Prosa | Os bastidores da estrela.

As imagens que ilustram esse texto são fictícias e meramente ilustrativas, sendo fotografias marcadas como livres para utilização, segundo os filtros de pesquisa de imagem do Google.

Por um bom tempo você foi a minha protegida. Eu nunca cuidei de alguém tanto como cuidei de você. Eu te livrei de apertos e enrascadas, paguei seus custos com advogado e estive presente nos seus trabalhos, seus estudos, seus projetos, suas exposições, seus comércios e até mesmo quando você esteve internada. Até minha casa esteve à disposição, pra quando você precisou de moradia. Eu sempre apoiei os seus sonhos e fiz o que os seus “grandes amigos” podiam e não fizeram. Pouca gente quis te ver vencer; pouca gente te ajudou quando você não tinha mais à quem recorrer. Eu estive lá do seu lado nos dias divertidos e nos momentos conturbados.

Nos divertimos muito rindo, bebendo, andando de um lado pro outro, visitando teatros, dividindo a cama e outros lugares. Choramos juntos, fizemos arte, fizemos parte. Ouvimos o que cada um tinha pra dizer, mas só pela metade. Você não se expressava abertamente comigo sobre tudo do seu mundo, porque seu mundo envolvia outras pessoas com quem você também dormia. Isso nunca foi segredo. Assim como eu sabia, você sabia que eu sabia. Eu nunca me importei, na verdade, porque todos nós estávamos vivendo nessa mesma informalidade. Quem talvez tenha se surpreendido, foi teu ex-marido, que, infelizmente, não soube se manter fiel quando esteve casado. Suas fotos de casamento pareciam um evento divertido, com todo aquele improviso, um tempero de rock e o seu jeito prático. Eu adorava isso em você, mas parecia haver um abismo entre o que eu sentia e o que você estava disposta a oferecer. Jamais vou me esquecer que seu ex-marido te agredia e que, quando separada, um dos seus casos também não era das melhores pessoas. Desculpe a sinceridade, mas, para ele, você era só uma pedaço de carne que ele facilmente comeria.

Eu amava o seu cabelo e ele parecia ser importante pra você também. Quando você não se sentia bem com a vida, se destruía, cortando ele de uma forma que viesse a se arrepender. Mas, tudo bem, de qualquer jeito, você se mantinha linda. Eu enchia os meus olhos com a sua imagem, enquanto adorava os seus bem pretinhos, combinando com seu sorriso inigualável. Tinha doçura e humor no seu jeito de falar. Quando você queria, sempre tratava as pessoas da melhor forma possível. Mas, você nem sempre escolhia bem as companhias. Levou calote da colega com quem dividiu moradia e estava sendo roubada pelas costas naqueles comércios que faziam juntas. Foi você mesma quem descobriu e me contou e, não foi exatamente uma surpresa pra mim. Hoje, olhando pra tudo isso, consigo ver que, talvez, você seja uma versão minha. Nós tivemos o péssimo hábito de hipervalorizar as pessoas que nos usavam e nos destruíam. Por algum motivo estranho, ficávamos hipnotizados contemplando quem não merecia. Hoje eu te entendo, porque eu mesmo fiz muito disso na minha vida.

Mas não me arrependo não, pois quando fiz, estava sincero nas minhas intenções e estive ao lado enquanto achei que devia. Fiz de coração, sem esperar nada em troca. Eu queria te ver sorrir todo dia, tentar eliminar as barreiras da sua vida, apenas pra te ver vencer. Você tinha potencial pra muita coisa. Suas artes, em vários ramos, eram sempre aplaudidas de verdade. O que te faltava não era talento, mas um pouco de transparência ou sinceridade. Você tentou ajudar sua mãe, mas nem ela mesma queria. Ela comentava que gostaria de me conhecer, mas esse dia nunca chegou. Talvez tudo tenha acontecido do único jeito que foi possível. E olhar pra esse passado não nos permite mudar aquilo que já vivemos. No fim das contas, você estava tentando descobrir se seu coração amava alguma pessoa nesse mundo, mas, pelo que percebo, você se deu conta de que estava realmente sozinha. Onde estão todas as pessoas que passaram pela sua vida? Foi triste te ver mastigando a depressão, mas eu fiz mais do que estava ao meu alcance em todos os momentos e quando a reciprocidade falhava em momentos cruciais, eu me lembrava de que não estávamos vivendo a mesma vida.

Eu tomei uma decisão difícil e fria de me forçar a ficar longe de você. Eu queria expurgar toda a dependência, todo o apego, todo o desejo e toda a vontade de estar ou falar com você. Pra ser sincero, levou tempo. Nunca quis tanto cuidar de alguém na vida, mas nossos mundos estavam isolados, não estávamos remando pro mesmo lado e você sempre demonstrou com condutas e palavras de que os sentimentos não correspondiam. Eu não insisto em porta fechada, então fui embora e segui a minha vida. Sei que fez bom uso dos presentes pra começar o novo trabalho que você escolheu. Não torço à favor nem contra, pois assim que você foi embora, deixou de ser a minha protegida. Agora você é só uma memória que me faz escrever, pra ressignificar meu passado, as pessoas, os momentos que eu vivi, pra ver se chego o mais saudável possível do outro lado e facilitar a minha própria vida.

Num imenso acaso, quando eu já nem lembrava que você existia, você brotou numa rede social e a resposta que dei foi a única possível. Eu já havia feito tudo que eu podia. Não sei o que se passa pela sua cabeça, mas a vida não permite ensaios. Quando um cristal se trinca pela primeira vez, ele segue trincado pro resto da vida. Mas, certas coisas a gente não escolhe. O coração sente ou não sente, sem pedir licença ou conselho. A vida, nesse sentido, permanece um mistério. Apesar de tudo, obrigado. Isso não é um pedido de desculpas atrasado. Simplesmente eu sei que tudo que eu passei na minha vida me ensinou uma montanha de coisas e também me permitiu momentos muito intensos. É por tudo isso que eu sou grato.

Rodrigo Meyer – Author

Crônica | O homem invisível.

Entrei pela porta de vidro, senti o ar-condicionado. Não havia como eu não ser notado. Mais de 5 câmeras de vigilância e funcionário pra todo lado. No refrigerador, bebidas geladas. Peguei uma e paguei. Do lado de fora, mais gente, mais olhos presentes. Entrei no carro, voltei pra casa. No caminho, as pessoas pela calçada e os escravos da ronda armada. Dentro de casa, os barulhos da porta de entrada se abrindo e da porta do quarto se fechando, avisam os vizinhos que eu voltei. Eu não queria ser notado por ninguém, mas assim como eu os notei, me notaram também. A privacidade não existe. Viver em sociedade é viver observado e julgado. Posso até mesmo me esconder atrás de cortinas e paredes, mas até a minha ausência de imagem vai ser estímulo para lembrarem que eu ainda não saí de casa. Quando eu não quero que me notem, lembram de mim todo dia, mas se eu precisar de silêncio ou ajuda, aí eu consigo finalmente ser invisível.

Rodrigo Meyer