Relato | Mentiras, drogas, racismo, agressões e exploração financeira.

A imagem que ilustra esse texto é uma composição incluindo uma fotografia de uma pessoa fictícia aleatória, pra fins de ilustração do texto. Esse é o relato de uma pessoa que passou por um relacionamento abusivo. Por questões de privacidade, substituiremos o nome dela pela letra aleatória A.

“Quatro anos atrás eu estava inscrita em um desses sites de relacionamento. Foi lá que conheci um rapaz. Ele veio falar comigo e eu me senti prestigiada, pois estava em um momento difícil da vida, onde meu pai havia falecido e eu estava frágil e carente. A vinda desse rapaz veio de encontro à minhas necessidades de acolhimento, principalmente por todos os elogios que ele fazia, que era bem o que eu queria ouvir.

Em dado momento, aconteceu de sairmos do virtual para o mundo real. Fomos nos encontrar. Mas algo não ia bem. Ele estava muito agitado, ansioso, preocupado. Olhava para todo lado como se estivesse com medo de ser visto por alguém. Aquilo me deixou um alerta, mas logo eu abafei aquilo da minha cabeça, pois sempre que eu recuava de insegurança sobre ele, ele mudava tentando passar uma imagem melhor. E assim as coisas foram acontecendo, mesmo que já de início os sinais ruins estivessem lá.

Em seis meses, ele já havia me proposto casamento. Eu me sentia contemplada e na época nem percebia o quão cega e vulnerável eu estava. Ele queria que eu encontrasse um vestido de noiva e planejamos até uma festa. Eu tinha minha vida relativamente estável, com um bom trabalho, meu apartamento, meu carro. Ele dizia ter trabalho e de início me pareceu tudo plausível. Tínhamos realidades um pouco diferentes nesse sentido, mas isso não era nenhum problema para mim.

Eu tinha um filho de relacionamento anterior e ele também anunciava ter um. Não demorou muito pra que ele começasse a contar histórias pra me pedir dinheiro. Alegava que o filho dele estava passando por problemas com droga e diante do contexto, eu ajudava. Mas, cada vez era uma necessidade diferente. De repente era um carro quebrado ou outra coisa qualquer. Eu não via nada daquilo na ocasião. Ele sempre tentava demonstrar que estava estudando ou trabalhando, mas tudo vinha muito só da boca pra fora. Quando algo não parecia muito crível ele se esforçava pra reverter a situação.

O casamento ocorreu no civil, abandonamos a ideia da festa, porque o buffet havia dado errado. Foi o começo de mais situações. Ele passava a depender muito de mim, me pedia dinheiro pra muita coisa e, provavelmente, se aproveitava do fato de eu ter um bom trabalho ou de simplesmente ter um trabalho, já que eu nunca soube se ele realmente tinha um também. Quando eu não dava dinheiro à ele, ele ficava agressivo, me ofendia, discutíamos e mais um sinal estava alí, sem eu notar bem o que estava acontecendo.

Houveram momentos em que o descontrole dele evidenciou o racismo. Ele branco e eu negra, dividíamos um teto pra que eu ouvisse dele expressões horríveis que nunca mais vou esquecer. Diante de meu pai, tudo isso parecia o pior cenário. Tentativas de agressões físicas ocorreram, mas a presença dos meus pais, em especial a minha mãe, foram um oportuno freio. De alguma forma ele tentava passar uma imagem positiva na frente dos meus pais, para ganhar a simpatia deles. Mas, como citei, em momentos mais drásticos, nem isso impedia ele de expressar as piores palavras nos cenários mais errados. Já não havia mais nada de bom alí. Eu só estava me sentindo derrotada.

As mentiras dele foram aparecendo e eu fui me dando conta de que ele mentia para tudo. O filho dele não tinha problema algum com drogas e o mais triste é que, era ele mesmo quem estava mergulhado nelas. Me pedia dinheiro pra sustentar o vício em álcool e cocaína. Os cursos que dizia fazer, nunca frequentou ou sequer existiram. Frequentemente era demitido dos trabalhos e eu não me dava conta desse imenso sinal. A nossa vida sexual era ruim, bem ocasional. Nunca suspeitei que o motivo disso fosse os hábitos dele com drogas. Eu só fui me dar conta da loucura que eu estava vivendo dentro de casa, quando eu encontrei um pino de cocaína no bolso da calça dele. Pensei o quão ruim era tudo aquilo, tendo eu um filho novo em casa. Eu não queria nada daquilo pra mim e nem pra minha família.

Não havia motivos consistentes pra estarmos juntos. Tudo que havia era exploração, agressão, mentiras e ciúmes. Com o meu sucesso profissional e meu círculo de trabalho e amizade, ficou muito claro na mente dele que eu tinha um cenário positivo na minha frente e não faria sentido nenhum eu estar com uma pessoa abusiva como ele. Por isso começaram as críticas ensinuando todo tipo de coisa ou tentando controlar minha vida. Roupas curtas eram um problema e até meu trabalho se tornou um alvo pra ele. De certo ele se sentia fracassado e susbtituível e ele se sentiria mais confiante e seguro se eu perdesse o meu bom emprego.

Mas, eu escolhi ouvir a mim mesma e a observar friamente todo cenário. Passei cerca de um ano observando tudo e percebi finalmente que estava em um relacionamento abusivo do qual eu não deveria aceitar jamais. Depois de tudo isso, estava decidida a me separar. Planejei o melhor momento e maneira pra fazer isso. Surgiu a grata oportunidade de uma viagem à trabalho pra outro país. E foi a brecha que eu precisava pra fazer todas as mudanças na minha vida. Anunciei a separação e assim que ele saiu de casa eu pedi que minha mãe trocasse a fechadura da porta. Finalmente me vi livre daquele sujeito. Eu segui a minha vida, aprendi com tudo isso. Ficou a lição de que a vulnerabilidade gerada pela carência foi o que permitiu tudo isso acontecer. Não sei se posso, mas, talvez, chamaria de sorte por isso não ter desviado pra situações piores. Sabemos de tantos outros casos onde as pessoas são ameaçadas, espancadas, violentadas, perseguidas e mortas. Eu sou grata por ter enxergado tudo, antes que tivesse o risco de conhecer cenários piores e de desperdiçar a minha vida em mais anos com alguém que apenas me usava e nunca gostou de mim.

De divórcio assinado e vida reconstruída, hoje eu invisto em mim mesma e não quero saber mais de nada disso. Quero apenas que meu relato sirva de alerta e de motivação para que outras mulheres consigam perceber eventuais relacionamentos abusivos, mesmo que sejam diferentes dessa minha experiência particular. Que todas elas possam se empoderar e descobrir a mulher forte e cheia de potenciais que são. Que todas elas possam desviar de mentiras, observando melhor os claros sinais. Que elas se tornem mais cuidadosas consigo mesmas e que estejam firmes pra não se deixarem levar por falsos elogios ou promessas. Precisamos, todas nós, nos afastar daquilo que não soma nada em nossa vida, de preferência antes mesmo de começar.

Hoje, o que eu quero mesmo é dançar e brilhar, seguir o meu trabalho e sorrir diante dos novos planos que surgiram pra minha vida. Convites aqui, convites por lá, eu sei que tenho muitas opções para dar saltos ainda maiores. Eu já venci e se você focar em você mesma também poderá brilhar.”

A.

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Receita para suprir o vazio.

Viver é um desafio. A vida é um mistério que precisa ser desvendado, uma vez que não vem com manual de instrução ou com objetivos predeterminados. Se deparar com a vida e ter que decidir o que fazer dela é uma tarefa que, pra muitos de nós, leva todo o tempo e, mesmo assim, pode não chegar em nenhuma solução satisfatória. Fato é que muitas pessoas sentem uma sensação de vazio diante da vida e tentam completar esse vazio com coisas igualmente vazias. Parece óbvio, mas está em alta a necessidade de se dizer obviedades, então digo que se as pessoas querem preencher seus vazios, não devem fazer isso com coisas vazias. Mas, o que são esses vazios?

Quando sentimos um vazio na vida, esse termo pode representar uma sensação de que o sentido para a vida é superficial ou insuficiente ou que a vida não parece ofertar valor apesar das coisas que existem e ocorrem (ou exatamente pelas coisas que existem e ocorrem). Superar essa sensação de vazio na vida é uma tarefa de cunho psicológico e filosófico, por vezes com algum viés da meditação, da postura diante do mundo, dos preceitos de espiritualidade, etc. Mas quando tentamos suprir esse sentido da vida, que é algo tão importante, com paliativos ilusórios, é claro que não haverá resultado satisfatório. É como ter fome e ingerir água pra tentar suprir. Por algum tempo você pode até enganar a fome, enchendo seu estômago de líquido, mas se a nutrição pela comida não ocorre, a água será inútil no final das contas.

Tentar levar uma vida com o máximo de satisfação possível é a meta de qualquer pessoa. A menos que a mente da pessoa esteja demasiadamente adoentada para chegar a corromper essa premissa, entende-se que todo ser humano deseja, a princípio, ter uma vida satisfatória, com tranquilidade, felicidade, conforto, etc. Quando não encontramos essa qualidade de vida, nos colocamos a pensar nas razões para esse insucesso. As pessoas que passam por essa reflexão podem chegar a sentir a vida pesada, desinteressante, cansativa, injusta ou até mesmo desnecessária e insuportável. É o caso de muitos que adentram pra depressão, pra abuso de drogas de todo tipo, incluso os medicamentos e produtos legalizados e as demais substâncias.

Em todo canto se vê pessoas buscando soluções para seus problemas, mas sem buscar soluções realistas. Veem-se com insônia, por exemplo, mas ao invés de resolver a causa da insônia, apenas se dopam com algum medicamento que as faça cair em um sono forçado. É evidente que essa qualidade de sono não reflete o mesmo benefício de um sono que ocorre naturalmente e de forma tranquila. Além disso, o uso constante destas medicações pode fazer as pessoas desenvolverem adicionais problemas na saúde e na mente. Como se não bastasse, condicionam a si mesmas a só dormirem mediante o uso destas substâncias, o que as colocam em uma situação de dependência e infelicidade pela ausência de controle de algo simples como o sono. A percepção desse quadro psicológico, físico e até social, pode transformar essas pessoas em geradoras de seus próprios problemas. A infelicidade e a má saúde plantadas nesse modelo de vida gera ainda mais motivos para a insônia e elas entram em um círculo vicioso de problemas.

Preencher o vazio com vazio não funciona. E como é que eu, na minha posição, poderei dizer o que é que cada pessoa pode ou deve fazer pra suprir seus vazios? Simplesmente não posso. Tudo que me cabe é tentar esmiuçar o tema e entregar algumas informações aprendidas ao longo da vida, sobre medicina, psicologia, meditação, espiritualidade e um pouco de empirismo na busca de minha própria libertação. Eu tive depressão por grande parte da minha vida e nunca havia me imaginado fora desse quadro. Acreditava que estaria fadado a uma morte precoce. Durante grande parte desse percurso eu fiz aquilo que estava mais propenso a fazer: nada. Eu me rendi de forma a ter muitos e muitos anos de sono, isolamento, procrastinação, sedentarismo, pouca ou nula socialização e uma constante vontade de desistir de toda e qualquer atividade. Mas, por incrível que pareça, foi exatamente por não fazer nada que tive tempo de observar, analisar e compreender a situação, minha mente, a realidade do mundo, entre tantas coisas. Foi nesse período que pude transformar algo aparentemente infértil na melhor plantação que eu poderia fazer.

Durante meus anos de reclusão, pude sentar diante do espelho, simbolicamente, olhar pra dentro de mim e refletir com sinceridade sobre quem eu era, o que eu queria, o que eu fazia, o que era ilusório, o que era útil. Aprendi muito comigo mesmo. Dizem que todos nós temos um mestre interior, que alguns chamam de ‘Eu Superior’. Talvez seja essa a explicação sobre a capacidade do ser humano de meditar, conversar consigo mesmo e superar barreiras. Por vezes, percebemos que nós mesmos é que inventamos barreiras por conta de nossas crenças, hábitos, imaginações, etc. E isso deixa uma lição importante: somos poderosos! Temos poder de determinar muita coisa para nós mesmos. Da mesma forma que nos submetemos a situações indesejadas, podemos fazer o mesmo para situações melhores. Não posso afirmar que controlamos toda nossa vida, mas controlamos, ao menos, como nos sentir diante da vida e o que fazer com a situação que nos é apresentada.

Em tempos de depressão, tapava meu vazio e afogava minha dor com sono, álcool, comida, isolamento, direção em alta velocidade e permeando um universo de cultura ou estilo de vida de companhias que estavam igualmente ruins ou até piores que eu. Estava claro pra mim que nada daquilo que eu estava fazendo resolveria meus problemas, mas eu já não estava querendo solução pro vazio, mas apenas soluções para estes novos problemas que eu adotei. Queria algo que pudesse resolver esse estilo de vida destrutivo. Estava preso, condicionado a viver uma realidade que já não desejava. E não desejava porque percebia, finalmente, que tudo aquilo era igualmente vazio e que não poderia servir pra suprir o meu vazio sobre a vida. Então, ao menos pra mim, resolver o dilema da vida foi simplesmente me recusar a opções rasas e ilusórias. Comecei a ser exigente comigo mesmo e com os outros. Me coloquei contra pessoas e ideias que não favoreciam os meus objetivos de me tornar uma pessoa livre, tranquila, feliz e preenchida.

Não foi fácil e nem foi rápido. A transição não foi exatamente contínua, uma vez que tive diversas recaídas. Porém, descobri que a cada vez que eu caía, ficava mais resistente aos danos e aprendia os sinais de quando eu estava me aproximando de uma recaída. Minha principal meta nos tempos de recuperação era me manter preenchido de pessoas e situações que realmente tinham valor. No fundo, era somente isso que eu queria mesmo, mas, por muitas vezes, na depressão, não tinha essas presenças ou as ignorava por desconfiança ou insegurança. Muitas vezes eu me boicotei, fechando minhas próprias portas e depois me via sem esperança em um mundo sem caminhos para seguir. Quando parei de andar em círculos, comecei a ver meu potencial surtir efeito simplesmente por ter colocado em prática, com confiança, sem medo, sem procrastinação.

Foi isso que me colocou em um estilo de vida funcional. Sempre que me sinto sobrecarregado com algo, meu instinto de defesa contra a depressão me faz agir e criar mais. Me considero uma pessoa muito ativa, quando comparo com as pessoas ao meu redor. De certo que temos atividades muito diferentes, não só pela quantidade, mas pelos objetivos, pela motivação essencial por trás de cada feito. Olho ao meu redor e vejo muita gente de cara amarrada, infelizes com seus empregos, com seus relacionamentos ou mesmo infelizes de maneira geral com a vida ou a sociedade. Raras vezes encontro pessoas que se permitem ser e fazer aquilo que as preenche verdadeiramente. Grande parte das pessoas buscam apenas válvulas de escape, tapando o sol com a peneira. Podem passar o tempo com isso, mas chegarão, cedo ou tarde, a mesma conclusão: de que não viveram e que continuam infelizes, sendo, provavelmente, ainda mais infelizes por terem desperdiçado tempo na contramão da solução.

O resumo é que temos que nos entregar a valores intrínsecos. Não adianta querer que uma garrafa de álcool, rostos conhecidos numa festa, noites de sexo, sono e comida, possam resolver um problema que não nasceu pela escassez de tudo isso. O vazio da vida não é o vazio por álcool, por sexo, por companhia, dinheiro ou sono, mas sim pela transmutação do indivíduo diante da percepção do valor intrínseco da própria vida. Trocando em outras palavras, o recheio que preenche a vida é a própria vida. É sentar-se em harmonia consigo no espelho e estar satisfeito com sua existência, em poder olhar pela janela e ver o céu, respirar, se presentear com uma refeição saborosa, um cuidado de saúde, um refino estético para contemplar sua própria expressão. A vida, no final das contas é dividir uma risada, mesmo que sóbrio, dedicar tempo em conversar, abraçar, sentir, se entregar, se entreter.

A vida é um espetáculo que nós mesmos dirigimos. Contracenamos com muita gente em múltiplos cenários. Cabe a nós, como atores e diretores, definir a mensagem, o timing, a trilha sonora, os planos, os closes, os cortes de cena e assim por diante. No final de tudo teremos um espetáculo digno de se assistir na memória, pelo que fizemos a nós mesmos e aos outros. Isso preenche, isso transborda. É isso que me faz acordar todo dia pra continuar, com disposição mental e física. É isso que me mantém esperançoso pelo meu futuro, independente da condição dos demais. E quando se tem paz, a pressa some e sobra disposição pra correr mais. E pra você, o que é que te satisfaz?

Rodrigo Meyer

Onde está Barbarella?

Este texto não fala sobre a personagem vampiresca, nem de outras menções a filmes e histórias em quadrinhos, mas sim de uma pessoa real que, com muita propriedade, vestiu esse apelido pra vivenciar realidades semelhantes. Falo de Barbarella, uma amiga que cruzou minha vida há muitos e muitos anos atrás.

Barbarella era um arabesco que flutuava pela cidade, escondida atrás dos fragmentos de luz. Entre um passo e outro, sentia-se seu perfume, apesar de todo acúmulo de nicotina tragada que lhe acompanhava. Vestida de veludo negro justo, marcava as formas pálidas de seu corpo anoréxico. Entre seus dedos, sentia que estava a um passo de trincá-los apenas por tocar.

Encontrei Barbarella em um acaso dos chats de portais de internet quando nem sequer existiam redes sociais. Atrás de um nome sugestivo, nenhuma foto e talvez um e-mail, cruzava-se o imaginário pela conversa e, com sorte, trocava-se um telefonema ou enviava-se uma fotografia scaneada com má qualidade, mas com muita personalidade. Aquilo era a essência máxima transmitida de cada usuário.

Da internet pra vida real, Barbarella surgiu em um telefonema com um convite pra bebermos. E fomos. Que dia magnífico poder experimentar aquela mente. Pessoa adorável, cheia de atenções, confortos e distorções. Lindamente posta sobre seu coturno e sempre abraçada aos copos de whisky que lhe davam sentido. Do dourado da garrafa ao negro do ambiente, sentia-me prestigiando joias.

Lindos tempos onde Barbarella ainda cortejava jovens, arrastando-os pra seu calaboço travestido de apartamento. Lá onde o sofá já tinha visto do bom de do melhor, as paredes escorriam pequenas obras. Tudo era tão demasiadamente simples e sincero que era impossível não sentir a essência do Movimento Gótico entre um detalhe e outro. O ambiente contemplava um pouco do vitoriano e do caótico urbano. Sempre tudo decadente, mas nunca demasiado.

Vazio como grande parte de seu corpo, tudo era apenas ossos e adornos. Somente o necessário. Aquilo me encantava como nada mais me encantou por muito tempo. Adorava olhar pra ela e sentir a possibilidade de traçar o contorno de seus próprios ossos, carregá-la num abraço ou deixá-la sentada em meu colo, desfrutando mistérios.

Aquilo sim deixa saudade. Deixa meu espírito com vontade de voltar no tempo e morrer de maneira semelhante, por desgaste, repetição, exageros. Lembro de Barbarella como o melhor referencial pra mim mesmo e pro estilo de vida que se escondia entre uma estação de metrô e outra. Andarilhos pelas noites, dividíamos esses bons momentos ouvindo música, bebendo e explorando. Pela manhã, quando já deteriorados com o bater do sol do lado de fora da porta, erguíamos força pra beber mais um pouco e ir embora.

Por muito tempo depois, ainda pensava em Barbarella. Por onde ela estaria? Pela última vez que a vi, parecia muito bem, apesar de todos nós sabermos que não é bem próprio esse termo pra quem sucumbia ao álcool e a anorexia. Estava de pé, ativa, embora estivesse por dentro morrendo a cada dia.

A verdade é que ela não sumiu; ela morreu. Barbarella passou tempos difíceis com as consequências de uma cirrose que a debilitou de vez. Ajudada por sua irmã, segundo o que soubemos, deixou pra trás uma filha de dez ou doze anos e uma marca indelével de seu estilo de vida. Até hoje, quando penso em Barbarella, penso em quem poderia ser ela atualmente. Não encontro outro rosto que se vista tão firmemente. O que ela não tinha nas carnes, tinha na mente. Da vez que lhe vi por último, completava 49 lindos anos de idade e uma vitalidade mórbida que, facilmente, lhe permitia ostentar muito menos idade, ainda que soubéssemos claramente que atrás daquele ar vampiresco o que mais ornava era a idade percorrida com todas aquelas histórias, aquela personalidade repetida, como vinho envelhecido, como tempero maturado.

Barbarella deixou pra mim um outro personagem, muito mais interessante, que nunca canso de explorar nos meus sonhos artísticos, histórias não contadas e na derivação sutil em alguma Fotografia ou conto. Estou sempre procurando por Barbarella em algum bar, alguma esquina silenciosa, um apartamento qualquer, alguém que se apresente primeiro como alma e depois como mulher. E cada vez que não encontro Barbarella, me pergunto onde está ela. Que reencarne logo, se é que já não fez, pois quero experimentá-la outra vez, mesmo que já não tenha os traços tão iguais, a mente tão loquaz e a sutileza doce e fatal do seu perfume. Em cada copo de bebida você está contemplada e convidada para festejar calmamente o lado sombrio da vida. Bom dia, querida.

Rodrigo Meyer