Prosa | Pessoas pelo caminho.

A imagem que ilustra esse texto é composta de diversas fotos fictícias, meramente ilustrativas e todas marcadas como livres para utilização segundo os filtros de pesquisa de imagens do Google.

Mesmo inteiro e, apesar de encontrar grande prazer em estar sozinho, às vezes penso quão bom é, também, dividir o silêncio com alguma companhia, onde a mente se encante de ver alguém que eu goste por perto. Quão bom é sentir um bom perfume, estar perto de alguém que olhe nos meus olhos enquanto me fala ou, simplesmente, sob a luz apagada, deixa que a voz chegue sozinha aos meus ouvidos, me forçando a prestar atenção, ao mesmo tempo em que relaxo quase à ponto de dormir. Incríveis sensações que gosto de relembrar com as pessoas que já estiveram comigo ou, tão bom quanto, com pessoas hipotéticas com as quais nunca me relacionei, mas imagino como poderiam ser. É tudo um jogo de saudades e idealizações. No final das contas, o que quero, sei bem, é alguém pra dividir o peso do mundo. Creio, firmemente, que duas pessoas caminham melhor se, ao longo da vida, tiverem alguém pra se refugiar. Pra mim, pessoas são casas, mesmo que extremamente temporárias. Elas são companhias e espaços de segurança com quem podemos contar pra alguma coisa, em algum sentido. E boas casas são o lugar perfeito pra passar o tempo e descansar, quando tudo o mais lá fora deixa de ser conveniente em algum momento. Podem ser apenas amizades comuns ou amizades coloridas, encontros casuais, romances, namoros, casamentos ou qualquer outra definição de companhia.

Nunca estive à procura de pessoas. Elas sempre apareceram espontaneamente na minha vida. Às vezes, eu facilitava o caminho cedendo logo no início, mas eram sempre elas que vinham me procurar. Não sei bem o que cada uma dessas pessoas viram em mim. Algumas diziam se encantar com o meu cabelo, meu olhar ou meu sorriso. Já me elogiaram pelo meu jeito misterioso, curioso e sensível. Já ouvi muitas possibilidades, mas é tudo demasiado fracionado e pequeno, ao meu ver, pra que alguém use como explicação pelo interesse. Talvez essas pessoas não soubessem descrever a química, a sintonia, a atração pelo perfume e o mais primitivo instinto em busca de satisfação da libido. Ou, talvez, seja um emaranhado psicológico agindo em busca de sinais inconscientes de compatibilidade.

Quando penso nas pessoas que cruzaram o meu caminho, fico ponderando se os eventuais próximos relacionamentos ocorrerão com pessoas similares ou se eu serei surpreendido por um futuro completamente novo. Depois que a gente entende que pessoas, além de diversas, também mudam ao longo dos meses e anos, seria bobagem esperar por realidades que só habitam a minha memória de um passado que, provavelmente, já não verei naqueles que cruzarem o meu caminho hoje ou daqui alguns anos. E, a bem da verdade, eu gosto disso. Todas as pessoas que eu conheci, tinham realidades muito distintas e surgiram em momentos da minha vida que também eram bem diversos. Já conheci pessoas diurnas, noturnas e indiferentes. Conheci pessoas de diversas aparências, diversas profissões e classes sociais. A própria mente dessas pessoas já eram um show à parte. A personalidade de todas as companhias sempre me surpreenderam em uma longa paisagem cheia de detalhes. Assim como pareciam interessantes em uma visão panorâmica, revelavam aspectos que demorei tempo demais pra perceber que estavam embutidos. Em muitos dos casos, foi isso que me fez perceber que, por mais bonito que seja um campo, se ele estiver repleto de minas terrestres, já não vale a pena ficar pra passear. Às vezes, quando descobrimos o risco, já é tarde demais e ficamos destroçados por uma dessas “explosões”. Por isso, aproveite o momento enquanto ele for bom, pois não sabemos quanto tempo vai durar.

Eu conheci pessoas com a sexualidade exagerada, pessoas românticas, frias, ingênuas, práticas, traumatizadas, melosas, tímidas, extrovertidas e também pessoas assexuadas. Conheci pessoas que tinham aversão apenas ao beijo, enquanto outras preferiam somente o beijo e nada mais. Conheci pessoas de pouco estudo e outras muito estudadas, pessoas com baixa autoestima, bem-resolvidas, sensíveis, artistas, dançarinas, musicistas, jornalistas, advogadas, desempregadas ou “donas de casa”. Estiverem por perto pessoas budistas, cristãs, umbandistas, kardecistas, bruxas, telemitas, ateístas e, claro, pessoas completamente indefinidas. Estive com pessoas de idades diversas e de muitos lugares. Com algumas dividi pouquíssimo tempo, por duas ou três noites, enquanto outras estiveram do meu lado por anos. As pessoas surgiram e ficaram por diversos motivos. Algumas queriam o amor que eu não tinha pra dar e outras queriam, explicitamente, apenas o sexo. Outras estavam confusas entre os dois mundos, diferente das que estavam bem decididas, mas muito mal intencionadas, fazendo teatro na esperança de me agradarem com uma fachada de mentira. Fui experimentando um pouco de tudo nessa vida, pra perceber a beleza e o horror que está em tudo, inclusive nas várias faces de uma mesma pessoa.

Haviam pessoas que eu raramente vi almoçarem, as que comiam o mundo sem nunca engordar, as que se ornamentavam ao extremo apenas pra trabalhar, as que saíam quase do mesmo jeito que acordavam, que estavam na vida por um pouco de aventura e as que queriam estabilidade. Estive ao lado de gente firme, centrada, maluca, deprimida, energizada, festiva, calada, prestativa, acomodada, megalomaníaca, sensata, xucra, simplista, viciada, alcoólatra, doente, quase morta, inocente e depravada. Havia gente do rock, do punk, do gótico, do samba, das raves, da música clássica e de outros meios. Passaram por mim pessoas tristes, felizes, desajustadas, grosseiras, desonestas, virgens atrasadas, mães, gêmeas, brancas, indígenas, mestiças, negras, asiáticas, de muitos tons, traços e etnias, com seus cabelos em tranças, dreads, longos, curtos ou raspados, pretos, vermelhos, azuis, verdes, cor-de-rosa, castanhos, loiros, ruivos, mistos e alternados.

Passaram na minha vida, pessoas genuínas, “de plástico”, com filhos, sem pais, trabalhadoras compulsivas, largadas, queridas, desgraçadas, lindas ou não tão bem lapidadas, almas boas ou nem tanto e pessoas que me deixaram confuso. Já pagaram as minhas contas e eu já paguei a conta de várias. Teve gente importante, desconhecida e intermediária, geeks, nerds, gamers, cosplayers, fetichistas, garotas de vida dupla, modelos e pessoas avulsas das quais nunca conheci nada. Houve gente que nunca achei que conheceria e que meus inimigos espumam até hoje por sempre terem desejado conhecer, sem nunca conseguir. A vida traça surpresas. Às vezes correr atrás das pessoas pode ser só uma forma de espantá-las ou de transformá-las num tesouro a ser conquistado por quem, antes, nem podiam notá-las. Relacionamentos tem muito do acaso. As pessoas certas, na hora certa, fazem o dia acontecer. Eu nunca fui de fazer planos. Decido minha vida em cima da hora. Se algo me cativa e merece meu tempo, eu fico pra ver o desfecho. Vi muita gente fazer planos gigantes e cheios de detalhes, mas, repentinamente, nada daquilo sequer havia sido possível e todo plano foi inundado de desnecessidade. Não há porque planejar relacionamentos, pois não controlamos o destino, muito menos as pessoas. As coisas fluem em seu modo particular e nosso único papel é se adaptar ao novo momento.

Se eu fosse tentar adivinhar quem seriam as pessoas possíveis pros meus dias atuais ou pro futuro próximo, eu teria que atropelar toda a razão e apostar numa figura randômica de qualquer lugar do mundo. Digo isso porque sei que não espero por ninguém, não tenho grandes exigências, exceto alguns valores e condições mínimas. Quero alguém que corra pelo lado da justiça social, que seja avessa à preconceitos e que esteja disposta a conhecer outros assuntos. Muita gente vai ler, mas não vai entender. Há quem vá olhar pra tudo isso e preferir acreditar em uma máscara, uma linda fachada ilusória, mas, na prática, não vai ter essa premissa, não vai saber como viver essa realidade de vida. As mesmas palavras, pra pessoas diferentes, suscita tantos significados divergentes que é quase que inútil descrever. Prefiro deixar, como sempre, a vida me surpreender. Que venham as pessoas que tiverem de vir e eu decido se o que elas têm pra oferecer é compatível comigo. E que elas façam o mesmo ao me verem passar. Relacionamentos deveriam se resumir à isso. Se há compatibilidade, reciprocidade, interesse e oportunidade, está feito o cenário pra se tentar uma companhia. E, no mais, ninguém é obrigado a ter uma companhia, nem a desejar uma pra se sentir vivo na vida. Façam dos seus momentos algo profundamente sincero, espontâneo e com o máximo de sentido pra você mesmo. Não fique à espera de agradar os outros só pra se encaixar em uma sociedade ou um relacionamento. Viver é, basicamente, o oposto disso. Se sentirá mais gente quando desfrutar, ao mesmo tempo, do prazer que quiser e da dignidade que precisa.

Rodrigo Meyer – Author

Prosa | Os bastidores da estrela.

As imagens que ilustram esse texto são fictícias e meramente ilustrativas, sendo fotografias marcadas como livres para utilização, segundo os filtros de pesquisa de imagem do Google.

Por um bom tempo você foi a minha protegida. Eu nunca cuidei de alguém tanto como cuidei de você. Eu te livrei de apertos e enrascadas, paguei seus custos com advogado e estive presente nos seus trabalhos, seus estudos, seus projetos, suas exposições, seus comércios e até mesmo quando você esteve internada. Até minha casa esteve à disposição, pra quando você precisou de moradia. Eu sempre apoiei os seus sonhos e fiz o que os seus “grandes amigos” podiam e não fizeram. Pouca gente quis te ver vencer; pouca gente te ajudou quando você não tinha mais à quem recorrer. Eu estive lá do seu lado nos dias divertidos e nos momentos conturbados.

Nos divertimos muito rindo, bebendo, andando de um lado pro outro, visitando teatros, dividindo a cama e outros lugares. Choramos juntos, fizemos arte, fizemos parte. Ouvimos o que cada um tinha pra dizer, mas só pela metade. Você não se expressava abertamente comigo sobre tudo do seu mundo, porque seu mundo envolvia outras pessoas com quem você também dormia. Isso nunca foi segredo. Assim como eu sabia, você sabia que eu sabia. Eu nunca me importei, na verdade, porque todos nós estávamos vivendo nessa mesma informalidade. Quem talvez tenha se surpreendido, foi teu ex-marido, que, infelizmente, não soube se manter fiel quando esteve casado. Suas fotos de casamento pareciam um evento divertido, com todo aquele improviso, um tempero de rock e o seu jeito prático. Eu adorava isso em você, mas parecia haver um abismo entre o que eu sentia e o que você estava disposta a oferecer. Jamais vou me esquecer que seu ex-marido te agredia e que, quando separada, um dos seus casos também não era das melhores pessoas. Desculpe a sinceridade, mas, para ele, você era só uma pedaço de carne que ele facilmente comeria.

Eu amava o seu cabelo e ele parecia ser importante pra você também. Quando você não se sentia bem com a vida, se destruía, cortando ele de uma forma que viesse a se arrepender. Mas, tudo bem, de qualquer jeito, você se mantinha linda. Eu enchia os meus olhos com a sua imagem, enquanto adorava os seus bem pretinhos, combinando com seu sorriso inigualável. Tinha doçura e humor no seu jeito de falar. Quando você queria, sempre tratava as pessoas da melhor forma possível. Mas, você nem sempre escolhia bem as companhias. Levou calote da colega com quem dividiu moradia e estava sendo roubada pelas costas naqueles comércios que faziam juntas. Foi você mesma quem descobriu e me contou e, não foi exatamente uma surpresa pra mim. Hoje, olhando pra tudo isso, consigo ver que, talvez, você seja uma versão minha. Nós tivemos o péssimo hábito de hipervalorizar as pessoas que nos usavam e nos destruíam. Por algum motivo estranho, ficávamos hipnotizados contemplando quem não merecia. Hoje eu te entendo, porque eu mesmo fiz muito disso na minha vida.

Mas não me arrependo não, pois quando fiz, estava sincero nas minhas intenções e estive ao lado enquanto achei que devia. Fiz de coração, sem esperar nada em troca. Eu queria te ver sorrir todo dia, tentar eliminar as barreiras da sua vida, apenas pra te ver vencer. Você tinha potencial pra muita coisa. Suas artes, em vários ramos, eram sempre aplaudidas de verdade. O que te faltava não era talento, mas um pouco de transparência ou sinceridade. Você tentou ajudar sua mãe, mas nem ela mesma queria. Ela comentava que gostaria de me conhecer, mas esse dia nunca chegou. Talvez tudo tenha acontecido do único jeito que foi possível. E olhar pra esse passado não nos permite mudar aquilo que já vivemos. No fim das contas, você estava tentando descobrir se seu coração amava alguma pessoa nesse mundo, mas, pelo que percebo, você se deu conta de que estava realmente sozinha. Onde estão todas as pessoas que passaram pela sua vida? Foi triste te ver mastigando a depressão, mas eu fiz mais do que estava ao meu alcance em todos os momentos e quando a reciprocidade falhava em momentos cruciais, eu me lembrava de que não estávamos vivendo a mesma vida.

Eu tomei uma decisão difícil e fria de me forçar a ficar longe de você. Eu queria expurgar toda a dependência, todo o apego, todo o desejo e toda a vontade de estar ou falar com você. Pra ser sincero, levou tempo. Nunca quis tanto cuidar de alguém na vida, mas nossos mundos estavam isolados, não estávamos remando pro mesmo lado e você sempre demonstrou com condutas e palavras de que os sentimentos não correspondiam. Eu não insisto em porta fechada, então fui embora e segui a minha vida. Sei que fez bom uso dos presentes pra começar o novo trabalho que você escolheu. Não torço à favor nem contra, pois assim que você foi embora, deixou de ser a minha protegida. Agora você é só uma memória que me faz escrever, pra ressignificar meu passado, as pessoas, os momentos que eu vivi, pra ver se chego o mais saudável possível do outro lado e facilitar a minha própria vida.

Num imenso acaso, quando eu já nem lembrava que você existia, você brotou numa rede social e a resposta que dei foi a única possível. Eu já havia feito tudo que eu podia. Não sei o que se passa pela sua cabeça, mas a vida não permite ensaios. Quando um cristal se trinca pela primeira vez, ele segue trincado pro resto da vida. Mas, certas coisas a gente não escolhe. O coração sente ou não sente, sem pedir licença ou conselho. A vida, nesse sentido, permanece um mistério. Apesar de tudo, obrigado. Isso não é um pedido de desculpas atrasado. Simplesmente eu sei que tudo que eu passei na minha vida me ensinou uma montanha de coisas e também me permitiu momentos muito intensos. É por tudo isso que eu sou grato.

Rodrigo Meyer – Author

[+18] Obrigado pela partida.

A imagem que ilustra esse texto é fictícia e baseada em uma fotografia marcada como livre para utilização, segundo os filtros de pesquisa do Google.

Você chegava no seu carro cor de carmim com os cabelos soltos e ondulados. Tão leve, tão independente, tão feminina. Amava quando você usava o jeans decorado com rasgos pelos joelhos. Te fazia mais garota, mais divertida, mais ousada. Bem me lembro do seu olhar atento, entrando em casa, se recuperando da viagem. Incrível como seu perfume persistia ao tempo. Era um vício aspirar o seu perfume quando te abraçava. Você fazia eu me sentir mais vivo e eu retribuía cada movimento seu.

Bom mesmo era ser surpreendido com seu toque na porta, anunciando sua chegada. Como era bom acordar nessa névoa de sonho, te puxar pra dentro, encostar a porta e te sentir inteira. Matar saudade com os olhos, com as mãos, com você prensada contra a parede, de frente e de costas e notar cada um dos seus ornamentos. Você se produzia toda só pra me ver. Era meu presente, depois de tantos dias longe de casa. E vinha sempre atiçada, como quem estivesse com sede todo esse tempo. Teus olhos brilhavam e tudo em você parecia tão bem escolhido.

Na memória, tenho você em dias diversos, em todas as casas, no cinema, no teu carro. Lá estava você em cima da cama, no sofá, no chão da sala, no jardim, debaixo do chuveiro, no meio do almoço, depois do banho e até quando tínhamos mais gente dividindo o quarto. Você era sempre uma estrela, incansável sereia. Se eu me atirava sobre suas roupas, esfregando o corpo e te beijando, você se contorcia e me colocava pra te admirar. Debaixo da sua blusa, com os ombros de fora, um sutiã branco cheio de detalhes parecia um tesouro à ser descoberto. E como eu ficava feliz de desvendar cada camada. Seus sapatos eram poesia e era impossível não notar como você se sentia usando eles. Se possível fosse, os manteria enquanto te despia. E como era bom perceber o cheiro da sua roupa. Tudo isso fazia eu me sentir especial.

Você gostava de tudo intenso, porque quanto mais desejada, melhor. Com toda intensidade, eu tirava suas calças e te cobria de beijos entre as pernas, até eu me render e te deixar toda nua, impacientemente esperando minha boca molhada devorando a porta da sua casa. Um castelo, devo dizer, cheio de magia. E disso você entendia bem, porque parecia controlar a minha vida. Eu, ciente do que tinha do meu lado, nem precisava me esforçar pra querer fazer todo o esforço possível. Eu simplesmente era compelido a te ver dançar, à querer fundir prazer e prejuízo na mesma equação. E quanto mais eu me esgotava, mais eu queria continuar. Talvez acabássemos mortos por excesso de saudade. E teria valido a pena cada absurdo realizado.

Você sabe que as memórias não se apagam da noite pro dia. Talvez, algumas jamais poderão ser apagadas, porque impregnaram diretamente na alma. Parte de você, alterou a percepção da minha própria vida. Tem você no que eu faço ainda hoje e é por isso que escrevo sem freios, quando lembro do que vivíamos. Tem comigo aquelas tuas graças, seu jeito hilário de parodiar pessoas com seus personagens e também seu jeito inconfundível de falar. Tudo em você era engraçado, porque você enxergava a vida com humor. Tinha isso nos filmes que você gostava, nos bonecos que você moldava, nas artes que sobrepunha às cartas que me enviou. Éramos dois palhaços, rindo um do outro, um para o outro e um com o outro. Éramos imperdíveis e infalíveis. Se hoje eu lembro de você por todas essas coisas, é exatamente isso que eu admiro nas pessoas desde sempre e ainda hoje.

Mas você não soube apenas ser e logo o paraíso te pareceu bom demais pra ser verdade. Começou a imaginar coisas, a ver situações onde não havia, a criar monstros imaginários pra depois passar o dia lutando contra eles. E lutou, até o ponto em que teve que declarar guerra, por debaixo dos panos, talvez por medo, insegurança ou algum fator que eu nunca saberei dizer. Quando você se foi, eu havia pensado que eu estava destruído. Levou tempo, mas depois de uns anos eu percebi que eu tinha vencido duas vezes. Venci quando desfrutei da alegria e do vigor, enquanto ainda existia e depois venci novamente quando você saiu da minha vida, pois já não éramos mais compatíveis, seja lá o que isso tenha sido. O importante é que não prolongamos o que não sobreviveria e voltamos à realidade cinza, cada um com seu próprio plano, tentando se reconectar ao sentido da vida.

Pra você, outros filhos, outros relacionamentos e a volta pra sua casa. Pra mim, outras cidades, outras verdades, outros momentos, novas pessoas, novos aromas, novas intensidades. Não me atrevo a especular ou comparar a vida de cada um. Tudo que posso falar é do que vivemos e do que nos poupamos de viver. Por trás da sua figura engraçada, havia um recheio amargo de preconceito, de racismo e ódio de classes. Se eu tivesse percebido tudo isso desde o início, eu teria te recusado. Mas você foi boa no feitiço, me deixou marcado e conectado por aquilo que temos de mais poderoso e instintivo. Você carregou minhas baterias e me fez transbordar. Mas, pra se viver não podemos atropelar nenhum princípio e, por isso, foi livramento quando você escolheu se afastar. Ninguém é perfeito, mas temos que procurar por compatibilidade e reciprocidade. Décadas depois, cá estou, ainda conseguindo ver que pessoas ruins também tem partes boas. Talvez se aplique, subjetivamente, a ideia de que quanto mais luz incide sobre uma pessoa, mais densa é a sombra por ela projetada.

Pessoas depressivas talvez se pareçam com baterias descarregadas. Se alguém vem nos socorrer, precisamos de muita carga. Mas quando finalmente ganhamos autonomia, a bateria continua a se carregar sozinha, pelo giro do próprio motor. Precisamos manter nosso carro em movimento. E aqui vou eu, levantar voo para a maior de todas as estradas. Tô indo vencer na vida, de um jeito que só eu sei o que significa. Para os que ficam, eu já estou em outro jogo, mas obrigado pelas partidas.

Rodrigo Meyer – Author

Relato | Mentiras, drogas, racismo, agressões e exploração financeira.

A imagem que ilustra esse texto é uma composição incluindo uma fotografia de uma pessoa fictícia aleatória, pra fins de ilustração do texto. Esse é o relato de uma pessoa que passou por um relacionamento abusivo. Por questões de privacidade, substituiremos o nome dela pela letra aleatória A.

“Quatro anos atrás eu estava inscrita em um desses sites de relacionamento. Foi lá que conheci um rapaz. Ele veio falar comigo e eu me senti prestigiada, pois estava em um momento difícil da vida, onde meu pai havia falecido e eu estava frágil e carente. A vinda desse rapaz veio de encontro à minhas necessidades de acolhimento, principalmente por todos os elogios que ele fazia, que era bem o que eu queria ouvir.

Em dado momento, aconteceu de sairmos do virtual para o mundo real. Fomos nos encontrar. Mas algo não ia bem. Ele estava muito agitado, ansioso, preocupado. Olhava para todo lado como se estivesse com medo de ser visto por alguém. Aquilo me deixou um alerta, mas logo eu abafei aquilo da minha cabeça, pois sempre que eu recuava de insegurança sobre ele, ele mudava tentando passar uma imagem melhor. E assim as coisas foram acontecendo, mesmo que já de início os sinais ruins estivessem lá.

Em seis meses, ele já havia me proposto casamento. Eu me sentia contemplada e na época nem percebia o quão cega e vulnerável eu estava. Ele queria que eu encontrasse um vestido de noiva e planejamos até uma festa. Eu tinha minha vida relativamente estável, com um bom trabalho, meu apartamento, meu carro. Ele dizia ter trabalho e de início me pareceu tudo plausível. Tínhamos realidades um pouco diferentes nesse sentido, mas isso não era nenhum problema para mim.

Eu tinha um filho de relacionamento anterior e ele também anunciava ter um. Não demorou muito pra que ele começasse a contar histórias pra me pedir dinheiro. Alegava que o filho dele estava passando por problemas com droga e diante do contexto, eu ajudava. Mas, cada vez era uma necessidade diferente. De repente era um carro quebrado ou outra coisa qualquer. Eu não via nada daquilo na ocasião. Ele sempre tentava demonstrar que estava estudando ou trabalhando, mas tudo vinha muito só da boca pra fora. Quando algo não parecia muito crível ele se esforçava pra reverter a situação.

O casamento ocorreu no civil, abandonamos a ideia da festa, porque o buffet havia dado errado. Foi o começo de mais situações. Ele passava a depender muito de mim, me pedia dinheiro pra muita coisa e, provavelmente, se aproveitava do fato de eu ter um bom trabalho ou de simplesmente ter um trabalho, já que eu nunca soube se ele realmente tinha um também. Quando eu não dava dinheiro à ele, ele ficava agressivo, me ofendia, discutíamos e mais um sinal estava alí, sem eu notar bem o que estava acontecendo.

Houveram momentos em que o descontrole dele evidenciou o racismo. Ele branco e eu negra, dividíamos um teto pra que eu ouvisse dele expressões horríveis que nunca mais vou esquecer. Diante de meu pai, tudo isso parecia o pior cenário. Tentativas de agressões físicas ocorreram, mas a presença dos meus pais, em especial a minha mãe, foram um oportuno freio. De alguma forma ele tentava passar uma imagem positiva na frente dos meus pais, para ganhar a simpatia deles. Mas, como citei, em momentos mais drásticos, nem isso impedia ele de expressar as piores palavras nos cenários mais errados. Já não havia mais nada de bom alí. Eu só estava me sentindo derrotada.

As mentiras dele foram aparecendo e eu fui me dando conta de que ele mentia para tudo. O filho dele não tinha problema algum com drogas e o mais triste é que, era ele mesmo quem estava mergulhado nelas. Me pedia dinheiro pra sustentar o vício em álcool e cocaína. Os cursos que dizia fazer, nunca frequentou ou sequer existiram. Frequentemente era demitido dos trabalhos e eu não me dava conta desse imenso sinal. A nossa vida sexual era ruim, bem ocasional. Nunca suspeitei que o motivo disso fosse os hábitos dele com drogas. Eu só fui me dar conta da loucura que eu estava vivendo dentro de casa, quando eu encontrei um pino de cocaína no bolso da calça dele. Pensei o quão ruim era tudo aquilo, tendo eu um filho novo em casa. Eu não queria nada daquilo pra mim e nem pra minha família.

Não havia motivos consistentes pra estarmos juntos. Tudo que havia era exploração, agressão, mentiras e ciúmes. Com o meu sucesso profissional e meu círculo de trabalho e amizade, ficou muito claro na mente dele que eu tinha um cenário positivo na minha frente e não faria sentido nenhum eu estar com uma pessoa abusiva como ele. Por isso começaram as críticas ensinuando todo tipo de coisa ou tentando controlar minha vida. Roupas curtas eram um problema e até meu trabalho se tornou um alvo pra ele. De certo ele se sentia fracassado e susbtituível e ele se sentiria mais confiante e seguro se eu perdesse o meu bom emprego.

Mas, eu escolhi ouvir a mim mesma e a observar friamente todo cenário. Passei cerca de um ano observando tudo e percebi finalmente que estava em um relacionamento abusivo do qual eu não deveria aceitar jamais. Depois de tudo isso, estava decidida a me separar. Planejei o melhor momento e maneira pra fazer isso. Surgiu a grata oportunidade de uma viagem à trabalho pra outro país. E foi a brecha que eu precisava pra fazer todas as mudanças na minha vida. Anunciei a separação e assim que ele saiu de casa eu pedi que minha mãe trocasse a fechadura da porta. Finalmente me vi livre daquele sujeito. Eu segui a minha vida, aprendi com tudo isso. Ficou a lição de que a vulnerabilidade gerada pela carência foi o que permitiu tudo isso acontecer. Não sei se posso, mas, talvez, chamaria de sorte por isso não ter desviado pra situações piores. Sabemos de tantos outros casos onde as pessoas são ameaçadas, espancadas, violentadas, perseguidas e mortas. Eu sou grata por ter enxergado tudo, antes que tivesse o risco de conhecer cenários piores e de desperdiçar a minha vida em mais anos com alguém que apenas me usava e nunca gostou de mim.

De divórcio assinado e vida reconstruída, hoje eu invisto em mim mesma e não quero saber mais de nada disso. Quero apenas que meu relato sirva de alerta e de motivação para que outras mulheres consigam perceber eventuais relacionamentos abusivos, mesmo que sejam diferentes dessa minha experiência particular. Que todas elas possam se empoderar e descobrir a mulher forte e cheia de potenciais que são. Que todas elas possam desviar de mentiras, observando melhor os claros sinais. Que elas se tornem mais cuidadosas consigo mesmas e que estejam firmes pra não se deixarem levar por falsos elogios ou promessas. Precisamos, todas nós, nos afastar daquilo que não soma nada em nossa vida, de preferência antes mesmo de começar.

Hoje, o que eu quero mesmo é dançar e brilhar, seguir o meu trabalho e sorrir diante dos novos planos que surgiram pra minha vida. Convites aqui, convites por lá, eu sei que tenho muitas opções para dar saltos ainda maiores. Eu já venci e se você focar em você mesma também poderá brilhar.”

A.

[+18] Sexo entre amigos?

Por algum motivo essa é uma dúvida que ainda pulsa na mente de muita gente. Essa insegurança sobre ser viável ou não misturar amizade e sexo é das coisas mais tragicômicas que conheço. Se há alguém com quem você pode compartilhar sexo, certamente essa pessoa é um amigo(a). Não significa, claro, que você só possa fazer sexo se o parceiro(a) for um amigo(a), mas é evidente que problema não terá. Quando alguém me diz que não namoraria ou não ficaria com determinada pessoa por considerá-la um amigo, eu rebato de volta perguntando se ele namoraria com um inimigo, então. A pessoa se desarma na hora e fica sem ter o que responder, afinal é óbvio que se temos atração por alguém e temos uma amizade com tal pessoa, ela é uma pessoa bacana e viável o suficiente pra se dividir sexo, justamente porque não há dissabores ou barreiras emocionais que transformam aquela pessoa no oposto de uma opção viável ou desejável.

Apesar disso soar óbvio, muita gente tem esse tabu ou receio bobo de que amigos não servem pra se relacionar além da amizade. E não passa de um tabu mesmo, que aliás, felizmente, grande parte da sociedade não endossa. Algumas pessoas ainda figuram entre as exceções, talvez por algum trauma, insegurança, complexo, medo ou por puro preconceito constituído na sua formação como pessoa. Mas, uma vez que se alinham com uma visão saudável, isso tende a sumir. Doentio mesmo é manter-se em vigília intensa para nunca se envolver com pessoas que você realmente dedica bons momentos, reciprocidade e que, eventualmente, pode vir a sentirem-se atraídos sexualmente ou, pelo menos, romanticamente. Seja lá qual for o contexto adicional que você veja de interessante, não há nada de incomum ou anormal em desejar partilhar disso junto com a amizade preexistente, bastando que o desenrolar dessa ideia inicial passe pelo menos pelo consenso de todas as partes envolvidas.

As chamadas ‘amizades coloridas’, onde amigos se permitem a relacionamentos sexuais em paralelo a amizade, não são nenhuma novidade. Eu estranho que em 2018, apesar de tanto tempo percorrido, ainda hajam pessoas com tanta privação de liberdade, por vezes acorrentando-se voluntariamente e negando uma realidade mais plena, apenas por inventarem regras que nem mesmo a sociedade possui. Conheço casos isolados que me fizeram bocejar de tão desnecessariamente maçantes. O único lado positivo dessa história é que, provavelmente, essas pessoas não serão frequentes em nossa realidade.

Outra coisa que precisa ser dita e que está bastante atrelada ao tema original é que, amizades sinceras também podem existir entre quaisquer pessoas, independente se é um homem com mulher, mulher com mulher, homem com homem, ou seja lá qual for a combinação de gênero e atração sexual que normalmente cada indivíduo expressa. Um homem hétero, por exemplo, em termos de atração sexual, está direcionado para mulheres e isso nada impede que este homem e as mulheres a quem ele convive não possam desenvolver uma amizade. É evidente que vejo um discurso contrário a essa realidade, afinal a sociedade ainda é marcada por preconceitos e generalizações. Sei que muita gente diz de maneira convicta de que amizade entre ‘homem e mulher’, por exemplo, não existe, em razão do potencial interesse sexual que estará “inerente” a estes. As pessoas que dizem isso, falam por si mesmas apenas e, se elas não possuem capacidade de gerir amizades reais, por conta desse fator, isso só aponta uma condição exclusiva delas e não de uma sociedade inteira. O mundo, felizmente, não gira em torno de um determinado indivíduo.

O que talvez ocorra é que, por ser completamente natural que haja a possibilidade de atração sexual e/ou sexo entre amigos, quando isso ocorre, parece ser a comprovação, para alguns, de que esse é o inevitável desfecho para amigos naquelas configurações de par. Mas, como dois equívocos não fazem uma verdade, voltamos a destacar que isso não procede. É evidente que pode ocorrer de nos depararmos com pessoas que, de fato, só constroem amizades com outras pessoas tendo esse objetivo sexual e, em uma sociedade machista e fútil, isso pode até mesmo representar um número grande de indivíduos. Mas, mesmo que 99,99% da população de todo planeta tivesse essa conduta doentia, ainda sim, não seria 100% e não faria valer a ideia de que é uma condição nata entre a condição do problema e o desfecho proposto. Aliás, cada vez que alguém reafirma essa ideia preconceituosa de que não pode haver amizade sem que haja necessariamente segundas intenções sexuais em paralelo, está deixando um reforço nesse pensamento e modelo de sociedade, ampliando o número de pessoas que passa a viver sob essa ótica. Quem não se sente confortável com uma ideia que está em tendência na sociedade deve se engajar justamente na propagação das ideias que acredita e quer ver, para que seja exemplo pela palavra e pela prática. Simples assim.

É interessante pensar que se uma sociedade se fecha para estes aspectos completamente naturais dos relacionamentos humanos, não é de se espantar que, quando estão em um namoro ou casamento, frequentemente estão infelizes, convivendo com alguém que, ironicamente, não são amigos ou melhores amigos entre si. É tragicômico ver que as mesmas pessoas que criticam tanto essas misturas entre amigos e parceiros sexuais, passam para o namoro ou casamento com um ar de frustração por se aperceberem que aquele com quem estão dividindo um relacionamento sério, não construiu uma amizade paralela, afinal, estas duas coisas estiveram separadas desde o início, por decisão equivocada deles mesmos. O que pode ser mais desastroso do que esperar saborear um pão, mas não ter incluído na receita a massa. Percebe?

As pessoas assistem com brilho nos olhos os casais que perduraram felizes juntos por muitos anos, até o final da velhice, mas nunca param pra notar o que estaria por trás de alguns destes relacionamentos. Se não é a constituição de uma amizade sincera, não sei mais o que seria, afinal, depois de certa idade, atração sexual é que não será. Se só nos preparamos pra viver a faceta sexual de nosso ser, estamos fadados a um fracasso miserável na vida, a ponto de terminarmos sempre e toda vez, infelizes e insatisfeitos com o mundo, com nós mesmos e com qualquer outro que cruze o nosso caminho, afinal, a vida não é feita só de sexo. Um bom relacionamento é, sobretudo, uma troca de bons momentos, experiências e cuidados. É preciso ter muita sintonia, compaixão, amizade, interesse sincero e transparente pelo bem-estar do outro. Formar um bom relacionamento é construir um espaço  que não sufoca ninguém, mas cativa as partes envolvidas a quererem estar por ali para mais e mais. A vida pode ter muitos mistérios indecifráveis, mas alguns, claramente, são tão explícitos que chega a assustar ver que muita gente ainda não está conseguindo enxergar.

Consigo entender que muita gente esteja amargurada, traumatizada e sem esperanças pela vida, afinal, muitos indivíduos já tiveram experiências pouco frutíferas no campo das relações humanas. Porém, por isso mesmo, é importante estar sempre aberto aos erros cometidos, para não acabar fomentando um cenário que gera estes mesmos episódios mais e mais vezes, num círculo vicioso doentio. Uma sociedade que só replica desafeto, ansiedade, hipervalorização do sexo e subvalorização do afeto e da amizade, certamente está atirando no próprio pé e não está se dando conta. Dessa maneira, vai sempre se incomodar com a dor do ferimento, negligenciando o fato de que foi ela mesma que se sabotou.

Relacionamentos amorosos devem ser exercidos por pessoas aptas, maduras, independentes, livres e seguras de si. Diante de algo tão importante, não se pode achar que a ansiedade do momento vá ser parâmetro útil pra definir como ou com quem se relacionar ou não. Embora não possamos ter muito controle sobre quem nos será uma paixão ou atração sexual, podemos, com toda certeza, escolher nossa conduta diante desses sentimentos. Se algo lhe foge ao controle, nesse sentido, busque ajuda profissional, pois não é saudável e nem faz parte da natureza humana estar sem controle de seus atos por conta desses impulsos citados. Há muita coisa que motiva o ser humano a idealizar ou até aspirar determinadas realidades, mas, se o contexto de um relacionamento não é recíproco ou não nos é conveniente para o bem-estar de uma das partes, é hora de simplesmente buscar outras opções viáveis. Não gaste tempo na sua vida procurando fazer caber o que não cabe. Forçar uma ilusão a se adequar a realidade é o mesmo que plantar o conflito, enquanto poderia estar dedicando tempo e energia pra algo que realmente tem potencial de se concretizar e lhe trazer bons momentos. Pense nisso, faça boas escolhas e, assim, terá melhores chances de ser alguém feliz.

Rodrigo Meyer