Prosa | O fracasso nosso de cada dia.

A imagem que ilustra esse texto é fictícia e meramente ilustrativa, marcada com livre para utilização, segundo os filtros de pesquisa de imagem do Google.

Me cobro todos os dias pelas coisas que acredito que deveria estar fazendo e, por algum motivo, não faço. Me apercebo das minhas falhas, das minhas procrastinações e até mesmo da inconsistência daquilo que consigo produzir. Essa cobrança me faz reavaliar toda a minha vida. Tento descobrir se tenho salvação, se tenho algum talento, se tenho a força necessária pra fazer algo relevante. Mas, ao mesmo tempo, lembro que muito disso não depende de mim. Sei que há um mundo lá fora, cujo sistema ainda é baseado na escassez de oportunidades. É tudo uma questão matemática. Dizem que os prejuízos na vida ocorrem apenas porque acreditamos neles. Mas isso que algumas pessoas dizem não se encontra com dados da realidade.

Recentemente, vi uma notícia que, embora absurda, não me surpreendeu. Dizia que uma moça sem nenhum talento estava, de antemão, contratada por uma enorme emissora de televisão. E pra compensar tudo isso, estava recebendo investimento da própria emissora para ter aulas de atuação, fonoaudióloga e um curso de inglês. Para pessoas como essa moça, vencer na vida não depende de talento algum. Basta que seja da vontade dos poderosos cheio de dinheiro que ela seja sua próxima atriz e eles farão tudo acontecer. Os desavisados poderiam dizer que isso é algo bom, afinal, a emissora está investido em seus funcionários. Mas não se trata disso, pois nenhum outro desconhecido nesse mundo, se não estivesse adequado aos padrões sociais e aos interesses de uma mídia burguesa, elitista, racista e golpista, encontraria espaço para ser financiado em sua carreira. Quantos outros, já com plena formação e domínio no campo do teatro e da atuação em geral, não esperariam, simplesmente, por uma contratação? Quantas pessoas não passam a vida à margem de qualquer oportunidade, apenas porque não são enxergadas como possibilidade? É disso que se trata.

Eu, obviamente, pelo nascimento, já sou aprovado em diversos padrões que o Brasil e o mundo favorece. Sou um indivíduo branco, homem, que, bem ou mal, tive acesso à escola e universidade, não sou o alvo prioritário da polícia, nem vivo sob limitações que são impostas essencialmente pelo racismo. Em um mundo em que as pessoas são separadas por tais critérios, é preciso se apresentar para anunciar os privilégios como abertura de qualquer crítica social que se segue. A vida segue difícil para quase todos, mas, obviamente, segue sempre pior para quem já acorda rejeitado pela sociedade por suas características primárias. Somos uma sociedade que não deu, não dá e não dará, as mesmas oportunidades para pessoas das favelas ou periferias, das etnias rejeitadas por racismo, dos gêneros e/ou características inferiorizados pela homofobia, transfobia, machismo, entre outros. Até aqui, nenhuma novidade. Mas, como essas questões prévias eu já abordei em diversos outros textos e mídias, quero hoje fazer algo diferente, pra falar da minha própria categoria, das minhas características, meus cenários e minhas perspectivas.

Assim como muitos, tento vencer na vida, ter um trabalho, uma fonte de renda, me manter estável, com as contas em dia, sem dívidas, com acesso ao aprendizado, uma internet que preste, os remédios e tratamentos para recuperar meu corpo e minha mente dos estragos que a sociedade e eu mesmo causamos ou deixamos acontecer. Vivo em um contexto onde, apesar da infância simples, consegui algum progresso ou, pelo menos, uma estagnação um pouco mais firme que me impedisse de cair do patamar pelo qual me acostumei. Tive família, tive casa, tive a oportunidade de estudar e tentar trabalhar com aquilo que eu queria. Mesmo que sem incentivo e com o fracasso de várias dessas coisas, ainda posso dizer que foi bom, pois isso é, muitas vezes, bem mais do que possui a maioria da classe trabalhadora. Reconheço, contudo, que essa condição não é segurança, mas, ao contrário, a maior prova de instabilidade. Essa aparente estabilidade é só um degrau ilusório que coloca pessoas pobres um passo mais perto do poder de consumo. Ainda somos explorados, jamais seremos ricos e ainda somos tão dispensáveis quanto qualquer outro que não seja da elite.

Quando falam em classes sociais, costumam citar o exemplo da pirâmide. Mas, eu gosto muito mais de citar um enorme trapézio com uma minúscula esfera em cima, representando a elite, pois a diferença entre o topo do trapézio e sua base é muito mais sutil, tornando-o mais próximo de um retângulo do que de uma pirâmide. Para quem não é realmente muito rico, considere-se dentro do trapézio, mesmo que nas partes mais elevadas. Lembre-se de que a alternância para patamares abaixo é muito mais provável, dado o ângulo de inclinação que se abre em direção à base. Para sair desse trapézio, no entanto, é praticamente impossível. O acesso só acontece no topo e, mesmo assim, o gargalo é bem estreito, filtrando muito poucas pessoas que possam ocupar a pequena esfera da elite. Se tiver dificuldade de visualizar isso em termos práticos, abra seu navegador e comece a procurar por conteúdos no Youtube. Me diga quantos canais você conhece que tenham mais de 20 milhões de inscritos e que possam se dizer realmente ricos? Quantos canais sequer são recomendados pela plataforma, por não terem nem ao menos a quantidade mínima de visualizações? Isso sem falar em quase metade dos brasileiros que sequer tem acesso à internet. Esse é um dos possíveis exemplos do contraste social que vivemos.

A grande maioria da população está de fora das mídias, das boas escolas, das universidades, da televisão, das notícias, dos investimentos, das superproduções, do reconhecimento, dos convites de casamento, das produções culturais, dos grandes shows, das lives famosas no Youtube ou Instagram. Nossas perspectivas de vidas são escassas e podem até se tornarem nulas. Cedo ou tarde, tropeçamos, perdemos nosso emprego, nossos estudos, nossa ilusão de estabilidade, nossos rumos, nossos amigos, nosso mundo, nossa família, nossos sonhos, nossa saúde, nossa condição mental. Ficamos entregues à solidão, ao álcool, às drogas, às noites mal dormidas, ao cansaço, ao descompasso, às incertezas galopantes que amassam nossas histórias e memórias e nos jogam em qualquer abismo. Não nos é dado nenhuma alternativa. Muitos que hoje vivem na rua, já tiveram outra condição de vida. As pessoas não se atentam, não acreditam, não se importam, mas a vida continua a ser a vida e, se não fizermos o bastante, ela nos engole junto com todos ao nosso redor.

Para os que, como eu, vivem de dizer as realidades de um mundo próprio, de um mundo paralelo, de um mundo que, pra muitos, é alternativo, pode ter certeza de que o caminho será sempre amargo. Não haverão créditos, não haverão sorrisos, não haverão apoios ou qualquer mínimo sinal de compromisso com a nossa realidade. Nos querem distantes o máximo de tempo possível. Nossas manias, nossos medos e dramas, são inconvenientes para qualquer um que esteja por cima, em uma situação minimamente melhor. E é triste ver como pisamos uns nos outros, apesar de estarmos tão próximos. Parece mesmo uma briga por espaço, uma disputa para ver quem alcança a melhor parte do lixo. Somos urubus carniceiros, disputando os restos que a elite cuspiu lá de cima. E disputamos com unhas e dentes, com sangue nos olhos, porque tudo nos é tão insuficiente que, qualquer coisa que nos pareça igual ou um pouco mais, nos parece urgente. Mas, caímos todos, por todos os dias, se apedrejarmos as pessoas pensantes, os dignos, os revoltados, os marginalizados, os destoantes. Há quem prefira vestir uma máscara hipócrita e “lamber as bolas” de qualquer famoso que possa lhe abrir as portas, lhe dar uma nota, lhe recomendar, lhe inserir nos seus meios, lhe fazer sentir que é parte do sucesso, mesmo que tudo isso seja falso, só pra impressionar. Essas pessoas, infelizmente, agem assim, para tentar mostrar aos que ficaram pra trás, que agora elas deram certo, subiram na vida e, se continuam pobres, exploradas e oprimidas, pelo menos agora possuem alguma relativa fama, dentro do nicho do nicho do seu submundo na internet, onde elas possam se dizer importantes, mesmo que elas estejam cercadas de gente falsa que fazem o mesmo que elas, pra se sentirem menos merda na vida.

O ser humano parece ter uma tendência em buscar algum reconhecimento e aceitação do coletivo. Talvez isso seja pare do que nos representa enquanto indivíduos sociais, mas sociedades nada mais são que versões maiores das nossas próprias famílias. Não estou dizendo que o sistema imposto na sociedade reflete necessariamente a realidade de cada família, mas que, o caos que a sociedade manifesta é, em última análise, as mazelas não superadas dentro dos grupos familiares menos favoráveis. Muitos de nós foram criados sem muita estrutura, sem afeto, sem presença, sem educação, afogados em preconceitos que desceram até nós de geração em geração, cheio de vícios, medos, traumas, complexos, fraquezas, abusos, incestos, surtos, drogas, loucuras, constantes crises de sentido, de percepção da realidade, de valores, de ética, de construção da nossa suposta maturidade. Quando passamos dos 20 anos, chegamos tropeçando na fase adulta, tento que colocar a nossa consciência inteira em ordem, rever nossa vida toda, encontrar forças em algo e, com muita sorte e escolhas bem feitas, talvez, poderemos ter a chance de nos vermos numa versão nova, reconstruída, mais viva, mais inteligente, mais tranquila e mais esclarecida.

Se habitarmos a fatia dos vitoriosos, nesse sentido, nos veremos livres dos preconceitos que nos plantaram no passado, de todas as dores que nos causaram e das pragas do nosso inconsciente que bloquearam nossa autoestima. Percebe como teremos muito pra superar, vencer, ter sorte e sobreviver? Só seremos alguém minimamente possível de iniciar uma vida digna quando realmente nos dermos conta de que não estivemos e ainda não estamos nessa condição. Haverá de se fazer uma busca, uma reforma, uma demolição e uma reconstrução do nosso próprio ser. Que desperdício de tempo e de energia, alimentar uma sociedade que nos explode de dentro pra fora e depois de fora pra dentro, pra que depois, alguns poucos entre nós, tenha o necessário pra farejar o caminho da reconstrução do que nunca sequer deveria ter sido destruído. Nossas famílias são granadas ativadas, prontas para explodir a qualquer momento. Todos os segundos dessa longa vida, milhões de pessoas serão deformadas e reduzidas à nada, simplesmente porque alguém igualmente destruído resolveu ter a própria família. Ter filhos em um mundo assim despreparado, só não se torna totalmente inaceitável, porque, apesar de todos os danos que são replicados e potencializados, ainda somos todos vítimas de um mesmo sistema que nos joga pra essa condição e depois se recusam a se compadecer dos efeitos nocivos. Tudo que fazem por essa massa de pessoas é colocá-las umas contra as outras e todas sempre debaixo da mesma elite. Assim nos vigiam, nos controlam, nos tratam como números, nos ofendem, nos inferiorizam, nos estupram, nos batem, nos exterminam.

Eu me vejo saturado das minhas quatro décadas de vida. Olho pro meu passado e, por mais que tudo esteja devidamente mastigado, absorvido, compreendido e, de certa forma, superado, não há em mim nenhuma forma de comodismo, de aceitação ou a ilusão de que eu estou completamente renovado. Não estou sequer feliz, nem me sinto digno. Me sinto fracassado, como todos os outros deveriam se sentir, ao verem que estamos todos aqui apenas rastejando por um dia à mais, sem nenhuma certeza de que teremos vontade de ficar pra, quem sabe um dia, voltar a sorrir. Estamos sim em números absurdos de desistentes, alcoólatras, viciados em remédios e outras drogas, afundados em crimes, desempregados, entregues à depressão ou ao suicídio. Se recusam a falar da realidade, apostando simplesmente nos tais “números oficiais” que, todos nós sabemos, não falam absolutamente nada sobre a realidade debaixo deles. Os “números oficiais” escondem, por exemplo, todas as vítimas de violência doméstica que nunca foram contabilizadas em planilha alguma, simplesmente porque nunca chegaram ao ponto da denúncia ou, quando foram denunciadas, as autoridades, simplesmente, não apareceram. Os “números oficiais” não registram todas as pessoas infectadas ou mortas na pandemia, simplesmente porque, além de não haverem testes em massa, a verdade não convém a quem nos explora dentro e fora das mídias. Os “números oficiais” são igualmente inúteis quando tentam falar de casos de depressão, ansiedade e suicídio, em uma população que sequer tem informação ou atendimento pra isso. São milhões de pessoas que, apesar de não pularem de cima de um prédio, se matam por overdose de drogas, por cirrose alcoólica e diversas outras formas de se abreviar a vida. Os números não mostram pessoas que jamais foram entrevistadas, nunca passaram por médicos ou clínicas psiquiátricas, mas que estão deprimidas todos os dias, andando pelas calçadas, sentadas nos bares, deitadas nas beiras das camas, mudando pra outras cidades e desaparecendo de qualquer presunçosa planilha.

É difícil pra muita gente admitir que nada vai bem. Lhes parece muito mais cômodo, talvez, acreditar que seus pequenos ilusórios sucessos são suficientes para justificar toda a sua vida. Se possuem comida e um teto, já nem precisam mais se lembrar das vezes em que ficaram sem saída, sem trabalho, sem dinheiro, sem companhia, sem risada, sem conversa, sem sexo, sem nenhuma alegria. Se não podem estudar, ao menos, podem se gabar de terem sido exploradas em um subemprego que lhes tirou 10 ou mais anos de suas vidas. Se a família é incompleta, desajustada ou sem espaço para poder chamar de família, ignora-se tudo, chora-se no travesseiro, debaixo do chuveiro, em vídeos temporários no Instagram ou Youtube e fazem de conta de que o mundo ainda é apenas um pouco difícil, com seus altos e baixos, mas nada que uma vida inteira jogada no lixo não possa resolver. E, claro, os “números oficiais” também não vão contabilizar quem leva uma vida inteira pra se “suicidar”, pois morte “natural” ou acidental no final da vida, não conta. Para muita gente, está tudo normal, dentro do possível, algo que, pra mim, soa tão absurdo quanto aquela expressão “o novo normal” que querem nos fazer engolir nessa pandemia mal resolvida.

Para toda a população, exceto as elites, toda a vida é uma grande mágoa, uma enorme ferida não cicatrizada e uma dor que, se não incomoda à todos da mesma forma, é porque em alguns ela já doeu por tanto tempo, que se acostumaram. Para um fumante, sua própria roupa não cheira nada diferente, porque esse cheiro já faz parte do que ele sempre sente. Para o alcoólatra, a resistência do organismo ao álcool o torna mais disposto a beber grandes medidas. Assim é a vida pra muita gente, onde os vícios alteram a percepção de tudo. A realidade dos nossos fracassos, nossas situações, por mais reais e óbvias que sejam, passam por nós como se fossem um pouco de água adicionada numa piscina cheia. Sabemos que ela foi despejada, mas é tanta água anterior, que preferimos ignorar do que tentar separar um pedaço da vida de toda nossa vida. Nossa vida é uma sucessão de fracassos e, talvez, por isso mesmo, é que muita gente prefira não cutucar a estrutura pra tentar remover. Se limparmos todo o lixo da nossa vida, o que é que sobra? Talvez, nossas vidas, assim como esse duradouro sistema de sociedade e a própria humanidade, sejam as colunas centrais que sustentam tudo que somos. Remover o lixo, pode colocar toda construção abaixo. Clarice Lispector dizia algo semelhante. E me parece bastante verdade. Somos completamente frágeis, tentando demonstrar alguma força. Mas, nossos medos e nosso instinto de sobrevivência nos transformam, entre outras coisas, em pessoas mais covardes, mais passivas e mais medíocres, devo dizer.

Esse texto não vai te tornar saudável, rico, conhecido, famoso, estável, feliz, digno, livre, corajoso ou qualquer coisa que te coloque pra cima. Esse texto, infelizmente e provavelmente, vai apenas te fazer ver que, muitos de nós estamos numa densa lama, vivenciando erros, momentos grotescos e fracassados, dramas, doenças, descompassos, desconexões com a realidade, injustiças, guerras, pressões e uma infinidade de contextos desnecessários. Não podemos escolher o que ser, o que fazer, o que ter e onde estar. Tudo que temos é esse enorme trapézio, abarcando toda a população como uma massa amorfa, sem personalidade, sem destino, sem rumo, sem dignidade. Para os que estão na base do trapézio, tudo parece muito pior, porque a ambição de quem não tem nada é ter qualquer coisa. Mas, um dia todos eles descobrem que estão compactados como massa onde o único verdadeiro contraste é entre os exploradores e os explorados. Não acordar pra essa simples questão é incentivar que tudo se perpetue do jeito que está. Eu não aceito isso. Que fiquem pra trás os que não quiserem lutar comigo, mas eu não aceito a continuidade desse mundo sob os termos de até então. Que venham outros dias, outras sociedades, outros mundos, por um milagroso insight na consciência ou pela força pesada da revolução.

Enquanto isso me afogo em uma porção maior de álcool, em noites mal dormidas, em horas intermináveis de tédio, olhando os trabalhos passarem bem longe das minhas mãos, sem saber o que farei no dia seguinte, pra não mais depender da ajuda altruísta de quem quer que seja. Quero apenas recomeçar meus dias, longe daqui, de volta ao meu próprio trabalho, pra eu sentir que ainda sou gente, tenho vida, que não sou apenas um número ou, pior que isso, um invisível que nem chega a ser contabilizado. Quero voltar a ser independente, mas de um outro jeito, onde o esforço que eu faço pelos meus dias, pela minha tranquilidade, pela restauração da minha saúde mental e física, dê resultados. Quero viver em uma sociedade onde eu não seja só mais um amontado numa abstração. Quero ser tratado pelo nome, não pelas aspas de qualquer outro que nunca se deu ao trabalho de conhecer meio porcento da minha vida. Quero falar e ser ouvido, quero escrever ou fotografar e ser visto, quero conversar de igual pra igual e ser entendido, quero aprender algo novo, ser aceito, ter espaço na sociedade, socializar, ser recebido.

Enfim, quero tudo o que, provavelmente, nenhum de nós vai ter, à menos que se renda à um nefasto jogo de farsa e fama, onde os mais fracassados sempre bajulam os de cima, apenas porque gostariam de ser com eles um dia ou de tirarem algum proveito em suas companhias. Isso eu não quero. Meu mundo é infinitamente mais sincero. Pra mim, pessoas são só pessoas, por mais incríveis que sejam os seus talentos e pensamentos. Pessoas encarnam, defecam e morrem, como todas as outras e tudo que eu quero é lidar em pé de igualdade, porque, a princípio, somos todos seres humanos. Na minha concepção de mundo só não tem espaço pra fascistas e outras escórias. De resto, não me importo com a hierarquia ilusória, as disputas de ego ou qualquer realidade vazia.

Não importa o quanto eu grite, ninguém vai me ouvir. Vão apenas julgar, ignorar e seguir os dias como se nada tivesse acontecido. Já ouvi muita gente dizer que preferiram não tentar ajudar, porque não saberiam o que dizer ou fazer. Pois eu digo que se não for só uma mentira pra justificar o fato de que não se importam, é, pelo menos, um enorme erro. Toda participação importa pra quem já está afundado há tanto tempo. Não interessa se você não tem todas as ferramentas pra mudar a vida de uma pessoa, pois isso nunca estará em questão. As pessoas profundamente afundadas querem, apenas, que alguém divida o tempo com sinceridade. Querem, simplesmente, sentirem que ainda fazem parte, que ainda são gente, que podem ser alguma coisa diferente. Então, permita que essas pessoas possam, pelo menos, sonhar. Se você aniquila qualquer mínima possibilidade na mente dessas pessoas, você garante, de todas as formas, que a realidade dessas vidas serão reduzidas à pó. Você não precisa ser um especialista pra se importar por alguém. Basta que seja verdadeiramente humano, que tenha empatia e que se interesse de dividir um pouco mais de dignidade com qualquer outro que esteja anulado nessa vida. Talvez, muitos de vocês também estejam igualmente destruídos e por isso possam preferir não somar dois mundos parecidos, acreditando que isso possa piorar. Mas, um ditado alemão diz que “uma dor dividida é uma dor amenizada.”, similar à um provérbio sueco que diz: “Alegria compartilhada é alegria em dobro. Tristeza compartilhada é tristeza pela metade. “.

Apesar desse texto amargo, pesado e cheio de apontamentos difíceis de engolir, quero que vejam isso como uma cobrança, um desabafo, uma maneira de eu colocar pra fora minhas frustrações e fracassos e meu desprezo pelo sistema miserável dessa e de outras tantas sociedades que me consome a cabeça todos os dias. Quem sabe amanhã ou daqui uns dias, com um pouco mais de álcool ou vontade, eu deixe temas melhores, mais divertidos, mais esperançosos. Mas, cada uma das pessoas desse mundo também precisa fazer sua parte nesse processo e abandonar certos padrões e condutas. É difícil viver em uma sociedade que sempre nos cospe e nos bate, mas nunca querem nos ver melhorar, não nos falam verdades, nem nos fazem pensar. Ficam apenas se venerando por entre as máscaras de fachada, sustentando bolhas de ilusão que não favorecem à ninguém ter duas vírgulas de dignidade, originalidade, verdade, espaço e aceitação. Às vezes as pessoas não mostram quem são de verdade, porque, com a fachada da falsidade, se sentem menos horrendas, mesmo que todos ao redor, cedo ou tarde, percebam a ficção. Sejam de verdade, sejam pessoas espontâneas, sejam pessoas que admitem seus fracassos, suas mazelas, seus medos, seus traumas, suas “pisadas de bola”. Desçam do salto, olhem pro lado, vejam outros humanos igualmente perdidos, estendam a mão, dividam o tempo e sejam decentes sem perder a sinceridade.

Não aguento mais olhar pra esse mar de gente que fez da internet um resumo e um sinônimo de toda a vida, quando não se lembram sequer que, do outro lado da tela, existem milhões de pessoas que possuem outras infinitas realidades pra somar, mas que são rejeitadas por gente preconceituosa e mesquinha que acha que sua bolha é tão seleta e divina como aquela minúscula esfera de elite em cima do trapézio social. Eu quero é mais. Eu não vivo pra brincar de carniça, nem pra perder tempo com gente que só é contra o sistema enquanto está por baixo e, na primeira oportunidade de surfar na crista, vai pisar em todos abaixo, tal como fizeram inúmeros outros dentro e fora da mídia e da política. Mudança não se resume à status social ou progressão financeira. De que adianta ter fama e poder de compra, se a cabeça continua a pensar da mesma maneira? A mudança real deriva de um sentimento, um pensamento sobre um modelo de vida ideal, onde as pessoas não sejam simplesmente números numa equação. Sempre que as sociedades trataram pessoas como números, o resultado foi desastroso, gerando episódios históricos de racismo, xenofobia, fascismo, guerra e extermínio. Em casos extremos, foram exatamente os números que viabilizaram, na segunda guerra mundial, o holocausto e outras situações abjetas. Se, ao contrário desses, quisermos fazer uma mudança legítima e digna, precisamos dar legitimidade e dignidade às pessoas. As mudanças na sociedade serão o que as pessoas forem. Construam pessoas melhores, se quiserem um dia verem sociedades melhores, antes ou depois das revoluções.

Rodrigo Meyer – Author

O sol é para todos?

A imagem que ilustra esse texto faz menção ao girassol, uma planta que se tornou símbolo da campanha para alertar sobre a depressão. O simbolismo do girassol na conscientização sobre a depressão faz uma alusão à busca por luz, característica marcante do girassol, adaptada de modo figurativo, embora haja até uma relação literal entre o tratamento da depressão e a exposição do indivíduo aos raios solares.

Segundo dados da OMS, 322 Milhões de pessoas no mundo sofrem com depressão, seguido de um alerta sobre o aumento progressivo de casos no planeta. No Brasil esses dados são de, pelo menos, 11,5 Milhões de pessoas na depressão, além de 18,6 Milhões de pessoas em distúrbios relacionados à ansiedade. Esses números já são imensos e é fácil prever que eles provavelmente são muito maiores, já que a coleta de dados é difícil pela própria circunstância da doença.

Dados do Ministério da Saúde do Brasil, do final de Maio de 2019, demonstraram um aumento de 12% no risco de suicídio na população jovem negra, enquanto o índice se manteve estável entre brancos. O índice de suicídio entre adolescentes e jovens negros é 45% maior do que entre brancos, reforçando a condição social e psicológica a que essas pessoas são submetidas na cultura estruturalmente racista do Brasil.

De volta aos dados da OMS (Organização Mundial da Saúde), em 2019 estipulou-se que a cada 40 segundos ocorre um suicídio no mundo. A cada parágrafo que você está lendo, uma pessoa está se matando. Não há como achar isso banal ou pouco e é inevitável perceber que é sintomático de uma realidade que adoenta massivamente as pessoas, por diversos contextos e gatilhos. O suicídio, embora muito associado à pessoas com depressão, nem sempre é fruto dessa condição. Um número muito maior é o de pessoas com distúrbios de ansiedade, sendo que ao redor desses dois cenários há incontáveis situações menos conhecidas que também podem gerar um desfecho em suicídio, como, por exemplo, uma tentativa de se livrar de uma doença incômoda ou mesmo da dificuldade em aceitar uma realidade injusta imposta.

O suicídio pode ser visualizado em situações diversas como no desemprego, na doença, na solidão (em especial os idosos), em vítimas de abuso sexual, em cenários de guerra, em crises políticas e na perda de esperança diante do avanço desregrado das condições de vida. De forma resumida, o suicídio acaba sendo como a busca de solução para questões que aparentemente estão inaceitáveis. Quando o mundo não vale mais a pena, a vida começa a ser questionada. E quando viver não traz mais prazer, a dor se acumula até que não se aguente mais senti-la. Morrer, para muitas pessoas, é o encerramento de um sofrimento ou de uma condição indigna. Para muitos outros, o tema ainda é um enorme tabu, motivo pelo qual muitas pessoas sofrem, de certa forma conformadas, como quem tenta desviar da morte por não achá-la aceitável. Em todo caso, cedendo ou não à morte, é fato que grande parte das pessoas está remoendo problemas e dores. É difícil saber quanto tempo as pessoas aceitam ou aguentam sofrer, já que para cada pessoa o peso dos problemas e sua resistência são combinações que variam imensamente.

Nos Estados Unidos a taxa de suicídio bate recorde já em 2017, chegando ao maior patamar desde a Segunda Guerra. Enquanto em 1999 os dados mostravam que a cada 100 pessoas, 10,5 se matavam, em 2017 esse número sobe pra 14 suicídios a cada 100 pessoas.

De forma geral, as taxas de suicídio caíram na maior parte do mundo, porém o Brasil, sem surpreender, teve aumento ao invés de redução, conforme notícia de Abril de 2019. Além disso foi estimado que, depois dos 13 anos, meninos tem 3 vezes mais chance de cometer suicídio do que meninas. Apesar dessa tendência, há por trás desses dados o fato de que mulheres fazem muito mais tentativas de suicídio, porém atingindo menos êxito que os homens, em razão do modo mais agressivo e letal que os suicídios masculinos são tentados, incluindo enforcamento e arma de fogo, por exemplo. Para as mulheres as maneiras mais comuns de suicídio incluem pesticidas, drogas e saltos de lugares altos.

Observa-se que suicidas masculinos são mais impulsivos e agressivos, geralmente, enquanto suicidas femininos costumam buscar ajuda mais cedo e com mais frequência.

Esses são dados críticos de uma sociedade que não parece estar caminhando minimamente onde se espera. Por mais que o mundo sempre tivesse problemas, a proporção de tragédias sociais e políticas acumulando ao longo da História acaba por somar uma percepção triste e desesperançosa pelos rumos da vida da humanidade em geral. Dados apontam que crises econômicas e políticas possuem influência no aumento de suicídios, assim como as políticas que facilitam o acesso à armas de fogo. No Brasil, conforme dados destacados anteriormente, as taxas de suicídio seguem aumentando, contrariando uma tendência de muitos outros países. Isso se dá por inúmeros fatores, em especial o contraste da realidade dessas populações e os rumos políticos desastrosos. Tal problema pode ser medido por notícias como a do suicídio do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que foi denunciado sem provas por um crime que não cometeu, cercado de arbitrariedades e teatralismos patéticos de um desgoverno corrupto que tomou o Brasil de assalto, promovendo guerra à universidades, professores e alunos, combatendo Ciência, Cultura e a dignidade humana com discursos ultrajantes, perseguições políticas, muito ódio e nenhuma aceitação social. Diante de tal miséria política e humana, é compreensível o aumento do suicídio no Brasil.

Há muito que pode e precisa ser feito em apoio à essas situação, porém quero alertar as pessoas que lidam pessoalmente com a depressão ou que possuem amigos ou parentes nesse contexto que jamais, em hipótese alguma, entrem em contato com canais de comunicação como o CVV – Centro de Valorização da Vida, que, infelizmente, figura como uma péssima opção de atendimento, tendo relatos desastrosos por parte do público “atendido”, incluindo assédio, abusos, negligência, deboche, descaso, colocando em risco a vida de pessoas em situação de emergência. São inúmeros os casos relatados de suicidas que tentaram contato com o CVV e tiveram de ouvir o telefone ser colocado de volta ao gancho. Esse tipo de conduta é totalmente inaceitável, imprudente e eu diria até que é criminosa, uma vez que trata-se de um canal exclusivo para lidar com pessoas que estão sensibilizadas por depressão ou ansiedade e quem possuem grande probabilidade de cometer suicídio. Colocar uma pessoa que é avessa à causa, que não se interessa de fato pela vida das pessoas que são atendidas é o mesmo que condenar diversas dessas pessoas à um suicídio que poderia ter sido evitado se fosse lidado de maneira ética, lícita e humana.

Setembro é o mês de conscientização sobre as questões da depressão, cuja campanha é nomeada de ‘Setembro Amarelo’. Mas, não consigo, infelizmente, recomendar esse termo, simplesmente porque é uma iniciativa atrelada ao CVV. Outro ponto que pesa nesse sentido é o fato de que a ferramenta de prevenção ao suicídio oferecida pela rede social Facebook consiste basicamente em instruções que direcionam o usuário para uma tela final de contato para o CVV, o que é lamentável. Ninguém precisa passar pela roleta russa de contactar uma instituição que se intitula como Centro de Valorização da Vida e que, na prática, não valoriza a vida de seus atendidos, muitas vezes sendo a própria razão de suicídios ou uma contribuição fatal como a “gota d’água” para pessoas que estão em situação de desespero e recorrem ao contato do CVV como um último esforço de sobrevivência. Em todo e qualquer lugar que eu for eu seguirei não recomendando e alertando as pessoas para igualmente não recomendarem isso em hipótese alguma. Sendo o CVV uma organização não governamental (ONG), é preocupante saber que estão se valendo de voluntários para um desserviço tão grande em um tema tão importante. É sinistro imaginar qual seria a intenção de voluntários que se aliam ao CVV e que, na prática, figuram como causa de suicídios. Seria algum incentivo financeiro a razão por trás desse nicho? Em um país onde a depressão só cresce, seria possível imaginar pessoas tentando se valer da popularidade do tema e das vítimas da depressão e ansiedade para angariarem algum recurso financeiro ou vantagem. E se imaginarmos que o motivo não é financeiro, torna-se ainda mais sinistro, deixando margem pra interpretarmos que seja o puro sadismo em ver gente sofrer e morrer. Precisamos ficar atentos e desviar daquilo que não se presta como uma ajuda sincera.

Do outro lado, bem longe dessa catástrofe, deixo recomendações universais para lidar com a depressão:

A exposição do corpo ao sol é uma recomendação médica e psiquiátrica recorrente e básica, em razão do efeito que gera no organismo pela proliferação de Vitamina D, um componente conhecido no trato da depressão. Além disso, é preciso buscar apoio entre as pessoas de sua confiança, sejam amigos, parceiros, familiares, professores, colegas de trabalho, etc. Também é importante buscar a ajuda de um profissional da área médica, seja ele um clínico geral, um psiquiatra ou até mesmo profissionais do campo da Psicologia ou terapeutas. É preciso lidar com o problema e caso não sinta disposição pra buscar essas ajudas sozinho, é importante aceitar a ajuda externa de quem possa te encaminhar, acompanhar e incentivar você nessas ações.

Outros pontos que são básicos no assunto é a mudança de rotina e a atividade física. Embora pareça apenas simbólico para alguns, a atividade física dispara diversas químicas no organismo que são responsáveis pela sensação de prazer. Isso ajuda muito a colocar o indivíduo em uma condição favorável pra que ele consiga concretizar outros passos para sua recuperação. Em alguns casos o psiquiatra poderá recomendar medicações que deverão ser seguidas respeitando as doses e os prazos e, caso ache necessário, solicite uma revisão do seu medicamento junto ao profissional, para que, eventualmente, haja uma mudança da composição, da dose ou da frequência. Em alguns casos a suspensão do medicamento poderá ser recomendada ou aceita pelo profissional, mas é importante que o indivíduo não tente fazer automedicação.

Para pessoas que fazem uso de álcool ou outras drogas, é importante dividir essa realidade e personalizar o atendimento, o diagnóstico e o tratamento, fugindo de medidas como os fraudulentos centros de recuperação de dependentes químicos mantidos por quadrilhas que exploram a família dos dependentes colocando os pacientes em situações degradantes, trabalho escravo, violência física e psicológica, transformando os espaços em verdadeiras prisões de sadismo e enriquecimento ilícito.

À parte de todas essas decisões práticas de tratamento, procure preencher sua vida com objetivos e ideais para mover-se em direção à algo que você considere um parâmetro, um destino idealizado ou melhor, tal como o girassol que se move para acompanhar e absorver a luz do sol. Encontre algo a que se apegar que lhe seja positivo e viável. De repente isso pode ser o aprendizado de um instrumento musical, cantar músicas, escrever, desenhar, caminhar, contemplar a natureza, adotar um animal para companhia, visitar pessoas necessitadas para que você possa ser útil à elas, aprender um novo assunto ou se encorajar a tornar-se melhor em algo por meio de um hobby, profissão ou desafio. Faça algo que lhe instigue a perseguir um momento à frente, um ideal, e isso te manterá ativo. Quanto mais ativo você estiver, mais fácil será de conquistar espaços e descobrir novos contextos pra sua vida.

Se você é naturalmente uma pessoa solitária e que, nem por isso, sofre de solidão, tudo bem permanecer em seu mundo, assim como também será bom quando decidir cortar esse padrão ir ir buscar socialização. Se você é uma pessoa que normalmente prefere a companhia, procure equilibrar isso, filtrando bons momentos e lugares que possam somar na sua vida e te trazer memórias boas dali pra frente. Sorrir diante das coisas, seja do silêncio ou de um show de música, pode ser uma ponte para outros grandes passos. Eu não tenho as respostas para as questões da depressão e ansiedade e, até onde sei, nada disso tem cura. Todo tratamento vinculado a esses contextos é algo que deve ser feito com a certeza de que não há garantias de que as coisas não possam decair ou de que você não volte a ter crises e intervalos até maiores de depressão ou ansiedade. Infelizmente, sabe-se que uma vez que se tenha tido depressão, você corre o risco de ter recaídas. Não se pode prever quando e quão intensas elas ocorrerão, mas você poderá aproveitar tudo que sabe sobre o assunto pra desviar delas e buscar ajuda pra tentar se reerguer. Eu espero que todos os meus outros conteúdos possam contribuir de alguma forma para apontar ideias e mudanças e que você possa resolver e superar seus problemas, seja lá quais forem.

Rodrigo Meyer – Author

O que significa ser libertário?

Ser libertário é ter o pensamento ou a ideologia voltada para a busca e/ou preservação da liberdade dos indivíduos. Exatamente por ter essa premissa de liberdade, que ser libertário não significa deixar livre as pessoas que privam a liberdade alheia. Às vezes, algumas pessoas lançam a ideia de que fascistas ou pessoas em geral que privam a liberdade dos outros, deveriam ter a mesma liberdade de serem e fazerem o que quiserem. E essa tentativa falha de argumento só reforça do porquê fascismo e ignorância são indissociáveis. O fato estrito, simples e direto é que ser a favor de liberdade é exatamente não compactuar com os que se posicionam contra essas liberdades. Fascistas não passarão!

Ser libertário é fruto de uma visão de mundo que nos cobra, automaticamente, uma conduta social bem definida. Uma vez que se entende aquilo que o mundo é, vê-se, também, o que é aceitável e inaceitável em um convívio entre os seres. Sendo o mundo muito diverso, há também diversidade nas composições familiares, na personalidade das pessoas, na formação escolar e educacional, na influência de parentes e amigos, na cultura local, na política, no nível de intelectualidade e de compreensão da realidade e dos assuntos, assim como inúmeros outros fatores que podem transformar um indivíduo em uma pessoa diferente das demais. A única coisa que há em comum em indivíduos mentalmente saudáveis é o desejo natural de manter-se livre. Qualquer desvio do desejo de liberdade já é reflexo de um desvio psicológico, podendo ser originado de algum trauma, complexo ou mesmo confusão decorrente da incompreensão da realidade ou do tema.

Fomentar um pensamento consistente de respeito e bem-estar aos seres, depende, sobretudo, de como as pessoas se apercebem da importância e do significado da própria existência de cada ser e do convívio com outros. Se o indivíduo não estabelece uma conexão mínima de empatia com outro ser, diverge do que é natural e saudável, tanto psicologicamente quanto sociologicamente. Todo estudo que já se tenha feito sobre as relações dos seres, passa, necessariamente, por esse senso de preservação da dignidade, da liberdade, do bem-estar, do direito a vida e ao desfrute de seus potenciais. Qualquer pensamento ou ação que prive os seres dessas realidades natas, compõem uma opressão, um desvio das premissas básicas. Algumas pessoas entendem isso por extensão direta da empatia que possuem e outras, às vezes, tardam a admitir esse impulso natural, precisando do reforço, às vezes, do embasamento lógico e técnico. Mas, de toda forma, ambos chegam a mesma conclusão, pois isso não é questão de opinião individual, mas sim uma premissa natural intrínseca a todos os seres. Exatamente por isso que, indivíduos que figuram em fascismo e opressões em geral, são indivíduos com perturbações e desvios de conduta, de ordem psicológica, podendo ter a origem dessa visão ou conduta em uma variedade de fatores.

Muitas vezes o ser humano adoece de algo chamado ‘hipocrisia’. Podendo se resumir, grosseiramente, como sendo o vício em mentir, a hipocrisia é responsável pela contradição de pessoas que, por exemplo, dizem gostar de animais, ao mesmo tempo em que podem aceitar matá-los para um raso benefício próprio. Nesse caso em específico, entende-se que fatores culturais podem forjar uma naturalidade nesses hábitos coletivos, dando uma falsa sensação de “normal” e “correto” dentro do julgamento que o indivíduo faz de si mesmo naquele contexto. Isso fica ainda mais claro quando olhamos pra história do mundo e vemos que as práticas sociais deploráveis que eram propagadas como “válidas” por determinados grupos, épocas ou governos, só se mantiveram aceitas por outras pessoas, devido a extensa propagação desse modelo artificial como se fosse natural. É exatamente esse o caso de episódios como os raptos de crianças que eram filhos de presos políticos, para serem adotadas por famílias que eram simpatizantes da ideologia dos raptores em questão. Dessa forma, essas crianças eram nutridas com o mesmo vício de pensamento, as mesmas ignorâncias e falácias, preservando, assim, a perpetuação dessa sucessão de adoentados.

É como diz aquela frase: “uma mentira dita mil vezes, se torna uma verdade”. Essa frase refere-se a ideia de que aquilo que se torna tão comum nos ouvidos e na sociedade, acaba não sendo mais refletido pelas pessoas. Tudo aquilo que soa como natural, deixa de ser raciocinado. Ninguém para pra contar quantas vezes piscou os olhos ou qual é o processo específico que faz pra respirar. Tudo isso, por ser natural e intrínseco ao ser humano, é feito de forma automática pelo corpo, não demandando nenhuma interferência do indivíduo. De maneira similar, nas práticas sociais, muita coisa é replicada inúmeras vezes até se tornar tão comum que é vista e aceita sem resistência, sem filtro, sem análise.

Do que conhecemos da conduta humana e da própria história vivida e registrada, o ser humano é facilmente moldado a uma realidade diferente, bastando que seja inserido nesse contexto desde sempre e em um coletivo relativamente fechado e abrangente onde todos ou quase todos seguem, basicamente, o mesmo padrão de “realidade”. Isso é o que explica, por exemplo, as diferenças culturais entre países. Se crescemos em uma família e país onde vestir meias com chinelo é o hábito em comum de todos, provavelmente uma criança nascida nesse cenário seguirá a mesma prática, a mesma tradição. Mas isso não significa, de maneira nenhuma, que as pessoas tenham alguma razão individual pra decisão de usar as meias. Elas podem estar apenas seguindo a tendência coletiva e a tradição desse ato, sem questionar, já que todos que o fizeram, também não questionaram. Mas pra quem não nasceu num ambiente com a mesma influência, o uso das meias com chinelo pode parecer incomum, estranho ou até desconfortável. Tudo é uma questão de hábito e aprovação coletiva.

Sob essas mesmas premissas, um passarinho preso em uma gaiola desde sempre, pode ser levado a acreditar que aquele é o padrão de vida, o ápice de seus potenciais como pássaro. Se ele tem as asas cortadas e é engaiolado, não terá noção do que é expressar-se livremente em voo, pra ser aquilo que ele nasceu pra ser: um pássaro livre, que voa e que expressa seu potencial e sua característica própria. Para o ser humano, não é diferente. Os modelos sociais que privam o indivíduo de sua dignidade, liberdade e potencial, estão transformando esse indivíduo em alguém que pode vir a se acostumar com o padrão estabelecido pra si de pouca valorização. Mas, como o ser humano é um ser inteligente e permeia sociedades próprias que ele mesmo constrói, inclusive em subgrupos dentro de cada sociedade, ele acaba por disseminar reflexões e ideias que recondicionam os indivíduos a refletir sobre suas realidades, seus direitos, suas dignidades, seus valores e potenciais. As ideologias e políticas libertárias carregam exatamente esses objetivos para reforçar os princípios humanos em geral.

Em sociedades adoentadas, “comandadas” e arrastadas por políticos e membros mais convencionais da população, é comum vermos as pessoas desenvolverem uma certa desmotivação, perda da autoestima ou da esperança, sentindo que algo não está tão bem quanto elas acham que deveria estar, apesar de estarem, de certa forma, “acostumadas” com a escassez de vida que lhes cabe. Na verdade essa percepção de incômodo ou de incompletude é justamente a fagulha na memória e no instinto básico humano da busca natural e essencial de valores humanos como a dignidade, liberdade, bem-estar, etc. Se um indivíduo nota que na sociedade existem classes diferentes de pessoas, cabe a este refletir e esmiuçar as origens e motivos dessa diferenciação social. Porque algumas pessoas cometem crimes e ficam impunes e outras são presas? Porque algumas pessoas são mais aceitas nos espaços públicos e outras menos? Porque algumas pessoas recebem mais credibilidade no que falam do que outras? Porque algumas pessoas figuram massivamente nas mídias como exemplo de beleza, sucesso e “positivismo”, enquanto outras não? Enfim, qualquer que seja o viés da observação, é preciso questionar essa distinção e separação de grupos humanos. Quase sempre a origem e motivo disso está justamente nesse padrão de opressão plantado e perpetuado, tentando reduzir certos indivíduos, grupos, ideias ou características, para enaltecer aqueles que fabricam esse modelo artificial de separação.

Da mesma maneira, quando alguém aprisiona um pássaro na gaiola, está fazendo exatamente a mesma coisa, segregando um ser por conveniência própria, para desfrutar de maneira bastante egoísta e sádica, da servidão do pássaro em troca de seu canto ou exposição controlada de sua aparência. Além disso o ato do confinamento reforça a ideia de poder e posse, uma vez que o animal subjugado em uma gaiola é fruto de uma visão distorcida onde a o animal humano exerce domínio sobre outro animal, aproximando pra si um falso crachá de importância, de poder, de posição hierárquica, etc. Há uma frase de Mahatma Gandhi (apesar das polêmicas envolvendo seu nome) que traz uma boa reflexão sobre essa analogia e correlação entre a conduta diante dos animais e os conflitos sociais de humanos contra humanos:

“A grandeza de um país e seu progresso podem ser medidos pela maneira como trata seus animais.”

A abstenção da violência, da injustiça e do cumprimento cego das regras e tradições forjadas em sociedade, encaminha o ser humano, naturalmente, pra uma visão de coletividade e liberdade, onde as pessoas possam se tornar aquilo que nasceram pra ser. Mas, como já vivemos em um modelo social que replica muitos equívocos a tanto tempo, precisamos reconstruir na mente das pessoas, essa lembrança do que de fato é real ou não, o que é justo ou não, o que é natural ou não, o que é aceitável ou não. Uma das primeiras coisas que me vem na mente, quando falo nessa reconstrução, é o extenso trabalho que tem sido feito na moderna cultura da Alemanha, para varrer quaisquer possibilidades do retorno do trágico histórico de nazismo no qual o país figurou. O evento mundial que se tornou icônico pela organização, sistematização e frieza das práticas, deixou os próprios alemães envergonhados com o tema. Diante dessa percepção do absurdo, a própria comunidade se organizou para se posicionar de forma eficiente contra o fascismo, o nazismo e os preconceitos em geral. As crianças são ensinadas desde pequenas, nas escolas, sobre as mazelas desse período histórico, além de conviverem com inúmeras políticas públicas de combate e punição a qualquer fagulha de propagação relacionada a esse período nefasto. Determinadas expressões ou gestos, podem conferir prisão aos indivíduos. Felizmente, em um levante épico, a Alemanha pós-guerra conseguiu se reconstruir em um modelo de sociedade altamente receptivo a diversidade, sendo um dos países com maior expressão desse senso de respeito a individualidade humana. Essa mudança de postura em toda uma sociedade, só foi possível graças ao extenso trabalho de combate ao fascismo e a reeducação das novas gerações desde pequenas. Se hoje eles desfrutam de um espaço completamente diferente do período nazista, é justamente pela decisão consciente dos grupos de indivíduos de agir para frear esses desvios de conduta e pensamento das gerações anteriores.

Ironicamente, os Estados Unidos, apesar de ter sido o principal destino de milhões de fugitivos da era nazista, hoje acomoda na sua sociedade uma descontrolada proliferação de grupos racistas, xenófobos e nacionalistas, incluindo a expressão declarada de neonazistas ou de grupos específicos como a Ku Klux Klan. Essas contradições culturais  talvez se expliquem exatamente pela ação e inação a cada um dos países. Enquanto na Alemanha pós-guerra se tentou combater os problemas, nos Estados Unidos, parece ter havido uma ação menos engajada e mais flexível, provavelmente devido ao modelo de leis que dá brecha para disseminação de discursos e ideologias de ódio, na tentativa ilusória de que essa liberdade de expressão inclui qualquer expressão. Esse equívoco básico com um desfecho prático trágico, demonstra exatamente porque ser libertário não significa, de maneira nenhuma, ser permissivo com quem é contra a liberdade. O combate aos opressores e aos que lutam por ideologias de combate a liberdade humana, não podem estar livres para tal. Se queremos liberdade, devemos apoiar a liberdade e não o oposto dela. Ser permissivo ao fascismo e as demais opressões, não é reflexo de liberdade, sendo, apenas, o oposto deste objetivo. Entender essa lógica básica foi o que ajudou determinadas culturas e países a praticamente extirparem do seu meio os conflitos e preconceitos humanos, criando um ambiente mais próximo da liberdade e do bem-estar, afinal era esse o objetivo sincero por trás da iniciativa e é esse o desejo humano em essência, desde que ele esteja mentalmente saudável.

A luta pelo avanço das mídias e ideologias de combate ao fascismo ainda tem um longo percurso pela frente, mas já está bastante estruturada no mundo inteiro, de forma muito bem embasada e com amplo apoio popular. A cada dia que passa há menos espaço para o fascismo e ecoa cada vez mais alta a ideia de que fascistas não passarão! Diferente das divergências mais superficiais de gostos ou preferências, o combate ao fascismo é uma premissa que toca a essência do ser e, por isso mesmo, é algo que abrange facilmente todas as culturas e indivíduos, pois para a vida dos seres não há fronteira. Princípios humanos continuam sendo princípios em qualquer lugar do mundo. Aqueles que ainda figuram em opressão e desvio de conduta nesse sentido, enquadram-se tão somente em uma fatia social já classificada, já compreendida como falida, fracassada, adoentada e estúpida. O único caminho que o mundo saudável e instruído propõem a estes grupos adoentados é o remédio da reeducação pela informação e/ou a demonstração clara e objetiva de que tais indivíduos não serão tolerados livremente nos meios de convívio, enquanto insistirem na propagação dessas fraquezas. O mundo é daqueles que evoluem. Quem se acomoda na ignorância, colhe os efeitos disso, permanecendo marionete de outros, passando vergonha, perdendo tempo, felicidade e bem-estar. O que pode ser mais doentio do que atirar no próprio pé e sentir orgulho disso? Reflita.

Rodrigo Meyer

Receita para suprir o vazio.

Viver é um desafio. A vida é um mistério que precisa ser desvendado, uma vez que não vem com manual de instrução ou com objetivos predeterminados. Se deparar com a vida e ter que decidir o que fazer dela é uma tarefa que, pra muitos de nós, leva todo o tempo e, mesmo assim, pode não chegar em nenhuma solução satisfatória. Fato é que muitas pessoas sentem uma sensação de vazio diante da vida e tentam completar esse vazio com coisas igualmente vazias. Parece óbvio, mas está em alta a necessidade de se dizer obviedades, então digo que se as pessoas querem preencher seus vazios, não devem fazer isso com coisas vazias. Mas, o que são esses vazios?

Quando sentimos um vazio na vida, esse termo pode representar uma sensação de que o sentido para a vida é superficial ou insuficiente ou que a vida não parece ofertar valor apesar das coisas que existem e ocorrem (ou exatamente pelas coisas que existem e ocorrem). Superar essa sensação de vazio na vida é uma tarefa de cunho psicológico e filosófico, por vezes com algum viés da meditação, da postura diante do mundo, dos preceitos de espiritualidade, etc. Mas quando tentamos suprir esse sentido da vida, que é algo tão importante, com paliativos ilusórios, é claro que não haverá resultado satisfatório. É como ter fome e ingerir água pra tentar suprir. Por algum tempo você pode até enganar a fome, enchendo seu estômago de líquido, mas se a nutrição pela comida não ocorre, a água será inútil no final das contas.

Tentar levar uma vida com o máximo de satisfação possível é a meta de qualquer pessoa. A menos que a mente da pessoa esteja demasiadamente adoentada para chegar a corromper essa premissa, entende-se que todo ser humano deseja, a princípio, ter uma vida satisfatória, com tranquilidade, felicidade, conforto, etc. Quando não encontramos essa qualidade de vida, nos colocamos a pensar nas razões para esse insucesso. As pessoas que passam por essa reflexão podem chegar a sentir a vida pesada, desinteressante, cansativa, injusta ou até mesmo desnecessária e insuportável. É o caso de muitos que adentram pra depressão, pra abuso de drogas de todo tipo, incluso os medicamentos e produtos legalizados e as demais substâncias.

Em todo canto se vê pessoas buscando soluções para seus problemas, mas sem buscar soluções realistas. Veem-se com insônia, por exemplo, mas ao invés de resolver a causa da insônia, apenas se dopam com algum medicamento que as faça cair em um sono forçado. É evidente que essa qualidade de sono não reflete o mesmo benefício de um sono que ocorre naturalmente e de forma tranquila. Além disso, o uso constante destas medicações pode fazer as pessoas desenvolverem adicionais problemas na saúde e na mente. Como se não bastasse, condicionam a si mesmas a só dormirem mediante o uso destas substâncias, o que as colocam em uma situação de dependência e infelicidade pela ausência de controle de algo simples como o sono. A percepção desse quadro psicológico, físico e até social, pode transformar essas pessoas em geradoras de seus próprios problemas. A infelicidade e a má saúde plantadas nesse modelo de vida gera ainda mais motivos para a insônia e elas entram em um círculo vicioso de problemas.

Preencher o vazio com vazio não funciona. E como é que eu, na minha posição, poderei dizer o que é que cada pessoa pode ou deve fazer pra suprir seus vazios? Simplesmente não posso. Tudo que me cabe é tentar esmiuçar o tema e entregar algumas informações aprendidas ao longo da vida, sobre medicina, psicologia, meditação, espiritualidade e um pouco de empirismo na busca de minha própria libertação. Eu tive depressão por grande parte da minha vida e nunca havia me imaginado fora desse quadro. Acreditava que estaria fadado a uma morte precoce. Durante grande parte desse percurso eu fiz aquilo que estava mais propenso a fazer: nada. Eu me rendi de forma a ter muitos e muitos anos de sono, isolamento, procrastinação, sedentarismo, pouca ou nula socialização e uma constante vontade de desistir de toda e qualquer atividade. Mas, por incrível que pareça, foi exatamente por não fazer nada que tive tempo de observar, analisar e compreender a situação, minha mente, a realidade do mundo, entre tantas coisas. Foi nesse período que pude transformar algo aparentemente infértil na melhor plantação que eu poderia fazer.

Durante meus anos de reclusão, pude sentar diante do espelho, simbolicamente, olhar pra dentro de mim e refletir com sinceridade sobre quem eu era, o que eu queria, o que eu fazia, o que era ilusório, o que era útil. Aprendi muito comigo mesmo. Dizem que todos nós temos um mestre interior, que alguns chamam de ‘Eu Superior’. Talvez seja essa a explicação sobre a capacidade do ser humano de meditar, conversar consigo mesmo e superar barreiras. Por vezes, percebemos que nós mesmos é que inventamos barreiras por conta de nossas crenças, hábitos, imaginações, etc. E isso deixa uma lição importante: somos poderosos! Temos poder de determinar muita coisa para nós mesmos. Da mesma forma que nos submetemos a situações indesejadas, podemos fazer o mesmo para situações melhores. Não posso afirmar que controlamos toda nossa vida, mas controlamos, ao menos, como nos sentir diante da vida e o que fazer com a situação que nos é apresentada.

Em tempos de depressão, tapava meu vazio e afogava minha dor com sono, álcool, comida, isolamento, direção em alta velocidade e permeando um universo de cultura ou estilo de vida de companhias que estavam igualmente ruins ou até piores que eu. Estava claro pra mim que nada daquilo que eu estava fazendo resolveria meus problemas, mas eu já não estava querendo solução pro vazio, mas apenas soluções para estes novos problemas que eu adotei. Queria algo que pudesse resolver esse estilo de vida destrutivo. Estava preso, condicionado a viver uma realidade que já não desejava. E não desejava porque percebia, finalmente, que tudo aquilo era igualmente vazio e que não poderia servir pra suprir o meu vazio sobre a vida. Então, ao menos pra mim, resolver o dilema da vida foi simplesmente me recusar a opções rasas e ilusórias. Comecei a ser exigente comigo mesmo e com os outros. Me coloquei contra pessoas e ideias que não favoreciam os meus objetivos de me tornar uma pessoa livre, tranquila, feliz e preenchida.

Não foi fácil e nem foi rápido. A transição não foi exatamente contínua, uma vez que tive diversas recaídas. Porém, descobri que a cada vez que eu caía, ficava mais resistente aos danos e aprendia os sinais de quando eu estava me aproximando de uma recaída. Minha principal meta nos tempos de recuperação era me manter preenchido de pessoas e situações que realmente tinham valor. No fundo, era somente isso que eu queria mesmo, mas, por muitas vezes, na depressão, não tinha essas presenças ou as ignorava por desconfiança ou insegurança. Muitas vezes eu me boicotei, fechando minhas próprias portas e depois me via sem esperança em um mundo sem caminhos para seguir. Quando parei de andar em círculos, comecei a ver meu potencial surtir efeito simplesmente por ter colocado em prática, com confiança, sem medo, sem procrastinação.

Foi isso que me colocou em um estilo de vida funcional. Sempre que me sinto sobrecarregado com algo, meu instinto de defesa contra a depressão me faz agir e criar mais. Me considero uma pessoa muito ativa, quando comparo com as pessoas ao meu redor. De certo que temos atividades muito diferentes, não só pela quantidade, mas pelos objetivos, pela motivação essencial por trás de cada feito. Olho ao meu redor e vejo muita gente de cara amarrada, infelizes com seus empregos, com seus relacionamentos ou mesmo infelizes de maneira geral com a vida ou a sociedade. Raras vezes encontro pessoas que se permitem ser e fazer aquilo que as preenche verdadeiramente. Grande parte das pessoas buscam apenas válvulas de escape, tapando o sol com a peneira. Podem passar o tempo com isso, mas chegarão, cedo ou tarde, a mesma conclusão: de que não viveram e que continuam infelizes, sendo, provavelmente, ainda mais infelizes por terem desperdiçado tempo na contramão da solução.

O resumo é que temos que nos entregar a valores intrínsecos. Não adianta querer que uma garrafa de álcool, rostos conhecidos numa festa, noites de sexo, sono e comida, possam resolver um problema que não nasceu pela escassez de tudo isso. O vazio da vida não é o vazio por álcool, por sexo, por companhia, dinheiro ou sono, mas sim pela transmutação do indivíduo diante da percepção do valor intrínseco da própria vida. Trocando em outras palavras, o recheio que preenche a vida é a própria vida. É sentar-se em harmonia consigo no espelho e estar satisfeito com sua existência, em poder olhar pela janela e ver o céu, respirar, se presentear com uma refeição saborosa, um cuidado de saúde, um refino estético para contemplar sua própria expressão. A vida, no final das contas é dividir uma risada, mesmo que sóbrio, dedicar tempo em conversar, abraçar, sentir, se entregar, se entreter.

A vida é um espetáculo que nós mesmos dirigimos. Contracenamos com muita gente em múltiplos cenários. Cabe a nós, como atores e diretores, definir a mensagem, o timing, a trilha sonora, os planos, os closes, os cortes de cena e assim por diante. No final de tudo teremos um espetáculo digno de se assistir na memória, pelo que fizemos a nós mesmos e aos outros. Isso preenche, isso transborda. É isso que me faz acordar todo dia pra continuar, com disposição mental e física. É isso que me mantém esperançoso pelo meu futuro, independente da condição dos demais. E quando se tem paz, a pressa some e sobra disposição pra correr mais. E pra você, o que é que te satisfaz?

Rodrigo Meyer

A receita é estar em dia.

Sobreviver com disposição diante do excesso de estímulos está muito relacionado em como você organiza e gerencia o mundo, antes que ele te invada descontroladamente. Com tantas pessoas, tantos ruídos, placas, sons, luzes, carros, comércios, produtos, links, vídeos, livros, ideias, memórias, nossa mente acaba se saturando pelo excesso e tende a falhar. Às vezes a mente humana lida com os excessos buscando simplificações, reduzindo o tempo de atenção ou a complexidade em algo.

Em placas de trânsito, por exemplo, busca-se reduzir o máximo possível da complexidade das formas e cores, já que os motoristas terão pouco tempo pra processar cada uma delas. Pra que facilite ao cérebro do motorista compreender o que fazer nas ruas e estradas, as placas sintetizam imagens e encurtam informações de texto, se posicionando com uma certa margem de distância para que o movimento do carro seja compensado. Além disso cores ajudam a interpretar mais rapidamente o conteúdo, uma vez que nos habituamos a estas combinações. No restante da vida, nem sempre haverão planejamentos a nossa disposição, então teremos que fazer nosso próprio controle das situações.

Quando se abre o navegador do computador, por exemplo, começamos visitando um site, mas logo nos deparamos com um link, uma foto, uma conversa e, mais sites começam a abrir em paralelo com aquilo que gostaríamos de ver ou guardar pra um momento mais oportuno. Em pouco tempo, aquela tela minimalista com um único site, se torna uma biblioteca bagunçada de conteúdos. Às vezes as pessoas mantém aberto até mesmo um conteúdo já visitado, pela praticidade de tê-lo ali pra uma conferência, um compartilhamento futuro, etc. Sem perceber, elas se afogam em uma malha confusa de dados que não as ajuda a ir pra frente. Ficam com os pés presos nessa malha e estão quase sempre irritadiças por isso.

Este tipo de situação pode ocorrer em diversos setores da vida. O grande segredo pra se livrar dessa tensão gerada pelo acúmulo é, exatamente, não permitir o acúmulo. Assim que fizer proveito de um conteúdo, você já pode descartá-lo para ir ao próximo momento, próxima tarefa. Estar em dia com cada um desses conteúdos, te faz perceber que, na verdade, você ganha mais tempo. Torna-se mais eficiente em criar, pensar, interagir e viver, pois dedica menos tempo mental e/ou físico em cada uma dessas atividades. Quando você percebe que está completando uma tarefa com menos tensão e menos esforço, seu cérebro sente-se recompensado por aquela atividade e permanece em um estado melhor para a próxima tarefa. Isso se torna uma sequência de bem-estar associada a sua produtividade e é isso que você vai adorar ter ao lembrar do quanto você tem feito por você mesmo, diante da imensidão de coisas que existem ao redor.

Para muitas pessoas a satisfação pessoal advém do cumprimento dessas metas. E para que as pessoas possam chegar felizes em seus objetivos, elas precisam limpar o caminho para não tropeçar na desorganização ou na desmotivação que isso causa. Um ambiente favorável é aquele onde não temos que nos preocupar com excesso de estímulos para serem processados. Neste tipo de ambiente clean pode-se perceber um aumento substancial do seu bem-estar físico e mental. Não é uma garantia de que você vá se tornar uma pessoa feliz, mas com certeza vai concretizar melhor suas tarefas e isso pode ser um ponto valioso pra te entusiasmar a fazer mais e/ou melhor. Para muitas pessoas, isso ajuda a tornar-se mais satisfeito e feliz.

Para se estar em dia com as coisas, é preciso entender que não teremos como abraçar o mundo de uma vez só e que está tudo bem, afinal essa premissa é a mesma para todo ser humano. Temos que ser conscientes de que o volume de estímulos tende sempre a ser maior do que cada pessoa é capaz de gerenciar. Então, é preciso filtrar o máximo possível com base na necessidade e qualidade. Elimine do seu campo aquilo que não está em uso no momento. Feche as abas de navegador depois de visualizar o conteúdo; procure manter-se desconectado de sites e aplicativos que emanam alertas de mensagens ou atualizações; desligue o celular durante uma tarefa de criação ou concentração; limpe sua mesa de trabalho e guarde tudo que não for utilizar na sua próxima tarefa; mantenha seus livros guardados com algum critério, para que sejam fáceis de encontrar futuramente; mantenha suas tarefas domésticas em dia, como a louça e roupas lavadas, a arrumação do quarto, etc. Enfim, faça seu cérebro perceber um contexto simples na vida, pra que você possa dedicar seu esforço no progresso de outras atividades, ao invés de dispersar energia com o que costumeiramente fica sem ser resolvido.

A mente consciente não percebe grande parte das coisas, mas a mente inconsciente sabe que determinado objeto está em cima da mesa, que determinado livro não terminou de ser lido, que as roupas no varal não foram recolhidas, que a louça ainda não foi lavada e que aquelas abas do navegador ainda permanecem ativas, mesmo que você sequer possa ver todas no estreito espaço da sua tela. Tudo isso acaba perturbando a mente e enfraquece nossa disposição em ser e fazer.

Através do minimalismo, conquistei muito progresso pessoal. Quando não tive mais que me preocupar com um quarto cheio de objetos, uma casa cheia de móveis e uma vida cheia de estímulos desnecessários, minha mente finalmente focou naquilo que era importante pra minha vida. Essa mudança trouxe, inclusive, um bem-estar e facilidade em cumprir as tarefas secundárias de menor importância, como lavar a roupa, a louça, se programar pra ir pagar as contas ou almoçar. Quando tudo isso se torna organizado e simplificado, não se torna uma obrigação chata, mas apenas um momento rápido e fácil. E se sua mente vai bem ao longo dessas centenas de pequenas situações, seu dia se torna um bloco de sucesso. É basicamente isso que te dá tempo e motivação pra fazer algo um pouco maior, já que agora sua vida e sua mente possuem espaço. Mente zen, vida zen. Quando você reduz o tamanho do mundo, formigas podem se tornar gigantes. Crescer como pessoa e progredir em suas atividades, seja trabalho, arte, hobby, estudo ou relacionamentos, está muito relacionado com as suas prioridades e em como você está tranquilo para gerenciar as coisas menores ao redor. Começar a desenhar em uma folha em branco é muito mais fácil do que ter que apagar uma folha primeiro pra só depois poder reutilizá-la.

Rodrigo Meyer

Voltas e recomeços.

Depois de dias sem postar, estou de volta com este texto. Aproveito o contexto pra discutir o próprio tema ‘recomeço’ e deixar algumas reflexões.

Por mais que desejemos uniformidade ou constância no nosso bem-estar, a maioria de nós passará por momentos difíceis e por diversos imprevistos. Mas nem todo imprevisto é ruim em si. A vida costuma se apresentar de forma inconstante, porque as pessoas são inconstantes e a própria Natureza é pouco dominada diante de sua grandeza e complexidade. O mais sensato é nos lapidarmos pra adquirir alguma habilidade de resiliência, como uma árvore que retorna para sua posição original depois de ser envergada pelo vento forte.

Por vezes, não é fácil entender e aceitar as coisas como elas são ou parecem ser. Temos sempre que estar um passo adiante da nossa zona de conforto, pois mesmo quando saímos de uma zona de conforto inicial, expandimos essa zona e a cada vez precisamos dar um novo passo pra não ficarmos acomodados naquilo que conquistamos. Eu tenho sentido que fiz grandes progressos por me colocar sempre em desafios. A vida se torna mais difícil quando queremos algo, porém se desistirmos,  a aparente facilidade disso nos mostra que apenas abdicamos de tentar e que não tentar exige nenhum esforço.

Encarei muitas situações incômodas desde sempre, mas sempre estive observando a realidade e a mim mesmo para poder compreender minhas opções. Quanto mais conhecemos o funcionamento das coisas, mais fácil se torna perceber onde e como podemos contornar os problemas. Alguns veem isso como criatividade. Eu acho que é apenas o curso natural das coisas quando se busca saídas. Existe uma frase que diz que ‘a necessidade é a mãe da invenção’.

Tem chegado a hora de eu me reinventar. Estou em busca de recomeços porque preciso deles. Recomeçar pode ser perturbador, porque somos levados de volta ao zero e temos que construir tudo novamente. Mas, por outro lado, temos conosco a experiência e a sabedoria que adquirimos em nossas outras empreitadas. Cada fase da minha vida eu dediquei esforço concentrado em certas atividades e áreas de estudo e tive a oportunidade de mergulhar em muita prática. Eu adquiri o tal de know-how que é tão importante em qualquer setor da vida.

Hoje, tentando maneiras novas de chegar na estabilidade e bem-estar, começo a olhar ao meu redor e a descobrir quais outras coisas estão ao meu alcance. Que outras ferramentas ou maneiras diferentes de usá-las poderão fazer a diferença pra mim? Fico imaginando as pessoas perseguindo sonhos alheios que não as pertencem e vejo muita gente dedicar esforço, tempo e até dinheiro em contextos que são natimortos. Aquilo que as pessoas descobrem tardiamente tende a ser algo obsoleto, pois tudo hoje em dia é muito passageiro. Vejo as pessoas se inspirando em ideias que já não podem mais prosperar ou que já estão saturadas de gente tentando.

Pensar o novo e estar à frente é sair dessa bolha de imitação das massas. Por mais que alguém esteja fazendo sucesso em algo, não significa que imitá-los será garantia de sucesso pra você também. Algumas pessoas iniciaram suas empreitadas em outros tempos, quando aquilo ainda fazia sentido ou quando aquilo ainda era novo o suficiente pra que houvesse pouca gente fazendo e muita gente interessada na novidade. E, atualmente, em um momento em que isso já atingiu um ápice de possibilidades, o futuro já está em outras coisas.

Você pode arriscar a sorte e tentar fazer mais do mesmo. Mas é muito mais garantido investir naquilo que será a próxima realidade, o próximo boom. Mas, não é tão fácil descobrir em que direção isso está. Não sabemos ao certo como será o futuro e nem como nós conseguiremos ou não nos posicionar nestas novas realidades. Tudo que podemos fazer é estarmos flexíveis, de mente aberta e sempre engajados em fazer cada vez mais coisas, arriscar o incerto, tentar o diferente, se permitir ao novo. Mudar pode nos tirar da zona de conforto, mas também pode ser a nossa única chance de conquistarmos algum outro conforto menos ilusório.

A maioria das pessoas não lida bem com a realidade. Elas não aceitam bem o estado em que estão, mas se esquecem que grande parte dessa realidade, às vezes, é fruto das próprias escolhas dessas pessoas. Quando alguém recusa insistentemente a olhar pra verdade diante do espelho e lapidar-se ao necessário, não há como esperar resultados positivos e grandes elogios adiante. Se nada fazem pra se tornarem melhores, como podem querer que o mundo as veja como melhores? Talvez entre eles, numa confusa troca de ilusões, possam brincar de ídolos versus fãs. Mas, fora dessa alucinação coletiva de mal gosto, a verdade é que valem igualmente pouco e vivem igualmente infelizes, sem vida própria e sem motivo válido. São pouco úteis, embora aparentem ser os mais requisitados.

Tão importante quanto saber recomeçar é aceitar com tranquilidade as situações fora do ideal. Não significa se conformar e nem mesmo idealizar isso, mas sim sentir-se bem, apesar disso. Há possibilidade de bem-estar em situações que acharíamos improváveis. Temos que reavaliar nossos padrões, nossas referências e nos colocar com outros olhos e outros sentidos diante das coisas. Algo parecido com aquele ditado que diz que ‘quando a vida te dá limões, faça uma limonada’.

Para seguir adiante com ou sem recomeços, é preciso entender quem se é, como o mundo funciona e quais seus limites e objetivos reais. Faça uma lista, mesmo que mental, de prioridades e estabeleça quais delas são mutáveis. Às vezes o que achamos ser imprescindível para o bem-estar hoje, pode ser descoberto como inútil ou até mesmo prejudicial.

Se não tivermos olhos sinceros pra dentro de nós mesmos e para a sociedade ao nosso entorno, seremos sempre a marionete manipulada que caminha pro abismo com um sorriso no rosto, acreditando ter sido levada ao ápice. Se você não entende bem porque está subindo, você não está no controle e talvez só esteja sendo erguido para um salto livre no abismo. O mesmo pode ser dito pra quem não sabe porque está caindo. Há uma frase que diz que ‘a realidade é do tamanho da sua mente’.

“Errar é humano, repetir o erro é burrice.”

Rodrigo Meyer