A complexidade de tudo.

A imagem que ilustra esse texto é parte de uma fotografia marcada como livre para utilização, segundo os filtros de pesquisa de imagens do Google.

Quando refletimos sobre um assunto qualquer, a primeira impressão é, quase sempre, a mais equivocada possível. Para exemplificar isso, vou fazer uma analogia. Se um indivíduo leigo olha para o céu noturno, ele pode se aperceber da presença do nosso satélite natural, a Lua, e ter a impressão de que o que vê é suficiente. Ao erguer sua mão, aqui da Terra, a Lua parece, facilmente, caber na palma da sua mão. Mas, se esse indivíduo se aproximasse de fato da Lua, ele iria perceber, à medida em que avança, que ela se tornaria substancialmente maior, até o ponto em que, mesmo ainda sem pousar em sua superfície, já seria impossível mantê-la inteira em sua mão. Ele se daria conta de que existe uma relação entre aparência, tamanho real, distância e/ou localização do observador, que transforma, visualmente, o objeto observado conforme cada combinação desses fatores todos. Assim, ele entenderia que objetos enormes, quando vistos de muito longe, parecem pequenos. E que aquilo que parece não abriga o total da realidade de um objeto, cenário ou evento. Faz-se necessário uma aproximação daquilo que se pretende observar e entender, assim como comparações entre o que já se conhece, para traçar uma regra que realmente faça sentido. Em resumo, observar e entender a realidade exige um conhecimento mais profundo que vai além das aparências, das primeiras impressões, etc.

Citada essa analogia e as devidas conclusões, imaginemos isso pra outras áreas, como o entendimento de pessoas, sociedades, ideias, ideologias, conjunturas políticas, econômicas, questões de saúde, relações culturais, a psicologia por trás de cada pessoa ou evento e tudo o mais que quisermos entender de verdade e não apenas nos aplaudirmos pelas nossas primeiras impressões, deduções rasas, equívocos e preconceitos.

O Brasil é um país em que, segundo os dados estatísticos apresentados na última notícia que li há um ou dois anos atrás, tinha cerca de 73% da população figurando na condição de não leitores. Pra piorar essa situação, o desgoverno atual, em 2020, está propondo a taxação adicional de livros. Ou seja, um país que já tem uma bruta crise econômica, com a maior parte da população vivenciando a pobreza e outros tantos retornando para linha abaixo da pobreza (a miséria), agora completa seu plano de devastação, barrando o acesso aos livros que sempre foram caros no Brasil, tornando-os ainda mais inacessíveis. Uma maneira eficiente de cortar o acesso da população à informação e cultura, na tentativa de remover o senso crítico. Os efeitos disso em médio e longo prazo, permitem uma destruição tal do intelecto da população, que, facilitaria e muito a disseminação de fake news (notícias falsas) ainda piores e de um empobrecimento do debate das questões sociais e pessoais, simplesmente cortando o raro acesso à qualquer área de assunto.

Nos últimos 5 ou 10 anos, o Brasil teve diversas livrarias fechadas, simplesmente porque não se sustentaram mais pela pouca demanda. Muitos autores, literalmente, passam fome com aquilo que recebem de direitos autorais ou de suas tentativas de monetizar suas carreiras em quaisquer outras plataformas. Já não haviam muitos leitores por conta da precarização da Educação e da sociedade em geral e pelos preços elevados dos livros que, muitas das vezes, tem tais valores justamente pra compensar a escassez de consumidores e tentar manter o lucro. Porém o efeito disso é o inverso. Quanto mais caro é o livro, mais inacessível ele se torna para a maioria das pessoas e, portanto, menos interesse essas pessoas terão em se aproximar desse universo. Por mais que você instigue nas pessoas o interesse pela leitura, se ela não puder comprar os livros, ela acaba se afastando desse meio.

Na minha infância, eu não tive condições financeiras de investir em livros e o pouco contato que tive foram com livros antigos que meus pais mantinham em casa, sem nunca adicionar itens novos. Os livros que estavam disponíveis para serem lidos eram, geralmente, informações obsoletas, formatos que resumiam conhecimentos gerais mal compilados ou alguns romances que pareciam ter sido escritos em outro século. Aquele típico conteúdo que a maioria dos sebos recusaria de receber mesmo se fosse doação. As raras exceções eu fiz questão de pinçar e preservar.

A televisão, naquela época, era puro entretenimento barato, feito pra ocupar o tempo e encantar adultos e crianças com a chegada das telas coloridas. Jornalismo, muitas vezes, era tão informal e desnecessário quanto é hoje em dia na maioria das mídias ou até mais. Internet não existia e revistas e jornais impressos eram, quase sempre, usados pra forrar o chão contra urina de cachorro e embrulhar objetos na mudança. Assim, olhar pra realidade lá fora era a mesma coisa que ver a Lua e deduzir que ela era pequena o suficiente pra caber na palma da mão. Tínhamos a percepção equivocada de que tudo era simples como pareciam para nossas cabeças desinformadas. Ter crescido curioso foi uma combinação de fatores improváveis. Neste sentido, posso me considerar a pessoa destoante na família. Enquanto descartavam a cultura e informação como se fossem puro lixo, eu tentava preservar e absorver aquilo que encontrava de novo, que me parecesse mais complexo, ter mais camadas de realidade ou significado.

Por uma imensa sorte do acaso, eu cheguei a ter condições de comprar alguns livros pra ampliar minha realidade nos assuntos que eu me sentia mais envolvido. Adorava ler e escrever, mas se eu levasse um caderno de anotações pra viagem em família, isso se tornava um ponto negativo aos olhos dos outros, em especial o meu pai. Na cabeça de quem tem o espírito amargo e a cabeça vazia, raciocinar era quase um crime. Como esperar que desse cenário de ignorâncias geradas e incentivadas, pudesse nascer qualquer melhoria nas condições de vida, na percepção da realidade? Fica óbvio perceber que essas pessoas replicavam um padrão de ignorância e distanciamento da informação, de geração pra geração. Sair desse redemoinho destrutivo me exigiu curiosidade nata acima da média, um esforço gigantesco para me conectar com pessoas e conteúdos que pudessem me tirar da ignorância e a minha constante ajuda à mim mesmo em favorecer esses momentos através de, por exemplo, conversas com professores, contato com pessoa de bairros vizinhos, filtro sistemático dos conteúdos da televisão e aumento da prioridade de se pagar internet, por mais lenta e rudimentar que fosse. Também não foram poucas as vezes que tive que abarrotar meus colegas com perguntas sobre tudo o que eles já sabiam mais que eu sobre determinado assunto.

Muito do que eu conheci começou, literalmente, a partir de verbetes no dicionário e, então, buscando quaisquer referências sobre aquilo em qualquer lugar. Às vezes eu simplesmente lia a enciclopédia saltando de um verbete pra outro, conforme os assuntos que eram apresentados durante o texto. Se não haveria ninguém pra me incentivar a conhecer mais da realidade, eu teria que fazer isso por mim mesmo. Mas, ainda hoje, eu não sei dizer qual foi o fator propulsor dessa vontade e conduta. Eu poderia ter me acomodado na ignorância ao mesmo modo que outras tantas pessoas ao meu redor, mas algum fator, que ainda me é desconhecido, me levou à um desfecho diferente. Pra não cair na mesmas deduções rasas que eu evito, eu preciso olhar pra isso e tentar ver mais de perto. De longe, a primeira impressão sugere alguma característica especial nata, mas o que é que encontramos depois disso? Ainda não tive a oportunidade de me aprofundar nessas questões, mas conheço diversos outros casos em que as pessoas destoam da tendência de seus meios de convívio, dos padrões estabelecidos na família, na escola, na sociedade, no trabalho, etc. Sei, claro, que pessoas são diversas, mas nem sempre sei o que gera cada característica e contexto de um indivíduo sob essa tal diversidade.

Quanto mais eu aprendia sobre diversos temas, mais eu percebia que precisava entender melhor da composição das sociedades, das famílias, das relações, da psicologia por trás de tudo isso, das questões políticas, da História e, talvez, principalmente da própria antropologia, da biologia e de tudo que pudesse explicar a constituição do ser humano. Qualquer oportunidade que eu tinha de viajar, mesmo que fosse pra uma cidade ao lado, eu aproveitava cada segundo. Pra mim, observar a realidade era a principal ferramenta que me permitiria raciocinar à fundo aqueles temas, mastigando novos livros, novos blogs, novos artigos na internet. Visitei muitos sebos, aprendi idiomas, assisti muitos filmes. A internet me salvou, por muito tempo, da falta de esperança. Eu achava que, com o suporte dela, eu entenderia boa parte do mundo, incluindo os livros que poderia comprar a partir dela. Visitei livrarias e tive até a possibilidade peculiar de conhecer donos de editora e autores dos mais variados segmentos e estilos literários. Mas, nada disso me deu o que eu realmente precisava. Faltava nessa equação algo que me desse firmeza naquilo que eu aprendia. Eu que sempre fui autodidata, sinto muito orgulho de ter aprendido tanta coisa sem depender dos sistemas de ensino que eu tanto criticava. Pra mim, o distanciamento da escola e da faculdade, era visto como algo saudável. Porém, era conveniente para meus objetivos na vida, que eu os aturasse pra poder concluir formalmente essas etapas e ser diplomado. Terminei a escola e fiz faculdade, mas me decepcionei muito com a quantidade de tempo investido com pessoas que, infelizmente, nem sempre sabiam o que estavam fazendo ali. Algumas figuras, ganhando rios de dinheiro, chegaram a replicar inverdades baratas enquanto “ensinavam”. Isso só reforçou o meu desapreço por esse sistema de ensino, o modelo social que empurrava gananciosos ignorantes para cargos de professor ou mesmo para a execução dessas profissões todas em outros ambientes.

Por tudo isso que citei, fica fácil ver que o entendimento de qualquer assunto não esbarra só na falta de acesso aos livros ou à escolas e universidades. Em muitos dos casos, mesmo depois de percorrer esse imenso labirinto que, apesar de falho ainda é um privilégio, chegamos tropeçando na verdade. Como é que vamos aprender sobre o mundo, se nem os “profissionais” dedicados às suas especialidades, conseguem nos entregar, pelo menos, a verdade? Temos, então, que aprender a aprender. Temos que filtrar quem é que tem um ensino decente, um respaldo sincero de conhecimento, de intelectualidade, um aprofundamento técnico sobre o assunto e os detalhes em questão. Depois do bacharelado nas universidades, as pessoas podem seguir inúmeros outros níveis de especialização até que possam dominar com mais firmeza uma pequeníssima fatia do conhecimento. Enquanto o generalista entende superficialmente sobre tudo, o especialista usa do conhecimento abrangente como plataforma de salto para dentro de um detalhe. Só assim é que se consegue absorver a complexidade de determinada coisa.

Quando iniciei meus estudos de Fotografia lá pelos 20 anos de idade, eu já tinha contato com diversas outras artes e áreas de comunicação como a escrita, a pintura à óleo, a música (piano, teclado e órgão), mas nunca havia me sentido tão conectado com algo como foi com a Fotografia. Ela se tornou extensão de mim e por quase 20 anos eu desenvolvi essa atividade. Da mesma forma que o acesso à literatura foi escasso na minha infância, a Fotografia me parecia uma realidade de outro mundo, quando eu comecei. E de fato, ainda hoje, percebo que existe uma escassez de demanda por ela em toda a sociedade e que essa escassez foi reforçada com a chegada da internet. Assim como os programas de televisão e noticiários eram rasos e pouco profissionais, a Fotografia, nos últimos 10 anos, pelo menos, se transformou, magicamente, naquilo que ela não é: registro de imagens. E dizer isso para uma sociedade que está convicta da “verdade” que só é verdade na cabeça delas, é a mesma situação de tentar mostrar que a Lua, mesmo parecendo pequena, não cabe na palma da mão. Esse contraste entre a percepção superficial e o real conhecimento de algo é algo que gera um atrito social que desgasta demais as pessoas envolvidas. Se por um lado o leigo que acredita ter a verdade se sente incomodado com a crítica, por outro lado há quem domine o assunto e se sente incomodado com a destruição da verdade, de uma profissão, de uma possibilidade de existência e atuação.

Imagine você, por exemplo, que, da noite pro dia, começassem a propagar a ideia de que livros são simplesmente pesos de porta e nada mais. Imediatamente veríamos escritores e professores revoltados, tal como se tivessem dito para um astrônomo que a Lua não passava de um pequeno objeto menor que a palma da mão. Vivemos numa era de ignorância e, pior do que isso, numa era em que se incentivam as ignorâncias. Embora pareça cômico e exagerado as analogias feitas, na vida real, no cotidiano, em diversos outros assuntos as pessoas agem de igual maneira, tirando conclusões absurdas sobre algo que elas não entendem de fato. E pra onde caminhamos com a predominância dessa cultura? Vamos para um obscurantismo cada vez maior, perdendo qualquer chance de dignidade humana, pois onde o conhecimento é desmerecido em detrimento do avanço da ignorância, o mundo se torna não só mais raso, como mais incompetente para resolver todos os pequenos problemas pessoais ou coletivos. Esse é exatamente o cenário que fomenta mais pobreza, mais doença, mais miséria, mais estelionato, mais preconceito, mais golpe, mais violência, mais desesperança, mais guerra e mais desconfiança. A idade das trevas não levou esse nome por acaso. Hoje vivemos um obscurantismo talvez ainda pior, se considerarmos o ano em que estamos e os supostos avanços tecnológicos e sociais. Se tudo que temos em ferramenta não for utilizado para nos tornar pessoas melhores, mais livres e mais cultas, de nada terá servido. É por meio da lapidação do indivíduo que conseguimos remar na direção contrária do obscurantismo. Quando cada um de nós se recusa, individualmente, a endossar o retrocesso, formamos um coletivo que trabalha numa mesma direção. É esse coletivo que nos garante, apesar das diferenças, chegarmos em alguns consensos em benefício de todos nós.

A complexidade da vida passa, com toda certeza, pela complexidade do indivíduo. Enxergamos somente até onde nossa visão alcança. A complexidade das coisas muda conforme mergulhamos mais à fundo nelas. O indivíduo raso pode ver a vida como algo simples, mas aquele que se presta a ser um pouco mais curioso e estudado, logo descobre que nada na vida é tão simples como parece. As pessoas dedicam anos e mais anos de muito estudo, vivência e testes em todo tipo de área do conhecimento, incluindo o conhecimento do próprio ser humano, da mente, da Psicologia, da Educação, da Sociologia, etc. Um mundo que pretende ser mais fácil de ser vivido precisa, antes de tudo, priorizar que o maior número possível de pessoas sejam alfabetizadas e, mais do que isso, que aprendam a ter pensamento crítico e curiosidade por todas as coisas. Quando isso estiver arraigado dentro de cada ser, aí teremos uma sociedade vitoriosa que fará questão de eliminar a fome, a pobreza, as injustiças sociais, enquanto avança com eficiência no desenvolvimento tecnológico e cultural. Uma sociedade só se torna realmente emancipada, quando ela intenciona a qualidade de vida de seus membros, à começar pelos direitos mais essenciais de acesso à sobrevivência digna, o conhecimento e uma perspectiva de futuro.

Muitos dos que me leem aqui, provavelmente já sabem que eu tenho histórico de depressão. Tenho essa condição há muito tempo, mas, felizmente, estou tendo uma fase boa nas últimas semanas. Ter esse contato com a depressão por tanto tempo me fez perceber o quanto ela me privou da esperança por dias melhores. Então, uma sociedade que priva as pessoas dessa esperança, está, basicamente, causando um dano similar ao da depressão. Mergulhar pessoas num cenário onde elas sintam que não possuem mais espaço nessa sociedade ou nessa vida, é uma maneira de matá-las de dentro pra fora. Mesmo quando eu tenho picos de melhora da minha condição, eu sei que o mundo continua igual na maioria dos países. A crise social, política, ética e humana é proposital na realidade de quem exerce suas psicopatias para extrair lucro fácil e imediato de pessoas exploradas em situação precária de vida, sem sentirem o menor remorso por isso. Nada disso deveria ser novidade pra qualquer pessoa hoje em dia. Porém, na prática, há pessoas qua ainda insistem em abraçar seus próprios algozes porque, infelizmente, elas também gostariam de estar nesses postos se assim pudessem. Como disse Paulo Freire, “Quando a Educação não é libertadora, a vontade do oprimido é de ser opressor.”.

Aquele que não tentar desviar da agenda de idiotização das sociedades e desgovernos, estará fadado a viver em uma realidade potencializada para a destruição, para a infelicidade, para a dor, a violência, a indignidade, a falta de esperança, a extinção de qualquer fagulha de conhecimento que possam salvá-los das mazelas e dos acasos. Sociedades altamente evoluídas já se formaram no nosso mundo e, não foi preciso muito tempo pra que elas se degradassem e sumissem do mapa. Cazuza cantava “eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um museu de grandes novidades”. Assim tem sido a humanidade com suas eras de destruição e ignorância tentando se reconectar com tecnologias e conhecimentos que já foram extirpados. Haverá um tempo em que as pessoas descobrirão novamente a Fotografia, o Jornalismo, a Política, e diversos outras áreas do conhecimento que hoje parecem tão artificiais e imprestáveis, que, talvez, nem devessem mais carregar os mesmos nomes originais. Na maioria dos países, as sociedades se tornaram qualquer coisa, no pior sentido do termo. A pessoas não só ses mostram racistas, fascistas e golpistas, como chegam a falar abertamente sobre tudo isso com profundo orgulho. Essas pessoas se tornaram aquilo que o mundo fez delas, ao deixá-las apodrecer na mais profunda miséria ética e intelectual. Ninguém que tenha estudado o mínimo sobre a realidade do mundo, aceitaria se deturpar de forma tão imunda, para extrair benefícios tão ilusórios. Só mesmo a psicopatia aliada ao apodrecimento da alma e do intelecto, podem explicar os rumos que o mundo tem tomado todo dia.

A pequena ponta do enorme iceberg que vemos já cheira podre o suficiente para odiarmos todo o resto. E quando pudermos observar a magnitude da origem de todo esse iceberg, nos especializaremos nas inúmeras questões imundas que são compostas das pessoas e ideias mais abjetas possíveis. Não existe beleza depois de certa profundidade na merda. É só falta de perspectiva, sufocamento, nojo e revolta. Esse caminho terá que ser percorrido em algum momento, pois como ele foi ignorado por tantos séculos ou até milênios, acumulou-se o suficiente pra que a maior parte dele se tornasse completamente intocada e desconhecida, mas que, pela ponta em que estamos vivendo hoje, sabemos que é nossa origem e que, por isso mesmo, precisaremos aprender tudo sobre ela se quisermos ter alguma chance de desvendar a complexidade da humanidade, da vida, do momento presente e nossas reais alternativas para o futuro. Ignorar esse nosso desconhecimento sobre o mundo só nos coloca em posição ainda pior, dando tiros cada vez maiores em nossos próprios pés. Ou você faz o necessário pra ajudar a si mesmo, ou estará eternamente lutando contra a maré e fracassando dia após dia, ano após ano, geração após geração. Qual é o presente e o futuro que você quer construir? A resposta pode ser tão simples quanto dizer ‘melhor’ ou ‘pior’, pois seja lá quais forem as ferramentas escolhidas para isso, a ignorância e a falta de aprofundamento no conhecimento jamais darão a solução pretendida. Ou você é do time que acredita equivocadamente que a Lua cabe na palma da sua mão ou você é do time curioso que se propõem a estudar além das primeiras impressões.

Veja, eu não estou dizendo o que é que você tem que estudar ou qual caminho ou sistema de ensino deve escolher. Estou apenas dizendo que você precisa se aprofundar no conhecimento de algo, ao invés de fingir que sabe e se contentar com isso. Na pior das hipóteses, se você não quiser dedicar sua vida ao estudo, você pode, pelo menos, dar espaço para quem faz isso, apoiando alunos, professores e profissionais que dedicam tempo nos assuntos com seriedade. Dar esse espaço significa que você, pelo menos, está favorável ao conhecimento e a melhora do mundo. Basta que você não seja uma pedra no caminho e já estará ajudando muito.

E, lembre-se: embora nem todo conhecimento seja adquirido exclusivamente em escolas e universidades, é sempre necessário que se tenha embasamento, experiência de vida em torno desse tema, contato prático que vá além das teorias e, o mais importante de tudo, uma curiosidade verdadeira que te faça questionar as próprias informações obtidas, pra não cair no terrível beco das informações obsoletas, desatualizadas ou que já foram desmentidas ou ampliadas. Não se contente com a superfície de nada. Muito do que nos ensinaram no colégio sobre História, por exemplo, é completamente defasado e cheio de inverdades. Pode parecer estranho, mas a verdade é que, como diz o ditado popular, “o papel aceita qualquer coisa”. Por isso, mais importante do que apenas ler o que está escrito nele é ter senso crítico e as ferramentas que lhe permitam contestar ou confirmar o que ali foi dito. Quando professores, especialistas ou profissionais trazem uma informação para o seu mundo, a função dele deve incluir a de ensinar a aprender. De nada adianta replicar frases prontas como um papagaio, se não possui pensamento autônomo e crítico por trás disso. Só quem está realmente comprometido com a verdade fará o esforço devido pra ensinar outras pessoas a conhecer e manusear corretamente as ferramentas que nos permitem averiguar e avançar nas informações.

Embora eu tenha um importante conhecimento de Fotografia, eu nem mesmo me senti apto a lecionar, pois percebi rapidamente o quão distante eu estava do necessário. Lecionar envolvia muito mais do que apenas entender de Fotografia. Por mais organizado que eu fosse, exemplificando questões técnicas com analogias, eu não dominava a arte de ser professor, de lidar com o buraco que havia no ensino prévio das pessoas que tentaram ter aulas comigo. Eu simplesmente vi, por experiência própria, que aquilo não funcionaria. Foi assim que parei de lecionar, fiz as pazes com a frustração de não ter conseguido levar a Fotografia pra mais pessoas e, desde então, tento ocupar a minha mente em produzir, primeiramente, pra minha satisfação pessoal e, se sobrar tempo e surgir alguém que realmente tenha aptidão pra entender a complexidade da Fotografia, aí, talvez, dividiremos alguma troca de informações sobre o assunto. Dizem que o conhecimento não serve de nada se não for utilizado para melhorar a vida das pessoas e concordo com isso. Se, por um lado, não posso gerar novos fotógrafos para o mundo, vou gerar, pelo menos, muitas novas fotografias. Vou exercer aquilo que eu conheço e gosto e tentar cativar as pessoas a redescobrirem o mundo, as diversas realidades, com pensamento crítico, com curiosidade, com apreço pela verdade. Essa talvez seja a única maneira, ao meu alcance, de transformar meu conhecimento em melhoria na vida da humanidade. É algo que eu sempre fiz desde o início na Fotografia, na Pintura e na Literatura, mas, provavelmente, não terei o necessário pra levar outras formas de melhoria para o mundo. Venho aprendendo mais todo dia e incentivando outras pessoas que fazem aquilo que eu não faço ou que fazem o mesmo que eu de forma igual ou melhor.

É preciso dar vazão para o conhecimento, o aprofundamento, a especialidade, de diversas outras pessoas, para que o quebra-cabeça se torne cada vez mais completo. O conhecimento é infinito, mas tudo que que puder ser dominado em benefício da humanidade, deverá ser apoiado, feito e replicado. Eu entro com a Fotografia, outro entra com a Astronomia, alguém contribui na História, na Medicina, na Pesquisa, na Educação, na Sociologia e assim por diante. Cada um dá aquilo que tem de melhor para construção do mundo. Essa noite eu tive um sonho onde me sentava no fundo de um ônibus quase lotado. Alguém havia dito uma asneira e logo começaram a pipocar comentários de pessoas concordando e apoiando, enquanto a maioria dos passageiros ignoravam calados. Eu, então, saturei de ouvir todas aquelas mentiras e comecei a despejar críticas raivosas de lá do fundo. Seria esse sonho um desabafo da consciência pelo momento absurdo que estamos vivendo no Brasil e no mundo? É possível que seja isso. Talvez, sem conectar uma coisa com a outra de forma consciente, eu cheguei em um tema semelhante pra esse texto. Agora, relembrando do sonho, vejo como tem sido oportuno ter um espaço pra escrever e ser lido, mesmo que isso seja relativamente pequeno. Se esse pingo de informação e reflexão puder chegar em, pelo menos, mais uma pessoa, já será válido o esforço. Mas é preciso que chegue não só nos olhos, porque ler não é só passar os olhos pelas letras. Também não basta que sejam entendidas as palavras e as frases, pois ler também não é tão simples quanto isso. Ler, de verdade, é ter capacidade de compreender o que está por trás daquelas palavras escritas ou ditas. E isso tem sido raro ultimamente. As pessoas juram de pé junto que leram os textos e mensagens, mas, na prática, ainda estão como aquele coitado observador que ergue a mão pro céu na direção da Lua e chega à conclusão equivocada que já entendeu o suficiente sobre tudo que seus olhos viram.

Confesso estar bastante cansado e com pressa de sair dos mesmos cenários em que estou, pois essa parece ser minha única chance de experimentar qualquer coisa nova e promissora pro meu eu do futuro. Eu quero voltar a fotografar, voltar a sorrir, voltar a sonhar, voltar a explorar o mundo, tentar sentir novamente o amor, aprender mais das mesmas áreas e, talvez, começar em uma área nova do conhecimento. Eu quero me sentir vivo novamente e isso só será possível quando eu tiver a liberdade de acessar todo esse conteúdo e avanço que a maioria dos países nos privam desde muito cedo, com muita força, de muitas maneiras. Quero sentir novamente, o gosto de poder descobrir prazer pelas coisas, sabendo que, se for necessário, posso estar perto de mais ferramentas, mais livros, mais tecnologia, mais conhecimento, mais experiência de vida, própria e alheia. A depressão já me parou muitas vezes, mas eu tenho que aproveitar qualquer momento de trégua para sabotá-la e percorrer um pouco mais de vida, de prazer e de emoção. Todos nós queremos viver e nos sentirmos com, pelo menos, um mínimo de paz e segurança. Por isso, faço tudo que está ao meu alcance para transformar o cenário desfavorável em uma oportunidade criativa e contra a tendência de obscurantismo. Os exploradores não nos querem ver vencer, então temos que partir dessa premissa e desviar do senso comum, do óbvio, da mesmice, do conformismo, da ignorância e da passividade, para construirmos nossa saída pra mundos maiores, melhores e mais livres. Ou você caminha em direção à dignidade ou será prensado por um sistema que te oprime e te emburrece até o ponto em que você se torna aliado fanático do malefício ao invés de resistência. A escolha está na mão de cada um, considerando as diferenças de realidades e oportunidades. Eu fiz a minha escolha, dentro do que estava ao alcance do meu contexto e cabe aos outros fazerem as escolhas que puderem e decidirem fazer.

Rodrigo Meyer – Author

Prosa | A doçura do silêncio.

A imagem que ilustra esse texto é uma composição utilizando parte da obra “Le Silence” (O Silêncio) de 1842-1843, uma escultura em gesso pintado do escultor francês Antoine-Augustin Préault (1809–1879), mais conhecido como Auguste Préault, exposta no ‘Baltimore Museum of Art’ cuja reprodução fotográfica é livre. A versão original em mármore se encontra no cemitério Pére Lachais, em Paris (França), adornando o topo da tumba de Jacob Roblès.

Tem algo de muito poético no silêncio. Nessa metrópole agitada é difícil encontrar um momento valioso desses. As pessoas parecem não se importar com o benefício que o silêncio traz ou, talvez, evitem o silêncio por se sentirem incomodadas com a pausa reflexiva que ele obriga. Quando estamos em pleno silêncio, sem ruídos que nos desviem a atenção, somos obrigados a lidar apenas com o que temos dentro de nós mesmos. Temos que olhar pra nosso corpo, pro nosso quarto ou pra linha do horizonte e atribuir algum sentimento ou pensamento sobre aquilo. E isso tudo seria completamente natural, se não tivéssemos criado uma infinidade de ruídos propositais para ocupar nossos olhos, nossos ouvidos e todos os outros sentidos.

As placas de comércio pela rua disputam nossa atenção, junto com o barulho dos carros, a música no rádio, os programas de televisão, a timeline das redes sociais e a conversa vazia entre as pessoas aglomeradas na rua, de noite ou de dia. É tudo uma maneira de nos desviar do silêncio. De forma intencional pelas marcas e personalidades buscando visibilidade ou de forma inconsciente pelo próprio público comum, fugindo daquele momento constrangedor que é ficar em silêncio e ter que preenchê-lo com alguma coisa que não venha de fora. É uma busca por automatismos confortáveis. Com o som do carro no último volume, não há espaço para pensar. A mente se ocupa por completo em tentar manter o carro livre de colisões enquanto tenta processar aquele ruído alto que já não é inteligível de fato, porque precisa não ser pra que funcione ao propósito.

Para uma sociedade que, majoritariamente, não fala outro idioma que não o próprio, é conveniente ouvir músicas em outros idiomas, pois aquilo que não é inteligível não permite que se faça uma análise do conteúdo ou uma reflexão. É praticamente isso que nos entregam todos os dias por meio das repetições quase que aleatórias da televisão aberta ou fechada e de uma esmagadora maioria dos conteúdos de internet. Você já deve ter ouvido a expressão de que a televisão faz companhia. É mais ou menos isso para muitas das pessoas. Elas utilizam esses recursos, traçando algum tipo de relação. É assim que fogem sempre do necessário silêncio. Necessário pra uns, pois pra outros é o mais puro terror. Vejo as pessoas correndo do chamado ‘silêncio ensurdecedor’. É compreensível que sintam esse incômodo, porque desligar tudo e prestar atenção em como as coisas realmente são, pode ser uma visão infernal. A realidade quase nunca é bonita, quando existem muitos monstros não dominados ou completamente desconhecidos dentro da mente das pessoas, das mazelas sociais, os dramas psicológicos, os traumas, medos e inseguranças.

Há um universo de gritos que surgem quando o silêncio é possível. São gritos que fazem muitas pessoas perceberem, por exemplo, que estão sozinhas, que são insuficientes, miseráveis, fracas, doentes, equivocadas, desnecessárias, inconsequentes, violentas, preconceituosas, ignorantes. Gritos que deixam a mente pensar, claramente, que essas pessoas estão perdidas, vivendo de aparências, cercada de amigos falsos, gastando dinheiro com o que não é importante e desperdiçando a vida com ilusões que fizeram elas acreditarem que as fariam se sentirem bem.

Mas, nem sempre o silêncio entrega os mesmos gritos. Isso é tudo questão de tempo, de costume e de lapidação. Para outras tantas pessoas, o silêncio é a oportunidade de aquietarem a mente, de terem de volta o tempo roubado pelos ruídos e, finalmente, produzirem algo novo, escrever um texto, ler um livro, fazer uma pintura, ativar memórias, se colocar diante do espelho e tentar encontrar seus erros e acertos. O silêncio pode nos entregar verdades duras, mas também podem ser a única forma de não negligenciarmos nossas realidades, nossas condutas, pensamentos, etc. Em última análise, só quem pode nos salvar é nós mesmos. Muitas pessoas poderão nos apontar as portas disponíveis, mas somente cada indivíduo é que pode atravessar essas portas para sua própria libertação e transformação.

Quando vamos à um psicólogo, analista, terapeuta ou psiquiatra, eles podem nos colocar questões que parecem simples, mas que carregam uma complexidade enorme quando tentamos atribuir uma resposta por nós mesmos. Não são eles que irão nos dizer as respostas para nossos dilemas, conflitos e medos. Eles estão lá apenas para nos fazer pensar, por uma trilha que pareça fazer algum sentido, dentro da linha de trabalho e conhecimento que eles possuem. A exploração da mente humana é, sobretudo, um trabalho de mastigação da realidade, onde somos obrigados a entrar em contato com nossos sentimentos e pensamentos. E não é exatamente isso que o silêncio nos proporciona? E não é exatamente por isso que esses profissionais da mente nos colocam pra falar enquanto nos ouvem pacientemente? É tudo uma questão de silêncio. Temos que nos ouvir, deixar a nossa voz interior falar, seja na frente de um profissional discreto, em uma sala convenientemente silenciosa ou durante alguma oportunidade no cotidiano, enquanto estamos tomando um banho, deitados na cama, parados em frente à janela, apreciando a madrugada ou viajando pra outro canto.

Infelizmente, muitos de nós não conseguem experimentar esses momentos, simplesmente porque vivem cercados de inevitáveis ruídos alheios. Eu mesmo, moro em um local bastante conturbado, em que qualquer hora do dia, da noite ou da madrugada, o caos parece estar se renovando. É gente gritando o dia inteiro, carros de som no volume máximo vendendo itens que eu nunca quis comprar ou cuspindo uma música ensurdecedora que faz até os vidros da janela tremerem. É pura idiotice tentando chamar atenção. E se os criticamos depois de ficarmos enlouquecidos por não ter um mísero segundo de paz, corremos ainda o risco de sermos visto como os vilões. Nos roubaram o direito do silêncio, da paz, da reflexão, do sono, da dignidade. Não podemos mais nos conectar com nossas questões internas, sem que sejamos incomodados repetidamente por ruídos desnecessários. Somos reféns da falta de respeito alheia e, por fim, também perdemos a paciência que nos permitiria respeitá-los mais ou, pelo menos, detestá-los menos. Estamos em uma micro batalha diária, tentando simplesmente escalar as paredes pra fora do poço. Mas todos os dias somos jogados de volta ao fundo, simplesmente porque o silêncio assusta muitos e é desejado por poucos.

Em diversos países fora do Brasil, existem leis rígidas de regulamentação do silêncio que, felizmente, são levadas à sério na prática. O famoso ditado popular de que “o direito de um termina onde o do outro começa.” continua válido. As pessoas podem se expressar e serem quem elas quiserem, desde que não impeçam outras pessoas de fazerem o que lhes é de direito. E como é importante o direito ao silêncio. É um princípio que, se não está listado entre os Direitos Humanos, deveria ser incluso entre os primeiros itens. O silêncio não é só um capricho ou uma predileção. Ele é, talvez, a nossa única salvação. É por meio do silêncio que tentamos nos manter nos trilhos, de pé, sem desmoronar, sem nos perder pelos labirintos da vida. É nossa chance de, pelo menos, tentar tudo isso, mesmo que ninguém possa nos dar uma garantia de que vá funcionar. O direito ao silêncio é o direito de olharmos pra dentro de nossas próprias consciências, sentir o tempo, o peso e o valor das coisas. Há muito que se pode mudar no mundo coletivo e pessoal apenas pelo exercício do silêncio. E, talvez, por isso mesmo é que nos privam do silêncio em todo canto, a todo momento. Uma reflexão sincera sobre a vida pode nos fazer perceber quem e o que temos que derrubar ou apoiar. Quando vivemos explorados por uma minoria num mundo injusto, quem nos explora faz questão de que a massa de explorados não se aperceba das correntes que os impedem de conquistar a liberdade.

Lembre-se, contudo, que defender o direito ao silêncio, não significa censurar o barulho. As casas noturnas que vivem de tocar música pela madrugada, continuam a existir. Elas são feitas pra isso, construídas pra que o som alto de dentro não vaze pro lado de fora. Isso se chama respeito. Quando as pessoas podem escolher dançar e se divertir em um desses ambientes sem precisar acordar a vizinhança que quer dormir, o direito de ambos está preservado e todo mundo fica satisfeito. Comece a lembrar de todos os lugares onde o silêncio lhe é negado e você entenderá que nesses lugares não querem que você entre em contato com o sincero pensamento. Posso citar, de memória, as aglomerações ruidosas das pseudo-igrejas evangélicas, que empurram pela goela qualquer coisa que as preencha com um mar de ruídos. Melhor ainda se puder embutir o maior número possível de convenientes falácias que roubem a verdade do indivíduo e os devolva apenas o puro creme do preconceito, do comodismo, do fanatismo e da irracionalidade, até o ponto em que todos aqueles que se dizem cristãos, figuraram como os principais eleitores de um político fascista que, a bem da verdade, se visse Cristo pelas ruas, o mataria na primeiríssima oportunidade.

Por onde mais o silêncio não é entregue? Já tentou assistir um típico debate político na televisão, onde as pessoas mais gritam e se xingam do que apresentam suas propostas? O que é que essas pessoas estão fazendo ali, senão preenchendo o tempo do seu ouvido com o máximo de ruído possível? Vence a disputa no circo quem fala mais alto, quem dá a maior carteirada, quem soca mais forte, quem deixa sua orelha mais quente. Vence também os próprios canais de televisão que puxam sua atenção para algo completamente vazio de sentido, enquanto os verdadeiros problemas do mundo continuam acontecendo, longe das câmeras. Mas isso nenhuma grande mídia quer te mostrar, porque é só o constante ruído que importa. Querem te ver estagnado, mais burro, mais dominado, mais passivo e mais acomodado. Não querem que você se rebele e, se não puderem evitar que você sinta ódio por todas as injustiças da vida, tentarão te dizer que, nada disso justifica você quebrar umas vidraças, botar fogo numa praça, confrontar as quadrilhas fardadas ou derrubar os pseudo-políticos que invadiram teu país, tua sociedade, tua vida, tua casa e tua alma. Bom garoto! Um cão adestrado sempre ganha uns biscoitos, mas continua dormindo do lado de fora da casa.

Pois se não querem se conhecer e se libertar, continuem com o barulho, continuem se anulando dentro do seus próprios mundos. Apaguem suas histórias, suas memórias, suas verdades, suas dúvidas, suas indignações, seus incômodos e suas lembranças de injustiças. Se confortem com o som agudo do estalo do chicote, ecoando dia e noite sobre suas cabeças. Continuem a carregar dois pianos nas costas, rastejem por um prato de comida e sintam-se felizes de serem cuspidos na cara em mais um dia miserável, obedecendo aos mesmos modelos de vida, ditados por quem lucra bilhões sugando a vida da maioria. Façam do jeito que quiserem, mas lembrem-se de que varrer os problemas pra debaixo do tapete não os elimina. Cada dia de acúmulo a montanha de sujeira aumenta, atrai pragas e os contamina. Em algum momento, o entulho gerado será tanto que não haverá força suficiente nos braços pra se livrar de tudo aquilo em tempo. O relógio está correndo e eu só sei de tudo isso porque fiquei na doçura do silêncio por tempo suficiente. Volto pra ela sempre que posso e, se as pessoas do meu bairro colaborarem, volto e fico de forma quase permanente.

Rodrigo Meyer – Author

Crônica | Não queria ter ido.

Cheguei, subi o elevador, toquei a campainha. A porta estava trancada. Antes que eu pudesse falar, falou ela. Não parava de falar, enquanto eu simplesmente ficava de estômago embrulhado. Eu não fui pra ouvir, nem pra conversar. Vendo a minha reação, terminou seu discurso, achando que havia feito o maior bem da História. Talvez um dia se dê conta de que piorou as coisas e perdeu um tempo precioso da vida, tentando transformar uma pessoa consciente em um penico para despejo de asneiras. Mas, ainda não foi daquela vez. Irritado, simplesmente virei as costas e fui embora. Que dia desnecessário. A estupidez cega tanto as pessoas que elas acreditam piamente de que são o ápice da inteligência e utilidade, mas são apenas o motivo pelo qual muita gente prefere se suicidar, apenas pra não ter que dividir o mesmo planeta.

Rodrigo Meyer