Nem tudo é comércio.

A imagem que ilustra esse texto é uma arte feita a partir de uma fotografia que, por sua vez, foi marcada como livre pra utilização, segundo os filtros de pesquisa de imagem do Google.

Grande parte do mundo enfrenta uma significativa proximidade com a pobreza, ficando em uma busca constante por oportunidades e melhores condições. É natural que as pessoas estejam interessadas em trabalhos e fontes de rendas que sejam uma janela aberta para a solução de suas necessidades. A maioria das sociedades enfrenta uma desigualdade social gigante, o que dificulta o acesso à todo tipo de bens e serviços, incluso o acesso à cultura, ao lazer, a educação, etc. Como resultado disso a internet se tornou, assim que foi possível, num aglomerado de usuários disputando espaços de lucratividade.

Em princípio, imaginarmos a internet como estrutura, pode parecer algo muito positivo, cheio de oportunidades de comunicação onde as pessoas teriam, teoricamente, um mesmo nível de acesso à todas as informações, jogos, notícias, meios de troca de mensagens e tudo o mais que pudesse ser imaginado e adaptado pro formato digital. Se inicialmente éramos apenas leitores de grandes portais de notícias, com o tempo pudemos criar nossos próprios sites. De espectadores de áudio e vídeo nos tornamos criadores desses conteúdos. Era tudo pelo entretenimento. Pagávamos a internet para usufruir desse prazer de nos divertirmos no final do dia.

Mas, se todos nós queríamos passar tempo absorvendo esses conteúdos online, então estava gerada a demanda pra que tudo isso virasse um produto à ser oferecido. Apenas os banners de propagandas já não eram mais suficientes para quem entrava nesse modelo de negócio. As assinaturas de conteúdos especiais ou de acesso à sites pagos vinham se tornando a opção de muita gente ganhar dinheiro com a internet. Mas, para se criar um site dessa complexidade, exigia um grande investimento que o usuário comum não podia fazer. Levou tempo até que as pessoas migrassem da internet discada para o padrão atual. As velocidades foram crescendo de tempos em tempos e isso permitiu fenômenos como, por exemplo, assistir vídeos longos no Youtube ou fazer upload de fotografias em boa qualidade, programas de rádio e muito mais.

Passar tanto tempo assim produzindo e editando todos esses conteúdos se tornou uma atividade desgastante buscando por alguma recompensa. As pessoas podiam ganhar alguma visibilidade, se viralizassem algum conteúdo, mas, claramente, a recompensa financeira se tornou a principal meta, já que esse tipo de atividade era tão trabalhosa quanto qualquer outro trabalho convencional. A princípio as pessoas tentaram se manter por meio do comércio paralelo. Se tinham, por exemplo, um blog ou canal de vídeos, a fonte de renda pra essa criação de conteúdo seria um outro trabalho vinculando a mídia à algum pequeno comércio. Há bons anos que isso já ultrapassou até mesmo os modelos de comércio offline. Hoje em dia, vender na internet é tão natural que o incomum mesmo é o comércio físico pela cidade.

Mas, existe um problema nessa história toda. Assim como na vida offline, não é possível que toda a sociedade se torne comerciante, pois outras funções são necessárias. O que a internet faz é passar a impressão de que qualquer um que tenha acesso à internet tenha a oportunidade de se tornar mais uma pessoa à lucrar com ela. Se antes, na era onde a televisão predominava, as pessoas não costumavam sonhar em participar dos conteúdos da televisão, com a internet elas se sentiram aproximadas, de igual pra igual, com todos os demais criadores de conteúdo, comerciantes, celebridades e afins. Até mesmo a política tomou outros rumos por conta da internet e das redes sociais. Nos imaginamos parte dessa sociedade digital, apenas por termos acesso às plataformas de criação e interação. Mas, será que somos todos criadores?

Quando o Youtube nos mostrou os primeiros famosos a pagarem suas contas estritamente com os lucros obtidos na plataforma, toda a sociedade desejou fazer parte dessa realidade também. Era a promessa aparente de que, se alguém conseguiu, todos poderiam conseguir. Mas, muitos usuários não se aperceberam que, assim como na vida offline, a sociedade é sempre marcada por contrastes. Em especial pelo capitalismo, não existe forma de que, nesse sistema, todas as pessoas alcancem o mesmo sucesso, justamente porque o sucesso de uma minoria é conseguido pelo aproveitamento de uma massa de outras pessoas que estarão lá pra consumir e elevar aquelas minorias, enquanto todo o resto permanece invisível ou com baixíssima visibilidade. A ideia de que há espaço pra todos na internet é um mito. Eu adoraria, de verdade, que isso fosse real. Mas isso é tão inexistente quanto a meritocracia dentro ou fora da internet. Acreditar que basta nos esforçarmos pra alcançar nosso lugar ao sol é desconsiderar todo um sistema que é construído pra funcionar de maneira completamente diferente.

Quem realmente ganha muito dinheiro com a internet são as próprias plataformas que lucram com o conteúdo criado pelo usuário até mesmo quando nem ele mesmo ainda pode lucrar. Plataformas como o Youtube, por exemplo, veiculam anúncios em vídeos de canais que ainda não cumpriram os pré-requisitos para serem monetizados. Além disso, quando finalmente começam a monetizar, grande parte desse dinheiro fica com a própria plataforma, deixando o usuário apenas com uma parte do lucro obtido por seu trabalho. Exatamente como ocorre fora da internet, tudo que produzimos é a base de todo o lucro para as empresas, mas o valor devido aos verdadeiros trabalhadores é infinitamente menor e desproporcional. O trabalhador tudo produz, mas não tem direito pleno aos frutos do próprio trabalho, simplesmente porque uma minoria já muito rica, domina os meios de produção (as plataformas, no caso) e mantém o trabalhador mais próximo de ser um mero usuário sem poder de compra ou decisão, do que um verdadeiro trabalhador que domina os rumos do seu próprio trabalho.

Uma vez ciente de tudo isso, podemos agora refletir sobre a terrível tendência que assola o mundo digital. As pessoas se apercebem dessa miséria e desemprego tanto fora quanto dentro da internet e, muitas vezes, passam anos trabalhando de graça, enriquecendo outras pessoas, na esperança de que um dia elas tenham a sorte ou o milagre de serem amplamente reconhecidas diante do grande público. Embora isso seja sim uma possibilidade, ela não é o padrão, mas a exceção. A maioria das pessoas não chegarão aos mesmos patamares de fama e lucratividade, por mais que elas se esforcem pra isso. Simplesmente a equação não fecha. Não existe como cada uma das mais de 7 Bilhões de pessoas do mundo consumirem, sozinhas, 7 Bilhões de conteúdos diários, semanais ou mensais, para que todas elas recebam os lucros advindo das propagandas visualizadas ou das formas derivadas de comércios dessas mídias. É exatamente por isso que existem muito poucos canais na televisão aberta e muito poucos canais de sucesso na internet. É natural que algumas mídias se tornem icônicas e mais famosas que outras, conforme uma série de contextos. Quem conquistou um espaço de destaque na rede e fez algum dinheiro com isso, teve mais tempo e dinheiro pra investir na própria mídia e a cada vez que se tornava mais famoso com um grande número de espectadores, mais recebia atenção e patrocínio de anunciantes interessados em pegar carona nessa fama.

Um anunciante que pretenda tornar seu produto ou serviço visto e desejado por milhões de pessoas, vai escolher justamente as mídias que já alcançaram essa rara fama e vão se manter sempre em torno dos mesmos nomes, conforme a posição no ranking de público. É pura questão de comércio e lucro entre os grandes. Quanto aos pequenos, aos anônimos e aos invisíveis, é dada a ilusão de que podem tentar. E como tentam. Tentam todo dia. Passam a vida desviando de coisas mais concretas, à espera de uma mudança repentina no futuro. Não quero menosprezar o talento e o esforço de ninguém, mas é matematicamente certo de que não haverá vitória pra todos nesse tipo de sistema. E, o que vejo, infelizmente, é muita gente se apercebendo disso, porém tomando decisões pouco sensatas para desviar desse problema. As pessoa começam produzindo um certo conteúdo e quando descobrem que aquilo não dá os frutos pretendidos, começam a apelar para um comércio desenfreado. Vende-se tudo que possa ser desejado e precificado. Vendem os cliques, os comentários, as oportunidades de parceria numa live, a indicação de um simples link para outro artista, músico ou pintor. É tudo sempre uma relação comercial, nunca uma interação sincera e espontânea.

A internet se tornou completamente artificial. Mediante pagamento, as pessoas dizem o que você quiser ouvir, mostram o que você quiser ver e fingem apoiar aquilo que surgir. Se um livro é horrível, pagando algum dinheiro, pode-se ter alguém falando bem dele. Se sua arte é monótona, anuncie ela em uma mídia especializada e o dinheiro fará a mágica. Tudo está à venda e tudo se torna corrompível. Nada mais é verdadeiro e tudo é um imenso jogo de interesses. Onde tem gente buscando fama, tem gente atendendo essa demanda em troca de dinheiro.

Você sabe, a vida prática nesses contextos é o velho teste do sofá. Alguém oferece o que o outro quer e o caminho pro sucesso fica aberto, independente da capacidade real dos indivíduos. Uma lista interminável de celebridades são puramente um investimento de marketing. Assim como as chamadas boy-bands, inúmeras celebridades não eram de verdade, mas apenas um mero produto criado para render lucro em uma fórmula predefinida. Alguns “músicos” chegaram a ser meramente dublês fotográficos e de palco para canções criadas nos bastidores e encenadas com playback nos clipes e shows. Espero que eu não esteja trazendo nenhuma novidade aqui, ao falar dessas realidades. Na internet, as coisas não são muito diferentes. Você pode acreditar que certos conteúdos são famosos por puro mérito, mas a verdade é que a maioria deles recebe um alto investimento por trás, simplesmente pra torná-los visíveis ao grande público. Seja por interesses políticos ou estritamente comerciais, a fama na internet é muito mais dependente do dinheiro prévio do que da sorte de agradar um público repentinamente.

Já disse, não existe milagre que feche a equação. Não há como conhecermos todos os artistas do mundo, nem se dedicássemos uma vida inteira à consumir conteúdos na internet. Figuras específicas são eleitas, patrocinadas, compradas, moldadas e potencializadas para chegar onde os demais não chegam. Há interesses midiáticos, políticos e financeiros por trás de cada um dos raros milionários da internet. Você pode até admirar o conteúdo que eles fazem ou a pessoa que eles são (ou parecem ser), mas, é exatamente por isso que essas mídias são escolhidas para serem o elo de ligação entre as empresas e o grande público que inclui você. Você pode não se importar com as marcas, com as propagandas ou com os políticos, mas todos eles se importam com o que podem obter de você. De forma consciente ou inconsciente, todo mundo está sendo induzido a pensar algum modelo de pensamento, a ter algum tipo de posicionamento, a comprar um determinado produto e assim por diante.

Quando você pensa em plataforma de vídeos, tenho certeza de que você lembra do Youtube e nunca se questionou porque não existe outra grande opção nesse mundo. Querendo ou não, a marca está consolidada na sua memória e no seu emocional. Você aprende a depender da plataforma e a enxergar a plataforma de um jeito que não faz (e nem pretende) com qualquer outra que não seja a tal. É isso que o investimento faz. Quando o Youtube nasceu, ele não pertencia à Google. Logo o projeto ganhou atenção do público e onde há consumidores, há grandes empresas de olho. A Google comprou o Youtube assim que percebeu o potencial da plataforma e assumiu um bom período de prejuízo, simplesmente porque sabia que o que ela lucraria depois, seria infinitamente mais. E hoje, ela dita quem pode ou não pode lucrar com a criação dos vídeos, simplesmente editando, de tempos em tempos, as regras e diretrizes da plataforma, pra impor cada vez metas maiores de inscritos e tempo de visualização, para garantir que apenas projetos realmente promissores que parecem estar conquistando muitos espectadores, possam se tornar uma mídia em que haja interesse de viabilizar. O lucro nunca chegará aos pequenos, mas somente aos que parecem ter algo grandioso que conecte multidões à marcas e políticos.

Para a maioria de nós que sequer tem qualquer noção sobre o funcionamento dessa intrincada “fórmula mágica” de conquistar o grande público, o que nos resta é tentarmos ser coerentes com nossas próprias ideias e usar a ferramenta pseudo-gratuita da internet para promover mudança de pensamento em outras pessoas, mesmo que seja um trabalho de formiga. A internet não é e não deve ser um espaço de mero comércio. Tem potencial pra ser muito mais que isso, pra quem quiser assumir esse compromisso. Você está aqui, me lendo de graça, em troca de absolutamente nada, simplesmente porque, talvez, se interesse pelo que te digo, pelos assuntos que eu exploro, pelas reflexões que eu faço pra minha própria vida. Estamos aqui, dividindo nosso tempo, sem nenhuma pretensão inicial de que isso seja lucrativo ou moldado pra se adequar à qualquer fórmula mágica de fama, lucro ou algo do tipo. É apenas eu escrevendo o que penso, ciente de que, como milhões de outros usuários, provavelmente, nunca viverei da renda ou fama que esse conteúdo possa, eventualmente, me gerar no futuro.

Posso te dizer com tranquilidade de que eu escrevo por aqui há 3 anos e nunca recebi um único centavo com isso, mas mesmo assim gastei muito dinheiro do próprio bolso pra continuar conectado à internet e com um computador ativo. O mundo de coisas que a gente escreve também é baseada nos livros que compramos, nos filmes pagos que assistimos, nos sites da internet que só visitamos graças ao pagamento do boleto mensal do provedor de internet. Nada disso é de graça. Pagamos muito por tudo isso. Somos, antes de tudo, usuários consumidores e, com alguma sorte (ou um investimento profundo), nos tornaremos criadores de conteúdo. Mas, não temos que ficar à espera disso, porque quem cria expectativas, sempre se frustra quando não acontece o que esperava. O melhor que podemos fazer na internet e em toda a vida, é vivermos o momento com sinceridade, cutucar e ampliar nossa própria personalidade, descobrir um mundo ao nosso redor e evitar que nossa vida se torne um incessante trabalho, principalmente se esse trabalho não lhe for remunerado e você ainda tiver que desembolsar uma grande quantia pra se ver conectado, tentando, esperando e, talvez, não vendo nada disso acontecer.

Apesar de tudo isso que eu escrevi, não significa que não podemos apoiar e compartilhar os conteúdos daqueles que gostamos. Há pessoas incríveis na internet, produzindo informação, cultura e entretenimento, por vezes à troco de nada e outras vezes por meio de financiamento coletivo. Hoje em dia com as ferramentas de pagamento para projetos, diversas mídias e pessoas captam colaborações de seu próprio público, pra que continuem a fazer o que elas fazem. Essa é uma maneira interessante de incentivar e tornar possível ou mais viável que pessoas pequenas, sem muita fama ou completamente invisíveis, possam ser reconhecidas. É muito mais realista que muita gente doe um pequeno valor que não interfere em nada no final do mês, mas que quando somado por todos os que apoiam, geram algo expressivo para a pessoa apoiada. Essa equação sim faz sentido, é possível e totalmente recomendável. Ajude as pessoas e projetos que você gosta. E isso nem precisa ser uma ajuda financeira. O simples fato de você se engajar por uma mídia, comentando, absorvendo, compartilhando e recomendando, às vezes vale muito mais que qualquer quantia. Nem tudo na vida é comércio. Muitas pessoas querem apenas serem ouvidas pra levarem uma mensagem adiante, tentar promover alguma mudança no mundo ou se sentirem mais leves socializando e se entretendo com as possibilidades.

Rodrigo Meyer – Author

O lado bom da ignorância.

É difícil imaginar que haja algo de positivo na ignorância, mas existe. Quando nos envolvemos com tantas pessoas e situações, observamos detalhes e refletimos sobre como aquilo pode ajudar a um determinado objetivo.

No caso da ignorância, o lado positivo é justamente quando as pessoas espalham ‘acidentalmente’ ideias que ajudam a combater a ignorância no mundo. Um exemplo simples disso é quando alguém gosta de uma música ou banda e, mesmo nunca tendo conhecido suas letras, compartilha tais conteúdos e ajuda a levar essas mensagens adiante, por torná-las mais visíveis diante do público. Ironicamente, há quem divulgue seus próprios inimigos, por assim dizer. Existem, por exemplo, racistas que divulgam bandas cuja letra e postura são de combate ao racismo. Exemplos cômicos desse tipo estão em todo tipo de conteúdo, já que as pessoas que figuram na ignorância das coisas, pouco discernem sobre aquilo que consomem.

Entre os ignorantes, temos eficientes propagadores de conteúdo, já que eles são motivados por impulsos e não por entendimento complexo daquilo com que se deparam. Quando uma pessoa não fala inglês e está diante de uma música em inglês, pode ser levada a gostar do clima da música, da melodia ou mesmo do aspecto visual de um clipe ou do próprio artista. Assim, fica mais propenso a espalhar esse conteúdo, apesar de não ter refletido sobre o que aquela letra carregava. No caso de ser um conteúdo positivo, a ignorância foi útil, por facilitar a propagação. Mas, claro, ocorre também o contrário, quando não temos domínio de um idioma e acabamos compartilhando conteúdos ruins.

De toda forma, não se pode dizer que não exista um lado positivo na ignorância. Durante minha interação com grupos de amigos, especialmente os que estavam voltados a aprendizados específicos de História, Cultura e similares, brincava muito com a expressão ‘easter egg‘, que para os entusiastas de informática refere-se aos elementos surpresas que eram escondidos dentro de softwares (geralmente) pelas mãos daqueles que estiveram envolvidos na programação desses softwares. Na vida, existem muitos ‘easter eggs‘ espalhados em construções, livros, filmes, desenhos animados, relacionamentos, etc. Desde que o ser humano aprendeu o poder da disseminação das coisas populares, percebeu potencial em embutir suas próprias ideias nestas coisas. Se os autores de certos textos sobre práticas de xamanismo, magia sexual e iluminação espiritual, soubessem que seus originais enterrados no deserto seriam selecionados e compilados para compor a bíblia, certamente teriam produzido e enterrado muito mais, devido ao potencial que tal livro teria de ser espalhado junto com seus conteúdos originais pretendidos.

Acredito muito nessa ferramenta e conheço inúmeros casos onde ela é propositalmente usada para facilitar a propagação. Tal como um vírus que se espalha por uma epidemia, através da movimentação de seus portadores. Na época da ditadura, por exemplo, mesmo com a presença da censura nas mídias, muito se conseguiu comunicar fazendo uso de metáforas para assuntos que não poderiam ser comunicados explicitamente. A mensagem sobrevive, segue imune a censura e ainda por cima é propagada por todos de forma irrestrita, já que não é mal vista nem pelos leigos, nem pelos conhecedores. O doce sabor da ignorância, a favor do combate da própria ignorância.

Embora isso seja mais instigante em determinados contextos, é algo completamente corriqueiro em todo tipo de iniciativa pelo mundo. Se você já dividiu uma roda de amigos e ficou sem entender nada sobre uma conversa ou piada, você sabe como é eficiente a chamada ‘piada interna’, onde somente os envolvidos no assunto original conseguem decifrar o que está sendo dito de forma pública. Assim também foi feito em tempos de guerra quando se codificavam textos, sons ou sinais de código morse. Conteúdos importantes também foram embutidos em pinturas e ornamentos de arquitetura. Obras de inúmeros artistas, como Leonardo Da Vinci, por exemplo, trazem detalhes sobre outros assuntos que, aparentemente, não são o tema apresentado publicamente em tais obras. Nas construções tradicionais de igrejas e castelos, por exemplo, você pode encontrar a chamada ‘geometria sagrada’ que remete a simbolismos através de derivações de certas estruturas geométricas, para comunicar princípios e ensinamentos de outra temática que não a da religião em si a qual esses prédios ou instituições propagam publicamente, em teoria. No caso das igrejas, catedrais e muitos dos castelos, é o exato caso de chamarmos tais adições de ‘easter eggs‘, pelo fato de que seus construtores e arquitetos eram os que embutiam esses conhecimentos secretos pra que perdurassem e só fossem notados pelos que estivessem aptos a tal.

Desde sempre a humanidade ajuda a combater a ignorância sem sequer saber que está trabalhando pra tal objetivo. Quando você se entusiasma por filmes como Matrix, por exemplo, é levado a memorizar e espalhar a cultura em torno do filme, tendo muita informação carregada junto, em detalhes como o nome de um personagem, de uma nave ou o simbolismo por trás de uma cena. Embora tenhamos uma suposta liberdade de comunicar nossos pensamentos e ideias, nem sempre isso será conveniente, pois muita gente leiga poderá se opor e até boicotar determinados conteúdos, se souberem que algo ali possa estar conflitando com sua bolha de impressões sobre a realidade ou mesmo de seus objetivos e interesses principais. Assim, a eficiência no ‘easter egg‘ é justamente passar desapercebido do público comum e depender de outros conhecimentos pra ser encontrado e/ou decifrado. Assim, enquanto a maioria das pessoas não estão prontas pra absorver o conteúdo escondido, elas se ocupam em propagar o conteúdo geral, fortalecendo, assim, a longevidade da informação anexada.

Há um ditado que diz que a melhor forma de esconder um tesouro é deixá-lo exposto. Isso mostra que a maior eficiência no sigilo de uma informação depende tão somente do nível de compreensão das pessoas. Se muita gente passa por uma pedra na rua e não vê nada de relevante nela, nunca terão a intenção de procurar tesouros em algo tão improvável. Por vezes, algo muito popular é banal o suficiente pra se tornar o melhor disfarce ou esconderijo para algo importante. Costumo sempre espalhar a frase “nunca subestime algo ou alguém pela aparência, pois um rei pode se disfarçar de mendigo se lhe for conveniente”. Uma metáfora simples pra dizer que, muito conteúdo de valor pode estar escondido em textos, letras de música, pinturas, softwares, sites, construções, conversas, etc. Aliás, oportuno momento pra dizer quanta coisa incrível eu absorvi na interação com moradores de rua. Enquanto muita gente os evita por conta de suas roupas gastas ou sujas, pessoas sem preconceito podem ter a grata oportunidade de traçar conversas incríveis, pra conhecer histórias, personalidades, conhecimentos, visões de mundo, etc.

Lembro, com sorriso no rosto, das diversas vezes em que vi pessoas na internet compartilhando músicas que basicamente falavam de assuntos aos quais elas mesmas se opunham ideologicamente. Um bom exemplo de como um conteúdo bem construído ou fácil de ser espalhado contagia até mesmo os inimigos a levar nossa mensagem adiante. Eu chamo isso de ‘colocar o inimigo pra trabalhar’. Sempre repito isso por onde passo, pois acredito muito no potencial dos ignorantes de serem úteis para o combate da ignorância no mundo. Sempre coloque os inimigos a seu favor e os faça trabalhar pela sua ideia, sua mensagem, sua arte, seu trabalho, seu objetivo, etc. Por eles não estarem cientes daquilo que estão espalhando junto, estarão mais favoráveis para a ação, sem defesa, sem resistência, sem críticas. Mas, ao mesmo tempo, tome cuidado com essa ideia, pois assim como é usada para espalhar o bem também é para espalhar todo tipo de entulho. Disfarçados e embutidos atrás de instituições, empresas, religiões, ideologias, discursos políticos, estão inúmeras armadilhas para fisgar incautos para que disseminem junto os discursos de ódio, o racismo, o machismo, a xenofobia, o consumismo, a exploração humana e animal, a normalização da degeneração da ética e da justiça, etc.

Portanto, em conclusão, mesmo que a ferramenta esteja acessível, é preciso saber usá-la e não ser vítima dela mesma quando estiver diante de outros utilizadores. Assim, a melhor recomendação é sempre se abster da ignorância e pensar por conta própria, ter independência e disposição pra buscar conhecimento e não ser apenas um papagaio que tudo repete sem reflexão, sem entendimento. Esteja diante dos conteúdos com um olhar curioso e com a mente aberta e neutra. Eliminando os preconceitos de sua mente, você estará apto a descobrir tesouros escondidos na própria realidade e até em você mesmo. Seja como aqueles poucos que não ignoram a pedra na rua por classificá-la como banal. Olhe pra realidade como uma infinitude de coisas e situações abarrotadas de potencial para serem algo mais. Permita-se ouvir uma música e refletir o que aquela letra comunica além das aparências iniciais.

Coloque-se no mundo como se estivesse decifrando códigos ou como se estivesse tentando estar por dentro da realidade em tempos de censura. Você verá que uma obra é sempre muito mais do que parece. Não digo que todo criador tenha embutido propositalmente algum segredo ou significado adicional em suas expressões, mas com certeza toda obra carrega algo de oculto, mesmo que seja apenas por ação inconsciente ou por tradição, tal como um arquiteto moderno que, mesmo se eventualmente não souber do simbolismo da geometria sagrada, poderá replicá-la pela tradição da estética. E mesmo quando não é este o caso, expressões tem sempre algo extra que podemos aprender, se tivermos com os olhos prontos. Até mesmo diante do vazio e do banal, há o que se extrair. Foi exatamente assim que descobri que mesmo na ignorância havia algo de positivo. Eis tudo o que ela me permitiu encontrar.

Rodrigo Meyer

Você sabe o que é Obsolescência Programada?

Este conceito e prática são muito utilizados tanto em produtos materiais, serviços, quanto em conceitos de cultura, moda, educação e outros fenômenos da expressão e interação humana. Dentro de sociedades pautadas pelo lucro, há um incentivo imenso pra que as pessoas passem a consumir cada vez mais. Para isso, as indústrias planejam para que seus produtos se tornem obsoletos cada vez mais cedo, para que as pessoas tenham que comprar atualizações ou novas versões destes mesmos produtos. Isso é a Obsolescência Programada e está presente também em outros setores da vida humana que não só o de compras de bens e serviços.

Se alguém lança uma geladeira no mercado e a população compra, este produto supre os fabricantes por um tempo, mas a fome constante por mais lucro os faz buscar métodos de propositalmente reduzir a eficiência e durabilidade dessa geladeira, para que dentro de um certo período de tempo, ela deixe de funcionar ou deixe de se adequar para as funções esperadas pra algum tempo a frente. As pesquisas científicas são pautadas para descobrir meios de se ter componentes com uma duração prevista. Assim, sua geladeira pode começar a soltar peças, a mudar a coloração de certas partes, a trincar, a parar de resfriar adequadamente, a vazar ou a perder a eficiência no consumo de energia. Esses são só alguns dos exemplos da gama infinita de possibilidades que estão atrelados a Obsolescência Programada.

No campo da informática isso é ainda mais drástico, devido a combinação entre recursos virtuais (internet, software, etc) com os recursos que permitem esse consumo (celulares, computadores, pentes de memória, acessórios, etc). Imagine, por exemplo que você tem um computador. Ele funciona bem, porém você deseja jogar um novo game que está na moda com gráficos mais recentes e necessidades maiores de processamento. Seu computador, então, já não será mais tão útil, devido as limitações de desempenho.

Sua opção seria a de comprar um novo computador e se adequar as necessidades que o novo game traz. Isso em si, pode não ser necessariamente Obsolescência Programada, mas, em paralelo a isso, os fabricantes podem colocar limitações de compatibildiade, propositalmente para que modelos antigos de software ou hardware não sejam adequados para determinada finalidade. Obrigar os usuários a fazer mais compras é uma das principais maneiras da indústria lucrar com algo que não tem uma demanda tão alta assim, a princípio. A demanda é forjada, estimulando os usuários a quererm pertencer a uma determinada realidade ou grupo.

A Obsolescência Programada também pode ser subjetiva, quando, por exemplo, uma empresa lança um modelo de celular novo, com praticamente nenhuma inovação substancial, mas deixa o público desejoso de adquirir, apenas por se tratar do modelo mais recente, uma vez que o status do modelo, do preço e da hierarquia do produto em relação aos antecessores, traz prestígio social em uma sociedade que valoriza mais produtos e aparências do que pessoas e valores humanos. A indústria explora muito bem essa fragilidade de muitos consumidores e estimula essa visão de pensamento na sociedade, pra que acreditem que isso é ‘vencer’ na vida.

Em resumo, as coisas podem se tornar obsoletas por várias razões. Elas podem quebrar rápido, ficarem incompatíveis com necessidades e acessórios novos ou não se adequarem mais ao padrão de status criado e desjado. As pessoas compram novos produtos em decorrência de designs ‘mais atuais’, funcionalidades novas, desempenhos maiores, vício ou compulsão em ter cada vez mais, entre outras coisas. Você já deve ter conhecido muita gente que compra livros sem nunca lê-los, apenas pela compulsão de tê-los dispostos numa estante. Também já deve ter visto colecionadores que acumulam qualquer versão levemente diferente de um determinado item, sem nenhum motivo além da compulsão em colecionar. Essas pessoas podem chegar ao extremo de adquirir centenas de produtos idênticos, onde a única diferença é um número de série diferente ou uma sequência coincidente destes números. Essa estratégia é muito utilizada pela indústria do cinema e do entretenimento, pra vender artigos para fãs colecionadores. A indústria em torno de um filme famoso costuma render muito mais dinheiro do que a comercialização do filme em si.

Também podemos ver traços de Obsolescência Programada na cultura, nas modas, na música, nos filmes, nos hábitos de entretenimento, etc. Ocorre, por exemplo, de gravadoras forjarem bandas sem qualidade real, mas que, com estratégias de apelo a moda, terão, propositalmente, uma existência meteórica, ou seja, muito rápida, passageira, gerando muita demanda e frenesí pelo público-alvo. São criadas para suprir apenas a moda da ocasião e arrecadar dinheiro com shows, produtos, livros, eventos, promoções envolvendo o consumo de revistas e outros produtos, etc. De certa forma tudo isso vai se tornar obsoleto em um curto espaço de tempo e depois terão de inventar / apoiar outra banda ou estilo musical pra gerar uma nova febre / moda de consumo impulsionada pela exploração das fraquezas de adolescentes, crianças e até mesmo de adultos.

Enquanto o ser humano médio for sensível a banalidades e não se resolver por dentro sobre as questões que o motivam a consumir desenfreadamente, a desejar status e compra de bens e serviços superficiais, ele não estará imune da exploração a que é submetido a vida inteira. As pessoas se acostumam com a Obsolescência Programada, pois, embora achem difícil aceder ao consumo tantas e tantas vezes, elas se esforçam e encontram meios para isso, pois preferem estar inclusas pelo consumismo, do que ser a exceção em um grupo. Se esquecem, porém, que se todas elas se negassem a esse consumismo desenfreado, não seriam nem mesmo exceções mais.

Um exemplo clássico de Obsolescência Programada foi quando, no Brasil, os padrões (formatos) de tomadas e plugues elétricos foram mudados de dois pinos para três pinos. Uma mudança simples e sem necessidade, que fez com que todos os consumidores tivessem que substituir em suas casas e comércios, todas as tomadas para o novo padrão, senão não conseguiriam usar eletrônicos novos, devido a fabricação dos plugues incompatíveis com as tomadas antigas. Isso alimenta a compra de uma quantidade gigantesca de tomadas, adaptadores, cabos, plugues e até mesmo de novos equipamentos eletrônicos que se adequem com os padrões atuais. A indústria agradece a cooperação com o bolso dela, mas benefício mesmo não há para o consumidor.

Lembre-se: Apoie os pequenos. Os grandes não precisam mais.

Rodrigo Meyer

Esse é o título. O texto vem a seguir.

Tão importante quando o texto em si, são os títulos que os representam. Quando você entra em uma livraria e se depara com toda aquela profusão de capas, algo te puxa a atenção pra um livro em particular. Você começa sendo guiado pela capa ou lombada e logo em seguida confere o título pra ver do que se trata. É o título que pode te fazer querer consumir aquele livro ou não. É ele a fronteira entre a capa e o conteúdo. E isso serve também pra conteúdos na internet, como as imagens de miniatura de um link compartilhado e sua respectiva descrição / título que acompanha.

Um título eficiente precisa comunicar um pouco do que o texto vai trazer e ter alguma criatividade pra não ser um rótulo técnico e banal que poderia, facilmente, ser substituído por uma sequência de números ou um código de barras. Existem títulos que são muito mais persuasivos para levar as pessoas a ler um livro ou clicar em um link de conteúdo. Mas, muitas vezes, esses títulos fazem uso de sensacionalismo. Para títulos assim (e também para as imagens que os apresentam), chamamos popularmente na internet atual de “click bait”, ou seja, uma isca de cliques. Basicamente tentam atrair a pessoa com algo muito ‘apetitoso’, despertando não só a curiosidade como um micro-prazer em explorar aquela curiosidade. Contudo, o motivo de seu nome é descoberto a partir daí, pois depois de clicar pra ver o conteúdo, percebe-se que não era tudo aquilo e que o título superestima o momento e conteúdo, transformando ervilhas em elefantes e biribinhas de festa junina em explosões atômicas. E a decepção vem, mas já é tarde demais, pois você já absorveu o conteúdo, deixando sua visualização naquela mídia.

Em tempos onde as pessoas vivem de estatísticas pra suas monetizações de conteúdo, atrair incautos pra suas mídias sensacionalistas é quase que uma unanimidade. De maneira similar, impressos como os tabloides americanos e alguns jornais brasileiros, alicerçaram suas rendas na venda desses entulhos sensacionalistas. As pessoas se impactavam pelo absurdo e adquiriam o material pra sanar a curiosidade.

Uma vez que os criadores de conteúdo sabem como as pessoas vão lidar com esse tipo de mídia, tornam-se responsáveis eticamente perante seu público. É extremamente difícil criar um título pra qualquer coisa que seja. Interpretar um valor, um evento, um livro, um vídeo ou filme do cinema, exige compreensão da essência por trás de toda aquela mensagem. Às vezes uma sequência de conteúdos é absorvida com entusiasmo, porque o autor dos conteúdos é mais forte do que qualquer título. Se Bill Gates lançasse um livro escrito “Livrinho 1 – por Bill Gates”, as pessoas teriam curiosidade de saber o conteúdo desse livro, pois independente do título, o autor é alguém relevante tanto pra fãs quanto pra opositores. As pessoas querem saber o que o homem mais rico do mundo tem a dizer. Talvez o título ruim possa ser até mesmo um motivador adicional para a curiosidade, pois não se espera que um milionário não consiga algo melhor pra suas mídias. Mas, se você é um anônimo e está tentando ganhar visibilidade no meio, você dependerá muito da sua melhor apresentação de suas mídias.

Como criar um conteúdo que seja atrativo sem tornar-se sensacionalista ou apelativo? Esse é o grande embate. Eu procuro repensar bastante os títulos finais de tudo que eu produzo, mas às vezes essa tarefa pode ser mais demorada do que a criação do próprio conteúdo em si e, por isso, muitas vezes sou obrigado a simplificar e deixar títulos mais diretos que estejam relacionados com o objetivo óbvio do texto. Mas a obviedade não é atraente, não é instigante, não é criativa, não é viva. Por vezes, sem querer, os títulos podem parecer um pouco sensacionalistas, devido a natureza do texto e por como certas menções no título se tornam indispensáveis ou mesmo o caminho mais fácil pra descrever seu conteúdo.

Algumas pessoas se acham geniais por conseguirem administrar bem essa exploração de click baits, mas, na verdade, são apenas pessoas sem ética que aceitam com tranquilidade forjar conteúdos para parecerem mais interessantes do que são e lucrarem com esse crescimento fácil. Pessoas desse tipo, não estão preocupadas se seus conteúdos prestam ou não. O objetivo delas não é entregar conteúdos relevantes, mas apenas te fazer absorver esses conteúdos, plantando em você a curiosidade diante do sensacionalismo. Vê-se claramente que isso dá resultados entre uma população que é pouco regrada e que tem uma ingenuidade e credulidade exacerbada. A idiotice humana sempre rendeu muito lucro e poder para uma minoria de exploradores dessas massas idiotizadas. O ser humano que pouco questiona o que se apresenta diante de si é o candidato perfeito pra endossar conteúdos vazios e ajudar a propagá-los.

Se o seu conteúdo estiver a altura de um título atraente e criativo, é possível que ele seja adequado sem cair em algo apelativo ou com prejuízo da ética. Não existe uma fórmula específica. Há de se colocar no papel do público e imaginar como seria se deparar com o título e imagem de algo pela primeira vez. Que impacto e sentimento aquilo causaria em determinados tipos de pessoas? Que outros valores e sentimentos essa combinação suscita a quem vê? Entender a psicologia por trás do que criamos é importante para sabermos como somos vistos e como impactamos o mundo. Que legado estamos deixando? De que maneira estamos buscando nossas supostas vitórias? Essas reflexões são urgentes. Em tempos de internet onde as pessoas tendem a imitar casos famosos, o exemplo é essencial.

Quando você se sente enganado com um título ou imagem sensacionalistas e apelativos, depois de compreender que o conteúdo está distante da proposta inicial, você reage como? Você endossa essa mídia mesmo assim? Você boicota tal mídia? Você inspira outras pessoas a seguirem caminhos melhores? Qual seu papel no mundo? Se todos tivéssemos equilíbrio e ética naquilo que produzimos, não veríamos necessidade de tentar buscar sucesso por meio do egoísmo que é tentarmos vencer a qualquer custo, mesmo que isso envolva pisar e usar os outros. Comece a repensar sua conduta, porque até mesmo os melhores e maiores prédios que a Engenharia pode produzir, ainda podem ruir se o solo em que estão alicerçados for insuficiente pro peso. Diz-se que quanto mais alto subimos, maior será o dano na eventual queda. Então, suba sem colocar sua qualidade estrutural em risco e tente vencer da forma correta, pelos motivos corretos e ao lado das pessoas e não contra elas. Você não precisa explorar ninguém pra vencer. Lembre-se do conceito de Ubuntu, onde o coletivo trabalha pra vencer junto e não pra competir entre si. Se todos se derem as mãos pra chegar em lugares melhores, nunca faltará apoio e sucesso pra todos. O bem-estar maior é quando não só nós vencemos, mas todos ao nosso lado também. Vencer sozinho é egoísmo. Vencer junto é paraíso.

Rodrigo Meyer

O que está por trás da ostentação?

O ser humano sempre se vê preso nos mesmos tipos de problemas. O ser humano é, quase sempre, a própria causa de seus problemas. Poderíamos passar décadas ou séculos apontando cada uma das características do ser humano mediano e não haveria nenhuma mudança essencial. Entre essas características comuns de se encontrar em sociedades doentes está a ostentação, com suas diversas formas.

Há quem ostente riqueza, há quem ostente um título, um cargo, uma profissão, um diploma, um sobrenome. Alguns ostentam conhecimento e há quem ostente até a companhia de alguém em um relacionamento. São inúmeras as coisas que as pessoas escolhem ostentar. Apesar de tanta variedade, o que há por trás de todo tipo de ostentação é a “necessidade” do indivíduo de mostrar ao mundo que ele não é um derrotado perante os parâmetros da sociedade em que vive.

Sociedades onde se planta a ideia de que ter e parecer vale mais do que ser, são sociedades que estão sempre sugerindo aos seus membros que eles são melhores se tiverem mais dinheiro, se tiverem certas profissões, se forem de certas famílias e assim por diante. Quando a pessoa tem um espírito pobre, ou seja, um espírito sem qualidade, ela só consegue se destacar por meio dessas outras coisas. Muitas vezes isso é tão somente complexo psicológico. Pessoas que, por exemplo, tiveram uma vida financeira pobre e, eventualmente, conseguem progredir nesse quesito, se não tiverem uma boa cabeça, começam a ostentar a atual riqueza. É daí que nascem cenas patéticas como os que “investem” seu dinheiro em pilhas de cordão de ouro, apenas pra dizer ao mundo que eles puderam comprar, que são tão ricos que podem desperdiçar o dinheiro em algo sem função real. Não podem nem mesmo alegar que é só pela estética, afinal, inúmeros outros metais não preciosos também servem pra compor um cordão e não são escolhidos.

Situações de complexo surgem também pelo nível educacional ou profissional. Se a pessoa crê que ser médico, advogado ou engenheiro é o ápice de valor profissional, acabam se sentindo superiores aos demais profissionais e enchem o peito pra anunciar que ocupam tais cargos na sociedade. Pobres coitados. Nem diploma ou dinheiro os livra de ter essa alma pobre. Espíritos enfraquecidos como esses estão em toda parte. As sociedades mal constituídas, acabam perpetuando esses medíocres ao endossar os padrões em que eles, e quase todos, se pautam.

É evidente que, se pudermos escolher, tendemos a buscar conforto na vida. Mas o que as pessoas se esquecem é que conforto não pressupõem ostentação. Você pode usar seu dinheiro, por exemplo, pra comer uma refeição completa a sua escolha sem que precise comer em pratos de ouro ou talheres de prata com copos de cristal. Sua refeição não vai ser melhor por causa da ostentação. A ostentação é exatamente o uso do extremamente desnecessário apenas pra se gabar diante do mundo. É o desperdício acentuado como forma de evidenciar poder, riqueza, etc.

Essas pessoas querem, na verdade, que o mundo as olhe como pessoas de valor, depois de elas simplesmente não terem muito valor além das coisas ilusórias e efêmeras das quais se pautam. Querem sentir prestígio social por seus diplomas, por seus carros, por seus jalecos e togas. Querem dizer ao mundo que venceram no jogo da vida, mesmo que esse jogo seja uma versão patética de fantasias, imaturidades, ilusões, padrões sociais inventados e linhas de chegada onde cruza primeiro quem desperdiça mais os recursos da vida, deixando a grande maioria de fora dessas conquistas.

No fim das contas, é um jogo solitário, pois enquanto avançam rumo ao próprio precipício interior, são abandonados pelos seus “inferiores” e quando se cercam de iguais, essas pessoas ainda estão sozinhas, afinal a companhia entre ostentadores é tão somente um pretexto pra dividir momentos de ostentação mútua. Sem muito esforço, vemos eles derraparem até na internet, ostentando seus números de seguidores pelo Twitter, enquanto batem boca com seus “concorrentes” pra decidirem quem é que tem mais prestígio na rede. Se desse pra resumir tudo isso em uma frase, eu diria que é ‘vício em ser patético’.

Se você se encontra em uma dessas situações, busque ajuda psicológica ou pelo menos busque reflexão sincera na frente do espelho. Pra ser melhor de verdade, precisa ter virtudes internas. Comece substituindo tudo que for excessivamente desnecessário por coisas que realmente te ajudem a ser alguém mais útil, mais interessante, mais querido, mais real. Quando você investe seu tempo, dinheiro e conhecimento em tornar-se uma pessoa mais simples e humilde, aí você começa a vencer a maior batalha que existe, que é o combate ao lixo interior. Quando você melhora, a sociedade melhora. E se a sociedade melhora, você e todos desfrutam de uma vida melhor.

Felizes são as sociedades onde o indivíduo vale por quem ele é e não pelo que ele tem ou parece ser. Se um dia você progredir nos estudos ou enriquecer, não use isso como sinônimo de valor pessoal, pois claramente não é, mesmo que você e grande parte da sociedade finjam o contrário por conveniência.

Rodrigo Meyer

Seja conciso nos textos e na vida.

Na área de Comunicação e na Literatura, aprende-se que um texto melhora muito quando escrevemos o máximo possível de ideias com o mínimo possível de palavras. Isso não significa escrever pouco ou sair cortando o texto aleatoriamente. Ser conciso em um texto é conseguir substituir os rodeios por uma ideia mas criativa e objetiva, sem perder o impacto e profundidade do que se pretendia comunicar. Redatores publicitários, por lidarem muito com essa necessidade, ficariam surpresos com os criativos títulos de vídeos do Youtube e dos links de notícias.

Na falta de espaço e tempo pra despertar a atenção e curiosidade dos usuários, muitas coisas se adaptaram quase que automaticamente pra tornarem-se mais concisas. Nesses casos, contudo, por vezes, o despertar da curiosidade é maior do que a objetividade em um primeiro momento, mas, claro, os conteúdos a que estão vinculados costumam justificar bem os títulos dados. Ótimo exemplo de sucesso na comunicação que deve ser levado também pras outras áreas da vida.

A vida é curta, como sabemos, mas não somente por isso é que devemos ser concisos. Assim como é verdade que ‘tempo é dinheiro’, também é verdade que temos que ter concentração naquilo que é importante. Às vezes desperdiçamos não só tempo e palavras, mas valores, sentidos e resultados pra nossa vida pessoal, emocional, psicológica, etc. As distrações pelo caminho são inúmeras e são propositalmente criadas para tentar nos tirar da liberdade. Fiquemos atentos!

Ser conciso na vida talvez esteja mais relacionado a filtrar melhor aquilo que fazemos, com quem fazemos e porque fazemos. Reduzir excesso de pessoas e coisas sem valor, nos ajudará a ir mais longe com menos peso nas costas, menos amarras e menos distrações. Só temos a ganhar.

O grande plano para tudo isso é iniciar desprendimento sobre as coisas e deixar fluir o que já cumpriu a função no momento. Não acumule passado, não acumule pesos, culpas, medos, pessoas que não agregam mais, lugares que já não fazem sentido, objetos que já não possuem uso ou verdadeira necessidade. Deixe de lado aquilo que, embora barulhento, está vazio por dentro. Comece a direcionar sua visão, pensamento e tempo para as coisas que são verdadeiramente essenciais. É fácil identificá-las.

O essencial e indispensável, ainda que varie um pouco de pessoas pra pessoa, está sempre relacionado a qualidade de vida emocional e psicológica. Essa paz pessoal é construída pela certeza de que você está fazendo o seu melhor no momento. Não podemos fazer tudo que gostaríamos, mas temos que estar de consciência tranquila por ter feito nosso melhor. É o empenho em ser uma pessoa mais digna, mais sincera, mais transparente, mais amiga, mais afetuosa, mais flexível, mais compreensível, mais presente, mais ativa, mais engajada, mais viva, mais saudável, mais tranquila, etc.

No final da história, tudo que vai importar é o que você deixou para as pessoas com quem se relacionou e o que fez de útil para o mundo através das ferramentas que você tinha à disposição em cada ocasião. Não há problema algum de seguir menos ativo se estiver de mãos atadas. Importa mais é seu papel interior, sua vontade e desejo de fazer as coisas serem melhores. E pra que isso não seja tarde demais ou com pouco valor, precisa ser oferecido e absorvido de forma concisa.

Troque as reuniões vazias por conversas ou lembretes. Troque as recepções e visitas intermináveis por uma companhia sincera ao lado de quem você gostaria de ver e estar ao lado. Divida momentos, trabalhos, atividades, prazeres e risadas e preencha sua vida de sentido e satisfação. Muito do caos que temos em nossa mente, por vezes é o descontentamento com o nosso próprio modo de vivenciar a realidade. Precisamos substituir a hipocrisia e as convenções sociais que nos aprisionam nesses desprazeres e partirmos pra contextos mais reais, onde as coisas são mais rústicas, mais simples, mais verdadeiras, mais cruas e intensas. Em resumo: sempre procure fazer a diferença com seus atos e palavras. Observe mais, fale menos, esteja mais presente, apoie mais pessoas, abra-se para mais momentos, baixe a febre da moda e do imediatismo e dê um tiro certeiro ao invés de metralhar a realidade atrás de algum benefício. Desacelere para ir mais rápido.

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Rodrigo Meyer

Entenda como o excesso de opções inibe as ações.

A Psicologia é algo tão inseparável das relações humanas em sociedade que basicamente tudo que criamos na comunicação passa pela Psicologia. A exemplo disso, temos o webdesign, o design de interface gráfica e o UX (que pode ser traduzido como a área de estudo e aplicação do ‘user experience’, a experiência do usuário). Dentro dessas áreas profissionais, de acordo com o que sabe-se da Psicologia, adota-se uma redução de opções quando se deseja ampliar a adesão ou acelerar a escolha diante de algo.

Por exemplo, quando você tem um menu em um restaurante que te oferece centenas de opções, você tende a ficar mais indeciso sobre o que escolher e acaba não tomando nenhuma decisão. E se não for obrigado a escolher, pode até mesmo desistir, como no caso de visitas à sites ou escolha de produtos em prateleiras e lojas. É o caso onde a multiplicidade não ajuda a aderirmos à mais coisas. Como quase tudo na vida, menos é mais. A medida em que reduzimos as opções, fica mais fácil escolher.

Quando saímos pra um shopping ou um bairro comercial com várias lojas e vitrines, somos bombardeados com informação demais e nosso cérebro simplesmente não consegue processar todos aqueles impulsos à tempo ou de forma conclusiva e, por fim, isso gera uma ansiedade que nos faz desistir daquilo tudo ou tentar, de forma doentia, aderir ao máximo possível de coisas. De todo jeito, atropelamos etapas e colidimos com as perturbações.

Pra um bom uso do nosso tempo, seria interessante reduzir as opções que temos em tudo. Eliminar do nosso campo de visão (ou definitivamente) os objetos em excesso do nosso ambiente, casa ou trabalho. Reduzir as visitas a espaços de oferta excessiva com hiper-exposição de produções, como são alguns sites de comércio, a maioria dos mercados, shoppings, bares, restaurante por quilo, etc.

Atrás de toda essa profusão de informações, está a tentativa de deixar o consumidor ansioso. Parte deles vai desistir da compra caso ela não seja obrigatória e outra parte vai consumir em excesso. E isso é o que muitos comércios usam como estratégia de indução de compras. Por outro lado, algumas mídias mais elaboradas trabalham de maneira contrária, na tentativa de tirar a dificuldade de escolha do cliente e fazê-lo aderir mais rapidamente à alguma coisa ofertada.

Já imaginou se todos os resultados de busca do Google estivessem listados sem que você fizesse uma busca por palavra-chave? Seria uma infinidade de conteúdos pra serem potencialmente clicados em busca de informação, porém você não teria foco no que deseja escolher e acabaria perturbado por não poder aderir a tudo. É similar quando você tem muita informação no feed de notícias do Facebook e não dá conta de ler tudo. Da mesma maneira ocorre com as abas abertas no navegador que vão se acumulando rapidamente sem que tenhamos lido sequer as primeiras antes de já surgirem tantas outras abas a mais.

Tirar o sobrepeso das costas envolve também limpar esse aspecto psicológico de consumo das coisas, sejam elas produtos, serviços ou informações. Também nos angustiamos por outros excessos na vida e é preciso deixar fluir aquilo que não estivermos fazendo uso no momento. É melhor absorver o que for importante sem manter outras coisas ao redor no chamado stand by.

Viver tranquilo requer uma boa dose de desapego material e essa concentração mental nas atividades e assuntos que forem realmente importantes no momento. A despeito dos relacionamentos, por exemplo, muitas das coisas se harmonizam automaticamente, quando nos concentramos no momento e deixamos de cutucar questões outras, sejam elas do passado ou do futuro. Essa quebra da expectativa e da ansiedade, limpa o caminho e nos dá força pra vivenciar mais intensamente o momento presente. Isso amplia a qualidade desses momentos e portanto melhora, sobremaneira, a qualidade das relações.

Tudo isso pode ser aplicado tanto para coisas, conteúdos, pessoas, relações de trabalho e o que mais você desejar. Não há limites para os benefícios dessa conduta. Comece hoje mesmo uma vida com mais sentido e bem-estar psicológico (e até físico), praticando minimalismo. Carregue consigo o lema “reduzir, reduzir, reduzir”. Assim como costuma-se dizer nas áreas de criação: menos é mais!

Rodrigo Meyer