Crônica | Pitada de esperança.

Um tom desbotado começava a tomar conta do clima da casa. Do lado de fora, a sensação de que alí já não tinha vida. Do lado de dentro, um vazio igual ou pior. O cansaço não permitia pensar de maneira organizada sobre o que fazer com aquilo. Por sorte, o minimalismo ajudou a reduzir as opções. A cada dia que passa, a casa torna-se, cada vez mais, apenas paredes. Quando completamente vazia, será motivo de festa. Talvez eu possa comemorar, talvez eu não esteja mais por aqui. Enquanto o futuro não chega em definitivo pra me dizer, eu sigo acordando e dormindo, sentindo o cheiro de tempero na comida da vizinha. Me parece alguém que gosta de cozinhar. Às vezes dá vontade de me auto-convidar para um momento desses, especialmente nos dias em que está mais frio. Nas outras casas do bairro, tudo parece tão enfadonho e monótono que chego a pensar que por lá nem comida se faz. Quando eu me mudar, quero voltar a cozinhar. Algo tão simples e com um significado tão importante.

Rodrigo Meyer

Anúncios

O que aprendi jejuando?

Adiei muito em escrever esse texto, até encontrar a maneira mais apropriada de se falar positivamente sobre jejum em um mundo onde muita gente passa fome por falta de opção. É evidente que são situações completamente diferentes e, nem de longe, a ideia é romantizar a abstinência de comida. Mas, quero dividir a minha experiência nesse tema e fazer alguns comentários sobre sociedade, consumo, padrão de vida e alimentação.

Esse é um tema delicado que envolve inúmeros dramas para muitas e muitas pessoas. Falar de alimentação, acesso a alimentos, jejum, desnutrição ou alimentação precária é ainda um grande problema no mundo, apesar de termos várias vezes mais alimentos produzidos do que a necessidade de consumo dos seres. Isso ocorre porque existe um enorme desperdício de alimento que vai ao lixo como sobra do que não foi consumido por quem planejou uma compra desproporcional de alimentos.

Na minha família, cozinhar e comer era um evento tão importante que o que mais haviam eram festas e reuniões entre parentes e amigos como pretexto pra se cozinhar e comer sempre mais e mais. Como se pode prever, coletamos disso um vício e diversos problemas de saúde. Era um excesso de comida aliado ao prazer de comer e tendo como gatilho ou origem os dilemas psicológicos. O convívio familiar incentivava que esse modelo se perpetuasse com facilidade, já que bastava estar ali para surgirem pratos maravilhosos todos os dias.

No começo da minha infância eu gastava muita energia e era uma pessoa magra. Depois, gradualmente, fui sentindo os efeitos da depressão se agravarem e, junto com isso, um aumento substancial do consumo de comida. O isolamento e a procrastinação foram dando espaço para um pessoa que via o ato de comer como uma fonte de prazer temporária. Dividir uma refeição com alguém ou mesmo comer algo bem saboroso sozinho de fato pode ser gratificante. Na minha família, infelizmente, o motivo da refeição, pra mim, era tão somente a comida. As reuniões familiares em torno da mesa eram sempre conturbadas e acredito que isso tenha impactado na degradação do psicológico e colocado mais força nesse ato de descontar tudo na alimentação compulsiva.

Em alguns anos da minha adolescência eu comecei a perder o controle sobre minha aparência e peso, virando uma certa bola-de-neve. Estar gordo me fazia comer e comer me fazia estar gordo. Equação óbvia que leva muita gente a uma progressão letal. Essa é uma realidade que vi com meus próprios olhos entre algumas pessoas do meu convívio. Impactado por isso, sempre tentei reverter a minha condição e até consegui. No começo da vida adulta, tinha uma aparência satisfatória e me sentia muito motivado em fazer inúmeras atividades, especialmente com o recente resgate pra fora do poço da depressão. Com um relacionamento promissor, frequência e sintonia no sexo, a tal ‘química’ em estar apaixonado e todo organismo agradecendo, o resultado foi conseguir estar estável fisicamente, mesmo tendo um consumo significativo de comida. Energia gasta e metabolismo ativo faziam tudo parecer fácil de se controlar, sem nenhum esforço.

Mas, depois dessa fase e com as decepções que me levaram de volta ao isolamento e a depressão, entrei pra um consumo desproporcional de comida e álcool, especialmente na fase da faculdade, o que me fez estar tão diferente da imagem que eu tinha de mim mesmo, que não me reconhecia no espelho. A pessoa que eu aparentava ser, não representava a personalidade ou o ideal que eu tinha como identidade interna. Esse conflito também gerou um efeito bola-de-neve de mais comida e bebida e, por fim, minha saúde se degenerou tanto que eu tinha episódios indescritíveis, quase que todos os dias, achando que seria minha hora de morrer. Em alguns períodos mal tinha o contorno do rosto separado do pescoço, por conta do sobrepeso. Mas, de forma geral, levando em conta minha estrutura, eu não estava tão exagerado. Diríamos que passava desapercebido na média das pessoas. Mas, pro meu caso em específico, era um sobrepeso suficiente pra comprometer a saúde.

Muito provavelmente por conta da adição frequente do álcool, acabei em um estado que, se não fizesse nada para mudar drasticamente os hábitos, poderia ser surpreendido por um infarto. Então, resolvi cortar o consumo de álcool quase que totalmente, deixando a prática pra momentos especiais em uma ou outra época do ano. Troquei a diversidade de tipos de bebidas por algumas poucas opções e comecei a me planejar pra uma transição de hábitos alimentares. Apesar disso, nunca tinha passado pela minha cabeça que jejuar fosse uma opção saudável ou interessante. O que eu fiz, na verdade, foi uma redução gradual do volume de comida, especialmente quando o dinheiro se tornava cada vez mais escasso. Se formos comparar, por exemplo, a compra em um restaurante por quilo, eu praticamente reduzi pela metade meu consumo logo de cara e depois, com mais confiança, vi que podia reduzir pela metade da metade. Mal sabia eu que esse domínio na reeducação alimentar me deixou tão condicionado, que nunca me senti privado de comida, mesmo quando comia até menos que isso ou nos dias em que simplesmente esquecia do horário de ir almoçar. Por hábito, desde estas mudanças, eu passei a somente almoçar. Não faço refeições na janta, nem no café-da-manhã.

Passei por umas situações difíceis nos últimos tempos, com a transição de mais de 17 anos de trabalho na Fotografia pra uma volta ao Design Gráfico. Me encaixar profissionalmente em um período da vida que coincidiu com a minha mudança de casa e de parte do meu estilo de vida, me fez decair bastante no controle financeiro e, não tenho vergonha nenhuma em dizer que, por várias vezes, por falta de dinheiro, estive sem ter condições de comer coisa nenhuma. No começo, o jejum forçado foi bastante desagradável. Me sentia tão transtornado em estar a dias sem comer que estava praticamente andando de um lado pro outro dentro de casa, em claro sinal de ansiedade. Dormir me ajudou bastante a superar e me reposicionar nesse contexto. De fato, como dizem, um período de sono ajuda a enganar a fome.

A cada nova vez que eu tinha restrições financeiras, estava um pouco mais preparado para a chegada do inevitável jejum. Pela terceira ou quarta vez em que esses períodos ocorreram, eu já estava bem mais “conformado” e “confortável”, por assim dizer. Se anos atrás eu esquecia o horário de ir almoçar, atualmente chego a esquecer e passar dias sem comer. Não é que eu me force a não comer, mas apenas que estou tão tranquilo na mente que não me veem nenhum desespero por conta do tempo estar passando sem eu ter feito uma refeição. É como se a fome estivesse sob controle e só soasse um sinal quando fosse realmente necessário. Depois de uns 3 ou 4 dias começa a brotar uma vontade um pouquinho diferente de comer alguma coisa. Contudo, já passei por vários episódios onde, em cada um deles, estive mais de 30 dias consecutivos em jejum. Queria, então, dividir o que eu aprendi jejuando.

Quando eu me apercebi do volume de comida que eu consumia quando mais novo e como isso degradou minha saúde, eu percebi o quanto aquilo era desproporcional a minha necessidade. Conforme eu fui mudando de hábito, pude notar que era possível se adaptar facilmente a redução do volume e da frequência da alimentação, desde que se fizesse disso um hábito. E, por fim, se era possível reduzir, um jejum também poderia vir a ocorrer de maneira similar, como vim a descobrir nos últimos anos. Aprendi que jejuar não é a garantia de um incômodo e nem é algo tão extremo se você já tiver preparado fisicamente e emocionalmente pra essa restrição. As experiências anteriores e a aceitação do contexto, principalmente depois de ter superado com sucesso as crises, me ajudaram a ver o jejum de maneira neutra, sendo ele, pra mim, um ótimo aliado quando eu preciso fazer alguma contenção de gastos para contornar a dificuldade financeira.

O jejum me ensinou que eu sou mais resistente e capaz do que imaginava e que, mesmo com um mar de gente ao redor com muito mais posses e dinheiro a disposição, eu não preciso do mesmo tanto que eles pra concretizar minha vida de maneira muito mais estável, digna e satisfatória. É evidente que eu seria feliz dividindo bons momentos em uma refeição ou até mesmo tendo conforto financeiro pra não precisar pensar se vai ser possível comer ou não, pagar as contas mínimas ou seguir devendo novamente. Porém, na ausência deste ideal, tenho conseguido lidar muito bem com o meu cenário atual, enquanto muitos outros não conseguiriam passar 1 dia no meu papel, enfrentando as coisas que enfrento nas diversas áreas da vida.

Ter passado por essa experiência me fez sentir bem, apesar de confirmar o abandono social e familiar, destacando, consequentemente, o nível deplorável dos indivíduos que supostamente tinham algum elo.  Família e sociedade são termos desgastados pra realidade prática dessas entidades. Sorte de quem tem uma verdadeira, pois, para a maioria das pessoas, esses termos são nomes de meras lendas. Família, de verdade, independe de parentesco sanguíneo, uma vez que é tão somente a soma de pessoas que realmente estão interessadas umas nas outras por elos de afeto e empatia, pessoas as quais pode-se contar quando for necessário. Qualquer coisa diferente disso é só convenção social inútil. Família, tal como é para casais na famosa frase do juramento de casamento, tem que ser “na alegria e na tristeza, na pobreza e na riqueza, na saúde e na doença.”. Os revezes da vida, me mostraram com quem eu podia contar e tudo que eu vi foi que eu só tinha valor e utilidade para os demais enquanto tinha alegria, dinheiro e saúde. Na tristeza, na pobreza e na doença, as pessoas simplesmente se distanciaram, da noite pro dia.

O jejum me ensinou que eu hipervalorizava a comida e, muitas vezes, ironicamente, dava pouco valor a ela quando tinha em excesso. Aquilo que temos com muita facilidade, podemos não reconhecer o valor, até perdermos aquilo. Mas depois de ter aprendido o valor da comida, entendi algo ainda melhor: que ela não é tão necessária quando eu imaginava. Resolver meus problemas com outras ferramentas, também foi uma das consequências automáticas. Na ausência da fuga dos problemas pelo caminho da comida, eu tive que buscar alternativas, querendo ou não.

Assim que a cabeça centrou, pude olhar com mais tranquilidade pras coisas e entender melhor e mais profundamente algo que eu sempre acreditei a vida toda: que a média do ser humano valoriza coisas amplamente superficiais e desnecessárias, num modelo de vida de consumo contínuo e desenfreado, mergulhado em dívidas e servidão no trabalho, para sustentar uma busca, quase sempre infrutífera, de objetivos ocos. Acreditam estar subindo na vida, conquistando uma realidade cheia de entulhos, mas, na verdade, trazem tantos problemas pra suas vidas que, depois da metade dos consumos desnecessários, buscam na outra metade soluções pros efeitos colaterais adquiridos com a primeira metade. A grosso modo, resumindo, é como se estivessem usando metade do tempo e do dinheiro de suas vidas pra quebrarem suas pernas e com a outra metade do tempo e do dinheiro investindo no remendo das pernas quebradas. Esse é o exemplo mais explícito de dano desnecessário e vício em equívocos.

Dessa sociedade doente eu não faço parte. Meu foco, há muitos e muitos anos, é a ideologia do minimalismo. Meu lema ao longo do tempo tem sido uma frase que repito muitas e muitas vezes pra mim e pros outros: “reduzir, reduzir, reduzir.”. Comigo eu só quero aquilo que realmente for necessário e útil; o resto eu dispenso. Provavelmente, nesse modelo de vida, o jejum se encaixou muito bem, em uma época oportuna pro meu histórico particular. A minha experiência serve para o meu contexto e para os meus objetivos. Comparar a minha situação, por dentro e por fora, com a de qualquer outra pessoa no mundo, não seria justo pra podermos dizer que há algo único e verdadeiro que possa e/ou deva ser espalhado como ideal de prática ou pensamento.

O que as pessoas precisam entender é que, em diversos assuntos na vida, o que pra alguns é difícil ou utopia, pra outros é pura facilidade e satisfação. A transformação interna de um indivíduo depende muito mais dele mesmo do que de qualquer outro fator ou contexto do entorno. Aquilo que cabe somente a nós entender e resolver, não há pessoa no mundo que possa assumir essa responsabilidade em nosso lugar. Isso não significa, porém, que a sociedade não está adoentada e cheia de práticas ineficientes pra lidar com a própria abertura de pensamento e bem-estar dos seus membros e nem que a sociedade não construa barreiras reais que atrapalham a vida das pessoas. Quando os indivíduos estão adoentados, eles formam uma sociedade igualmente adoentada, já que sociedade nada mais é que a soma desses indivíduos. A expressão de um coletivo de pessoas egoístas, gananciosas, viciadas, ansiosas, preconceituosas, cheias de complexos e desvios psicológicos, só gera um ambiente conturbado onde todos estão em constante conflito por questões e detalhes que nem eles mesmos entendem e não possuem disposição para aquietar, refletir e absorver o necessário pra solução de si mesmos. Nesse sentido, eventos drásticos podem ajudar as pessoas a se colocarem no lugar delas, chacoalhando-as pra que notem o óbvio e comecem a priorizar as coisas certas, valorizando pessoas ao invés de dinheiro e/ou posses e respeitando princípios básicos de convivência, não pra ser um pônei colorido da caridade passiva, mas pra rever em si mesmas, quais são as condutas e pensamentos desnecessários e equivocados que estão fazendo pra si mesmas, no claro exemplo do chamado ‘tiro no pé’. Assim que um indivíduo se apercebe que está errando com ele mesmo, ele tem condições, se quiser, de entender como ele esteve errando com os demais, eventualmente.

Rodrigo Meyer