Prosa | Vermelho Cocaína.

A imagem que ilustra esse texto é fictícia e meramente ilustrativa, sendo parte de uma fotografia marcada como livre pra utilização, segundo os filtros de pesquisa de imagem do Google.

Quem é que sabe os motivos da vida? Algumas coisas acontecem sem que saibamos como reagir. Às vezes, queremos mudar o rumo das coisas, mas o tempo já passou e as coisas não querem mais serem mudadas. Custamos a entender que isso não é uma perda, pois não perdemos o que nunca tivemos. Você foi um desses episódios em um momento onde eu estava completamente perdido e descrente na minha vida.

Nos conhecemos na faculdade e foi fácil fazer amizade contigo. Estávamos conectados pelo que parecia ser um estilo de vida em comum. Tínhamos uma amizade em comum com quem dividíamos algumas noites de bar. Saíamos em pequenos grupos pra dividir a noite em diversos lugares. Era tudo muito bom, porque as companhias me prendiam a atenção. Dividimos muitas risadas, muitas conversas e muitas outras coisas em festas. Eu me encantava com o seu jeito, seu cabelo curto tingido de vermelho. Quando eu te olhava, a noite se preenchia com essa energia marcante. Quando estávamos no nosso restrito grupo, ninguém de fora era convidado. Construímos isso espontaneamente, sem ninguém ter falado.

Entre cigarros e bebidas, estava claro que, frequentemente, havia cocaína. E foi isso que, em pouco tempo, te deixou mais magra ainda. Te dei um apelido carinhoso por isso, porque, visualmente, você parecia muito frágil, muito pequenina. E foi totalmente verdade o que lhe disse certa vez: você sempre foi muito bonita e continuava, mas eu estava realmente preocupado com a progressão da sua magreza. Eu podia dar a volta em seu braço apenas com a minha mão. Você pode ter perdido o compasso com a sua ‘farinha’, mas eu só queria que você analisasse a situação e, se precisasse de ajuda, podia contar comigo, porque eu realmente queria te ver bem. Não toquei mais no assunto, porque, apesar de tudo, era só você quem deveria saber o que fazer da sua vida.

Se tem uma coisa que me lembro, como se fosse hoje, foram de todos os abraços que nos damos. Você parecia gostar que eu fosse maior que você. Talvez tivesse a sensação de ser totalmente acolhida quando se acomodava confortavelmente naqueles abraços. E quando eu te abraçava, eu podia te possuir inteira. Era realmente muito bom ter você apertada em mim. E eu admito, sem nenhum pudor, que, frequentemente, minha mente ia lá pra Lua e eu te imaginava nua, deitada comigo, cumprindo todo o potencial da química e da sintonia. Você me atraía de muitas maneiras, pela sua voz, o que pensava e dizia, seu semblante, seu cabelo, suas roupas, seu estilo de vida, seu jeito de se sentar e alguma coisa que derivava da sua silhueta e do meu imaginário do que seriam os seus dias. Não foi à toa que nos agrupamos desde os primeiros momentos. E nessas idas e vindas de uma noite e outra, acabou surgindo um incômodo dia que até hoje eu não sei bem como descrever.

Estávamos em uma mesa de bar, junto com mais uma ou duas pessoas. Éramos os mesmos de costume e desde sempre já nos sentíamos livres e confortáveis naquele pequeno grupo. Você estava sentada ao meu lado e, gradualmente, se aproximou sugerindo um beijo. Mas eu, apesar de todos os meus desejos e pensamentos, estava realmente muito perdido na vida. Antecipando tristes possibilidades futuras, eu desviei do seu beijo por achar que, se eu cedesse e, depois de um tempo, você não quisesse mais nada comigo, eu acabaria sofrendo e, provavelmente, ia tentar me afastar de você, pra frear o sentimento. E, imaginando tudo isso, eu realmente não queria fazer nada que pudesse eliminar nossa amizade. Foi estranho, eu reconheço, mas a minha vida naquele tempo estava tão perturbada, que eu estava sistematicamente evitando sentimentos e relacionamentos de casal, enquanto, ao mesmo tempo, estava preservando ao máximo qualquer amizade valiosa que surgia.

A minha reação de recusa te frustrou e te deixou, talvez, insegura. E tudo ficou um pouco mais confuso, porque eu te adorava e aquilo doeu em mim também. Eu te acolhi, te dei um abraço, puxei você pra perto de mim e tentei te reconfortar. Não havia nada de errado contigo. Era apenas eu que viajava em incertezas sobre a vida e recusava tudo, até o que não devia. Eu levei um tempo pra organizar tudo isso na minha mente e foi mais longo do que eu queria que fosse. Mesmo que eu tivesse me explicado à tempo, você, talvez, já não me aceitasse. E por não saber como explicar, eu deixei as coisas se perderem no tempo. Não sei o que a vida poderia ter sido, se tivéssemos reagido diferente. Tudo que eu sei é que, assim como você, eu também tinha uma série de questões nos bastidores. Eu fui te procurar, muito tempo depois, pra tentar me redimir ou, pelo menos, me explicar. Mas, nunca houve sua resposta e ficou implícito que só me restava seguir a vida e me conformar. Botei na minha cabeça que, se você não iria sequer me ler, sua opinião sobre o assunto já estava dada e encerrada.

Recentemente, relembrando tudo isso, me bateu a curiosidade. Fui ver que rumo tomou a sua vida. Grande parte dela, ainda me parece igualmente interessante, mas uma parte me deixou dúvidas. Às vezes é difícil distinguir se os seus interesses em determinados assuntos é seu universo pessoal ou mera necessidade da sua profissão. Como eu não vi nada muito claro que mostrasse qualquer posição diferente de tudo aquilo, eu preferi ignorar e deixar tranquilo o que já estava tranquilo. Não posso negar que você é intrigante e que rouba espaço nas minhas melhores memórias. Por isso, prestei esse texto da forma mais sincera que pude e, caso um dia resolva vir falar comigo, saiba que eu tenho tempo, tenho tranquilidade e quase tudo do meu passado já foi organizado e resolvido. Eu só queria mesmo que as pessoas que marcaram minha vida em pequenos grandes momentos estivessem ainda hoje por perto, pra que pudéssemos nos escutar, nos apoiar, como sempre fazíamos. Se ainda houver compatibilidade, eu serei o primeiro a manter a mão estendida. Mas, se nossos mundos forem inconciliáveis, mudemos de jogo e de jogadores, pra tentarmos ganhar nossas próprias próximas partidas.

Não vou me prolongar muito. Quero só dizer que estou de partida pra fora do país, que as condições estão bem estáveis e que, desde que eu percebi que perdi o que não deveria perder, eu tenho vivido sem nenhum medo ou restrição. Quando a gente perde tudo, não tem mais nada pra perder, então, nada mais nos assusta, nem nos impede de tentar. Eu não faço ideia se o destino ainda me reserva algum momento bom, mas eu vou continuar a fotografar tudo que eu puder e tentar conhecer o maior número de lugares desse mundo. Se alguém se sentir confortável de me acompanhar, é só chegar junto.

Enquanto eu escrevia esse texto, essa música me veio à cabeça: “Bem Que Se Quis”, na voz de Marisa Monte.

Rodrigo Meyer – Author

Onde está Barbarella?

Este texto não fala sobre a personagem vampiresca, nem de outras menções a filmes e histórias em quadrinhos, mas sim de uma pessoa real que, com muita propriedade, vestiu esse apelido pra vivenciar realidades semelhantes. Falo de Barbarella, uma amiga que cruzou minha vida há muitos e muitos anos atrás.

Barbarella era um arabesco que flutuava pela cidade, escondida atrás dos fragmentos de luz. Entre um passo e outro, sentia-se seu perfume, apesar de todo acúmulo de nicotina tragada que lhe acompanhava. Vestida de veludo negro justo, marcava as formas pálidas de seu corpo anoréxico. Entre seus dedos, sentia que estava a um passo de trincá-los apenas por tocar.

Encontrei Barbarella em um acaso dos chats de portais de internet quando nem sequer existiam redes sociais. Atrás de um nome sugestivo, nenhuma foto e talvez um e-mail, cruzava-se o imaginário pela conversa e, com sorte, trocava-se um telefonema ou enviava-se uma fotografia scaneada com má qualidade, mas com muita personalidade. Aquilo era a essência máxima transmitida de cada usuário.

Da internet pra vida real, Barbarella surgiu em um telefonema com um convite pra bebermos. E fomos. Que dia magnífico poder experimentar aquela mente. Pessoa adorável, cheia de atenções, confortos e distorções. Lindamente posta sobre seu coturno e sempre abraçada aos copos de whisky que lhe davam sentido. Do dourado da garrafa ao negro do ambiente, sentia-me prestigiando joias.

Lindos tempos onde Barbarella ainda cortejava jovens, arrastando-os pra seu calaboço travestido de apartamento. Lá onde o sofá já tinha visto do bom de do melhor, as paredes escorriam pequenas obras. Tudo era tão demasiadamente simples e sincero que era impossível não sentir a essência do Movimento Gótico entre um detalhe e outro. O ambiente contemplava um pouco do vitoriano e do caótico urbano. Sempre tudo decadente, mas nunca demasiado.

Vazio como grande parte de seu corpo, tudo era apenas ossos e adornos. Somente o necessário. Aquilo me encantava como nada mais me encantou por muito tempo. Adorava olhar pra ela e sentir a possibilidade de traçar o contorno de seus próprios ossos, carregá-la num abraço ou deixá-la sentada em meu colo, desfrutando mistérios.

Aquilo sim deixa saudade. Deixa meu espírito com vontade de voltar no tempo e morrer de maneira semelhante, por desgaste, repetição, exageros. Lembro de Barbarella como o melhor referencial pra mim mesmo e pro estilo de vida que se escondia entre uma estação de metrô e outra. Andarilhos pelas noites, dividíamos esses bons momentos ouvindo música, bebendo e explorando. Pela manhã, quando já deteriorados com o bater do sol do lado de fora da porta, erguíamos força pra beber mais um pouco e ir embora.

Por muito tempo depois, ainda pensava em Barbarella. Por onde ela estaria? Pela última vez que a vi, parecia muito bem, apesar de todos nós sabermos que não é bem próprio esse termo pra quem sucumbia ao álcool e a anorexia. Estava de pé, ativa, embora estivesse por dentro morrendo a cada dia.

A verdade é que ela não sumiu; ela morreu. Barbarella passou tempos difíceis com as consequências de uma cirrose que a debilitou de vez. Ajudada por sua irmã, segundo o que soubemos, deixou pra trás uma filha de dez ou doze anos e uma marca indelével de seu estilo de vida. Até hoje, quando penso em Barbarella, penso em quem poderia ser ela atualmente. Não encontro outro rosto que se vista tão firmemente. O que ela não tinha nas carnes, tinha na mente. Da vez que lhe vi por último, completava 49 lindos anos de idade e uma vitalidade mórbida que, facilmente, lhe permitia ostentar muito menos idade, ainda que soubéssemos claramente que atrás daquele ar vampiresco o que mais ornava era a idade percorrida com todas aquelas histórias, aquela personalidade repetida, como vinho envelhecido, como tempero maturado.

Barbarella deixou pra mim um outro personagem, muito mais interessante, que nunca canso de explorar nos meus sonhos artísticos, histórias não contadas e na derivação sutil em alguma Fotografia ou conto. Estou sempre procurando por Barbarella em algum bar, alguma esquina silenciosa, um apartamento qualquer, alguém que se apresente primeiro como alma e depois como mulher. E cada vez que não encontro Barbarella, me pergunto onde está ela. Que reencarne logo, se é que já não fez, pois quero experimentá-la outra vez, mesmo que já não tenha os traços tão iguais, a mente tão loquaz e a sutileza doce e fatal do seu perfume. Em cada copo de bebida você está contemplada e convidada para festejar calmamente o lado sombrio da vida. Bom dia, querida.

Rodrigo Meyer