Crônica | Os três bandidos.

Ela, a quem chamarei de Fabiana apenas, para suprimir a identidade, era daquelas que adorava enaltecer a polícia e criticar bandidos. Porém, Fabiana comprava câmeras roubadas, apenas porque lhe convinha, era mais barato do que ter que trabalhar pra adquirir uma. Fabiana se sentia empoderada em criticar gente como ela mesma: bandidos. No fundo, eram todos unidos. em uma mesma cadeia de processos. O ladrão de câmeras roubava as pessoas usando armas conseguidas, direta ou indiretamente, com a própria polícia. O tráfico de armas sempre a serviço de mais e mais criminalidade. Fabiana alimentava tudo isso, desnecessariamente. Quando colocada diante da contradição, espumava de raiva por dentro a ponto de arquitetar ideias patéticas como inventar preferências por carreiras como na Polícia Científica. Por dentro eu ria, ao mesmo tempo em que lamentava a ignorância saturada. Que gente fraca, quanta desonestidade em um ser só. Como poderia caber? E o que são estas pessoas senão esse falso crachá de moralidade, só pra justificar ódio e egoísmo? O crime? Sempre esteve ao lado destes. Honestidade não é o forte de quem é peça indissociável do crime. Fabiana deve estar se amargando essa hora, mesmo depois de anos, ao lembrar que não tinha argumento válido pra sua ideia e conduta. Fabiana queria comprar câmeras de quem rouba câmeras, mas não queria que roubassem a câmera dela. Fabiana é muita gente. Fabiana é o câncer da ignorância que mata a sociedade todo dia.

Rodrigo Meyer

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Crônica | O dia que não nasceu.

Hoje eu não trabalhei, não aguardei pela hora do almoço, não botei o prato em cima da mesa, não entornei o copo de bebida, não sorri. Hoje eu não lavei roupa, não arrumei a casa, não movi nada de lugar, não troquei de roupa, não me olhei no espelho, nem cozinhei. Hoje eu não tomei sol, não andei na rua, não peguei fila, não paguei contas, não socializei. Hoje eu não fiz nada além de acordar, sentir tontura e sentar. Sentei, fiz o meu melhor, resisti mais tempo e me coloquei a dormir novamente, guardando forças pra um momento mais oportuno. Hoje o dia não nasceu e nem sei se deixei alguma semente pra que amanhã nasça. Quem sabe do meu histórico recente, sabe das minhas prioridades. Ninguém se importa. Todos hipócritas. Ao menor sinal de um dedo apontado evidenciando suas hipocrisias, se doem, se armam contra. Adoram dizer que apoiam causas humanas, exceto se precisar fazer algo. O rótulo é mais fácil de carregar e ainda dá um belo status diante da sociedade idiotizada que vive de aparências e mentiras. Se hoje o dia não nasceu, a maior parte da culpa é da sociedade que já tá morta. Acreditam estar vivos, afinal, andam, compram e falam. Apenas não pensam, porque isso revela o lado amargo da realidade. Covardes.

Rodrigo Meyer

Muita demanda, pouca oferta.

O ser humano, geralmente, está em busca de alguma oportunidade de se destacar em uma atividade, mas as pessoas, frequentemente, possuem preguiça ou desinteresse para específicas atividades ou áreas de estudo e, justamente por isso, estas oportunidades sobram pra quem tenha disposição e interesse de ocupá-las. É como diz a expressão: “A preguiça de uns é o trabalho de outros.”.

Quando tive a oportunidade de entrar pra faculdade de Ciências da Computação, foi interessante ver quão poucas turmas e cursos haviam pra esse segmento. A sala começou com mais de 40 alunos e gradualmente foi esvaziando. No final do curso sobraram apenas umas 5 pessoas que se diplomaram e foram elas que colheram os frutos disso, ao poder brilhar em suas carreiras. Da única pessoa que eu conhecia e mantinha contato nessa fase pós-faculdade, sei que a pessoa fez ótimo proveito da carreira. Estudou pra valer, se concentrou no necessário e teve trabalhos interessantes, inclusive com a oportunidade de reinvestir em si mesma para novos cursos, viagens e aprendizados. Em resumo, em uma sala onde nem todos estavam dispostos a seguir naquela profissão ou estudo, alguns estavam e, por isso, saíram na frente.

Mas a vida é múltipla. Quando saímos de uma área ou nem sequer entramos nela, temos a oportunidade de ir pra outra atividade. Contudo, algumas atividades são tão comuns, que estão saturadas. É o caso da área de Direito, onde muita gente se forma, mas a seleção da OAB filtra, por prova, os melhores, justamente pra não saturar o mercado de gente que vai acabar não tendo espaço pra exercer a profissão pretendida. Diversas outras áreas também se tornaram “febre”, por assim dizer, deixando áreas menos comuns com menos interessados e, portanto, com menos concorrência. A concorrência em si não é ruim, mas quando o mercado se satura exclusivamente de umas poucas profissões, isso desestabiliza a sociedade, pois o mundo não precisa só de meia dúzia de tipos de profissionais, serviços ou produtos. Então, a diversidade é mais saudável e útil para a própria sociedade, tanto coletivamente, quanto pelo benefício pessoal de conseguir se estabelecer profissionalmente como indivíduo.

A realização pessoal de muita gente acaba revista quando notam que, embora gostem de uma determinada área, não conseguem sobreviver com a realidade do mercado gerada em um contexto de saturação ou de desvalorização. Ocorre, também, das pessoas terem expectativas muito otimistas sobre determinada profissão ou área de estudo e acabarem frustradas ao descobrir que, na prática, não é tão glamouroso como pensavam. Tudo isso gera uma adequação quase que automática, colocando pessoas indispostas para fora de uma atividade e segurando as que se adequaram. Não há problema algum em se descobrir incompatível ou desinteressado com determinada área. Tudo que temos que fazer é exatamente nos descobrir, pra podermos fazer escolhas mais assertivas. Foi assim comigo quando abandonei a faculdade de Ciências da Computação por ver que não estava apto a lidar com tanta matemática enquanto ainda tinha que tentar absorver os princípios da computação em si. Admiro quem consegue e sigo interessado pela área, mas só volto à mergulhar nela se eventualmente me sentir apto a lidar com a quantidade de matemática que me freou na época.

Ao invés de me sentir frustrado, eu segui para outro curso. Fiz a faculdade de Comunicação Social e realmente me senti entretido o suficiente pra chegar até o final das aulas. Foi uma experiência muito boa pra mim, especialmente pelos professores que conheci e pelos momentos divididos entre as pessoas da época, pelos corredores, bares e casas noturnas. Mas, meu objetivo neste curso, por já ter conhecimento na área, não era ter determinados tipos de emprego como era pra todos os demais alunos. Pode-se dizer que fui a ‘ovelha-negra’ do curso, mas sigo tirando proveito e trabalhando com isso exatamente no espaço deixado pelos demais. Enquanto eles tentam ocupar uma área que, pra mim, era insatisfatória, discordante e saturada, eu escolhi atuar justamente onde ninguém tinha olhos ou interesse: apoiar pessoas, causas e pequenos negócios com ajuda do conhecimento que eu tinha. Apesar de não ter dinheiro pra gerir minhas próprias iniciativas nesses meios, consegui alavancar muito bem minhas mídias e ideias, até o ponto onde elas só não progrediram pra algo maior, por essa barreira financeira. Isso mostra que ocupar uma área onde outros não querem, pode ser bastante próspero, desde que haja suficiente apoio inicial.

Usando um dos exemplos que eu conheço, por conta da minha proximidade com o tema, cito a própria área de programação e TI, onde os salários propostos pelas empresas podem chegar a fantásticos R$ 100 mil reais por mês, justamente porque existe tanto potencial na informática e tão poucos programadores disponíveis, que um salário alto é a forma que encontraram de tornar a área atraente pra que mais pessoas se formem em computação, análise de sistemas ou alguma coisa relacionada a TI, podendo, assim, ocuparem as vagas que as empresas mais valorizam atualmente. Dessa escassez, pode-se encontrar até mesmo oportunidades como ter o curso de faculdade bancado pela empresa que pretende lhe contratar ou mesmo de ter uma vaga de trabalho praticamente garantida já no segundo ano de faculdade. Além disso, inúmeros brasileiros são tentados a trabalhar como programadores no exterior, justamente pelo combo salário + qualidade de vida de determinado país (frequentemente na Europa) ou, então, por poder estar em uma empresa renomada internacionalmente como Google, Microsoft ou Facebook.

É claro que estar ausente desse mercado não é, por si, sinônimo de preguiça. Há pessoas que simplesmente se esforçaram ao máximo pra tentar, mas não conseguiram, por inúmeras razões possíveis. Algumas pessoas não possuem condição de bancar um curso até o fim, outras não conseguem passar na seleção de uma faculdade pública e outras simplesmente podem ter se visto destoantes do tipo de estudo ou realidade de determinada área ou profissão.

Contudo, em várias outras atividades da vida cotidiana, é sim a preguiça de uns que abre portas para outros profissionais. Quando as pessoas não querem ter que lavar a própria louça, o carro ou casa, estão abrindo uma demanda pra que outras pessoas façam isso. Geralmente, em nossa sociedade discriminatória, esses trabalhos são evitados pelas pessoas com mais renda, renegando as pessoas de menor renda a aderirem a esses trabalhos que ninguém quis fazer, por demanda e por falta de capacitação ou espaço pra outras funções. Assim como existem muitas pessoas que ocupam as vagas de diarista, faxineiro, gari ou lixeiro, por exemplo, por não terem estudos suficientes pra pleitear vagas com exigências maiores de formação escolar, também existem as que migram pra essas áreas quando se veem desempregadas nas áreas em  que estudaram e se formaram, seja por saturação do mercado ou por algum revés pessoal. Fato é que, em ambos os casos, onde muita gente não estiver interessada de fazer algo, alguém virá pra fazer. O grande porém é que em países que discriminam as pessoas e os serviços, a remuneração dessas áreas tende a ser precária, como é o caso do Brasil. Em alguns países no exterior, profissões como a de lixeiro são uma das mais bem remuneradas, justamente porque as pessoas reconhecem a importância desse trabalho, cientes de que, sem isso, estariam no caos. Em tais países, existem lixeiros com faculdade, casa própria, dinheiro excedente pra viajar o mundo, etc.

Há muita coisa que é relativamente fácil de se aprender e executar, mas que muita gente evita, por que tem preguiça mesmo. Quando as pessoas não pensam por conta própria, por exemplo, abrem um enorme espaço pra que colunistas de pseudo-mídias ocupem e determinem o que é que as pessoas devem “pensar”, “concluir” ou replicar aos demais como “adequado” ou “correto”. Outro prejuízo se vê quando as pessoas deixam de exercer seu potencial artístico, por exemplo, ficando sujeitas a serem meras fãs passivas de algum artista. Isso não é saudável e, por vezes, pode ser apenas uma forma de você gastar muito dinheiro pra que outra pessoa faça o que você teve preguiça de se envolver. Noto isso em inúmeros casos de famílias que optam abertamente por babás na criação dos filhos, ficando completamente omissas da função na maternidade e paternidade. Consigo entender a inscrição de filhos pequenos em creches ou em  episódios isolados de tutoria com babás, mas se isso é o padrão de uma família na maioria dos dias, certamente comprometerá a relação entre pais e filhos.

Eu, ao contrário da tendência no mundo, sou daqueles que gosta da fazer tudo (ou quase tudo) por mim mesmo. Eu amo limpar a minha casa, organizar as minhas coisas, solucionar um problema do computador, seja em hardrware ou em software, cozinhar pra mim e, eventualmente, pros outros, fazer as compras no supermercado, pagar as contas, me enveredar pela minha expressão artística e literária, ler e estudar aquilo que ainda não domino pra impor, eu mesmo, tais benefícios aos meus projetos e necessidades. Me propus a estudar Idiomas, Culturas, História, Sociologia, Psicologia, noções gerais e básicas de Medicina, Direito e diversas outras áreas do conhecimento. De certa forma, estar ativo em todas essas coisas, pra finalidades pessoais de conhecimento e lapidação, me motivam ao invés de me deixar em preguiça. Aliás, se eu tivesse 8 mãos e estabilidade financeira, faria muito mais. Por vezes, deixei de expandir minhas ideias, simplesmente porque era, no meu contexto, impossível de se fazer.

Mas, a verdade é que eu não tenho como criticar os preguiçosos, afinal é por conta deles que sobra espaço pra que os demais façam algo, criando suas carreiras e tirando seu sustento na vida. É ótimo que o mundo seja diverso, desde que as pessoas sejam conscientes de que quando escolhem não estudar e não fazer as coisas por conta própria, terão que remunerar bem quem remou contra a maré da sociedade e decidiu estudar e fazer tal coisa. Então, é preciso, pra ontem, valorizar os fotógrafos, os cozinheiros, os lixeiros, os designers gráficos, os pintores, os professores, os músicos, etc. Ou seja, se você gosta e precisa de algo que você não domina, terá que valorizar quem domina, senão tal área tenderá a ficar precarizada até sumir ou se degenerar em qualidade. Se você não investe um valor justo pra que um profissional viva dignamente e possa estudar e se aprimorar na carreira pra te oferecer sempre um serviço cada vez melhor, você está, basicamente, plantando uma realidade onde os serviços e profissionais serão cada vez piores e mais raros. E, se eles se tornam piores, não trazem bom retorno pra quem os contrata. No caso de se tornarem raros, podem se tornar caríssimos e restritos somente aos que realmente entendem o valor daquilo, ao mesmo tempo em que podem pagar por tal valor.

Então, para não dar tiro no próprio pé, é preciso saber sustentar uma modelo de trabalho com remuneração justa. A lógica é simples, mas muita gente não tem paciência ou apreço pra se ver diante dessa realidade incômoda todo dia, por isso raramente refletem sobre essa urgência. E, se muitos não refletem, lembre-se, alguém vai ocupar esse vazio e refletir por eles. Espero que tais substitutos sejam sempre pessoas bem intencionadas e capazes, pois, do contrário, o mundo acabará mergulhado em realidades cada vez piores, como ocorre no Brasil, por exemplo, onde empresas, mídias, políticos e personalidades ditam a asneira conveniente que desejam pra manipular e extrair lucro e poder em cima dos incautos na população.

Inclusive, o fato de muitos não saberem diferenciar uma pessoa capacitada e correta de uma fraude é a demonstração de como tal pessoa se absteve tanto tempo da autonomia de pensamento dos assuntos do mundo, que acabou criado e moldado pelos que vieram pra moldar e ditar a realidade trágica dessa pessoa. E claro, entre indivíduos mal intencionados, um dos primeiros objetivos é fazer o público apontá-lo como líder ou referência, assim ele pode continuar controlando as pessoas com a própria aprovação delas. Alguém que vive esse cenário onde é usado e mesmo assim apoia ou defende seu opressor, diz-se que a pessoa tem Síndrome de Estocolmo. Depois de tudo isso, afinal, de que lado você quer estar?

Rodrigo Meyer

Cansaço e comodismo são a mesma coisa?

A imagem que ilustra esse texto é parte da fotografia de autoria de Eslam Ashraf.

Será que há semelhanças entre cansaço e comodismo? Definitivamente não há, mas mesmo assim, por conveniência própria, muita gente gosta de chamar as pessoas cansadas de acomodadas. É apenas um jeito fácil de não ter que pensar no problema real pelo qual aquela pessoa passou a ponto de não estar conseguindo ser mais produtiva ou tão produtiva.

Nossa sociedade espera que sejamos ativos, principalmente pra dar conta das atividades básicas de trabalho e manutenção da vida. Muitas pessoas, infelizmente, perderam suas infâncias, quando tiveram que dar suporte a sua família, trabalhando em casa ou até mesmo fora de casa, pra aumentar um pouco que fosse a renda ou a alimentação. Muitas dessas crianças sem infância, tiveram que trocar a diversão pelo trabalho praticamente forçado, atuando desde jovens em serviços que até para adultos é pesado. Se uma pessoa percorre um histórico desse e em algum momento desenvolve depressão a ponto de não conseguir quebrar a rotina de dormir e acordar, um piano cai sobre suas costas pela opinião preconceituosa e opressiva das pessoas que chamam essa pessoa de ‘acomodada’. Pra piorar o quadro, se essa mesma pessoa tentasse ganhar credibilidade na sociedade, provavelmente não conseguiria, pois ficaria vista como alguém que não se esforça mais.

As pessoas fingem interesse em progresso social, estudo e trabalho, mas na verdade só estão destilando ódio contra as pessoas as quais elas nada sabem ou escolhem não saber. O preconceito de muitos força a visão a permanecer fechada, especialmente quando a realidade que poderia ser vista, evidencia a opressão e o opressor. Quando a realidade anuncia aos gritos os culpados de todo caos, dor e insucesso, as pessoas, acovardadas diante do fato de que não fizeram nada pra favorecer a sociedade, transferem essa culpa ao próprio oprimido, pra tentarem se isentar de qualquer responsabilidade. Não funciona, claro, e ficam irritadas e descontam essa irritação novamente aos seus oprimidos e a quem tenha exposto essa realidade.

As pessoas cansadas estão em toda parte. É a criança recolhendo latinhas de alumínio pra vender na reciclagem e tentar sobreviver, sem saber ao certo onde está sua infância; é o idoso abandonado pela família quando ele mais precisava de apoio; é a pessoa com a doença da depressão, sendo desacreditada na família, na escola, no trabalho, entre os amigos e na sociedade em geral, tentando simplesmente ficar vivo, mas sendo sabotado pelas químicas de seu cérebro; é a mulher que abandona o emprego e os estudos quando enfrenta a sensação de ruína em um estupro; é o desemprego anunciando portas fechadas na cara de pessoas dispostas a trabalhar e que passam meses sem opção alguma de dignidade, por vezes sem sequer conseguir manter-se limpo e com um currículo na mão pra suas próximas tentativas. Aqui eu poderia citar infinitos outros contextos onde as pessoas simplesmente podem se ver cansadas e, de forma nenhuma, acomodadas.

Acomodados, mesmo, são os que enxergam essas pessoas com maus olhos, que não param pra notar que elas chegaram em seus limites ou que simplesmente estão em condições que as impedem de fazer qualquer coisa sobre a situação em que estão. A sociedade sujeitou essas pessoas a uma inação ou a uma realidade tal, que somente a sociedade pode resolver e, claro, não quer resolver e não resolve. Acomodados são aqueles que evitam saber que é perfeitamente possível que todas as pessoas no planeta tenham farta comida, renda estável, estudo e uma atividade (profissional ou não) que contemple seu potencial, seus desejos ou objetivos. Acomodados são os que tem fortunas financeiras, privilégio na sociedade e mesmo assim escolhem não fazer bom uso disso com melhor aprendizado sobre si mesmo, sobre o mundo. São acomodados os que, apesar de terem um emprego e estarem plenamente bem de saúde física, fecham os olhos pra quem destoa dessa realidade. Aqui também são inúmeros os casos que poderíamos citar.

Somos uma sociedade hipócrita que enaltece os que fazem muito sem nenhum esforço ou barreira, chamando esses fracassados de líderes, exemplos, etc. Ao mesmo tempo, tornam insignificantes os que, apesar de imenso esforço, não conseguiram sair do buraco em que a própria sociedade os colocou. Se você jogar um peixe em um poço vazio, ele nunca vai sair do fundo, mas se o poço estiver cheio de água, a condição está favorável pra que um peixe ativo consiga permear todo o poço, como bem entender. O que nossa sociedade faz, usando ainda a metáfora do poço, é simplesmente construir um poço e nunca enchê-lo de água. Dessa forma, quem está fora do poço se vangloria de não estar lá embaixo e acusa quem está lá embaixo de ser acomodado demais pra subir. São construtores e donos desses “poços” os banqueiros; os corruptos; os que receberam imensas terras gratuitas do Estado e repassaram essas vantagens aos seus familiares; os herdeiros de pais ricos que nunca trabalharam um dia sequer na vida, bancados por um estilo de vida fácil, onde podem viajar sempre ao exterior, viver de investimentos e negócios abertos por seus parentes, esperarando passivamente o lucro abusivo cair em suas contas bancárias e desperdiçando suas comidas enquanto ofendem a classe trabalhadora em suas pseudo-conversas de mesa. Esses são tremendamente acomodados.

Vencedores, mesmo, são aqueles que permanecem vivos e dignos, apesar da vida dura que levam; os deprimidos que escolhem dormir pra não se suicidarem; os que se recusam a vida criminosa ou antiética, mesmo não vendo nenhuma oportunidade honesta de trabalho; os que escolhem ficar sozinhos, do que se envolver em relacionamentos tóxicos; os que preferem não enganar o público em troca de lucro fácil ou maior; os que não abaixam a cabeça pra violência do Estado e das quadrilhas paramentadas, mesmo sabendo da realidade; os que escolhem ser úteis ao mundo, mesmo tendo plena certeza de que é o mundo que lhes deve utilidade. Outra vez, inúmeros casos se encaixariam aqui.

Se houvesse tempo e menos cansaço, poderíamos listar cada um dos chamados ‘cânceres sociais’ e desmascará-los um a um, nesse nefasto sistema que favorece somente ao desonestos e antiéticos. Não se pode esperar que uma sociedade construída pelos mal intencionados, venha a ser uma construção diferente deles mesmos. Tudo que fazem é encontrar uma brecha fácil e barata pra explorar friamente qualquer outra pessoa que não tenha tido o azar deles em ter nascido em uma família ou contexto social que os coloca como fracassados acomodados em oposição aos que tiveram que optar pela dignidade, trabalho e, infelizmente, pelo pouco retorno dessas decisões em um ambiente onde honestidade e trabalho não são bem valorizados por quem já detém o dinheiro fácil e em grande quantidade, exceto quando a “valorização” é simbólica e ficíticia, reforçando “quão bom” é se esforçar pelo lucro desproporcional da empresa ou do chefe enquanto se ganha um pouco mais de água ou uma cesta-básica adicional pra não se ver morto por fadiga no trabalho.

Enquanto as pessoas acreditarem que não conseguem subir no poço seco por culpa delas mesmas, estarão compactuando com pessoas fracas que riem dessa situação ao mesmo tempo em que olham com nojo e desprezo aos que almejam dignidade. Forma-se, então, uma pseudo-teoria de que existem duas classes de seres humanos. Somente países que fracassaram nos principais temas chegam a tal conclusão absurda. O erro prático acompanha o equívoco de pensamento. Um exemplo de como se pode ser assertivo foi a ideia sugerida pela Suíça, em 2016, conforme esta notícia, que pretendia estabelecer uma renda equivalente a R$ 9 mil reais a todo e qualquer cidadão (R$ 2.270 reais para crianças), sendo o trabalho facultativo, apesar da renda. A ideia partiria do princípio de que todos pudessem ter a mesma renda, sem levar em conta quaisquer outros fatores prévios de riqueza ou status, permitindo um estilo de vida digno a todos. Todo o sistema financeiro para este feito é autossustentável, pois tem como alicerce o chamado “dividendo digital”, que é, a grosso modo, o dinheiro extra que se consegue por trabalho automatizado não-humano (máquinas e robôs), depois de ter feito o pagamento a todos os cidadãos. E engana-se quem pensa que isso acomodaria as pessoas, pois segundo pesquisas feitas à época, a preferência das pessoas era de justamente continuar trabalhando. O motivo, claro, é que uma vez que as pessoas não precisassem mais se sujeitar a empregos que não gostam só pra ter a renda necessária, elas poderiam finalmente trabalhar com aquilo que realmente gostam e ainda seriam pagas pra ter essa liberdade. Essa ideia, embora pareça inovadora, já existe há, pelo menos, 500 anos.

Ideias como a da Suíça, libertariam as pessoas dessa dependência do trabalho e, assim, elas poderiam exercer seus potenciais além desse setor da vida. Nasceriam deste contexto, inúmeros novos autores, artistas, pesquisadores, famílias com mais tempo pra dedicarem a si mesmos, e quaisquer outros tipos que, de outra forma, teriam dificuldade em substituir o trabalho por renda pela atividade por prazer. É como diz aquela frase: “Só é utopia se ninguém fizer.”.

E como seguimos dizendo obviedades nesse mundo enquanto elas ainda forem necessárias, vou registrar esses dois trechos da matéria da BBC:

Produzimos três vezes mais do que conseguimos consumir (…), mas isso não está acessível a todos. A renda mínima é um direito nesse contexto. Por que não tornar a riqueza acessível a todos?“, questiona o porta-voz do movimento pela renda mínima, Che Wagner, em entrevista à BBC Brasil.

É útil promover uma sociedade em que as pessoas tenham a estabilidade para tentar coisas novas (…), é útil dar a liberdade para as pessoas serem criativas. Isso vai ajudar muito a Suíça se for adotado“, opina Che Wagner.

E agora? Quem são os acomodados? A capacidade humana de inventar foi o que lhe poupou esforço ao longo da História. A própria invenção das máquinas e robôs são exemplos clássicos e atuais de como o ser humano pode se isentar do cansaço, se usar a realidade de modo inteligente e a serviço do bem-estar geral. Contudo, essa realidade futurista que estamos sonhando desde a Era Industrial, nunca se estabeleceu corretamente na maioria dos lugares, simplesmente porque as pessoas que almejam status e diferenciação social por meio do dinheiro, do poder, do sobrenome ou do cargo, ainda se acomodam e se acovardam diante dessa ideia frágil que é tentar ser melhor que outro ser humano, mesmo não tendo razão consistente ou qualidade pra tal pretensão. Ironicamente, é exatamente em modelos como esse proposto pela Suíça, que é possível que o ser humano possa, finalmente, ter renda e bem-estar sem ter a obrigatoriedade de trabalhar. Embora seja isso que muitos ricos no Brasil e em outros países pelo mundo desejem, na ideia concebida pela Suíça, além de ser possível, seria dado a todos os cidadãos.

Sendo realista e honesto, se eu tivesse essa liberdade financeira, podendo, inclusive, ser bem menor em valor, eu já teria optado por fazer estritamente o que eu gosto, sem me preocupar se as contas estariam pagas. Essa realidade é possível até mesmo fora dessa ideia suíça, desde que as pessoas se engajem em um sistema de interação realmente fluído. Quando, por exemplo, uma pessoa recebe um dinheiro pra exercer uma determinada atividade, automaticamente ela fica munida de dinheiro pra consumir produtos e serviços de outra pessoa, fazendo as próximas pessoas ficarem munidas de dinheiro pra fazerem o mesmo a outras e outras, sucessivamente. O problema está justamente quando o sistema não é fluído e uma única pessoa despeja uma quantia absurda de dinheiro somente em pessoas, produtos ou empresa que, ao invés de reverter esse dinheiro de volta pro fluxo, retém esse dinheiro por pura megalomania, para estruturar um “império” ainda maior de captação desse recurso. Esse é o exemplo clássico do que vemos hoje na maioria do mundo, onde apenas 8 pessoas detém mais dinheiro do que a metade mais pobre do mundo. Exatamente porque essa conta não fecha é que algumas pessoas ficam de fora do fluxo sadio de dinheiro e enveredam pela pobreza ao invés da igualdade de oportunidades.

Um sistema que é falho e fracassado a ponto de não ter apoio nem da matemática simples, não pode ser tolerado pelas pessoas se elas quiserem ser dignas e inteligentes o suficiente pra experimentarem a realidade aos moldes do que a Suíça suscitou para nossa reflexão em 2016. Aliás, vale lembrar que de 2016 pra cá, o Brasil conseguiu o inimaginável: estragar o que estava bom e piorar mil vezes o que não estava, apenas porque fracassados acomodados na corrupção da Política não tiveram vontade de trabalhar um dia sequer na vida e, se recebessem dinheiro do Estado para trabalho facultativo, ainda sim seriam um câncer, pois recebendo salários altíssimos como os atuais da Política brasileira, nada trabalham e ainda ficam com sede de mais dinheiro pelo caminho da corrupção. Agora que você conhece quem são os vagabundos desse planeta, fortaleça-se junto aos teus semelhantes, junto aos que lutam por ideais dignos e coerentes e fomente o aprendizado, a consciência e a recusa a modelos desnecessários no mundo. Sua inação lhe cobrará um preço caro: a sua própria piora junto com a piora exponencial do coletivo social. Quando você perde, a sociedade toda perde. Somos peças de um quebra-cabeça maior. Se cada indivíduo não estiver conectado ao necessário, nunca se desfrutará da harmonia do quebra-cabeça finalizado.

Há vários meses atrás eu distribuí livros novos gratuitos e, acredite se quiser, alguns supostos leitores de um enorme grupo de leitura, se sentiram incomodados com a prática. Desacostumados eles mesmos com a ideia de doar e dividir, desacreditam nos que fazem isso. Se esquecem que é exatamente entre os que menos tem, que figuram os que mais sabem partilhar. Quem compreende a dureza da miséria ou da injustiça é aquele que provavelmente irá agir contra tais equívocos no mundo. Sempre e toda a vez que eu pude, eu dividi o que eu tinha junto aos que estavam ao meu redor. Não cabe aqui fazer propaganda, porque não fiz mais que a minha obrigação diante dos contextos. Quando tive mais, dividi mais, quando tive menos, dividi menos, mas nunca deixei de dividir. Até mesmo em situações onde passei fome e que nada poderia comprar com 5 ou 10 centavos, optei por doar esse dinheiro a algum mendigo, que sobrevive, justamente, graças a arrecadação fracionada no coletivo. Se tivéssemos uma noção mais clara e menos doentia do mundo, bastaria preferir riqueza ao invés de pobreza e todos nós, poderíamos desfrutar de um mesmo padrão confortável e digno de vida. Não veríamos mendigos, nem bilionários dando declarações esdrúxulas como esta infeliz, herdeira de um império de mineração, que nunca trabalhou na vida pra reter a fortuna que lhe é atribuída hoje e que, mesmo assim, acha que o ideal ao mundo é que qualquer coisa acima de R$ 4 reais por dia é um salário muito caro pra se pagar a um ser humano. Me pergunto, então, se ela viveria o mês com 20 x R$ 4 reais = R$ 80 reais.

Esse tipo de gente acomodada, fraca, doente e mal intencionada só ocupa essas posições distorcidas na sociedade enquanto os próprios membros da sociedade se descuidam do que é importante de conhecer, fomentar e agir. Sei que muitos estão cansado da situação opressiva do mundo, mas se não pode entrar ativamente nessa batalha de combate ao erro, espera-se que, pelo menos, não critiquem nem criem barreiras para os que estão tentando fazer essa luta ocorrer. Cedo ou tarde a idiotice despenca e quanto mais alta estiver, maior será o impacto e mais garantida será a morte.

Rodrigo Meyer

Onde estão as pessoas noturnas?

Sou uma pessoa noturna e fico me perguntando onde estão as outras. Embora eu consiga lidar bem com as atividades diurnas quando elas são necessárias, desde nascença eu fui noturno e essa tendência nunca sumiu. Eu gosto da noite e é o horário que naturalmente me sinto mais disposto e interessado em interagir e trabalhar. Por ser autônomo, muito do meu horário é definido por mim mesmo e, caso eu não precise fazer nada durante o dia, eu simplesmente opto pela noite imediatamente.

Na fase embrionária de diversas mídias que eu estou alavancando, a presença diária pra intervir manualmente em alguns detalhes me fazem ter uma certa rotina diurna, o que, muitas vezes, me tira a liberdade de dormir tarde e acordar tarde. É basicamente isso que faz muita gente que, em teoria, são noturnas, terem um estilo de vida moldado ao padrão diurno, por conta de estudo, trabalho ou socialização. A média das pessoas está mais ativa durante o dia, provavelmente como resultado de uma convenção social global que, desde os primórdios da humanidade, fixou-se no período de maior incidência de luz para gerir as atividades, deixando a noite para o sono e descanso, já que nesse período pouco poderiam fazer no ambiente.

Nas sociedades que se desenvolveram de lá pra cá, estabeleceu-se até mesmo um certo padrão de horário pra se acordar e trabalhar, funcionando como uma faixa de tempo em comum para as pessoas poderem fazer comunicação e trabalho de maneira mais abrangente e efetiva. A padronização dos horários tem muito que ver com um modelo onde tenta-se aproveitar o máximo possível da atenção das pessoas em um bloco só. Porém, nem assim os noturnos sumiram. Muitas pessoas, assim como eu, escolhem o modelo autônomo de trabalho, justamente pra desfrutar da noite. Assim como tem gente ativa de noite pra desfrutar, tem gente trabalhando pra atender essa parcela de pessoas também. Os comércios noturnos ou até alguns ’24 horas’, estão presentes em cidades grandes ou pontos turísticos.

Apesar de tudo parecer o paraíso, a diversidade de opções não é tanta assim. Uma loja de conveniência aqui, um posto de gasolina alí, talvez uma padaria e alguns bares, mas nada muito mais que isso. As casas noturnas, apesar do nome, por vezes, terminam mais cedo do que muitos gostariam, mas elas refletem uma realidade dos próprios frequentadores, que, depois de suas noitadas dançando e bebendo, ainda terão que estar ativos pra estudar e/ou trabalhar no dia seguinte. Soa como se o melhor da vida estivesse no potencial da noite, porém a sociedade e as exigências desse modelo nos priva desse benefício em troca da nossa busca automatizada por trabalho, dinheiro, socialização e até por encaixe em padrões e expectativas alheios.

É verdade que ser noturno destoa o suficiente pra nos vermos descriminados em alguns aspectos. As pessoas olham com maus olhos aqueles que levam suas vidas fora dos horários convencionais. Já chegaram a me perguntar se eu nunca tomo sol e até mesmo a deduzirem que eu sequer trabalhava. Ser noturno nunca me impediu de trabalhar e minha vitamina D está em dia justamente porque tomo sol sempre. Mesmo que eu esteja ativo de noite, o dia tem 24 horas e pelo menos metade dele tem incidência de sol. Ainda que eu não goste de fritar no calor e prefira curtir um ar-condicionado geladinho, eu acabo tendo a grata oportunidade de ver o dia nascer várias e várias vezes, já que eu sigo acordado madrugada a dentro. Além disso, nem sempre é possível levar uma rotina noturna e, então, acabo pegando até os horários de pico de sol.

Ser noturno me abre inúmeras possibilidades, mas também fecha muitas portas. Quando eu mais quero fazer as coisas, as pessoas estão indo dormir ou simplesmente já estão cansadas ou preguiçosas demais pra fazer qualquer coisa significativa. É de noite que eu tenho energia e concentração pra escrever, desenhar, editar foto, gravar um áudio, um vídeo, ler ou cumprir algum projeto de trabalho. Mas e quanto a dividir o tempo com outras pessoas? Onde estão as pessoas noturnas pra podermos conversar, dar umas risadas e compartilhar a presença? Acaba sendo uma condição um tanto quanto solitária. A menos que eu molde as atividades noturnas para os ambientes de bares e casas noturnas, provavelmente não verei gente ao redor.

Aqui por onde moro, felizmente, tenho acesso a uma loja de conveniência onde às vezes gosto de fazer uma pausa nas minhas atividades e ir tomar um café e respirar um ar novo, ver rostos e observar um pouco da realidade. Mas, mesmo assim, não é um ambiente com o qual eu possa e/ou queira dividir tanta interação assim. As pessoas que geralmente se agrupam por estes meios, estão lá em um estilo de vida que não reflete meus interesses. Ficam com o som do carro ligado no último volume dos amplificadores pra chamar a atenção a todo custo, tomando algumas latas de cerveja aguada e quente na tentativa de diversão. Eu, tomo meu café e sigo de volta pro meu ambiente privado.

Na minha casa ou mesmo andando pela cidade ouvindo alguma música ou curtindo o movimento ocasional de carros e luzes, vou arquitetando uma sutil e importante poesia que me mantém um pouco mais satisfeito em estar acordado, apesar de não ter muita reciprocidade com aqueles que gostaria. Cruzar a noite sozinho não é um problema em si, sendo até muito prazeroso, mas tem dias em que queremos contar alguma coisa a alguém, ser ouvido, poder olhar nos olhos ou simplesmente ter uma agradável visita, mesmo que virtualmente. Tem momentos específicos que sinto falta de uma mensagem, uma voz, um movimento no vídeo ou mesmo os mimos presenciais que surgem da interação com pessoas e ambientes, como os perfumes, as texturas, os toques, o passar do tempo, os olhares, o desenrolar das situações de forma um pouco mais imprevista, entre outras coisas.

Não sei onde estão os noturnos e nem sei quantos são. Muitos escolhem a noite por falta de opção, seja pela insônia ou por uma vaga de trabalho. Eu, escolhi a noite por gosto e por inevitável característica de nascença. Me interesso pelo aspecto silencioso da noite, contemplando a lua e as estrelas, sentindo o vento no rosto enquanto olho pra lugar nenhum naquela escuridão que permeia os telhados mal iluminados da cidade. Saturei meu físico e minha disposição por longos anos em casas noturnas, bares, apartamentos de amigos, festas, ensaios musicais, shows e uma coletânea paralela de sonos interrompidos ou mal cumpridos. Mas, também, muitas compensações ao descansar nos dias subsequentes a todas essas agitações.

Acredito, inclusive, que existe uma enorme relação entre a vida noturna acordado e o apreço por dormir. O mundo dos sonhos é aquele mundo onde o irreal é possível e tudo tem um componente intrigante, misterioso, que embora pareça realista, é uma grande fantasia, por assim dizer. Na vida real, acordado durante a noite, sinto que o mundo se torna um lugar fantástico, onde as coisas podem ser mais do que normalmente são. As pessoas se tornam outras pessoas, a cidade tem outra aparência e até os becos mais descuidados ficam recobertos de uma beleza clean pela ausência de detalhes. Onde falta realidade, há espaço de sobra pra imaginarmos o que quisermos e, então, sermos personagens em cenários idealizados. Uma cidade pode se tornar palco para criarmos uma história um pouco mais agradável de se exercer, já que seremos obrigados, até o fim da vida, a sermos protagonistas e diretores desse espetáculo. Que seja algo bom, então.

Quando muitos estão se despedindo, eu estou me apresentando, chegando, tomando um banho, vestindo meu coturno, tomando um café e começando minhas tentativas de fazer sentido no mundo. Às vezes dá certo e posso notar um ou outro noturno perdido na multidão de dorminhocos que levantam a mão pra acenar que estão acordados, sinalizando uma interação em uma postagem na internet ou deixando uma mensagem. Nesses momentos, sinto como se estivesse em uma praia deserta e, de repente, visse alguém acendendo uma lanterna em uma ilha distante. Dá uma sensação de que ainda estou vivo, que ainda sou visto, que ainda existo e que há mais gente na mesma situação. Talvez haja um pouco mais de identificação entre os noturnos, justamente por não serem maioria na sociedade. Mas é preciso lembrar que, mesmo em minoria, o número de noturnos é significativo e seria muito bom se as pessoas tivessem um pouco mais de olhos pra esse nicho de realidade. Várias vezes quis exercer atividades que simplesmente não podia, porque não havia nenhum suporte na cidade que contemplasse esse estilo de vida.

É raro encontrar onde se possa comer de madrugada e, mais raro ainda, achar algum comércio noturno que não seja estritamente de comida e bebida. Se eu quiser comprar roupas, pagar meus boletos, visitar um museu de arte ou assistir um filme no cinema, estou obrigado a escolher horários convencionais ou simplesmente não fazer nada disso. Assim, a vida noturna torna-se um pouco mais difícil por falta de opções. Por outro lado, enquanto pouca coisa acontece, abre-se espaço pra uma experiência mais lúdica e minimalista, com pouco ou nenhum trânsito, quase tudo apagado, pouca gente circulando e, dependendo do lugar e do bom senso das pessoas, um silêncio agradável.

Aqui onde eu moro atualmente, infelizmente, não desfruto dessa paz, já que, sabe-se lá como e porquê, uma trupe sempre ocupa as ruas próximas para berrar, “conversar” e pesar na terra, apesar do horário tardio em um bairro estritamente residencial com grande parte de idosos e enfermos. O que eu faço, então, sempre que posso, é ir pra bem longe daqui e andar pela cidade, pensando em assuntos e contemplando pequenas coisas. Quando não posso, desabafo e tento fugir desse caos desnecessário, com headphones e boa música. Nem sempre é eficiente, porque é difícil competir com os decibéis dos imbecis, mas sigo tentando, pois não tenho opções melhores por enquanto.

Fico me perguntando se melhoraria ou pioraria estar em uma cidade que, embora tivesse mais tranquilidade pros meus ouvidos, fosse tão inativa durante a noite que me deixasse desmotivado em estar lá. Já viajei pra vários lugares incríveis e passei vários dias e noites fotografando e apreciando o lugar, com pouca ou nenhuma interação com as pessoas, sem depender tanto dos comércios, exceto vez ou outra pra comprar comida e bebida. Talvez esse próximo passo para uma vida cada vez mais minimalista possa ser viável, mas exige também um postura diferente das atividades profissionais, pois, onde tem pouca agitação, tem também outro modo de se levar a vida e o trabalho. Adoraria sentar à mesa e desenhar, escrever, ler, conversar ou sair pra fotografar. É uma pena que, pra coisas simples como essa, precisamos de um mínimo de estabilidade financeira pra bancar as contas da casa e a pequena estrutura de um computador e câmera fotográfica. Além disso, se vamos precisar trabalhar pra sustentar esse pequeno contexto, ocuparemos boa parte do nosso tempo fora das atividades idealizadas, a menos que consigamos unir trabalho e prazer em uma atividade só. E é esse plano mirabolante que eu tenho tentado arquitetar noite após noite.

Atualmente, depois de muito conquistar e aprender coisas importantes pro meu crescimento pessoal, ainda há um grande buraco no crescimento financeiro. Sinto falta de estar unido a outros noturnos que possam formar uma rede de apoio em vários sentidos. Idealizar mudanças para uma vida minimalista e noturna, passa, muitas vezes, pela necessidade de conquistar autonomia financeira suficiente pra financiar esse lifestyle de ausência dos horários convencionais de trabalho, ausência dos espaços e modelos convencionais de socialização e também uma visão diferente sobre o que é viável de se exercer com qualidade, eficiência e prazer, como, por exemplo, poder concretizar essa lacuna de ser um escritor ou artista visual. Tentei a Fotografia, por outro viés, por longos 17 anos e foi cansativo. Atualmente tenho investido meu tempo na execução de mídias e conteúdos, o que me dá chance de estar satisfeito e ser útil ao mesmo tempo. Resta esperar que isso seja também viável financeiramente e que eu possa finalmente me tornar um noturno de sucesso. Bom dia pros diurnos e boa noite pros noturnos!

Rodrigo Meyer

O que aprendi jejuando?

Adiei muito em escrever esse texto, até encontrar a maneira mais apropriada de se falar positivamente sobre jejum em um mundo onde muita gente passa fome por falta de opção. É evidente que são situações completamente diferentes e, nem de longe, a ideia é romantizar a abstinência de comida. Mas, quero dividir a minha experiência nesse tema e fazer alguns comentários sobre sociedade, consumo, padrão de vida e alimentação.

Esse é um tema delicado que envolve inúmeros dramas para muitas e muitas pessoas. Falar de alimentação, acesso a alimentos, jejum, desnutrição ou alimentação precária é ainda um grande problema no mundo, apesar de termos várias vezes mais alimentos produzidos do que a necessidade de consumo dos seres. Isso ocorre porque existe um enorme desperdício de alimento que vai ao lixo como sobra do que não foi consumido por quem planejou uma compra desproporcional de alimentos.

Na minha família, cozinhar e comer era um evento tão importante que o que mais haviam eram festas e reuniões entre parentes e amigos como pretexto pra se cozinhar e comer sempre mais e mais. Como se pode prever, coletamos disso um vício e diversos problemas de saúde. Era um excesso de comida aliado ao prazer de comer e tendo como gatilho ou origem os dilemas psicológicos. O convívio familiar incentivava que esse modelo se perpetuasse com facilidade, já que bastava estar ali para surgirem pratos maravilhosos todos os dias.

No começo da minha infância eu gastava muita energia e era uma pessoa magra. Depois, gradualmente, fui sentindo os efeitos da depressão se agravarem e, junto com isso, um aumento substancial do consumo de comida. O isolamento e a procrastinação foram dando espaço para um pessoa que via o ato de comer como uma fonte de prazer temporária. Dividir uma refeição com alguém ou mesmo comer algo bem saboroso sozinho de fato pode ser gratificante. Na minha família, infelizmente, o motivo da refeição, pra mim, era tão somente a comida. As reuniões familiares em torno da mesa eram sempre conturbadas e acredito que isso tenha impactado na degradação do psicológico e colocado mais força nesse ato de descontar tudo na alimentação compulsiva.

Em alguns anos da minha adolescência eu comecei a perder o controle sobre minha aparência e peso, virando uma certa bola-de-neve. Estar gordo me fazia comer e comer me fazia estar gordo. Equação óbvia que leva muita gente a uma progressão letal. Essa é uma realidade que vi com meus próprios olhos entre algumas pessoas do meu convívio. Impactado por isso, sempre tentei reverter a minha condição e até consegui. No começo da vida adulta, tinha uma aparência satisfatória e me sentia muito motivado em fazer inúmeras atividades, especialmente com o recente resgate pra fora do poço da depressão. Com um relacionamento promissor, frequência e sintonia no sexo, a tal ‘química’ em estar apaixonado e todo organismo agradecendo, o resultado foi conseguir estar estável fisicamente, mesmo tendo um consumo significativo de comida. Energia gasta e metabolismo ativo faziam tudo parecer fácil de se controlar, sem nenhum esforço.

Mas, depois dessa fase e com as decepções que me levaram de volta ao isolamento e a depressão, entrei pra um consumo desproporcional de comida e álcool, especialmente na fase da faculdade, o que me fez estar tão diferente da imagem que eu tinha de mim mesmo, que não me reconhecia no espelho. A pessoa que eu aparentava ser, não representava a personalidade ou o ideal que eu tinha como identidade interna. Esse conflito também gerou um efeito bola-de-neve de mais comida e bebida e, por fim, minha saúde se degenerou tanto que eu tinha episódios indescritíveis, quase que todos os dias, achando que seria minha hora de morrer. Em alguns períodos mal tinha o contorno do rosto separado do pescoço, por conta do sobrepeso. Mas, de forma geral, levando em conta minha estrutura, eu não estava tão exagerado. Diríamos que passava desapercebido na média das pessoas. Mas, pro meu caso em específico, era um sobrepeso suficiente pra comprometer a saúde.

Muito provavelmente por conta da adição frequente do álcool, acabei em um estado que, se não fizesse nada para mudar drasticamente os hábitos, poderia ser surpreendido por um infarto. Então, resolvi cortar o consumo de álcool quase que totalmente, deixando a prática pra momentos especiais em uma ou outra época do ano. Troquei a diversidade de tipos de bebidas por algumas poucas opções e comecei a me planejar pra uma transição de hábitos alimentares. Apesar disso, nunca tinha passado pela minha cabeça que jejuar fosse uma opção saudável ou interessante. O que eu fiz, na verdade, foi uma redução gradual do volume de comida, especialmente quando o dinheiro se tornava cada vez mais escasso. Se formos comparar, por exemplo, a compra em um restaurante por quilo, eu praticamente reduzi pela metade meu consumo logo de cara e depois, com mais confiança, vi que podia reduzir pela metade da metade. Mal sabia eu que esse domínio na reeducação alimentar me deixou tão condicionado, que nunca me senti privado de comida, mesmo quando comia até menos que isso ou nos dias em que simplesmente esquecia do horário de ir almoçar. Por hábito, desde estas mudanças, eu passei a somente almoçar. Não faço refeições na janta, nem no café-da-manhã.

Passei por umas situações difíceis nos últimos tempos, com a transição de mais de 17 anos de trabalho na Fotografia pra uma volta ao Design Gráfico. Me encaixar profissionalmente em um período da vida que coincidiu com a minha mudança de casa e de parte do meu estilo de vida, me fez decair bastante no controle financeiro e, não tenho vergonha nenhuma em dizer que, por várias vezes, por falta de dinheiro, estive sem ter condições de comer coisa nenhuma. No começo, o jejum forçado foi bastante desagradável. Me sentia tão transtornado em estar a dias sem comer que estava praticamente andando de um lado pro outro dentro de casa, em claro sinal de ansiedade. Dormir me ajudou bastante a superar e me reposicionar nesse contexto. De fato, como dizem, um período de sono ajuda a enganar a fome.

A cada nova vez que eu tinha restrições financeiras, estava um pouco mais preparado para a chegada do inevitável jejum. Pela terceira ou quarta vez em que esses períodos ocorreram, eu já estava bem mais “conformado” e “confortável”, por assim dizer. Se anos atrás eu esquecia o horário de ir almoçar, atualmente chego a esquecer e passar dias sem comer. Não é que eu me force a não comer, mas apenas que estou tão tranquilo na mente que não me veem nenhum desespero por conta do tempo estar passando sem eu ter feito uma refeição. É como se a fome estivesse sob controle e só soasse um sinal quando fosse realmente necessário. Depois de uns 3 ou 4 dias começa a brotar uma vontade um pouquinho diferente de comer alguma coisa. Contudo, já passei por vários episódios onde, em cada um deles, estive mais de 30 dias consecutivos em jejum. Queria, então, dividir o que eu aprendi jejuando.

Quando eu me apercebi do volume de comida que eu consumia quando mais novo e como isso degradou minha saúde, eu percebi o quanto aquilo era desproporcional a minha necessidade. Conforme eu fui mudando de hábito, pude notar que era possível se adaptar facilmente a redução do volume e da frequência da alimentação, desde que se fizesse disso um hábito. E, por fim, se era possível reduzir, um jejum também poderia vir a ocorrer de maneira similar, como vim a descobrir nos últimos anos. Aprendi que jejuar não é a garantia de um incômodo e nem é algo tão extremo se você já tiver preparado fisicamente e emocionalmente pra essa restrição. As experiências anteriores e a aceitação do contexto, principalmente depois de ter superado com sucesso as crises, me ajudaram a ver o jejum de maneira neutra, sendo ele, pra mim, um ótimo aliado quando eu preciso fazer alguma contenção de gastos para contornar a dificuldade financeira.

O jejum me ensinou que eu sou mais resistente e capaz do que imaginava e que, mesmo com um mar de gente ao redor com muito mais posses e dinheiro a disposição, eu não preciso do mesmo tanto que eles pra concretizar minha vida de maneira muito mais estável, digna e satisfatória. É evidente que eu seria feliz dividindo bons momentos em uma refeição ou até mesmo tendo conforto financeiro pra não precisar pensar se vai ser possível comer ou não, pagar as contas mínimas ou seguir devendo novamente. Porém, na ausência deste ideal, tenho conseguido lidar muito bem com o meu cenário atual, enquanto muitos outros não conseguiriam passar 1 dia no meu papel, enfrentando as coisas que enfrento nas diversas áreas da vida.

Ter passado por essa experiência me fez sentir bem, apesar de confirmar o abandono social e familiar, destacando, consequentemente, o nível deplorável dos indivíduos que supostamente tinham algum elo.  Família e sociedade são termos desgastados pra realidade prática dessas entidades. Sorte de quem tem uma verdadeira, pois, para a maioria das pessoas, esses termos são nomes de meras lendas. Família, de verdade, independe de parentesco sanguíneo, uma vez que é tão somente a soma de pessoas que realmente estão interessadas umas nas outras por elos de afeto e empatia, pessoas as quais pode-se contar quando for necessário. Qualquer coisa diferente disso é só convenção social inútil. Família, tal como é para casais na famosa frase do juramento de casamento, tem que ser “na alegria e na tristeza, na pobreza e na riqueza, na saúde e na doença.”. Os revezes da vida, me mostraram com quem eu podia contar e tudo que eu vi foi que eu só tinha valor e utilidade para os demais enquanto tinha alegria, dinheiro e saúde. Na tristeza, na pobreza e na doença, as pessoas simplesmente se distanciaram, da noite pro dia.

O jejum me ensinou que eu hipervalorizava a comida e, muitas vezes, ironicamente, dava pouco valor a ela quando tinha em excesso. Aquilo que temos com muita facilidade, podemos não reconhecer o valor, até perdermos aquilo. Mas depois de ter aprendido o valor da comida, entendi algo ainda melhor: que ela não é tão necessária quando eu imaginava. Resolver meus problemas com outras ferramentas, também foi uma das consequências automáticas. Na ausência da fuga dos problemas pelo caminho da comida, eu tive que buscar alternativas, querendo ou não.

Assim que a cabeça centrou, pude olhar com mais tranquilidade pras coisas e entender melhor e mais profundamente algo que eu sempre acreditei a vida toda: que a média do ser humano valoriza coisas amplamente superficiais e desnecessárias, num modelo de vida de consumo contínuo e desenfreado, mergulhado em dívidas e servidão no trabalho, para sustentar uma busca, quase sempre infrutífera, de objetivos ocos. Acreditam estar subindo na vida, conquistando uma realidade cheia de entulhos, mas, na verdade, trazem tantos problemas pra suas vidas que, depois da metade dos consumos desnecessários, buscam na outra metade soluções pros efeitos colaterais adquiridos com a primeira metade. A grosso modo, resumindo, é como se estivessem usando metade do tempo e do dinheiro de suas vidas pra quebrarem suas pernas e com a outra metade do tempo e do dinheiro investindo no remendo das pernas quebradas. Esse é o exemplo mais explícito de dano desnecessário e vício em equívocos.

Dessa sociedade doente eu não faço parte. Meu foco, há muitos e muitos anos, é a ideologia do minimalismo. Meu lema ao longo do tempo tem sido uma frase que repito muitas e muitas vezes pra mim e pros outros: “reduzir, reduzir, reduzir.”. Comigo eu só quero aquilo que realmente for necessário e útil; o resto eu dispenso. Provavelmente, nesse modelo de vida, o jejum se encaixou muito bem, em uma época oportuna pro meu histórico particular. A minha experiência serve para o meu contexto e para os meus objetivos. Comparar a minha situação, por dentro e por fora, com a de qualquer outra pessoa no mundo, não seria justo pra podermos dizer que há algo único e verdadeiro que possa e/ou deva ser espalhado como ideal de prática ou pensamento.

O que as pessoas precisam entender é que, em diversos assuntos na vida, o que pra alguns é difícil ou utopia, pra outros é pura facilidade e satisfação. A transformação interna de um indivíduo depende muito mais dele mesmo do que de qualquer outro fator ou contexto do entorno. Aquilo que cabe somente a nós entender e resolver, não há pessoa no mundo que possa assumir essa responsabilidade em nosso lugar. Isso não significa, porém, que a sociedade não está adoentada e cheia de práticas ineficientes pra lidar com a própria abertura de pensamento e bem-estar dos seus membros e nem que a sociedade não construa barreiras reais que atrapalham a vida das pessoas. Quando os indivíduos estão adoentados, eles formam uma sociedade igualmente adoentada, já que sociedade nada mais é que a soma desses indivíduos. A expressão de um coletivo de pessoas egoístas, gananciosas, viciadas, ansiosas, preconceituosas, cheias de complexos e desvios psicológicos, só gera um ambiente conturbado onde todos estão em constante conflito por questões e detalhes que nem eles mesmos entendem e não possuem disposição para aquietar, refletir e absorver o necessário pra solução de si mesmos. Nesse sentido, eventos drásticos podem ajudar as pessoas a se colocarem no lugar delas, chacoalhando-as pra que notem o óbvio e comecem a priorizar as coisas certas, valorizando pessoas ao invés de dinheiro e/ou posses e respeitando princípios básicos de convivência, não pra ser um pônei colorido da caridade passiva, mas pra rever em si mesmas, quais são as condutas e pensamentos desnecessários e equivocados que estão fazendo pra si mesmas, no claro exemplo do chamado ‘tiro no pé’. Assim que um indivíduo se apercebe que está errando com ele mesmo, ele tem condições, se quiser, de entender como ele esteve errando com os demais, eventualmente.

Rodrigo Meyer

É possível preferir piorar?

O ser humano, geralmente, é cheio de contradições, falhas e outros problemas que bloqueiam o progresso dele mesmo. Algo bem comum na sociedade são os indivíduos que escolhem, conscientemente, piorar. Mas será que isso é real? É bem real e te trago exemplos pra poder explicar porque isso ocorre.

Você já deve ter visto inúmeras pessoas que idealizam algo para a vida delas, porém, são levadas a descumprir esse ideal, simplesmente porque é mais cômodo, conveniente, fácil ou momentaneamente mais interessante seguir por um caminho diferente. A pessoa pode estar enfrentando um problema de saúde, por exemplo, mas ao invés de tomar as precauções necessárias pra evitar a piora ou até mesmo para solucionar tal problema, ela pode vir a escolher a perpetuação de hábitos que pioram a saúde dela. Alguns diriam que isso tem relação com a chamada ‘lei do menor esforço’, onde o cérebro se pauta em decisões ou processamentos que sejam mais fáceis de serem cumpridos, seja do ponto de vista da complexidade do raciocínio, seja do ponto de vista físico e prático do dilema. É assim que, por exemplo, é muito mais tentador quebrar uma dieta alimentar para comer o que é mais gostoso, apesar de ser mais calórico e/ou menos saudável, do que se manter firme no objetivo proposto. O mesmo ocorre quando estamos diante da meta de fazer exercícios físicos e somos tentados a simplesmente procrastinar, adiar ou dormir.

Que o ser humano tenta sempre buscar atalhos, isso nós sabemos. Se pudermos fazer sempre o mais fácil, melhor. Porém, nem tudo que é mais fácil entrega os mesmos objetivos e é aí que mora o problema. Aquilo que evitamos de fazer por preguiça ou comodismo, acaba por ser uma autossabotagem. Mesmo que saibamos que estamos escolhendo piorar em algo, podemos ser compelidos a tomar essa decisão, simplesmente porque sabemos que a mudança positiva que queríamos requer ação, iniciativa e engajamento. Por essa simples razão, muita gente se vê desistindo de suas metas, pois acaba ficando desmotivado ou acomodado.

Quando a autoestima de um indivíduo está afetada por alguma situação prévia, como um trauma, um complexo, uma depressão, um evento marcante ou algum desvio psicológico que interfere na correta percepção de si mesmo, acaba sendo bastante provável que as decisões tomadas sobre melhora, terminem sendo focadas na piora, já que esse quadro específico deixa as pessoas desmotivadas ou acomodadas. Você já deve ter visto, por exemplo, uma pessoa enfrentando a doença da depressão, tendo que tentar controlar outros setores da sua vida, mas acabar em uma rotina que parece acobertar o estilo de vida depressivo, por assim dizer. Embora não seja uma regra, muitas pessoas em depressão podem ter a decisão do isolamento, da desistência da escola ou de cursos e até mesmo do trabalho em alguns casos. Ainda que essas pessoas desejem bem-estar pra si mesmas, a doença da depressão muda substancialmente a motivação e a percepção de valor e prazer nas coisas, de forma que ela acaba, por esses motivos, provavelmente escolhendo itens de piora pra seu estilo de vida. Alguns passam a beber mais, outros enveredam por outros tipos de droga e alguns outros lidam com essa dor através do consumo exagerado de comida ou mesmo da supressão drástica de alimentação.

Claro que, para casos como este de depressão e transtornos psicológicos mais específicos, os indivíduos afetados praticamente não possuem controle de decisão, afinal tudo acontece de forma tão intensa, automática e encadeada, que os efeitos colaterais de seu problema inicial se tornam praticamente indissociáveis do problema em si. Mas, para outros tipos de indivíduos, fora desses quadros, a escolha em piorar pode ser o reflexo simples do comodismo. Feitas essas distinções importantes, é preciso erguer uma bandeira de responsabilidade e de incentivo para as melhores opções de comportamento e pensamento. Uma vez que sabemos que algo pode nos tornar melhores, temos que compreender se estamos seguros e com autoestima suficiente para seguir esse caminho. É hora de nos cobrarmos com mais seriedade, pra não cairmos naquele repetitivo ‘meme’ nas transições de ano, onde muita gente brinca com a ideia de que fez dezenas de planos no ano passado, mas que não cumpriu nenhum e repassará os planos para o ano seguinte. De maneira semelhante quando adiamos uma dieta para a próxima semana ou mês que vem, muita coisa em nossa vida é deixada de lado, simplesmente porque não é tão fácil como gostaríamos que fosse. Estou ciente de que não é nada fácil ter motivação, especialmente quando nossas vidas são uma sequência de pressões, cobranças, problemas e insucessos acumulados. Estamos tão cercados de dramas em outros setores e momentos que, sempre que tentamos fazer uma decisão mais útil, ficamos tão instáveis que é fácil tombar para o erro ou desistir da ação.

Em todos os momentos que eu tive que permanecer de pé, enfrentando depressão, preconceitos, pressão familiar, pressão social, me vi tropeçando e desistindo. Isso alimentou ainda mais esses cenários tóxicos ao redor e virou uma bola-de-neve de problemas. Encontrar motivação pra ser quem eu queria ser e fazer o que eu realmente queria fazer, me custou muitos anos de transmutação. Essa alquimia interna a qual pouca gente fala e que é tão essencial a todo e qualquer ser, é que vai permitir que ativemos em nós os gatilhos para a motivação nas atividades ou objetivos. Desde algum tempo, sempre que algo se torna ruim demais na minha vida, eu me sinto desafiado a reverter aquilo a meu favor. É como se eu olhasse pra trás e soubesse que o que mais me estragou foi eu ter aceitado entrar nesse círculo vicioso de desmotivação e inação, cada vez que surgia uma barreira. Nem sempre teremos como escolher o que fazer de nossas vidas, especialmente se estivermos enfrentando contextos específicos como a doença da depressão, mas, devemos sempre procurar por opções em cada cenário e ver o que conseguimos fazer de melhor por nós mesmos. Não tenho todas as chaves e respostas para uma vida sem problemas. Este, certamente não sou eu. Mas tenho respostas claras e diretas sobre quem eu sou, como o mundo está e quais os erros mais clássicos que a maioria de nós já fez, faz ou continuará a fazer por um bom tempo. Se pudermos, pelo menos, refletir e decidir algo sobre esses aspectos, já seremos pessoas muito melhores que as da geração anterior. Negligenciar as pequenas mudanças, apenas porque não podemos ser perfeitos, é o mesmíssimo problema daqueles que escolhem piorar, por acharem que o caminho da mudança requer ação ao invés do comodismo. Fazer a diferença, conforme mostra a própria História da Humanidade, começa em pequenas iniciativas sinceras, que acabam por crescer em um efeito bola-de-neve.

Em conclusão, faça o seu melhor hoje, seja lá qual for este melhor possível ao momento e isso já será um passo valioso pra que amanhã ou daqui alguns meses e anos, você consiga passos muito mais estáveis, confiantes e ousados. Não vim lhe prometer o paraíso, mas você pode viver melhor do que antes, se tomar essa decisão a seu favor.

Rodrigo Meyer