Ignorância, arrogância, humildade e conhecimento.

A imagem que ilustra este texto apresenta o computador DEC VT100, exposto no Living Computer Museum.

Estamos experimentando tempos onde é preciso dizer obviedades. Precisamos falar das definições de dicionário, das noções básicas sobre os assuntos e coisas do tipo, nada muito diferente do que ocorreu em larga escala ao longo da história da humanidade. Então, fica dito, novamente, que ignorância não é sinônimo de humildade e conhecimento não é arrogância. É claro que, isoladamente, um indivíduo pode vir a expressar conhecimento e arrogância, por exemplo, mas isso não faz uma coisa ser sinônimo da outra. Não é pressuposto que mais conhecimento traga sempre junto uma conduta arrogante no indivíduo. O mesmo se pode dizer da humildade ao lado da ignorância.

O que faz muitas pessoas confundirem os termos é justamente a repetição de casos onde há essas misturas de características. É comum em nossa sociedade encontrarmos sujeitos que se gabam exageradamente de seus conhecimentos, tornando-se pessoas arrogantes, que usam desse suposto domínio de informações para se anunciar com vantagem e em tom de desprezo aos demais. Em um primeiro momento, numa leitura rasa, algumas pessoas conseguem até endossar essa situação como verdadeira, como se um sujeito que tenha (ou pareça ter) mais conhecimento, fosse, de fato, superior em valor ou dignidade. Mas assim que mergulham em uma análise mais realista e profunda, logo notam que o conhecimento suposto em indivíduos arrogantes, não trouxe nada muito além do que a memorização de algumas informações (por vezes equivocadas), pois conhecimento em si, é muito mais amplo e exigente do que isso.

É muito fácil quebrar esse elo entre o arrogante e o conhecimento. São indivíduos que desenvolveram tão pouco a vida e a mente, que, mesmo depois de tanto cruzarem com informações, livros, profissões e cenários de suposta experiência, ainda não absorveram entendimento de sua própria pequenez e ignorância. Já dizia o filósofo, “só sei que nada sei.”. É preciso estudo, absorção e transformação da mente pra se compreender nossas limitações e nossa insuficiência diante do conhecimento, uma vez que ele é infinito. Nada mais despreparado do que um indivíduo que toca o conhecimento e acredita estar em domínio pleno dele. Nestes moldes, o indivíduo cria sua própria ruína, cultivando ilusões e estagnando seu próprio avanço, uma vez que não se pode avançar além da informação completa. Tomar-se como parâmetro de perfeição é, na verdade, tornar-se o melhor exemplo de imperfeição e fracasso. Um bom começo para quem deseja ter algum entendimento da vida é debruçar-se sobre essa questão e começar a focar seus estudos na transformação que eles possibilitam e não nas informações em si.

De forma encadeada, tudo que um indivíduo tem pra poder se perceber em avanço no aprendizado está relacionado ao que ele se torna e não ao que ele consegue reter em memória. Computadores nasceram com a capacidade de reter informações, mas passaram a maior parte de sua história sem poder interpretar os dados que recebiam, exceto pelo viés técnico e matemático. Hoje, especula-se um novo meio de olhar para a informação, especialmente com a chamada ‘Inteligência Artificial’, mas, mesmo esta, no final das contas, muito se distancia da característica nata humana, pois ainda está perpetuando meros padrões matemáticos, ainda que de uma maneira muito mais complexa. Se há alguém que pode se gabar de seus feitos é um computador, pois entre seus semelhantes, seu valor enquanto unidade está justamente na comparação de seu potencial de processamento e retenção de dados. Para seres humanos, que não são cotados por este viés, tal método não se faz útil ou digno.

Do outro lado da corrente, as pessoas ditas ‘humildes’ por muitos, na verdade são apenas pessoas com pouco conhecimento. Mas tornou-se uma expressão comum chamar de ‘humilde’ pessoas leigas, com pouca escolaridade ou até mesmo com pobreza financeira. Entenda que humildade é uma característica da conduta humana e não do quanto essa pessoa possui em bens ou conhecimento. Humildade também não significa posicionar-se como capacho, abaixo de tudo e todos. Humildade, no final das contas, é colocar-se de maneira neutra, ao lado de outra pessoa, sem reduzir-se e sem reduzir ao outro. É não elevar-se, nem elevar ao outro. Estranhamente, a humildade é, na prática, a igualdade. De maneira surpreendente, para muitos, a humildade é se aperceber de sua própria ignorância, mesmo estando ciente do tudo que já conheceu ou foi. É estar a frente de sua própria evolução, sem sentir necessidade de exaltar isso como forma de se impor aos outros, de rebaixá-los ou controlá-los. Também é atitude de humildade quando alguém que nada tem ou nada sabe, permanece respeitoso e sensato diante dos demais, sem querer parecer ser melhor, maior, de mais valor, com mais conhecimento, poder, etc.

O resumo da ópera é que, sempre que o ser humano tenta impor uma característica como forma de coerção ou controle aos demais, está tentando compensar, em vão, sua própria pequenez e incapacidade de aceitar-se como pequeno e incapaz. A frustração ou o complexo de inferioridade faz muita gente forjar personas “maiores” e “melhores”, especialmente nas relações sociais, como tentativa de convencer o mundo de que não são insignificantes ou comuns. Contudo, por se tratar de uma ilusão e de uma conduta doentia, apenas reforça o inverso: a realidade. Para cada vez que alguém lança mão de seu sobrenome, profissão ou dinheiro pra tentar pisar em alguém, evidencia sua própria fragilidade, sua falta de valor, de conhecimento, de evolução, de mérito, etc. É por meio das práticas, pensamentos e decisões que se pode, verdadeiramente, definir quem é quem. Muito além do histórico de aprendizado numa escola, faculdade ou dos percursos de carreira ou posição social, as pessoas são, no final das contas, aquilo que elas tem pra oferecer a si mesmas e ao mundo.

Nunca olhe de cima pra baixo, nem de baixo pra cima. Lado a lado já é suficiente, independente do quanto cada um sabe, quanto cada um viveu e quanto cada um tem de posses ou prestígio social e intelectual.

Rodrigo Meyer

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