Interagir com pessoas pode reduzir nossa lista de contatos.

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A imagem que ilustra esse texto é parte da pintura de autorretrato intitulada de “Madame Vigée-Lebrun et sa fille” feita, claro, pela própria Louise Élisabeth Vigée Le Brun (1789)

Parece até estranho que conhecer mais gente faça encolhermos nossa lista de contatos, mas isso pode acontecer porque os filtros são parte das relações humanas. Alguns são mais sensíveis, outros menos, mas todos nós filtramos. E mesmo conhecendo muita gente, acabamos encurtando esse número. É claro que há pessoas que possuem pouco filtro e, seja lá porque motivo for, optam por acumular o maior número possível de contatos.

A princípio, quando conhecemos alguém, seja presencialmente ou pela internet, sabemos pouco da pessoa e, assim, a convivência leva um tempo até revelar algumas nuances. Às vezes a pessoa do lado de lá da relação, tem expectativas das quais não preenchemos e outras vezes somos nós que comparamos as pessoas que chegam com aquilo que esperávamos. Mas, sabemos, manter expectativas não é muito saudável ou útil. Deixe que as pessoas se mostrem tal como são e siga seu caminho sem pesos ou euforias antecipados.

Em épocas mais remotas da internet era comum adicionarmos no extinto Orkut qualquer pessoa que surgisse pela frente, mas não passávamos nosso telefone pra ninguém. Hoje em dia isso se inverteu. Escolhemos quem entra em nossos profiles de rede social, mas o telefone celular está disponível pra qualquer um na face da Terra. Muito provavelmente isso ocorre porque o celular não revela grandes informações acerca da pessoa, enquanto que o profile de Facebook ou outra rede social similar, é praticamente um grande resumo da vivência de cada indivíduo. Além disso, antigamente o celular servia mais para telefonemas e mal tínhamos como escolher quem poderia nos telefonar. Hoje em dia os sistemas operacionais dos smartphones nos permitem controlar as interações que recebemos de forma a barrar aquilo que julgarmos indesejado.

Na vida social fora da internet, temos menos opções de controle, porém as pessoas costumam se impactar mais pelas interações ou rejeições. Ao entrarmos em um comércio, não há botão de bloqueio como nos eletrônicos, mas pode haver uma cara fechada, um sorriso que não se inicia, um atendimento ruim ou um contexto qualquer que não nos agrade. O ser humano tem nas mãos a escolha de lugares, produtos, pessoas, hábitos, hobbies e tudo que quiser idealizar para sua realidade.

Na família há sempre um grupo de pessoas dos quais gostamos menos ou mais. Estamos sempre medindo nossas relações com as pessoas. Às vezes por questões de semelhança nos interesses ou na forma de pensar, às vezes por algo mais sutil como química ou energia, entre outras coisas. Fazemos isso nos contatos profissionais, nas escolas, nos círculos de amizade e onde mais encontremos outros seres.

Mas existem dois lados dessa moeda. Conhecer tanta gente nos faz filtrá-las, mas é dessa maneira que também pinçamos novas pessoas à cada filtro. Então ao longo da vida, nossa lista de contatos cresce sutilmente, mas é sempre um número menor do que o mar de gente que passa por nós. Perdemos muitos contatos pelo meio do caminho. As pessoas ficam, a gente segue. Dizem que quem tem um amigo, tem muito. De fato não é nada fácil perdurar uma amizade em um mundo onde a maioria dos contatos são superficiais e até falsos. Assisto todos os dias as pessoas levando rasteiras dos próprios “amigos”. Isso denota o mal uso do filtro. Conhecer pessoas é bom, mas saber filtrá-las no tempo certo é melhor ainda.

Até a data desse texto, a norma do Facebook estipula um limite de 5 mil contatos possíveis em um profile na rede social. É claro que, algumas pessoas gostariam de adicionar todo o planeta, mas certamente não conseguiriam gerir nem mil pessoas. Quanto mais ampliamos nosso círculo de relações, mais superficial se tornam os contatos, porque temos menos tempo, interesse e conhecimento pra nos aprofundar em cada pessoa. Mas há quem use esse excesso de gente como uma tentativa de estoque, como quem guarda cartões de visita de tudo e todos que conhece. Mas isso não funciona de fato, porque a própria rede social limita a visibilidade da maioria esmagadora desses contatos, simplesmente porque é inviável apresentar tanto conteúdo em uma mesma área que corre conforme os rápidos momentos em que o usuário está conectado para ver seu feed na rede social. Então, torna-se apenas um aglomerado de nomes e quase nenhuma socialização consistente com as pessoas por trás desses avatares. Mal chegamos a ver o que 5 pessoas estão fazendo no Facebook, que dirá 5 mil.

Com o advento das fanpages, pessoas e empresas estenderam suas relações para o mundo de uma maneira mais organizada, mas isso não muda a equação que inviabiliza uma única pessoa ter contato profundo com 5 mil pessoas, 100 mil ou 1 milhão delas. Esses contatos se tornam mais uma relação profissional distante e com mensagens cada vez menos individuais. Me faz lembrar dos discursos em festas de casamento, onde alguém se dirige ao microfone para falar pra uma multidão de 100, 200 ou mil pessoas. De certo que não há agradecimentos e memórias para serem compartilhados com cada uma delas, então ou escolhe-se as pessoas mais relevantes para citar ou faz-se um discurso genérico que sirva à todos.

Mas, as relações humanas de amizade não são contatos de um comício político, uma festa pública na cidade ou uma nota informativa estampada num jornal de grande circulação. Se quisermos atribuir algum valor pessoal para nossos contatos, precisamos reduzir esse número. Ao invés de atirarmos pra todo lado sem acertar ninguém, precisamos ser como um sniper, que mira adequadamente por um tempo maior e traz resultados ao invés da ilusão da quantidade.

Oportunidades de relacionamento amoroso, amizades, parcerias profissionais ou em outras atividades, surgem de muitas maneiras, mas elas se estabelecem de forma sólida e mais realista quando são aprofundadas pelo contato dedicado das partes. Você não precisa abandonar outras opções ao redor, mas precisa investir tempo e atenção naquilo que lhe é valoroso e prioritário. Se imaginarmos dois sócios em uma empresa, por exemplo, a amizade é um ponto crucial para evitar desentendimentos ou trapaças. A confiança é sempre dirigida entre pessoas e não entre profissionais. As profissões são parte das pessoas e ao escolhermos alguém pra atuar profissionalmente, estamos elegendo junto a pessoa completa, com todas suas faces.

Em um casamento, também estamos traçando relações pessoais com o inteiro de uma pessoa. Não existem muitos casos onde o indivíduo não seja tão importante pra traçarmos uma atividade consistente. Na minha visão, qualquer espécie de relação começa da amizade. Busco pra trabalhar comigo pessoas com as quais tenho afinidades emocionais, convivência, interesses em comum, boas memórias, confiança, apoio mútuo, etc. Fico espantado, por exemplo, quando alguém diz que não namoraria amigos. Deveria ser exatamente o inverso. Quem em sã consciência prefere namorar um desconhecido ou um potencial inimigo? Namore e case com um amigo, com certeza! E alguns dizem também pra não misturar negócios e amizades. Pois não há mentira maior. Trabalhe entre amigos sempre! Fuja de relações profissionais que não são alicerçadas em sólida amizade. Confiança e senso de família, afeto e apoio mútuo farão vocês se unirem pra um propósito e lutarem juntos por qualquer dificuldade que surja. Quando não há amizade entre os envolvidos, ao primeiro sinal de dificuldade, pulam pra longe um do outro e abandonam o barco. Essas relações não contribuem para se levar um negócio adiante.

Observe como surgiu a Google e depois compare com a relação difícil na Apple entre Bill Gates (um funcionário da Apple na época) e Steve Jobs (seu chefe). Bill Gates acabou saindo na frente de seu chefe, fundou sua própria empresa e hoje as duas marcas (Apple e Microsoft) figuram afastadas. E diga-se de passagem, se não fosse o generoso empréstimo que Gates deu à Apple, somente a Microsoft teria sobrevivido. Hoje, numa relação confusa, a Apple atende um mercado de elite enquanto a Microsoft abrange a sociedade de forma mais massiva. Estes dois profissionais não dividiriam o mesmo ambiente por muito tempo e não chegariam a experimentar uma amizade sólida enquanto estivessem focados em enriquecer à qualquer custo.

Relações profundas são a chave de qualquer projeto de vida, seja no campo profissional, emocional, familiar, filosófico, religioso, etc. A redução dos contatos é inevitável, mas é saudável se você souber gerir os tais ‘recursos humanos’ sem cair na maneira pejorativa de interpretar isso como faz a maioria das empresas com seus departamentos de contratação. Se você trata as pessoas apenas como uma fonte conveniente de habilidades e prestações de serviços, você está atirando em seu próprio pé. Sociedades poderosas poderão ser construídas se invertermos esse modelo doentio de nos relacionarmos e começarmos a firmar mais valor em cada uma das poucas pessoas que escolhemos para habitar nosso mundo mais profundo.

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Rodrigo Meyer

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