Como é ser workaholic?

Workaholic é um termo adotado pra fazer uma analogia com “alcoholic” (alcoólatra, em inglês). Assim, o workaholic é como um viciado em trabalho (work). Claro que isso não é necessariamente ao pé-da-letra, mas existem também casos de pessoas que adoecem pelo excesso de trabalho ou que passam por situações indesejadas em decorrência do vício em trabalhar. Mas, de forma geral, o termo “workaholic” é usado quase que por humor pra casos mais leves onde as pessoas são muito mais interessadas em trabalhar e produzir do que ficar a esmo. E existem muitos graus disso e também motivos muito distintos pra essa postura.

Eu me considero um workaholic, no sentido de sentir necessidade de criar. Eu estou sempre disposto a fazer alguma coisa. Talvez por eu ver prazer nas coisas que faço, o trabalho não seja um incômodo e, portanto, desejo mais dele. Passei cerca de 17 anos na Fotografia e, incontáveis vezes, fotografei de graça quando não haviam clientes, pois adorava fotografar. Geralmente quem tem uma profissão como essa, estende ela pros momentos pessoais também. Eu viajei bastante pra registrar lugares e sempre estive com a câmera a postos nos momentos de família e relacionamentos. É claro que esses momentos pessoais não eram trabalho, mas eram preenchidos com atividades que demandavam certo esforço.

Ocupar minha mente com tudo isso, seja por dinheiro ou não, fazia parte de quem eu era. Ainda me vejo em situação similar, embora eu tenha aceitado, com muita tranquilidade, o ritmo diferente de atividades de quem está sem trabalho às vezes. Sempre fui autônomo e, por isso, nem sempre estive ocupado com clientes. Preenchi meus dias escrevendo, desenhando, desenvolvendo pinturas digitais, vídeos, composições e todo tipo de criação. Atualmente, com uma predominância maior de trabalhos em design gráfico, me vejo sempre recriando velhas mídias, atualizando projetos e prospectando novos clientes a partir do que já tenho feito.

Cursei faculdade de Comunicação Social e de lá pra cá, tudo que eu fazia estava muito marcado por essa ponte entre o público e algo. Desde a Fotografia, que também é Comunicação, até todas as outras mídias de expressão, sempre estive na busca de encontrar os meios necessários pra viabilizar a aceitação e entendimento do que havia de melhor entre as pessoas, os projetos, os eventos, os conteúdos, as ideias, etc. Acredito que por gostar muito de tudo isso e de ver resultados sólidos brotarem, acabei me entregando full time nessas atividades, mesmo quando eram apenas pra mim. Talvez eu tenha me tornado workaholic apenas por ter encontrado algo que realmente gostasse de fazer. E acho sensato que as pessoas gastem muito tempo naquilo que lhes dá satisfação.

Desde que essas atividades não estejam me privando de saúde física e emocional, acho que é válido. Eu não deixo de vivenciar nada por conta disso. Estou sempre em busca de bons momentos ao lado de quem realmente importa pra mim. Socializando, rindo, dividindo um som, uma conversa, umas risadas e, muitas vezes, me permitindo não fazer absolutamente nada em específico. Dormir, por exemplo, é das coisas que mais gosto de fazer e tem dias que é só o que faço. O que me incomoda é quando quero fazer algo e não tenho opções. O tédio diante da escassez de momentos me deixa até mesmo mais tendencioso ao trabalho excessivo, pra não me ver com tantos momentos vagos.

Às vezes gostaria que certos lugares estivessem abertos em horários fora do convencional e que as pessoas também tivessem essa inquietude e disposição pra aderir a atividades de última hora. Eu sou aquele que diz ‘sim’ pra quase tudo. Essa mentalidade e personalidade, com certeza, tem muito a ver com ser workaholic. Há pessoas que preenchem o vazio do tempo com momentos menos satisfatórios e, claro, passam a desprezar suas próprias realidades, afinal, ninguém vai ter uma vida agradável se fizer de seus dias somente coisas desagradáveis. A vida é apenas a somatória de nossos momentos. Se as pessoas se entregam a banalidades e coisas que não lhes preenchem, certamente sentirão que a vida não está valendo a pena.

A grande satisfação da minha vida é saber que, todo dia, estou fazendo meu melhor e buscando os contextos, pessoas e atividades que me deixam engajado, satisfeito, feliz, etc. Às vezes isso flui pela leitura de um livro, um blog, um canal de vídeo, uma música, uma troca de mensagens, uma conversa de bar, um momento sozinho, a contemplação de um prato de comida diferente, o próprio ato de cozinhar, a arrumação da casa, uma volta de carro pra ouvir música e sair sem rumo, uma visita, a chegada em uma cidade nova, um projeto gráfico pra uma nova mídia, escrever, pensar na vida, abraçar, rir e pairar em outras realidades.

O mundo é diverso e, pra mim, estagnar não leva a nada de bom. Enquanto as pessoas dizem ‘não’ pra tudo e todos, eu me abro pras possibilidades e mergulho de cabeça. Eu quero mais é que a vida aconteça. Eu não tenho medo algum do futuro, mesmo que ele não seja vitorioso ou dentro do idealizado. Eu não me preocupo com o futuro, nem tenho pendências com o passado. Tudo que eu quero é o momento presente e a certeza de que fiz o meu melhor.

Rodrigo Meyer

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Os prazeres e dificuldades em ser professor.

A imagem que ilustra esse texto é parte da obra ‘The Violin Teacher’ do pintor italiano Frederico Andreotti (1847-1930).

Embora o Brasil seja um país precário em cultura e educação, há muita coisa sendo feita nessas áreas, apesar da pouca visibilidade, reconhecimento e valorização. Diversas iniciativas individuais e também de coletivos e ONGs estão levando transformações de ensino e aprendizado em diversos segmentos e para diversos grupos sociais. Desde alfabetização e Ensino Profissionalizante em geral, até Música, Fotografia, Dança, Marcenaria, Gastronomia, Teatro, Cinema, Informática, Astronomia e muito mais.

Para muita gente, a escolha em se tornar um professor ou instrutor em uma dessas atividades vem da busca por transformação social e do interesse de dividir experiências pessoais com a população. São atividades que trazem muita satisfação, mesmo quando não envolvem remuneração. Dedicar parte do nosso tempo pra ensinar alguém a fazer algo novo, melhor ou mesmo pra que pensem o mundo de forma diferente, nos dá uma sensação de que podemos mudar a realidade do coletivo e, portanto, nossa própria realidade.

Eu dediquei bastante tempo procurando áreas onde eu pudesse ensinar aquilo que eu tivesse maior domínio. Apesar de inúmeras tentativas e investimentos de tempo e dinheiro nessas questões, sempre observei a dificuldade que é tentar trazer algo sólido pra uma população que, em sua maioria, não está preparada pra receber essas oportunidades. Não podemos, contudo, despejar toda a culpa nessas pessoas apenas, afinal, elas são reflexo de algo maior que é o desenvolvimento social geral, a criação familiar, o ensino público (e até o privado) das escolas, a cultura geral do país, os dramas e barreiras de socialização e (des)valorização das diversas áreas do conhecimento humano, questões psicológicas, socioeconômicas, contextos pessoais e locais e uma lista imensa de outras coisas. Em cenários assim é dificílimo trazer algo positivo e diferente, porque a demanda chega a sumir várias vezes por uma desconexão entre o que as pessoas acham que querem e o que essas áreas de conhecimento realmente visam e trazem.

Eu sempre gostei de ensinar, mas nem sempre temos o preparo necessário pra lidar com as adversidades desse contexto. Como aluno já me via deslocado de todo sistema de ensino no Brasil e, talvez por isso mesmo, busquei maneiras de levar eu mesmo o ensino adiante. Iniciei ensinando desenho e questões mais elementares da arte pra quem não tivesse nenhuma experiência nesse meio. Depois participei de mídias com a finalidade de disseminar conhecimento de arte digital. E, por fim, quando me tornei fotógrafo, decidi repassar tudo que aprendi no curso e na carreira de Fotografia pra que mais gente se tornasse autora dos próprios conteúdos. Também estive sempre aberto a ensinar pessoalmente nas áreas de Comunicação, Publicidade, Propaganda, Editoração e a difícil arte da Literatura.

Não existe área do conhecimento que não possa ser ensinada em alguma proporção por qualquer pessoa. Todos nós temos algo pra ensinar, mesmo que seja algo mais simples e superficial para pessoas que não tem o mesmo tanto de conhecimento naquele assunto. Assim como as conversas, dicas e grupos temáticos na internet, as palestras, workshops e aulas são todas formas de alavancar um pouco mais a estagnação de informação e saber que sobrevoa nosso coletivo social. Temos que ter um pouco de disposição pra ser paciente e tentar levar o máximo de conteúdo possível. O problema é que, muitas vezes, falta tempo e falta meios adequados pra transferir esse conhecimento. E, então, todo o prazer em ensinar, começa a se manchar pelo insucesso na missão. Se as pessoas não estão conseguindo aprender, é porque nós não estamos conseguindo ensinar, afinal a tarefa de ensinar não é simplesmente despejar conteúdo, mas encontrar os meios para que tal conteúdo seja absorvido por quem está no papel de aprendiz.

Em toda área que tentei ensinar, sempre vi a dificuldade em acertar o modelo ideal pra cada pessoa. Sendo criativo, conseguimos transformar uma ideia abstrata ou complexa em algo divertido e prático. É importante pras pessoas verem o potencial de realização das coisas teóricas que lhes são passadas. Na Fotografia, por exemplo, as pessoas brilhavam os olhos de alegria de ver que um efeito de dupla exposição em um fotograma poderia ser a porta pra brincar com representações de corpos e espíritos, devido ao aspecto translúcido que é popularmente associado a essa temática de almas, espíritos, fantasmas, etc.

Quando nos interessamos por algo, nos dedicamos mais em entender como aquilo pode ser feito. Quando as pessoas descobrem pra que serve Literatura, por exemplo, os livros deixam de ser maçantes. O prazer diante das coisas depende do quanto sabemos que aquilo pode nos ser útil. Mais do que aquele mito de que aprendizado é importante apenas porque conhecimento é sinônimo de elite intelectual e social, é importante mostrar a realidade de que o conhecimento não só não está, muitas vezes, nas elites sociais como também não tem nenhuma necessidade de parecer chato ou inútil. O conhecimento não existe pra bastar por si mesmo. Não se aprende, por exemplo, Fotografia apenas pra se ter o conhecimento de Fotografia. Aprende-se pra colocar o conhecimento em ação, dar função, ser ferramenta de expressão, de comunicação, de transformação. De nada serviria aprender matemática se fôssemos passar a vida toda apenas fazendo contas sem nunca utilizá-las pra finalidades reais, como a engenharia, ciências da computação, astronomia, etc.

Em última análise, ensinar é tão somente fazer algo pelas pessoas para que essas pessoas possam fazer algo pelo mundo. O conhecimento não é e não deve ser aquela fantasia imatura de status por intelecto pelo intelecto. Conhecimento que não gera transformação pessoal e social acaba ocupando espaço e se tornando inútil. Embora seja plenamente positivo que tenhamos curiosidade pelas coisas todas, mesmo que não tenham função, o ensino não pode se pautar nisso. Compartilhamos toda informação e buscamos toda informação, mas o ensino vem como projeto de continuidade e não de algo efêmero que some no ar e no tempo.

Há algum tempo eu deixei de oferecer o ensino presencial e me voltei para essas reflexões em texto pela internet, junto com outras tentativas em vídeo, áudio, frases, arte gráfica e outras coisas, como forma de compensar ou repensar a própria área do ensino. Insatisfeito com o fato de não ter conseguido transpassar as barreiras de aprendizado ou interesse de alguns potenciais alunos, me senti na obrigação de me reestruturar como potencial professor. Não tenho formação em Pedagogia, nem tenho experiência muito formal na área de ensino. Tudo que tenho são as tentativas frequentes de levar meu conhecimento pra novas pessoas.  Meu objetivo é concentrado muito mais em querer ver novas pessoas atuando do que estudar as estratégias e filosofias por trás do ensino / aprendizado, embora eu saiba a importância disso na atividade. Tento unir um pouco desses dois lados, aprimorando cada novo dia em contato com os alunos, mas, definitivamente isso não é, pelo menos por enquanto, minha prioridade.

E você? Tem ensinado algo pra alguém? O que tem feito do seu conhecimento e experiência? Sua profissão termina em você mesmo ou você estende ela pra que mais pessoas se profissionalizem e se aprimorem nessa sua área? O que tem feito com aquilo que tem na sua mente? Você apenas cria pra si ou cria para o mundo? Você se comunica e abre espaços de diálogo ou simplesmente deposita informação morta? Já questionou o fato de que muita coisa antiga no campo do conhecimento simplesmente é má interpretada ou até mesmo ignorada, apenas porque não é devidamente convertida em material de ensino? O aprendizado tá longe de ser algo estático que basta estar registrado. Ele precisa ser preparado pra ser dividido com as pessoas, pois não somos computadores que almejam apenas dados. Queremos, sobretudo, saber o que fazer com esses dados e abrir opções pra nossa própria existência ser melhor, mais produtiva, com mais significado, bem-estar e satisfação. O ensino precisa ser uma peça com função perceptível ou ele mesmo acabará sendo morto e extinto. Se isso ocorrer, dê adeus ao mundo todo e cumprimente a barbárie aleatória que virá.

Rodrigo Meyer

O mundo das coisas comuns e previsíveis.

Eu “não sei” vocês, mas eu sempre vivi querendo ser surpreendido. Nunca me contentei com a mesmice, nunca me interessei pela rotina, pelas coisas comuns, pelas pessoas previsíveis, pelas situações banais. Três décadas e meia depois ainda estou a procura de algo que me surpreenda, principalmente por não ter encontrado muita coisa, apesar de tanto tempo passado.

Pra quem vive nessa realidade, é difícil se interessar pelo que acontece na Terra, porque aqui é o planeta da roda quadrada, onde, geralmente, nada de interessante acontece e tudo é tão óbvio que Nostradamus perderia a função ao tentar prever qualquer coisa, afinal todos já saberiam, com detalhes, o que ocorreria.

Querendo ou não, estou nessa sociedade que me faz bocejar. É fácil saber pra onde estão indo, o que estão pensando, até onde se estendem seus pensamentos, quais são seus preconceitos e suas vontades. Isso sem falar que, nas poucas vezes que algo ou alguém surpreende, uma grande parte é uma surpresa pra pior. Imagine quão restrita é a surpresa boa nessa equação. Simplesmente deixo as expectativas de lado e se algo ruim vier, não terá sido mais do que o já esperado e se algo bom ocorrer, ótimo. Dessa forma, não fecho as portas pras coisas boas, mas também não crio expectativas em vão pro restante. Menos expectativas, mais vida.

É preciso vigiar a nós mesmos, nossa realidade, nossas metas, nossas posturas. Às vezes nos damos conta de nossas falhas em um determinado dia, mas minutos depois já ignoramos o tema todo e seguimos errando. Assim não há progresso. Nisso também não há surpresa, pois não é preciso ser especial pra saber que o ser humano desiste muito rapidamente de suas tentativas de melhorar.

As pessoas acham que não fazer nada é mais cômodo, pois erraram tanto e tantas vezes que qualquer mudança parece um esforço sobre-humano.  É aquela velha analogia de ter varrido tudo pra debaixo do tapete e na hora de encarar aquela sujeira toda tem uma imensidão de lixo acumulado ali por baixo. Por isso, tão mais fácil é ir resolvendo os pequenos problemas ao longo do caminho sem ter que parar nem ter muito esforço pra melhorar. Subir uma escada do primeiro ao segundo andar é mais fácil do que dar um único pulo pra tal altura. Isso ninguém pode negar. E uma boa maneira de melhorar nesses quesitos é começar a rever quais das coisas você ainda é ou faz e aceitar as mudanças que forem úteis e necessárias. Deixe o passado pros arqueólogos.

Pra evitar um mundo comum e previsível, precisamos parar de postar as mesmas frases, de replicar as mesmas imagens, de usar as mesmas cores, de nos prender as mesmas fontes, de conversar com as mesmas pessoas, de tirar as mesmas fotos, com as mesmas poses. Se quisermos mudar o marasmo da repetição inútil e chata de tudo isso, precisamos agir. É preciso que seja extinto o conformismo com o vazio e superficial. Ou você dá sentido forte e verdadeiro à algo ou então é melhor deixar passar brevemente. Não perca tempo nas coisas sem valor. Dedique mais tempo num abraço sincero e apertado do que em horas e mais horas na companhia de quem não soma nada.

Às vezes de madrugada, onde não há carro algum pelas ruas, vejo gente parada no semáforo vermelho, sem a menor necessidade, feito zumbis amarrados a um cabresto. Não conseguem pensar por si só. Estão acostumadas a repetir o “pensamento” e a ação. Estão condicionadas a tudo, mesmo quando não precisam e/ou quando não deveriam. Tenho quase certeza que se colocasse um semáforo vermelho que nunca mudasse pra verde, no portão da casa das pessoas, elas parariam e nunca entrariam em casa. São incapazes de gerir suas próprias realidades. São inaptas pra vida. São só marionetes de algo que nem elas sabem o que é. Aguente o tranco, mas pra mim isso tem nome: desperdício de átomos.

Abro os grupos de Facebook com vontade de ver alguém dividir conhecimento e conteúdo, mas, claro, tudo que encontro por lá é mais do mesmo. É gente atoa que, por não saber o que fazer da própria vida, torna a vida dos outros igualmente inútil. Pela internet falta humor, falta argumento, falta arte, mas sobra preconceito, ignorância, mentes fracas. Todos querem, poucos oferecem. Todos podem, poucos fazem. Nenhuma surpresa.

Te desafio a contabilizar quantos grupos de Facebook possuem o mesmíssimo tema e função. Ao invés das pessoas ampliarem o potencial de um grupo, elas se espalham em milhares de outros idênticos, o que não ajuda, afinal, se faltou propósito para a criação de algo novo, esse novo já começou sem valor algum. União é vital se quiserem colidir com mais opiniões, mais pessoas, mais pontos-de-vista, mais possibilidades, mais diversidade. Tudo bem criar um ouro grupo, se achar que os valores e rumos de outro não satisfaz seus propósitos e ideais, mas criar centenas de grupos idênticos chega a ser patológico.

Abro os vídeos do Youtube e tenho vontade de me balear na cabeça. É um mar de entulho que não agrega absolutamente nada pra minha vida em nenhum aspecto. As pessoas já não conseguem raciocinar enquanto falam. Apenas falam. Chegam ao estado letárgico de apenas narrar o que veem. Olham pra uma parede e começam: “Aqui uma parede branca, do lado de uma parede também branca. E aqui, acima, tem o teto, branco também, como vocês podem ver.”. Fico torcendo pra surgir um guindaste pegando fogo pra interromper aquela inutilidade toda.

Felizmente sou salvo por alguns autores que quase sempre trazem algo legal de se absorver. Mas pense comigo: Não dá pra viver de meia dúzia de gente só. Essas pessoas não são uma fábrica infinita de conteúdo. Só a diversidade nos salvará. Precisamos de bilhões de pessoas produzindo e movimentando o mundo. Seria o equivalente a ler um livro de 200 páginas onde só seis páginas são interessantes e o restante são páginas em branco. Melhorem.

Vou procurar filmes e livros e aí descubro pra que serve a opção de fechar o navegador. Vou ao Google e, independente do que eu digite na busca, os resultados são sempre uma enxurrada de entulho. Notícias falsas, sensacionalismo, lunáticos empurrando produtos, cursos, vendas, mais vendas, vendas de novo e vendas. Se ao menos fossem cursos ou produtos bons. Geralmente é só mais do mesmo em um mundo onde a fraude reina. E, exatamente, as pessoas só podem oferecer o que possuem.

Recentemente um bar com música ao vivo fechou e eu me senti um pouco mais órfão de conteúdo, pois já não existiam opções por aqui onde eu moro e agora tenho que aceitar que a música também está morrendo. Aliás, vale destacar que apesar de ser um bar de música ao vivo, a maior parte das bandas que se apresentavam por lá eram covers, tamanha a previsibilidade do ser humano. Criar, jamais. Imitar, sempre. E ainda há quem chame isso de homenagem às bandas originais. Como uma cópia pode ser uma homenagem à originalidade? Chega de mais do mesmo!

Estamos em 2017 e ainda somos totalmente dependentes do passado. Ligamos o rádio pra ouvir clássicos, pois ninguém está produzindo nada de relevante atualmente. Antigamente os rádios é que apresentavam as músicas ao público e hoje em dia é o público que pede as músicas que quer ouvir na rádio. Assim, só escutam o que já conhecem. Deplorável.

Nos meses recentes fiz uma faxina geral na minha vida, dentro e fora da internet. Uma desconexão com uma tonelada de coisas que só estavam lá paradas, sem nenhuma função. O desvalor de tudo aquilo estava pesando. É o famoso peso morto. Odiamos carregar algo que não nos serve pra nada. É como carregar um guarda-roupas pesado nas costas, apenas pra irmos até o bar e voltar.

Por muitos e muitos anos venho praticando a ideologia do minimalismo com o lema “reduzir, reduzir, reduzir”. Isso tem me aberto muito espaço para criar. As pessoas se questionam como ou porquê tenho tantas atividades, em tantas mídias diferentes, diversas funções e profissões. Eu não consigo olhar pra escassez e não me sentir compelido a preencher com algo pra criar. Isso é o que me faz estar em tantas frentes ao mesmo tempo. Mas como consigo isso? Sobra tempo? Claro que sim. Especialmente porque na prática do minimalismo jogamos fora tudo que não tem serventia real. Depois que eliminamos todo o entulho, sobra tempo, espaço e vontade pra gerir as poucas coisas que de fato nos valem de algo.

Cabe a nós, então, aproveitar o momento e fazer com que essas coisas sejam realmente interessantes, fora do comum, não previsíveis. Não é fácil, especialmente depois que fomos moldados socialmente a viver feito zumbis, copiando tudo, incapazes de sermos nós mesmos e pior que isso, muitas vezes sem nem sabermos quem somos pra poder exercer nossa essência. Estamos literalmente mortos e só haverá alguma chance se um dia resolvemos nos opor a mesmice e começar a abrir os olhos e a mente para o novo, para a diversidade. Surpreenda o mundo, surpreenda-se. Todos saem ganhando.

Rodrigo Meyer

O que eu gosto nas pessoas mais velhas.

Eu sempre tive uma certa identificação maior com quem tivesse mais idade que eu. Me dei conta disso logo no primário, quando acabei dividindo a escola com outras séries. Tenho lembranças de uma moça que, durante nosso horário de aula, pintava um mural dentro da classe. Enquanto nossa classe estava sendo alfabetizada, ela provavelmente já estava nos últimos anos de escola. Eu não sei bem no que consistia minha admiração, mas pelo pouco que entedia na época, me encantava saber que ela vivia outras realidades, trabalhava, entendia mais da vida. Talvez fosse alguma coisa associada com o conceito de ‘sapiosexual’, que é aquele que, resumindo, tem atração pelo intelecto alheio.

Como muita gente, tive também os chamados ‘amores platônicos’, por algumas professoras e acredito que isso seja algo mais comum entre todas as pessoas, principalmente nessas fases da vida onde estamos nos descobrindo. Comigo, porém, a admiração se estendia além dessa questão e eu me via sempre atrás de companhia de pessoas mais velhas. Se fossem pessoas de idade próxima ou até um pouco abaixo, eu preferia dividir meu tempo com quem se mostrasse peculiar, inteligente ou com um mínimo de mistério pra ser desvendado.

Não sei se foi coincidência dos ambientes que eu estive, mas quando eu olhava ao redor na classe, entre os parentes e pela vizinhança, me sentia em desprazer, com tanta gente perdida, com um pensamento curto, desinteressadas e desinteressantes. Embora eu não tivesse nenhuma sintonia com o sistema de ensino no Brasil em nenhuma fase, eu via pessoas que, embora tivessem algum potencial, não desviavam daquela bobagem toda e, talvez por isso mesmo, se afogavam no próprio sistema, sem o menor interesse de ser ou não ser. Pareciam totalmente apáticos com a certeza de que iam fracassar de todo jeito e só estavam cumprindo uma burocracia da qual não eram inteligentes sequer pra burlar.

Eu optei por seguir a contramão e ao invés de me importar em viver o sistema de ensino, simplesmente ignorei tudo isso e vivi a minha realidade. De início foi complicado, afinal, entregar provas em branco antes mesmo de todo mundo começar, era algo inesperado aos professores que ainda não me entendiam. Mas eu tive o prazer de dividir o período escolar com alguns professores(as) que foram cruciais pra eu ter seguido adiante. Foram pessoas que me enxergaram e me entenderam. Em certo momento eu é que tinha vencido e o sistema tinha desistido de tentar me endireitar à força. Eu simplesmente não me dobrava e acabei conquistando a amizade de vários professores, diretores e pessoas do meio administrativo de escolas e cursos, o que me possibilitou trocar a inutilidade por conversas muito mais engrandecedoras, momentos muito mais interessantes, em um outro patamar. Todo esse contexto me garantiu um caminho alternativo no sistema de ensino e eu segui o mesmo roteiro do pré-primário até o final da faculdade.

Talvez tenha sido essa necessidade de burlar o sistema de ensino que tenha me despertado admiração pelas pessoas mais velhas, nessa associação com os professores. Gostava de poder conversar com quem tivesse à altura pra dividir histórias e assuntos que a maioria das pessoas da minha idade não se interessavam. Acredito que algumas situações da minha vida tenham me tornado precoce e que isso tenha gerado essa busca e admiração pelo mundo acima. Pra mim, contudo, parecia natural e lógico, pois tudo isso estava suprindo uma demanda de conhecimento e socialização que só me trazia benefícios.

Não posso cair no erro, porém, de sugerir que as pessoas tentem imitar isso de forma artificial. Não é o caso de você tentar se enquadrar no mundo adulto antes do seu momento vir automaticamente. Existem muitas portas abertas, mas também nem todas as portas trazem aquilo que esperamos. Por vezes, quando somos acolhidos numa relação por alguém mais velho que nós, ocorre um certo domínio, consciente ou não, da pessoa que tem mais vivência. E isso pode ser perigoso se não percebemos esse “lado B” do disco. Também é preciso dizer que, inteligência ou vivência não é garantia de maturidade e que em todo momento da vida, estamos lapidando falhas, independente de como seja nossa precocidade.

Comigo, por acaso ou não, tive bons contatos com a maioria das pessoas. E aprendi muita coisa dividindo meu tempo com elas. Tracei muitas conversas, amizades, viagens, envolvimentos românticos e até um casamento. Não tenho como negar a importância de cada dia vivido ao lado de todas essas pessoas. Isso não significa, contudo, que eu não tenha dividido bons momentos ao lado de pessoas de igual ou menor idade que a minha. Tive e aprendi diversas coisas, mas, ao menos pro meu caso, esses dois grupos eram bem diferentes entre si. Foi então que nesses últimos tempos eu estava aqui tentando pensar em coisas específicas das quais eu gosto nas pessoas mais velhas e que ocorrem tão naturalmente ao longo do dia-a-dia que se não parasse pra pensar, passaria desapercebido do meu consciente.

Certa vez me propus a reflexão sobre o tema. Será que a admiração por pessoas mais velhas era, de alguma forma, um prazer pelo inalcançável? Seria uma busca pelo futuro? Seria uma tentativa de compensação pro nível de intelecto? Será que haveria uma busca pela relação de poder dos mais velhos sobre mim? Será que éramos uma espécie de troféu um para o outro? A conclusão que cheguei foi que, devido a diversidade de tipos de pessoas que eu conheci, de todas as idades, o mais provável é que eu estivesse apenas tentando me encontrar nessas outras pessoas. E talvez, durante essa jornada eu tivesse tido mais identificação com umas do que outras, seja por coincidência ou não, seja pela idade ou não. É possível sim, que o intelecto, a experiência de vida e conteúdo, das pessoas mais velhas, tenham pesado fortemente na equação, uma vez que há mais fatores pra se descobrir e comparar, justamente porque essas pessoas desenvolveram a vida por mais tempo, em mais setores, mais momentos, com maior profundidade e diversidade.

Mas é importante voltar a destacar que isso não necessariamente anula a admiração por pessoas mais jovens e a satisfação de dividir momentos com elas. Tudo depende de como cada pessoa é. Tanto é verdade que eu mesmo fui alguém mais jovem pra todas essas pessoas mais velhas que conheci. Então, fica claro que a importância se resume na qualidade dos momentos que dividimos e no potencial pessoal de cada indivíduo. O que está por trás de tudo isso é, simplesmente, a perspicácia da mente, a soltura do indivíduo diante da diversidade e a flexibilização de si mesmo pra se ajustar a outros universos que sintonizem com seu próprio. Precisamos, antes de tudo, nos descobrir e saber pra onde queremos ir, com quem queremos estar.

Eu passei minha vida buscando pessoas incomuns, com personalidade, que tinham a perspicácia de ousar com propriedade, de trazer ao mundo mistério e encantamento pelas formas ou motivos que, aos olhos das pessoas comuns, parecessem inusitados ou impensáveis. Estive sempre em busca de gente que vivenciasse o invisível ao meu lado, que entendesse meus pensamentos quando eu estivesse calado. Quis dividir momentos com quem trocasse olhares, entendesse e aceitasse uma tonelada de coisas sem que precisassem ser explicadas. Eu queria vivenciar o que só o ser humano podia fazer e isso não se encontra em pessoas rasas. Eu não queria tropeçar em vazios ou em pessoas entupidas de cimento. Eu queria alguém que, quando eu apontasse pras estrelas, não olhasse pro meu dedo. Queria alguém que fosse capaz de conversar sobre todo e qualquer assunto possível e imaginável no Universo e além. Eu não queria portas fechadas, queria janelas escancaradas e naves prontas pra rodar em alta velocidade. Eu queria ser surpreendido, ser encontrado e encontrar.

Rodrigo Meyer

A teoria da venda pelos semáforos.

Faz muitos anos que fui apresentado pra uma questão que não parou de me intrigar. Sempre fomos acostumados a ver vendedores pelos semáforos da cidade, oferecendo balas ou coisas similares. Nunca me passou pela cabeça que isso pudesse ser algo muito lucrativo, pois eu imaginava que se alguém estava buscando uma atividade em meios aos carros, debaixo de sol, sem muita estrutura e com produtos simples, talvez isso fosse necessidade e não opção. Mas surgiram com uma teoria pra mim de que na verdade essa frequência com que vemos pessoas nessas atividades estava relacionada à algo que pouca gente notava que era o potencial de altos lucros.

Eu não tenho como endossar totalmente essa teoria, pois não conheço os pormenores que possa estar por trás de certos detalhes. Não há como prever exatamente como as coisas são e quais pessoas estão neste modelo de trabalho por altos lucros ou por necessidade, pois a teoria informa até que há uma simulação eficiente da postura dos vendedores pra parecerem mais necessitados do que são, como estratégia de venda e como parte essencial do plano maior. E, de certa forma, isso faz sentido, pois se algo realmente dá muito lucro e a pessoa não quer concorrência, ela vai tentar passar a imagem de que aquilo não é um trabalho tão viável. E, dessa forma, ninguém desconfiaria de que essas vendas não são por necessidade, pois se descobrissem, provavelmente deixariam de comprar, pois o grande foco dessas vendas é a ajuda e a oportunidade rápida durante a pausa no semáforo e não exatamente a demanda concreta por tais produtos.

Mas será que isso procede? Fiquei um pouco cético, especialmente porque como o Brasil é um país cheio de pessoas em situações difíceis, seria mais provável que, como muitos outros vendedores de rua, os vendedores dos semáforos fossem trabalhadores por necessidade. Temos tantos moradores de rua ou pessoas em pobreza que parte pras ruas tentando levantar um pouco de dinheiro que eu criei certa resistência em aceitar tão facilmente isso. E por isso simular algumas contas rápidas foi importante. E foi mais ou menos isso:

Aqui em São Paulo, os semáforos variam de duração dependendo da localidade, pois são ajustados pra um fluxo supostamente melhorado de acordo com cada trecho. Alguns semáforos em avenidas retas e longas, são de certa forma sincronizados pra que o motorista consiga cruzar vários deles no ritmo provável que o carro chegará à cada farol aberto. Em ruas onde o trânsito é menos ágil, os vendedores de semáforo aproveitam  a pausa dos carros pra oferecer alguma coisa. Apesar da variação de tempo dos semáforos, tirando uma média, o farol fica 1 minuto fechado com os carros parados. E vamos supor que quando o farol abre, permanece aberto por uns 2 minutos. Então, de cada 60 minutos (1 hora), cada ciclo tem 3 minutos (2 minutos abertos e 1 minuto fechado). Portanto são possíveis 20 desses ciclos por hora. Como em cada ciclo de 3 minutos apenas 1 minuto é usado pra vendas, se tiverem 20 ciclos por hora, serão 20 minutos de vendas nessa hora, no total.

E quantos carros será que ficam parados durante cada minuto de venda? Alguns vendedores percorrem entre duas fileiras de carros, distribuindo os pacotinhos pelo retrovisor para uns 20 carros, sendo 10 de cada lado. Sendo 20 minutos por hora, são, então, 20 carros x 20 minutos = 400 carros alvos por hora. Mas, claro, nem todo motorista compra as balas oferecidas. Vamos supor que a cada 20 daqueles carros enfileirados no minuto possível de venda, apenas 2 carros comprem. Isso é 10% do público. Então, na verdade dos 400 carros alvos em 1 hora, são apenas 10% de compradores, o que resulta em 40 carros que efetivamente compram as balas. E em termos de dinheiro, o que isso significa?

As balas são vendidas à R$ 1,00 e imagino que, se compram as balas pra revenda, elas devem ser pelo menos a metade do preço ou 1/3 do preço de venda, senão não seriam lucrativas. Sejamos pessimistas e pensemos que as balas são compradas por R$ 0,50 e vendidas pro R$ 1,00 aos motoristas. Se são 40 compradores por hora, são, então, 40 x R$ 0,50 = R$ 20,00 por hora. Vamos supor que o vendedor siga o padrão de 8 horas de trabalho por dia. Isso representa 8 x R$ 20 = R$ 160,00 de lucro por dia. Se ele trabalhar por 22 dias por mês (folgando em todos os sábados e domingos), ele lucra 22 x R$ 160,00 = R$ 3.500,00 por mês.

Que tal? É uma boa renda? E isso porque fomos pessimistas na quantidade de compradores e no preço de compra e venda dos produtos. Imagine se esses números fossem melhores. Por exemplo, se existisse uma espécie de grupo que compre as balas em atacados, pra obter preços mais baixos, eles poderiam ter o dobro de lucro nas vendas, indo pra R$ 7.040,00 por mês.

Seja qual dos dois salários mensais for, são bons salários pra algo que nem imaginávamos que fosse lucrativo. É um trabalho relativamente simples na estrutura, que exige um certo pique pra correr entre os carros e disposição física e emocional pra permanecer todo dia naquele mesmo contexto. Vamos lembrar também, que às vezes, tem impossibilidades de trabalho, como os dias de chuva ou situações onde o fluxo de carro esteja alterado por algum motivo incomum como acidentes ou evasão dos moradores pela cidade por motivo de viagens em feriados e coisas similares.

Agora vem um trunfo. Se o vendedor quiser burlar o desperdício de tempo nos semáforos, ele não precisa ficar parado durante aqueles 2 minutos que os carros circulam. Ele pode partir pro farol que se opõem com aquele e é como se, na prática estivessem sempre pegando faróis abertos pra vendas. Mas sendo generoso, vamos deixar ele descansar 1 minuto a cada 1 minuto trabalhado e faremos então só proveito de vendas em mais 1 minuto ao invés de mais 2. Então ele teria o minuto principal mais outro minuto de venda, virando então 1 x a mais de R$ 7.040,00, dando um total de R$ 14.080,00. Bom salário mensal? E se ele resolvesse trabalhar os 30 dias no mês, ao invés de apenas 22 dias? Ele lucraria R$ 19.200,00 pelos 30 dias de trabalho no mês.

Mas, conversando outro dia com algumas pessoas, me abriram outras questões sobre isso, sugerindo que existem fatores que não percebemos de primeiro momento e que podem alterar esses dados pra baixo, inclusive do ponto de vista do custo dos produtos, viabilidade de se conseguir vender sempre pra 10% dos motoristas em todos os ciclos e outras coisas assim. O que você pensa disso?

Certa vez eu estava em um espaço que dava visão clara pra duas grandes avenidas aqui em São Paulo e fui surpreendido por um rapaz que desceu de um carro super luxuoso, pegou uns itens no porta-malas do carro, pegou uma cadeira-de-rodas, sentou-se e foi pro semáforo vender balas. Era 5h40 e ele certamente ia pegar uma multidão de carros de gente que estava indo para o trabalho. Isso me fez pensar ainda mais na validação dessa teoria. Eu não estou dizendo, porém, que todos os vendedores de semáforo tem a mesma situação. Sei perfeitamente que muitos (senão a maioria ou até mesmo todos) os que estão oferecendo produtos no semáforo, estão pelo menos em condições financeiras difíceis e tantos outros são, essencialmente, moradores de rua, sem nada, que tentam tirar alguns poucos reais com essas pequenas tentativas de vendas, que às vezes se misturam com os pedidos de doação / ajuda. Mas diante de teoria tão curiosa e esses cálculos todos, não podia deixar de compartilhar a ideia pra ficarmos aqui pensando e tentar desvendar esse suposto mistério.

Deixe sua opinião aqui.

Rodrigo Meyer

A espiral descendente na Literatura.

A Literatura tem um forte impacto no mundo, desde que o homem aprendeu a se comunicar por textos, sejam eles compostos de letras convencionais modernas ou por símbolos outros. É através da Literatura que o conhecimento começou a ser disseminado além da oralidade e também a ser estocado e compartilhado de maneira mais prática. A partir disso o mundo se transformou drasticamente. Mas, por ter passado tanto tempo que a escrita está entre as pessoas, já não nos damos conta mais do papel que ela tem e de como é viver sem os benefícios dela.

Nos tempos atuais, estamos passando por uma transformação pela internet e as novas mídias. Redes sociais, messengers, compartilhamento de fotos, links, criação de vídeos e até uma certa infinidade de blogues e sites diversos de notícias e informações através do texto. Na época em que televisões eram algo comum pelas casas e computador não, a leitura de livros ou revistas já havia sido deixada de lado pelos poucos que ainda liam. E com a chegada e massificação das mídias digitais, a televisão foi substituída pelo Youtube e Netflix e os livros parecem ter sido ainda mais esquecidos, talvez em detrimento da possibilidade de criar sem custo de impressão com o uso do ambiente digital. Mas é difícil dizer a que passo anda a leitura no Brasil e no mundo em geral (de qualquer tipo que seja).

Segundo os últimos dados que vi, 73% dos brasileiros não leem. Se considerarmos o tamanho da nossa população, é alarmante pensar que quase toda ela está desvinculada da leitura. Claro que, de maneira informal, estamos todos sempre lendo alguma coisa ou outra, afinal até pra trocar mensagens pelo Whatsapp precisamos ler, assim como boa parte das pessoas lê, bem ou mal, posts de redes sociais e algumas notícias aqui e ali (creio). Mas, continua sendo um cenário preocupante, pois se é somente isso que estão lendo, imagino que a leitura deve estar falha, sem parâmetros, sem aprofundamentos e sem reflexões muito coerentes, pois o conhecimento humano passa, principalmente, pelos livros, em razão da estruturação mais profunda e prolongada do conteúdo, o foco e a própria prevalência de maior confiabilidade da fonte, uma vez que não é tão simples quanto rascunhar um texto gratuito qualquer pela internet.

Se de fato chegarmos a conclusão de que estamos ficando sem leitores, surge um segundo problema que é a quantidade e/ou qualidade dos escritores que temos ou teremos por aqui. É evidente que pra ser bom escritor, ler é essencial. Podemos escrever livremente, mas a qualidade do que escrevemos deveria ser alicerçada no que conhecemos e estudamos com os livros, as reflexões que fazemos a partir dessa longa jornada mastigando ideias e referências, cruzando informações, dados, opiniões, acontecimentos históricos, compreensão de diferentes obras de filosofia ou até mesmo a possibilidade de tocarmos em conteúdos traduzidos de autores estrangeiros para visões mais diversas e completas do ponto de vista cultural, político, além de termos a chance de ler autores de séculos anteriores, o que se opõem fortemente com os contatos imediatistas e instantâneos das comunicações de internet. Se estivermos sem leitores, estaremos também sem escritores ou pelo menos sem bons escritores. E se isso ocorre, temos menos gente disponível pra criar conteúdos que nos prendam a leitura. E assim, numa espiral descendente, teremos ainda menos leitores.

Eu não sou aquele que combate modernidades, apesar de saber que o contexto psicológico e social da maioria das pessoas, às coloca de forma pouco estruturada diante das tecnologias. Pela facilidade que temos de apertar o botão do mouse e assistir 15 minutos de um vídeo ou até mesmo de assistir coletâneas inteiras de episódios de séries, nos acomoda de tal maneira atrás das telas de computador, celular ou tablet, que é compreensível que muita gente esteja preferindo ver imagens e ouvir sons do que ler textos.

Consigo entender que estamos nos tornando multitarefas, consumindo diversas mídias ao mesmo tempo e até mesmo que reinventamos os modos de socializar, até porque, o que hoje está se tornando uma característica por conta das tecnologias, já fazia parte de mim, independente delas e, portanto, entendo que possa ser possível e positivo se bem desenvolvido. Eu tenho Distúrbio de Déficit de Atenção e, por muitas e muitas vezes, desde sempre, eu acabo facilmente distraído pra outras coisas, enquanto tento prestar atenção em uma aula, um filme ou a leitura de um texto. Inúmeras foram as vezes em que me peguei pensando por meia-hora em outras coisas a partir de uma sucessão de pensamentos por conta de uma lembrança ou reflexão que me levaram pra um longo caminho de saltos e desvios em relação ao conteúdo original.

Durante a infância e adolescência, quando percebia que estava nesses processos derivados da perda de atenção, já havia se passado um enorme tempo e eu havia esquecido o que estava inicialmente assistindo, lendo ou ouvindo. Claro que, felizmente, com o passar dos anos, acostumado com essa característica, acabei criando maior controle para evitar esses momentos que, embora muito bons e úteis, eram contraditoriamente ruins e inúteis, porque iam na contramão dos objetivos sociais por destoar da forma ou ritmo padrão de aprendizado ou socialização. Eu queria caminhar, apesar de tudo e essas características estavam atrapalhando, a princípio. Você já deve ter conhecido muita gente em situação parecida, que começa a contar algo sobre um determinado assunto e começa a abrir parênteses na comunicação e se estendem tanto que até se esquecem do que estavam falando. Com o Déficit de Atenção há também isso, mas há o mesmo problema na absorção do conteúdo.

E, como bom DDA (Distúrbio de Déficit de Atenção), nome do “problema” que usamos também pra nos identificar, cá estou dando uma volta imensa pra falar de Literatura. Imagine quantas e quantas pessoas não são levadas pelas mesmas distrações (seja pelo DDA ou outros motivos) e que acabam abandonando os textos, os livros ou os conteúdos em geral, pela busca de conteúdos mais breves ou fracionados que possam ser absorvidos integralmente se divididos em trechos rápidos o suficiente pra que não dê tempo de se distraírem. Sei que o problema de muitos não-leitores em relação a leitura é tédio, preguiça e visão pejorativa do próprio ato de leitura, mas sei também que isso é sintoma e não causa. A causa disso tudo é, porém, uma questão mais pessoal do que cultural, embora em ambos os lados seja necessário e possível que mudemos a realidade.

Ler mais (assim como escrever), está relacionado ao quanto estamos acostumados com esse formato de comunicação. O hábito é muito mais do que aquela ideia poética de que magicamente as pessoas passam a gostar de ler apenas lendo. O hábito é fruto de vontade e de necessidade. Essas duas coisas juntas fazem nosso convívio com os conteúdos muito mais prazeroso. É chato ler por obrigação assim como é desgastante pra nossa mente e consciência ler um assunto ou tema que não gostamos ou não temos curiosidade. E em nossa sociedade, verdade seja dita, não despertamos entendimento nem mesmo de nossos reais gostos ou curiosidades, porque temos um preconceito gigantesco com praticamente tudo, sem nem mesmo conhecermos de verdade, já que, muitas vezes, somos apresentados de forma errada aos temas ou até mesmo à conteúdos ruins sobre tais assuntos.

É difícil fazer alguém gostar, por exemplo, de matemática se a maneira que apresentamos ela nos faz bocejar ou ficar de cabelos em pé em meio ao emaranhado de números. As coisas, por mais complexas que sejam, podem e devem ser explicadas da maneira mais simples possível, sobretudo com uso de muita criatividade, exemplos práticos e fusão de diversas áreas do conhecimento. E isso não ocorre em um sistema de ensino onde os professores são máquinas de repetir conteúdos que eles também aprenderam pelo mesmo sistema. Muita gente passou a vida sem comer brócolis, talvez traumatizados pela infância, época em que o paladar humano está mais voltado pra doces e, portanto, o brócolis e outras coisas parecem menos apetitosos. Mas, passado os anos, quantas pessoas se propuseram a redescobrir o sabor e a textura do brócolis? De maneira semelhante, somos traumatizados por um sistema de ensino falho que nos traumatizou com aulas maçantes, livros fora de contexto, redações escolares obrigatórias com temas e formatos pouco ou nada úteis, convívio escolar marcado por situações desagradáveis, uniforme escolar, estrutura precária e/ou antiquada e várias outras referências.

Se já superamos essa fase, é chegada a hora de revermos o quão proveitoso pode ser a Literatura. A internet, inclusive, pode ser uma grande aliada pra começarmos essa experimentação ou transição para conteúdos maiores e melhores. Há muita coisa na internet, em temas tão diversos que é praticamente impossível que pelo menos algo dela não seja motivo suficiente pra você dedicar tempo pra ler, nem que sejam algumas linhas por vez. E não faltam iniciativas ótimas que tentam nos reconectar pros aprendizados, em especial pela leitura.

No tempo do extinto Orkut, toda nossa participação na rede social se resumia a pequenas frases, saudações, emoticons e alguns gif-animados. Com a chegada do Facebook, demoramos um tempo pra nos adaptar e começamos bem lentamente, por poder postar apenas 12 fotos por profile. Com o sucesso da rede, os servidores se ampliaram pra atender a demanda de milhares de usuários e, assim, mais conteúdo foi possível de ser adicionado. Mas, inicialmente, tudo se resumia a pequenas postagens de status, como uma espécie de Instagram em modo texto, sobre o que cada um estava fazendo, pensando ou como estavam se sentindo. E com a massificação dos grupos / comunidades dentro do Facebook, os debates começaram a se ascender em diversos temas, com um sentimento de “obrigação” de comentar e dividir ideias sobre o que outros usuários estavam postando. Foi uma fase difícil onde muita gente socializava, porém dedicavam muito pouco tempo escrevendo ou lendo, até mesmo porque não mantínhamos o Facebook constantemente aberto no navegador ou celular, o que tornavam os debates bem pobres e superficiais.

Mas, a chegada de certos eventos e crises políticas e sociais no Brasil (alguns até internacionais) cutucaram o brasileiro pra uma conduta surpreendente de engajamento na internet e, como efeito colateral, textos maiores começaram a ser escritos e lidos. Acompanhei essa transformação como estudo e também como algo que estava vivenciando na prática junto aos demais. Gradativamente as pessoas foram de pequenas frases para curtos parágrafos e em pouco tempo estavam abertas para textos de 5 ou mais parágrafos sem nenhum incômodo pela extensão do conteúdo. Textos longos, ocasionais, eram absorvidos na íntegra e até comentados de forma massiva. Parecia um bom período pra Literatura, ainda que fosse via internet e por eventos momentâneos. Passamos por alguns altos e baixos e acabamos caindo numa época onde a moda era postar o chamado “textão” na internet. Grupos de debate, desconstrução e ativismo fizeram a vez por um bom período deixando algumas verdades pelo caminho, apesar de também deixar muito desabafo descabido. Mas de uma coisa eu agradecia: as pessoas pareciam estar lendo e escrevendo e descobrindo que isso não fazia cair os olhos ou os braços.

O Youtube não era ainda a carreira mais provável e desejável de tanta gente, então ainda se prendiam mais aos blogues, os sites de humor e os grupos. Agora, com a chegada de mídias diferentes e de tantos aplicativos de smartphone, as pessoas se acostumaram com um modelo de vida que é essencialmente baseado nessas tecnologias todas, desde o consumo, a produção de conteúdo, a socialização e, por fim, o trabalho de maneira profissional ou que aspira ser. O Youtube invadiu a vida e a mente das pessoas de tal forma e com tal quantidade de conteúdo que muita gente de fato largou tudo e todos e foi viver o Youtube, produzindo e assistindo. Não é de se surpreender que a indústria literária teve uma grande baixa nos últimos tempos. Estamos em crise literária, não só do ponto de vista financeiro das editoras e livrarias, mas da própria Literatura em geral, em produção e leitura, seja digital ou não.

É claro que textos longos afastam muita gente, especialmente em uma época onde a velocidade das informações é tanta que estamos numa constante ansiedade pra cumprir cada vez mais coisas. Atualizamos a tela do navegador de maneira compulsiva em busca de mais, mais e mais, desde que sejam conteúdos rápidos, curtos, superficiais. Trocamos os textos por hashtags, trocamos as fotos autorais por imagens genéricas do Google, trocamos os vídeos por trechos específicos convertidos em gif-animados e trocamos, muitas vezes, até a produção de conteúdo por um simples arrastar e soltar de qualquer coisa para dentro das páginas de Facebook, blogs e até dos messengers. Nunca se teve tanto SPAM e vendas imediatistas em lugares onde nem se divide tal atividade. Desesperados pela crise financeira de 2016 pra cá, muita gente está, de forma alucinada e sem nenhum critério, postando vendas e supostos serviços e produtos em todo e qualquer grupo de Facebook que fazem parte. E a Literatura? Ela morreu afogada nesse caos todo. Já não lemos, pois sequer temos tempo pro superficial e banal.

Estamos verdadeiramente adoentados e, tirando uma pequena parcela de internautas brasileiros, não somos mais absorvedores de conteúdos sérios em nenhum formato mais. Até mesmo os vídeos que poderiam ser uma grande conexão com todas as pessoas, independente da escolaridade, já se tornaram um mar de bobagens, famosos gravando suas inúteis superficialidades ao longo do dia, sem nada pra dizer, sem nada pra ensinar, apenas dividindo um pouco do tempo deles com você, lucrando às custas do vazio intelectual  de uma sociedade que, ironicamente, plantou seu próprio vazio ao se distanciar de diversas outras fontes de comunicação. E, pra por cereja nesse bolo todo, quem mais vende livros atualmente são os próprios Youtubers. Parte deles, sem nem ter capacidade pra tal, fizeram uso de GhostWriters (escritores contratados pra escrever o livro no lugar dos “autores”). Será que essa onda de fama pelas carreiras de ídolos do Youtube, por estarem vendendo livros, aproximará as pessoas de volta à Literatura? Acho improvável, pois como muitos apontam, comprar não significa ler. Caminhe pelos grupos de “leitores” no Facebook e verá o mar de gente dizendo tranquilamente de como acumulam livros novos sem terem sequer lido os anteriores. Muitos deles, renovam suas compras, vendendo livros intactos ainda com o plástico da embalagem, para transformar os livros que nunca leram em qualquer outra moda passageira, como trocar de celular a cada seis meses ou comprar uma câmera ou lente pra vendê-las uma semana depois.

A crise literária é, antes, uma crise existencial humana, crise pela modernidade com mal uso das tecnologias e, possivelmente, uma crise no sistema educacional e cultural do Brasil e da maioria dos países do mundo. Estamos enfrentando um monstro muito maior do que simplesmente uma queda no interesse pela leitura. Estamos enfrentando um aumento gritante de casos de depressão e suicídio de uma população que se viu aprisionada pelo vício em redes sociais, relacionamentos frios e sintéticos, ausência de convívio humano com amigos e família, trabalhos virtualizados, alimentação rápida e precarizada na própria mesa do computador com o celular em mãos por cima do prato.

As pessoas estão se enforcando a cada dia, porque recusaram os tesouros anteriores que lhes apresentaram de maneira falha, sem que pudessem notar o valor e posteriormente se viciaram em coisas das quais não souberam extrair valor, mas que lhes foram apresentadas como se fossem as coisas mais preciosas e necessárias da Terra, talvez justamente porque a sociedade estava tão vazia em cultura que abraçou com bons olhos as algemas que hoje veste. Esse dilema faz muitas gente morrer pelas mídias que elas mesmas inventaram e que não sabem porque ainda continuam com elas ou como parar. Seguem acessando as redes sociais, apesar de não pretenderem extrair nada delas, cientes que as redes sociais também já não pretendem oferecer.

Estou repensando a ideia de continuar a escrever livros. Não quero tomar muito tempo, nem gastar papel, com algo que possivelmente não será lido e, se lido, poderá ser muito pouco compreendido. Talvez fizesse mais sentido, entrar por dentro do Youtube e plantar a chave que nos liberta dessa prisão virtual. Com o potencial infinito da internet, deveríamos estar vencendo pelo conhecimento, mas a verdade é que estamos nos degradando em diversos sentidos e, na maior parte do nosso tempo. A verdade é que, por trás dessa virtualidade toda, estão seres humanos comendo mal, dormindo pessimamente, infelizes, cansados, desempregados, iludidos e viciados, que desaprenderam a socializar, já não fazem mais sexo e o pouco que sabem da vida se resume à algum link que possam te mandar. Já não traçam mais conversas, não viajam, não se encorajam, não questionam e nem querem ser questionados. Não sonham, não vivem e nem sabem por quem foram derrotados.

Essa semana eu vou sentar pra pensar exclusivamente nisso. Estou em uma jornada maior, tentando entender pra poder ajudar a recolocar as pessoas nos trilhos do aprendizado, da saúde emocional e física, do desenvolvimento de talentos e potenciais e de diversas outras questões que parecem estar nos dando ultimatos. Quero encontrar saídas novas, soluções melhores, alternativas, ferramentas, parcerias, iniciativas, ações mais eficientes e qualquer coisa que faça as pessoas se sentirem vivas novamente. Me envie suas sugestões e vamos fazer um grande brainstorm.

Rodrigo Meyer

Em qualquer que seja o assunto, a pergunta que não pode faltar é: porquê?

O mundo está aí ao nosso redor e as coisas seguem acontecendo e sendo. Vivemos um pouco melhor que as eras passadas justamente porque aprendemos um pouco mais sobre as coisas e seus porquês. Você pode fazer inúmeras questões sobre algo, mas se não perguntar o porquê daquilo, não terá aprendido o mais essencial do tema e estará ainda, sujeito a ser manipulado.

Mais importante que saber qual a data do Natal, é saber porque dessa data. Mais importante que saber a história por trás dos solstícios e equinócios é saber porquê disso. Você poderá se tornar um grande decorador de dados, datas e ocorrências históricas, mas saber História é mais do que isso. Entender o passado não é decorar suas ocorrências, mas conseguir entender o que levou a cada ação. A História estuda, sobretudo, o percurso humano e as motivações que o levaram adiante. É isso que nos cabe perguntar, no final.

Coisas acontecem todo dia. Mas, porquê? Quais são os porquês das mortes, dos acidentes aéreos, as guerras, a miséria, a fome, a exploração dos seres, os estelionatos, a corrupção, os estupros, as invasões de território, as manobras políticas, as edições nas mídias, os comerciais de televisão, as tecnologias criadas, as mudanças de leis, a criação das leis, os modelos de ensino, os parâmetros sociais, as divergências, as cobranças, as profissões extintas, as novas profissões, a exploração do Universo, a falta de vontade de comer, a ansiedade que nos toma, os gritos do vizinho, o latido dos cães na madrugada, os vícios, os complexos, os sentimentos, as saudades, os abraços, a posição das estrelas, os trens parados, o trânsito paralisado pela chuva, o erro de computador, o abandono familiar, as crises psicológicas, as amizades por interesse, os pequenos furtos, os grandes assaltos, os prêmios da loteria, as conversas monossilábicas, a desconfiança das pessoas, o medo, a angústia, a preguiça, o sono, a escolha de caminhos, a ausência ou excesso de caminhos.

Porque surge uma notícia na nossa frente? Há alguém interessado em saber aquilo? Quem tem interesse em dizer aquilo? Isso beneficia a quem? A quem isso prejudica? O que esse ato pode mudar em relação a tomada de decisão das pessoas? Como isso pode ser mais justo ou injusto pelo modo como se apresenta? Isso propositalmente induz a erro ou é honesto? Ao nos perguntarmos os ‘porquês’ das coisas, acabamos chegando em tantas outras perguntas pertinentes. Entender o mundo é navegar pelo ser humano que o compõem. Precisamos sempre dedicar esforço, tempo e atenção no que está por trás das coisas, pois as coisas são apenas as consequências das coisas mais profundas.

Quem é que vai nos explicar o mundo, se nos deixarmos levar apenas pelo que nos entregam mastigado e moldado? Você quer entender a realidade ou ser uma conveniente marionete de outras pessoas? Questione seu trabalho, seu salário, o modelo econômico do seu país, as empresas, os produtos, seu chefe, as classes sociais, seus empregos perdidos, as vagas apresentadas, sua família, seus parentes, seus amigos, as pessoas que você prestigia, as mídias que assiste. Lote tudo isso de ‘porquês’. Porquê eles existem? Porquê eles agem dessa maneira? Porquê alguns são piores e outros melhores? Porquê a corda sempre estoura do lado mais fraco? Porquê sempre vence quem dá as cartas no jogo? Porquê sofremos? Porquê sorrimos? Porquê vivemos? Porquê partimos? Porquê?

Até mesmo atrás de cada ‘porquê?’ tem outros ‘porquês’ pra serem feitos. Você precisa esmiuçar a origem das coisas até o momento que leve a interesses humanos e também quais contextos sociais e psicológicos levaram aquele indivíduo a seguir por aquele contexto. Se você para no meio do caminho da investigação da realidade, você comete um erro gravíssimo e perigoso. Lembre-se que meia informação é, sempre, mais perigosa do que informação nenhuma. É preferível nada saber sobre um tema, do que saber algo pela metade e acabar equivocado na conclusão precipitada. Ou seja: na hora de aprender sobre algo você precisa estar disposto a chegar até o final da realidade daquele assunto para assegurar-se dos reais motivos e contextos daquilo que era, antes, apenas uma aparência ou consequência.

Nunca fique preso na superficialidade do pensamento a ponto de ser como muitos que veem um furto e já deduzem toda a razão e motivação de atos semelhantes na sociedade. Não seja alguém que vê uma reação violenta e automaticamente endossa ou recusa sem questionar os ‘porquês’ dessa conduta. Não seja aquele que vê uma notícia com um título afirmando ou negando algo e já se coloca como entendedor do artigo que está por trás ou mesmo da verdade por trás do artigo. Não seja aquele que vê números distorcidos numa pesquisa e já determina valores ou defeitos sobre uma pessoa, empresa, gestão ou política. Simplesmente não seja aquele que vê coisas e não busca os ‘porquês’, senão estará atestando seu desconhecimento, sua falta de razão, a ausência de valor em si como parâmetro ou opinião sobre um tema.

Se você quer, verdadeiramente, ser levado em conta com o que tem pra dizer, pensar, ser ou fazer, precisa, antes, estar embasado na realidade. E isso só se consegue tocando a verdade, indo atrás de seus ‘porquês’. Nessa jornada, claro, você irá se deparar com questões que requerem profissionais, professores, livros, sites, dados complementares e também outras formas de aprendizado, como o empirismo, a vivência prática com certos meios e pessoas, além de uma infinidade de outras coisas. Em resumo, só conhece bem a realidade quem vive profundamente a aventura de descobrir o que está por trás dela. Quanto mais você avança no questionamento, menos equivocado você fica nas suas deduções ou nas suas afirmações e negações. Torna-se, portanto, mais realista por estar direcionado pro entendimento sincero das realidades, sem fachadas, sem máscaras, sem achismo, sem distorções, sem falácias, sem edições, etc.

Dessa maneira, todos temos a ganhar, sabendo que temos problemas pra entender e a visão assertiva de quais ferramentas usar para chegar num resultado real, sem enxugar gelo, prestando serviço útil à sociedade e a nós mesmos individualmente. Saber o que se está fazendo, vivendo e sendo, é basicamente o começo de todo entendimento maior que pode vir depois, sobre a própria existência. O sentido maior da vida talvez esteja por trás de cada vida. Procure entender e espalhe ‘porquês’.

Rodrigo Meyer