Crônica | Emergência médica.

Um imprevisto e lá estava eu. Não tive escolha. E, talvez, não poder escolher seja o pior de tudo. Logo nos primeiros dias o corpo se desintoxicou. Me senti renovado. Ainda que estivesse cheio de incômodos, dores e tédio, ainda era melhor. Em dado momento acordo e me sinto visita no lugar, como se eu fosse o estranho. Não deixa de ser verdade.

A televisão ligada em um pseudo-telejornal. Ela estava sentada assistindo e eu aproveitei o momento pra ver como estava indo. Me fiz de idiota e lhe perguntei algo que eu já sabia detalhe por detalhe. Veio uma resposta hipócrita, cheia de preconceitos e ódio. Vi que nada havia mudado, apesar de tantos anos passados. Não havia esperança alí. Deixei o assunto se encerrar, pra evitar socializar. Fui buscar o que fazer. Alternava entre dormir, comer, ler e matar tempo no smartphone. Tudo ia meio devagar pro meu gosto, mas ao menos havia silêncio.

Mas isso não durou muito. Logo veio à tona a essência de tudo que eu me afastei anos atrás, por não suportar o acúmulo em uma vida inteira. No cômodo ao lado, discutiam asneiras, como se fosse a coisa mais urgente do mundo. Gastavam vinte, trinta minutos inventando motivos pra estarem alí, falando, falando, falando, mesmo que não estivessem dizendo nada. Era como se eu fosse o doente, mas elas que estivessem com o intestino no lugar da boca. Me saturei. Um gatilho instantâneo foi ativado na minha mente e eu me senti no inferno. Escolhi ir embora mesmo sem forças, sem nem comer. Às vezes andar pra trás é melhor que andar pra direção do abismo. Eu voltei pra casa e agradeci por estar sozinho, mesmo sabendo que poderia não aguentar. Não tenho medo da morte, mas sim de ter que aturar esse mundo por muito tempo.

Rodrigo Meyer

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Crônica | O homem invisível.

Entrei pela porta de vidro, senti o ar-condicionado. Não havia como eu não ser notado. Mais de 5 câmeras de vigilância e funcionário pra todo lado. No refrigerador, bebidas geladas. Peguei uma e paguei. Do lado de fora, mais gente, mais olhos presentes. Entrei no carro, voltei pra casa. No caminho, as pessoas pela calçada e os escravos da ronda armada. Dentro de casa, os barulhos da porta de entrada se abrindo e da porta do quarto se fechando, avisam os vizinhos que eu voltei. Eu não queria ser notado por ninguém, mas assim como eu os notei, me notaram também. A privacidade não existe. Viver em sociedade é viver observado e julgado. Posso até mesmo me esconder atrás de cortinas e paredes, mas até a minha ausência de imagem vai ser estímulo para lembrarem que eu ainda não saí de casa. Quando eu não quero que me notem, lembram de mim todo dia, mas se eu precisar de silêncio ou ajuda, aí eu consigo finalmente ser invisível.

Rodrigo Meyer

Crônica | Mais um tijolo caiu.

A demolição está ao lado. Ninguém se apercebe. São eles mesmos os tijolos a ruir. Já pouco se erguiam a mais que dois ou três palmos de altura, então a queda lhes é praticamente imperceptível. Vez ou outra, alguém observa e nota um tijolo caindo, uma parede desaparecendo ao chão. Dedos malditos, eles diriam! Dedos que só sabem apontar. Os tijolos queriam cair em paz e seguir desmoronando a construção sem serem responsabilizados pelo dano. Um dia desses estava olhando pela janela de casa. Não conseguia ver nada além da mesma cena enojante. As mesmas casas, a mesma paisagem. E, claro, tijolos caindo. As casas ainda permanecem praticamente intactas, pois os tijolos que caem são as pessoas que se recusam a permanecer de pé. A estrutura das casas seguem firmes, ao contrário de seus moradores. É como se cada casa fosse um museu para expor o que um dia as próprias casas serão. Isso eu não quero não.

Rodrigo Meyer

O que aprendi jejuando?

Adiei muito em escrever esse texto, até encontrar a maneira mais apropriada de se falar positivamente sobre jejum em um mundo onde muita gente passa fome por falta de opção. É evidente que são situações completamente diferentes e, nem de longe, a ideia é romantizar a abstinência de comida. Mas, quero dividir a minha experiência nesse tema e fazer alguns comentários sobre sociedade, consumo, padrão de vida e alimentação.

Esse é um tema delicado que envolve inúmeros dramas para muitas e muitas pessoas. Falar de alimentação, acesso a alimentos, jejum, desnutrição ou alimentação precária é ainda um grande problema no mundo, apesar de termos várias vezes mais alimentos produzidos do que a necessidade de consumo dos seres. Isso ocorre porque existe um enorme desperdício de alimento que vai ao lixo como sobra do que não foi consumido por quem planejou uma compra desproporcional de alimentos.

Na minha família, cozinhar e comer era um evento tão importante que o que mais haviam eram festas e reuniões entre parentes e amigos como pretexto pra se cozinhar e comer sempre mais e mais. Como se pode prever, coletamos disso um vício e diversos problemas de saúde. Era um excesso de comida aliado ao prazer de comer e tendo como gatilho ou origem os dilemas psicológicos. O convívio familiar incentivava que esse modelo se perpetuasse com facilidade, já que bastava estar ali para surgirem pratos maravilhosos todos os dias.

No começo da minha infância eu gastava muita energia e era uma pessoa magra. Depois, gradualmente, fui sentindo os efeitos da depressão se agravarem e, junto com isso, um aumento substancial do consumo de comida. O isolamento e a procrastinação foram dando espaço para um pessoa que via o ato de comer como uma fonte de prazer temporária. Dividir uma refeição com alguém ou mesmo comer algo bem saboroso sozinho de fato pode ser gratificante. Na minha família, infelizmente, o motivo da refeição, pra mim, era tão somente a comida. As reuniões familiares em torno da mesa eram sempre conturbadas e acredito que isso tenha impactado na degradação do psicológico e colocado mais força nesse ato de descontar tudo na alimentação compulsiva.

Em alguns anos da minha adolescência eu comecei a perder o controle sobre minha aparência e peso, virando uma certa bola-de-neve. Estar gordo me fazia comer e comer me fazia estar gordo. Equação óbvia que leva muita gente a uma progressão letal. Essa é uma realidade que vi com meus próprios olhos entre algumas pessoas do meu convívio. Impactado por isso, sempre tentei reverter a minha condição e até consegui. No começo da vida adulta, tinha uma aparência satisfatória e me sentia muito motivado em fazer inúmeras atividades, especialmente com o recente resgate pra fora do poço da depressão. Com um relacionamento promissor, frequência e sintonia no sexo, a tal ‘química’ em estar apaixonado e todo organismo agradecendo, o resultado foi conseguir estar estável fisicamente, mesmo tendo um consumo significativo de comida. Energia gasta e metabolismo ativo faziam tudo parecer fácil de se controlar, sem nenhum esforço.

Mas, depois dessa fase e com as decepções que me levaram de volta ao isolamento e a depressão, entrei pra um consumo desproporcional de comida e álcool, especialmente na fase da faculdade, o que me fez estar tão diferente da imagem que eu tinha de mim mesmo, que não me reconhecia no espelho. A pessoa que eu aparentava ser, não representava a personalidade ou o ideal que eu tinha como identidade interna. Esse conflito também gerou um efeito bola-de-neve de mais comida e bebida e, por fim, minha saúde se degenerou tanto que eu tinha episódios indescritíveis, quase que todos os dias, achando que seria minha hora de morrer. Em alguns períodos mal tinha o contorno do rosto separado do pescoço, por conta do sobrepeso. Mas, de forma geral, levando em conta minha estrutura, eu não estava tão exagerado. Diríamos que passava desapercebido na média das pessoas. Mas, pro meu caso em específico, era um sobrepeso suficiente pra comprometer a saúde.

Muito provavelmente por conta da adição frequente do álcool, acabei em um estado que, se não fizesse nada para mudar drasticamente os hábitos, poderia ser surpreendido por um infarto. Então, resolvi cortar o consumo de álcool quase que totalmente, deixando a prática pra momentos especiais em uma ou outra época do ano. Troquei a diversidade de tipos de bebidas por algumas poucas opções e comecei a me planejar pra uma transição de hábitos alimentares. Apesar disso, nunca tinha passado pela minha cabeça que jejuar fosse uma opção saudável ou interessante. O que eu fiz, na verdade, foi uma redução gradual do volume de comida, especialmente quando o dinheiro se tornava cada vez mais escasso. Se formos comparar, por exemplo, a compra em um restaurante por quilo, eu praticamente reduzi pela metade meu consumo logo de cara e depois, com mais confiança, vi que podia reduzir pela metade da metade. Mal sabia eu que esse domínio na reeducação alimentar me deixou tão condicionado, que nunca me senti privado de comida, mesmo quando comia até menos que isso ou nos dias em que simplesmente esquecia do horário de ir almoçar. Por hábito, desde estas mudanças, eu passei a somente almoçar. Não faço refeições na janta, nem no café-da-manhã.

Passei por umas situações difíceis nos últimos tempos, com a transição de mais de 17 anos de trabalho na Fotografia pra uma volta ao Design Gráfico. Me encaixar profissionalmente em um período da vida que coincidiu com a minha mudança de casa e de parte do meu estilo de vida, me fez decair bastante no controle financeiro e, não tenho vergonha nenhuma em dizer que, por várias vezes, por falta de dinheiro, estive sem ter condições de comer coisa nenhuma. No começo, o jejum forçado foi bastante desagradável. Me sentia tão transtornado em estar a dias sem comer que estava praticamente andando de um lado pro outro dentro de casa, em claro sinal de ansiedade. Dormir me ajudou bastante a superar e me reposicionar nesse contexto. De fato, como dizem, um período de sono ajuda a enganar a fome.

A cada nova vez que eu tinha restrições financeiras, estava um pouco mais preparado para a chegada do inevitável jejum. Pela terceira ou quarta vez em que esses períodos ocorreram, eu já estava bem mais “conformado” e “confortável”, por assim dizer. Se anos atrás eu esquecia o horário de ir almoçar, atualmente chego a esquecer e passar dias sem comer. Não é que eu me force a não comer, mas apenas que estou tão tranquilo na mente que não me veem nenhum desespero por conta do tempo estar passando sem eu ter feito uma refeição. É como se a fome estivesse sob controle e só soasse um sinal quando fosse realmente necessário. Depois de uns 3 ou 4 dias começa a brotar uma vontade um pouquinho diferente de comer alguma coisa. Contudo, já passei por vários episódios onde, em cada um deles, estive mais de 30 dias consecutivos em jejum. Queria, então, dividir o que eu aprendi jejuando.

Quando eu me apercebi do volume de comida que eu consumia quando mais novo e como isso degradou minha saúde, eu percebi o quanto aquilo era desproporcional a minha necessidade. Conforme eu fui mudando de hábito, pude notar que era possível se adaptar facilmente a redução do volume e da frequência da alimentação, desde que se fizesse disso um hábito. E, por fim, se era possível reduzir, um jejum também poderia vir a ocorrer de maneira similar, como vim a descobrir nos últimos anos. Aprendi que jejuar não é a garantia de um incômodo e nem é algo tão extremo se você já tiver preparado fisicamente e emocionalmente pra essa restrição. As experiências anteriores e a aceitação do contexto, principalmente depois de ter superado com sucesso as crises, me ajudaram a ver o jejum de maneira neutra, sendo ele, pra mim, um ótimo aliado quando eu preciso fazer alguma contenção de gastos para contornar a dificuldade financeira.

O jejum me ensinou que eu sou mais resistente e capaz do que imaginava e que, mesmo com um mar de gente ao redor com muito mais posses e dinheiro a disposição, eu não preciso do mesmo tanto que eles pra concretizar minha vida de maneira muito mais estável, digna e satisfatória. É evidente que eu seria feliz dividindo bons momentos em uma refeição ou até mesmo tendo conforto financeiro pra não precisar pensar se vai ser possível comer ou não, pagar as contas mínimas ou seguir devendo novamente. Porém, na ausência deste ideal, tenho conseguido lidar muito bem com o meu cenário atual, enquanto muitos outros não conseguiriam passar 1 dia no meu papel, enfrentando as coisas que enfrento nas diversas áreas da vida.

Ter passado por essa experiência me fez sentir bem, apesar de confirmar o abandono social e familiar, destacando, consequentemente, o nível deplorável dos indivíduos que supostamente tinham algum elo.  Família e sociedade são termos desgastados pra realidade prática dessas entidades. Sorte de quem tem uma verdadeira, pois, para a maioria das pessoas, esses termos são nomes de meras lendas. Família, de verdade, independe de parentesco sanguíneo, uma vez que é tão somente a soma de pessoas que realmente estão interessadas umas nas outras por elos de afeto e empatia, pessoas as quais pode-se contar quando for necessário. Qualquer coisa diferente disso é só convenção social inútil. Família, tal como é para casais na famosa frase do juramento de casamento, tem que ser “na alegria e na tristeza, na pobreza e na riqueza, na saúde e na doença.”. Os revezes da vida, me mostraram com quem eu podia contar e tudo que eu vi foi que eu só tinha valor e utilidade para os demais enquanto tinha alegria, dinheiro e saúde. Na tristeza, na pobreza e na doença, as pessoas simplesmente se distanciaram, da noite pro dia.

O jejum me ensinou que eu hipervalorizava a comida e, muitas vezes, ironicamente, dava pouco valor a ela quando tinha em excesso. Aquilo que temos com muita facilidade, podemos não reconhecer o valor, até perdermos aquilo. Mas depois de ter aprendido o valor da comida, entendi algo ainda melhor: que ela não é tão necessária quando eu imaginava. Resolver meus problemas com outras ferramentas, também foi uma das consequências automáticas. Na ausência da fuga dos problemas pelo caminho da comida, eu tive que buscar alternativas, querendo ou não.

Assim que a cabeça centrou, pude olhar com mais tranquilidade pras coisas e entender melhor e mais profundamente algo que eu sempre acreditei a vida toda: que a média do ser humano valoriza coisas amplamente superficiais e desnecessárias, num modelo de vida de consumo contínuo e desenfreado, mergulhado em dívidas e servidão no trabalho, para sustentar uma busca, quase sempre infrutífera, de objetivos ocos. Acreditam estar subindo na vida, conquistando uma realidade cheia de entulhos, mas, na verdade, trazem tantos problemas pra suas vidas que, depois da metade dos consumos desnecessários, buscam na outra metade soluções pros efeitos colaterais adquiridos com a primeira metade. A grosso modo, resumindo, é como se estivessem usando metade do tempo e do dinheiro de suas vidas pra quebrarem suas pernas e com a outra metade do tempo e do dinheiro investindo no remendo das pernas quebradas. Esse é o exemplo mais explícito de dano desnecessário e vício em equívocos.

Dessa sociedade doente eu não faço parte. Meu foco, há muitos e muitos anos, é a ideologia do minimalismo. Meu lema ao longo do tempo tem sido uma frase que repito muitas e muitas vezes pra mim e pros outros: “reduzir, reduzir, reduzir.”. Comigo eu só quero aquilo que realmente for necessário e útil; o resto eu dispenso. Provavelmente, nesse modelo de vida, o jejum se encaixou muito bem, em uma época oportuna pro meu histórico particular. A minha experiência serve para o meu contexto e para os meus objetivos. Comparar a minha situação, por dentro e por fora, com a de qualquer outra pessoa no mundo, não seria justo pra podermos dizer que há algo único e verdadeiro que possa e/ou deva ser espalhado como ideal de prática ou pensamento.

O que as pessoas precisam entender é que, em diversos assuntos na vida, o que pra alguns é difícil ou utopia, pra outros é pura facilidade e satisfação. A transformação interna de um indivíduo depende muito mais dele mesmo do que de qualquer outro fator ou contexto do entorno. Aquilo que cabe somente a nós entender e resolver, não há pessoa no mundo que possa assumir essa responsabilidade em nosso lugar. Isso não significa, porém, que a sociedade não está adoentada e cheia de práticas ineficientes pra lidar com a própria abertura de pensamento e bem-estar dos seus membros e nem que a sociedade não construa barreiras reais que atrapalham a vida das pessoas. Quando os indivíduos estão adoentados, eles formam uma sociedade igualmente adoentada, já que sociedade nada mais é que a soma desses indivíduos. A expressão de um coletivo de pessoas egoístas, gananciosas, viciadas, ansiosas, preconceituosas, cheias de complexos e desvios psicológicos, só gera um ambiente conturbado onde todos estão em constante conflito por questões e detalhes que nem eles mesmos entendem e não possuem disposição para aquietar, refletir e absorver o necessário pra solução de si mesmos. Nesse sentido, eventos drásticos podem ajudar as pessoas a se colocarem no lugar delas, chacoalhando-as pra que notem o óbvio e comecem a priorizar as coisas certas, valorizando pessoas ao invés de dinheiro e/ou posses e respeitando princípios básicos de convivência, não pra ser um pônei colorido da caridade passiva, mas pra rever em si mesmas, quais são as condutas e pensamentos desnecessários e equivocados que estão fazendo pra si mesmas, no claro exemplo do chamado ‘tiro no pé’. Assim que um indivíduo se apercebe que está errando com ele mesmo, ele tem condições, se quiser, de entender como ele esteve errando com os demais, eventualmente.

Rodrigo Meyer

Sua roda de amigos é diversa?

Apesar do Brasil ser um país de bastante diversidade e mistura étnica, o modo como a sociedade se organizou, deixou um rastro de separatismo visível e invisível. Ainda que em certo convívio diário, ainda se vê estas claras separações sociais, isolando determinados grupos ou características, privando-os de acesso ou boa receptividade em determinados outros meios e grupos de pessoas. De forma geral, essas separações são fruto de uma cultura de racismo, machismo, preconceito de classes, entre outras mazelas humanas. Em decorrência desse modelo adoentado de sociedade, ocorre uma baixa diversidade nos grupos de interação humana, tanto nas amizades, relacionamentos amorosos, espaços de trabalho, espaços de lazer, de compra e os próprios espaços de moradia.

Lembro de um episódio de quando eu era pré-adolescente, onde um amigo de escola me chamou pra opinar sobre um dilema dele. Fiquei contente pela confiança prestada, mas não havia passado pela minha cabeça a possibilidade daquela indagação feita. Ele perguntava, ao modo da época, sob a ótica da idade, se ele seria considerado ‘negro’ ou ‘pardo’ na sociedade, pelos termos dele mesmo. Eu, surpreso pela pergunta, fiz uma breve análise e comentei a única coisa que sabia: que o tom de pele dele era mais escuro que o meu, mas eu não fazia a menor ideia de quais eram os pré-requisitos pra que aquilo fosse classificado ou determinado. Eu entendi que a inquietação dele diante do tema era reflexo da visão pejorativa que ele mesmo desenvolveu sobre sua característica ou condição, ao perceber que na sociedade racista em que vivíamos, quanto mais escuro fosse o tom de pele, menos prestígio social a sociedade atribuía ao indivíduo. Ele desabafava sobre se considerar ‘branco’ e se, não me falha a memória, filosofava sobre classificações, embora tudo aquilo, na época, não fazia muito sentido pra mim, já que estávamos em um ambiente onde haviam centenas, senão milhares, de tons diferentes de pele e qualquer que fosse o nome escolhido, continuariam diversos.

Esse episódio me marcou, provavelmente, porque foi a primeira vez que parei pra refletir por meses sobre diversos aspectos da psicologia humana, questões sociais e como a estrutura do racismo de fato agia na sociedade. Nesta época, ainda percorria anos em depressão e aproveitava meus momentos de intensa reclusão, para pensar. Isso me permitiu refletir sobre muita coisa e também de me tornar um observador engajado da conduta humana. Fechado em meu mundo, com muito poucos contatos e talvez nenhum amigo de fato, olhava para aqueles problemas e conseguia entender com grande facilidade. As coisas injustas, os equívocos e os interesses nefastos de grande parte das pessoas, saltava diante dos meus olhos, evidenciadas por si mesmas, bastando que eu estivesse ali, sem evitar de ver. No final das contas, ser observador, naquele contexto, era simplesmente viver com os olhos abertos normalmente, algo que a maioria das pessoas ainda não faz.

Era fácil ver a diferença em todo lugar, visitando a feira, andando pelo supermercado, folheando as revistas, acompanhando os filmes e programas da televisão. Se antes nunca havia parado pra pensar em quanta diversidade havia ou deixava de haver no meu círculo de convívio, com essa atenção voltada ao tema, foi instantâneo notar que, de fato, a sociedade estava fragmentada ao invés de unida indistintamente. As pessoas estavam separadas, basicamente, por conta de distorcidas visões de mundo, ideias, preconceitos, vontades, recusas, medos, erros, entre outras coisas. Eram tempos, talvez, nada diferentes de hoje, onde ainda vemos gente ostentando sobrenomes, profissões, crachás, diplomas, cargos e outras piadas de mal gosto.

Fato é que, podemos fazer uma análise simples das pessoas de nosso convívio e medir essa diversidade. Se você nasce em determinado lugar, mora em determinado bairro e frequenta determinadas escolas, as chances de seu círculo de convívio ser totalmente (ou quase) composto por pessoas similares é grande. No bairro onde passei minha infância, na mesma rua, convivia-se com diferenças entre os próprios vizinhos. A diversidade  de pessoas, escolaridades, classes sociais, idade, etnias, gêneros e outros aspectos, estava lá, viva e fluindo. Naquele tempo, saíamos de casa pra brincar, pra ralar joelhos nos carrinhos de rolimã, empinar pipa, comprar gelinho, jogar bola, inventar decoração de festa junina ou simplesmente convidar as pessoas da rua pra estarem na sua festa de aniversário. Ainda que isso fosse uma realidade, ao mesmo tempo era claro ver que o que uns consideravam normal, outros estufavam o peito pra desaprovar. O preconceito sempre esteve lá. As pessoas podiam estar todos os dias em nosso convívio, mas sempre haveria alguém plantando a semente do racismo, provavelmente pra tentar atribuir valor em si mesmos, mesmo que de maneira imaginária e doentia. Eu podia ouvir as pessoas destilando xingamentos, expressões pejorativas, exclusão prática, por mais que não fossem capazes, em momento algum, de esclarecer o sentido daquela conduta automática. Mal sabiam elas que foram marionetes frágeis, usadas por influenciadores que também foram marionetes de outras marionetes numa terrível sucessão histórica. Acostumados a não pensar, chamavam aquilo de pensamento.

Conforme fui crescendo, mesmo que em discordância de tudo isso, o peso do separatismo social preexistente ainda formava círculos de convívio pouco diversos. Ao percorrer por outros bairros, mudanças de casa, trocas de escola, cursos aqui e alí (principalmente os de faculdade), ficava claro o quanto ainda seguíamos segregados uns dos outros. Não compactuar com isso me permitiu cavar meus próprios caminhos para estabelecer conexão e convívio com a diversidade. Enquanto muitas pessoas ao meu redor ocupavam seus dias em falar mal dos outros, eu fugia cada vez mais desses cenários, pra não ter que conviver justamente com estes que se achavam melhores, mas que nada somaram pra mim. A cada vez que eu exercia a natural diversidade, aumentava o desprezo pelas pessoas preconceituosas, por ainda precisar dividir teto, festas ou alguma outra necessidade de socialização ou interação.

É interessante como, automaticamente, todos os estereótipos pejorativos que meus parentes tinham, rapidamente se converteu num imenso tapa na cara devolvido, quando eu cruzei a adolescência e a vida adulta. Para o desprazer de muitos, mas para o meu prazer, dividi ótimos momentos ao lado de pessoas de todo tipo. Moradores de rua, periféricos, ricos, escolados, desempregados, músicos, atores, dançarinos, prostitutas, boêmios, usuários de drogas, estrangeiros, gays, lésbicas, trans, andróginos, hippies, punks, góticos, rapers, skatistas, negros, brancos, amarelos e vermelhos. Se houvesse oportunidade de conhecer marcianos, animais falantes e robôs, certamente também teriam sido inclusos nas mesmas rodas de convívio. A minha vida se tornou basicamente andar pelas ruas, pelos bares, pelos apartamentos, pelas casas de amigos de amigos e, praças, casas noturnas e qualquer outro canto onde tivesse gente e alguma coincidente incompatibilidade com o resto do mundo. Estávamos lá, pra repartir alguns copos de bebida, uma música, risadas, conversas, fotos, aventuras, sexo e, para alguns, oportuna sincera amizade.

Hoje em dia, infelizmente, estes meios onde normalmente se via tanta gente alternativa, misturada e divertida, hoje não representa mais os mesmos valores. Nestes espaços passou-se a ecoar o ranço do preconceito, das pessoas superficiais, violentas, alienadas, imaturas, buscando apenas fama pela aparência em um mundo de status para os que nunca tiveram isso. Eles tinham tudo pra dar certo e somar pro mundo, mas se corromperam pelas mesmas bobagens que antes diziam combater ou desprezar. E foi assim, que, pouco a pouco, eu fui me recolhendo, voltando pro isolamento e para novas reflexões. Meu círculo de convívio continua diverso, mas muito mais restrito, infelizmente. Nem mesmo com o poder da internet consigo encontrar muita gente pra dividir bons momentos comigo. Não queria me tornar um chato saudosista, mas, infelizmente tem sido assim a realidade apresentada. São poucas as pessoas do cenário geral que refletem a diversidade que eu gostaria de ver. Talvez a globalização e a internet ajudaram a normatizar tudo e todos e, agora só existe uma grande salada de gente sem sal, sem conteúdo e sem quintal. Onde é que eu vou brincar agora?

E sua roda de amigos, como anda? O que você tem feito pra combater esse funil social artificial de separatismo e preconceito nesse modelo adoentado de sociedade?

Rodrigo Meyer

Sobre empoderar-se.

Diversos grupos humanos ou tipos de pessoas passam por situações de desafio na vida, onde podem acabar depreciados indevidamente pelos outros e/ou por si mesmos. Diante dessa irrealidade, coletivos, famílias, grupos de amigos ou colegas de espaços na internet, frequentemente estão no papel de tentar desconstruir e reverter a visão depreciativa que foi plantada e, então, alicerçar sobre os indivíduos uma noção positiva sobre si mesmos. Tudo isso soa excelente e, a princípio, é exatamente isso que deve ser construído no geral. Contudo, precisamos falar sobre detalhes e nuances desse processo, para entender papeis, lugares, momentos, direções, significações, espaços, equívocos, entre outras coisas.

Quando se fala em empoderamento, especialmente nos tempos modernos de lutas sociais e pessoais em evidência nas mídias e nos espaços de apoio, cultura e educação, geralmente estamos falando em reconstruir um pensamento, uma visão ou um sentimento sobre o indivíduo (ou um coletivo) que, até então, sentia-se aquém de seus potenciais, valores, direitos, etc. Para deprimidos, mães solteiras, mulheres, idosos, enfermos, cadeirantes, neuro-diversos, homossexuais, trans, desempregados, como também determinadas etnias, classes sociais, nacionalidades e qualquer pessoa que disponha de qualquer característica ou condição que lhe afete, no sentido de reduzir a autoestima, a inclusão ou a sensação de valorização e respeito na sociedade, quando se usa a ideia de empoderamento, normalmente isso vem acompanhado de uma tradicional carga de reforços positivos com o objetivo de corrigir e enaltecer o que antes estava equivocado e desmerecido, por assim resumir.

Mas, é preciso pontuar que nesta iniciativa, deve-se vigiar de dentro pra fora o tipo de intervenção ou resultado que se está fazendo na mente ou na sociedade. Quando olhamos pra dentro de nós mesmos em busca de uma imagem melhor, não podemos simplesmente descartar os parâmetros de nossa própria realidade ou mesmo o respeito diante daquilo que consideramos um ideal. Da mesma forma que não devemos nos subestimar nem subestimar os outros, não devemos nos superestimar nem superestimar os outros. E qual é a medida realista para cada caso? Por sermos diversos, cada pessoa tem uma realidade e condição diferente, e é sobre esta realidade em particular que o indivíduo deve pautar sua reflexão ou parâmetro para entender quem é e o que deve ajustar para se expressar tal como é.

Muitas vezes as pessoas se sentem menos capazes ou menos aceitas para uma determinada tarefa, por exemplo, podendo se afastar de certas tentativas ou interesses, como um resultado de frustração, desistência, vergonha, medo, insegurança ou até mesmo por algum outro motivo que não saiba definir forma e origem. Crescer, dentro desse contexto, é empoderar-se no exato sentido de ganhar poder, o poder que antes não se tinha ou não se sentia ter. Não significa exercer poder sobre os outros, mas descobrir e exercer seu poder sobre si mesmo e sobre as atividades a que tem potencial para tal. É o caso, por exemplo, do indivíduo que se reconhece diante de si mesmo e do mundo, como uma pessoa habilidosa em Comunicação e usa esta habilidades com liberdade e orgulho para ocupar seus possíveis espaços, exercer sua personalidade, seu talento, sua vontade, seu estilo, seu trabalho, seu hobby, etc.

Em uma situação normal, essa habilidade já seria reconhecida e apoiada desde o início ou, pelo menos, não seria negada ou recusada de forma tão incisiva. Mas, em casos onde as pessoas são descriminadas, pode ocorrer ausência de apoio no círculo social, familiar, profissional, de amigos, etc. É nesse momento que a pessoa pode sentir um descompasso entre o que ela é e o que outras pessoas permitem que ela seja. Tal como um pássaro aprisionado em uma gaiola, que, embora tenha o impulso natural de voar, está limitado pelo cárcere. Por vezes, não notamos exatamente o que é que nos desvia de nossos potenciais ou objetivos e, tardamos a descobrir que nos sentíamos inferiores ou tolhidos em nossa expressão, devido a desvalorização desproporcional ou preconceituosa de outras pessoas ou grupos. Isso afeta até mesmo a nossa percepção de quem somos e quem gostaríamos de ser. É como se mudássemos nossa escala de parâmetros de realidade, aceitando como “realidade” um contexto que é, na verdade, ilusório.

É pela repetição que o ser humano detecta padrões em tudo. As condutas, as tendências, os resultados, as chances de vitória ou de fracasso, os conceitos subjetivos do que é bom ou ruim, do que é certo e errado, do que tem ou não valor, do que pode ou não ser feito. Porém, essas repetições podem estar presentes na vida mesmo não conferindo com a realidade. O preconceito e a repetição de padrões equivocados, forja um esquema social que transforma as condições e as oportunidades para determinadas pessoas, mudando completamente o tipo de realidade que elas terão repetidas vezes, até se tornar algum tipo de tendência para um padrão. Isso significa que, por exemplo, se a sociedade nega emprego a cadeirantes repetidas vezes, acabará gerando um grande coletivo deles em situação de desemprego e, em razão disso, torna-se padrão o desemprego acompanhado da condição de cadeirante. Mas perceba que esse padrão é forjado por uma determinada conduta externa e não pela condição do indivíduo em si.

Apesar de esclarecido isso, muita gente não se apercebe dessas amarras sociais e sente como se sua condição atrelada a alguma recusa ou insucesso, fosse algo “compreensível” e “normal”, uma vez que esse parâmetro se tornou comum / massificado na média de como as pessoas ao redor lidaram com o tema. Assim, as pessoas podem se depreciar, antes mesmo de terem tentado uma expressão em algo. Inúmeras vezes vimos frases similares a “eu não tenho nenhuma chance, sou apenas um qualquer, filho de … (insira aqui alguma profissão que normalmente é vista como secundária ou de menor valor na sociedade)”. A autoestima das pessoas vai ruindo a cada vez que elas recebem palavras, ações e recusas por parte das demais, pois o ser humano, como a maioria dos animais, é um ser social e, na exclusão, se vê podado de sua natureza, de sua essência e de seu direito nato de se expressar como indivíduo e como peça encaixada em um coletivo ou sociedade.

Quando a cultura local está comprometida a ponto de não conseguirmos fomentar ações de fora pra dentro ou do cenário macro para o micro, as ações nascem, da forma que podem, de dentro pra fora e do cenário micro para o macro. Porém, esta tentativa improvisada de resistência traz consigo algumas barreiras, como é de se esperar. Enquanto o coletivo convencional da sociedade ainda não está aberto para determinadas mudanças e realidades, toda iniciativa de empoderamento, chacoalha e incomoda o espaço convencional, porque evidencia nele a inação, o preconceito, as falhas, as fraquezas, etc. A cada vez que alguém se empodera em um grupo ou mesmo individualmente, isso repercute nas demais pessoas, quase que instantaneamente, pois estamos, saibamos ou não, interligados enquanto sociedade. Todo ser que divide este mundo, está agindo e reagindo em um cenário onde toda ação e percepção é compartilhada através dos vínculos nas relações físicas, emocionais, geográficas, profissionais, políticas, etc. Tudo que fazemos ou deixamos de fazer, afeta algo e/ou alguém e isso não pode ser anulado ou coibido, pois é um efeito automático e natural indissociável da existência no mundo.

Entendidas tais premissas, plantar empoderamento, sem levar em conta o cenário, é ignorar planos e objetivos no próprio ato de luta para a transformação da sociedade em favor de uma causa ou grupo. Partindo da premissa de que devemos suscitar mudanças para a realidade que gostaríamos de ver, não podemos acreditar que a repetição de erros já identificados possam, dessa vez, serem usados em tom de acerto. Há uma frase de Paulo Freire que fala exatamente disso:

“Quando a educação não é libertadora, a vontade do oprimido é de ser opressor.”

Por vezes, o empoderamento escapa pelos dedos da mão e as pessoas acabam usando o resgate de si mesmas como uma forma de vingança onde perpetuam um papel ou cenário que, no final das contas, não consolida a transformação desejada e, reforça uma certa validação social, mesmo que inconsciente, de que não há objetivos válidos, apenas lados buscando assumir a opressão, conforme melhor conseguirem se posicionar nessas batalhas imaginárias de tomada de espaços e valores acima de outros.

É claro que, devemos compreender também que o efeito de uma opressão enraizada por muito tempo, fomenta uma explosão de conduta e que deve ser compreendida tal como apontado pela frase que diz “Não se deve confundir a reação do oprimido com a violência do opressor.”, apontando exatamente que, nem toda reação “drástica” é uma violência por si só. A reação para uma ação não é uma ação por si só, mas um resultado da ação inicial do outro. Assim, não se pode esperar controle ou supressão de determinada reação ou vontade de reação, depois de já se ter demonstrado ações ou vontade de ações de forma arbitrária e gratuita. É exatamente isso que explica porque em um cenário de normalidade, não há reação a violência, posto não haver violência inicial para requerer algum tipo de reação. E de igual maneira, para uma violência inicial, a defesa na reação é o esperado, para equiparar em tom de justiça a equação que se desviou da normalidade ao brotar indevidamente. E é este exato caso que explica como e porquê expressões de fascismo não são toleradas. O empoderamento humano, sob a premissa da liberdade e da dignidade humana, combate a “célula cancerígena” no ambiente social, mesmo ainda se tratando de “célula” como as que ainda estão saudáveis.

Considerações importantes para o empoderamento humano exigem reflexão extensa e, certamente, dariam bibliotecas inteiras de conteúdos e questionamentos para mais desenvolvimentos. Enquanto o ser humano estiver cercado desse tipo de ambição de dominar e expor a realidade dos indivíduos, no âmbito pessoal e coletivo, teremos chances de corrigir equívocos não só na origem externa, como também os de origem íntima, como quando nos deixamos levar pela ilusão plantada pelos preconceitos e opressões da sociedade. Da mesma forma que há indivíduos buscando empoderamento para superar esses cenários onde foram vitimados de alguma forma e/ou em algum grau, há também pessoas precisando de extensa transformação para elas mesmas se redescobrirem como pessoas, fora daqueles espaços convencionais onde habitaram por muito tempo, iludidos por poder, violência, preconceito, ganância, etc.

Ainda que eu consiga ver com certa clareza esses dois espaços, jamais poderei negar a mim mesmo a necessidade de dar preferência aos massivamente vitimados por tais opressores, do que aos opressores que são, em última análise, também vitimados por algum outro cenário que os colocaram nesse terrível papel. Tal escolha, além de instintiva é a mais adequada do ponto de vista racional, bastando retornar para a analogia com o câncer e perceber que se quisermos ter alguma chance de salvar o total de um paciente, precisamos ponderar os limites entre a quantidade de células saudáveis, a quantidade de células cancerígenas a serem eliminadas e a resistência para o processo de combate. Assim, quanto mais cedo se intervém no câncer, melhores são as chances de cura, conforme os próprios médicos explicam tais estatísticas. E, para um corpo onde o câncer já se espalhou em tempo e quantidade, torna-se mais difícil ou impossível de reverter o quadro geral. Assim posto, todo esforço de ajuda deve abrir os olhos para prioridades, tempo, quantidade, efeitos, ferramentas e nível de ‘resposta’ do paciente a determinadas iniciativas de tratamento.

É sob esta expectativa que pauto minha estratégia para refletir e reagir ao mundo que me é apresentado. Não espere de mim um produto pronto e acabado, mas também não tome como garantida a falha por padrão, pois estou, constantemente, em batalha por mim mesmo e por tantos outros. Teoricamente, haveria espaço ilimitado para continuar a desenvolver o tema deste texto, porém, já está extenso o suficiente para a média do que tenho ofertado na maioria dos artigos desta mídia. Espero, contudo, poder retornar e pinçar este texto como referência de base para o que de novo eu puder adicionar. Acredito que, construindo a expressão ao longo de todos esse artigos já escritos, exige, proporcionalmente, que os que me leem se pautem pela cruza de informações que se pode ter no total dos textos e não apenas de uma publicação em isolado. Por isso, convido a todos vocês que chegaram até aqui por conta desse tema em específico, que visitem o restante do material, desde o início, assim poderão viajar junto nessa jornada. A minha missão, sobretudo, é sinalizar e apoiar a missão de todos vocês, enquanto houver algum norte em comum. Bem-vindos e obrigado por me “aturar”.

Rodrigo Meyer

Valores ou baixa autonomia?

Na prática, somos um mundo onde a maioria das pessoas tem pouca referência real do que é certo e errado, do que é aceitável ou não. Ao mesmo tempo em que as pessoas figuram em todo tipo de desvio de conduta, elas pouco entendem sobre aquilo que fazem. Mesmo em um contexto onde as pessoas estejam, por exemplo, seguindo as normas e leis de um local, elas não estão necessariamente ponderando sobre o que é certo e errado. Isso ocorre porque, basicamente, grande parte das pessoas está condicionada pelo sistema e não pensam os porquês das regras.

Esse é o motivo, por exemplo, de pessoas que mesmo em um ambiente onde não há multas ou risco no trânsito, recusam-se a avançar o sinal vermelho, apenas porque estão condicionadas a parar o carro diante daquele simbolismo.  Tanto é verdade que estas pessoas condicionadas ficam tentadas a avançar o sinal assim que ele muda para cor verde, mesmo sem fazer uma análise dos riscos ou opções do cenário, como, por exemplo, o surgimento repentino de um pedestre.

Em uma situação saudável, as pessoas conseguiriam discernir com autonomia quando elas podem cruzar uma rua, avançar o carro, ultrapassar um farol vermelho, amarelo ou verde. Porém, grande parte das pessoas não tem autonomia suficiente pra decidirem sozinhas como proceder nos ambientes. Estas pessoas são lidas, por vários estudos, como propensas a seguir regras como forma de livrarem-se do peso do pensamento complexo, das decisões ou do comprometimento com qualquer tipo de reflexão sobre os assuntos. É uma forma de aliviar para a mente fragilizada e pouco hábil o controle da realidade, entregando esse controle a outra pessoa, a quem eles possam simplesmente apontar como líderes ou tutores e seguir, cegamente, o que eles dizem.

Tal conduta sempre foi possível de ser vista na humanidade, afinal, a diversidade de mentes também inclui uma grande parcela de pessoas com baixa autonomia. Para estas pessoas, onde tal conduta é mais provável de ocorrer, figuram os exemplos de situações desastrosas da História e Política do mundo. Pode-se dizer que seja o caso de quando alguém enaltece lideranças com postura rígida e reacionária, para governantes, lideranças de grupos sociais, emissoras de televisão, autores, comunicadores, figuras no círculo familiar ou de amigos, etc.

Ironicamente, ao mesmo tempo em que essas pessoas entregam as responsabilidades de pensamento e decisão sobre o mundo para outras pessoas, tornam-se, automaticamente, inaptas para eleger tais líderes. Isso explica porque, normalmente, a escolha é pautada em figuras com discursos falaciosos, cheios de preconceitos e tom exagerado, afinal, para uma pessoa despreparada e que não se envolve nos próprios pensamentos sobre as coisas, uma falácia parecerá verdade e aquele que profere tal falácia, parecerá um bom intérprete do mundo. É assim que nascem idiotas comandando multidões de pessoas ainda mais idiotizadas. Por isso mesmo é completamente falsa a premissa de que a popularidade atesta a qualidade de algo ou alguém ou de que atende as necessidades do grupo que o apoia.

A única maneira de não cair nesse equívoco é ter autonomia nos pensamentos. Claro que, não sem suporte de uma extensa reflexão, leitura, diálogo e amadurecimento de sua pessoa e suas ideias. Mas, de toda forma, terá que ser feito o processo de independência do indivíduo pra que ele seja responsável por aquilo que vê, pensa, fala, interpreta e concebe como certo e errado. Sem isso, essa pessoa correria o risco de ter opiniões completamente diferentes a depender de como as leis fossem ou de quais ideias seus líderes passassem a propagar. Se alguém acredita que roubar é errado, não importa o quanto o roubo seja legalizado ou incentivado, a pessoa não roubará. Contudo, para pessoas sem esta autonomia, essa decisão depende do que as pessoas ditam pra ela.

Não é novidade nenhuma que pessoas de mente fraca criadas em famílias com o hábito de ditar regras e preconceitos, acabam sendo replicadoras, feito papagaios, desses mesmos equívocos. Acreditando automaticamente que aquilo que receberam da figura de referência é a verdade (sendo ou não), sentem orgulho em replicar tal informação absorvida sem filtro, pois da mesma forma que não tiveram filtro no momento da eleição da figura, da absorção das informações dela, também não terão na hora de se expressar ao mundo, em seus atos e palavras. Seguirão acreditando com fervor e, por vezes, de maneira violenta, já que toda sua vida e senso de orientação estão pautados e totalmente dependentes de pessoas externas, ideias externas, decisões externas. Por não serem autônomas sequer pra viverem sem essas muletas adotadas ao longo da vida, sentem-se incomodadas, cobradas e sob ataque quando lhes é tirada a venda e lhes é cobrado que enxerguem com os próprios olhos a realidade. O contato com a lógica, com a verdade e a realidade, choca, afinal, passaram tanto tempo com os olhos vendados, que a luz ofusca e agride.

Em tempos onde o ódio gratuito está se espalhando pelo mundo, nas mentes menos privilegiadas, é natural que pouca gente consiga perceber o quanto isso é tosco, patético, doentio e sinônimo direto de comprometimento da autonomia do raciocínio, do uso da lógica, da reflexão e do ato digno de assumir responsabilidades por si mesmo e por suas condutas, ideias, ações, reações, etc. Amadurecer, por isso mesmo, significa muito mais que cruzar números de idade ao longo do tempo. Grande parte da sociedade ainda pode ser lida como infantilizada, no sentido de que, tal como as crianças, ainda precisam da aprovação de “superiores” pra saberem a hora de dormir, o que podem ou não comer, se é válido ou não comer de boca aberta, etc.

Entre adolescentes e adultos, tal fraqueza de comportamento termina por refletir na adoção de líderes que, embora externos, possuem o mesmo teor ou estilo das figuras íntimas anteriores a quem já tenham eleito como tutores da realidade. É uma sociedade que se recusou tanto a aprender que, atualmente, há pessoas pedindo instruções a “profissionais” ou figuras de “liderança” para coisas simples como, se vestir, decidir o que comer, se devem ou não se relacionar com alguém, etc. Uma coisa é pedir conselhos, dicas e opiniões e outra, completamente diferente, é entregar toda a responsabilidade de raciocínio e decisão nas mãos de terceiros. Seria como eleger uma determinada pessoa, revista ou programa de televisão para lhe dizer o que vestir pra ir trabalhar ou que lugar frequentar para se divertir. Embora isso soe como ridículo quando citado pra quem é independente, é basicamente o que muita gente faz em diversos setores da vida, em inúmeras decisões das quais não participam ativamente e, por isso mesmo, sem sequer notar.

De maneira bizarramente automática, estão todos seguindo essas regras, tal como o exemplo do semáforo. Costumo brincar com o exemplo de que se houvesse um semáforo vermelho no meio do deserto, ainda veríamos pessoas parando, sem nem saberem que há algo de muito estúpido naquilo. Se a capacidade de interpretar a realidade fica comprometida, tudo que sobra é a interpretação emprestada de outros. E, em um mundo onde a ignorância alimenta líderes e seguidores, uma procissão de inúteis avança como células cancerígenas que crescem sem motivo e degradam o ambiente por onde passam, mesmo quando tenta-se combatê-las.

O exato motivo das “ideologias” de preconceito e ódio serem estúpidas é tão somente porque não são baseadas em nada concreto, já que são apenas reflexo desse hábito insensato de delegar a decisão a outros, sem nenhum filtro eficiente. Em um coletivo assim, está ativada a armadilha que gera uma multidão de racistas, homofóbicos, machistas, “religiosos” fanáticos, xenófobos, reacionários em geral, apoiadores de violência gratuita, etc. De tão esdrúxulo, torna-se piada entre os que tem algum uso da massa cefálica. Mas, pra quem não tem, pouco conseguirá perceber, já que exige exatamente o que eles não tem: autonomia e interpretação do mundo. Mas, a boa notícia é que até mesmo estas pessoas podem progredir em seus equívocos e decidir fazer uso, cedo ou tarde, da ideia de questionarem elas mesmas cada um dos pontos que antes foram mastigados cegamente. Tal transformação, contudo, exige resiliência, pois inúmeros serão os choques com a realidade, já que passou-se tanto tempo distante dela. Estar desacostumado ao pensamento independente, a lógica, a análise / reflexão do mundo, entorta a mente de tantas maneiras, que, por vezes, nem mesmo profissionais se mantém interessados de tentar prestar ajuda para reversão.

Há indivíduos que se tornaram tão ridiculamente viciados nos seus equívocos e fraquezas mentais, que, mesmo diante de toda boa vontade em lhes ensinar e mostrar a lógica, ainda não estão prontos pra receber nada disso com bons olhos. Cria-se, infelizmente, uma barreira de proteção que é derivada do vício de conduta, que basicamente impede o próprio “tratamento”. É como se, por exemplo, um indivíduo tivesse tanto medo da dor gerada pelo torniquete, que ficasse preferindo a perna quebrada em fratura exposta, com perda de sangue. A cada vez que encostam o torniquete, suscita uma dor nova na exata área fragilizada, o que faz muita gente recusar a ajuda. Em um aprofundamento dessa analogia, há casos onde as pessoas a quem tenta-se ajudar, recusam até mesmo a anestesia que poderia tornar o processo indolor, uma vez que desconfiam do anestesista, do hospital, dos métodos, ou até mesmo de que fratura exposta é algo que precise ser corrigido para a saúde do corpo. Assim, muita gente se torna um ferrenho defensor da própria ruína, por pura ignorância e covardia. E, sinceramente, tem casos em que eu não quero nem tentar ajudar, porque vejo, nitidamente, que seria esforço em vão. Prefiro mil vezes dedicar tempo e energia com quem tem alguma chance de se transformar. O resto não é, no momento, minha prioridade, até porque não sou o salvador do mundo, nem sou responsável pelos outros, mesmo que estes, claramente, não tenham responsabilidade por si mesmos. Não sou pai, não crio crianças e meu papel de ajuda social é secundário ao meu próprio papel, pois estou ocupadíssimo exercendo minha autonomia e interpretação do mundo, das pessoas e de mim mesmo.

Rodrigo Meyer