Na contramão dos aniversários.

A imagem que ilustra esse texto é parte de uma fotografia marcada como livre para utilização, segundo os filtros de pesquisa de imagem do Google.

Pra muita gente, aniversários são, talvez, uma das únicas datas festivas do ano todo. Pra mim, soma-se com o Natal e as festas de Ano Novo como igualmente incômodas. Nunca fui alguém que me sentisse compelido a comemorar nenhum desses eventos. Ao meu ver, não há nada de fato pra se comemorar, mas pra se lamentar. São marcos anuais de um regresso e não de um progresso. Além disso, essas festividades, geralmente, são feitas para os convidados, porque os próprios anfitriões pouco ou nada aproveitam.

Tem anos que eu simplesmente nem me lembro da aproximação do meu aniversário. E, às vezes, quando calha de eu ter que relembrar da data específica, figuro pensando rapidamente sobre isso e logo esqueço. Esses dias, ao acaso, vi um bolo e isso me fez lembrar de festas, até que uma coisa levou à outra e acabei vindo falar disso. Aniversários são, pra mim, uma lembrança triste onde sou obrigado a pensar na quantidade de anos em que eu permaneci sobrevivendo e sofrendo, quando a única coisa que eu realmente gostaria de comemorar era o fim de tudo isso. Ter arrastado uma vida permeada por depressão, praticamente desde sempre, faz com que eu não consiga ter lembranças positivas de nenhum desses eventos, nem de mim mesmo. Assim, o que é que eu teria pra comemorar sobre o meu nascimento?

Muita coisa da minha infância parece bloqueada na memória. Eu sinto como se nem ao menos tivesse vivido em boa parte dos meus dias no passado. Em parte porque não houveram episódios marcantes, mas também porque muita coisa eu fiz questão de esquecer de todas as maneiras que estavam ao meu alcance. Ainda hoje consigo me lembrar de breves cenas, dos lugares em que morei, das pessoas com quem eu conheci e me relacionei. Mas são sempre muito breves e esporádicas na sequência de tempo. Junto com essa memória corroída ou bloqueada, sobrevivem algumas cenas incômodas da minha infância e adolescência que eu preferia não lembrar. Fico arquitetando o que eu diria numa sessão de terapia ou algo assim. Tenho tanta coisa que eu gostaria que se resolvessem, mas que já moeram minha vida há tantos anos, que, não sei mais se faz qualquer diferença agora.

Quase quatro décadas de existência e não tenho nenhuma perspectiva sobre o meu tempo restante de vida. É difícil prever essas coisas. Li e ouvi muita gente dizer que imaginavam que jamais passariam dos 30 anos de idade, mas cruzaram idades elevadas. O estilo de vida exagerado de algumas pessoas, na contramão das probabilidades, os permitiu levar uma vida ativa até os 50 ou 60 anos e alguns, surpreendentemente, passaram da casa dos 90 anos. Pra mim isso parece mais assustador do que positivo, mas nunca sabemos o dia de amanhã. Às vezes alguma coisa muda em nossas vidas e ganhamos vontade de viver.

Na infância, por mero formalismo, minha mãe organizava festas ou, pelo menos, fazia um bolo. Eu nunca fiz questão e até me sentia um tanto constrangido de ter que figurar nesses momentos. E isso foi se ampliando com o passar dos anos, até que as festas deixaram de ocorrer, o bolo acabava sendo ignorado por mim na geladeira e tudo ia se enquadrando como se fosse um dia comum, como todos os outros do ano. Lembro que, às vezes, tudo isso era substituído por um dia de pizza em casa e, quase sempre, isso só representava alguma coisa diferente pra comer, seguido de longas horas de sono e isolamento. Quando eu comecei a trabalhar, pude comprar, esporadicamente, alguns presentes pra dar pra mim mesmo. Não importava se era meu dia de aniversário ou qualquer festividade. Se eu tivesse algum dinheiro sobrando em qualquer época do ano, eu saía pra comprar filmes, livros, alguma roupa, comida e bebida. Meu mundo era só eu, porque eu já não fazia parte do mundo há muito tempo.

Provavelmente trabalhei na maioria dos Sábados, Domingos e Feriados, que era quando as pessoas podiam pausar seus trabalhos pra vir participar do meu trabalho de Fotografia. Também estive à trabalho ou diversão em diversos momentos pelas noites de São Paulo, eventos, viagens, manifestações. A Fotografia me acompanhava todo o dia e dava algum sentido pra minha existência, então, talvez, eu devesse comemorar meus anos trabalhando nela. Se pude me realizar um pouco em alguma coisa nessa vida, certamente foi na Fotografia. Desde que pausei a atividade, a sensação de ser desnecessário na vida aumentou profundamente. Passei a escrever e a fazer outros tipos de arte, mas só o tempo irá dizer o que é que isso tudo tem potencial de ser. Tudo parece um tanto medíocre e sem propósito. A verdade é que muito do que faço fora da Fotografia é uma tentativa de desabafo. Já tentei trabalhar com muitas coisas, mas a verdade é que percebo que não tenho o necessário. Estou apenas dando o melhor de mim, mas pra uma pessoa destruída esse ‘melhor’ ainda é muito aquém do necessário.

Sim, isso me frustra, mas também me faz acordar pra realidade. É importante percebermos quem somos e do que somos capazes. Nada de grandes sonhos ou de supervalorizar a realidade. Assim como a vida e os tais aniversários, não são de fato grande coisa e, às vezes, a melhor forma de lidar com eles é ignorá-los. Nada de especial pra se comemorar, só mais um dia errante entre quase todos do ano inteiro. Dizem que um ano é composto de 365 oportunidades, mas se isso for verdade, certamente minha depressão me obriga a desperdiçar todas elas, porque não consigo aproveitar um dia sequer pra fazer algo que me satisfaça. Sei que estou quebrado por dentro, que minha alma está apagada. A cabeça desistiu de funcionar e já vejo novas consequências terríveis desse tempo todo em que fui esmagado, como se a cada novo ano eu tivesse um peso extra nas costas por não ter me superado no presente, nem ter superado o passado. Um histórico terrível é pendurado na minha frente todos os dias, me fazendo lembrar que estou chegando em quatro décadas de vida, sem ainda ter tido nenhum bom motivo pra comemorar.

Me acostumei a viver sozinho em meu mundo, passando reto pelos dias, bebendo, dormindo e, com sorte, trabalhando. Isso provavelmente me fez ignorar não só os meu aniversários, mas também de esquecer completamente a data de outras pessoas. Frequentemente, só me dei conta do aniversário de colegas ou companhias quando já havia ultrapassado um ou dois meses do ocorrido. E, independente do quanto eu me importava com essas pessoas, lembrar de datas nunca foi algo que minha mente se acostumou a fazer.

Eu não quero parabéns, porque ‘parabéns’ se dá pra quem teve uma conquista. Também não espero por presentes, porque a única coisa que eu realmente preciso e gostaria de receber é saúde mental e perspectiva de vida. Sem isso, nada do que eu pense, planeje ou faça, me trará sentido na vida. Acordo todos os dias com a vontade de voltar a dormir e o próprio sono já não me acolhe há vários anos. Me reviro na cama de um lado pro outro, desviando da dor física. Acordado ou dormindo, estou sempre perdendo. Nessa guerra não existe vitória e a única forma de sairmos dela é confirmarmos nossa derrota diante da vida, aceitando morrer.

Com alguma sorte eu vou levantar um dia e buscar medicação. Faz enorme diferença pra mim saber quem é que vai me atender. Enquanto isso, as pessoas que supostamente lutam do mesmo lado, ignoram, não possuem tempo ou interesse de responder. Fico sem ter esperança pelos próximos passos, sem respostas pra quem eu deveria recorrer. Quem detém a resposta, parece nem saber que eu existo. Há vários dias, talvez mais de um mês, escrevi pro Conselho Federal de Psicologia, buscando por informações que me ajudassem a filtrar um profissional. Mas nem ao menos sei se fui lido, porque nunca tive qualquer reação ao contato. Se essas são as pessoas que representam a Psicologia no Brasil, já dá pra imaginar o tamanho do buraco em que estamos. Se já sabíamos que não havia com quem contarmos entre as pessoas comuns da sociedade, fica ainda mais difícil quando descobrimos que nem mesmo os profissionais podem nos ajudar.

Os dias passam e a vontade de aceitar ajuda passa junto. Um dia estamos dispostos a escrever uma mensagem e no outro parece que aquilo já não faz mais sentido nenhum. Um dia estamos pensando que poderemos nos salvar com a medicação e depois entendemos que nada é tão simples assim. Existe um caminho constante nesse vai e vem, que é típico da depressão e que nos coloca à andar em círculo, sem mudar coisa alguma nos nossos dias. Aquilo que realmente seria importante e urgente, facilmente deixamos de lado, enterramos debaixo do tapete, varremos atrás de uma garrafa de bebida, uma noite de sono, um prato de comida. E vou empurrando meus dias, pra mais um ano de sobrevida, enquanto as pessoas se perguntam porque é que não estou comemorando meu aniversário. São explicações que nem mesmo gostaria de dar e que se juntam à inúmeros outros anexos de frustrações e memórias inglórias. Passei mais tempo explicando, justificando e desabafando minha sobrevida, do que buscando qualquer tipo de ajuda efetiva que me desse a honra de conhecer o que é viver. Já estive medicado e reerguido lá pelos meus 20 anos de idade, mas alguns anos depois eu já não sabia mais o que era viver.

Já não desejo ‘feliz aniversário’ pra ninguém, porque ‘feliz’ é um conceito que já virou mitologia na minha mente. Espero que as pessoas encontrem algum conforto e tranquilidade ou que obtenham sucesso em algo que elas queiram ser, ter ou fazer. Mas sempre me senti desconfortável em desejar felicidade em aniversários, festas de Natal ou Ano Novo, porque tudo isso parece uma grande ficção e falsidade, em especial no mundo destruído em que vivemos, independente de ter ou não depressão. Acho que o mundo precisa ser mais honesto, mais direto, mai realista e dizer aquilo que realmente sente, o que deseja, o que de fato acredita. Não vamos chegar à lugar nenhum alimentando a egrégora da mentira com todos esses depósitos de palavras, símbolos e energias, enquanto, na prática, estamos nos dizimando, todos os dias, em gestos, palavras, pensamentos, sentimentos, tudo do ruim e do pior, apodrecendo o mundo com um modelo de conduta que se opõem diametralmente à felicidade e cava fossos cada vez mais fundos, insustentáveis, cheios de violência, dor, agonia, ansiedade, miséria, guerra, conflito, preconceito, mentira e tudo aquilo que as pessoas fingem que não sabem, mas praticam de perto, e magistralmente, todos os dias.

Rodrigo Meyer – Author

O sol é para todos?

A imagem que ilustra esse texto faz menção ao girassol, uma planta que se tornou símbolo da campanha para alertar sobre a depressão. O simbolismo do girassol na conscientização sobre a depressão faz uma alusão à busca por luz, característica marcante do girassol, adaptada de modo figurativo, embora haja até uma relação literal entre o tratamento da depressão e a exposição do indivíduo aos raios solares.

Segundo dados da OMS, 322 Milhões de pessoas no mundo sofrem com depressão, seguido de um alerta sobre o aumento progressivo de casos no planeta. No Brasil esses dados são de, pelo menos, 11,5 Milhões de pessoas na depressão, além de 18,6 Milhões de pessoas em distúrbios relacionados à ansiedade. Esses números já são imensos e é fácil prever que eles provavelmente são muito maiores, já que a coleta de dados é difícil pela própria circunstância da doença.

Dados do Ministério da Saúde do Brasil, do final de Maio de 2019, demonstraram um aumento de 12% no risco de suicídio na população jovem negra, enquanto o índice se manteve estável entre brancos. O índice de suicídio entre adolescentes e jovens negros é 45% maior do que entre brancos, reforçando a condição social e psicológica a que essas pessoas são submetidas na cultura estruturalmente racista do Brasil.

De volta aos dados da OMS (Organização Mundial da Saúde), em 2019 estipulou-se que a cada 40 segundos ocorre um suicídio no mundo. A cada parágrafo que você está lendo, uma pessoa está se matando. Não há como achar isso banal ou pouco e é inevitável perceber que é sintomático de uma realidade que adoenta massivamente as pessoas, por diversos contextos e gatilhos. O suicídio, embora muito associado à pessoas com depressão, nem sempre é fruto dessa condição. Um número muito maior é o de pessoas com distúrbios de ansiedade, sendo que ao redor desses dois cenários há incontáveis situações menos conhecidas que também podem gerar um desfecho em suicídio, como, por exemplo, uma tentativa de se livrar de uma doença incômoda ou mesmo da dificuldade em aceitar uma realidade injusta imposta.

O suicídio pode ser visualizado em situações diversas como no desemprego, na doença, na solidão (em especial os idosos), em vítimas de abuso sexual, em cenários de guerra, em crises políticas e na perda de esperança diante do avanço desregrado das condições de vida. De forma resumida, o suicídio acaba sendo como a busca de solução para questões que aparentemente estão inaceitáveis. Quando o mundo não vale mais a pena, a vida começa a ser questionada. E quando viver não traz mais prazer, a dor se acumula até que não se aguente mais senti-la. Morrer, para muitas pessoas, é o encerramento de um sofrimento ou de uma condição indigna. Para muitos outros, o tema ainda é um enorme tabu, motivo pelo qual muitas pessoas sofrem, de certa forma conformadas, como quem tenta desviar da morte por não achá-la aceitável. Em todo caso, cedendo ou não à morte, é fato que grande parte das pessoas está remoendo problemas e dores. É difícil saber quanto tempo as pessoas aceitam ou aguentam sofrer, já que para cada pessoa o peso dos problemas e sua resistência são combinações que variam imensamente.

Nos Estados Unidos a taxa de suicídio bate recorde já em 2017, chegando ao maior patamar desde a Segunda Guerra. Enquanto em 1999 os dados mostravam que a cada 100 pessoas, 10,5 se matavam, em 2017 esse número sobe pra 14 suicídios a cada 100 pessoas.

De forma geral, as taxas de suicídio caíram na maior parte do mundo, porém o Brasil, sem surpreender, teve aumento ao invés de redução, conforme notícia de Abril de 2019. Além disso foi estimado que, depois dos 13 anos, meninos tem 3 vezes mais chance de cometer suicídio do que meninas. Apesar dessa tendência, há por trás desses dados o fato de que mulheres fazem muito mais tentativas de suicídio, porém atingindo menos êxito que os homens, em razão do modo mais agressivo e letal que os suicídios masculinos são tentados, incluindo enforcamento e arma de fogo, por exemplo. Para as mulheres as maneiras mais comuns de suicídio incluem pesticidas, drogas e saltos de lugares altos.

Observa-se que suicidas masculinos são mais impulsivos e agressivos, geralmente, enquanto suicidas femininos costumam buscar ajuda mais cedo e com mais frequência.

Esses são dados críticos de uma sociedade que não parece estar caminhando minimamente onde se espera. Por mais que o mundo sempre tivesse problemas, a proporção de tragédias sociais e políticas acumulando ao longo da História acaba por somar uma percepção triste e desesperançosa pelos rumos da vida da humanidade em geral. Dados apontam que crises econômicas e políticas possuem influência no aumento de suicídios, assim como as políticas que facilitam o acesso à armas de fogo. No Brasil, conforme dados destacados anteriormente, as taxas de suicídio seguem aumentando, contrariando uma tendência de muitos outros países. Isso se dá por inúmeros fatores, em especial o contraste da realidade dessas populações e os rumos políticos desastrosos. Tal problema pode ser medido por notícias como a do suicídio do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que foi denunciado sem provas por um crime que não cometeu, cercado de arbitrariedades e teatralismos patéticos de um desgoverno corrupto que tomou o Brasil de assalto, promovendo guerra à universidades, professores e alunos, combatendo Ciência, Cultura e a dignidade humana com discursos ultrajantes, perseguições políticas, muito ódio e nenhuma aceitação social. Diante de tal miséria política e humana, é compreensível o aumento do suicídio no Brasil.

Há muito que pode e precisa ser feito em apoio à essas situação, porém quero alertar as pessoas que lidam pessoalmente com a depressão ou que possuem amigos ou parentes nesse contexto que jamais, em hipótese alguma, entrem em contato com canais de comunicação como o CVV – Centro de Valorização da Vida, que, infelizmente, figura como uma péssima opção de atendimento, tendo relatos desastrosos por parte do público “atendido”, incluindo assédio, abusos, negligência, deboche, descaso, colocando em risco a vida de pessoas em situação de emergência. São inúmeros os casos relatados de suicidas que tentaram contato com o CVV e tiveram de ouvir o telefone ser colocado de volta ao gancho. Esse tipo de conduta é totalmente inaceitável, imprudente e eu diria até que é criminosa, uma vez que trata-se de um canal exclusivo para lidar com pessoas que estão sensibilizadas por depressão ou ansiedade e quem possuem grande probabilidade de cometer suicídio. Colocar uma pessoa que é avessa à causa, que não se interessa de fato pela vida das pessoas que são atendidas é o mesmo que condenar diversas dessas pessoas à um suicídio que poderia ter sido evitado se fosse lidado de maneira ética, lícita e humana.

Setembro é o mês de conscientização sobre as questões da depressão, cuja campanha é nomeada de ‘Setembro Amarelo’. Mas, não consigo, infelizmente, recomendar esse termo, simplesmente porque é uma iniciativa atrelada ao CVV. Outro ponto que pesa nesse sentido é o fato de que a ferramenta de prevenção ao suicídio oferecida pela rede social Facebook consiste basicamente em instruções que direcionam o usuário para uma tela final de contato para o CVV, o que é lamentável. Ninguém precisa passar pela roleta russa de contactar uma instituição que se intitula como Centro de Valorização da Vida e que, na prática, não valoriza a vida de seus atendidos, muitas vezes sendo a própria razão de suicídios ou uma contribuição fatal como a “gota d’água” para pessoas que estão em situação de desespero e recorrem ao contato do CVV como um último esforço de sobrevivência. Em todo e qualquer lugar que eu for eu seguirei não recomendando e alertando as pessoas para igualmente não recomendarem isso em hipótese alguma. Sendo o CVV uma organização não governamental (ONG), é preocupante saber que estão se valendo de voluntários para um desserviço tão grande em um tema tão importante. É sinistro imaginar qual seria a intenção de voluntários que se aliam ao CVV e que, na prática, figuram como causa de suicídios. Seria algum incentivo financeiro a razão por trás desse nicho? Em um país onde a depressão só cresce, seria possível imaginar pessoas tentando se valer da popularidade do tema e das vítimas da depressão e ansiedade para angariarem algum recurso financeiro ou vantagem. E se imaginarmos que o motivo não é financeiro, torna-se ainda mais sinistro, deixando margem pra interpretarmos que seja o puro sadismo em ver gente sofrer e morrer. Precisamos ficar atentos e desviar daquilo que não se presta como uma ajuda sincera.

Do outro lado, bem longe dessa catástrofe, deixo recomendações universais para lidar com a depressão:

A exposição do corpo ao sol é uma recomendação médica e psiquiátrica recorrente e básica, em razão do efeito que gera no organismo pela proliferação de Vitamina D, um componente conhecido no trato da depressão. Além disso, é preciso buscar apoio entre as pessoas de sua confiança, sejam amigos, parceiros, familiares, professores, colegas de trabalho, etc. Também é importante buscar a ajuda de um profissional da área médica, seja ele um clínico geral, um psiquiatra ou até mesmo profissionais do campo da Psicologia ou terapeutas. É preciso lidar com o problema e caso não sinta disposição pra buscar essas ajudas sozinho, é importante aceitar a ajuda externa de quem possa te encaminhar, acompanhar e incentivar você nessas ações.

Outros pontos que são básicos no assunto é a mudança de rotina e a atividade física. Embora pareça apenas simbólico para alguns, a atividade física dispara diversas químicas no organismo que são responsáveis pela sensação de prazer. Isso ajuda muito a colocar o indivíduo em uma condição favorável pra que ele consiga concretizar outros passos para sua recuperação. Em alguns casos o psiquiatra poderá recomendar medicações que deverão ser seguidas respeitando as doses e os prazos e, caso ache necessário, solicite uma revisão do seu medicamento junto ao profissional, para que, eventualmente, haja uma mudança da composição, da dose ou da frequência. Em alguns casos a suspensão do medicamento poderá ser recomendada ou aceita pelo profissional, mas é importante que o indivíduo não tente fazer automedicação.

Para pessoas que fazem uso de álcool ou outras drogas, é importante dividir essa realidade e personalizar o atendimento, o diagnóstico e o tratamento, fugindo de medidas como os fraudulentos centros de recuperação de dependentes químicos mantidos por quadrilhas que exploram a família dos dependentes colocando os pacientes em situações degradantes, trabalho escravo, violência física e psicológica, transformando os espaços em verdadeiras prisões de sadismo e enriquecimento ilícito.

À parte de todas essas decisões práticas de tratamento, procure preencher sua vida com objetivos e ideais para mover-se em direção à algo que você considere um parâmetro, um destino idealizado ou melhor, tal como o girassol que se move para acompanhar e absorver a luz do sol. Encontre algo a que se apegar que lhe seja positivo e viável. De repente isso pode ser o aprendizado de um instrumento musical, cantar músicas, escrever, desenhar, caminhar, contemplar a natureza, adotar um animal para companhia, visitar pessoas necessitadas para que você possa ser útil à elas, aprender um novo assunto ou se encorajar a tornar-se melhor em algo por meio de um hobby, profissão ou desafio. Faça algo que lhe instigue a perseguir um momento à frente, um ideal, e isso te manterá ativo. Quanto mais ativo você estiver, mais fácil será de conquistar espaços e descobrir novos contextos pra sua vida.

Se você é naturalmente uma pessoa solitária e que, nem por isso, sofre de solidão, tudo bem permanecer em seu mundo, assim como também será bom quando decidir cortar esse padrão ir ir buscar socialização. Se você é uma pessoa que normalmente prefere a companhia, procure equilibrar isso, filtrando bons momentos e lugares que possam somar na sua vida e te trazer memórias boas dali pra frente. Sorrir diante das coisas, seja do silêncio ou de um show de música, pode ser uma ponte para outros grandes passos. Eu não tenho as respostas para as questões da depressão e ansiedade e, até onde sei, nada disso tem cura. Todo tratamento vinculado a esses contextos é algo que deve ser feito com a certeza de que não há garantias de que as coisas não possam decair ou de que você não volte a ter crises e intervalos até maiores de depressão ou ansiedade. Infelizmente, sabe-se que uma vez que se tenha tido depressão, você corre o risco de ter recaídas. Não se pode prever quando e quão intensas elas ocorrerão, mas você poderá aproveitar tudo que sabe sobre o assunto pra desviar delas e buscar ajuda pra tentar se reerguer. Eu espero que todos os meus outros conteúdos possam contribuir de alguma forma para apontar ideias e mudanças e que você possa resolver e superar seus problemas, seja lá quais forem.

Rodrigo Meyer – Author

Você é rápido ou afobado?

Muita gente não sabe a diferença na prática. Geralmente uma pessoa afobada tenta justificar sua conduta alegando pressa ou falta de paciência. Mas, ironicamente, a pessoa afobada é, frequentemente, aquela que demora mais tempo pra concretizar algo, justamente porque quebra a cara nas tentativas afobadas de fazer tudo de forma não planejada, por atalhos equivocados, entre outras coisas.

Ser rápido pode ser uma vantagem, mas não é algo simples de se conseguir ser. Se tudo que conseguimos é aumentar a velocidade e não o controle, então não estamos sendo mais rápidos de fato, pois, acabaremos barrados, parados, perdendo mais tempo com o desfecho dessa pressa descontrolada. Então, ser rápido, no final das contas, é saber controlar a situação. E, sabe-se que pessoas afobadas ficam incapacitadas de controlar bem qualquer situação. Então, é hora de rever pensamentos, crenças, posturas e tentar corrigir aquilo que te impede de ter o que você quer. Se você quer chegar mais rápido, então pare de ser afobado, senão não chegará mais rápido.

Só pra ilustrar que não é imaginação, vamos a alguns exemplos práticos. Imagine uma pessoa afobada, que tem preguiça de ir até a lixeira descartar um resíduo. Ao invés de dar 5 passos, atira à distância tentando acertar dentro, mas erra. A falta de controle a obriga a gastar os mesmos 5 passos recusados inicialmente e um esforço adicional pra catar o resíduo do chão e colocá-lo novamente na lixeira. Por vezes, pela chateação da falha, perde o controle pela segunda vez ao tentar depositar o resíduo e erra novamente. É cômico e bem comum. Conclusão: se o objetivo era não perder tempo, foi na direção contrária do objetivo. Em uma situação diferente, menos comum, a pessoa desenvolve o controle para poder acertar a lixeira à distância. Tal controle envolve prática, contexto e, mesmo sob controle, nem sempre será viável a conduta mais rápida, por questões de educação, por exemplo, entre outros motivos.

Querer chegar nos resultados, todo mundo quer, mas não são todos que estão dispostos a fazer o necessário pra tal. As pessoas desejam que tudo aconteça magicamente pra que elas possam desfrutar só da parte boa, sem ter que passar pelo esforço. Esse é o pensamento padrão de uma pessoa afobada e, com garantia, não vai resultar nos objetivos imaginados. A vida ensina, cedo ou tarde, que as pessoas precisam entrar no ritmo de suas capacidades e da própria realidade do mundo, ou não exercerão suas capacidades nem conseguirão se relacionar bem com a realidade. Pra evitar frustrações, dores de cabeça e uma gastrite (pra citar só coisas leves), é preciso saber viver e, sobretudo, saber ser. Mesmo em um mundo onde as informações estão acessíveis, muita gente passa reto delas ou, mesmo ao absorvê-las, ignoram a prática daquilo. Mais um exemplo de como pessoas afobadas sabotam a si mesmas.

Quando observo a média das pessoas, me lembro da analogia de um liquidificador ligado sem a tampa. Tudo gira muito rápido, mas voa líquido pra todo canto fora da jarra. Um perfeito exemplo do que não se fazer na vida e na cozinha, a menos que o objetivo seja causar um desastre. Isso está presente entre todo tipo de atividade e lugar. São as pessoas acelerando em vão o carro por ruas onde o trânsito está congestionado, as pessoas que primeiro abrem um negócio e só depois estudam como abrir um negócio, as pessoas que compram um eletrônico antes mesmo de saber se de fato precisam daquilo ou até mesmo as pessoas que comem justamente nos momentos onde possuem menos controle sobre os excessos ou a qualidade do que comem.

Tudo isso são momentos de afobação. Algumas pessoa estão afobadas e outras pessoas são afobadas. Vez ou outra é normal estarmos menos comedidos ou controlados pra traçar a postura ideal nas situações, mas se isso se repete todo dia e em todo tipo de coisa, então já se tornou característica da pessoa e não um momento isolado. Quem são essas pessoas e porque agem assim? De onde vem essa pseudo-pressa de cumprir as atividades? Será mesmo que estão com pressa ou só estão tentando esconder de si mesmos a realidade? Quase tudo de doentio na conduta humana, segundo a Psicologia, aponta uma contradição. Indivíduos nessas condições estão sempre tentando obter resultados, mas sempre do modo oposto ao que seria eficaz. E não se pode dizer que seja falta de conhecimento. É falta de prática mesmo. Para uma prática se tornar automática, é preciso exercitar. O hábito transforma algo aparentemente complexo em algo tão fácil que fica imperceptível. É o caso, por exemplo, de quando usamos o mouse do computador depois de nos acostumarmos a ele. Ninguém que tenha o hábito de usar o mouse fica olhando pro equipamento pra controlar o movimento dele na mesa. Apenas o move instintivamente com a mão.

Entendida a necessidade do controle e da prática para a transformação de si mesmo, é hora de observar quais são as situações em que você se vê andando em círculos, enxugando gelo ou batendo a cabeça em busca de resultados. Comece a se assistir, a se analisar e se julgar, pra entender quem você é e quem você gostaria de ser. Muita gente descobre que seus objetivos são outros ou que seus equívocos iniciais são barreiras desnecessárias. Seja lá onde você se descubra depois disso, terá todas as ferramentas pra cuidar de si mesmo nessa temática. Decidir o que fazer, como e em que ritmo, vai depender dos seus objetivos, seu controle eficiente e o contexto sensato onde tenta atuar. Faça valer sua vida, sua pessoa, sua personalidade, suas ideias, seu potencial e mergulhe no mundo pra criar mais, ser mais, entender mais. Não se limite com autossabotagem, pois esse tipo de tombo não há quem possa ajudar, exceto você mesmo.

Rodrigo Meyer

Porque atalhos são mais demorados?

A imagem que ilustra esse texto é parte de uma fotografia de 2006 das Pirâmides de Gizé, no Egito, de autoria de Ricardo Liberato.

Observando a sociedade, vemos muita gente a espera de vantagens. Elas querem, de alguma forma, um benefício que as impulsione além. Porém, quando se tornam tão obcecadas por isso, acabam ficando cegas e não discernem bem as ferramentas disponíveis e a eficiência de cada uma. Por vezes querem tudo pra ontem e brilham os olhos de entusiasmo quando veem um atalho pra supostamente conseguir o que se quer. Eis que são fisgadas pela falta de prudência.

Eu sempre costumo repetir que ‘se atalho fosse bom, já seria o caminho principal”. Se existe um trecho a ser percorrido e é possível escolher um trajeto que leve menos tempo do que o trajeto anterior, há de se pensar porque este trajeto é secundário e não o principal. Se as pessoas não usam o menor caminho como principal caminho, é porque há desvantagens no menor caminho. Por algum motivo, o caminho principal se tornou principal pois era o mais estável. Fazendo uma analogia, algumas jornadas de avião requerem uma parada em determinados países e/ou aeroportos específicos como parte da viagem total. Já imaginou se uma viagem que normalmente leva 12 horas, fosse feita em 7 horas, mudando a rota pra uma linha reta de ponto a ponto, sem paradas? Você consegue imaginar as desvantagens e riscos de se fazer uma alteração desse tipo? Pois bem, quem planeja as escalas de voos imagina.

Outro exemplo bem conhecido são as estradas que passam por montanhas. Ao subir ou descer a serra de carro, frequentemente se passa por curvas, algumas bem fechadas. Porque razão a estrada não é uma linha reta do ponto A para o ponto B? Existem alguns motivos. Um deles, talvez menos conhecido, é a estratégia de prevenção de acidentes, impedindo que o motorista passe muito tempo dirigindo em linha reta, pois isso o acomoda na monotonia e pode ser um risco de acidente bem maior do que obrigá-lo a lidar repetidas vezes com curvas e mudanças de direções. O outro motivo disso, é, claro, que para subir a serra, ângulos menos íngremes são mais fáceis de serem superados pelo carro. Você não verá ninguém brincar de alpinista pilotando um carro, a menos que seja um show de façanhas mortais. E para que se suba gradualmente uma montanha, o vai e vem das curvas conecta a estrada em cada gradação de elevação.

De maneira simplista, tendemos a acreditar que o caminho mais curto é melhor, mas na verdade, a menor distância e tempo não significam melhor caminho e, na verdade, quase sempre não são de fato mais rápidos. Imagine um carro tentando subir a montanha em linha reta. Certamente ele passará tanto tempo tentando sair do chão que seria o último a chegar no destino, se é que conseguiria chegar. E essa é a analogia que deve se carregar pra outras situações da vida.

Tudo que parece muito fácil ou cheio de benefícios adicionais, requer uma atenção sobre como isto será disponibilizado. Há algum tempo atrás lia com sorriso no rosto a notícia de que haviam conseguido o feito do teletransporte. Sim, sob um laboratório, conseguiram transferir madeira de um local ao outro, porém, o processo utilizado não reagrupou decentemente a madeira no destino final, deixando sua composição toda bagunçada, apesar de ter sido um sucesso o teletransporte em si. Esse é um exemplo de como tentar encurtar distâncias por atalhos tem problemas atrelados. Quando finalmente conseguirem executar um teletransporte com segurança, provavelmente este atalho se tornará o caminho principal. Se hoje, pegamos ônibus, trens e aviões para ir de um canto ao outro, talvez no futuro, faça mais sentido usar o teletransporte. Mas enquanto ele não for estável, não será o caminho principal escolhido pelas pessoas e, enquanto for mero atalho, não será tão bom ou útil quanto um caminho principal.

Saindo um pouco desses exemplos com distâncias e transportes, imagine setores da vida onde as pessoas tendem a desejar atalhos. Elas querem, por exemplo, enriquecer mais rapidamente do que apenas esperar que o trabalho ao longo dos anos traga algum retorno financeiro. Elas querem ter um relacionamento sem ter a premissa das fases de envolvimento com as pessoas, do conhecimento, da amizade, etc. Tudo isso só ressalta o despreparo e a ingenuidade dessas pessoas. A ansiedade em ter mais em menos tempo, faz as pessoas atropelarem a ética, a segurança ou outros valores que vão impactar na hora do processo ou desfecho. É o caso, por exemplo, quando as pessoas querem descartar o aprendizado pra ir direto para prática. Vejo muita gente entrar pra uma profissão da noite pro dia, sem estudar o necessário. Caem de paraquedas, desejando que a compra de um simples equipamento ou crachá, lhes farão profissionais habilitados. Com alguma sorte, as pessoas se apercebem da perda de tempo que isso representa. Terão, em algum momento, que voltar ao zero pras estudar o que não estudaram e, certamente, gastando mais tempo e mais dinheiro pra retificar a imagem negativa, os tropeços profissionais por conta do desconhecimento do que se faz, e assim por diante.

Inúmeros são os motivos pra não se buscar atalhos. Ignorar isso não vai te fazer chegar na frente. Embora o empirismo deva ser incentivado, ele nunca pode ser exercido com negligência. Uma coisa é você se colocar a fazer algo novo e experimentar as condições, o processo, os resultados e aprender sobre qual a melhor forma de se fazer ou não tal coisa. Outra, completamente diferente, é se colocar a fazer, buscando especificamente por redução de tempo, de impacto ou de custo. Você pode embrulhar uma pintura à óleo com a tinta ainda fresca, mas certamente vai borrar toda tinta em contato com a embalagem e gastará muito mais tempo pra refazer. Se não tiver disposição pra esperar a tinta secar, terá que aprender algum processo seguro que seque essa pintura em menos tempo. Nesse processo, talvez você descubra que deixar a tela próxima de uma fogueira ajuda a secar mais rápido, porém pode, eventualmente, descobrir que o calor intenso do fogo destrói os pigmentos da tinta ou causa rachaduras nas pinceladas. São essas pequenas possíveis reflexões que devem se fazer antes de promover um atalho a caminho principal.

Durante o avanço da sociedade, muita coisa mudou de processo e pudemos visualizar melhorias significativas na qualidade de vida das pessoas. Mas, em paralelo a isso, sempre se buscou refinar esses processos a fim de se garantir segurança e consistência nos resultados. Pra se viver de maneira inteligente, é preciso respeitar o tempo e o processo das coisas, especialmente no que diz respeito a saúde física e relacionamentos. Tudo que o ser humano deseja ser, ter ou fazer, precisa passar por um filtro simples de reflexão sobre motivos, resultados esperados e resultados obtidos. Assim que paramos de desejar o impossível, paramos de bater a cara no muro. Isso serve não só pra para proteger a nós mesmos de nossa ansiedade e descontrole, mas aos demais ao nosso redor que terão que lidar com o modo como vivemos em sociedade. Quando as pessoas se tornam mais realistas sobre o que desejam e fazem, o mundo se torna mais agradável de se viver, mais estável, mais tranquilo e mais seguro. A partir dessa base sólida é que se constrói a novidade, o futuro.

Vale citar até mesmo países que conquistaram avanços sociais únicos, simplesmente por nunca darem o passo maior que a perna e fortaleceram suas bases ao longo da história antes de desejarem ser o que hoje finalmente são. Assim como uma pirâmide, o maior tempo e esforço é no planejamento da estrutura e na construção da enorme base. É com essa visão que se chega ao cume das possibilidades, das invenções, dos progressos no estudo, etc.

Isso não significa, porém, que você deva se tornar desestimulado a progredir ou a ir além. É exatamente o inverso. É, exatamente, por deixar de buscar atalhos que evitará de andar em círculo ou de cair. Economizar tempo na vida é exatamente percorrer o caminho certo desde o início, pra não ter que refazer o percurso. Invista em você e respeite o valor de sua pessoa e do seu tempo. Nunca se sabote escolhendo opções tentadoras que, no final da contas, são só ilusões e prejuízos. Há uma frase que diz “Se algo está muito fácil, você está fazendo errado.”. Fica a reflexão.

Rodrigo Meyer