ele se sentia fracassado e susbtituível e ele se sentiria mais confiante e seguro se eu perdesse o meu bom emprego.

Mas, eu escolhi ouvir a mim mesma e a observar friamente todo cenário. Passei cerca de um ano observando tudo e percebi finalmente que estava em um relacionamento abusivo do qual eu não deveria aceitar jamais. Depois de tudo isso, estava decidida a me separar. Planejei o melhor momento e maneira pra fazer isso. Surgiu a grata oportunidade de uma viagem à trabalho pra outro país. E foi a brecha que eu precisava pra fazer todas as mudanças na minha vida. Anunciei a separação e assim que ele saiu de casa eu pedi que minha mãe trocasse a fechadura da porta. Finalmente me vi livre daquele sujeito. Eu segui a minha vida, aprendi com tudo isso. Ficou a lição de que a vulnerabilidade gerada pela carência foi o que permitiu tudo isso acontecer. Não sei se posso, mas, talvez, chamaria de sorte por isso não ter desviado pra situações piores. Sabemos de tantos outros casos onde as pessoas são ameaçadas, espancadas, violentadas, perseguidas e mortas. Eu sou grata por ter enxergado tudo, antes que tivesse o risco de conhecer cenários piores e de desperdiçar a minha vida em mais anos com alguém que apenas me usava e nunca gostou de mim.

De divórcio assinado e vida reconstruída, hoje eu invisto em mim mesma e não quero saber mais de nada disso. Quero apenas que meu relato sirva de alerta e de motivação para que outras mulheres consigam perceber eventuais relacionamentos abusivos, mesmo que sejam diferentes dessa minha experiência particular. Que todas elas possam se empoderar e descobrir a mulher forte e cheia de potenciais que são. Que todas elas possam desviar de mentiras, observando melhor os claros sinais. Que elas se tornem mais cuidadosas consigo mesmas e que estejam firmes pra não se deixarem levar por falsos elogios ou promessas. Precisamos, todas nós, nos afastar daquilo que não soma nada em nossa vida, de preferência antes mesmo de começar.

Hoje, o que eu quero mesmo é dançar e brilhar, seguir o meu trabalho e sorrir diante dos novos planos que surgiram pra minha vida. Convites aqui, convites por lá, eu sei que tenho muitas opções para dar saltos ainda maiores. Eu já venci e se você focar em você mesma também poderá brilhar.”

A.

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O que nos cabe nas lutas alheias?

Quando pensamos em causas sociais, lutas pessoais ou coletivas ou qualquer campanha ou esforço sobre algum tema, precisamos lembrar de algumas premissas básicas. Inicialmente, se a luta em questão for específica pra um grupo ou fatia da sociedade, automaticamente essa luta tem protagonistas, que são os próprios interessados e beneficiados pelos resultados da causa.

Em outros casos, as lutas podem ser abrangentes a um coletivo mais genérico e, a princípio, todos podem se tornar ativos igualmente na ação. Há causas, porém, que apesar de não sermos os beneficiários diretos dos resultados, nos tornamos, de alguma forma, como os porta-vozes, devido a questões como ausência de voz ou liberdade daqueles a quem vamos representar (como causas de proteção à natureza, animais ou, então, pessoas que se encontrem em situações onde praticamente não podem responder por si mesmas, seja por razão de suas condições físicas, mentais, emocionais ou pelo contexto específico do problema ao qual estão submetidas).

Essas são algumas diferenças básicas. Nos segmentos de lutas humanas, encontramos os protagonistas e, por isso, é deles o papel de falar em nome da causa da forma que lhes for mais oportuna. Não se pode querer, por exemplo, falar em nome de um grupo ao qual não seja protagonista. Isso não quer dizer, porém, que devemos ser omissos ao assunto ou de não interferirmos diante de uma situação que cobra uma ação ou reação.

Da mesma forma que um astrônomo é escolhido pra falar de astronomia, nas lutas sociais, cada grupo torna seus próprios membros as pessoas mais indicadas a representarem o assunto do qual elas tratam. Na luta do Movimento Negro, por exemplo, não cabe aos demais dizer como essa luta deve ser feita. Para a luta do Feminismo, são as mulheres que dizem como as coisas serão encaminhadas pela causa. Assim o é para o movimento LGBT, para a luta de direitos de cadeirantes, para proteção de culturas e etnias (como entre os indígenas), entre tantos outros.

Para as pessoas que desejam se alinhar com esses direitos e não fazem parte dos grupos específicos, o papel que lhes cabe é de apoio, ou seja, ceder o espaço pros protagonistas de cada causa e apoiar socialmente, procurando intervir com ações somente quando notar que sua ação possa ser útil e/ou ao mesmo tempo a única ou mais provável opção pra evitar uma situação indesejada naquele contexto.

Cabe aos de fora, também, aproveitar os meios de socialização entre seus eventuais amigos e espalhar, dentro do possível, exemplos e correções a equívocos de pensamento ou conduta que estejam alimentando estereótipos, preconceitos, violências e outras abusos e desrespeitos. Muito mais pode ser feito, claro. E nada nos impede, enquanto pensantes, aprender e dividir mais dessas noções de realidade para aprimorarmos nossa conduta em toda a sociedade.

Há alguns anos atrás, especialmente com a consolidação do Facebook como rede social definitiva (aparentemente), foi possível observar um aumento significativo do uso desse palco como forma de expressão social de diversas culturas e grupos sociais. Devido ao acesso um pouco mais democrático que a internet tenta oferecer, pessoas de diversas classes sociais, diversas causas sociais, nichos culturais e com os mais variados conhecimentos e ideologias, puderam finalmente expor ao mundo suas realidades e abrir espaço na multidão, tornando-se mais visíveis.  E isso trouxe repercussões, tanto positivas quanto negativas.

De positivo, podemos citar o acesso e visibilidade dos assuntos, o que permitiu que muita gente se desconstruísse acerca das ignorâncias e equívocos que vinham sendo alimentados por outros meios sociais ou até mesmo sozinho em suas pobres deduções. Então, claro, mais informação transformou o cenário para um ambiente de maior autoestima e valorização desses grupos. Mas como todo opressor tem desprazer de ver seus oprimidos crescerem, é claro que toda essa visibilidade na internet ampliou o número de conflitos virtuais (pois os não virtuais sempre existiram em grande número). Inconformados de se verem expostos em rede e com o ilusório pensamento de proteção e/ou anonimato por trás de uma tela de computador, muita gente se colocou a despejar o entulho interno como forma de reação.

Empresas como o Facebook, Microsoft, Google e tantas outros grandes nomes da modernidade, sempre se mostraram receptivos às causas sociais e, frequentemente, expressaram publicamente este apoio. Devido ao tamanho e influência social que essas empresas possuem na vida de bilhões de pessoas, é possível prever que a tendência natural é que os espaços se tornem cada vez mais inclusivos, afinal, o público dessas empresas é, teoricamente, toda a diversidade de pessoas no mundo.

Embora isso pareça promissor e poético, é preciso manter a atenção, pois existem muitos casos de omissão ou superficial e/ou falsa atenção a casos de desrespeito à certas pessoas e grupos, especialmente em redes sociais, onde o que deveria ter sido repudiado, não teve o desfecho esperado por parte dos responsáveis pelas mídias. Isso não pressupõe exatamente que estejam sendo coniventes, mas que o sistema pelo qual filtram os conteúdos é falho. Digo isso especialmente do ponto de vista humano, onde, pode-se perceber claramente, que em certos casos, pessoas completamente inaptas pra avaliar abusos de certos nichos, estão entre as que trabalham como responsáveis nestas empresas e, por isso, acabam, desviando a justiça para benefício de seus próprios ideais de opressão.

Cabe ao indivíduo que não tem o mesmo poderio de interferir em grandes projetos como essas megaempresas, de fazer também novas pautas ou novas causas para tal finalidade. A omissão não pode ser o padrão, senão acabaremos tendo que nos sujeitar a decisão de alguns poucos alheios aos nossos próprios direitos e interesses. Faça parte do seu grupo local, seja do Centro Cultural do seu bairro, de um Coletivo, de uma ONG ou algum projeto de cunho social. Esteja à frente do seu grupo de amigos, da sua vizinhança, sua comunidade escolar, seus espaços na internet e onde mais achar que há meios de se ampliar seus objetivos. Esteja sempre engajado na política pessoal e coletiva e seja uma peça crucial de transformação do mundo ideal no qual você gostaria de viver.

Rodrigo Meyer

Seu futuro pode ser diferente do seu passado.

Existe, infelizmente, uma crença de que estamos condenados a nossa realidade do momento. Mas, as coisas não são assim. Esse pessimismo e/ou imediatismo é um equívoco diante das possibilidades reais. Inclusive, quem mantém esse pensamento equivocado está apenas dificultando que coisas novas e melhores aconteçam no futuro.

A sociedade brasileira e tantas outras, em similar ou pior situação estão acostumadas que tudo piora e nenhum benefício chega até as pessoas que mais precisam. E alimentam-se de esperança apenas quando algo positivo significativo acontece. Valorizar as possibilidades apenas quando estamos em vantagem não é útil se quisermos viver bem e termos melhores chances pra nós mesmos.

Mas, lembre-se que a proposta não é que você forje ilusões sobre o futuro, nem mesmo sobre o presente, como fazem os otimistas. Não devemos ser nem otimistas, nem pessimistas. Acompanhar as realidades já é suficiente pra que possamos decidir quais opções seguir, pois veremos elas à nossa frente, tal como de fato são ou o mais aproximado possível. Já falei em outro texto sobre a importância da postura realista.

Por pior que tenha sido nosso passado, com as mazelas da vida, as dores, os medos, os traumas, os rompimentos emocionais, eventuais situações de doença física, pobreza material ou experiências desconfortantes, temos sempre que lembrar que tudo isso não é garantia de que sempre será assim. Não significa que um toque mágico vai brotar e fazer tudo mudar, mas significa que, suas ações podem eventualmente te tirar dessas condições. E claro, não são nenhuma garantia também, afinal o que fazemos está dependendo do que podemos fazer, do que temos coragem de fazer, do que temos condições, vontade, visão, capacidade, etc.

Não existe fórmula pro sucesso, mas em tudo que pudermos aprender melhor sobre nós mesmos e sobre a realidade que nos cerca ajudará pra sairmos das situações que não desejamos que continuem. É sempre importante estar de olhos abertos, mente aberta e acreditar cada dia mais em você mesmo e no potencial que pode desenvolver ao longo do tempo. Frequentemente, dependendo da sua situação, será necessário abrir os braços e aceitar ajuda de quem puder lhe oferecer. Não há nada de ruim nesse ato e só demonstra que você está pronto para as mudanças e soluções que poderão vir a seguir.

Se você está vivenciando desemprego, por exemplo, não significa que não poderá estar trabalhando em breve. Se está enfrentando superação de traumas ou depressão, tem um caminho pela frente de tentativas que vão te levar para condições melhores. Embora estejamos sempre ansiosos pelas soluções de problemas grandes assim, não podemos fixar o pensamento na urgência do tempo, porque essas situações podem levar tempos diferentes pra serem solucionadas, dependendo de cada caso. A combinação entre a situação e a pessoa vão formar particularidades na equação e que, inclusive, podem se alterar ao longo do processo todo.

O mais importante pra que nosso amanhã seja melhor que nosso presente é entendermos quais são os problemas que temos ou que nos cercam. Uma vez que saibamos disso, temos que tentar apontar valores, condutas ou iniciativas que nos levem pra escolhas de transformação, de ajuda ou superação. Às vezes o acolhimento junto à algum parente de confiança, um profissional da área médica ou psicológica, um terapeuta, um advogado ou, dependendo da sua situação, um agente de Serviço Social.

Muitas pessoas que hoje estão tranquilas e bem-sucedidas, já passaram por situações difíceis no passado. Lembro-me sempre que o ator Keanu Reeves, que muitos admiram e conhecem pela trilogia de filme ‘Matrix’ e tantos outros, já teve a experiência de ser morador de rua. Apesar de todo sucesso, ele se mostrou uma pessoa simples, dividindo o metrô com os demais, sem extravagâncias. Pode ser que o contato com a dificuldade junto à outros moradores de rua tenha contribuído pra uma conduta mais assertiva diante da fama, mas sabemos que isso não é nenhuma regra, afinal várias outras personalidades que vieram de situações difíceis, às vezes compensam o passado, ostentando riqueza ou até mesmo esnobando as pessoas abaixo. Tudo vai depender do estado psicológico de cada indivíduo e de como ele superou ou não os problemas do passado.

Algumas pessoas se sentem tímidas ou envergonhadas de irem de uma situação melhor para uma pior. É como se estivessem deslocadas de si mesmas, pois se acostumaram a viver num padrão de vida ou em uma situação pessoal mais confortável e, de repente, se veem, de certa forma, humilhadas por terem que se submeter a situações mais difíceis de vida. Acontece muito isso com quem perde o emprego e é obrigado a rever toda sua realidade de hábitos, consumos e até mesmo de socialização.

Andando pelas ruas de São Paulo e também de algumas outras cidades, conheci muito morador de rua. Em cada um deles, situações diferentes. Embora todos eles aparentemente na mesma situação, no momento, cada um teve um passado diferente. Já conheci gente que foi pras ruas depois de serem trapaceados pela família em troca de dinheiro, músicos profissionais, intelectuais, poliglotas e vários outros que, por uma razão ou outra, acabaram sem nada e tendo que se render às ruas. Mas, tendo vindo de baixo ou de cima, o fato é que pro momento presente, encontram-se pelas ruas e, a partir disso, cabe a cada um fazer as possíveis escolhas a cada dia que surge.

Para pessoas em situação de vício com drogas, pode ser ainda mais complexo, pois é difícil até mesmo controlar as opções que se tem ao redor, por questões do momento, do tempo, das reações psicológicas diante da droga ou mesmo da limitação social que existe, por conta do afastamento que as pessoas tem diante desse meio. É muito mais comum vermos, por exemplo, alcoólatras serem melhor recebidos do que dependentes químicos de outras substâncias. A classe média e alta empanturrada de remédios controlados é muito mais aceita socialmente do que os entorpecidos de classes sociais abaixo.

As barreiras pelas frente serão geralmente essas. Preconceito social, restrição de oportunidades de trabalho e socialização, a própria limitação física, alimentícia e psicológica diante do modelo de vida e questões ao redor disso, como abrigo, ocorrências isoladas do convívio diário e até mesmo alguns detalhes sobre as políticas públicas sobre as pessoas nessas condições e a cidade no geral.

O que será do nosso amanhã é, porém, a somatória de nossas ações junto com as oportunidades que o meio nos dá. Se unirmos a superação psicológica dos problemas com a iniciativa da busca de ajuda, já teremos quase todo caminho percorrido rumo à transformação. Eu sou especialmente grato pelo momento em que fui alavancado da depressão no passado por quem me enxergou como alguém e teve paciência e vontade de permanecer do lado até que eu estivesse bem. Eu tive momentos incríveis de muita diversão, prazeres físicos e psicológicos de todo tipo e satisfações na vida como a concretização de estudos, aprendizado de idiomas, autovalorização como pessoa e como potencial profissional, entre tantas outras coisas. Passei de derrotado e sem esperança pra alguém que cultivou uma visão melhor sobre a vida e sobre si mesmo.

O grande salto na transformação dos nossos dias está em como lidamos com o que temos ao nosso redor. Eu fui suficientemente flexível pra aceitar possibilidades. E, por isso mesmo, as possibilidades que existiam ao meu redor surgiram. Tive a oportunidade de me tornar fotógrafo profissional, tendo experiências únicas durante o curso de Fotografia que não teria em nenhum outro curso atual, em razão das ocorrências que são próprias do momento. E isso me fez perceber que muitas portas estão abertas ao nosso redor, mas frequentemente não as vemos, porque não as entendemos como portas para aquilo que achamos que precisamos no momento. Temos que mudar nosso entendimento da equação pra sermos mais bem-sucedidos nas nossas tentativas de se erguer.

Às vezes as pessoas acham que a única porta válida pra quem está desempregado é uma oferta de emprego em um cargo em que ela já gostaria de estar pro resto da vida. Se esquecem, assim, que às vezes o mero contato com uma pessoa, em uma situação que não está diretamente relacionada à essa vaga de emprego desejada, pode ser o elo indispensável pra que a pessoa se aproxime da meta principal. A vida não é uma linha entre dois pontos, mas sim uma complexa teia de relações. Você não pode, nunca, descartar as oportunidades que surgem sem antes estar aberto ao potencial delas. Claro que você não precisa atuar em tudo que surge pela sua frente, mas precisa, sobretudo, conhecer e estar aberto pras possibilidades.

Se eu não tivesse conhecido as pessoas que conheci, no momento em que as conheci, da forma que as conheci e pelo intermédio das outras pessoas que tínhamos em comum, nada na minha trajetória teria sido como foi. Os cursos que fiz, os aprendizados que iniciei, os livros que li, as conversas que tive, as viagens que realizei e até mesmo as decisões mais cotidianas sobre meus hábitos e vontades, me levaram onde eu estou hoje. Controlar essa navegação pode não ser tão simples quanto vislumbrar um horizonte ou destino e decidir seguir pra lá. Lembre-se, não estamos vivendo em uma linha reta entre dois pontos.

Você se surpreenderia em quantas pessoas superaram a depressão a partir de um simples ‘sim’ que deram pra oportunidades totalmente desvinculadas com tratamento de depressão. Você se surpreenderia em quantos fotógrafos foram formados a partir de um ‘sim’ para uma amizade despretensiosa. Se surpreenderia em quantas pessoas ganharam a tão desejada credibilidade e valorização apenas por se colocarem em uma postura mais aberta e receptiva diante de momentos. Seu próximo trabalho pode estar atrás daquele emaranhado de conexões de um conhecido que tem um amigo do primo da vó do funcionário de uma outra pessoa, que, essa sim, vai te apresentar pra um projeto que não tem absolutamente nada a ver com seu trabalho pretendido, mas que em certo momento, vai ser dividido pelo amigo do vizinho que finalmente é o seu elo final pra solução que você buscava desde o começo.

Resumindo: esqueça essa crença de que o futuro não tem solução e que as portas que você encontra pela frente não te servem de nada. A vida é feita de interações. Quanto melhor for seu networking, melhor serão suas possibilidades. Esteja sempre em contato com tudo e com todos e verá como surgem coisas tão diferentes de cada conexão. A diversidade nos leva para novas possibilidades pois cada pessoa tem um universo dentro de si e milhares de outras novas conexões distintas que vão alterar, a cada vez, a trilha que percorremos entre todas essas mais de 7 Bilhões de pessoas que existem no mundo.

Se você despreza a teia, está contrariando a própria matemática da vida e está se boicotando diante do seu próprio sucesso e benefício. Se você começar a desenvolver amor-próprio e se abrir pra situações que te beneficiam, terá as melhores chances de vencer e se dar os melhores resultados possíveis na vida conforme suas realidades gerais. A todo momento eu estou passando e estendendo as mãos, mas, infelizmente, muita gente se fecha e acaba deixando as oportunidades passarem. Eu me sinto grato em perpetuar esse ciclo de transformações por ter entendido o potencial e necessidade de tudo que foi feito pra mim e, depois, por mim. Viveremos melhor se ajudarmos uns aos outros a subir.

Em todo lugar que você estiver, seja grato pelas coisas todas que te beneficiaram ou que podem vir a te beneficiar. Esteja em contato com as pessoas numa relação transparente, seja lá quais forem seus problemas pessoais. Quem tiver mérito pra estar do seu lado, apesar dos seus problemas, estará e quem não estiver, felizmente, irá embora deixando o caminho livre. Não se menospreze pelo modo como você está hoje, porque estar e ser são coisas diferentes. Estamos sempre em constante transformação e o que somos hoje, poderemos não ser amanhã.

Rodrigo Meyer

Vício em lixo é falta de amor-próprio.

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Todo mundo conhece alguém que já aceitou situações ou pessoas que não deveria. Conhecemos inúmeras pessoas que consomem produtos, mídias ou serviços que são absolutamente dispensáveis. Isso nunca foi novidade. O vício em lixo acompanha o ser humano há eras, pois a humanidade não mudou muito ao longo do tempo. Estamos claramente vendo que o ser humano aceita todo esse prejuízo porque não tem amor-próprio. E isso não precisa ser assim.

Pense da seguinte maneira: se você gosta de alguém, você dá um presente à essa pessoa, algo bom, interessante. Certo? Não há como dar papel higiênico usado como presente de aniversário pra alguém, à menos que você não goste da pessoa. Estamos entendidos?

E quais são as coisas que você anda se dando ao longo da vida? Quem são as pessoas com quem você está se relacionando? Em quais situações você se coloca? Que tipo de ocorrências você permite em seu meio? Você absorve as ofensas que lhe entregam ou as recusa? Você acredita na palavra dos opressores ou dos amigos? Qual a qualidade dos amigos que você mantém? Tudo isso (e muitas outras coisas) são os presentes que você dá pra si mesmo. Agora é só analisar se esses presentes são bons ou ruins.

Se estiver se dando muito lixo, então você não está se gostando. E se esse for o caso, precisa trabalhar sua mente, suas memórias e seus traumas. Porque razão passou a se ver sem valor a ponto de não gostar de si mesmo? O que te fez chegar ao sentimento de inferioridade que tem? E se isso veio de alguma situação ou pessoa, me diga algo simples: você quer se dar presentes bons ou a opinião de pessoas e situações que te reduzem? Se quer se dar presentes bons, terá, automaticamente, que apagar a importância dessas pessoas ruins que te fizeram sentir-se inferior ou sem valor. E, então, automaticamente, você se empodera, se recoloca no seu lugar e deixa de se sentir inferior. Você começa a se valorizar, se gostar, ter amor-próprio. Esse é o começo da sua nova vida. É daí que vai se estruturar pra se conhecer novamente, pois até então não se conhecia tal como é, mas apenas tal como outros queriam que você fosse ou como lhe fizeram acreditar que você fosse, mesmo não sendo. Hora de mudar e avançar!

Nessa equação, ajuda muito se você se desintoxicar de todo lixo e vício que tenha. Comece mudando seus hábitos na internet. Pare de assistir e ler coisas sem valor que só trazem lama e superficialidade. Comece a consumir coisas que te coloquem num patamar mais elevado, onde você realmente merece estar. Não se permita mais se rebaixar aos conteúdos ruins das televisões, revistas, jornais, sites, grupos e também das conversas entre seus contatos.

Repense também seu emprego, suas metas, seus objetivos e suas formas de se relacionar com as pessoas. Se está acostumado a ver sempre os mesmos grupos, isso pode ser uma segurança, mas se constantemente está criticando ou armando brigas nas conversas e comentários, então está viciado em lixo. Se as páginas só te servem pra humor de baixa qualidade e os vídeos do Youtube lhe parecem muito ruins, é chegada a hora de dar um basta e se livrar desses consumos.

Quando a gente se desintoxica de vícios, sejam eles psicológicos ou químicos (incluindo os alimentares), precisamos estar prontos para coisas novas. Não nos será permitido que retomemos a certas coisas, pois corremos o risco de desistirmos da solução e voltarmos rapidamente para mais lixo. E, sabemos, o amor-próprio não se relaciona com essa conduta. Para se ajudar, progredir e se sentir feliz e satisfeito consigo mesmo, terá que tomar a decisão mais difícil: aceitar-se ou destruir-se, amar-se ou odiar-se. E isso só você pode fazer por você mesmo.

Se eventualmente você achar que está passando por situações muito além do que consegue lidar sozinho, busque ajuda profissional ou ao menos entre em contato com bons amigos (esqueça os ruins) e comece a buscar as respostas sobre aquilo que precisa pra erguer-se de maneira coerente. Deixe de lado aquelas ideias simplistas de que pensar positivo e sorrir diante da guerra é tudo que se precisa. Quem te diz isso, pouco se importa com suas dores e problemas. Dê-se, até mesmo nessa fase de ajuda, as pessoas que realmente podem te fazer algum bem. Queira por perto pessoas que te dão, na cara, as realidades que você precisa absorver pra começar a retomar as rédeas da sua própria vida.

É preciso controlar-se para não tropeçar na terrível ilusão de que se vale menos do que de fato vale e, claro, de não acabar se superestimando além da realidade. Seja realista. Pare de alimentar monstros e comece a alimentar seus potenciais, seus talentos, sua personalidade, suas vontades e desejos. E trabalhe, trabalhe muito. Deixe sua marca no mundo e mostre à todos aquilo que só você pode mostrar. Se precisar de uma mão em algum projeto, me chame.

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Rodrigo Meyer

De quem é a culpa pelos rumos de um país?

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A imagem que ilustra esse texto é parte de uma fotografia de Marc Schlumpf, tirada em 3 de maio de 2009 do “Landsgemeinde”, uma das mais antigas formas de democracia direta que ainda são praticadas em lugares na Suíça.

Ainda que governos interfiram no andamento das coisas em um país, quem permite a existência ou permanência desse governo, é o povo. Mesmo em situações de invasão e golpes, o desfecho de qualquer país está diretamente relacionado com o quanto somos permissivos. Se nos recusarmos a manter certos tipos de políticos no governo, estaremos protegidos de outros oportunistas.

Na Islândia, o Partido Pirata conseguiu reverter uma situação inaceitável, tendo o povo como núcleo da transformação. Reunidos em defesa de si mesmos, demitiram todo o governo, sem nenhuma exceção. Simplesmente se livraram de tudo que ali existia. Além disso, prenderam cerca de 26 banqueiros. Essa decisão que muitos países acham incrível e impraticável, aconteceu por lá como resposta à corrupção. Uma vez que não aceitavam aquilo, uniram-se e tomaram uma iniciativa curta e direta, sem meios termos.

Mas porque outros países não fazem o mesmo? A diferença crucial está na população. A Islândia não é composta de brasileiros, nem de americanos. Ela é formada de islandeses. De onde vem esse engajamento e união dos moradores da Islândia? Vem de tudo aquilo que construíram ao longo do tempo pra si mesmos. Cultura entre as pessoas e valorização do indivíduo, dentro das escolas, das famílias e da sociedade em geral. Houve um esforço sincero de avanço nas questões sociais e psicológicas de cada pessoa e uma infinidade de avanços sociais como resultado de todo o verdadeiro interesse em construírem um ambiente bem-sucedido, onde todos se sintam interessados em continuar apoiando os benefícios e, portanto, apoiando a si mesmos.

O Brasil, contudo, é o inverso disso. Aqui o individualismo reina e nada temos em investimentos de psicologia, sociologia, educação, cultura e afins. O paraíso da Islândia não é um acaso, não é sorte e não é algo mágico que sempre existiu firme e forte. Países como a Holanda estão fechando presídios por ausência de presos. A criminalidade some e como consequência o controle social torna-se menos necessário. Qual é a mágica? Países como a Noruega, por sobrarem tantas vagas em presídios, chegam a importar presos, como forma de contribuir com outras comunidades ao mesmo tempo em que dão alguma serventia pras estruturas que já existem.

Mas a obtenção desses benefícios sociais não depende exatamente dos políticos ou governos. Quem dá abertura pra que essa realidade seja planejada e desenvolvida é a população, que determina aquilo que aceita ou não nos postos de trabalho, na sociedade ou fora dela. Unidos entre eles mesmos, eles decidem o que querem pra todos. Debates e conversas abertas entre todos os interessados vão apontar à eles se devem investir na raiz dos problemas ou se devem enxugar gelo, como muitos outros países fazem.

Certos países se beneficiam de um paraíso que eles mesmos se determinaram a construir. Já se perguntou quais são os países que possuem menos presídios, melhores escolas, índice zero em analfabetismo e fome? Quais são os países que estão derrubando corrupção e fechando presídios? Porque estão fazendo isso? Como estão conseguindo chegar nesse nível de solução social? Seria mágica? Será que demandou muito dinheiro? A verdade é que quando você para de enxugar gelo, você não joga dinheiro no lixo comprando pano toda vez que ele encharca. Investir certo da primeira vez economiza dinheiro ao invés de demandar mais gastos. Mas, os corruptos e exploradores querem continuar a vender panos para países como o Brasil, que passam a vida enxugando gelo e continuam na mesma situação há séculos. E é a população que permite que esses exploradores existam.

Entendo que boa parte dos brasileiros e da população mundial geral não possuem noção de potencial próprio, de união ou de cultura. Não há como esperar que estes desejem imitar a Islândia, por exemplo. Falta em muitos por aqui, infelizmente, vontade de honestidade própria ainda. Como poderemos, então, cobrar que os políticos sejam honestos? Que sentido teria um brasileiro corrupto querer demitir um governo corrupto? Que moral possui um brasileiro desse tipo pra cobrar qualquer coisa em seu próprio país? Onde se aceita o erro, não se cobra a correção. A equação não é mais complexa que isso. O povo é, portanto, o responsável pela situação de seu próprio país.

Claro que podemos nos dar as mãos, nos ajudar e começar a reverter isso. Podemos, se quisermos, repensar valores, repensar a ética, repensar os dramas psicológicos, as estruturas familiares, o desempenho educacional, o interesse pelo aprendizado, as transformações individuais e coletivas por meio de acompanhamento, apadrinhamento, amizades positivas, engrandecimento dos acertos, empoderamento das pessoas, valorização do indivíduo, inserção das pessoas nos meios sociais, reintegração das pessoas por meio de reabilitação física, emocional, psicológica, social, intelectual, funcional, entre tantas outras coisas.

Há muito trabalho pra se fazer e não serão os governos corruptos que terão interesse de ajudar nesse progresso. Muito pelo contrário. O que eles puderem fazer pra ampliar a miséria e a desigualdade social, farão, pois isso ajuda alguns poucos em termos de poder e dinheiro. A miséria dá lucro, a violência dá lucro, a ignorância dá lucro. Um país derrotado e afundado como o Brasil é uma mina de ouro pra uns poucos, na velha prática de se enxugar gelo.

Claro que as saídas não ocorrem da noite pro dia, mas isso não é uma deixa pra você voltar ao conformismo ou a desistência do tema. Pelo contrário. Sabendo que há muito pela frente, você precisa ser duas vezes mais engajado na transformação das pessoas. Pegue uma pessoa da sua família, do seu círculo de amigos, do seu meio social, do seu trabalho ou colégio e plante suas sementes. Você tem o potencial de fazer algo para alguns e deve se juntar à mais gente que faça o mesmo. Juntos estarão transformando multidões. A progressão matemática da união é a diferença entre gotas tentando lavar um quintal com lama em comparação com gotas unidas, formando uma enxurrada de água. Separados somos frágeis e pouco eficientes, mas juntos somos poderosos.

Não incentive as pessoas que batalham pela desistência da luta. Essa luta delas é, muitas vezes, fruto de más reflexões ou até mesmo ações coordenadas por quem quer dissuadir as pessoas da ação de transformação. Quando alguém tenta montar coletivos de transformação social, empoderamento e similares, logo isso começa a deixar corruptos inseguros, pois se muita gente fica consciente e engajada, podem acabar varrendo pra fora o entulho do país. A Islândia fez isso e quase nenhum país ou mídia teve interesse de anunciar o fato. Não houve nenhuma discussão sobre uma das ocorrências que considero mais relevantes no mundo moderno.

Pessoas ao redor do mundo estão fazendo seus papéis, conforme o poder de união que conseguem entre as pessoas. O brasileiro, enquanto for pouco receptivo para a ajuda, se verá longe da solução de seus próprios problemas. A cada vez que alguém estende as mãos, passa pelo Brasil toda uma oportunidade de surpreendermos o mundo. Não adianta ficar acomodado, esperando as coisas mudarem sozinhas ou pela ação dos outros. A sua ação é tão indispensável quanto a dos demais. A equação que funciona não é alguns fazendo e outros olhando. É preciso que todos façam seu papel e aceitem a interação proposta. Só assim você verá seu esforço ser revertido em algo que efetivamente funciona.

Em todos os textos, estou aqui estendendo minhas mãos em muitos sentidos. Através dos contatos que estamos traçando dentro e fora da internet, com os mais variados tipos de pessoas, nas mais variadas situações de vida, vamos construindo uma teia, uma rede de contatos. Sei que grande parte das pessoas sequer poderão acessar a internet para desfrutar dos textos, mas para os que podem, cabe o compartilhamento dos aprendizados, levando tudo isso ao maior número possível de pessoas.

Já escrevi em textos anteriores, sobre a importância de iniciativas no trabalho e nos estudos, promovendo acesso e função para nossos trabalhos e habilidades. Precisamos fazer algo mais de nossos talentos e conhecimentos, permitindo que eles sejam também ferramentas de transformação social. É muito mais interessante viver na Islândia do que no Brasil. Então façamos do Brasil uma Islândia ou qualquer outra coisa que entendermos como um ideal para nosso povo.

Somos mais de 200 milhões de pessoas atualmente. Você se pergunta quantas dessas pessoas tem condições e vontade de habitar espaços livres? Quantas delas buscam status e dinheiro como forma de se isolarem dos demais ao invés de buscarem a equalização da qualidade de vida pra todos? Quantos estão preferindo morar encarcerados na própria casa, por falta de interesse de resolver os problemas sociais pela raiz? Querem enxugar gelo a vida toda ou querem desfrutar do bem-estar da Holanda, Islândia, Noruega e afins? Pense diferente, pense melhor, pense pra frente, pense que você pode ser a diferença na equação. Mude a si mesmo e o mundo ao redor magicamente abre alguns caminhos bem tranquilos para retribuir.

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Rodrigo Meyer

As máscaras do ser humano.

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Em um efeito bola-de-neve terrível, a humanidade mediana alimenta as pessoas com seus próprios complexos e traumas. Ao invés de solucionar e superar os problemas, despejam reações doentias como expressão dessas condições anteriores. E, claro, isso forma mais doentes. A desarmonia é o único resultado e todos ficam infelizes. Não é algo inteligente ou útil de se fazer. A boa notícia é que nada precisa ser assim.

O ser humano reage com máscaras para tudo que ele não tem interesse de manifestar com sinceridade. É assim em quase todos os temas da vida. Você verá, por exemplo, pessoas usando religiões como pretexto ou fachada para pensamentos opostos. Verá estas fachadas servirem como desculpa pra cegueira reforçada e pro ódio generalizado, tanto quanto servem pra acobertar crimes e os justificá-los.

Em certos países, por exemplo, “igrejas” ao estilo das que temos no Brasil, como estruturas de captação de dinheiro e disseminação de ódio, são totalmente proibidas de sequer entrar no país. No Brasil, a prática é permitida e até incentivada, uma vez que não há cobrança de impostos para se abrir um a quadrilha dessas, desde que estejam sob a fachada de uma religião ou igreja, pois podem, assim, justificar toda e qualquer movimentação ilícita de dinheiro e até certas práticas além.

Assim sendo, os maiores interessados nesse tipo de crime ficam altamente interessados em abrir “igrejas” pra essas finalidades. Bandidos como são, não me surpreende em nada que estas mesmas pessoas figurem em notícias de estupro, assassinato, tráfico de drogas, corrupção na política, disseminação de ódio e violência, formação de todo tipo de grupos de apoio à criminosos e práticas criminosas.

O público que adentra pra muitas dessas religiões e igrejas, pouco está interessado nos princípios pregados pela figura central. Em tempos onde esses aglomerados dizem, por exemplo, que são cristãos, é incoerência pura que detestem plenamente toda e qualquer pessoa que tenha atitudes, ideologias ou práticas como as de Jesus Cristo. No uso mais elementar da lógica, não se pode atribuir à essas pessoas nenhuma proximidade ou gosto pelo cristianismo, visto que não possuem igual proximidade e gosto pela figura que o referencia: Jesus. Se Jesus voltasse, certamente seria perseguido e morto pelos próprios “cristãos” de hoje em dia, tamanho o contraste dos ideais.

Mas, máscaras são usadas livremente, pois o que se pretende com esses crachás e práticas não tem nada de espiritualidade ou ideologia religiosa. Essa fraqueza em admitir os motivos reais vem da insegurança e instabilidade do ser humano adoentado que, munido de muitos complexos e traumas, teve uma vida saturada de abusos, fracassos, incômodos e tristezas. Mas ao invés de resolvê-los, escolheu despejar ódio em quem não tinha nada que ver com isso. Eis o porquê tantas dessas pessoas são figuras que tudo apontam e reprimem no outro, assim não precisam focar os olhos em si mesmas. Camufla-se o preconceito com uma citação bíblica ou um discurso de um bandido vestido de pastor, por exemplo. É conveniente.

Também são igualmente comuns as máscaras políticas. Engana-se enormemente quem acredita haver interesses ideológicos sólidos por trás da maioria das escolhas de vertentes políticas. Assim como em muitas partes do mundo, no Brasil, a simples distinção entre Esquerda e Direita, já não tem nada a ver com escolhas de caminhos políticos para gestão social. As pessoas adotam o termo “direita” sem nem ao menos saber o que isso significa. Para elas, ser direita é apenas a forma de se opor à Esquerda, seja lá o que isso represente.

Se alguém, por interesses obscuros, quiser dizer que algo é ruim, basta associá-lo ao outro “time” nessa dualidade e fazer com que toda massa de um lado apoie qualquer coisa e combata qualquer coisa. E essa imbecilidade vem do fato de que elas não estão lá por ideais políticos, mas apenas por medo e ódio, seguindo cegamente o que sequer conhecem. Então veste-se a máscara de um ou outro “posicionamento” para formar um “time” entre a dualidade pretendida e defender isso ferrenhamente como, infelizmente, ocorre com os times de esporte em várias partes do mundo. O famoso “eu versus o outro”, independente de quem eu seja e de quem seja o outro. É, por si só, hilário, apenas de se ler. Imagine na prática! (Esse vídeo pode te ajudar a rir ou vomitar mais).

Máscaras também são utilizadas nas profissões. É lindo adotar um nome que esteja em alta, na moda, que renda status ou até uma noção despojada de vida. Por muito tempo, as profissões de arquiteto, engenheiro, médico, advogado e empresário, eram o ápice da nobreza e quem não seguisse por esses cursos era mal visto e desprezado pela família. Ainda hoje isso existe, pois essa cobrança social (dentro e fora das famílias) é passada de geração pra geração como um papagaio que repete eternamente o que é e o que não é bom de se ser, fazer ou ter, segundo o que ouviram a vida toda.

E o problema de se vestir tais máscaras é que por trás desses supostos títulos de médicos ou advogados não se encontram os verdadeiros profissionais. Atrás da máscara de um médico, pode-se encontrar, infelizmente, todo tipo de bandido desinteressado em cumprir com seu juramento de salvar vidas. Desde pessoas que defendem a morte de pacientes por questões de “oposição política”, de racismo, de machismo, até situações onde o descumprimento da profissão é generalizado, tornando-se apenas uma fachada para cometer crimes rotineiros, como foram muitos casos de estupradores (inclusive de crianças) que adentraram na área médica pra viabilizar tais objetivos.

A humanidade usa máscaras o tempo todo. Ela tenta parecer melhor, mais honesta, mais espiritualizada, mais culta, mais forte, mais nobre, mais viva, mais bonita, mais jovem, mais interessante, com mais poder de influência, mais noção da realidade. Mais, mais, mais. E, debaixo das máscaras, apenas menos, menos e menos. E o próprio uso constante das máscaras apodrece o que há de bom por baixo. O constante sufocamento pela fachada, elimina gradualmente as chances de algo bom sobreviver naquela pessoa. E assim contaminam-se até o ponto de não mais se reconhecerem senão pela imagem da máscara. E quebram a cara, claro, ao se chocarem com todo tipo de realidade, pois a verdade não muda, apenas porque alguém se fantasia. Usar a foto de um pássaro amarrada no rosto, não faz ninguém voar e no primeiro penhasco despenca sem volta.

Abandonar as máscaras o quanto antes é benefício pra própria pessoa. É sem elas que terá oportunidades de se realizar como ser humano, encontrar seus talentos na vida, suas verdadeiras preferências e gostos, suas ideologias, suas filosofias, seus valores, suas práticas, suas realidades e outras pessoas que igualmente vivem essas realidades, sem máscaras. O “clubinho” das pessoas verdadeiras ainda não é popular, mas podemos sempre ampliar esse grupo e mudar o jogo. Basta querermos.

Assim que abandonamos uma máscara, entramos automaticamente pro lado das pessoas que lutam por espaços gratificantes de se viver. E será cada vez mais fácil viver nesse lado, se mais pessoas estiverem lá, pra apoiar e interagir. Difícil mesmo é socializar às cegas com todo tipo de ódio e violência que brota nesse carnaval de máscaras nada parisiense. Deixe as máscaras apenas para jogos temporários de diversão. Verá como é bem mais interessante e produtivo dividir a realidade dessa forma. As máscaras sociais, por status ou pra acobertamento de falhas de conduta, prática ou pensamento, não trazem benefícios pra ninguém. Comece se amando hoje mesmo e transforme-se numa pessoa melhor pra si mesmo. Ao fazer isso, você se torna melhor também para os outros que terão que conviver com você e, certamente, eles começarão a retribuir isso pra você. Seja inteligente na sua escolha.

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Rodrigo Meyer

Explicando a televisão para um alienígena.

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Muita gente mora na Terra e desconhece as coisas das quais consome. A televisão é uma recordista nesse sentido. A maioria das pessoas que assistem não conhecem exatamente o que ela é. São, portanto, as vítimas perfeitas. Então a explicação que daríamos à um alienígena, pode servir muito bem para os terráqueos que ainda se veem presos à essa caixa.

Se um extraterrestre chegasse na Terra curioso pra saber pra que servem algumas coisas daqui, cedo ou tarde eu teria que falar da televisão, pois, infelizmente, é uma das coisas mais populares no mundo todo. Seria obrigado a explicar que temos Síndrome de Estocolmo em níveis estratosféricos. Talvez eu espante o alienígena com a descrição do telespectador encantado pela televisão ou, no máximo, o deixe interessado de invadir a Terra por ser um ambiente tão fácil de ser controlado. Deixaria a seguinte explicação à ele:

Veja, aqui na Terra inventaram algo sublime que foi a transmissão de imagens de um ponto à outro. Televisão é, em resumo, uma visão à distância, pois podemos conectar uma captação em um lugar e fazê-la visível em outro. A invenção é ótima, mas o que fizeram com ela foi catastrófico. Assim como a descoberta da divisão do átomo foi algo notório, mas o uso das bombas atômicas foi o trágico desfecho. Em tudo que o ser humano torto toca, ele entorta, para se adequar à sua ignorância, sua má índole e assim por diante. Com a televisão não foi diferente.

Passaram-se longas décadas, mas ainda é assim. A televisão evoluiu em tecnologia, mas não em função. Ela continua sendo um aparelho que se coloca na frente dos olhos para ter uma dose diária de vazio, manipulação, opressão, preconceito, aprisionamento da mente, estímulos de consumo de produtos absolutamente desnecessários e modelagem da mente para que os consumidores enxerguem tudo isso com bons olhos ao invés de se opor.

Sejam canais abertos ou pagos, o entulho é o mesmo. Te entregam com imagem,som e mensagens subliminares, reportagens falsas, notícias editadas para favorecer criminosos, ruídos para ocupar sua mente o dia todo e evitar que você aproveite o silêncio para pensar e olhar pra dentro de si mesmo. Também gastam bilhões nisso, pois o retorno é garantido. Como é algo que funciona bem e as pessoas assistem com gosto, diversas empresas buscam a televisão para anunciar produtos, serviços e ideologias. Lá se espalha tudo que se queira, com tanto que se pague bem e que seus ideais estejam alinhados com a opressão da emissora que vai transmitir a programação.

Os canais são muitos, mas todos eles são praticamente a mesma coisa. A ilusão de diversidade é uma meta. Na verdade, essas mídias competem todo dia pra ver quem ganha mais audiência, pois audiência é lucro. Se mais gente se predispõem a levar chicotada nos olhos e apreciar cada vez mais os períodos de propaganda entre uma manipulação e outra, mais consumo acontece e todos ficam satisfeitos com o sucesso da prática de exploração.

Você poderia imaginar que, sendo esses conteúdos tão ruins e sendo vantajosos apenas para os exploradores, que eles devem ser oferecidos gratuitamente para que não haja a barreira financeira com o público. Mas não demorou muito pra que eles tentassem cobrar das próprias vítimas pela manipulação que elas sofriam. E fizeram isso tão bem que os preços até subiram. Chamam de televisão paga ou televisão à cabo. Ela também é transmitida por satélite. Os canais por lá são outros que não estão na televisão aberta e, por isso, muita gente acredita que são canais especiais, com conteúdos especiais. Mas, mesmo estando pagando por eles, os canais são até piores, pois se tornaram especializados. Agora a manipulação chega mais fundo, encontra mais pessoas, e as manipula de forma mais eficiente.

Enquanto na televisão aberta o conteúdo é mais genérico e, sendo gratuito, geralmente entregue aos pobres, na televisão à cabo, tenta-se colocar conteúdos para uma classe que pretende pagar pela chicotada nos olhos. As mensalidades da tv paga sobem sempre de preço e se você deseja comprar o pacote mais barato de canais, te entregam somente os canais que ninguém quer assistir, pois assim você já gasta um dinheiro em vão logo no começo pra ficar insatisfeito e desejar pagar mais dinheiro pra ter pacotes com outras opções de canais. E assim você avança no gasto proporcionalmente. Se desejar ter canais específicos, vai precisar, praticamente, comprar planos completos, onde você financia 90% dos canais que não quer assistir para ter acesso à 10% de canais que realmente quer assistir. E o preço, claro, fica tão desproporcional que a exploração fica notória até pros mais cegos.

Quando as pessoas percebem que estão jogando dinheiro no lixo, os canais e empresas de acesso, recorrem à uma boa propaganda, mostrando que jogar dinheiro no lixo é o máximo do valor, do luxo e da qualidade de vida. Poder ostentar 500 canais de televisão e assistir apenas 2 é como comprar uma plantação de arroz para comer só uma colher dele. A ostentação do poder aquisitivo, nesse público, é defendida como ideal de vida, como algo de qualidade. E, claro, sem cultura como são, concordam e repetem essa mentira aos quatro cantos do planeta.

Nos canais da televisão aberta, jogam imagens e notícias de violência, mas com uma edição. Seria mais ou menos como dizer que todo Universo é branco, apenas porque filmam o sol, com a câmera desregulada e dizem que tudo que há no Universo é aquela luz branca ocupando a tela toda. Não pensantes como são, os telespectadores agradecem pela notícia falsa e pedem mais. Saem nas ruas acreditando que 1% é mais importante que 99%. Passam a acreditar que a bicicleta de rodas quadradas é o padrão das bicicletas pelo mundo todo. Há muita eficiência na manipulação dos fatos, pois as pessoas foram acostumadas a acreditar que Fotografia e Vídeo são reflexos da realidade, por conta do realismo gráfico dessas mídias. Elas são capazes de confundir uma novela ou filme com realidade.

Por aqui na Terra, especialmente em países mais pobres, você verá telespectadores que saem na rua e encontram atores que interpretaram vilões e lhes xingam, como se o ator fosse um vilão na vida real. Essa associação entre televisão e realidade é tanta que as pessoas dão como fato qualquer notícia que apareça por lá. No rádio, que não é tão diferente da televisão, muitas coisas nesse sentido marcaram época de tão ridículas. Orson Welles que o diga, quando narrou uma ficção no rádio, onde contava a invasão alienígena. As pessoas que ouviam, acreditaram como se fosse real e se desesperaram. Foi um caos generalizado. Isso mostra que, a falta de cultura pode fazer as pessoas não distinguirem ficção de realidade.

O investimento de cada telespectador nas mídias e nos equipamentos são constantes. Uma televisão antigamente mal chegava nas 14 polegadas e com o tempo elas foram ficando maiores e mais sofisticadas. Atualmente a disputa é por televisões cuja imagem tenha o máximo de definição possível, mesmo que 99% de todo conteúdo que é transmitido nela, não tenha essa qualidade para ser aproveitada. É como comprar uma Ferrari pra dirigir numa rua esburacada em um engarrafamento de metrópole. Custou caro e nunca sairá do lugar na velocidade que tem potencial de sair. É apenas um gasto inútil mesmo. Mas tem dado muito certo. Os modelos mais caros continuam a ser os mais desejados.

Sobre detalhes da programação eu teria que dizer aos poucos, pois posso acabar te fazendo vomitar ou te fazer dormir de tanto tédio. Tentarei. Pela manhã os falsos jornais, tentam dizer em que você deve se interessar, como deve pensar, com o que deve se indignar e quais outras coisas você deve ver com bons olhos. Te dão um ‘bom dia’ falso enquanto te exploram e riem da sua cara. De tarde fazem a mesma coisa, lá pela hora do almoço, quando muita gente senta-se pra comer enquanto trava o pescoço em posição pra assistir televisão. É perfeito, pois como estão comendo, a resistência à manipulação é ainda menor. Alguns até sorriem diante de cada chicotada nesse horário. Talvez a combinação do prazer da comida barata e super temperada causa uma associação de prazer com as imagens vistas, similar ao que acontecia em certa cena do filme “Laranja Mecânica”, onde o personagem tinha os olhos presos para que ficassem abertos diante de cenas passando adiante.

De noite, quando muitos chegam do trabalho, sentam-se no sofá ou na cama mesmo e a primeira coisa que fazem é ligar a máquina de opressão. A televisão ganha um status novo agora. Ela tem até um tal de “horário nobre” onde a disputa por audiência é mais acirrada, pois toda massa chegou em suas casas e estão ávidos por um pouco mais de manipulação. A sede por exploração é tanta que os telespectadores chegam a brigar nas famílias pra ver quem detém a posse do controle remoto, um aparelho que “facilita” a vida do explorado, por poder ligar, desligar e alternar os canais sem ter que se levantar. Isso ajuda a ser manipulado mais vezes e de forma mais precisa, pois ele mesmo ajusta a maneira com que deseja receber o chicote nos olhos. Funciona tão bem que nunca se abandonou esse acessório nas televisões, mesmo depois de tanta tecnologia percorrida.

As programações em horário nobre, de nobre não possuem nada. Mas se dessem o nome verdadeiro, não seriam o que são: manipulação extrema. As novelas são histórias mal escritas, mas repletas de boas manipulações. A história em si importa pouco, mas o que se mostra por cima dela tem grande importância para os manipuladores. Despejam, por exemplo, a ideia de que o pobre deve sempre ser omisso, pacato e aceitar sua condição, pois se assim o fizer, haverá uma recompensa posterior. Claro que na vida real é o inverso, mas a fantasia das novelas transforma essa visão facilmente. Nas novelas, você pode ver as pessoas acordando 11 horas da manhã e dedicarem quase duas horas para um tranquilo café da manhã em uma casa ensolarada, tomando um suquinho de laranja sorridentes. É tanta tranquilidade que parece um cemitério diante de um sol glorioso.

O reforço da ideia de que vulgaridade, ignorância, fama e valor, andam lado a lado é algo constante, durante as 24 horas de transmissão. Programas que encarceram voluntários para serem filmados comendo, dormindo, tomando banho, defecando ou tendo conversas frívolas ganham muita audiência e gera, inclusive, fãs alucinados por cada um desses anônimos que rapidamente ganham a oportunidade de se destacarem socialmente pois se tornaram os novos ídolos de uma massa que carecia de gente vazia pra admirar. São admirados, sobretudo, porque possuem uma imagem dentro dos padrões que a mídia vende como os únicos aceitáveis e também porque figuraram na televisão, o palco onde só “grandes pessoas” aparecem. É um show de horrores, no pior sentido do termo.

Os desenhos animados que são comprados pra serem distribuídos para crianças e adultos, visam  alimentar estereótipos, sexismo, violência e tudo que não for proveitoso pro engrandecimento humano ou pro raciocínio. A diversão é tão ruim que frequentemente precisa usar um recurso artificial de risadas gravadas, pra estimular no cérebro humano a “vontade” de rir do que assistem. Dessa maneira, conseguem rir de qualquer coisa, independente de ser ou não engraçado. Programas de stand-up comedy ficaram na moda nos últimos tempos e tem sido uma boa maneira de fingir que a televisão tá entregando algo de útil. Se as pessoas estão rindo, então parece ser algo para o benefício delas. Mas a ilusão está no fato de que, infelizmente, foram colocadas pra rir de violência, de racismo, de machismo, de todo tipo de preconceito e conduta deplorável. O humor real não tem espaço por lá e quem tenta fazê-lo não consegue muito sucesso, pois está no reino errado, com os telespectadores errados. O público que consome televisão não quer informação, diversão ou reflexão. Lá, quanto mais inútil for o conteúdo, mais desejado é.

Os programas de entrevista são acordos por interesse. Pessoas que estavam esquecidas, pagam algum valor para aparecerem em certos programas e voltarem a ter visibilidade. Quase sempre é mero pretexto pra divulgar trabalho, produto ou serviço ou recolocar alguma pessoa insignificante de volta na memória das pessoas, como se nunca tivesse deixado de ser lembrado e desejado. As pessoas não se importam de ver mais do mesmo. Pode-se contar a mesma piada infinitas vezes e repetir os filmes toda semana por décadas. Elas vão até interpretar isso como vantagem. Para alguns, isso lhes permite assistir aquele conteúdo que perderam da última vez. E tudo bem se já tiverem assistido sessenta ou setenta vezes o mesmo filme ou episódio de série, pois elas gostam de relembrar as cenas, imitar as falas que já sabem de cór ou tirar um pouco de prazer com a nostalgia de um conteúdo tão antigo.

Cada país tem seus pontos fortes na manipulação. No Brasil, calhou de ser a transmissão de partidas de Futebol. Um clássico da ‘taxa de retenção’, que faz qualquer youtuber ficar com inveja. O telespectador consegue ficar quase duas horas assistindo pessoas jogando bola. Cientes do excesso, algumas empresas começaram a fabricar televisões próprias pra isso, colocando iluminação  na parte traseira da televisão de forma que projete um tom similar ao que estiver passando na tela. Se o indivíduo estiver horas assistindo um gramado verde na transmissão de Futebol, ficará com a vista menos cansada de olhar o contraste daquele retângulo verde luminoso enorme no meio da parede branca. Então uma transição mais suave funciona como um cabresto, que mantém o telespectador mais confortável e concentrado somente na programação, sem distrações ou incômodos que o tirem do ambiente.

O mais curioso nessas transmissões de Futebol é que quem assiste não está participando do jogo e, mesmo virando torcedor fanático, nunca chega a receber absolutamente nada do time ou dos jogadores que faz questão de patrocinar. Há, inclusive, quem se disponha a ir pedir fotos e autógrafos para jogadores que saíram da cadeia por assassinato e ocultação de cadáver. Isso deixa claro, que fama e crime não precisam se afastar. As pessoas não ligam se você for um assassino, estuprador ou um ladrão. Tudo que importa é que você é famoso e já apareceu na televisão. Outro caso que comprova isso foi quando pessoas quiseram tirar fotos junto à um famoso ladrão que estava em fuga por um aeroporto. Reconhecer um criminoso na rua e saber que já o viram na televisão é o ápice do dia de um telespectador comum.

Mas, claro, a programação não se resume só nisso. Há também muito sexo, mais sexo e sexo até onde não deveria haver sexo. Entre um sexo e outro, inserem uma coleção variada de sexo. Quando as pessoas se cansam de ver sexo, eles mudam um pouco o foco e transmitem sexo com micro-censuras, onde se colocam tarjas ou efeitos de desfoque nas imagens para ocultar o que passaram o resto do tempo destacando. Estipulam limites, pois senão o telespectador pode acabar se interessando mais em fazer sexo do que ver sexo pela televisão. Então as emissoras controlam a intensidade e frequência dos estímulos.

Claro que isso constrói a ideia de que corpos e sexualidade não possuem nenhum valor que precise ser respeitado, mas isso gera lucro, então é feito. Violência doméstica, machismo, estupro e todo tipo de efeito brota de uma cultura acostumada a menosprezar relações e pessoas, mas a televisão nunca fala disso, a menos que seja para um nicho específico onde haja demanda por esse tema, afinal, lucrar sempre vai bem na visão das emissoras. Mas claro que, até certo ponto, pois se as pessoas se engajam demais, elas abandonam a televisão e começam a seguir adiante com suas lutas, absorvendo e produzindo cultura real e útil.

Apesar de todo estímulo a estupidez, ao sensacionalismo, a maledicência, ao escárnio com a vida humana, aos preconceitos, as opressões, às induções de consumo de lixos caros, à disseminação de ódio, de falácias, de protecionismo à bandidos, corruptos e todo tipo de entulho social, abre-se espaço para coisas boas também. Você deve estar curioso pra saber, não é? A brecha que toda emissora não consegue controlar bem é a incompletude de sua mídia. Como elas são transmissoras de programação específica para aparelhos televisores, os computadores e celulares quase não os consomem. Poucos aparelhos que não são televisores, possuem a função de transmitir essa programação. Os computadores de mesa, exigem, geralmente, equipamento adicional para captar sinal de televisão e os celulares mais convencionais não oferecem essa possibilidade. A razão pra televisão não ter ido para esses outros aparelhos é que eles não são tão fixos e limitados como a televisão e dão margem pro usuário se dispersar.

Na internet, por exemplo, as pessoas podem assistir à um vídeo no Youtube à qualquer hora e, por isso, elas não estão presas à um sofá ou horário que as faça ficar horas de frente pra área do vídeo. Claro que, contudo, muitos passam horas de frente pro navegador “assistindo” o Facebook, o que é igualmente prejudicial se mal utilizado. No fim, o que muitas pessoas fazem ao sair da televisão e ir pro computador ou celular é apenas mudar o estilo da chicotada no olho. Alguns mais aficionados por interação e tecnologia podem acabar preferindo apertar botões para controlar a intensidade e o fluxo do próprio desperdício de vida. Isso traz uma sensação de autonomia, mesmo que seja falsa.

A internet, por um tempo, imaginou-se ser a grande ameaça para a televisão. Um espaço onde as pessoas teriam total liberdade de escolher o que absorver e, mais do que isso, ter a chance de elas mesmas criarem conteúdos para o mundo, fez a televisão se sentir frágil, pois ela nem permitia interação e o pouco que permite hoje em dia é tão superficial que nem dá pra chamar de interação. Esse medo que a televisão tem da internet é tão real que muitos canais passaram a incluir conteúdos próprios da internet pra dentro da televisão. Se as pessoas passam horas vendo vídeos que viralizaram na internet, que tal levar esses vídeos para serem descarregados na tela do telespectador? É como pagar duas vezes pelo mesmo conteúdo e, de quebra, manter firme e forte o império da manipulação. Com o tempo, as emissoras foram se adequando e levando um pouco da televisão pra internet e um pouco da internet pra televisão. Agora isso está fundido de tal maneira, que não se ampliou a diversidade, mas só se diversificou as formas de se replicar a mesmice.

Eu nunca fui muito fã de televisão. Meu foco sempre esteve mais em filmes específicos, alguns pouquíssimos desenhos de humor e o resto eu torcia pra que pegasse fogo o quanto antes. Não consumo televisão há muito e muito tempo e já venho soltando minhas amarras dos cantos da internet que não somam nada pra minha liberdade e crescimento. Esse é um trabalho difícil. Se tivesse que recomendar conteúdo para as pessoas, eu teria imensa dificuldade, pois são tão poucos, que a lista que ofereci há 10 anos atrás ainda continua sem novas inserções. Terei prazer em trazer textos futuros pra indicar filmes, livros, sites, artistas, escritores, coletivos de empoderamento, sugestões de atividade e aprendizado fora desses alicerces mais comuns e, quem sabe, ajudar mais gente a participar do ato urgente de falir esse amontoado de emissoras. Basta que cessem o consumo de todo esse lixo e passem mais tempo se desintoxicando desses vícios psicológicos. Com o tempo a Síndrome de Estocolmo pode ir amenizando até o ponto em que a chicotada no olho comece a causar dor e não prazer. E, quem sabe, a dor te faça sair dali e começar a cobrar o fim de seus próprios opressores.

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Rodrigo Meyer