Cansaço e comodismo são a mesma coisa?

A imagem que ilustra esse texto é parte da fotografia de autoria de Eslam Ashraf.

Será que há semelhanças entre cansaço e comodismo? Definitivamente não há, mas mesmo assim, por conveniência própria, muita gente gosta de chamar as pessoas cansadas de acomodadas. É apenas um jeito fácil de não ter que pensar no problema real pelo qual aquela pessoa passou a ponto de não estar conseguindo ser mais produtiva ou tão produtiva.

Nossa sociedade espera que sejamos ativos, principalmente pra dar conta das atividades básicas de trabalho e manutenção da vida. Muitas pessoas, infelizmente, perderam suas infâncias, quando tiveram que dar suporte a sua família, trabalhando em casa ou até mesmo fora de casa, pra aumentar um pouco que fosse a renda ou a alimentação. Muitas dessas crianças sem infância, tiveram que trocar a diversão pelo trabalho praticamente forçado, atuando desde jovens em serviços que até para adultos é pesado. Se uma pessoa percorre um histórico desse e em algum momento desenvolve depressão a ponto de não conseguir quebrar a rotina de dormir e acordar, um piano cai sobre suas costas pela opinião preconceituosa e opressiva das pessoas que chamam essa pessoa de ‘acomodada’. Pra piorar o quadro, se essa mesma pessoa tentasse ganhar credibilidade na sociedade, provavelmente não conseguiria, pois ficaria vista como alguém que não se esforça mais.

As pessoas fingem interesse em progresso social, estudo e trabalho, mas na verdade só estão destilando ódio contra as pessoas as quais elas nada sabem ou escolhem não saber. O preconceito de muitos força a visão a permanecer fechada, especialmente quando a realidade que poderia ser vista, evidencia a opressão e o opressor. Quando a realidade anuncia aos gritos os culpados de todo caos, dor e insucesso, as pessoas, acovardadas diante do fato de que não fizeram nada pra favorecer a sociedade, transferem essa culpa ao próprio oprimido, pra tentarem se isentar de qualquer responsabilidade. Não funciona, claro, e ficam irritadas e descontam essa irritação novamente aos seus oprimidos e a quem tenha exposto essa realidade.

As pessoas cansadas estão em toda parte. É a criança recolhendo latinhas de alumínio pra vender na reciclagem e tentar sobreviver, sem saber ao certo onde está sua infância; é o idoso abandonado pela família quando ele mais precisava de apoio; é a pessoa com a doença da depressão, sendo desacreditada na família, na escola, no trabalho, entre os amigos e na sociedade em geral, tentando simplesmente ficar vivo, mas sendo sabotado pelas químicas de seu cérebro; é a mulher que abandona o emprego e os estudos quando enfrenta a sensação de ruína em um estupro; é o desemprego anunciando portas fechadas na cara de pessoas dispostas a trabalhar e que passam meses sem opção alguma de dignidade, por vezes sem sequer conseguir manter-se limpo e com um currículo na mão pra suas próximas tentativas. Aqui eu poderia citar infinitos outros contextos onde as pessoas simplesmente podem se ver cansadas e, de forma nenhuma, acomodadas.

Acomodados, mesmo, são os que enxergam essas pessoas com maus olhos, que não param pra notar que elas chegaram em seus limites ou que simplesmente estão em condições que as impedem de fazer qualquer coisa sobre a situação em que estão. A sociedade sujeitou essas pessoas a uma inação ou a uma realidade tal, que somente a sociedade pode resolver e, claro, não quer resolver e não resolve. Acomodados são aqueles que evitam saber que é perfeitamente possível que todas as pessoas no planeta tenham farta comida, renda estável, estudo e uma atividade (profissional ou não) que contemple seu potencial, seus desejos ou objetivos. Acomodados são os que tem fortunas financeiras, privilégio na sociedade e mesmo assim escolhem não fazer bom uso disso com melhor aprendizado sobre si mesmo, sobre o mundo. São acomodados os que, apesar de terem um emprego e estarem plenamente bem de saúde física, fecham os olhos pra quem destoa dessa realidade. Aqui também são inúmeros os casos que poderíamos citar.

Somos uma sociedade hipócrita que enaltece os que fazem muito sem nenhum esforço ou barreira, chamando esses fracassados de líderes, exemplos, etc. Ao mesmo tempo, tornam insignificantes os que, apesar de imenso esforço, não conseguiram sair do buraco em que a própria sociedade os colocou. Se você jogar um peixe em um poço vazio, ele nunca vai sair do fundo, mas se o poço estiver cheio de água, a condição está favorável pra que um peixe ativo consiga permear todo o poço, como bem entender. O que nossa sociedade faz, usando ainda a metáfora do poço, é simplesmente construir um poço e nunca enchê-lo de água. Dessa forma, quem está fora do poço se vangloria de não estar lá embaixo e acusa quem está lá embaixo de ser acomodado demais pra subir. São construtores e donos desses “poços” os banqueiros; os corruptos; os que receberam imensas terras gratuitas do Estado e repassaram essas vantagens aos seus familiares; os herdeiros de pais ricos que nunca trabalharam um dia sequer na vida, bancados por um estilo de vida fácil, onde podem viajar sempre ao exterior, viver de investimentos e negócios abertos por seus parentes, esperarando passivamente o lucro abusivo cair em suas contas bancárias e desperdiçando suas comidas enquanto ofendem a classe trabalhadora em suas pseudo-conversas de mesa. Esses são tremendamente acomodados.

Vencedores, mesmo, são aqueles que permanecem vivos e dignos, apesar da vida dura que levam; os deprimidos que escolhem dormir pra não se suicidarem; os que se recusam a vida criminosa ou antiética, mesmo não vendo nenhuma oportunidade honesta de trabalho; os que escolhem ficar sozinhos, do que se envolver em relacionamentos tóxicos; os que preferem não enganar o público em troca de lucro fácil ou maior; os que não abaixam a cabeça pra violência do Estado e das quadrilhas paramentadas, mesmo sabendo da realidade; os que escolhem ser úteis ao mundo, mesmo tendo plena certeza de que é o mundo que lhes deve utilidade. Outra vez, inúmeros casos se encaixariam aqui.

Se houvesse tempo e menos cansaço, poderíamos listar cada um dos chamados ‘cânceres sociais’ e desmascará-los um a um, nesse nefasto sistema que favorece somente ao desonestos e antiéticos. Não se pode esperar que uma sociedade construída pelos mal intencionados, venha a ser uma construção diferente deles mesmos. Tudo que fazem é encontrar uma brecha fácil e barata pra explorar friamente qualquer outra pessoa que não tenha tido o azar deles em ter nascido em uma família ou contexto social que os coloca como fracassados acomodados em oposição aos que tiveram que optar pela dignidade, trabalho e, infelizmente, pelo pouco retorno dessas decisões em um ambiente onde honestidade e trabalho não são bem valorizados por quem já detém o dinheiro fácil e em grande quantidade, exceto quando a “valorização” é simbólica e ficíticia, reforçando “quão bom” é se esforçar pelo lucro desproporcional da empresa ou do chefe enquanto se ganha um pouco mais de água ou uma cesta-básica adicional pra não se ver morto por fadiga no trabalho.

Enquanto as pessoas acreditarem que não conseguem subir no poço seco por culpa delas mesmas, estarão compactuando com pessoas fracas que riem dessa situação ao mesmo tempo em que olham com nojo e desprezo aos que almejam dignidade. Forma-se, então, uma pseudo-teoria de que existem duas classes de seres humanos. Somente países que fracassaram nos principais temas chegam a tal conclusão absurda. O erro prático acompanha o equívoco de pensamento. Um exemplo de como se pode ser assertivo foi a ideia sugerida pela Suíça, em 2016, conforme esta notícia, que pretendia estabelecer uma renda equivalente a R$ 9 mil reais a todo e qualquer cidadão (R$ 2.270 reais para crianças), sendo o trabalho facultativo, apesar da renda. A ideia partiria do princípio de que todos pudessem ter a mesma renda, sem levar em conta quaisquer outros fatores prévios de riqueza ou status, permitindo um estilo de vida digno a todos. Todo o sistema financeiro para este feito é autossustentável, pois tem como alicerce o chamado “dividendo digital”, que é, a grosso modo, o dinheiro extra que se consegue por trabalho automatizado não-humano (máquinas e robôs), depois de ter feito o pagamento a todos os cidadãos. E engana-se quem pensa que isso acomodaria as pessoas, pois segundo pesquisas feitas à época, a preferência das pessoas era de justamente continuar trabalhando. O motivo, claro, é que uma vez que as pessoas não precisassem mais se sujeitar a empregos que não gostam só pra ter a renda necessária, elas poderiam finalmente trabalhar com aquilo que realmente gostam e ainda seriam pagas pra ter essa liberdade. Essa ideia, embora pareça inovadora, já existe há, pelo menos, 500 anos.

Ideias como a da Suíça, libertariam as pessoas dessa dependência do trabalho e, assim, elas poderiam exercer seus potenciais além desse setor da vida. Nasceriam deste contexto, inúmeros novos autores, artistas, pesquisadores, famílias com mais tempo pra dedicarem a si mesmos, e quaisquer outros tipos que, de outra forma, teriam dificuldade em substituir o trabalho por renda pela atividade por prazer. É como diz aquela frase: “Só é utopia se ninguém fizer.”.

E como seguimos dizendo obviedades nesse mundo enquanto elas ainda forem necessárias, vou registrar esses dois trechos da matéria da BBC:

Produzimos três vezes mais do que conseguimos consumir (…), mas isso não está acessível a todos. A renda mínima é um direito nesse contexto. Por que não tornar a riqueza acessível a todos?“, questiona o porta-voz do movimento pela renda mínima, Che Wagner, em entrevista à BBC Brasil.

É útil promover uma sociedade em que as pessoas tenham a estabilidade para tentar coisas novas (…), é útil dar a liberdade para as pessoas serem criativas. Isso vai ajudar muito a Suíça se for adotado“, opina Che Wagner.

E agora? Quem são os acomodados? A capacidade humana de inventar foi o que lhe poupou esforço ao longo da História. A própria invenção das máquinas e robôs são exemplos clássicos e atuais de como o ser humano pode se isentar do cansaço, se usar a realidade de modo inteligente e a serviço do bem-estar geral. Contudo, essa realidade futurista que estamos sonhando desde a Era Industrial, nunca se estabeleceu corretamente na maioria dos lugares, simplesmente porque as pessoas que almejam status e diferenciação social por meio do dinheiro, do poder, do sobrenome ou do cargo, ainda se acomodam e se acovardam diante dessa ideia frágil que é tentar ser melhor que outro ser humano, mesmo não tendo razão consistente ou qualidade pra tal pretensão. Ironicamente, é exatamente em modelos como esse proposto pela Suíça, que é possível que o ser humano possa, finalmente, ter renda e bem-estar sem ter a obrigatoriedade de trabalhar. Embora seja isso que muitos ricos no Brasil e em outros países pelo mundo desejem, na ideia concebida pela Suíça, além de ser possível, seria dado a todos os cidadãos.

Sendo realista e honesto, se eu tivesse essa liberdade financeira, podendo, inclusive, ser bem menor em valor, eu já teria optado por fazer estritamente o que eu gosto, sem me preocupar se as contas estariam pagas. Essa realidade é possível até mesmo fora dessa ideia suíça, desde que as pessoas se engajem em um sistema de interação realmente fluído. Quando, por exemplo, uma pessoa recebe um dinheiro pra exercer uma determinada atividade, automaticamente ela fica munida de dinheiro pra consumir produtos e serviços de outra pessoa, fazendo as próximas pessoas ficarem munidas de dinheiro pra fazerem o mesmo a outras e outras, sucessivamente. O problema está justamente quando o sistema não é fluído e uma única pessoa despeja uma quantia absurda de dinheiro somente em pessoas, produtos ou empresa que, ao invés de reverter esse dinheiro de volta pro fluxo, retém esse dinheiro por pura megalomania, para estruturar um “império” ainda maior de captação desse recurso. Esse é o exemplo clássico do que vemos hoje na maioria do mundo, onde apenas 8 pessoas detém mais dinheiro do que a metade mais pobre do mundo. Exatamente porque essa conta não fecha é que algumas pessoas ficam de fora do fluxo sadio de dinheiro e enveredam pela pobreza ao invés da igualdade de oportunidades.

Um sistema que é falho e fracassado a ponto de não ter apoio nem da matemática simples, não pode ser tolerado pelas pessoas se elas quiserem ser dignas e inteligentes o suficiente pra experimentarem a realidade aos moldes do que a Suíça suscitou para nossa reflexão em 2016. Aliás, vale lembrar que de 2016 pra cá, o Brasil conseguiu o inimaginável: estragar o que estava bom e piorar mil vezes o que não estava, apenas porque fracassados acomodados na corrupção da Política não tiveram vontade de trabalhar um dia sequer na vida e, se recebessem dinheiro do Estado para trabalho facultativo, ainda sim seriam um câncer, pois recebendo salários altíssimos como os atuais da Política brasileira, nada trabalham e ainda ficam com sede de mais dinheiro pelo caminho da corrupção. Agora que você conhece quem são os vagabundos desse planeta, fortaleça-se junto aos teus semelhantes, junto aos que lutam por ideais dignos e coerentes e fomente o aprendizado, a consciência e a recusa a modelos desnecessários no mundo. Sua inação lhe cobrará um preço caro: a sua própria piora junto com a piora exponencial do coletivo social. Quando você perde, a sociedade toda perde. Somos peças de um quebra-cabeça maior. Se cada indivíduo não estiver conectado ao necessário, nunca se desfrutará da harmonia do quebra-cabeça finalizado.

Há vários meses atrás eu distribuí livros novos gratuitos e, acredite se quiser, alguns supostos leitores de um enorme grupo de leitura, se sentiram incomodados com a prática. Desacostumados eles mesmos com a ideia de doar e dividir, desacreditam nos que fazem isso. Se esquecem que é exatamente entre os que menos tem, que figuram os que mais sabem partilhar. Quem compreende a dureza da miséria ou da injustiça é aquele que provavelmente irá agir contra tais equívocos no mundo. Sempre e toda a vez que eu pude, eu dividi o que eu tinha junto aos que estavam ao meu redor. Não cabe aqui fazer propaganda, porque não fiz mais que a minha obrigação diante dos contextos. Quando tive mais, dividi mais, quando tive menos, dividi menos, mas nunca deixei de dividir. Até mesmo em situações onde passei fome e que nada poderia comprar com 5 ou 10 centavos, optei por doar esse dinheiro a algum mendigo, que sobrevive, justamente, graças a arrecadação fracionada no coletivo. Se tivéssemos uma noção mais clara e menos doentia do mundo, bastaria preferir riqueza ao invés de pobreza e todos nós, poderíamos desfrutar de um mesmo padrão confortável e digno de vida. Não veríamos mendigos, nem bilionários dando declarações esdrúxulas como esta infeliz, herdeira de um império de mineração, que nunca trabalhou na vida pra reter a fortuna que lhe é atribuída hoje e que, mesmo assim, acha que o ideal ao mundo é que qualquer coisa acima de R$ 4 reais por dia é um salário muito caro pra se pagar a um ser humano. Me pergunto, então, se ela viveria o mês com 20 x R$ 4 reais = R$ 80 reais.

Esse tipo de gente acomodada, fraca, doente e mal intencionada só ocupa essas posições distorcidas na sociedade enquanto os próprios membros da sociedade se descuidam do que é importante de conhecer, fomentar e agir. Sei que muitos estão cansado da situação opressiva do mundo, mas se não pode entrar ativamente nessa batalha de combate ao erro, espera-se que, pelo menos, não critiquem nem criem barreiras para os que estão tentando fazer essa luta ocorrer. Cedo ou tarde a idiotice despenca e quanto mais alta estiver, maior será o impacto e mais garantida será a morte.

Rodrigo Meyer

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Não alimente o inimigo.

Embora muita gente concorde que na luta por determinadas causas e interesses, haja a necessidade de se combater problemas e fomentar soluções, muita gente ainda cai em um erro clássico que é compartilhar mídias originais dos inimigos pra, supostamente, criticá-los. Simplesmente não faça isso. Fique e te explico porquê.

Por melhor que seja a intenção de criticar e alertar mais pessoas sobre o quão ruim é determinada coisa, você deve fazer isso de maneira eficiente e que não seja como ‘o tiro que saiu pela culatra’. Quando você quiser que determinada mídia seque ou caia no ostracismo, você precisa, sobretudo, não ser parte da força que impulsiona essa mídia. E nas redes sociais, feliz ou infelizmente, o mecanismo que dá maior visibilidade pras coisas depende exatamente dos compartilhamentos e das visualizações que derivam disso e de novos compartilhamentos feitos, num esquema bola-de-neve. Quando nos damos conta, um post praticamente anônimo ganhou repercussão em grande parte da internet e quem nem sabia que uma asneira estava dita, agora sabe junto com diversos outros apoiadores e opositores, que, se compartilharam, ajudaram a tornar isso mais presente na atenção das pessoas, em detrimento de outros conteúdos melhores.

Lembre-se que tudo que há de ruim no mundo, como os preconceitos, os pensamentos equivocados, a violência, os discursos rasos e todo tipo de bobagem, foi replicado justamente por esse mesmíssimo efeito de propagação. Quando você não gosta de algo, há meios pra se falar disso, sem dar espaço pra mídia ou pra pessoa a quem você não concorda. Eis aqui algumas considerações:

Quando você encontrar uma foto que lhe pareça degradante, não há sentido em espalhar ela pra toda internet, com ideias como “vamos compartilhar esse absurdo até que algum responsável tome as providências”. Simplesmente não é assim que você conseguirá o suposto objetivo de fazer parar e de responsabilizar pessoas pelos erros já cometidos. Você não espalha um incêndio na floresta sob a ideia de querer que alguém seja impactado por um continente inteiro pegando fogo pra poder fazer algo sobre isso. Aliás, muitas das vezes quem faz esse tipo de pedido, faz com más intenções, esperando justamente que os incautos espalhem aquilo, objetivando ver o malefício se espalhar mesmo.

De maneira igual, vale pra tudo o mais. Se você encontra um vídeo que é ruim no Youtube ou no Facebook, compartilhá-lo, mesmo que com a boa intenção de fazer uma crítica ou um alerta, vai acabar dando mais visualização e destaque pra esse vídeo e o mecanismo das redes sociais começará a entender que esse vídeo é relevante e começará a ‘hankeá-lo’ melhor em relação a outros conteúdos. Como resultado, um número maior de pessoas verá aquele exato vídeo (por vezes sem ser do seu compartilhamento isolado com a crítica anexa) e, então, outros conteúdos bons que já tinham dificuldade de alcance, somem das timelines por causa do reposicionamento no hanking.  Isso é a receita garantida de plantar o que não se quer e secar as próprias boas sementes daquilo que se queria. Nada mais prejudicial que isso.

Outro detalhe importante é estender essa prática não só pras mídias mas para tudo que esteja relacionado aos contextos, pessoas, empresas ou lugares a que não compactuamos. Se você não quer que um político ganhe fama entre a população, simplesmente pare de colocá-lo nas notícias e nas redes sociais o tempo todo. Se o sujeito ainda é pequeno e anônimo, não faça ele se tornar grande e famoso. Deixe ele secar no ostracismo. Isso é uma lição que ajuda a moldar a própria sociedade sobre o que é válido ou não, o que recebe ou não atenção, o que tem ou não repercussão na internet, etc. Quando você não faz esse filtro, você permite que pessoas estúpidas consigam rapidamente saltar de um post anônimo isolado para uma comunidade que o cerca, o apoia, o endossa e o compartilha. Em pouco tempo, algo minúsculo se torna um problema enorme do qual teremos que lidar, como que um piano adicionado nas costas, pra quem já carregava diversos outros. Não é inteligente compactuar com esse modelo equivocado de lidar com pessoas, mídias, empresas e assuntos.

Saudável e necessário é focar-se naquilo que você quer ver prosperar. Se você quer que as pessoas conheçam mais sobre um determinado assunto, invista nisso, crie uma mídia própria ou compartilhe de uma boa mídia de terceiros aquilo que representa suas ideias, seus valores, seus objetivos. Em paralelo a isso, quando vir conteúdos inaceitáveis como xenofobia, racismo, violência gratuita, machismo e outros entulhos sociais, se esforce pra combater esses espaços pra que eles não voltem a existir e não se espalhem. Se quiser fazer uma crítica a eles, você pode, mas deve usar recursos que isolem completamente a mídia original. Pode, então, por exemplo, fazer um print de uma imagem e repostá-la dentro de um grupo pra que as pessoas possam saber o que ocorreu e, livremente, discutir sobre aquele assunto, entender e agir pra resolver. Outra forma possível é escrever uma matéria citando o assunto, sem que precise divulgar os criticados. Assim você combate o que há de ruim, sem dar visibilidade.

É claro que, muitas vezes, os inimigos já tem uma fama ou repercussão tal que é inviável não citá-los, afinal já são conhecidos pela maioria das pessoas, independente do compartilhamento, então, se referir a eles diretamente é útil. Quando já espalharam feito um câncer ou vírus, a tática já não pode ser apenas evitá-los, sendo preciso, agora, expor os absurdos como forma de usar o próprio peso do inimigo pra derrubá-lo. Tal como no judô, independente do seu porte físico, você pode colocar um oponente ao chão, apenas sendo habilidoso em verter todo o esforço e peso dele a seu favor no movimento, facilitando pra que ele praticamente caia sozinho. Isso é ser eficiente. Nas causas sociais, nas mudanças do mundo e até mesmo na disseminação de educação, seja na família, num debate na internet ou nas escolas, você tem o poder de fazer a coisa certa de um jeito que funcione e não gere mais problemas do que antes.

Se este texto lhe soa útil e realista, faça o papel de espalhá-lo. É assim que coisas melhores ganham mais espaço na memória das pessoas, no inconsciente, nas redes sociais, nos compartilhamentos, nas impressões sobre o mundo, na hora de transmitir valores aos amigos, as próximas gerações, etc. Aprender é indispensável, mas se não compartilhamos aquilo que aprendemos e/ou queremos ver no mundo, não veremos isso se espalhar como realidade. Se você quer MESMO que uma certa realidade positiva se estabeleça no mundo é seu papel fazer parte dessa epidemia proposital de fazer chegar pra mais gente.

Rodrigo Meyer

Valores ou baixa autonomia?

Na prática, somos um mundo onde a maioria das pessoas tem pouca referência real do que é certo e errado, do que é aceitável ou não. Ao mesmo tempo em que as pessoas figuram em todo tipo de desvio de conduta, elas pouco entendem sobre aquilo que fazem. Mesmo em um contexto onde as pessoas estejam, por exemplo, seguindo as normas e leis de um local, elas não estão necessariamente ponderando sobre o que é certo e errado. Isso ocorre porque, basicamente, grande parte das pessoas está condicionada pelo sistema e não pensam os porquês das regras.

Esse é o motivo, por exemplo, de pessoas que mesmo em um ambiente onde não há multas ou risco no trânsito, recusam-se a avançar o sinal vermelho, apenas porque estão condicionadas a parar o carro diante daquele simbolismo.  Tanto é verdade que estas pessoas condicionadas ficam tentadas a avançar o sinal assim que ele muda para cor verde, mesmo sem fazer uma análise dos riscos ou opções do cenário, como, por exemplo, o surgimento repentino de um pedestre.

Em uma situação saudável, as pessoas conseguiriam discernir com autonomia quando elas podem cruzar uma rua, avançar o carro, ultrapassar um farol vermelho, amarelo ou verde. Porém, grande parte das pessoas não tem autonomia suficiente pra decidirem sozinhas como proceder nos ambientes. Estas pessoas são lidas, por vários estudos, como propensas a seguir regras como forma de livrarem-se do peso do pensamento complexo, das decisões ou do comprometimento com qualquer tipo de reflexão sobre os assuntos. É uma forma de aliviar para a mente fragilizada e pouco hábil o controle da realidade, entregando esse controle a outra pessoa, a quem eles possam simplesmente apontar como líderes ou tutores e seguir, cegamente, o que eles dizem.

Tal conduta sempre foi possível de ser vista na humanidade, afinal, a diversidade de mentes também inclui uma grande parcela de pessoas com baixa autonomia. Para estas pessoas, onde tal conduta é mais provável de ocorrer, figuram os exemplos de situações desastrosas da História e Política do mundo. Pode-se dizer que seja o caso de quando alguém enaltece lideranças com postura rígida e reacionária, para governantes, lideranças de grupos sociais, emissoras de televisão, autores, comunicadores, figuras no círculo familiar ou de amigos, etc.

Ironicamente, ao mesmo tempo em que essas pessoas entregam as responsabilidades de pensamento e decisão sobre o mundo para outras pessoas, tornam-se, automaticamente, inaptas para eleger tais líderes. Isso explica porque, normalmente, a escolha é pautada em figuras com discursos falaciosos, cheios de preconceitos e tom exagerado, afinal, para uma pessoa despreparada e que não se envolve nos próprios pensamentos sobre as coisas, uma falácia parecerá verdade e aquele que profere tal falácia, parecerá um bom intérprete do mundo. É assim que nascem idiotas comandando multidões de pessoas ainda mais idiotizadas. Por isso mesmo é completamente falsa a premissa de que a popularidade atesta a qualidade de algo ou alguém ou de que atende as necessidades do grupo que o apoia.

A única maneira de não cair nesse equívoco é ter autonomia nos pensamentos. Claro que, não sem suporte de uma extensa reflexão, leitura, diálogo e amadurecimento de sua pessoa e suas ideias. Mas, de toda forma, terá que ser feito o processo de independência do indivíduo pra que ele seja responsável por aquilo que vê, pensa, fala, interpreta e concebe como certo e errado. Sem isso, essa pessoa correria o risco de ter opiniões completamente diferentes a depender de como as leis fossem ou de quais ideias seus líderes passassem a propagar. Se alguém acredita que roubar é errado, não importa o quanto o roubo seja legalizado ou incentivado, a pessoa não roubará. Contudo, para pessoas sem esta autonomia, essa decisão depende do que as pessoas ditam pra ela.

Não é novidade nenhuma que pessoas de mente fraca criadas em famílias com o hábito de ditar regras e preconceitos, acabam sendo replicadoras, feito papagaios, desses mesmos equívocos. Acreditando automaticamente que aquilo que receberam da figura de referência é a verdade (sendo ou não), sentem orgulho em replicar tal informação absorvida sem filtro, pois da mesma forma que não tiveram filtro no momento da eleição da figura, da absorção das informações dela, também não terão na hora de se expressar ao mundo, em seus atos e palavras. Seguirão acreditando com fervor e, por vezes, de maneira violenta, já que toda sua vida e senso de orientação estão pautados e totalmente dependentes de pessoas externas, ideias externas, decisões externas. Por não serem autônomas sequer pra viverem sem essas muletas adotadas ao longo da vida, sentem-se incomodadas, cobradas e sob ataque quando lhes é tirada a venda e lhes é cobrado que enxerguem com os próprios olhos a realidade. O contato com a lógica, com a verdade e a realidade, choca, afinal, passaram tanto tempo com os olhos vendados, que a luz ofusca e agride.

Em tempos onde o ódio gratuito está se espalhando pelo mundo, nas mentes menos privilegiadas, é natural que pouca gente consiga perceber o quanto isso é tosco, patético, doentio e sinônimo direto de comprometimento da autonomia do raciocínio, do uso da lógica, da reflexão e do ato digno de assumir responsabilidades por si mesmo e por suas condutas, ideias, ações, reações, etc. Amadurecer, por isso mesmo, significa muito mais que cruzar números de idade ao longo do tempo. Grande parte da sociedade ainda pode ser lida como infantilizada, no sentido de que, tal como as crianças, ainda precisam da aprovação de “superiores” pra saberem a hora de dormir, o que podem ou não comer, se é válido ou não comer de boca aberta, etc.

Entre adolescentes e adultos, tal fraqueza de comportamento termina por refletir na adoção de líderes que, embora externos, possuem o mesmo teor ou estilo das figuras íntimas anteriores a quem já tenham eleito como tutores da realidade. É uma sociedade que se recusou tanto a aprender que, atualmente, há pessoas pedindo instruções a “profissionais” ou figuras de “liderança” para coisas simples como, se vestir, decidir o que comer, se devem ou não se relacionar com alguém, etc. Uma coisa é pedir conselhos, dicas e opiniões e outra, completamente diferente, é entregar toda a responsabilidade de raciocínio e decisão nas mãos de terceiros. Seria como eleger uma determinada pessoa, revista ou programa de televisão para lhe dizer o que vestir pra ir trabalhar ou que lugar frequentar para se divertir. Embora isso soe como ridículo quando citado pra quem é independente, é basicamente o que muita gente faz em diversos setores da vida, em inúmeras decisões das quais não participam ativamente e, por isso mesmo, sem sequer notar.

De maneira bizarramente automática, estão todos seguindo essas regras, tal como o exemplo do semáforo. Costumo brincar com o exemplo de que se houvesse um semáforo vermelho no meio do deserto, ainda veríamos pessoas parando, sem nem saberem que há algo de muito estúpido naquilo. Se a capacidade de interpretar a realidade fica comprometida, tudo que sobra é a interpretação emprestada de outros. E, em um mundo onde a ignorância alimenta líderes e seguidores, uma procissão de inúteis avança como células cancerígenas que crescem sem motivo e degradam o ambiente por onde passam, mesmo quando tenta-se combatê-las.

O exato motivo das “ideologias” de preconceito e ódio serem estúpidas é tão somente porque não são baseadas em nada concreto, já que são apenas reflexo desse hábito insensato de delegar a decisão a outros, sem nenhum filtro eficiente. Em um coletivo assim, está ativada a armadilha que gera uma multidão de racistas, homofóbicos, machistas, “religiosos” fanáticos, xenófobos, reacionários em geral, apoiadores de violência gratuita, etc. De tão esdrúxulo, torna-se piada entre os que tem algum uso da massa cefálica. Mas, pra quem não tem, pouco conseguirá perceber, já que exige exatamente o que eles não tem: autonomia e interpretação do mundo. Mas, a boa notícia é que até mesmo estas pessoas podem progredir em seus equívocos e decidir fazer uso, cedo ou tarde, da ideia de questionarem elas mesmas cada um dos pontos que antes foram mastigados cegamente. Tal transformação, contudo, exige resiliência, pois inúmeros serão os choques com a realidade, já que passou-se tanto tempo distante dela. Estar desacostumado ao pensamento independente, a lógica, a análise / reflexão do mundo, entorta a mente de tantas maneiras, que, por vezes, nem mesmo profissionais se mantém interessados de tentar prestar ajuda para reversão.

Há indivíduos que se tornaram tão ridiculamente viciados nos seus equívocos e fraquezas mentais, que, mesmo diante de toda boa vontade em lhes ensinar e mostrar a lógica, ainda não estão prontos pra receber nada disso com bons olhos. Cria-se, infelizmente, uma barreira de proteção que é derivada do vício de conduta, que basicamente impede o próprio “tratamento”. É como se, por exemplo, um indivíduo tivesse tanto medo da dor gerada pelo torniquete, que ficasse preferindo a perna quebrada em fratura exposta, com perda de sangue. A cada vez que encostam o torniquete, suscita uma dor nova na exata área fragilizada, o que faz muita gente recusar a ajuda. Em um aprofundamento dessa analogia, há casos onde as pessoas a quem tenta-se ajudar, recusam até mesmo a anestesia que poderia tornar o processo indolor, uma vez que desconfiam do anestesista, do hospital, dos métodos, ou até mesmo de que fratura exposta é algo que precise ser corrigido para a saúde do corpo. Assim, muita gente se torna um ferrenho defensor da própria ruína, por pura ignorância e covardia. E, sinceramente, tem casos em que eu não quero nem tentar ajudar, porque vejo, nitidamente, que seria esforço em vão. Prefiro mil vezes dedicar tempo e energia com quem tem alguma chance de se transformar. O resto não é, no momento, minha prioridade, até porque não sou o salvador do mundo, nem sou responsável pelos outros, mesmo que estes, claramente, não tenham responsabilidade por si mesmos. Não sou pai, não crio crianças e meu papel de ajuda social é secundário ao meu próprio papel, pois estou ocupadíssimo exercendo minha autonomia e interpretação do mundo, das pessoas e de mim mesmo.

Rodrigo Meyer

O que nos faz escrever errado?

De forma bem resumida, a geração de pessoas que cometem erros de grafia e gramática, está intimamente relacionada com o que cada uma dessas pessoas absorveu de instrução em leitura e escrita anteriormente. Isso significa que, o excesso de erros reflete o pouco contato com a escrita correta, tanto pela própria quando pela leitura de outros autores. E se a pessoa tem lido outros autores e mesmo assim ainda está recheada de erros, é porque está lendo autores que também expressam erros de escrita. E vale dizer que se estes autores estão errando na escrita, eles também leem pouco ou nada e, portanto, podem não ser a melhor opção de autor pra se ler, não só pelos erros em si, mas pelo pouco embasamento que eles possam ter em razão do pouco contato com os livros.

Por padrão, editoras, em teoria, fazem a revisão de todo material que elas editam antes de levar para impressão. É por meio desse filtro profissional que tenta-se garantir a ausência de erros nas obras finais. Claro que, vez ou outra, ainda escapam alguns erros dos olhos dos próprios revisores, mas é fácil identificar quando um erro é um deslize isolado e não um desconhecimento do idioma por parte dos envolvidos. É visível, por exemplo quando várias vezes uma determinada palavra é escrita de forma correta, mas em algum momento do livro, surge uma letra trocada ou algum erro em exceção aos demais usos dessa mesma palavra.

Fora dos livros revisados, dos espaços mais profissionais de jornalismo ou ambientes similares de criação, especialmente na internet, onde tudo é acessível de forma praticamente gratuita e instantânea, é comum vermos um crescimento nesse problema com a escrita. Engana-se quem acha que isso está relacionado estritamente com diplomas, nível escolar ou social. Na verdade tem apenas a ver com o quanto a pessoa está envolvida com o hábito da leitura de autores que escrevem corretamente. Há muitas pessoas que mesmo tendo formação universitária, por exemplo, não possuem o hábito de ler, apesar da suposta necessidade de se absorver conteúdos durante essa fase de estudos.

São recorrentes os erros entre todas os grupos de pessoas, afinal a ausência de leitura é algo que abrange a maior parte da sociedade brasileira. Segundo uma das notícias que vi, apontava-se que 73% dos brasileiros nada liam. Você pode achar esse número exagerado, diante de um cenário onde livrarias são grandes espaços em shoppings que apresentam uma diversidade tão grande de editoras e autores. Embora haja essa realidade, é fato que o preço absurdo dos livros reflete exatamente essa pouca demanda pela leitura. Além disso, muita gente tem o péssimo hábito de colecionar livros aos quais jamais lê. Uma fila interminável de livros guardados por status e estética, configuram lindas estantes cheias de conteúdos que nunca entraram pra dentro das cabeças de quem os comprou.

Agora, entende-se que, de forma geral, não somos um país que lê e, por isso, é compreensível que muitos de nós sejamos propagadores de erros. Ainda que sejamos retificados sobre erros grosseiros durante nossa alfabetização e formação escolar, com nossas aulas de redação, literatura ou Língua Portuguesa, ainda ficamos distantes do ideal, porque não somos incentivados a nos tornar leitores de fato. Criamos um estigma de que os espaços de aprendizado ou os próprios livros, são algo chato e desnecessário. Diante dessa sensação, fica difícil inserir pessoas para algo que, apesar dos benefícios, não é visto com bons olhos.

Escreveríamos melhor se gostássemos de ler. Gostaríamos de ler se lêssemos mais. Leríamos mais se a leitura nos fosse apresentada dentro de um sistema de cultura e de ensino onde isso não fosse uma imposição regrada. Também seria importante que os próprios professores e incentivadores da leitura aos alunos não fosse pessoas igualmente contaminadas pelo desprazer a que tentam evitar aos outros. A grande realidade é que somos cercados de pessoas que, mesmo em profissões que exigem extensa leitura, não leem. Somos uma sociedade onde é possível encontrar professores e diplomados com menos instrução e cultura que alguém que nunca pisou em um ambiente formal de ensino. Isso tudo ocorre porque, no final das contas, não é a simples participação de um ambiente escolar ou universitário que garante o que essa pessoa será ou fará. É evidente que um leitor ou estudioso autodidata progride mais do que um aluno de escola ou universidade que nada investe em seu próprio aprendizado.

Eu sou, desde que me conheço por gente, avesso aos ambientes convencionais de ensino. Sempre fui aquele que questionava e me opunha aos equívocos e atrasos encontrados pelo caminho, diante de professores pretensiosos. Não posso negar que, no meio de toda essa salada, conheci pessoas incríveis com uma mente muito privilegiada, mas certamente eram uma exceção. Algo esperado como comum (embora não seja normal), em um país como o nosso, onde vocação pra ensinar e qualidade de ensino não costumam fazer parte dessa classe de “profissionais” que, muitas vezes, estão nesses cargos estritamente por falta de opções melhores e por um salário que os livre da miséria. Que proliferem as benditas exceções e que esse segmento de trabalho seja ocupado tão somente por pessoas que amam aprender e ensinar, afinal, quem não gosta de aprender, não contagiará ninguém mais a gostar. Exemplo é tudo, especialmente pra essa finalidade.

No ambiente familiar e no círculo de amigos, ou mesmo nos grupos de interação pela internet, é importante haver alguma tendência ou clima pra que a leitura seja vista com olhos diferentes do que normalmente aconteceu desde sempre. A medida em que as pessoas repetem a leitura como um hábito de prazer, o cérebro interpreta essa atividade como algo memorável, ou seja, como algo que vale a pena guardar na memória. E se o cérebro memoriza boas leituras e escrita correta, será praticamente difícil contrariar o que foi absorvido. Eis o mistério resolvido de como aprendemos a escrever melhor e corretamente com a simples repetição da leitura. E vai uma dica adicional. Na ausência de livros, sinta-se a vontade pra ler seus próprios textos várias e várias vezes. Embora o conteúdo possa não surpreender mais, você estará memorizando o jeito certo da escrita das palavras e poderá fazer bom uso disso quando for escrever novos textos. Assim você mesmo cria um círculo vicioso positivo.

Outra dica simples e eficiente é adotar algumas poucas palavras novas e usá-las repetidamente em um curto espaço de tempo. Devido a novidade e a frequência exagerada, o cérebro marcará aquela palavra como importante, pois você a destacou pelo viés do objetivo. Ter um objetivo pequeno e fácil de cumprir se torna uma motivação para a conclusão confortável disso. Se repetir esse feito para novas palavras a cada vez, terá um acréscimo substancial no seu repertório de vocábulos. Em um efeito bola-de-neve, quanto mais diversidade de palavras e contextos você aprende, mais complexo se torna seus textos criados e, assim, você tende a buscar até mesmo assuntos novos que antes nem lhe eram concebíveis. Um dicionário, podendo ser até mesmo de um aplicativo de celular, do Google, do corretor ortográfico do editor de textos / navegador ou mesmo um impresso, te ajudará a descobrir que a única coisa chata é querer entender a vida e não ter ferramentas sequer pra esticar sua absorção da ideia de outras pessoas, outros autores, outros leitores. É por meio da escrita e da leitura que a gente consegue dar um passo a mais, nesse mundo onde não precisamos mais viajar meses de navio pra entrar em contato com uma informação , um pensamento, uma temática. Estamos em contato com todo tipo de material, inclusive inúmeros livros gratuitos disponibilizados pela internet, além de milhares de conteúdos de blogues e arquivos de PDF com todo tipo e formato de texto, em praticamente todos os idiomas.

Não há mais desculpas consistentes pra fugir do seu progresso na literatura. Muita gente se descobre apaixonado por ler, simplesmente começando a ler. A velha história da criança que não gostava de brócolis até se permitir comer e se tornar um eterno comedor de brócolis. Muito do que não gostamos é apenas um preconceito por algo que nos foi apresentado de forma errada e nos deixou uma marca desagradável ou pouco instigante. Precisamos redescobrir as coisas para redescobrir a nós mesmos. Quando o mundo disser que algo tão incrível e útil quanto a leitura é chato, tente descobrir porque dessa afirmação e se dê a chance de reverter esse equívoco, se colocando em um papel positivo e receptivo para livros, fanzines, blogues, rótulos de shampoo e bulas de remédio.

Rodrigo Meyer

Cultura underground versus estrutura ruim.

No início, toda a contracultura ou a chamada cultura underground apresentava-se em tom de improviso, justamente porque era esse o limite possível naquele contexto. Em um ambiente onde era caro produzir a cultura “padrão”, esse feito limitava a expressão a quem detinha dinheiro ou influência, ou, ao menos, a pessoas que se sujeitavam aos modelos convencionais das grandes mídias ou mídias tradicionais. Criar e difundir conteúdo diferente, na contramão dessa correnteza de ideias moldadas, era achar uma brecha no tempo e no espaço, e fazer acontecer, nas condições que fossem possíveis. Faziam alguma coisa ruim em estrutura ou simplesmente não fariam nada.

Contudo, o cenário de cultura se ampliou significativamente e já não há uma barreira tão limitadora que renegue as pessoas a algo sempre sem qualidade na estrutura ou na técnica. Já é possível, por exemplo, ter um disco de música gravado com pouco recurso e disponibilizar para absorção ou venda via internet, praticamente sem custos. Pode-se ter credibilidade pra se defender uma temática alternativa como opção de negócio viável pra uma casa noturna, um bar, um comércio pautado em um estilo de vida tido como ‘incomum’, etc.

Claro que a cultura, muitas vezes, é exatamente o lado “ruim” que os ambientes ofertam e que o público aprecia, justamente pelo seu estilo, pela tradição, pelo clima do ambiente, pelas referências. Embora o improviso e a personalidade dos lugares tenham peso ímpar nessa equação, isso não significa que as coisas precisem ser ruins em tudo. É possível ter copos limpos, um banheiro onde não se afunde todo o sapato num lago de urina, funcionários minimamente educados e capacitados pra atender o público, etc. E isso é uma observação que faço mesmo sendo um dos que adora ambientes simples e detonados. Dentro da minha realidade de cultura gótica, indie, rock, punk ou qualquer coisa que permeie o meio urbano, é minha cara os becos, beiras de calçadas, esquinas, bairros afastados, apartamentos velhos, casarões sob risco, galpões abandonados, etc. Nem por isso, deixou de ser útil e importante, nos lugares onde isso é possível, um ajuste na estrutura que possa somar pra quem frequenta. Não é preciso sofisticar um lugar pra melhorar sua estrutura, mas não se deve cair no pensamento equivocado de que o ideal de “quanto pior, melhor” é algo pra se levar ao pé da letra e/ou em todos os quesitos.

Se décadas atrás era difícil conseguir ter expressão na sociedade com estas subculturas ou estilos, hoje em dia se tornou algo muito bem recebido dentro dos devidos segmentos. E é claro que isso não elimina a importância ou o papel de apoio pra tudo o mais que surge ainda em condições improvisadas. Ainda há muito underground pra ser expresso, mesmo abaixo de todos esses espaços que já estão bem sucedidos na sociedade. Espaços devem sempre ser gerados, independente de suas condições, afinal toda expressão é um sinal de que alguém quer voz, quer espaço, quer ter seu momento, sua ideia, seu destino, seu valor. Onde quer que olhemos, precisamos entender que tudo é dinâmico e único. Ao mesmo tempo em que alguns cenários querem simplesmente existir, outros já existem e podem progredir, mesmo quando optam por não fazer.

A impressão que tenho, às vezes, é que as pessoas estão, propositalmente, enterrando o investimento na subcultura por medo de ver aquilo se transformar em algo diferente da essência. De certa forma eu entendo esse medo, mas é preciso diferenciar com cautela o que é investir em subcultura / cultura underground e o que é matar a essência ou propósito desse nicho em troca de massificá-lo ou torná-lo a chamada ‘cultura de massa’ ou ‘cultura mainstream‘. Essa competição pra ver quem é mais anônimo ou restrito a pequenos grupos não é algo que deve ser levado a cabo por ninguém que tenha sensatez, afinal o que se espera da cultura, sempre, é difundi-la ao mundo todo, o quanto for possível (desde que isso não contrarie os princípios, claro), afinal, se alguém tem uma mensagem e ideologia expressa em uma letra de música, em um estilo de roupa ou no lefestyle, isso é o que se quer comunicar ao mundo como forma de alavancar reflexões, mudanças, ações, oposições, etc.

Penso que se estamos a nos opor a algo convencional, especialmente o modelo social, de mídia, e estamos tentando quebrar as correntes que limitam a nossa expressão de valores, verdades e ideologias, então devemos ser as pessoas mais engajadas em fazer acontecer essa concretização em nossos próprios espaços. No final das contas, apoiar a cultura alternativa, underground ou a ‘contracultura’ é nada mais que agir pra que a estrutura dela favoreça a permanência do próprio público adepto / simpatizante desses universos.

Relato com tristeza que, muitas vezes, a cultura alternativa se tornou um espaço que abandonou o interesse pelo aprendizado ou pela inovação. Vejo muita gente vestindo os crachás estritamente pela onda ‘cool‘ da aparência exótica e não exatamente pela sinceridade em viver essas realidades em termos de personalidade ou cenário cultural. Muitas dessas pessoas, infelizmente, estão tão viciadas na própria bobagem da pseudo-cultura forjada ao redor do mundo, moldados pelos padrões de pensamento, de moda, de ideias, de conduta, de objetivos, etc., que já não cumprem nenhum papel realista dentro dos cenários alternativos. Há muitos destes perdidos que tornam-se até mesmo famosos nesses meios, apesar da contradição berrante. São tempos onde o underground está perdendo o sentido ou, então, se reinventando em outros cantos ainda mais recentes e anônimos (desta vez por falta de opção).

Observo preocupado os lugares onde a essência é, por exemplo, combate a preconceito, mas borbulham nestes meios figuras completamente opostas a isso. Nada pode ser mais patético e desnecessário, ainda mais pra algo que é tão frágil e restrito como um nicho de subcultura. Talvez o encantamento pelo diferente seja a única coisa que faça essas pessoas se sujeitarem a estar onde sequer são bem-vindas. Talvez muitos destes nem entendam ou nem saibam o que é que cada nicho de cultura ou subcultura representa e, por isso mesmo, é importante que façamos um bom esforço em promover essas realidades, a fim de tornar isso mais visto, mais absorvido e discutido socialmente. Se nunca levarmos o underground pra fora dos subterrâneos da sociedade, talvez estejamos secando a fonte de cultura. Pense que as pessoas não vivem e não criam pra sempre e que a cultura não é só roupa, bebida, música e casa noturna. Vivenciar uma época, uma ideologia ou um estilo de vida é algo que exige das pessoas uma participação geral e full time.

Além de tudo isso que foi levantado é preciso dizer que, mesmo quando nos colocamos em preferência ao underground, a cultura dita ‘padrão’ ainda está ativa e predominante na sociedade, o que nos faz, muitas vezes, ter alguma dependência (seja pouca ou muita) para conseguirmos moldar alguma qualidade de vida, dignidade, etc., afinal, infelizmente, muita coisa ainda está na contramão do que idealizamos e não temos, ainda, todo controle sobre isso. Então, por conclusão, devemos fortalecer os nichos exatamente pra nos vermos a frente de opções que contemplem nossos próprios interesses, nossos objetivos, etc. Claro que não digo isso estritamente sobre os comércios, mas, eles também, afinal são um grande cenário de concentração de pessoas. Eventos e festivais também são  outro modelo similar com faceta de comércio, mas que ainda remete a um aspecto de difusão e comemoração da cultura muito mais do que um simples espaço de venda de ingressos e bebidas.

Em outros textos ainda terei oportunidade de falar sobre outros aspectos dessa temática, em especial sobre as relações humanas, as personalidades e as personagens de cada um nesse grande jogo incógnito que é viver e explorar o significado de tudo. Até breve!

Rodrigo Meyer

O jeito certo de se apontar um problema.

Primeiro, vamos esclarecer que crítica é sempre construtiva, porque crítica não é ofensa. Fazer uma crítica é elencar os pontos positivos e negativos de algo e ponderar o que poderia ser diferente, melhor ou que poderia ser suprimido, adicionado, etc. Entendido isso, o melhor jeito de se apontar um problema é deixando, junto, uma sugestão de solução. Desenvolvamos esse assunto.

É muito oportuno poder observar e identificar aquilo que não funciona bem no mundo, nas pessoas, nas situações, em nós mesmos, nos projetos ou nos produtos e serviços, mas o ser humano quando está sobrecarregado, raramente consegue olhar pra algo sem se envolver emocionalmente ou sem reagir de forma desproporcional. Isso faz com que reaja apenas apontando erros, sem deixar solução alguma. E isso, ironicamente, é mais um erro depositado ao mundo. Se queremos ver soluções no lugar dos erros, devemos agir diferente.

Quando observar, por exemplo, um artista apresentando uma obra, você tem a oportunidade de dar seu ponto de vista, citando os aspectos que lhe agradou e aquilo que notou de falho, insuficiente ou incômodo. Algo simples como dizer “Gostei do conceito e das cores e acho que, por ser uma obra mais figurativa, poderia lapidar o volume ou iluminação nesta região, para uma dimensão mais realista ou mais convincente. A proporção da tela parece bem adequada pro tipo de composição e essa região avermelhada me passou a sensação de um ambiente ou momento feliz.”. Está feita uma crítica eficiente e agora o artista terá a oportunidade de refletir sobre isso, estudar o que achar necessário e tentar melhorias nas próximas criações.

Você pode fazer algo similar em tudo onde tiver algo para acrescentar sobre seu entendimento ou suas impressões sobre algo. Claro que nem sempre é preciso prestar sua opinião, mas se desejar colaborar, a crítica é uma opção. Nem sempre as pessoas que vão receber a crítica estão preparadas pra tal. Muita gente no mundo solicita opiniões já esperando ouvir apenas comentários positivos, elogios, etc. Para este tipo de pessoa, não é fácil adicionar informação e geralmente, por isso mesmo, elas estagnam em suas criações. Se notar que alguém não é receptivo a críticas, você pode simplesmente evitar aquela pessoa e dedicar sua atenção, tempo e conhecimento para quem esteja querendo aprimorar algo.

E as críticas não servem apenas pra avaliar uma tela, um texto, um filme, uma música ou uma apresentação de dança. Este recurso é necessário em tudo que vamos fazer, inclusive dentro de nós mesmos, sob nossa própria análise. A crítica, seja lá de onde venha, deve ser sempre a ponderação realista dos detalhes, dos aspectos, das condições. Podemos, por exemplo, olhar pra dentro de nós e refletir que talvez devamos ser mais cautelosos, mais ousados, menos ousados ou que devamos tentar um outro horário de almoço ou de sono. Mas, isso não pode ser algo arbitrário. Deve sempre ter um propósito de esclarecer e aprimorar. Toda solução sugerida deve ter algum embasamento junto ao que foi observado de problema. Talvez a mudança de um hábito pessoal possa ser percebida como necessária depois de nos vermos mais cansados, tristes ou improdutivos no modelo anterior. E se quisermos ajudar a nós mesmos, eis aí uma boa crítica que podemos fazer.

Assim é com tudo no mundo. Você pode dizer isso ao seu companheiro de trabalho, parceiro de relacionamento, amigo, funcionário de uma loja, ao serviço de atendimento ao consumidor de uma empresa, ao produtor de conteúdo na internet, autor de um livro, um parente, etc. Onde houver gente, há o que ser observado e criticado. Dar seu parecer, especialmente quando solicitado, dará a oportunidade do mundo melhorar, se os responsáveis quiserem aprender algo com o que ouvem das pessoas ao redor. Todos saem ganhando com esse tipo de iniciativa. O mundo só se tornou avesso a críticas porque se acostumou a ouvir ofensa no lugar delas e a acreditar que as ofensas eram as tais críticas. É evidente que ninguém estará interessado de ouvir ofensas, mas, como já dito, críticas não são ofensas. Descarte as ofensas e seja desejoso por críticas o tempo todo. É com elas que poderemos notar algo que não víamos e aprender algo novo.

Se durante nossa alfabetização nunca tivessem corrigido nossas trocas de letras na leitura ou escrita, jamais teríamos nos elevado ao nível de poder ler e escrever corretamente ou com facilidade. É por termos nos permitido aprender desde sempre, que superamos os tropeços e inabilidades da infância e pudemos desfrutar de uma posição melhor quando adultos. Independente do ritmo em que cada um vai, o importante é estar aberto para receber e dar críticas sempre que houver espaço pra tal. Nosso papel na sociedade é muito mais do que apenas nos fecharmos em nós mesmos. Viver em sociedade é justamente o oposto da postura de egoísmo, uma vez que tudo que temos, somos e fazemos tem impacto no mundo e é dependente do entorno. A somatória de como cada indivíduo é, determina como o coletivo será. Essa relação de troca útil e harmoniosa entre as pessoas, é o que te dá instrumentos para vencer. E se você deseja crescer, eis aqui a minha crítica ofertada. Espero que ela seja útil pra você fazer seus ajustes.

Rodrigo Meyer