O tempo que você não tem, lhe foi roubado.

O tempo, além dos ciclos naturais das estações do ano e o movimento dos astros, é também uma construção social. E dentro dessa construção social é comum de vermos as pessoas criarem construções derivadas desse modelo. O tempo é relativo, mas também tem seu fator concreto. Mais importante do que entender o que é o tempo, é saber o que você faz dele.

Quando as pessoas dizem que não possuem tempo para determinada atividade, geralmente isso significa o oposto na realidade. O que ocorre é que as pessoas que sentem-se sem tempo, por vezes, estão apenas cegas de si mesmas, justamente por estarem ocupando o tempo delas com coisas superficiais e que não são reais prioridades. Quando elas notam alguma coisa da qual elas gostariam ou precisariam muito fazer e se apercebem sem tempo, é preciso refletir que outras coisas estão preenchendo o tempo a ponto de não haver espaço para algo que se quer muito

O dia na Terra tem em torno de 24 horas. É bastante tempo para o modo como estamos acostumados a experimentar nossas rotinas. Uma pessoa comum dentro da média, acorda pela manhã, segue para o trabalho ou estudo, pausa para almoçar, encerra o dia lá pelas 19h00 e retorna pra casa ou segue para alguma atividade de cunho pessoal. Considerando o percurso triste de muitos lugares, isso pode se arrastar por mais algumas horas de transporte. Com alguma sorte essa pessoa vai conseguir dormir as recomendadas 8 horas de sono, pra acordar à tempo de ir pro trabalho ou estudo no dia seguinte.

Se você segue essa rotina descrita acima, é muito provável que você esteja cansado. Seu trabalho te ocupa o dia todo, se levar em conta a soma do transporte, da refeição e do sono que te mantém vivo pro próprio trabalho. Em nenhum desses horários você teve lazer ou algum prazer incluso. É provável que não tenha tido sequer o tempo necessário para se questionar sobre sua condição atual e suas possibilidades paralelas. Como buscar alternativas, quando tudo que você tem é a rotina te algemando à um modelo que te cansa e te ocupa o dia todo?

Se você teve tempo e oportunidade pra ler esse texto, provavelmente você está com uma margem nos seu horário ou então teve a grata oportunidade de folgar por alguns dias na semana inicial do ano. Talvez, ainda, você tenha insônia e, ao invés de cumprir suas 8 horas de sono, você se cansa ainda mais diante da internet, em busca de atender o chamado da mente. Eu não tenho como prever com exatidão qual a sua situação, mas posso lhe dizer algo importante sobre tudo isso. Em qualquer cenário que você estiver, uma coisa não muda: o dia continuará tendo 24 horas e você tem nas mãos escolhas e responsabilidade para colocar na balança. Vejamos.

Se você é uma pessoa solteira, sem responsabilidade com cônjuge, filhos e nem lhe é requerido cuidados mais constantes e presenciais para seus pais ou parentes, você já está em vantagem em relação a muita gente. O Brasil é um país onde raramente as pessoas alcançam qualidade de vida e, por isso, mais atribuições de responsabilidade acabam por se tornar um fardo que faz muita gente desistir ou transbordar em condutas e sentimentos indesejados. Se lhe foi dada a condição da escolha sobre esses aspectos da vida, sinta-se agradecido, pois a maternidade ou paternidade, o cuidado de enfermos ou a aceitação de um trabalho que rouba todas as horas do dia em troca de um salário que custeia apenas a sobrevivência, é uma triste realidade de grande parte da sociedade.

Nessa altura você deve estar se perguntando, como é que pode haver tempo de sobra, se acabei de mostrar que a maioria das pessoas não dispõem de tempo suficiente. A verdade é um contexto mutável e não algo fixo e eterno. Se nos apercebermos de nossas funções no mundo, do nosso esforço, nosso potencial, nosso valor, nosso trabalho, nossas relações com o tempo, com as pessoas e com a sociedade, teremos condições de estimular em nós um senso crítico sobre o que não parece justo, certo ou realista sequer. Quando você se dá conta de que está trabalhando simplesmente pra continuar vivo para o próprio trabalho, você está sendo, em certa forma, escravizado pelo trabalho, apesar da ilusão do salário. Digo isso porque seu salário não é dado para você exatamente, mas custeia apenas sua alimentação, sua moradia, seu transporte e evita que você amanheça morto no dia seguinte e deixe de trabalhar por quem “precisa” da sua fracionada mão-de-obra. Se aperceba que você não usufrui do seu salário para nada que seja destinado à você mesmo, como o seu aprendizado, seu lazer, seu relacionamento afetivo com as pessoas, sua exploração da espiritualidade, o cuidado com a saúde do seu corpo e mente, a elaboração de uma rede firme e saudável de amizades, uma pausa para pensar o mundo, pensar você, pensar a vida, questionar os caminhos e os porquês. Perceba que num modelo de vida apertado assim, ocupando todas suas 24 horas, o tempo lhe é roubado. E se lhe roubam o tempo, é porque você tem tempo de sobra pra ser roubado. Ficou mais claro?

Todos nós temos, tivemos e sempre teremos 24 horas do nosso dia, para fazermos nossas escolhas. É claro que, diante de certas responsabilidades éticas, escolhemos, por exemplo, não negligenciar os cuidados com filhos e família, não subestimar o salário que nos permite dar assistência e sobrevivência para aqueles a quem tutelamos e/ou amamos ou simplesmente para cumprir nosso instinto de sobrevivência e nos mantermos vivos e à salvo nas necessidades mais básicas da Pirâmide de Maslow. Mas, acima das urgências de respirar, urinar, comer, se proteger do frio e do calor, dormir, se manter vivo e com o máximo de saúde possível, temos um outro patamar de realidade, que é talvez igualmente importante por mais que não seja exatamente o motivo da nossa sobrevivência como seres orgânicos.

Além da sobrevivência, temos o viver. Viver é infinitamente diferente de sobreviver. Enquanto o sobrevivente pulsa o coração e mantém ativa as ondas cerebrais para ser tachado de vivo, a pessoa que realmente quer viver e não apenas sobreviver, precisa encontrar função e satisfação além da manutenção do organismo, afinal o ser humano não é apenas o próprio corpo. Ser um ser humano é, antes de tudo, ser dotado de uma individualidade, uma consciência, uma personalidade, uma vontade (e aqui permita-me listar também a Vontade, com ‘V’ maiúsculo, em referência a essência de um indivíduo, como anunciado por uma certa vertente de conhecimento). Viver é, sobretudo, abandonar a servidão da sobrevivência e desfrutar a vida ao lado de seus potenciais e anseios. Existimos para nossos próprios propósitos e não temos que nos sujeitar a nenhum modelo imposto de sociedade, trabalho ou relacionamento. As premissas do mundo, são criações de outros seres humanos, tão comuns e/ou especiais como qualquer outro. Somos todos iguais e o problema na administração do nosso tempo e valor está justamente em alguém ser subjugado por outro, pra que o outro faça o que quer do tempo dele, enquanto a vítima segue pressionada a não ter nada, a não ser nada, a não poder querer nada.

As pessoas que detém 24 horas do seu tempo, tem um tesouro nas mãos. Deveriam fazer bom proveito disso, pra não acabarem infelizes, com sentimento de derrota, frustradas, deprimidas, doentes ou distantes dos seus potenciais, sonhos e responsabilidades. Escolhemos vender a nossa força de trabalho, pois acreditamos pouco na nossa autonomia. Desde que eu me conheço por gente, sempre almejei e sempre fui um profissional autônomo. Trabalhar para os outros nunca me foi uma opção a ser considerada. Claro que se eu me sentisse sem nenhuma segurança ou esperança, viria o pensamento de me sujeitar à exploração do trabalho convencional, afinal tentamos sempre nos mantermos ao menos vivos pela sobrevivência e depois pensamos em viver. Mas, enquanto me foi dada a oportunidade de escolher minha própria vida, escolhi arcar com a responsabilidade de viver na incerteza dos ganhos como autônomo, mas desacorrentado da falsa promessa de estabilidade de um salário mensal em uma empresa. Não me arrependo jamais de ter escolhido o meu caminho.

Eu não posso dizer que você tenha as mesmas condições que eu para tomar essa decisão assim, da noite pro dia, mas posso te contar da experiência de inúmeras outras pessoas em diversos contextos sociais e familiares. Posso te dizer que há pessoas que mesmo tendo uma vida relativamente confortável, escolheram ir para as ruas, para morar e explorar a realidade paralela, como também conheço os que abandonaram as ruas ou o risco de estar morando nelas, para coletar materiais recicláveis descartados, para construir sua própria autonomia na vida, sua moradia, seu tempo livre, sua relativa paz. Sorriso no rosto de pessoas tão distintas falam mais sobre quem elas são por dentro, do que o cenário que deduzimos no mundo físico delas. Para algumas pessoas, certas atividades parecem degradantes, para outras é a oportunidade de se sentirem livres. Obviamente, a sensação de encaixe e satisfação dessas pessoas não anula o fato de que outras muitas sentem-se invisibilizadas ou maltratadas pela vida exatamente por estarem na condição ou cenário em que estão. Para muita gente o abandono familiar, a miséria, a ausência de um lar além do improviso nas calçadas, é uma realidade dolorosa que as pessoas tentam contornar por meio da transformação de significado da vida, mas que, quando não conseguem, caem no abuso de álcool e outras drogas, como fuga de suas próprias realidades.

Começar a falar de tempo e terminar falando de classes sociais é o tipo de realidade que precisa ser visitada mais vezes por aqueles que não perceberam a conexão entre assuntos aparentemente desconexos. O texto não desvia sequer do título. O texto tenta suscitar na sua mente consciente, aquilo que o seu inconsciente já sabe. Por meio das críticas e exemplos que trago, eu espero com sinceridade que você levante um dia e perceba que há valor no seu indivíduo, por mais que a vida tenha insistido em mentir pra você, em te reduzir ou te desacreditar. A vida, de um modo mais subjetivo, são as relações humanas pelo mundo. É o que fazemos uns com os outros que determina como será a vida de cada um. Qualidade de vida nada mais é que manter relações positivas e justas entre as pessoas que interagem em um mesmo ambiente. Se cada indivíduo estiver são e feliz, acaba por descobrir que todos possuem 24 horas do dia pra serem cada vez melhores, num nundo cada vez mais consistente, sem ódio, sem preconceito, sem separação de classes, sem pressão, sem guerra sem coisas desnecessárias que ocupam o tempo de muitos.

E nem vou entrar na questão, por hoje, do desperdício de tempo de atividades como a obrigatoriedade ilusória de sair todo fim-de-semana, de dedicar horas do seu dia pra assistir passivamente a timeline do Facebook, Instagram e Youtube. Essa crítica da vida pós-internet é tão conhecida quanto a própria internet e as pessoas são conscientes disso mesmo quando incorrem no vício que elas não gostariam pra si. Disso já falei em outros textos e, se necessário, voltarei com abordagens diferentes futuramente. Retomemos a linha do pensamento.

Após você ter se apercebido do necessário, é hora de fomentar suas mudanças no coletivo. Sozinho, talvez faça boas coisas, mas em conjunto, poderá fazer coisas maiores. Se tornar livre no seu próprio mundo, pode ser uma bela conquista, mas estimular para que todo o mundo seja o seu e de todos os demais, pode ser a melhor coisa que você já fez. Encontre-se com as pessoas que pensam de maneira similar com a sua, esclareça os pontos falhos sobre o assunto, divida apoio, esteja lá para empoderar, para deixar um sorriso, um novo modelo de vida, um teor de esperança, um perfume de vitalidade, um pensamento que vá além da opinião e que permita que mais pessoas sintam-se engajadas como você a querer mais da vida do que apenas sobreviver. De início isso poderá ocupar boa parte do seu tempo, mas é uma boa maneira de ocupá-lo, bem melhor do que se enforcar em horas e mais horas de trabalho sem significado, pra que seu patrão compre um carro novo, reforme a casa, viaje pra praia, abra outra empresa e siga enriquecendo às custas do seu suado trabalho.

Me parece mais justo que você escolha pros seus dias a incerteza no final do mês, porque só se torna difícil quando pouca gente está fazendo. Se todos estivéssemos vivendo em um cenário de trocas entre autônomos pelo mundo todo, seríamos todos livres para sermos quem quiséssemos ser. Seriamos livres para pensar, ler, sentir, escrever, desenhar, construir, sonhar, viver. Viver! Vamos redescobrir o sentido da vida, olhando exatamente para os lugares onde ela não está. Se não há vida no seu trabalho ou nas suas relações sociais, mas apenas sobrevivência, é hora de repensar. Tudo bem se você concluir que não é uma mudança boa para você ou que você não tem os contextos necessários para tomar essa decisão. Eu não estou aqui pra te julgar. Eu vim exatamente pra lhe enxergar, dizer que você existe, que você importa e que você deve ser livre o máximo que puder. Tudo que eu posso fazer por você, na posição em que estou é te provocar reflexões, abrir as portas do meu mundo e sorrir diante da reciprocidade e sintonia que houver. Eu não posso tomar as decisões por ninguém e nem mesmo cobrar as pessoas para que tomem qualquer decisão na vida delas. Somos indivíduos e, como tal, há uma vida em cada um de nós, uma autonomia, uma responsabilidade própria, uma liberdade, um hall de escolhas e ações. Exerça sua individualidade, seja o protagonista da sua vida.

Obrigado pelo seu tempo e espero que o meu tempo dedicado nesse texto tenha gerado algo de útil pra você também, pois foi útil pra mim e só seria uma troca se fosse útil à ambos. Isso é o que fiz desse pequeno momento do meu dia e tenho certeza que ele vai me render mais tempo livre em algum momento lá na frente. Eu escolhi viver e escrevo porque é isso que eu desejo fazer.

Rodrigo Meyer – Author

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A autoestima das pessoas de mais idade.

Logo de cara é preciso deixar claro que em todas as idades, inclusive entre os mais idosos, existe diversidade, em termos de autoestima, de qualidade de vida, saúde, contextos, etc. Não há como dizer que alguns exemplos isolados retratam toda a comunidade de idosos. Com este texto eu pretendo tão somente despertar o olhar sobre algumas pessoas, alguns episódios e alguns contextos.

Quando eu era criança, olhava para os idosos e me punha a pensar como seriam essas pessoas em suas juventudes. Talvez essa fosse a maneira de tentar desvendar quem eram essas pessoas no momento presente e porque eram de tal maneira. Na maioria das vezes, via idosos com uma expressão de cansaço, um ar sério ou triste. Algumas raras vezes encontrava alguns em condições diferentes. É de se imaginar que o tempo vivido, a condição de saúde e a própria idade avançada em si desse a estes tais características. Mas é preciso dizer, também, que algumas outras pessoas parecem burlar tudo isso, como se fossem mais resistentes fisicamente e/ou mentalmente.

Ouvia que algumas pessoas ‘envelheciam melhor’, como se prolongassem a juventude por mais tempo que a média das pessoas. Sempre achei isso intrigante. Lembro que quando eu tinha uns 15 anos, aproximadamente, vislumbrei uma moça na calçada, em frente a um salão de cabeleireiro. Alguém havia comentado que se tratava da dona do estabelecimento e que já tinha 70 anos. Na época, não consegui tomar como verdade, porque nunca tinha visto uma pessoa de 70 anos com aquela aparência tão jovem. Eu nunca fui bom em distinguir idades, mas mesmo pra mim, foi fácil ver que a aparência não estava nem próxima do número, segundo o que minha mente conseguia pinçar de referências anteriores. Ela era uma pessoa muito ativa, de postura firme, com um andar fluído, um rosto bonito, um olhar marcante. Uma pessoa realmente bonita e, inclusive, atraente. Embora eu não apreciasse o estilo de suas roupas, era fácil ver que, ao estilo dela, ela caprichava em cada detalhe.

Diversos outros episódios similares foram surgindo com o tempo. Várias das pessoas que eu conheci durante os tempos de ensino, eram pessoas entre 30 e 80 anos. Algumas, mesmo com a mesma idade de outras, destoavam na aparência, principalmente pelo semblante. Enquanto algumas pessoas de 40 anos pareciam irritadas com a vida, outras pareciam estar se divertindo. Sorriso no rosto e brilho nos olhos parecia ser o que movia a beleza e jovialidade de algumas delas, enquanto que em outras, as dores e padrões tóxicos as consumia também fisicamente. Começava a ficar claro pra mim que o modo de vida dessas pessoas tinha um peso na equação.

Devido ao meu apreço por pessoas mais velhas pra dividir conversas e interações mais produtivas, eu socializei com muitas dessas pessoas em diversos contextos. E assim eu pude conhecer de perto a realidade de muitas dessas pessoas. Era interessante ver como a autoestima de algumas ajudava a sentirem-se tranquilas e felizes o suficiente pra externar um semblante melhor. E, claro, rendiam elogios entre os mais atentos. Eu notava, inclusive, em como essas pessoas mudavam de postura sobre si mesmas, sobre a vida, sobre o espaço em que socializavam. Parecia que ganhavam uma carga extra de energia para exercer as tarefas do dia ou até mesmo ficavam mais imunes ao stress e as situações infrutíferas da vida e do trabalho. Muito provavelmente, isso as ajudava a retomar um condicionamento físico, refletido, talvez, pelas regulações de hormônios ou algo do tipo.

Com algumas pessoas, por eu não ter conhecido elas em fases anteriores, não sei dizer se foram transformadas para melhor ou se sempre foram daquele jeito. Também não sei dizer se esse padrão de envelhecimento é raro ou se só me parece incomum por eu não ter conhecido um número maior de pessoas. Tudo que sei é que, a autoestima pesa muito na vitalidade do ser humano. Não é preciso dizer que o fator mental e emocional podem levar pessoas a somatizar doenças ou a levar uma vida cercada de hábitos prejudiciais. Uma boa alimentação, atividade física (inclusive o sexo) são fatores impactantes. Não há como negar que essa jovialidade ajuda inclusive a levarem uma vida mais ativa e estimulante, o que as faz manter o vigor, numa espécie de círculo-vicioso.

Do lado oposto, as pessoas com baixa autoestima, parecem alimentar problemas na mente e no corpo. Por vezes, o aspecto pouco receptivo de seus semblantes, a saúde abalada e a pouca disposição, podem repelir contextos prósperos de socialização, atrações físicas ou até mesmo criar um efeito bola-de-neve onde a condição em que se está baixa a autoestima e as faz deteriorar ainda mais a mente e o corpo, chegando em resultados que vão criar mais descontentamento, repetidamente.

Eu tenho 35 anos e adoraria chegar aos 70 anos com o vigor de algumas dessas pessoas que eu conheci. As pessoas ao meu redor comentam, às vezes, que eu pareço ser mais jovem do que a idade aponta. Eu não sei endossar ou negar isso, pois, como eu disse, tenho dificuldade de diferenciar idades e aparências. Conheci pessoas com a minha idade que tinham aspectos melhores, piores, iguais. Eu não sei como é que deveria ser uma pessoa de 35 anos. Me olho no espelho e fico com a impressão de que o tempo não está passando. A única coisa que me mostra o passar do tempo são os pelos brancos na barba, o cruzar dos meses no calendário e o acúmulo de memórias de situações vividas. Não sei se estou envelhecendo bem do ponto de vista físico, mas sinto que vivi bem a minha vida, fazendo sempre coisas incríveis, dando o meu melhor em tudo. Apesar de eu ter boa autoestima, não sirvo como parâmetro sobre o impacto disso na minha saúde física e mental, pois tive um histórico longo de depressão e deterioração da saúde com comida, álcool e sedentarismo. Felizmente tudo isso ficou pra trás há um bom tempo e é perceptível o impacto dessas mudanças.

Há uma obviedade que precisa ser dita: o bem-estar gera bem-estar e como diz a frase célebre, “mente sã, corpo são.”. Ter a mente jovem ajuda demais. O corpo agradece por cada risada sincera e profunda que você deu e por cada estresse que você evitou, quando viveu apontado pra outras direções melhores e mais úteis.

Rodrigo Meyer

A diferença entre amor-próprio e arrogância.

De forma geral, predomina no mundo pessoas sem amor-próprio e muitas delas arrogantes. Mas qual a diferença entre amor-próprio e arrogância?

Muita gente parece confundir um conceito com outro, por não entender de nenhum dos dois. A verdade é que estes conceitos não possuem nada de similar. O amor-próprio pode ser definido como aquilo que nos faz gostar de nós mesmos, preservar nossos valores, nosso bem-estar e nossa expressão, por exemplo. Ao desenvolvermos amor-próprio, estamos simplesmente cuidando de nós mesmos e dando a devida importância a nossa pessoa. Costumo dizer que quem tem amor-próprio se dá coisas boas. Já a arrogância, é praticamente o oposto disso, uma vez que o arrogante não se dá nada de saudável, por exemplo. O arrogante é aquele que diminui os outros pra exaltar-se como superior, geralmente através de alguma coisa que possua, como, por exemplo, um bem material, uma profissão, um cargo, um conhecimento, etc,  Logo de cara dá pra ver que o arrogante nada tem a ver com uma pessoa que tem amor-próprio.

É comum ver as pessoas dizendo que determinado indivíduo parece arrogante, mas, frequentemente, atribuem isso de maneira equivocada, pois, veem como exagerado e incômodo uma expressão segura de alguém que tem amor-próprio, por exemplo. Se alguém se recusa a aceitar lixo, por exemplo, não significa que é arrogante, apenas que tem amor-próprio pra preferir se dar coisas boas ao invés de lixo. Aquilo que recusamos e aceitamos pode dizer muito sobre quem somos e como estamos em termos de segurança, amor-próprio e outras questões. As pessoas que julgam como arrogante uma pessoa que recusou lixo, talvez pensem assim por elas mesmas aceitarem aquele lixo, justamente por não terem elas mesmas amor-próprio. Então, claro, o contraste entre as coisas aceitáveis vai diferenciar muito estes dois tipos de pessoas e elas não participarão das mesmas decisões ou situações, provavelmente.

Por isso, é importante que as pessoas todas sempre observem quão distorcido pode estar o parâmetro pra medir a realidade. Se uma pessoa não tiver amor-próprio, por exemplo, ela não vai conseguir enxergar de forma realista seus potenciais, suas qualidades, etc. Vai tender a se depreciar sempre, já que não tem apreço por si mesmo. E essa distorção de parâmetros também pode ocorrer ao observar outras pessoas, pois pode acabar na tendência de querer que os outros desçam até seu patamar ao invés de ela mesma subir.

Ao desenvolver amor-próprio, evitamos tudo que nos causa desconforto, prejuízo, reduções, limitações, etc. Em um mundo onde muita gente tenta nos oprimir, nos reduzir e nos colocar em classificações das quais não nos cabe, se não tivermos amor-próprio, podemos acabar aceitando essas situações que nos dão e isso pode se transformar numa terrível crença e um enorme buraco de outras situações piores. Quando a pessoa deixa de se amar, começa a pensar e fazer coisas que lhe prejudicam tão ou mais do que aquelas que foram feitas por pessoas de fora.

É comum ver pessoas com Complexo de Inferioridade, sentirem-se ruins, incapazes, feias, pouco interessantes, não merecedoras de coisas boas. E consciente ou inconscientemente, começam a se contentar com coisas péssimas. Frequentemente aceitam companhias ruins para relacionamentos, por acharem que não conseguirão nada melhor ou que sequer merecem. Às vezes largam os estudos ou pouco investem em suas carreiras profissionais e outras conquistas na vida. Pessoas que acreditam que não podem ou não merecem ter coisas boas ou que simplesmente se depreciam a ponto de ignorarem fatos, começam a sofrer antecipadamente por tudo e entram em uma espiral de prejuízos.

Com o amor-próprio, tem-se a decisão de endossar a realidade e observar tudo que há de interessante no seu jeito de ser, nas suas características, suas habilidades, etc. O amor-próprio depende de uma segurança adquirida sobre sua própria pessoa. Às vezes as palavras de um parente, um professor, um amigo ou companheiro que você confiava ou admirava pode acabar superestimada como se fosse uma grande verdade, sem a devida reflexão ou comparação com a realidade. Claro que também pode ocorrer o inverso, de alguém receber elogios exagerados e se iludir. De toda forma devemos sempre nos pautar em reflexão e realidade, porque senão estaremos distorcendo nossos parâmetros e isso não nos ajuda a definir um modo seguro pra lidar com nós mesmos e com outras pessoas e situações.

Pode parecer estranho, mas muita gente com baixa autoestima pode acabar se tornando arrogante, mostrando justamente o quão longe a arrogância está do amor-próprio. Nesses casos, são pessoas que ao se perceberem inferiores, tentam, de forma doentia, compensar essa frustração, se impondo aos outros de forma desorganizada, opressiva, agressiva, deseducada, etc. É comum vermos pessoas fracas de cabeça, inseguras sobre si mesmas, se valerem da postura chamada “carteirada” que basicamente é o artifício do apelo para se anunciar como poderosa ou superior, por conta de um título, um diploma, uma profissão, um sobrenome ou algo do tipo. Quando alguém lhe perguntar “você sabe com quem está falando?”, responda “Sim, com alguém inseguro que precisa dar carteirada pra se sentir melhor do que é.”.

Os arrogantes estão aos montes pelo mundo e precisamos saber lidar com eles. Já as pessoas com amor-próprio estão faltando. Precisamos estimular as pessoas a fazerem a natural mudança de visão e conduta sobre a realidade delas. Muita gente não sabe bem porque não tem amor-próprio e às vezes sequer sabe que não tem. É preciso orientar as pessoas e indicar algumas opções sobre como elas podem rever a si mesmas, apenas arrumando o parâmetro distorcido. Um banho de realidade pode ajudar muita gente a acordar de ilusões.

Muita gente perde o amor-próprio porque mede seu valor com base no que os outros dizem ou numa lista de conquistas ou perdas que eventualmente teve. Não deve ser assim. O valor de uma pessoa não é medido pelo que ela conquista na vida. Tá cheio de gente tóxica no mundo que conquistou bens materiais, empregos bem remunerados, uma suposta família, viagens, suposta socialização, etc. Mas será que essas pessoas são pessoas de valor? O que dá valor a alguém não é nada disso. O mundo carece de pessoas excelentes em si, interessantes, capazes, agradáveis, bem-resolvidas e vitoriosas. Nada impede, porém, que você tenta buscar conquistas profissionais ou estudo ao mesmo tempo em que não veja isso como sinônimo do seu valor como pessoa, afinal como são coisas diferentes, podem ser obtidas simultaneamente se você quiser.

Se a pessoa tiver algum trauma de infância ou alguma situação prévia que a faz distorcer sua valorização, seja pra mais ou pra menos, é preciso resolver isso antes, senão não conseguirá mensurar com clareza qual o nível de transformação que precisa ofertar pra si mesmo em termos de qualidade, realidade, bem-estar, mérito, etc. Muita gente pode conseguir essa solução ajudando a si mesmo, o que é, inclusive, um dos mais importantes atos de amor-próprio, pois é começando a se ajudar que você mostra pra si mesmo que você é importante pra si, que você tem algum amor-próprio. Mas não menos importante, é a possibilidade de buscar ajuda externa, como um amigo, um psicólogo, um terapeuta ou qualquer pessoa que você decida como útil ou importante na hora de você buscar uma análise e mudança de suas condições, visões, etc. Independente do método que escolher, busque sempre se lapidar pra ter o melhor que puder pra si mesmo. Ao reconhecer o benefício que é sentir-se bem consigo mesmo, confiante e apreciador da liberdade, verá como isso também é importante pra todas as pessoas do mundo e começará a agir de forma a incentivar isso nas pessoas todas. É isso que garante que sociedades progridam de forma harmônica ao invés de entrarem em conflito.

Indivíduos que escolhem o amor-próprio, almejam inclusive se dar o benefício de um coletivo social que lhes faça sentido, lhes faça bem, lhe permita viver em paz, em harmonia com os demais. É quando se nota que depois de transbordar amor-próprio, estamos prontos pra dar amor pra outras pessoas. Pra mudar o mundo, cada indivíduo precisa mudar a si mesmo. A sociedade é apenas a soma de todas os indivíduos. Faça o seu melhor pra você e acabará fazendo muita coisa boa também para os outros.

Rodrigo Meyer

Voltas e recomeços.

Depois de dias sem postar, estou de volta com este texto. Aproveito o contexto pra discutir o próprio tema ‘recomeço’ e deixar algumas reflexões.

Por mais que desejemos uniformidade ou constância no nosso bem-estar, a maioria de nós passará por momentos difíceis e por diversos imprevistos. Mas nem todo imprevisto é ruim em si. A vida costuma se apresentar de forma inconstante, porque as pessoas são inconstantes e a própria Natureza é pouco dominada diante de sua grandeza e complexidade. O mais sensato é nos lapidarmos pra adquirir alguma habilidade de resiliência, como uma árvore que retorna para sua posição original depois de ser envergada pelo vento forte.

Por vezes, não é fácil entender e aceitar as coisas como elas são ou parecem ser. Temos sempre que estar um passo adiante da nossa zona de conforto, pois mesmo quando saímos de uma zona de conforto inicial, expandimos essa zona e a cada vez precisamos dar um novo passo pra não ficarmos acomodados naquilo que conquistamos. Eu tenho sentido que fiz grandes progressos por me colocar sempre em desafios. A vida se torna mais difícil quando queremos algo, porém se desistirmos,  a aparente facilidade disso nos mostra que apenas abdicamos de tentar e que não tentar exige nenhum esforço.

Encarei muitas situações incômodas desde sempre, mas sempre estive observando a realidade e a mim mesmo para poder compreender minhas opções. Quanto mais conhecemos o funcionamento das coisas, mais fácil se torna perceber onde e como podemos contornar os problemas. Alguns veem isso como criatividade. Eu acho que é apenas o curso natural das coisas quando se busca saídas. Existe uma frase que diz que ‘a necessidade é a mãe da invenção’.

Tem chegado a hora de eu me reinventar. Estou em busca de recomeços porque preciso deles. Recomeçar pode ser perturbador, porque somos levados de volta ao zero e temos que construir tudo novamente. Mas, por outro lado, temos conosco a experiência e a sabedoria que adquirimos em nossas outras empreitadas. Cada fase da minha vida eu dediquei esforço concentrado em certas atividades e áreas de estudo e tive a oportunidade de mergulhar em muita prática. Eu adquiri o tal de know-how que é tão importante em qualquer setor da vida.

Hoje, tentando maneiras novas de chegar na estabilidade e bem-estar, começo a olhar ao meu redor e a descobrir quais outras coisas estão ao meu alcance. Que outras ferramentas ou maneiras diferentes de usá-las poderão fazer a diferença pra mim? Fico imaginando as pessoas perseguindo sonhos alheios que não as pertencem e vejo muita gente dedicar esforço, tempo e até dinheiro em contextos que são natimortos. Aquilo que as pessoas descobrem tardiamente tende a ser algo obsoleto, pois tudo hoje em dia é muito passageiro. Vejo as pessoas se inspirando em ideias que já não podem mais prosperar ou que já estão saturadas de gente tentando.

Pensar o novo e estar à frente é sair dessa bolha de imitação das massas. Por mais que alguém esteja fazendo sucesso em algo, não significa que imitá-los será garantia de sucesso pra você também. Algumas pessoas iniciaram suas empreitadas em outros tempos, quando aquilo ainda fazia sentido ou quando aquilo ainda era novo o suficiente pra que houvesse pouca gente fazendo e muita gente interessada na novidade. E, atualmente, em um momento em que isso já atingiu um ápice de possibilidades, o futuro já está em outras coisas.

Você pode arriscar a sorte e tentar fazer mais do mesmo. Mas é muito mais garantido investir naquilo que será a próxima realidade, o próximo boom. Mas, não é tão fácil descobrir em que direção isso está. Não sabemos ao certo como será o futuro e nem como nós conseguiremos ou não nos posicionar nestas novas realidades. Tudo que podemos fazer é estarmos flexíveis, de mente aberta e sempre engajados em fazer cada vez mais coisas, arriscar o incerto, tentar o diferente, se permitir ao novo. Mudar pode nos tirar da zona de conforto, mas também pode ser a nossa única chance de conquistarmos algum outro conforto menos ilusório.

A maioria das pessoas não lida bem com a realidade. Elas não aceitam bem o estado em que estão, mas se esquecem que grande parte dessa realidade, às vezes, é fruto das próprias escolhas dessas pessoas. Quando alguém recusa insistentemente a olhar pra verdade diante do espelho e lapidar-se ao necessário, não há como esperar resultados positivos e grandes elogios adiante. Se nada fazem pra se tornarem melhores, como podem querer que o mundo as veja como melhores? Talvez entre eles, numa confusa troca de ilusões, possam brincar de ídolos versus fãs. Mas, fora dessa alucinação coletiva de mal gosto, a verdade é que valem igualmente pouco e vivem igualmente infelizes, sem vida própria e sem motivo válido. São pouco úteis, embora aparentem ser os mais requisitados.

Tão importante quanto saber recomeçar é aceitar com tranquilidade as situações fora do ideal. Não significa se conformar e nem mesmo idealizar isso, mas sim sentir-se bem, apesar disso. Há possibilidade de bem-estar em situações que acharíamos improváveis. Temos que reavaliar nossos padrões, nossas referências e nos colocar com outros olhos e outros sentidos diante das coisas. Algo parecido com aquele ditado que diz que ‘quando a vida te dá limões, faça uma limonada’.

Para seguir adiante com ou sem recomeços, é preciso entender quem se é, como o mundo funciona e quais seus limites e objetivos reais. Faça uma lista, mesmo que mental, de prioridades e estabeleça quais delas são mutáveis. Às vezes o que achamos ser imprescindível para o bem-estar hoje, pode ser descoberto como inútil ou até mesmo prejudicial.

Se não tivermos olhos sinceros pra dentro de nós mesmos e para a sociedade ao nosso entorno, seremos sempre a marionete manipulada que caminha pro abismo com um sorriso no rosto, acreditando ter sido levada ao ápice. Se você não entende bem porque está subindo, você não está no controle e talvez só esteja sendo erguido para um salto livre no abismo. O mesmo pode ser dito pra quem não sabe porque está caindo. Há uma frase que diz que ‘a realidade é do tamanho da sua mente’.

“Errar é humano, repetir o erro é burrice.”

Rodrigo Meyer

Porque corto meu próprio cabelo?

Esse não será um texto destoante dos demais conteúdos meus, pois não vim trazer nenhum tutorial de beleza ou dicas do tipo. Vim contar um pouco sobre relações sociais e o descontentamento com certas tradições que pouca gente questiona.

Eu nunca tive o hábito de ir ao cabeleireiro. Quando mais novo, esses momentos eram bem fora da rotina de outros parentes ao redor. Eu simplesmente não me importava muito com isso e estava confortável com a ideia de que cabelos crescem e mudam. Lembro de situações da infância e adolescência onde cortei meu cabelo sem nenhum cuidado específico e me senti bem com o resultado. Isso não quer dizer que eu tinha algum talento pra ser cabeleireiro. Muito pelo contrário. Eu simplesmente não tinha disposição alguma pra todo aquele elaborado processo de moldar um cabelo ou penteado e encontrava na tesoura doméstica a maneira mais breve e simples de agir sobre o assunto.

Depois de crescido, raramente estive num salão pra cortar o cabelo, exceto se precisasse, por exemplo, raspar toda cabeça com uma daquelas máquinas elétricas. Houve um tempo onde manter os cabelos raspados era uma forma de liberdade pra mim, pois me irritava com os cabelos caindo ao olhos. Ainda hoje isso me incomoda e soluciono com um elástico. Já tive cabelos longos até o umbigo, mas o calor me venceu e eu acabei desistindo. Embora fosse libertador não ter que cortar o cabelo nunca, o cabelo longo me fazia passar por irritabilidades no vento, com cabelos voando pela minha cara. Me cansava da aparência dos cabelos presos e, por fim, acabei cortando pra me livrar de tudo isso. Atualmente tenho os cabelos acima dos ombros.

Diferente do que muita gente possa imaginar, cortar os próprios cabelos não é nenhum passo em direção ao caos e não significa que eles ficarão feios. Além dos padrões de beleza serem relativos, é importante destacar a principal característica de um cabelo cortado de maneira informal por você mesmo: eles ficam com aspecto natural como se estivessem um pouco crescidos e revirados.

Quando você corta seu cabelo com um profissional, geralmente ele vai moldar seu cabelo de tal maneira que tudo ali vai parecer um desenho geométrico. Você entra natural e sai meio robotizado. Há estética nisso também, mas não é o que reflete minha personalidade e estilo de vida. Citar famosos como referência seria, ao mesmo tempo, pretensioso e contraditório, pois o estilo deixado aos meus cabelos são bem mais reflexo de um acaso e boemia do que qualquer busca de referência. Talvez no inconsciente isso tenha alguma passagem por certos valores e associações de imagem, mas pra mim, ao dia-a-dia, apenas deixo meus atos e realidades internas se destacarem por cima dessa carcaça.

Somos um mundo abarrotado de gente que se enforca na busca obstinada por padrões estéticos, beleza e padrões sociais. Pra mim, tudo isso me embrulha o estômago. E quando foco meu pensamento na beleza, ironicamente, quase nada do que vejo ao redor se enquadra no que eu julgo belo.  As pessoas se tornaram todas iguais e a personalidade se foi. Por onde eu olho, as pessoas tem o mesmíssimo corte de cabelo, com os mesmos milímetros de dimensão de suas franjas e topetes. Padronizaram as sobrancelhas de tal maneira que, alguns chegam a tatuar uma forma definitiva na região. As pessoas estão se robotizando e se enquadrando em um padrão de estética que não diz nada sobre elas, exceto sobre suas fraquezas diante da padronagem social.

Pra mim, não cortar os cabelos ou cortá-los somente em casa de maneira completamente improvisada é a certeza de que minha essência estará lá, apesar da tesoura. Ao não controlar demasiadamente o que a natureza deixou de marca em mim e apenas moldá-la conforme minha personalidade, é a garantia de me sentir enquadrado no meu próprio universo de satisfação e expressão. É por meio das minhas características únicas que eu serei visto como eu e não como mais um entre tantos outros humanos produzidos em série.

Quando as pessoas tem pouco amor-próprio, elas dão muito mais valor ao externo do que a elas mesmas. Quando isso ocorre, os padrões sociais de estética e conduta tendem a prevalecer para essas pessoas e elas encontram até mesmo um sentimento de pertença coletiva, quando estão inclusas nesses moldes. A mesmice as faz sentir que elas estão finalmente aceitas e em conformidade com o que a sociedade espera delas. Possuem pouca autonomia pra fazer a vida acontecer conforme suas próprias vontades, pois não prezam mais pelos seus interesses. A falta de amor-próprio varre pra longe essa prioridade em si mesmas.

Existem dois motivos para a admiração de quem tem estilo próprio e personalidade. Pode ocorrer por concordância e valorização disso como ideal em cada indivíduo ou pode ocorrer como uma contemplação ao inalcançável, como se viver pautado em personalidade própria fosse algo que a pessoa não tem capacidade ou alcance pra exercer. Eu quando vejo alguém único, me sinto presenteado com arte. A personalidade de alguém que não se dobra a padrões inúteis, me deixa encantado por essa pessoa. Já quando olho alguém que parece ter sido produzido em série, me sinto repelido e decepcionado. Vem em mim uma certeza de que ali está uma pessoa vazia, sem vontade própria, sem conteúdo, sem amor-próprio, sem experiência na vida, sem vivências consistentes, sem grandes prazeres, sem segurança, sem valores, ou seja, sem personalidade.

Não me considero o ápice de originalidade e nem tenho uma personalidade tão profunda como já vi em diversas pessoas. Mas não tomo isso como objetivo ou competição. Tudo que sou, está sendo quase que por acaso. Não interfiro muito em quem eu sou, exceto se for pra me reaproximar de minha própria naturalidade. Tento me tornar mais próximo de mim mesmo a ponto de minha expressão ser automática. Gente que se planeja demais para existir, acaba se esquecendo de quem realmente é.

Sou um grande apreciador de culturas, subculturas, estilos e estéticas, mas desprezo de forma ferrenha a repetição pelo padrão. Me cansa chegar em um bar ou casa noturna e me sentir diante de uma prateleira de supermercado onde tem uma fileira de 100 produtos idênticos lado a lado. Talvez isso não seja tão óbvio quando olhamos as pessoas variando um detalhe ou outro, mas pare pra reparar que, ao longo de uma semana ou mês, basicamente essas pessoas estão rodando em torno de um tema central, uma mesma realidade, com seus mesmos tons de roupa, o mesmo corte de camiseta, mesmo formato de barba, de óculos, de sapato, etc.

Por onde olho, só vejo pessoas que sucumbiram a produtos de massa que, pra viabilizar a produção em série, instituem padrões de consumo de tempos em tempos pra que as pessoas, de forma massiva, absorvam toda aquela produção barata e mecanizada. As pessoas já não definem uma estampa própria para suas camisetas e, muitas vezes, não conseguem sequer se verem livres de uma imensa propaganda da própria marca de suas roupas, estampadas por quase toda área da peça. As pessoas já não vestem uma roupa pelo seu estilo, mas apenas pela marca que possa ser exibida nela para que toda sociedade veja. Não é necessário nem útil citar quais marcas figuram nesses padrões, pois é tão recorrente em nossas sociedades que certamente todos já sabem. Eu é que não preciso dar visibilidade desnecessária pra essas bobagens.

Eu teria vergonha de pagar caro pra ser um outdoor de propaganda gratuita pra qualquer empresa que fosse. Muitos clientes se tornaram tão escravos que aplaudem as próprias empresas que os explora. São explorados na venda, na propaganda, na inserção do padrão social de estética e consumo e, por fim, são explorados até mesmo quando são colocados pra prestar propaganda gratuita a estas mesmas empresas. Quando alguém se apaixona pelo seu próprio opressor, dá-se o nome de Síndrome de Estocolmo. Se for o seu caso, busque ajuda.

Rodrigo Meyer

O que eu gosto nas pessoas mais velhas.

Eu sempre tive uma certa identificação maior com quem tivesse mais idade que eu. Me dei conta disso logo no primário, quando acabei dividindo a escola com outras séries. Tenho lembranças de uma moça que, durante nosso horário de aula, pintava um mural dentro da classe. Enquanto nossa classe estava sendo alfabetizada, ela provavelmente já estava nos últimos anos de escola. Eu não sei bem no que consistia minha admiração, mas pelo pouco que entedia na época, me encantava saber que ela vivia outras realidades, trabalhava, entendia mais da vida. Talvez fosse alguma coisa associada com o conceito de ‘sapiosexual’, que é aquele que, resumindo, tem atração pelo intelecto alheio.

Como muita gente, tive também os chamados ‘amores platônicos’, por algumas professoras e acredito que isso seja algo mais comum entre todas as pessoas, principalmente nessas fases da vida onde estamos nos descobrindo. Comigo, porém, a admiração se estendia além dessa questão e eu me via sempre atrás de companhia de pessoas mais velhas. Se fossem pessoas de idade próxima ou até um pouco abaixo, eu preferia dividir meu tempo com quem se mostrasse peculiar, inteligente ou com um mínimo de mistério pra ser desvendado.

Não sei se foi coincidência dos ambientes que eu estive, mas quando eu olhava ao redor na classe, entre os parentes e pela vizinhança, me sentia em desprazer, com tanta gente perdida, com um pensamento curto, desinteressadas e desinteressantes. Embora eu não tivesse nenhuma sintonia com o sistema de ensino no Brasil em nenhuma fase, eu via pessoas que, embora tivessem algum potencial, não desviavam daquela bobagem toda e, talvez por isso mesmo, se afogavam no próprio sistema, sem o menor interesse de ser ou não ser. Pareciam totalmente apáticos com a certeza de que iam fracassar de todo jeito e só estavam cumprindo uma burocracia da qual não eram inteligentes sequer pra burlar.

Eu optei por seguir a contramão e ao invés de me importar em viver o sistema de ensino, simplesmente ignorei tudo isso e vivi a minha realidade. De início foi complicado, afinal, entregar provas em branco antes mesmo de todo mundo começar, era algo inesperado aos professores que ainda não me entendiam. Mas eu tive o prazer de dividir o período escolar com alguns professores(as) que foram cruciais pra eu ter seguido adiante. Foram pessoas que me enxergaram e me entenderam. Em certo momento eu é que tinha vencido e o sistema tinha desistido de tentar me endireitar à força. Eu simplesmente não me dobrava e acabei conquistando a amizade de vários professores, diretores e pessoas do meio administrativo de escolas e cursos, o que me possibilitou trocar a inutilidade por conversas muito mais engrandecedoras, momentos muito mais interessantes, em um outro patamar. Todo esse contexto me garantiu um caminho alternativo no sistema de ensino e eu segui o mesmo roteiro do pré-primário até o final da faculdade.

Talvez tenha sido essa necessidade de burlar o sistema de ensino que tenha me despertado admiração pelas pessoas mais velhas, nessa associação com os professores. Gostava de poder conversar com quem tivesse à altura pra dividir histórias e assuntos que a maioria das pessoas da minha idade não se interessavam. Acredito que algumas situações da minha vida tenham me tornado precoce e que isso tenha gerado essa busca e admiração pelo mundo acima. Pra mim, contudo, parecia natural e lógico, pois tudo isso estava suprindo uma demanda de conhecimento e socialização que só me trazia benefícios.

Não posso cair no erro, porém, de sugerir que as pessoas tentem imitar isso de forma artificial. Não é o caso de você tentar se enquadrar no mundo adulto antes do seu momento vir automaticamente. Existem muitas portas abertas, mas também nem todas as portas trazem aquilo que esperamos. Por vezes, quando somos acolhidos numa relação por alguém mais velho que nós, ocorre um certo domínio, consciente ou não, da pessoa que tem mais vivência. E isso pode ser perigoso se não percebemos esse “lado B” do disco. Também é preciso dizer que, inteligência ou vivência não é garantia de maturidade e que em todo momento da vida, estamos lapidando falhas, independente de como seja nossa precocidade.

Comigo, por acaso ou não, tive bons contatos com a maioria das pessoas. E aprendi muita coisa dividindo meu tempo com elas. Tracei muitas conversas, amizades, viagens, envolvimentos românticos e até um casamento. Não tenho como negar a importância de cada dia vivido ao lado de todas essas pessoas. Isso não significa, contudo, que eu não tenha dividido bons momentos ao lado de pessoas de igual ou menor idade que a minha. Tive e aprendi diversas coisas, mas, ao menos pro meu caso, esses dois grupos eram bem diferentes entre si. Foi então que nesses últimos tempos eu estava aqui tentando pensar em coisas específicas das quais eu gosto nas pessoas mais velhas e que ocorrem tão naturalmente ao longo do dia-a-dia que se não parasse pra pensar, passaria desapercebido do meu consciente.

Certa vez me propus a reflexão sobre o tema. Será que a admiração por pessoas mais velhas era, de alguma forma, um prazer pelo inalcançável? Seria uma busca pelo futuro? Seria uma tentativa de compensação pro nível de intelecto? Será que haveria uma busca pela relação de poder dos mais velhos sobre mim? Será que éramos uma espécie de troféu um para o outro? A conclusão que cheguei foi que, devido a diversidade de tipos de pessoas que eu conheci, de todas as idades, o mais provável é que eu estivesse apenas tentando me encontrar nessas outras pessoas. E talvez, durante essa jornada eu tivesse tido mais identificação com umas do que outras, seja por coincidência ou não, seja pela idade ou não. É possível sim, que o intelecto, a experiência de vida e conteúdo, das pessoas mais velhas, tenham pesado fortemente na equação, uma vez que há mais fatores pra se descobrir e comparar, justamente porque essas pessoas desenvolveram a vida por mais tempo, em mais setores, mais momentos, com maior profundidade e diversidade.

Mas é importante voltar a destacar que isso não necessariamente anula a admiração por pessoas mais jovens e a satisfação de dividir momentos com elas. Tudo depende de como cada pessoa é. Tanto é verdade que eu mesmo fui alguém mais jovem pra todas essas pessoas mais velhas que conheci. Então, fica claro que a importância se resume na qualidade dos momentos que dividimos e no potencial pessoal de cada indivíduo. O que está por trás de tudo isso é, simplesmente, a perspicácia da mente, a soltura do indivíduo diante da diversidade e a flexibilização de si mesmo pra se ajustar a outros universos que sintonizem com seu próprio. Precisamos, antes de tudo, nos descobrir e saber pra onde queremos ir, com quem queremos estar.

Eu passei minha vida buscando pessoas incomuns, com personalidade, que tinham a perspicácia de ousar com propriedade, de trazer ao mundo mistério e encantamento pelas formas ou motivos que, aos olhos das pessoas comuns, parecessem inusitados ou impensáveis. Estive sempre em busca de gente que vivenciasse o invisível ao meu lado, que entendesse meus pensamentos quando eu estivesse calado. Quis dividir momentos com quem trocasse olhares, entendesse e aceitasse uma tonelada de coisas sem que precisassem ser explicadas. Eu queria vivenciar o que só o ser humano podia fazer e isso não se encontra em pessoas rasas. Eu não queria tropeçar em vazios ou em pessoas entupidas de cimento. Eu queria alguém que, quando eu apontasse pras estrelas, não olhasse pro meu dedo. Queria alguém que fosse capaz de conversar sobre todo e qualquer assunto possível e imaginável no Universo e além. Eu não queria portas fechadas, queria janelas escancaradas e naves prontas pra rodar em alta velocidade. Eu queria ser surpreendido, ser encontrado e encontrar.

Rodrigo Meyer

O círculo vicioso da autoestima.

A autoestima é a valorização que damos a nós mesmos. É a nossa percepção de que somos alguém bacana, útil, interessante ou importante. Nos sentir bem com nós mesmos é o resultado de ter amor-próprio, é o gosto de ser quem somos e de ter confiança nos nossos próprios potenciais e características. E quando não nos enxergamos assim, é porque temos baixa autoestima.

Geralmente a baixa autoestima é uma visão distorcida da própria realidade, fruto de complexos e traumas, mas, às vezes, pode ser uma análise realista sobre nossas falhas e incapacidades. Porém, independente de qual seja o caso, podemos sempre fazer algo à respeito. Se você, por exemplo, tem potencial, mas não acredita ter, devido a influência de complexos e traumas, precisa buscar reconectar-se com a realidade, superando essas interferências que distorceram sua visão de si mesmo ou da vida. Já para os que de fato estão em defasagem de potencial, devem buscar contornar a situação de forma a tirar o melhor proveito de suas outras características ou até mesmo aprimorar os pontos fracos pra que se tornem pontos mais fortes.

Uma frase diz que se você avaliar um peixe pela capacidade de subir em árvore, acreditará que ele não tem potencial. Cada pessoa tem características próprias e um histórico de vida único e, por isso, cada pessoa precisa descobrir quais são seus talentos pra se encontrar no que faz. Se você tiver baixa autoestima e permanecer em postura pessimista sobre seus potenciais, acabará como o peixe que, por não subir em árvores, sente-se incapaz, sem valor. Se você descobrir que nasceu pra ser peixe, nade, pois provavelmente nunca subirá em árvores, assim como o macaco nunca viverá no fundo do mar.

Se você luta contra o fluxo natural das coisas, você acaba tendo posturas que não te favorecem na vida. Suas oportunidades ficam escassas quando você mesmo cria situações piores em torno da sua baixa autoestima. É o caso, por exemplo, de quando uma pessoa não se sente interessante o suficiente pra despertar um relacionamento com outra pessoa e, por isso, se sujeita a qualquer coisa pra obter uma companhia. Isso faz com que ela mesma crie um efeito bola-de-neve no problema, pois a postura que tem diante do tema, faz ela ficar ainda menos interessante pra disputar os relacionamentos sonhados. Com isso, a autoestima fica ainda mais baixa e assim a pessoa vai descendo rumo ao precipício emocional. Sinal de que não funciona e a estratégia deve ser invertida.

Mais do que mera poesia, acreditar em si mesmo e se valorizar é um ingrediente indispensável na receita da vida. Se você não gosta de quem você é, do que faz ou como faz, acaba sentindo-se inseguro, inapto ou desmerecedor das coisas e, por isso, deixa de buscar, de competir, de se apresentar com orgulho e vitalidade. Nas profissões, por exemplo, quando alguém não se sente bom o suficiente, tende a recusar diversas vagas, simplesmente por achar que não está à altura do que aquilo exige. Tudo bem recusar um trabalho do qual você de fato não domina, mas não está nada bem recusar trabalhos apenas por achar que não é capaz, mesmo tendo os conhecimentos e meios pra aprender ou desenvolver algo.

Eis a importância de sermos realistas. Raras vezes alguém de fora virá nos dar um feedback sobre nossas características, potenciais e talentos. Temos que tentar ver em nós mesmos com sinceridade aquilo que conseguimos fazer bem e o que não conseguimos. Podemos nos aprimorar nas falhas e nos inspirar nos acertos. O que não podemos é desistir de buscar nosso próprio sucesso. Temos que nos perceber como pessoas capazes de realizar coisas que só nós podemos fazer ou de chegarmos um pouco mais longe do que pensávamos estar predestinados pelas nossas limitações. A vida consiste em superar desafios, desfrutar do tempo com disposição pra fazer, ser e ter. Precisamos transformar os pensamentos e nos entender cada vez mais. Portanto, lembre-se que varrer os problemas pra debaixo do tapete não vai ajudar.

Inúmeros são os casos de pessoas que deixam de cursar um idioma novo por terem complexos sobre a própria inteligência ou cultura. Por vezes, são pessoas que, acostumadas com a visão pessimista e equivocada sobre si mesmas, não se sentem motivadas a se inscrever num curso, porque pensam que não darão conta, que passarão vergonha ou que fracassarão. Por anteciparem uma mentira, acabam não abrindo espaço para a verdade. Elas não se permitem descobrir o quão longe podem ir, pois sequer acreditam em si mesmas pra chegar a tentar. Essa espiral descendente da realidade é gerenciada por uma soma de pensamentos e decisões.

Quantas vezes vi pessoas se submeterem a trabalhos mal remunerados, apenas por acreditarem que não tinham as capacidades necessárias pra obter nada de maior valor. Acostumam-se a ver o mundo de forma limitada, onde somente alguns tipos de profissões ou pessoas é que ganham dinheiro e, por não se verem como iguais, não disputam essas oportunidades pra sua própria vida. Abrem mão do sucesso, da saúde, de bons relacionamentos, de bons momentos, de boas metas de estudo e trabalho, de certos temas ou realidades. Elas mesmas acabam se afastando das coisas que gostariam de ter e, por isso mesmo, cada vez menos figuram nessas e outras vitórias. Terminam reforçando a ideia de que são incapazes pra tudo isso e, então, é gerado um monstro que cresce infinitamente.

Dessa postura de reforço pejorativo, brotam mais complexos, mais dores, menos motivação, mais casos de depressão, ansiedade, falta de amor-próprio, possibilidade pra escapes como vícios, posturas desregradas, acobertamento de falácias, adesão à grupos ou ideologias destoantes da realidade ou do necessário e um life style que não soma pra encontrar sequer as portas e ferramentas pra sair do abismo em que tais pessoas se colocaram. Se já transcorreu demasiado tempo nessa espiral descendente, fica mais difícil sair dela. Mas isso não é motivo pra desistir da saída. Muito pelo contrário. É exatamente quando descemos demais que precisamos começar a brecar e subir de volta. Não é difícil se transformarmos primeiro a nossa visão de nós mesmos. Da mesma forma que existe o efeito bola-de-neve pra queda, existe para a subida.

Quanto mais estima você tiver por si mesmo, mais aberto estará para as pessoas, a sociedade, os relacionamentos, os trabalhos, os momentos, os estudos, as possibilidades do seu futuro e, assim, sua visão de capacidades e interesses se amplia drasticamente. É quando vemos pessoas se encontrando em algo que antes nem sabiam que podiam desenvolver com grande habilidade. Nascem, então, novos escritores, novos youtubers, novos professores, novos tatuadores, novos poliglotas, viajantes indo morar e trabalhar em outros lugares e culturas. Também é desta mudança de postura que brotam amizades melhores, namoros melhores, parcerias, projetos, oportunidades, vivências e experiências que estavam esperando alguém chegar.

Busque cercar-se de pessoas que te tragam um feedback realista sobre sua personalidade, seus trabalhos, seus hobbies, seus talentos, seus pontos fortes e fracos no modo como se relaciona, como leva seu dia-a-dia, sua saúde física e mental. Dê menos ouvidos à críticas que não trazem verdades nas palavras. Muita gente é pessimista conosco por também terem complexos e, por isso, acabam aconselhando um mar de gente a não sonhar alto, antecipando um cenário de fracasso pra todos como se isso fosse a realidade. Então, antes de aceitar a opinião de alguém, consulte mais pessoas, compare opiniões, observe o tema de forma fria e neutra e descubra se realmente aquelas opiniões todas condizem com a verdade.

Como exemplo pessoal, os momentos que eu mais fracassei na vida foram exatamente aqueles em que eu dei ouvidos pra quem me depreciou. Em vários casos demorei pra perceber que a opinião daquelas pessoas eram geradas com base em preconceito, opressão e ignorância / desconhecimento. Assim, se alguém diz que 2+2=5, é papel de cada pessoa analisar se isso tem algum fundo de verdade e porque alguém chegou a tal conclusão. Não demora muito pra vermos que essa pessoa não sabe do que fala e, propositalmente ou não, está te passando uma impressão falsa sobre a realidade.

Eu tive a oportunidade de me deparar com professores de dois tipos opostos. Um grupo deles me enxergava como alguém sem rumo, sem a concentração necessária, talvez sem futuro algum. Outro grupo de professores, mais esclarecidos, com visão mais realista e complexa sobre as nuances de cada aluno, conseguiam me ver além da média, cheio de potenciais. Porque análises tão distintas? Quem era o problema na equação? A quem eu deveria ter ouvido? Entenda que não é simplesmente acatar a opinião de quem te elogia. Trata-se de buscar a realidade e compará-la com ambos os lados. Às vezes os elogios são bajulações sem base na realidade e não nos ajudarão. Temos que ponderar e nos encontrar de fato diante daqueles sinais que nos dão.

Quando alguém te aponta um caminho de possibilidades pra sua vida, você deve tentar se imaginar neles e ir em busca de tudo que possa te levar até lá. Precisamos, claro, nos esforçar pra aprender o necessário pra converter potencial em algo concreto. Mas, é muito mais fácil esse caminho se tivermos motivação e autoestima. A família, a escola, os amigos, a sociedade em geral e os espaços de trabalho devem promover esse estímulo realista pra que todos nós possamos ser aquilo que podemos. Sou grato a todos que confiaram em mim, me enxergaram e apoiaram pra que eu me tornasse alguém melhor. Aos que desejaram o inverso, por fraqueza ou desconhecimento, só lamento pela situação em que se encontravam ou ainda se encontram com eles mesmos.

Esses dias estava acompanhando um pouco da história profissional de algumas pessoas que estão em destaque no momento pelo setor de criação. É interessante ver que começaram abraçando uma atividade e que logo se descobriram mais felizes realizando outras coisas. Isso é a descoberta dos seus potenciais e a adequação a eles. Desenvolver atividades que exigem mais da sua essência, te coloca em maior sucesso, pois você trabalha melhor, é mais criativo, mais engajado, mais apaixonado e esforçado por tudo aquilo, além de sentir-se mais confiante e capaz em fazer. O prazer em ser e fazer algo está diretamente relacionado à descoberta de seus potenciais.

Mas lembre-se que, embora você tenha algumas características principais, deve desenvolver outras características novas ou aprimorar as coisas das quais não é tão bom. Aliás, sempre recomendo que as pessoas invistam, principalmente, naquilo que não são boas, afinal no que elas já sabem, não precisa de muito esforço. É o caso, por exemplo, de quando alguém se descobre ótimo artista, mas tem dificuldade em se relacionar profissionalmente ou de planejar as finanças do seu possível negócio em torno da arte. Então, cabe ao artista dedicar um esforço maior pra essas defasagens, tornando-se mais completo e, principalmente, viabilizando o seu talento pra sociedade. Às vezes talentos incríveis são desperdiçados porque as pessoas esperam que eles bastem. Não adianta ser ótimo nos artesanatos, por exemplo, se for ruim como vendedor, ruim nas relações humanas ou ruim pra lidar com o planejamento dos custos e preços de suas criações.

Ficarei imensamente feliz de conhecer mais e mais gente por aqui. Pessoas de todos os cantos, inclusive alguns de Portugal e outras regiões fora do Brasil estão dividindo um pouco do tempo e de seus próprios talentos nessa gigante rede de contatos. É gratificante descobrir as profissões e hobbies de cada um, os livros que estão lendo, o que estão escrevendo, por onde mais estão trabalhando e estudando. É assim que acabamos conhecendo opções de realidade que nos motiva a fazer um pouco mais do nosso próprio trabalho ou de abrir novas portas para novas direções e ampliar as perspectivas sobre a vida, sobre nossos potenciais, etc.

Atualmente estou concentrado em eliminar as barreiras, os pesos, as portas fechadas, as falhas de comunicação, as posturas inadequadas, os vícios de pensamento equivocado, entre outras coisas. Buscando sempre ficar no realismo, estou sempre combatendo falácias, desafiando as questões ao colocar tudo a prova. Isso me fez preferir eliminar centenas e centenas de grupos e conteúdos que tomavam meu tempo e não somavam nada de real. Às vezes nosso potencial só não acontece porque não deixamos ele florescer. Precisamos dar tempo pra nós mesmos, pra nossos estudos, nossas atividades, nossos momentos de relacionamento, nossas amizades. Precisamos otimizar nosso dia de forma a termos uma semana melhor, um mês mais diverso, um ano com mais resultados e uma vida mais feliz, numa espiral ascendente. Vamos subir!

Rodrigo Meyer