Você é rápido ou afobado?

Muita gente não sabe a diferença na prática. Geralmente uma pessoa afobada tenta justificar sua conduta alegando pressa ou falta de paciência. Mas, ironicamente, a pessoa afobada é, frequentemente, aquela que demora mais tempo pra concretizar algo, justamente porque quebra a cara nas tentativas afobadas de fazer tudo de forma não planejada, por atalhos equivocados, entre outras coisas.

Ser rápido pode ser uma vantagem, mas não é algo simples de se conseguir ser. Se tudo que conseguimos é aumentar a velocidade e não o controle, então não estamos sendo mais rápidos de fato, pois, acabaremos barrados, parados, perdendo mais tempo com o desfecho dessa pressa descontrolada. Então, ser rápido, no final das contas, é saber controlar a situação. E, sabe-se que pessoas afobadas ficam incapacitadas de controlar bem qualquer situação. Então, é hora de rever pensamentos, crenças, posturas e tentar corrigir aquilo que te impede de ter o que você quer. Se você quer chegar mais rápido, então pare de ser afobado, senão não chegará mais rápido.

Só pra ilustrar que não é imaginação, vamos a alguns exemplos práticos. Imagine uma pessoa afobada, que tem preguiça de ir até a lixeira descartar um resíduo. Ao invés de dar 5 passos, atira à distância tentando acertar dentro, mas erra. A falta de controle a obriga a gastar os mesmos 5 passos recusados inicialmente e um esforço adicional pra catar o resíduo do chão e colocá-lo novamente na lixeira. Por vezes, pela chateação da falha, perde o controle pela segunda vez ao tentar depositar o resíduo e erra novamente. É cômico e bem comum. Conclusão: se o objetivo era não perder tempo, foi na direção contrária do objetivo. Em uma situação diferente, menos comum, a pessoa desenvolve o controle para poder acertar a lixeira à distância. Tal controle envolve prática, contexto e, mesmo sob controle, nem sempre será viável a conduta mais rápida, por questões de educação, por exemplo, entre outros motivos.

Querer chegar nos resultados, todo mundo quer, mas não são todos que estão dispostos a fazer o necessário pra tal. As pessoas desejam que tudo aconteça magicamente pra que elas possam desfrutar só da parte boa, sem ter que passar pelo esforço. Esse é o pensamento padrão de uma pessoa afobada e, com garantia, não vai resultar nos objetivos imaginados. A vida ensina, cedo ou tarde, que as pessoas precisam entrar no ritmo de suas capacidades e da própria realidade do mundo, ou não exercerão suas capacidades nem conseguirão se relacionar bem com a realidade. Pra evitar frustrações, dores de cabeça e uma gastrite (pra citar só coisas leves), é preciso saber viver e, sobretudo, saber ser. Mesmo em um mundo onde as informações estão acessíveis, muita gente passa reto delas ou, mesmo ao absorvê-las, ignoram a prática daquilo. Mais um exemplo de como pessoas afobadas sabotam a si mesmas.

Quando observo a média das pessoas, me lembro da analogia de um liquidificador ligado sem a tampa. Tudo gira muito rápido, mas voa líquido pra todo canto fora da jarra. Um perfeito exemplo do que não se fazer na vida e na cozinha, a menos que o objetivo seja causar um desastre. Isso está presente entre todo tipo de atividade e lugar. São as pessoas acelerando em vão o carro por ruas onde o trânsito está congestionado, as pessoas que primeiro abrem um negócio e só depois estudam como abrir um negócio, as pessoas que compram um eletrônico antes mesmo de saber se de fato precisam daquilo ou até mesmo as pessoas que comem justamente nos momentos onde possuem menos controle sobre os excessos ou a qualidade do que comem.

Tudo isso são momentos de afobação. Algumas pessoa estão afobadas e outras pessoas são afobadas. Vez ou outra é normal estarmos menos comedidos ou controlados pra traçar a postura ideal nas situações, mas se isso se repete todo dia e em todo tipo de coisa, então já se tornou característica da pessoa e não um momento isolado. Quem são essas pessoas e porque agem assim? De onde vem essa pseudo-pressa de cumprir as atividades? Será mesmo que estão com pressa ou só estão tentando esconder de si mesmos a realidade? Quase tudo de doentio na conduta humana, segundo a Psicologia, aponta uma contradição. Indivíduos nessas condições estão sempre tentando obter resultados, mas sempre do modo oposto ao que seria eficaz. E não se pode dizer que seja falta de conhecimento. É falta de prática mesmo. Para uma prática se tornar automática, é preciso exercitar. O hábito transforma algo aparentemente complexo em algo tão fácil que fica imperceptível. É o caso, por exemplo, de quando usamos o mouse do computador depois de nos acostumarmos a ele. Ninguém que tenha o hábito de usar o mouse fica olhando pro equipamento pra controlar o movimento dele na mesa. Apenas o move instintivamente com a mão.

Entendida a necessidade do controle e da prática para a transformação de si mesmo, é hora de observar quais são as situações em que você se vê andando em círculos, enxugando gelo ou batendo a cabeça em busca de resultados. Comece a se assistir, a se analisar e se julgar, pra entender quem você é e quem você gostaria de ser. Muita gente descobre que seus objetivos são outros ou que seus equívocos iniciais são barreiras desnecessárias. Seja lá onde você se descubra depois disso, terá todas as ferramentas pra cuidar de si mesmo nessa temática. Decidir o que fazer, como e em que ritmo, vai depender dos seus objetivos, seu controle eficiente e o contexto sensato onde tenta atuar. Faça valer sua vida, sua pessoa, sua personalidade, suas ideias, seu potencial e mergulhe no mundo pra criar mais, ser mais, entender mais. Não se limite com autossabotagem, pois esse tipo de tombo não há quem possa ajudar, exceto você mesmo.

Rodrigo Meyer

Anúncios

Porque atalhos são mais demorados?

A imagem que ilustra esse texto é parte de uma fotografia de 2006 das Pirâmides de Gizé, no Egito, de autoria de Ricardo Liberato.

Observando a sociedade, vemos muita gente a espera de vantagens. Elas querem, de alguma forma, um benefício que as impulsione além. Porém, quando se tornam tão obcecadas por isso, acabam ficando cegas e não discernem bem as ferramentas disponíveis e a eficiência de cada uma. Por vezes querem tudo pra ontem e brilham os olhos de entusiasmo quando veem um atalho pra supostamente conseguir o que se quer. Eis que são fisgadas pela falta de prudência.

Eu sempre costumo repetir que ‘se atalho fosse bom, já seria o caminho principal”. Se existe um trecho a ser percorrido e é possível escolher um trajeto que leve menos tempo do que o trajeto anterior, há de se pensar porque este trajeto é secundário e não o principal. Se as pessoas não usam o menor caminho como principal caminho, é porque há desvantagens no menor caminho. Por algum motivo, o caminho principal se tornou principal pois era o mais estável. Fazendo uma analogia, algumas jornadas de avião requerem uma parada em determinados países e/ou aeroportos específicos como parte da viagem total. Já imaginou se uma viagem que normalmente leva 12 horas, fosse feita em 7 horas, mudando a rota pra uma linha reta de ponto a ponto, sem paradas? Você consegue imaginar as desvantagens e riscos de se fazer uma alteração desse tipo? Pois bem, quem planeja as escalas de voos imagina.

Outro exemplo bem conhecido são as estradas que passam por montanhas. Ao subir ou descer a serra de carro, frequentemente se passa por curvas, algumas bem fechadas. Porque razão a estrada não é uma linha reta do ponto A para o ponto B? Existem alguns motivos. Um deles, talvez menos conhecido, é a estratégia de prevenção de acidentes, impedindo que o motorista passe muito tempo dirigindo em linha reta, pois isso o acomoda na monotonia e pode ser um risco de acidente bem maior do que obrigá-lo a lidar repetidas vezes com curvas e mudanças de direções. O outro motivo disso, é, claro, que para subir a serra, ângulos menos íngremes são mais fáceis de serem superados pelo carro. Você não verá ninguém brincar de alpinista pilotando um carro, a menos que seja um show de façanhas mortais. E para que se suba gradualmente uma montanha, o vai e vem das curvas conecta a estrada em cada gradação de elevação.

De maneira simplista, tendemos a acreditar que o caminho mais curto é melhor, mas na verdade, a menor distância e tempo não significam melhor caminho e, na verdade, quase sempre não são de fato mais rápidos. Imagine um carro tentando subir a montanha em linha reta. Certamente ele passará tanto tempo tentando sair do chão que seria o último a chegar no destino, se é que conseguiria chegar. E essa é a analogia que deve se carregar pra outras situações da vida.

Tudo que parece muito fácil ou cheio de benefícios adicionais, requer uma atenção sobre como isto será disponibilizado. Há algum tempo atrás lia com sorriso no rosto a notícia de que haviam conseguido o feito do teletransporte. Sim, sob um laboratório, conseguiram transferir madeira de um local ao outro, porém, o processo utilizado não reagrupou decentemente a madeira no destino final, deixando sua composição toda bagunçada, apesar de ter sido um sucesso o teletransporte em si. Esse é um exemplo de como tentar encurtar distâncias por atalhos tem problemas atrelados. Quando finalmente conseguirem executar um teletransporte com segurança, provavelmente este atalho se tornará o caminho principal. Se hoje, pegamos ônibus, trens e aviões para ir de um canto ao outro, talvez no futuro, faça mais sentido usar o teletransporte. Mas enquanto ele não for estável, não será o caminho principal escolhido pelas pessoas e, enquanto for mero atalho, não será tão bom ou útil quanto um caminho principal.

Saindo um pouco desses exemplos com distâncias e transportes, imagine setores da vida onde as pessoas tendem a desejar atalhos. Elas querem, por exemplo, enriquecer mais rapidamente do que apenas esperar que o trabalho ao longo dos anos traga algum retorno financeiro. Elas querem ter um relacionamento sem ter a premissa das fases de envolvimento com as pessoas, do conhecimento, da amizade, etc. Tudo isso só ressalta o despreparo e a ingenuidade dessas pessoas. A ansiedade em ter mais em menos tempo, faz as pessoas atropelarem a ética, a segurança ou outros valores que vão impactar na hora do processo ou desfecho. É o caso, por exemplo, quando as pessoas querem descartar o aprendizado pra ir direto para prática. Vejo muita gente entrar pra uma profissão da noite pro dia, sem estudar o necessário. Caem de paraquedas, desejando que a compra de um simples equipamento ou crachá, lhes farão profissionais habilitados. Com alguma sorte, as pessoas se apercebem da perda de tempo que isso representa. Terão, em algum momento, que voltar ao zero pras estudar o que não estudaram e, certamente, gastando mais tempo e mais dinheiro pra retificar a imagem negativa, os tropeços profissionais por conta do desconhecimento do que se faz, e assim por diante.

Inúmeros são os motivos pra não se buscar atalhos. Ignorar isso não vai te fazer chegar na frente. Embora o empirismo deva ser incentivado, ele nunca pode ser exercido com negligência. Uma coisa é você se colocar a fazer algo novo e experimentar as condições, o processo, os resultados e aprender sobre qual a melhor forma de se fazer ou não tal coisa. Outra, completamente diferente, é se colocar a fazer, buscando especificamente por redução de tempo, de impacto ou de custo. Você pode embrulhar uma pintura à óleo com a tinta ainda fresca, mas certamente vai borrar toda tinta em contato com a embalagem e gastará muito mais tempo pra refazer. Se não tiver disposição pra esperar a tinta secar, terá que aprender algum processo seguro que seque essa pintura em menos tempo. Nesse processo, talvez você descubra que deixar a tela próxima de uma fogueira ajuda a secar mais rápido, porém pode, eventualmente, descobrir que o calor intenso do fogo destrói os pigmentos da tinta ou causa rachaduras nas pinceladas. São essas pequenas possíveis reflexões que devem se fazer antes de promover um atalho a caminho principal.

Durante o avanço da sociedade, muita coisa mudou de processo e pudemos visualizar melhorias significativas na qualidade de vida das pessoas. Mas, em paralelo a isso, sempre se buscou refinar esses processos a fim de se garantir segurança e consistência nos resultados. Pra se viver de maneira inteligente, é preciso respeitar o tempo e o processo das coisas, especialmente no que diz respeito a saúde física e relacionamentos. Tudo que o ser humano deseja ser, ter ou fazer, precisa passar por um filtro simples de reflexão sobre motivos, resultados esperados e resultados obtidos. Assim que paramos de desejar o impossível, paramos de bater a cara no muro. Isso serve não só pra para proteger a nós mesmos de nossa ansiedade e descontrole, mas aos demais ao nosso redor que terão que lidar com o modo como vivemos em sociedade. Quando as pessoas se tornam mais realistas sobre o que desejam e fazem, o mundo se torna mais agradável de se viver, mais estável, mais tranquilo e mais seguro. A partir dessa base sólida é que se constrói a novidade, o futuro.

Vale citar até mesmo países que conquistaram avanços sociais únicos, simplesmente por nunca darem o passo maior que a perna e fortaleceram suas bases ao longo da história antes de desejarem ser o que hoje finalmente são. Assim como uma pirâmide, o maior tempo e esforço é no planejamento da estrutura e na construção da enorme base. É com essa visão que se chega ao cume das possibilidades, das invenções, dos progressos no estudo, etc.

Isso não significa, porém, que você deva se tornar desestimulado a progredir ou a ir além. É exatamente o inverso. É, exatamente, por deixar de buscar atalhos que evitará de andar em círculo ou de cair. Economizar tempo na vida é exatamente percorrer o caminho certo desde o início, pra não ter que refazer o percurso. Invista em você e respeite o valor de sua pessoa e do seu tempo. Nunca se sabote escolhendo opções tentadoras que, no final da contas, são só ilusões e prejuízos. Há uma frase que diz “Se algo está muito fácil, você está fazendo errado.”. Fica a reflexão.

Rodrigo Meyer