Seu medo, seu inimigo.

Na temática da autossabotagem, o medo ganha disparado. Indivíduos que baseiam suas vidas em uma grade constante de medo, estão sempre paralisados e aquém de seus potenciais. O motivo é muito simples. A medida em que determinam aquilo do qual possuem incerteza, insegurança, receio ou pouca resolução, tornam-se resistentes a isso, no sentido de armar uma postura de defesa, de recusa. E, claro, se recusamos algo, ficamos sem.

O ser humano consegue desenvolver muitas nuances de medo e consegue controlar também como e quando isso o afeta, desde que esteja em domínio na causa do medo ou do tema ao qual ele se refere. Há pessoas, por exemplo, que possuem medo de se envolver emocionalmente com outras e, por isso, recusam as oportunidades, incluso as positivas, apenas porque automatizaram uma defesa. Tal mecanismo de defesa, extensamente conhecido na Psicologia, faz as pessoas serem vítimas de si mesmas, antes de sequer terem a chance de se tornarem aquilo que não queriam inicialmente: tornarem-se vítimas de algo ou alguém.

Mas é claro que nada é tão simples como apenas definir o que sentir ou pensar sobre as coisas. A mente humana gera situações, ideais e estruturas com base em traumas, complexos e outros contextos que fragilizam o indivíduo a ponto de colocá-lo fora da lógica ou da naturalidade. A exemplo disso, algumas pessoas se sabotam, consciente ou inconscientemente, fugindo de monstros imaginários. Há quem sonhe com estilos de vida, empregos e todo tipo de realidade de carreira ou vida pessoal e, quando colocados a exercer essa jornada, recuam sob inúmeros pretextos. Alguns lançam mão do artifício de sentirem-se inaptos ou insuficientes pra tal feito. Vão dizer que não há saída pra eles ou que não podem aderir a algo, simplesmente porque as condições não permitem. É hora de criar mil e uma fantasias pra tornar aquela realidade desejada, porém assustadora, algo inalcançável. Começa, então, um show de desvios pouco racionais.

Sinta-se a vontade pra rir desse caso que vou usar de exemplo. É o primeiro que me vem na mente de forma instantânea. Trata-se de uma pessoa que passou a vida toda se queixando da vida difícil, dos poucos recursos financeiros, ao mesmo tempo em que, sempre que tinha qualquer progresso ou brecha para melhorar de situação, tomava alguma decisão que eliminasse as chances de desfrutar daquilo. Foi o caso, por exemplo, de quando, diante de uma promoção de cargo no emprego, decidiu pedir demissão ao invés de usufruir de um trabalho com melhores condições e muito melhor remunerado. Qualquer pessoa mentalmente saudável e sensata acharia um disparate essa conduta. Mas, pra uma pessoa que morre de medo de tornar-se próspera, qualquer porta pra essa guinada na vida era motivo pra se afastar, sem pensar muito. O único motivo pra se considerar esses medos patológicos é justamente a característica de oposição ao bem-estar da pessoa e da ausência de motivos racionais pra tal. Se pratica, por opção própria, uma conduta que não a ajuda a se sentir melhor ou a viver em melhores condições, então vê-se aí uma situação doentia.

Ainda nesse exemplo citado, a pessoa sentia-se tão apavorada com a ideia de prosperar, que sempre que tinha a sorte de conquistar algum dinheiro, fazia o pior uso possível desse dinheiro, exterminando ele em pouco tempo com algo completamente desnecessário. Uma vez compreendida a estrutura desse tipo de autossabotagem, pode-se imaginar inúmeros outros casos em todas as temáticas da vida, onde as pessoas simplesmente inventam motivos pra continuarem insatisfeitas com a vida. Cutucando suas mentes, voltando ao tempo da infância (provavelmente), frequentemente encontram as razões pelas quais sentem-se pouco merecedoras dos benefícios da vida ou da própria liberdade em viver. Quase sempre é uma interpretação automática da mente depois de associar que a postura ou palavra depreciativas de alguma figura importante (como um pai ou mãe) tenham sido convertidos em uma espécie de impressão sobre si mesmo com base nesse critério. Em resumo, é como se a mente da criança complexada pensasse: “se meus pais não me enalteceram, então eu não tenho valor” ou “se meus pais me diminuíram, então não tenho valor” ou ainda “se meus pais estavam ausentes, é porque eu não era importante pra merecer a presença deles”. Esse tipo de associação fácil é comum, mas é uma falha da mente, especialmente na infância em pessoas com baixa autoestima ou de mente mais frágil.

Contextos similares podem fazer as pessoas terem condutas de autossabotagem sem perceber que tudo aquilo de que fogem, pode simplesmente ser uma fantasia desnecessária. Ao mesmo tempo em que sentem-se mal pelos reveses que elas mesmas criam, não conseguem parar de criar. Essa automação na mente e nas condutas diante das decisões, pensamentos e relacionamentos, pode gerar uma espécie de personagem que toma o lugar do indivíduo, como que se já tivesse se esquecido quem ele é ou poderia ser, depois de ter passado tanto tempo endossando a figura diminuída, frágil, lida como incapaz ou não merecedora. Reverter essa visão e essa automação é uma tarefa que o indivíduo está habilitado a fazer, se assim quiser. O sucesso disso depende de quanta noção e disposição ele tem pra varrer e transformar a si mesmo. Não é fácil encontrar-se diante do espelho e falar umas boas verdades, antes de se estar devidamente imune ao peso delas. O caso é que verdades só pesam para quem as evita. Tão imaginário quanto os equívocos dos complexos é essa visão de que verdades são incômodas. Quando estamos em posição de querer viver melhor ao invés de nos prejudicar, a verdade torna-se algo que desejamos com afinco a ponto de sentirmos prazer e alívio em lidar com ela. E é tão somente isso que deve ser a vida.

Agora que sabemos que o medo é nosso inimigo, se não quisermos paralisar diante de nosso potencial na vida, precisamos reforçar nossas escolhas, nosso pensamento, nossa autoestima, nossa mente, revendo nossos problemas de infância, nossas crenças, nossas aceitações e recusas diante das figuras que julgamos importante, inclusive a que deveria ser a mais importante de todas: nós mesmos. Se tomarmos a iniciativa de nos presentear todos os dias com coisas boas, evitamos de fechar nossas portas para uma jornada melhor, maior ou, pelo menos, mais interessante. Não é o caso de pensar que, apenas tendo autoestima e coerência com nossas decisões, já seremos as pessoas mais sortudas do mundo, mas sempre que estivermos diante de alguma situação de oportunidade, teremos, ao menos, condições de tentarmos, de aceitarmos o que nos vem e fazermos o nosso melhor com aquilo. O que estiver ao nosso alcance, devemos fazer pleno uso e o que não puder, tudo bem. A vida começa a fazer um sentido diferente, quando percebemos que ela não é nem o passado, nem o futuro, mas exatamente o momento vivido em cada ocasião. Sinta-se livre pra desfrutar da vida, pois é basicamente isso que determina o resultado da equação. Uma vida melhor, está atrelada ao quanto pudemos aproveitar dos momentos e ter isso como nosso histórico na mente e nas relações com o mundo. Como em um jogo de xadrez, cada novo passo que damos, interfere nas novas opções que teremos em seguida. Não jogar não nos faz vencer e nos sabotar nos faz perder sem necessidade.

Rodrigo Meyer

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