Prosa | Os bastidores da estrela.

As imagens que ilustram esse texto são fictícias e meramente ilustrativas, sendo fotografias marcadas como livres para utilização, segundo os filtros de pesquisa de imagem do Google.

Por um bom tempo você foi a minha protegida. Eu nunca cuidei de alguém tanto como cuidei de você. Eu te livrei de apertos e enrascadas, paguei seus custos com advogado e estive presente nos seus trabalhos, seus estudos, seus projetos, suas exposições, seus comércios e até mesmo quando você esteve internada. Até minha casa esteve à disposição, pra quando você precisou de moradia. Eu sempre apoiei os seus sonhos e fiz o que os seus “grandes amigos” podiam e não fizeram. Pouca gente quis te ver vencer; pouca gente te ajudou quando você não tinha mais à quem recorrer. Eu estive lá do seu lado nos dias divertidos e nos momentos conturbados.

Nos divertimos muito rindo, bebendo, andando de um lado pro outro, visitando teatros, dividindo a cama e outros lugares. Choramos juntos, fizemos arte, fizemos parte. Ouvimos o que cada um tinha pra dizer, mas só pela metade. Você não se expressava abertamente comigo sobre tudo do seu mundo, porque seu mundo envolvia outras pessoas com quem você também dormia. Isso nunca foi segredo. Assim como eu sabia, você sabia que eu sabia. Eu nunca me importei, na verdade, porque todos nós estávamos vivendo nessa mesma informalidade. Quem talvez tenha se surpreendido, foi teu ex-marido, que, infelizmente, não soube se manter fiel quando esteve casado. Suas fotos de casamento pareciam um evento divertido, com todo aquele improviso, um tempero de rock e o seu jeito prático. Eu adorava isso em você, mas parecia haver um abismo entre o que eu sentia e o que você estava disposta a oferecer. Jamais vou me esquecer que seu ex-marido te agredia e que, quando separada, um dos seus casos também não era das melhores pessoas. Desculpe a sinceridade, mas, para ele, você era só uma pedaço de carne que ele facilmente comeria.

Eu amava o seu cabelo e ele parecia ser importante pra você também. Quando você não se sentia bem com a vida, se destruía, cortando ele de uma forma que viesse a se arrepender. Mas, tudo bem, de qualquer jeito, você se mantinha linda. Eu enchia os meus olhos com a sua imagem, enquanto adorava os seus bem pretinhos, combinando com seu sorriso inigualável. Tinha doçura e humor no seu jeito de falar. Quando você queria, sempre tratava as pessoas da melhor forma possível. Mas, você nem sempre escolhia bem as companhias. Levou calote da colega com quem dividiu moradia e estava sendo roubada pelas costas naqueles comércios que faziam juntas. Foi você mesma quem descobriu e me contou e, não foi exatamente uma surpresa pra mim. Hoje, olhando pra tudo isso, consigo ver que, talvez, você seja uma versão minha. Nós tivemos o péssimo hábito de hipervalorizar as pessoas que nos usavam e nos destruíam. Por algum motivo estranho, ficávamos hipnotizados contemplando quem não merecia. Hoje eu te entendo, porque eu mesmo fiz muito disso na minha vida.

Mas não me arrependo não, pois quando fiz, estava sincero nas minhas intenções e estive ao lado enquanto achei que devia. Fiz de coração, sem esperar nada em troca. Eu queria te ver sorrir todo dia, tentar eliminar as barreiras da sua vida, apenas pra te ver vencer. Você tinha potencial pra muita coisa. Suas artes, em vários ramos, eram sempre aplaudidas de verdade. O que te faltava não era talento, mas um pouco de transparência ou sinceridade. Você tentou ajudar sua mãe, mas nem ela mesma queria. Ela comentava que gostaria de me conhecer, mas esse dia nunca chegou. Talvez tudo tenha acontecido do único jeito que foi possível. E olhar pra esse passado não nos permite mudar aquilo que já vivemos. No fim das contas, você estava tentando descobrir se seu coração amava alguma pessoa nesse mundo, mas, pelo que percebo, você se deu conta de que estava realmente sozinha. Onde estão todas as pessoas que passaram pela sua vida? Foi triste te ver mastigando a depressão, mas eu fiz mais do que estava ao meu alcance em todos os momentos e quando a reciprocidade falhava em momentos cruciais, eu me lembrava de que não estávamos vivendo a mesma vida.

Eu tomei uma decisão difícil e fria de me forçar a ficar longe de você. Eu queria expurgar toda a dependência, todo o apego, todo o desejo e toda a vontade de estar ou falar com você. Pra ser sincero, levou tempo. Nunca quis tanto cuidar de alguém na vida, mas nossos mundos estavam isolados, não estávamos remando pro mesmo lado e você sempre demonstrou com condutas e palavras de que os sentimentos não correspondiam. Eu não insisto em porta fechada, então fui embora e segui a minha vida. Sei que fez bom uso dos presentes pra começar o novo trabalho que você escolheu. Não torço à favor nem contra, pois assim que você foi embora, deixou de ser a minha protegida. Agora você é só uma memória que me faz escrever, pra ressignificar meu passado, as pessoas, os momentos que eu vivi, pra ver se chego o mais saudável possível do outro lado e facilitar a minha própria vida.

Num imenso acaso, quando eu já nem lembrava que você existia, você brotou numa rede social e a resposta que dei foi a única possível. Eu já havia feito tudo que eu podia. Não sei o que se passa pela sua cabeça, mas a vida não permite ensaios. Quando um cristal se trinca pela primeira vez, ele segue trincado pro resto da vida. Mas, certas coisas a gente não escolhe. O coração sente ou não sente, sem pedir licença ou conselho. A vida, nesse sentido, permanece um mistério. Apesar de tudo, obrigado. Isso não é um pedido de desculpas atrasado. Simplesmente eu sei que tudo que eu passei na minha vida me ensinou uma montanha de coisas e também me permitiu momentos muito intensos. É por tudo isso que eu sou grato.

Rodrigo Meyer – Author

O que é ser interessante?

A imagem que ilustra esse texto é baseada numa fotografia de Roman Koval marcada como livre para utilização segundo os filtros de pesquisa de imagem do Google.

É comum ouvirmos as pessoas dizerem que tal pessoa é interessante, mas é preciso esclarecer que ser interessante ou desinteressante depende completamente dos critérios pessoais de cada indivíduo. Quando alguém acha uma pessoa interessante, significa simplesmente que essa pessoa tem características que suscitam interesse nesse alguém. É uma conexão entre uma demanda e uma oferta, por assim dizer.

Ser interessante pode ser o jeito com que a pessoa fala, o tipo de visão que a pessoa tem, os hábitos, o estilo de vida ou mesmo a aparência. É impossível listar todas as possibilidades que tornam alguém interessante para cada indivíduo, pois o ser humano é essencialmente diverso. As pessoas podem se interessar por detalhes que nem imaginamos que sejam uma questão para alguém. E mesmo se simplificarmos tudo em grandes clichês, já é suficientemente divergente o que cada pessoa prioriza nas relações com outras pessoas, o que as cativa, os que lhes chama atenção.

Quem ainda utiliza a internet na intenção de encontrar fórmulas milagrosas, respostas fáceis e verdades absolutas, está na contramão do mínimo necessário pra compreender a vida, burlar os problemas que surgem e progredir à caminho dos seus objetivos, sejam eles quais forem. Assim, descrever o que significa ser alguém interessante, nunca passará por aqueles artigos de revista para o público pré-adolescente. Essas fantasias ditadas pra gente inexperiente com a vida, servem apenas pra colocar um cabresto num determinado público e induzir que a realidade seja aquilo que ela, na verdade, nunca foi, não é e nunca será, exceto numa camada superficial, posada, artificial, insatisfeita e feita “pra inglês ver”.

A realidade prática da vida está em se conhecer. Quem não se conhece não tem a oportunidade de descobrir o que é que lhe interessa, o que lhe agrada, o que lhe incomoda, o que lhe suscita curiosidade, ou qualquer outro fator. É natural que em uma fase inicial da vida, sejamos todos inexperientes e estejamos descobrindo bem lentamente quem somos e o que o mundo possui à nossa disposição. A vida é feita de experiências. É preciso provar um pouco da diversidade que existe pelo mundo, pra saber o que cada pessoa, lugar ou contexto, lhe causa. E pra que isso seja realmente eficiente, nunca podemos nos acomodar dentro de bolhas. Já nascemos em uma determinada bolha familiar com modelos predefinidos de socialização, de afeto, de ordem, de liberdade, além das questões de âmbito financeiro, espiritual e as inúmeras nuances de questões psicológicas menores ou maiores que entrelaçam cada uma dessas áreas da vida. Isso sem falar das demais bolhas, dentro do nosso círculo de amigos, os colegas de escola, colegas de trabalho, a nossa classe social, o modelo médio de nossa sociedade e país e toda a conjuntura da época vivida. Quebrar essas bolhas todas, exige ter uma postura de navegação livre entre lugares, pessoas, temas, ideias, ideologias, modos de se experimentar o dia, o trabalho, a família, os relacionamentos todos e a nossa relação interna com nós mesmos.

Me lembro sempre do músico João Gordo, da banda Ratos de Porão comentar o quanto a cabeça dele mudou quando ele e os demais membros da banda tiveram a grata oportunidade de se apresentarem em outros países. Diz ele que conforme foi conhecendo novas culturas e pessoas, a cabeça foi se abrindo pra além daquele espaço inicial de convívio e pensamento que eram as cenas alternativas de São Paulo ou arredores. E é compreensível esse tipo de relato, pois o choque de culturas nos obriga a comparar os dois mundos e ver o que temos e o que não temos, o que sabemos e o que não sabemos, o que nos parece normal ou anormal, enquanto pra outros pode ser bem diferente. Esse tipo de contraste obriga a refletir com mais rapidez sobre a limitação da nossa visão ou do nosso pensamento em relação à alguns temas. Trocar experiências com outras sociedades pode ser um meio brusco de aprender sobre a unidade humana no meio da diversidade, mas nem sempre temos essa oportunidade. Para muita gente a vida é restrita à própria cidade e, às vezes, apenas ao próprio bairro. Então, um modo de aprendizado que serve à todos os tipos de pessoas, independente de quão longe elas possam ir ou onde possam estar, é se permitir observar e ouvir.

Aquele que não consegue olhar pro outro com alguma curiosidade, com atenção e com a mente aberta, pouco ou nada vai absorver do conteúdo dessa pessoa. Olhar para um rótulo, um corpo, uma fachada ou uma camada superficial da personalidade ou da vida de alguém nunca é suficiente pra entender porque as coisas são como são e nem o que existe de bom e de ruim no labirinto que cada pessoa é. Se quiser descobrir quão interessante uma pessoa pode ser, é preciso, obviamente, conhecê-la primeiro. E isso não acontece da noite pro dia. Leva tempo entender o que leva uma pessoa à fumar, à beber, à ler os livros que lê, a morar onde mora, à falar como fala, à escrever sobre os temas que escreve e à desejar os objetivos que deseja. Nada é tão simples quanto ter um dicionário pra definir pessoas, coisas, lugares, ideias, ideologias e condutas. O ser humano é único o suficiente pra requerer anos de convívio até conseguir sentir e ver aquilo que o outro sente e vê. Mas, mesmo que demore, é preciso fazer, é preciso, pelo menos, tentar.

Algumas pessoas podem ter a necessidade de se sentirem interessantes diante dos demais. É compreensível que se queira ser percebido como alguém que valha a pena conhecer, que se queira ser desejado ou querido pelas pessoas, mas é preciso entender que ninguém nunca vai ser interessante pra todas as pessoas. Não existe como agradar à todo mundo e nem mesmo é possível agradar muitas pessoas com o mesmo impacto ou pelos mesmos motivos. Mesmo quando uma persona é lida por uma multidão de pessoas como alguém interessante, isso pode se dar por inúmeros motivos diferentes pra cada um dos indivíduos nessa multidão. Então, não fique tentando encontrar uma maneira ideal de ser pra que consiga agradar o maior número possível de pessoas. Isso é o erro mais primário que se pode cometer na hora de viver em busca da satisfação pessoal. Você se sentirá pleno quando descobrir que pode ser interessante à sua maneira natural, pelas coisas que é ou faz de forma espontânea. Quando alguém te apreciar, a conexão estará traçada sem a necessidade de nenhuma ficção criada, nenhum marketing falso, nenhuma pose ou fachada para enganar. Apenas não prometa ser aquilo que você não é e vá construindo o seu mundo no seu ritmo. Pessoas mudam e quem vive de fachada parece sempre estar preso num padrão, porque só pessoas de verdade evoluem conforme o tempo e a situação.

A pessoa que eu sou hoje, por exemplo, já não é mais a pessoa que eu fui há 15 ou 20 anos atrás e nem a que fui nos últimos 5 anos. De fato, mudei de realidade inúmeras outras vezes, mas as mudanças são tão graduais que se tornam imperceptíveis. Quando comparamos grandes blocos de tempo é que percebemos que o começo da escada é muito distante do topo, enquanto é difícil distinguir os degraus que estão lado a lado. Então, a resposta sobre o que seria ser interessante, habita dentro de cada ser. Mas, claro, ninguém precisa se conformar com a realidade que tem hoje e parar no tempo. Não é porque você já é interessante pra alguma pessoa no mundo que sua missão de vida se encerrou. Seu papel é justamente lapidar à você mesmo, primeiro pra si mesmo e depois, pra sociedade em que você vive, na qual você vai deixar algum legado entre seus amigos, seus professores, seus colegas, seus familiares, suas companhias ou até mesmo alguma marca significativa na História pela sua atuação política, social ou vinda do seu trabalho.

É importante, também, que você se sinta interessante pra você mesmo. Não que deva ficar se contemplando como um narcisista, mas é preciso que se sinta satisfeito com aquilo que pensa, aquilo que faz, o modo de vida que leva, etc. Deve ter orgulho da pessoa que você está sendo ou está construindo. Se você tem orgulho da sua honestidade, das coisas que estuda, dos temas pelos quais você tem curiosidade, entre outras coisas, é sinal de que você está sendo interessante pra você mesmo. Muito provavelmente, você vai encontrar pessoas que se identificam com essas suas realidades e temáticas e o interesse poderá ser mútuo. No entanto, é muito comum, também, que pessoas diferentes tenham interesse umas nas outras, justamente pelo componente desconhecido, pela novidade, pela possibilidade de aprender algo que elas talvez não tenham tido grande contato antes. É assim, por exemplo, quando as pessoas conhecem conteúdos ou pessoas de outros países e ficam interessadas de conhecer mais detalhes. Se relacionar com uma pessoa de um país diferente é uma boa oportunidade de se manter uma pessoa aberta, que caminha e se transforma todo dia. Talvez isso lhe torne interessante pra muito mais pessoas do que simplesmente se resumir em um cenário menor.

Por isso, se tiver oportunidade, assista vídeos de outros lugares, leia livros de autores de outros países, converse com pessoas das quais não tem muito contato, procure novos sites na internet pra não ficar ancorado nas mesmas redes sociais, descubra filmes antigos ou fora dos destaques recomendados nas principais mídias. Vá atrás de conhecer a literatura marginal, os artistas de rua, os autores independentes, os artistas do underground, as ideologias que destoam do seu país, outros sistemas de ensino, outros cursos, outros modos de se comunicar, diferentes traços de desenho, outros idiomas, outras portas, outros prédios. Percorra a cidade atrás de lugares menores, se jogue pra dentro de mais casas, vá conhecer como vivem outras pessoas, o que elas comem, o que fazem pra se divertir, onde elas gostam de dançar, as receitas incomuns de bebidas, outros perfumes, outros modelos de relacionamento, outros sentimentos, outras manias e outras memórias, antes que elas sejam esquecidas.

Um dos motivos pelos quais eu escrevo é pra deixar um registro da minha trajetória, das coisas que eu vi, aprendi, me importei, lapidei ou nunca entendi. Escrevo pra contar para as pessoas do hoje ou de um possível longínquo amanhã, que há muito mais pra se fazer da vida do que apenas deixar ela acontecer. Você precisa ir atrás das coisas, para que as coisas possam se mostrar pra você, pra que você possa arregalar os olhos para as coisas completamente novas e aprender a ser uma pessoa melhor, maior, mais criativa, mais reflexiva, mais curiosa, mais apaixonada pelas possibilidades. É só pra isso que estamos nesse mundo. Não vamos sobreviver, na melhor das hipóteses, mais do que uns 130 anos, sendo a média da expectativa de vida, a metade disso. Então, não perca tempo enxugando gelo ou tentando parecer aquilo que você não é. Não perca tempo dando ouvido pra quem não te respeita e nem sonhe em se desgastar com mazelas que são perfeitamente evitáveis. Apenas viva o seu dia explorando as possibilidades e pense o quanto é bom poder falar sozinho, conversar com os seus próprios pensamentos e rir de suas bobagens, inventar frases, piadas, ideias descabidas, planejar um conteúdo novo, guardar um lembrete para uma conversa que você gostaria de ter com alguém sobre algum assunto específico, descobrir um jeito improvável de fazer um artesanato ou simplesmente abrir um canal de vídeo pra tentar fazer uma receita culinária. Dê vazão pra sua vida ser interessante, seja lá o que ‘interessante’ signifique pra você.

Ser interessante, no final da contas, é se deixar acontecer, ser você, exercitar ao máximo o seu potencial na vida, à tua maneira muito própria, muito característica, sem cair no vício ou no conforto de achar que precisa ser sempre a mesma coisa pro resto da vida. Pessoas mudam e, felizmente, a vida também muda pra gente.

Rodrigo Meyer – Author

Quem não admite a própria ignorância, está se sabotando.

Não existe contexto nenhum que torne uma pessoa detentora de todos os conhecimentos. A vida tem informações infinitas que podem ser parcialmente descobertas por quem se empenhar em conhecer. Em um primeiro momento, pode parecer tentador para algumas pessoas abrirem mão do conhecimento concreto e se munirem de uma camada forjada de saber baseada meramente em senso comum e dedução rápida. Mas, conhecimento não se trata do que acreditamos, nem do que achamos que sabemos por alguma força milagrosa, um dom ou coisa similar. Conhecimento é resultado de uma busca por ele, de maneira que ele se prove coerente, correto, verdadeiro, embasado, etc. Por isso, quando fingimos saber de determinado assunto sem ter o real conhecimento dele, não estamos admitindo nossa própria ignorância. Estamos negando ela para nós mesmos e/ou para os outros. Quem tem essa postura, normalmente acredita que está se beneficiando dessa fachada que aparenta conhecimento, acreditando que vai ter melhor desempenho diante da vida, diante das pessoas. Mas, a verdade é que, na prática, essa pessoa está se sabotando, pois quando ela não admite sua própria ignorância sobre algo, ela já se sente detentora de um conhecimento que não tem e, por isso mesmo, não dá espaço pra que esse conhecimento seja aprendido. É como se você tivesse uma lista de compras pra fazer, mas antes de comprar os itens, marcasse como ‘comprado’ em todos os itens da lista. Acabará apenas com uma ilusão de que os itens foram comprados, mas continuará sem os itens. Pode até sentir prazer pela ideia de que “comprou” todos os itens da lista, mas na verdade não os comprou e encerrou a tarefa de comprá-los. Chegará em casa, o armário e a geladeira estarão vazios e sua lista forjada não servirá pra se alimentar, nem servirá à qualquer outra pessoa. Em resumo, não existe como uma ficção ter o mesmo efeito da verdade. Ela só tem algum efeito, temporariamente, na mente de quem acredita nela. E a realidade da sociedade e da vida não depende das crenças de um indivíduo.

Se quiser realmente causar um impacto em si mesmo e em outras pessoas, com os benefícios do conhecimento, terá que adquiri-lo de verdade em algum momento. Não importa, a princípio, o grau de conhecimento que você obtenha, desde que seja sincero, verdadeiro. Se você se interessa, por exemplo, por Astronomia, mas não é um profundo conhecedor do assunto, você pode começar pela base, aprendendo as definições básicas, a composição do Sistema Solar, o nome dos planetas, alguns princípios sobre gravidade, órbita, tamanho, etc. Saber, por exemplo, quantos planetas temos no nosso Sistema Solar pode ser um conhecimento pequeno perto de outros assuntos astronômicos, mas já é um conhecimento se for obtido de maneira real, com base em dados científicos e não em deduções. E você poderá divulgar esse conhecimento com orgulho, porque não há nada nele que lhe desabone. Algumas pessoas podem se sentir complexadas, com um certo sentimento de vergonha por saberem tão pouco perto da vastidão e complexidade do conhecimento que outras pessoas possuem sobre determinado assunto. É compreensível isso, mas também denota que você tem visão crítica e admiração pelo conhecimento mais aprofundado de quem se empenhou em uma área de estudo. E saber que não sabe tanto quanto especialistas, faz de você uma pessoa com mais conhecimento que muitas outras também. Quanto mais aprendemos, mais sabemos o quanto ainda não sabemos. E todas as pessoas, em algum assunto e grau, passam pela mesma situação, pois o conhecimento é infinito e ninguém nunca terá absorvido ele por completo, por mais especializado que seja.

Assim, quando admitidos finalmente que não temos todo esse conhecimento, deixamos um espaço em aberto para aprender algo novo. Deixamos uma lista de metas, sonhos e conquistas à ser cumprida. Tenha certeza absoluta de que todo especialista em algum determinado assunto, começou do zero, como todo mundo. Ninguém acordou um belo dia tendo domínio sobre um assunto. As pessoas seguiram o percurso natural do conhecimento, ingerindo os conceitos mais simples em seus primeiros contatos, seja na infância ou em qualquer fase da vida, seja na escola, na família, na comunidade do bairro, entre os amigos, na internet ou onde for. Basta ter a preocupação de absorver um conteúdo verdadeiro e, então, crescerá até onde puder e quiser. Se você tem a oportunidade de frequentar um grupo de estudos, uma escola, um curso técnico, uma oficina ou uma mídia na internet, tire proveito desse privilégio, pois o Brasil é um país onde, atualmente, metade da população não possui acesso à internet e os que possuem, muitas vezes, enfrentam limitações de acesso à sites, tendo apenas o contato com aplicativos de mensagens ou redes sociais, o que já restringe muito a oportunidade de aprender um assunto de forma confiável. E se você ainda não se sente confortável ou curioso o suficiente pra ir atrás de conhecimento, já será de grande valia pra sociedade e pra você mesmo, se você não se sabotar com uma aparência falsa de ter, ser ou saber aquilo que não tem, não é e não sabe. Tenha de exemplo a vergonha que foi a exposição de várias figuras públicas do atual desgoverno brasileiro, com currículos completamente fraudados, inventando cargos e formações que nunca tiveram, na esperança de se sentirem maiores do que realmente são. No fim, tornaram-se menores ainda do que já eram. Fingir que sabe é mais vergonhoso do que simplesmente não saber.

Encare tudo isso como de fato é: uma opinião sincera de quem gostaria de ver o mundo melhor, com pessoas mais felizes, com uma redução dos absurdos índices de suicídio, redução das taxas de evasão escolar, eliminação do desemprego e dos subempregos, com maior qualidade de vida, engajamento político e social para tornar realidade uma mudança em benefício direto da população para a própria população. Se valeu de algo tudo que eu disse até aqui, procure mais sobre ‘poder popular’ e entenda como isso tem tudo a ver com dar o protagonismo na sociedade para os que realmente são e sempre serão os verdadeiros protagonistas em qualquer lugar do mundo, em qualquer setor ou situação. A população deve ser sempre a origem e o destino de tudo, afinal vivemos em sociedade para que o coletivo se beneficie do que o grupo consegue organizar para melhorar o bem-estar de todos os indivíduos. Pense fora da caixa, pense fora do individualismo, do egoísmo e desse modelo político de hierarquia onde uns poucos comandam os rumos de uma imensa população, quase sempre sem carregar a verdade com eles. Comece a pensar na inversão dessa estrutura, onde o poder popular é que toma a frente da situação como origem e objetivo de todo benefício. Pense nisso. Não estou aqui pra dizer o que você deve pensar, mas pra te fazer pensar. Seja uma pessoa curiosa e encontre o seu próprio caminho, suas conexões, seus assuntos, seus interesses. E se achar pelo meio dessa jornada pessoas que tem algo pra acrescentar de verdadeiro, terá a oportunidade de ver que não está sozinho e tem alguém à quem se inspirar pra ser melhor, pra aprender mais, pra ser mais.

Rodrigo Meyer – Author

Especial | Aulas de Redação.

O mundo traz novas oportunidades quando lapidamos nossos processos e objetivos. Aprender a escrever bem é uma destas ferramentas e hoje vou te apresentar uma sequência de aulas que você poderá fazer diretamente da sua casa, através de vídeo-chamadas por skype. Escolha o horário e a frequência de aulas de maior comodidade pra você. As aulas estão compostas em 9 sessões e 2 tópicos por sessão.

Sessão 1:
+ Como fazer uma introdução de um texto.
+ A importância do começo, meio e fim.

Quebre o gelo com a escrita e entenda algumas regras de redação que fazem tanto o autor quanto os leitores se ambientarem ao conteúdo, com interesse e fluidez.

Sessão 2:
+ Aprenda a ser conciso e completo.
+ Estruturando uma argumentação.

A regra da eficiência pressupõem que você diga o maior número de informações com o mínimo de texto possível. Portanto, para não sacrificar seu conteúdo, a redução deve ser planejada com criatividade e inteligência.

Sessão 3:
+ Redação publicitária.
+ Textos persuasivos.

Quando você está escrevendo para um público ou objetivo específicos, existem premissas importantes na sua linguagem e na composição do seu texto, em termos de hierarquia, valores e psicologia. Passar a mensagem correta é construir uma percepção de sentido e valor.

Sessão 4:
+ Como criar títulos funcionais.
+ Tamanho mínimo, médio e máximo de um texto para redes sociais, blogs e livros.

Aprenda a criar títulos curtos, fortes e atraentes que representem muito bem a essência de cada texto. Para ser lido, você precisa ser notado. Descubra também alguns parâmetros sobre o volume do seu texto, truques de edição e questões relacionadas ao seu público leitor.

Sessão 5:
+ Definindo temas para escrever.
+ Encontrando seu estilo de escrita.

Desenvolver a literatura é parte de um hábito. Encontrar temas interessantes e adequados, estão intimamente relacionados com quem você é e qual imagem você deseja passar. Atrelado a isso, encontrar seu estilo te fará único e é exatamente essa característica que te abre espaço entre os demais.

Sessão 6:
+ Estilos literários (conto, prosa, poesia, artigo, etc.)
+ A importância da imagem como suporte ao texto.

Muitas são as possibilidades de expressão. Entenda cada uma delas e conheça as primeiras portas para se aprofundar nas suas escolhas. Depois de ter se estabelecido como autor, é preciso entender um pouco mais da sua própria apresentação. É hora, então, de pensar como funciona a comunicação das imagens que acompanham seu texto.

Sessão 7:
+ Tire dúvidas de ortografia e gramática.
+ Reescrevendo frases em um modo curto, compreensível e sem repetições.

Refine seu texto com um constante aprendizado do idioma. Uma escrita correta e coerência no uso de certas expressões, vão elevar sua credibilidade diante do público e atrair mais pessoas para o que você tem a dizer. Quando você se torna inteligível ao seus leitores, você cria uma conexão sem ruídos.

Sessão 8:
+ Adequando a linguagem e o tamanho do seu texto ao seu público.
+ Consulta de fontes de referência pra dados.

Tão importante quanto escrever correto, é entender os vários ambientes e contextos de leitura. Adequar a linguagem sem cair em clichês ou empobrecimento da escrita é importante pra se manter como referência de confiança pra seus leitores. Transpor naturalidade nas suas frases e dados, exige embasamento e tato.

Sessão 9:
+ Melhorando sua segurança / confiança no ato de escrever.
+ A importância da estética e do ritmo na leitura.

Agora que você já tem as ferramentas para escrever textos eficientes, seu sucesso está mais próximo. Continue escrevendo, perceba os momentos e gatilhos dessa atividade e entenda quais são os fatores que te dão confiança em ser autor. A medida em que você aprende a envolver os leitores ao longo do seu conteúdo, você garante um lugar ao sol e essa é a chave também para você se envolver de forma confiante com sua própria atividade de escrita.

Extra:
+ Grupo Vip.
+ Leituras, análises e correções.

Ao adquirir as aulas, você tem o benefício de participar de um grupo exclusivo no Facebook, somente para alunos do curso, onde você pode enviar seus textos pra que eu possa tirar suas dúvidas, dar dicas, ler e opinar sobre os conteúdos, fazer correções e muito mais.

Investimento:  Apenas R$ 270 reais, equivalente a R$ 30 reais por sessão.
Duração: 90 minutos por sessão com 2 tópicos.

Datas:
Uma vez contratada as 9 sessões, você é quem escolhe o melhor dia, horário e frequência das aulas. Escolha quando começar a primeira e quando retornar para cada uma das próximas.

Dicas: Devido a carga horária e a frequência de sessões, pode ser útil programar e reservar suas datas e horários. Faça no seu tempo disponível e no ritmo que lhe for confortável ou conveniente e, certamente, irá desfrutar de todo o benefício desses conteúdos.

Inscrições e Pagamentos: Você pode adquirir o curso através de pagamentos por PayPal ou PagSeguro, garantindo segurança e praticidade pra ambos. Através dessas plataformas, você pode controlar que os pagamentos só sejam liberados a mim se você efetivamente receber o serviço combinado. Para solicitar mais informações ou se inscrever, entre em contato por mensagem inbox na minha página no Facebook.

Rodrigo Meyer

Não alimente o inimigo.

Embora muita gente concorde que na luta por determinadas causas e interesses, haja a necessidade de se combater problemas e fomentar soluções, muita gente ainda cai em um erro clássico que é compartilhar mídias originais dos inimigos pra, supostamente, criticá-los. Simplesmente não faça isso. Fique e te explico porquê.

Por melhor que seja a intenção de criticar e alertar mais pessoas sobre o quão ruim é determinada coisa, você deve fazer isso de maneira eficiente e que não seja como ‘o tiro que saiu pela culatra’. Quando você quiser que determinada mídia seque ou caia no ostracismo, você precisa, sobretudo, não ser parte da força que impulsiona essa mídia. E nas redes sociais, feliz ou infelizmente, o mecanismo que dá maior visibilidade pras coisas depende exatamente dos compartilhamentos e das visualizações que derivam disso e de novos compartilhamentos feitos, num esquema bola-de-neve. Quando nos damos conta, um post praticamente anônimo ganhou repercussão em grande parte da internet e quem nem sabia que uma asneira estava dita, agora sabe junto com diversos outros apoiadores e opositores, que, se compartilharam, ajudaram a tornar isso mais presente na atenção das pessoas, em detrimento de outros conteúdos melhores.

Lembre-se que tudo que há de ruim no mundo, como os preconceitos, os pensamentos equivocados, a violência, os discursos rasos e todo tipo de bobagem, foi replicado justamente por esse mesmíssimo efeito de propagação. Quando você não gosta de algo, há meios pra se falar disso, sem dar espaço pra mídia ou pra pessoa a quem você não concorda. Eis aqui algumas considerações:

Quando você encontrar uma foto que lhe pareça degradante, não há sentido em espalhar ela pra toda internet, com ideias como “vamos compartilhar esse absurdo até que algum responsável tome as providências”. Simplesmente não é assim que você conseguirá o suposto objetivo de fazer parar e de responsabilizar pessoas pelos erros já cometidos. Você não espalha um incêndio na floresta sob a ideia de querer que alguém seja impactado por um continente inteiro pegando fogo pra poder fazer algo sobre isso. Aliás, muitas das vezes quem faz esse tipo de pedido, faz com más intenções, esperando justamente que os incautos espalhem aquilo, objetivando ver o malefício se espalhar mesmo.

De maneira igual, vale pra tudo o mais. Se você encontra um vídeo que é ruim no Youtube ou no Facebook, compartilhá-lo, mesmo que com a boa intenção de fazer uma crítica ou um alerta, vai acabar dando mais visualização e destaque pra esse vídeo e o mecanismo das redes sociais começará a entender que esse vídeo é relevante e começará a ‘hankeá-lo’ melhor em relação a outros conteúdos. Como resultado, um número maior de pessoas verá aquele exato vídeo (por vezes sem ser do seu compartilhamento isolado com a crítica anexa) e, então, outros conteúdos bons que já tinham dificuldade de alcance, somem das timelines por causa do reposicionamento no hanking.  Isso é a receita garantida de plantar o que não se quer e secar as próprias boas sementes daquilo que se queria. Nada mais prejudicial que isso.

Outro detalhe importante é estender essa prática não só pras mídias mas para tudo que esteja relacionado aos contextos, pessoas, empresas ou lugares a que não compactuamos. Se você não quer que um político ganhe fama entre a população, simplesmente pare de colocá-lo nas notícias e nas redes sociais o tempo todo. Se o sujeito ainda é pequeno e anônimo, não faça ele se tornar grande e famoso. Deixe ele secar no ostracismo. Isso é uma lição que ajuda a moldar a própria sociedade sobre o que é válido ou não, o que recebe ou não atenção, o que tem ou não repercussão na internet, etc. Quando você não faz esse filtro, você permite que pessoas estúpidas consigam rapidamente saltar de um post anônimo isolado para uma comunidade que o cerca, o apoia, o endossa e o compartilha. Em pouco tempo, algo minúsculo se torna um problema enorme do qual teremos que lidar, como que um piano adicionado nas costas, pra quem já carregava diversos outros. Não é inteligente compactuar com esse modelo equivocado de lidar com pessoas, mídias, empresas e assuntos.

Saudável e necessário é focar-se naquilo que você quer ver prosperar. Se você quer que as pessoas conheçam mais sobre um determinado assunto, invista nisso, crie uma mídia própria ou compartilhe de uma boa mídia de terceiros aquilo que representa suas ideias, seus valores, seus objetivos. Em paralelo a isso, quando vir conteúdos inaceitáveis como xenofobia, racismo, violência gratuita, machismo e outros entulhos sociais, se esforce pra combater esses espaços pra que eles não voltem a existir e não se espalhem. Se quiser fazer uma crítica a eles, você pode, mas deve usar recursos que isolem completamente a mídia original. Pode, então, por exemplo, fazer um print de uma imagem e repostá-la dentro de um grupo pra que as pessoas possam saber o que ocorreu e, livremente, discutir sobre aquele assunto, entender e agir pra resolver. Outra forma possível é escrever uma matéria citando o assunto, sem que precise divulgar os criticados. Assim você combate o que há de ruim, sem dar visibilidade.

É claro que, muitas vezes, os inimigos já tem uma fama ou repercussão tal que é inviável não citá-los, afinal já são conhecidos pela maioria das pessoas, independente do compartilhamento, então, se referir a eles diretamente é útil. Quando já espalharam feito um câncer ou vírus, a tática já não pode ser apenas evitá-los, sendo preciso, agora, expor os absurdos como forma de usar o próprio peso do inimigo pra derrubá-lo. Tal como no judô, independente do seu porte físico, você pode colocar um oponente ao chão, apenas sendo habilidoso em verter todo o esforço e peso dele a seu favor no movimento, facilitando pra que ele praticamente caia sozinho. Isso é ser eficiente. Nas causas sociais, nas mudanças do mundo e até mesmo na disseminação de educação, seja na família, num debate na internet ou nas escolas, você tem o poder de fazer a coisa certa de um jeito que funcione e não gere mais problemas do que antes.

Se este texto lhe soa útil e realista, faça o papel de espalhá-lo. É assim que coisas melhores ganham mais espaço na memória das pessoas, no inconsciente, nas redes sociais, nos compartilhamentos, nas impressões sobre o mundo, na hora de transmitir valores aos amigos, as próximas gerações, etc. Aprender é indispensável, mas se não compartilhamos aquilo que aprendemos e/ou queremos ver no mundo, não veremos isso se espalhar como realidade. Se você quer MESMO que uma certa realidade positiva se estabeleça no mundo é seu papel fazer parte dessa epidemia proposital de fazer chegar pra mais gente.

Rodrigo Meyer

O abismo entre ler, entender e praticar.

Fala-se muito que a leitura é importante pra Cultura e Educação. De fato ela tem um papel importante neste e outros itens, mas, ainda que as estatísticas fossem melhores, nada muda o fato de que não basta apenas as pessoas estarem lendo, pois muita gente consegue passar os olhos pelas linhas de texto, porém poucos conseguem extrair daquilo algum significado consistente, uma compreensão razoável, um entendimento que faça daquele conteúdo algo útil pra transformação da mente e da vida de si mesmos. E igualmente problemático é ler, mas não entender e não praticar. É comum vermos as pessoas adentrando para conhecimentos novos dos quais, supostamente, são interessadas, mas que, na prática, ignoram tudo aquilo.

Assim, há um abismo entre ler, entender e praticar. Exercer um item não pressupõem exercer o outro. Há uma ilusão triste das pessoas associarem leitura com intelectualidade. Chega a ser contraditório alguém se considerar mais sábio ou instruído simplesmente por ter lido mais, uma vez que falta o entendimento de que uma coisa não tem a ver com outra. A intelectualidade, embora possa ser alimentada com o conhecimento ofertado pelos livros, não é dependente destes. Em verdade, existem muitas e muitas pessoas que sequer tiveram a oportunidade de se alfabetizar ou que nem mesmo possuem acesso a livros, textos impressos em geral ou internet. Mas, isso não significa necessariamente que sejam pessoas sem intelectualidade, sem sabedoria, sem conhecimento, sem domínio sobre os assuntos.

Você se surpreenderia em como algumas pessoas que chegaram a cruzar faculdades e a ter prestígio social em grandes mídias, possuem dificuldades crônicas no discernimento de simples composições de ideias, de lógica, de argumentação ou de preparo mental geral pra lidar com certo cenário de dados da realidade. É decepcionante ter que dizer que muitos professores universitários, a quem esperamos, ingenuamente, um preparo intelectual acima da média, por vezes sabem menos que os alunos a quem tentam ensinar. Destaco, inclusive, que muitos são um desserviço para educação, por replicarem aos seus alunos informações equivocadas dos temas que eles deveriam dominar. Me sinto constrangido em ter que dizer que, ao longo do meu percurso de escola e faculdade, foram frequentes os casos em que eu tive que corrigir erros grosseiros de professores ou simplesmente fazer vista grossa e “me conformar” que o ensino no Brasil é lamentável, em muitos sentidos e níveis.

Na hipótese de termos mais leitores e com uma frequência de leitura melhor, ainda estaríamos no abismo da dificuldade de compreensão. Enquanto as escolas se esforçarem apenas pra ensinar as pessoas a grafarem letras e lerem os símbolos grafados, teremos ótimas máquinas de leitura, tal como as que leem códigos de barra ou o moderno QR Code. Aliás, talvez isso explique porque muita gente não se interessa de ler, depois de ter passado pela alfabetização, escola e até mesmo faculdade. É como se o sistema pelo qual passaram não instigasse a perceber benefício em decifrar além das letras. As pessoas acham a leitura maçante, especialmente se aquilo parecer apenas um aglomerado inútil de letras, palavras e frases. Há de se pensar em como as pessoas estão sendo encaminhadas para o ensino, para a cultura, para a reflexão dos assuntos.

Ler pode ser útil, mas, nas mãos erradas, tem papel nulo ou até prejudicial. Há uma frase que diz que “meia informação é mais perigoso do que informação nenhuma”. E isso significa que, entender um assunto de forma incompleta dá uma falsa sensação de domínio para a pessoa, mas não complementa com o mais importante: detalhes, desfechos, poréns, ressalvas, condições, interpretações, sentidos, entre tantas outras coisas.  Seria o mesmo que dizer para uma criança que água é um líquido seguro, mas nunca explicar nada sobre o ‘capítulo 2’ do assunto, sobre o perigo da água fervente. Se a pessoa só aprende as coisas pela metade, está sempre em risco de fazer mal uso da informação.

E, pra finalizar, depois de ler e entender, há de se praticar, pra não ser como muitos que tudo sabem, mas nada fazem, como se fossem médicos a negligenciar a própria saúde. Em situações piores que esta, podemos citar os juízes e advogados que ignoram a justiça e a lei, ou ainda os que mergulham em ativismo social, mas ficam reclusos apenas na teoria. Assim ocorre, aos montes, em todo campo, em todo canto, com todo tipo de gente. O mundo tem solução, mas pouca gente se debruça sobre os problemas pra coletar as soluções. Há muito para se crescer se simplesmente pegarmos aquelas ideias lidas e, eventualmente, compreendidas e colocarmos em prática. Como mágica, da noite pro dia, as coisas se transformariam. Mas, enquanto uma massa de pessoas tomar a decisão exatamente contrária, veremos uma forca avançar pra cima de todos nós, tornando a educação um tema chato, cansativo, que suscita um aumento colossal de evasão escolar, de distanciamento da leitura e da cultura e, principalmente, do distanciamento da reflexão sobre sua própria existência. E esse é o caminho garantido para o desmoronamento social em todos os sentidos.

Gostaria de ver iniciativas e visões diferentes daquela ideia romantizada de que produzir cultura e fortalecer a educação se resume a feitos numéricos de gerar mais alunos alfabetizados, aptos a ler um texto. Gostaria de ver iniciativas com viés filosófico e psicológico, resgatando valor e interesse nas pessoas, não só de consumir informação, mas de serem elas mesmas autoras. E pra isso, claro, precisarão dominar a reflexão e a interpretação como nunca antes. Suscitar mudança social, no final das contas, é suscitar mudança dentro de cada indivíduo, muito além de suas habilidades escolares ou técnicas. Não somos máquinas e não vamos passar nossa vida digerindo código de barra. Antes de sermos leitores de qualquer coisa, precisamos ter a necessidade de absorver alguma coisa, de compreender uma ideia ou sentido para torná-los ferramentas de nossa própria liberdade e felicidade. Sem isso, ainda seremos os velhos diplomados de sempre, aptos para o preconceito, para a intolerância, para a guerra, para a depressão, para a miséria social, para a violência física e psicológica, para a corrupção, para os relacionamentos desarmoniosos e para a degeneração do sentido da vida, em tempos onde viver é o próprio motivo de não queremos pensar na vida.

Rodrigo Meyer