Prosa | O fracasso nosso de cada dia.

A imagem que ilustra esse texto é fictícia e meramente ilustrativa, marcada com livre para utilização, segundo os filtros de pesquisa de imagem do Google.

Me cobro todos os dias pelas coisas que acredito que deveria estar fazendo e, por algum motivo, não faço. Me apercebo das minhas falhas, das minhas procrastinações e até mesmo da inconsistência daquilo que consigo produzir. Essa cobrança me faz reavaliar toda a minha vida. Tento descobrir se tenho salvação, se tenho algum talento, se tenho a força necessária pra fazer algo relevante. Mas, ao mesmo tempo, lembro que muito disso não depende de mim. Sei que há um mundo lá fora, cujo sistema ainda é baseado na escassez de oportunidades. É tudo uma questão matemática. Dizem que os prejuízos na vida ocorrem apenas porque acreditamos neles. Mas isso que algumas pessoas dizem não se encontra com dados da realidade.

Recentemente, vi uma notícia que, embora absurda, não me surpreendeu. Dizia que uma moça sem nenhum talento estava, de antemão, contratada por uma enorme emissora de televisão. E pra compensar tudo isso, estava recebendo investimento da própria emissora para ter aulas de atuação, fonoaudióloga e um curso de inglês. Para pessoas como essa moça, vencer na vida não depende de talento algum. Basta que seja da vontade dos poderosos cheio de dinheiro que ela seja sua próxima atriz e eles farão tudo acontecer. Os desavisados poderiam dizer que isso é algo bom, afinal, a emissora está investido em seus funcionários. Mas não se trata disso, pois nenhum outro desconhecido nesse mundo, se não estivesse adequado aos padrões sociais e aos interesses de uma mídia burguesa, elitista, racista e golpista, encontraria espaço para ser financiado em sua carreira. Quantos outros, já com plena formação e domínio no campo do teatro e da atuação em geral, não esperariam, simplesmente, por uma contratação? Quantas pessoas não passam a vida à margem de qualquer oportunidade, apenas porque não são enxergadas como possibilidade? É disso que se trata.

Eu, obviamente, pelo nascimento, já sou aprovado em diversos padrões que o Brasil e o mundo favorece. Sou um indivíduo branco, homem, que, bem ou mal, tive acesso à escola e universidade, não sou o alvo prioritário da polícia, nem vivo sob limitações que são impostas essencialmente pelo racismo. Em um mundo em que as pessoas são separadas por tais critérios, é preciso se apresentar para anunciar os privilégios como abertura de qualquer crítica social que se segue. A vida segue difícil para quase todos, mas, obviamente, segue sempre pior para quem já acorda rejeitado pela sociedade por suas características primárias. Somos uma sociedade que não deu, não dá e não dará, as mesmas oportunidades para pessoas das favelas ou periferias, das etnias rejeitadas por racismo, dos gêneros e/ou características inferiorizados pela homofobia, transfobia, machismo, entre outros. Até aqui, nenhuma novidade. Mas, como essas questões prévias eu já abordei em diversos outros textos e mídias, quero hoje fazer algo diferente, pra falar da minha própria categoria, das minhas características, meus cenários e minhas perspectivas.

Assim como muitos, tento vencer na vida, ter um trabalho, uma fonte de renda, me manter estável, com as contas em dia, sem dívidas, com acesso ao aprendizado, uma internet que preste, os remédios e tratamentos para recuperar meu corpo e minha mente dos estragos que a sociedade e eu mesmo causamos ou deixamos acontecer. Vivo em um contexto onde, apesar da infância simples, consegui algum progresso ou, pelo menos, uma estagnação um pouco mais firme que me impedisse de cair do patamar pelo qual me acostumei. Tive família, tive casa, tive a oportunidade de estudar e tentar trabalhar com aquilo que eu queria. Mesmo que sem incentivo e com o fracasso de várias dessas coisas, ainda posso dizer que foi bom, pois isso é, muitas vezes, bem mais do que possui a maioria da classe trabalhadora. Reconheço, contudo, que essa condição não é segurança, mas, ao contrário, a maior prova de instabilidade. Essa aparente estabilidade é só um degrau ilusório que coloca pessoas pobres um passo mais perto do poder de consumo. Ainda somos explorados, jamais seremos ricos e ainda somos tão dispensáveis quanto qualquer outro que não seja da elite.

Quando falam em classes sociais, costumam citar o exemplo da pirâmide. Mas, eu gosto muito mais de citar um enorme trapézio com uma minúscula esfera em cima, representando a elite, pois a diferença entre o topo do trapézio e sua base é muito mais sutil, tornando-o mais próximo de um retângulo do que de uma pirâmide. Para quem não é realmente muito rico, considere-se dentro do trapézio, mesmo que nas partes mais elevadas. Lembre-se de que a alternância para patamares abaixo é muito mais provável, dado o ângulo de inclinação que se abre em direção à base. Para sair desse trapézio, no entanto, é praticamente impossível. O acesso só acontece no topo e, mesmo assim, o gargalo é bem estreito, filtrando muito poucas pessoas que possam ocupar a pequena esfera da elite. Se tiver dificuldade de visualizar isso em termos práticos, abra seu navegador e comece a procurar por conteúdos no Youtube. Me diga quantos canais você conhece que tenham mais de 20 milhões de inscritos e que possam se dizer realmente ricos? Quantos canais sequer são recomendados pela plataforma, por não terem nem ao menos a quantidade mínima de visualizações? Isso sem falar em quase metade dos brasileiros que sequer tem acesso à internet. Esse é um dos possíveis exemplos do contraste social que vivemos.

A grande maioria da população está de fora das mídias, das boas escolas, das universidades, da televisão, das notícias, dos investimentos, das superproduções, do reconhecimento, dos convites de casamento, das produções culturais, dos grandes shows, das lives famosas no Youtube ou Instagram. Nossas perspectivas de vidas são escassas e podem até se tornarem nulas. Cedo ou tarde, tropeçamos, perdemos nosso emprego, nossos estudos, nossa ilusão de estabilidade, nossos rumos, nossos amigos, nosso mundo, nossa família, nossos sonhos, nossa saúde, nossa condição mental. Ficamos entregues à solidão, ao álcool, às drogas, às noites mal dormidas, ao cansaço, ao descompasso, às incertezas galopantes que amassam nossas histórias e memórias e nos jogam em qualquer abismo. Não nos é dado nenhuma alternativa. Muitos que hoje vivem na rua, já tiveram outra condição de vida. As pessoas não se atentam, não acreditam, não se importam, mas a vida continua a ser a vida e, se não fizermos o bastante, ela nos engole junto com todos ao nosso redor.

Para os que, como eu, vivem de dizer as realidades de um mundo próprio, de um mundo paralelo, de um mundo que, pra muitos, é alternativo, pode ter certeza de que o caminho será sempre amargo. Não haverão créditos, não haverão sorrisos, não haverão apoios ou qualquer mínimo sinal de compromisso com a nossa realidade. Nos querem distantes o máximo de tempo possível. Nossas manias, nossos medos e dramas, são inconvenientes para qualquer um que esteja por cima, em uma situação minimamente melhor. E é triste ver como pisamos uns nos outros, apesar de estarmos tão próximos. Parece mesmo uma briga por espaço, uma disputa para ver quem alcança a melhor parte do lixo. Somos urubus carniceiros, disputando os restos que a elite cuspiu lá de cima. E disputamos com unhas e dentes, com sangue nos olhos, porque tudo nos é tão insuficiente que, qualquer coisa que nos pareça igual ou um pouco mais, nos parece urgente. Mas, caímos todos, por todos os dias, se apedrejarmos as pessoas pensantes, os dignos, os revoltados, os marginalizados, os destoantes. Há quem prefira vestir uma máscara hipócrita e “lamber as bolas” de qualquer famoso que possa lhe abrir as portas, lhe dar uma nota, lhe recomendar, lhe inserir nos seus meios, lhe fazer sentir que é parte do sucesso, mesmo que tudo isso seja falso, só pra impressionar. Essas pessoas, infelizmente, agem assim, para tentar mostrar aos que ficaram pra trás, que agora elas deram certo, subiram na vida e, se continuam pobres, exploradas e oprimidas, pelo menos agora possuem alguma relativa fama, dentro do nicho do nicho do seu submundo na internet, onde elas possam se dizer importantes, mesmo que elas estejam cercadas de gente falsa que fazem o mesmo que elas, pra se sentirem menos merda na vida.

O ser humano parece ter uma tendência em buscar algum reconhecimento e aceitação do coletivo. Talvez isso seja pare do que nos representa enquanto indivíduos sociais, mas sociedades nada mais são que versões maiores das nossas próprias famílias. Não estou dizendo que o sistema imposto na sociedade reflete necessariamente a realidade de cada família, mas que, o caos que a sociedade manifesta é, em última análise, as mazelas não superadas dentro dos grupos familiares menos favoráveis. Muitos de nós foram criados sem muita estrutura, sem afeto, sem presença, sem educação, afogados em preconceitos que desceram até nós de geração em geração, cheio de vícios, medos, traumas, complexos, fraquezas, abusos, incestos, surtos, drogas, loucuras, constantes crises de sentido, de percepção da realidade, de valores, de ética, de construção da nossa suposta maturidade. Quando passamos dos 20 anos, chegamos tropeçando na fase adulta, tento que colocar a nossa consciência inteira em ordem, rever nossa vida toda, encontrar forças em algo e, com muita sorte e escolhas bem feitas, talvez, poderemos ter a chance de nos vermos numa versão nova, reconstruída, mais viva, mais inteligente, mais tranquila e mais esclarecida.

Se habitarmos a fatia dos vitoriosos, nesse sentido, nos veremos livres dos preconceitos que nos plantaram no passado, de todas as dores que nos causaram e das pragas do nosso inconsciente que bloquearam nossa autoestima. Percebe como teremos muito pra superar, vencer, ter sorte e sobreviver? Só seremos alguém minimamente possível de iniciar uma vida digna quando realmente nos dermos conta de que não estivemos e ainda não estamos nessa condição. Haverá de se fazer uma busca, uma reforma, uma demolição e uma reconstrução do nosso próprio ser. Que desperdício de tempo e de energia, alimentar uma sociedade que nos explode de dentro pra fora e depois de fora pra dentro, pra que depois, alguns poucos entre nós, tenha o necessário pra farejar o caminho da reconstrução do que nunca sequer deveria ter sido destruído. Nossas famílias são granadas ativadas, prontas para explodir a qualquer momento. Todos os segundos dessa longa vida, milhões de pessoas serão deformadas e reduzidas à nada, simplesmente porque alguém igualmente destruído resolveu ter a própria família. Ter filhos em um mundo assim despreparado, só não se torna totalmente inaceitável, porque, apesar de todos os danos que são replicados e potencializados, ainda somos todos vítimas de um mesmo sistema que nos joga pra essa condição e depois se recusam a se compadecer dos efeitos nocivos. Tudo que fazem por essa massa de pessoas é colocá-las umas contra as outras e todas sempre debaixo da mesma elite. Assim nos vigiam, nos controlam, nos tratam como números, nos ofendem, nos inferiorizam, nos estupram, nos batem, nos exterminam.

Eu me vejo saturado das minhas quatro décadas de vida. Olho pro meu passado e, por mais que tudo esteja devidamente mastigado, absorvido, compreendido e, de certa forma, superado, não há em mim nenhuma forma de comodismo, de aceitação ou a ilusão de que eu estou completamente renovado. Não estou sequer feliz, nem me sinto digno. Me sinto fracassado, como todos os outros deveriam se sentir, ao verem que estamos todos aqui apenas rastejando por um dia à mais, sem nenhuma certeza de que teremos vontade de ficar pra, quem sabe um dia, voltar a sorrir. Estamos sim em números absurdos de desistentes, alcoólatras, viciados em remédios e outras drogas, afundados em crimes, desempregados, entregues à depressão ou ao suicídio. Se recusam a falar da realidade, apostando simplesmente nos tais “números oficiais” que, todos nós sabemos, não falam absolutamente nada sobre a realidade debaixo deles. Os “números oficiais” escondem, por exemplo, todas as vítimas de violência doméstica que nunca foram contabilizadas em planilha alguma, simplesmente porque nunca chegaram ao ponto da denúncia ou, quando foram denunciadas, as autoridades, simplesmente, não apareceram. Os “números oficiais” não registram todas as pessoas infectadas ou mortas na pandemia, simplesmente porque, além de não haverem testes em massa, a verdade não convém a quem nos explora dentro e fora das mídias. Os “números oficiais” são igualmente inúteis quando tentam falar de casos de depressão, ansiedade e suicídio, em uma população que sequer tem informação ou atendimento pra isso. São milhões de pessoas que, apesar de não pularem de cima de um prédio, se matam por overdose de drogas, por cirrose alcoólica e diversas outras formas de se abreviar a vida. Os números não mostram pessoas que jamais foram entrevistadas, nunca passaram por médicos ou clínicas psiquiátricas, mas que estão deprimidas todos os dias, andando pelas calçadas, sentadas nos bares, deitadas nas beiras das camas, mudando pra outras cidades e desaparecendo de qualquer presunçosa planilha.

É difícil pra muita gente admitir que nada vai bem. Lhes parece muito mais cômodo, talvez, acreditar que seus pequenos ilusórios sucessos são suficientes para justificar toda a sua vida. Se possuem comida e um teto, já nem precisam mais se lembrar das vezes em que ficaram sem saída, sem trabalho, sem dinheiro, sem companhia, sem risada, sem conversa, sem sexo, sem nenhuma alegria. Se não podem estudar, ao menos, podem se gabar de terem sido exploradas em um subemprego que lhes tirou 10 ou mais anos de suas vidas. Se a família é incompleta, desajustada ou sem espaço para poder chamar de família, ignora-se tudo, chora-se no travesseiro, debaixo do chuveiro, em vídeos temporários no Instagram ou Youtube e fazem de conta de que o mundo ainda é apenas um pouco difícil, com seus altos e baixos, mas nada que uma vida inteira jogada no lixo não possa resolver. E, claro, os “números oficiais” também não vão contabilizar quem leva uma vida inteira pra se “suicidar”, pois morte “natural” ou acidental no final da vida, não conta. Para muita gente, está tudo normal, dentro do possível, algo que, pra mim, soa tão absurdo quanto aquela expressão “o novo normal” que querem nos fazer engolir nessa pandemia mal resolvida.

Para toda a população, exceto as elites, toda a vida é uma grande mágoa, uma enorme ferida não cicatrizada e uma dor que, se não incomoda à todos da mesma forma, é porque em alguns ela já doeu por tanto tempo, que se acostumaram. Para um fumante, sua própria roupa não cheira nada diferente, porque esse cheiro já faz parte do que ele sempre sente. Para o alcoólatra, a resistência do organismo ao álcool o torna mais disposto a beber grandes medidas. Assim é a vida pra muita gente, onde os vícios alteram a percepção de tudo. A realidade dos nossos fracassos, nossas situações, por mais reais e óbvias que sejam, passam por nós como se fossem um pouco de água adicionada numa piscina cheia. Sabemos que ela foi despejada, mas é tanta água anterior, que preferimos ignorar do que tentar separar um pedaço da vida de toda nossa vida. Nossa vida é uma sucessão de fracassos e, talvez, por isso mesmo, é que muita gente prefira não cutucar a estrutura pra tentar remover. Se limparmos todo o lixo da nossa vida, o que é que sobra? Talvez, nossas vidas, assim como esse duradouro sistema de sociedade e a própria humanidade, sejam as colunas centrais que sustentam tudo que somos. Remover o lixo, pode colocar toda construção abaixo. Clarice Lispector dizia algo semelhante. E me parece bastante verdade. Somos completamente frágeis, tentando demonstrar alguma força. Mas, nossos medos e nosso instinto de sobrevivência nos transformam, entre outras coisas, em pessoas mais covardes, mais passivas e mais medíocres, devo dizer.

Esse texto não vai te tornar saudável, rico, conhecido, famoso, estável, feliz, digno, livre, corajoso ou qualquer coisa que te coloque pra cima. Esse texto, infelizmente e provavelmente, vai apenas te fazer ver que, muitos de nós estamos numa densa lama, vivenciando erros, momentos grotescos e fracassados, dramas, doenças, descompassos, desconexões com a realidade, injustiças, guerras, pressões e uma infinidade de contextos desnecessários. Não podemos escolher o que ser, o que fazer, o que ter e onde estar. Tudo que temos é esse enorme trapézio, abarcando toda a população como uma massa amorfa, sem personalidade, sem destino, sem rumo, sem dignidade. Para os que estão na base do trapézio, tudo parece muito pior, porque a ambição de quem não tem nada é ter qualquer coisa. Mas, um dia todos eles descobrem que estão compactados como massa onde o único verdadeiro contraste é entre os exploradores e os explorados. Não acordar pra essa simples questão é incentivar que tudo se perpetue do jeito que está. Eu não aceito isso. Que fiquem pra trás os que não quiserem lutar comigo, mas eu não aceito a continuidade desse mundo sob os termos de até então. Que venham outros dias, outras sociedades, outros mundos, por um milagroso insight na consciência ou pela força pesada da revolução.

Enquanto isso me afogo em uma porção maior de álcool, em noites mal dormidas, em horas intermináveis de tédio, olhando os trabalhos passarem bem longe das minhas mãos, sem saber o que farei no dia seguinte, pra não mais depender da ajuda altruísta de quem quer que seja. Quero apenas recomeçar meus dias, longe daqui, de volta ao meu próprio trabalho, pra eu sentir que ainda sou gente, tenho vida, que não sou apenas um número ou, pior que isso, um invisível que nem chega a ser contabilizado. Quero voltar a ser independente, mas de um outro jeito, onde o esforço que eu faço pelos meus dias, pela minha tranquilidade, pela restauração da minha saúde mental e física, dê resultados. Quero viver em uma sociedade onde eu não seja só mais um amontado numa abstração. Quero ser tratado pelo nome, não pelas aspas de qualquer outro que nunca se deu ao trabalho de conhecer meio porcento da minha vida. Quero falar e ser ouvido, quero escrever ou fotografar e ser visto, quero conversar de igual pra igual e ser entendido, quero aprender algo novo, ser aceito, ter espaço na sociedade, socializar, ser recebido.

Enfim, quero tudo o que, provavelmente, nenhum de nós vai ter, à menos que se renda à um nefasto jogo de farsa e fama, onde os mais fracassados sempre bajulam os de cima, apenas porque gostariam de ser com eles um dia ou de tirarem algum proveito em suas companhias. Isso eu não quero. Meu mundo é infinitamente mais sincero. Pra mim, pessoas são só pessoas, por mais incríveis que sejam os seus talentos e pensamentos. Pessoas encarnam, defecam e morrem, como todas as outras e tudo que eu quero é lidar em pé de igualdade, porque, a princípio, somos todos seres humanos. Na minha concepção de mundo só não tem espaço pra fascistas e outras escórias. De resto, não me importo com a hierarquia ilusória, as disputas de ego ou qualquer realidade vazia.

Não importa o quanto eu grite, ninguém vai me ouvir. Vão apenas julgar, ignorar e seguir os dias como se nada tivesse acontecido. Já ouvi muita gente dizer que preferiram não tentar ajudar, porque não saberiam o que dizer ou fazer. Pois eu digo que se não for só uma mentira pra justificar o fato de que não se importam, é, pelo menos, um enorme erro. Toda participação importa pra quem já está afundado há tanto tempo. Não interessa se você não tem todas as ferramentas pra mudar a vida de uma pessoa, pois isso nunca estará em questão. As pessoas profundamente afundadas querem, apenas, que alguém divida o tempo com sinceridade. Querem, simplesmente, sentirem que ainda fazem parte, que ainda são gente, que podem ser alguma coisa diferente. Então, permita que essas pessoas possam, pelo menos, sonhar. Se você aniquila qualquer mínima possibilidade na mente dessas pessoas, você garante, de todas as formas, que a realidade dessas vidas serão reduzidas à pó. Você não precisa ser um especialista pra se importar por alguém. Basta que seja verdadeiramente humano, que tenha empatia e que se interesse de dividir um pouco mais de dignidade com qualquer outro que esteja anulado nessa vida. Talvez, muitos de vocês também estejam igualmente destruídos e por isso possam preferir não somar dois mundos parecidos, acreditando que isso possa piorar. Mas, um ditado alemão diz que “uma dor dividida é uma dor amenizada.”, similar à um provérbio sueco que diz: “Alegria compartilhada é alegria em dobro. Tristeza compartilhada é tristeza pela metade. “.

Apesar desse texto amargo, pesado e cheio de apontamentos difíceis de engolir, quero que vejam isso como uma cobrança, um desabafo, uma maneira de eu colocar pra fora minhas frustrações e fracassos e meu desprezo pelo sistema miserável dessa e de outras tantas sociedades que me consome a cabeça todos os dias. Quem sabe amanhã ou daqui uns dias, com um pouco mais de álcool ou vontade, eu deixe temas melhores, mais divertidos, mais esperançosos. Mas, cada uma das pessoas desse mundo também precisa fazer sua parte nesse processo e abandonar certos padrões e condutas. É difícil viver em uma sociedade que sempre nos cospe e nos bate, mas nunca querem nos ver melhorar, não nos falam verdades, nem nos fazem pensar. Ficam apenas se venerando por entre as máscaras de fachada, sustentando bolhas de ilusão que não favorecem à ninguém ter duas vírgulas de dignidade, originalidade, verdade, espaço e aceitação. Às vezes as pessoas não mostram quem são de verdade, porque, com a fachada da falsidade, se sentem menos horrendas, mesmo que todos ao redor, cedo ou tarde, percebam a ficção. Sejam de verdade, sejam pessoas espontâneas, sejam pessoas que admitem seus fracassos, suas mazelas, seus medos, seus traumas, suas “pisadas de bola”. Desçam do salto, olhem pro lado, vejam outros humanos igualmente perdidos, estendam a mão, dividam o tempo e sejam decentes sem perder a sinceridade.

Não aguento mais olhar pra esse mar de gente que fez da internet um resumo e um sinônimo de toda a vida, quando não se lembram sequer que, do outro lado da tela, existem milhões de pessoas que possuem outras infinitas realidades pra somar, mas que são rejeitadas por gente preconceituosa e mesquinha que acha que sua bolha é tão seleta e divina como aquela minúscula esfera de elite em cima do trapézio social. Eu quero é mais. Eu não vivo pra brincar de carniça, nem pra perder tempo com gente que só é contra o sistema enquanto está por baixo e, na primeira oportunidade de surfar na crista, vai pisar em todos abaixo, tal como fizeram inúmeros outros dentro e fora da mídia e da política. Mudança não se resume à status social ou progressão financeira. De que adianta ter fama e poder de compra, se a cabeça continua a pensar da mesma maneira? A mudança real deriva de um sentimento, um pensamento sobre um modelo de vida ideal, onde as pessoas não sejam simplesmente números numa equação. Sempre que as sociedades trataram pessoas como números, o resultado foi desastroso, gerando episódios históricos de racismo, xenofobia, fascismo, guerra e extermínio. Em casos extremos, foram exatamente os números que viabilizaram, na segunda guerra mundial, o holocausto e outras situações abjetas. Se, ao contrário desses, quisermos fazer uma mudança legítima e digna, precisamos dar legitimidade e dignidade às pessoas. As mudanças na sociedade serão o que as pessoas forem. Construam pessoas melhores, se quiserem um dia verem sociedades melhores, antes ou depois das revoluções.

Rodrigo Meyer – Author

Prosa | Os bastidores da estrela.

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Por um bom tempo você foi a minha protegida. Eu nunca cuidei de alguém tanto como cuidei de você. Eu te livrei de apertos e enrascadas, paguei seus custos com advogado e estive presente nos seus trabalhos, seus estudos, seus projetos, suas exposições, seus comércios e até mesmo quando você esteve internada. Até minha casa esteve à disposição, pra quando você precisou de moradia. Eu sempre apoiei os seus sonhos e fiz o que os seus “grandes amigos” podiam e não fizeram. Pouca gente quis te ver vencer; pouca gente te ajudou quando você não tinha mais à quem recorrer. Eu estive lá do seu lado nos dias divertidos e nos momentos conturbados.

Nos divertimos muito rindo, bebendo, andando de um lado pro outro, visitando teatros, dividindo a cama e outros lugares. Choramos juntos, fizemos arte, fizemos parte. Ouvimos o que cada um tinha pra dizer, mas só pela metade. Você não se expressava abertamente comigo sobre tudo do seu mundo, porque seu mundo envolvia outras pessoas com quem você também dormia. Isso nunca foi segredo. Assim como eu sabia, você sabia que eu sabia. Eu nunca me importei, na verdade, porque todos nós estávamos vivendo nessa mesma informalidade. Quem talvez tenha se surpreendido, foi teu ex-marido, que, infelizmente, não soube se manter fiel quando esteve casado. Suas fotos de casamento pareciam um evento divertido, com todo aquele improviso, um tempero de rock e o seu jeito prático. Eu adorava isso em você, mas parecia haver um abismo entre o que eu sentia e o que você estava disposta a oferecer. Jamais vou me esquecer que seu ex-marido te agredia e que, quando separada, um dos seus casos também não era das melhores pessoas. Desculpe a sinceridade, mas, para ele, você era só uma pedaço de carne que ele facilmente comeria.

Eu amava o seu cabelo e ele parecia ser importante pra você também. Quando você não se sentia bem com a vida, se destruía, cortando ele de uma forma que viesse a se arrepender. Mas, tudo bem, de qualquer jeito, você se mantinha linda. Eu enchia os meus olhos com a sua imagem, enquanto adorava os seus bem pretinhos, combinando com seu sorriso inigualável. Tinha doçura e humor no seu jeito de falar. Quando você queria, sempre tratava as pessoas da melhor forma possível. Mas, você nem sempre escolhia bem as companhias. Levou calote da colega com quem dividiu moradia e estava sendo roubada pelas costas naqueles comércios que faziam juntas. Foi você mesma quem descobriu e me contou e, não foi exatamente uma surpresa pra mim. Hoje, olhando pra tudo isso, consigo ver que, talvez, você seja uma versão minha. Nós tivemos o péssimo hábito de hipervalorizar as pessoas que nos usavam e nos destruíam. Por algum motivo estranho, ficávamos hipnotizados contemplando quem não merecia. Hoje eu te entendo, porque eu mesmo fiz muito disso na minha vida.

Mas não me arrependo não, pois quando fiz, estava sincero nas minhas intenções e estive ao lado enquanto achei que devia. Fiz de coração, sem esperar nada em troca. Eu queria te ver sorrir todo dia, tentar eliminar as barreiras da sua vida, apenas pra te ver vencer. Você tinha potencial pra muita coisa. Suas artes, em vários ramos, eram sempre aplaudidas de verdade. O que te faltava não era talento, mas um pouco de transparência ou sinceridade. Você tentou ajudar sua mãe, mas nem ela mesma queria. Ela comentava que gostaria de me conhecer, mas esse dia nunca chegou. Talvez tudo tenha acontecido do único jeito que foi possível. E olhar pra esse passado não nos permite mudar aquilo que já vivemos. No fim das contas, você estava tentando descobrir se seu coração amava alguma pessoa nesse mundo, mas, pelo que percebo, você se deu conta de que estava realmente sozinha. Onde estão todas as pessoas que passaram pela sua vida? Foi triste te ver mastigando a depressão, mas eu fiz mais do que estava ao meu alcance em todos os momentos e quando a reciprocidade falhava em momentos cruciais, eu me lembrava de que não estávamos vivendo a mesma vida.

Eu tomei uma decisão difícil e fria de me forçar a ficar longe de você. Eu queria expurgar toda a dependência, todo o apego, todo o desejo e toda a vontade de estar ou falar com você. Pra ser sincero, levou tempo. Nunca quis tanto cuidar de alguém na vida, mas nossos mundos estavam isolados, não estávamos remando pro mesmo lado e você sempre demonstrou com condutas e palavras de que os sentimentos não correspondiam. Eu não insisto em porta fechada, então fui embora e segui a minha vida. Sei que fez bom uso dos presentes pra começar o novo trabalho que você escolheu. Não torço à favor nem contra, pois assim que você foi embora, deixou de ser a minha protegida. Agora você é só uma memória que me faz escrever, pra ressignificar meu passado, as pessoas, os momentos que eu vivi, pra ver se chego o mais saudável possível do outro lado e facilitar a minha própria vida.

Num imenso acaso, quando eu já nem lembrava que você existia, você brotou numa rede social e a resposta que dei foi a única possível. Eu já havia feito tudo que eu podia. Não sei o que se passa pela sua cabeça, mas a vida não permite ensaios. Quando um cristal se trinca pela primeira vez, ele segue trincado pro resto da vida. Mas, certas coisas a gente não escolhe. O coração sente ou não sente, sem pedir licença ou conselho. A vida, nesse sentido, permanece um mistério. Apesar de tudo, obrigado. Isso não é um pedido de desculpas atrasado. Simplesmente eu sei que tudo que eu passei na minha vida me ensinou uma montanha de coisas e também me permitiu momentos muito intensos. É por tudo isso que eu sou grato.

Rodrigo Meyer – Author

Prosa | O navio está partindo.

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Nos acostumamos com o cheiro da nossa própria casa e nem percebemos como ela destoa de qualquer outro lugar, até que visitamos alguém e sentimos o cheiro característico de lá. Até a comida tem cheiro diferente. Pode ser o mesmo prato que você costuma comer, mas cheira diferente. Deve ter algo impregnado nos móveis, nas panelas, na transpiração dos moradores. A minha casa tem cheiro próprio, como a casa de todo mundo deve ter.

Para quem é fumante, por exemplo, acho que já não percebe o cheiro de cigarro permeando tudo, desde os poros da pele até a roupa e as paredes. O mesmo pode-se dizer de quem tem animais de estimação. A maioria dos seres é treinada desde o nascimento a reconhecer os cheiros familiares e a comparar com qualquer outro cheiro diferente. Os cheiros conhecidos desde o começo representam uma certa segurança, enquanto que os cheiros diferentes, vem de fora, são estranhos, são potenciais ameaças e, portanto, nos incomodamos com eles.

Todo mundo já ouviu falar da predileção que as pessoas possuem pela comida da mãe, da avó ou de quem as criou. Somos alimentados por esses temperos e cheiros desde o nascimento. Convivemos nesse ambiente e nos acostumamos com esse padrão. Torna-se o novo normal. E a memória afetiva traduz isso na forma de predileção e prazer pela comida ou cheiro dessa origem. E tudo isso soa um pouco estranho, pois o sal é similar pra todos, tal como a pimenta ou outro ingrediente qualquer. Mas cheira diferente, tem gosto diferente. Deve ser o modo costumeiro de cozinhar, o odor impregnado no fogão, na madeira dos armários, no teto da casa e sei lá mais o que.

Ainda mais estranho é que, apesar de notarmos o cheiro e sabor característico da nossa casa e de outras casas, quando vamos à um restaurante, parece que tudo é neutro. Claro que as coisas tem cheiro e sabor, mas, de alguma forma, parece que chega à um consenso que agrade à todos os públicos, afinal é isso que se pretende quando se atende diferentes famílias, acostumadas com o cheiro e sabor de suas casas ou da mesma comida desde a infância. Talvez a constante limpeza dos ambientes impeça qualquer um dos cheiros de impregnar pela repetição, pelo acúmulo. E isso explica boa parte do sabor das chapas engorduradas dos botecos.

Repetição parece ser o que garante a impregnação do cheiro e o reconhecimento pela memória olfativa. São tantos sentimentos que voltam à tona quando reconhecemos um perfume de alguém. Quando me acostumava por tempo suficiente com alguma companhia, certamente é porque havia sintonia com o cheiro da pessoa. Isso é parte da chamada ‘química’. Algumas pessoas sequer usam um perfume, mas todas elas tem um cheiro próprio, único. E quando gostamos, nos conectamos. Talvez, em última análise, gostamos das pessoas porque elas nos trazem prazer pelos diversos sentidos humanos. A voz de uma pessoa, o cheiro, a textura da pele e tudo o mais, vão compondo uma zona de conforto, onde nos sintamos em segurança, protegidos numa bolha bem pequena. Nosso refúgio se torna nossa casa, as pessoas a quem nos conectamos. Pra muita gente, talvez, se desconectar desses cenários e pessoas é como uma ameaça.

Estamos todos buscando qualquer referência de segurança, por trás de um abraço, um olhar, um som, um cheiro, um sabor, um modo de fazer as coisas, um estilo visual. A sociedade começa a se separar em tribos desde sempre, buscando o convívio com os seus. É assim na formação de famílias, clãs, vilas, cidades, países e planetas. É assim também nas culturas e subculturas, nos nichos de música e estilo de vida. Eu, por exemplo, estou sempre em conexão com a atmosfera de onde eu passei a maior parte da minha vida, dos bares e casas noturnas que frequentei, das pessoas que conheci, das músicas que ouvi, das roupas que vesti. Mesmo que estejamos no ano de 2020, ainda é recorrente a necessidade de uma atmosfera dos anos 80. E como é bom ver as pessoas vestindo preto pra todo lado, uma predominância de coturnos, franjas em linha reta ou um corte em V e todos aqueles detalhes comuns no meio gótico, pós-punk, rock e afins.

Somos seres sociais, mas somos seres que buscam uma específica atmosfera. Estamos debaixo do mesmo céu, aparentemente, mas na verdade nossas bolhas nos separam completamente para dentro de realidades onde tudo é muito nosso e muito nós. Frequentadores assíduos de certos lugares se tornam parte do lugar, seja enquanto vivos ou mesmo depois de mortos. Inúmeros casos são vistos e contados de desencarnados que permanecem no mesmo lugar habitual, atrás de algo que reconhecem, gostam e/ou precisam. Às vezes a droga, o álcool, a energia específica das pessoas ou, simplesmente, aquela memória afetiva. Definitivamente, nossa consciência ultrapassa nosso cérebro. Por mais que se apague a parte física dessa equação, tudo já está enraizado na própria alma ou consciência, dentro e fora do corpo. A consciência não depende da matéria, mas é a matéria que depende da consciência.

Quanto tempo será que leva para nos acostumarmos com novos lugares, novas pessoas, novas comidas e novos cheiros? Quando as pessoas falam sobre a depressão de quem vai morar em outro país e da saudade que esses sentem de casa, não será exatamente isso que existe por trás? Às vezes as pessoas se sentem desconectadas daquilo que reconheciam como seguro, prazeroso e confortável. Talvez seja preciso redescobrir os gostos, mudar o paladar e aceitar que a vida muda, que há outras memórias pra serem formadas. Claro que, diante da novidade, não vamos ter as referências maternais ou da infância. O passado não se repete se o futuro for diferente do habitual. Mas, assim como aprendemos a frequentar e gostar de lugares ao longo da nossa vida, podemos experimentar o prazer por essa constância em qualquer lugar que pudermos ficar tempo o suficiente. Deve ser isso que motiva coletivos a fixarem residência nos lugares.

Moramos quase sempre na mesma casa ou se mudamos de casa, tendemos a ficar no mesmo bairro ou zona. Raramente nos mudamos pra muito longe, raramente trocamos nossa zona de conforto por algo novo que ainda não nos diz nada. Mas, pra quem quer fugir das lembranças, mudar de ares talvez seja a melhor opção. Ao se desconectar dos mesmos objetos, dos mesmos cheiros, das mesmas paisagens, dos mesmos lugares e das mesmas pessoas, temos a oportunidade de nos ver, de alguma forma, um pouco mais livres, quase como se fôssemos uma folha em branco, limpos para sermos preenchidos com coisas que, finalmente, vamos escolher. Se nosso passado é imutável, ao menos nosso presente e futuro podem ser construídos de um jeito diferente.

Mudar é importante, nos dá energia de organizar a vida do nosso jeito, descobrir que outra vida podemos ter. Eu estourei a minha bolha desde muito cedo e, à cada vez que uma nova bolha se formava, eu a estourava. Nunca permaneci muito tempo em lugar algum, porque estava tentando me encontrar. E quando eu percebia que não estava entre os meus, eu me afastava e seguia sozinho até outra bolha começar a se formar. O motivo pelo qual nunca me encontrei profundamente em nada e ninguém, talvez seja por causa dessa ruptura desde cedo. Por não ter um padrão a ser mantido ou perseguido, nunca encontrava algo que se encaixasse, pois não havia um padrão determinado para encaixe. Sem essa referência do que eu deveria encontrar no mundo pra me sentir confortável, percebi que não tenho que procurar isso nas pessoas ou nos lugares, mas, construir eu mesmo, meu padrão desde o zero. Assim, meu mundo é muito meu e eu sou muito do meu mundo. E quando o mundo parece demasiado vazio, não é de todo ruim, pois podemos preencher com qualquer coisa que quisermos. Sem vícios e sem apegos, o navio não fica preso no porto, nem compelido a percorrer uma mesma rota predefinida. Um navio que não está preso, nem programado, viaja pra onde a correnteza levar e pra onde impormos alguma direção. Cabe à mim escolher e é só nessa possibilidade que eu deposito todos os resquícios de esperança. Vamos aguardar e ver.

Rodrigo Meyer – Author

Na contramão dos aniversários.

A imagem que ilustra esse texto é parte de uma fotografia marcada como livre para utilização, segundo os filtros de pesquisa de imagem do Google.

Pra muita gente, aniversários são, talvez, uma das únicas datas festivas do ano todo. Pra mim, soma-se com o Natal e as festas de Ano Novo como igualmente incômodas. Nunca fui alguém que me sentisse compelido a comemorar nenhum desses eventos. Ao meu ver, não há nada de fato pra se comemorar, mas pra se lamentar. São marcos anuais de um regresso e não de um progresso. Além disso, essas festividades, geralmente, são feitas para os convidados, porque os próprios anfitriões pouco ou nada aproveitam.

Tem anos que eu simplesmente nem me lembro da aproximação do meu aniversário. E, às vezes, quando calha de eu ter que relembrar da data específica, figuro pensando rapidamente sobre isso e logo esqueço. Esses dias, ao acaso, vi um bolo e isso me fez lembrar de festas, até que uma coisa levou à outra e acabei vindo falar disso. Aniversários são, pra mim, uma lembrança triste onde sou obrigado a pensar na quantidade de anos em que eu permaneci sobrevivendo e sofrendo, quando a única coisa que eu realmente gostaria de comemorar era o fim de tudo isso. Ter arrastado uma vida permeada por depressão, praticamente desde sempre, faz com que eu não consiga ter lembranças positivas de nenhum desses eventos, nem de mim mesmo. Assim, o que é que eu teria pra comemorar sobre o meu nascimento?

Muita coisa da minha infância parece bloqueada na memória. Eu sinto como se nem ao menos tivesse vivido em boa parte dos meus dias no passado. Em parte porque não houveram episódios marcantes, mas também porque muita coisa eu fiz questão de esquecer de todas as maneiras que estavam ao meu alcance. Ainda hoje consigo me lembrar de breves cenas, dos lugares em que morei, das pessoas com quem eu conheci e me relacionei. Mas são sempre muito breves e esporádicas na sequência de tempo. Junto com essa memória corroída ou bloqueada, sobrevivem algumas cenas incômodas da minha infância e adolescência que eu preferia não lembrar. Fico arquitetando o que eu diria numa sessão de terapia ou algo assim. Tenho tanta coisa que eu gostaria que se resolvessem, mas que já moeram minha vida há tantos anos, que, não sei mais se faz qualquer diferença agora.

Quase quatro décadas de existência e não tenho nenhuma perspectiva sobre o meu tempo restante de vida. É difícil prever essas coisas. Li e ouvi muita gente dizer que imaginavam que jamais passariam dos 30 anos de idade, mas cruzaram idades elevadas. O estilo de vida exagerado de algumas pessoas, na contramão das probabilidades, os permitiu levar uma vida ativa até os 50 ou 60 anos e alguns, surpreendentemente, passaram da casa dos 90 anos. Pra mim isso parece mais assustador do que positivo, mas nunca sabemos o dia de amanhã. Às vezes alguma coisa muda em nossas vidas e ganhamos vontade de viver.

Na infância, por mero formalismo, minha mãe organizava festas ou, pelo menos, fazia um bolo. Eu nunca fiz questão e até me sentia um tanto constrangido de ter que figurar nesses momentos. E isso foi se ampliando com o passar dos anos, até que as festas deixaram de ocorrer, o bolo acabava sendo ignorado por mim na geladeira e tudo ia se enquadrando como se fosse um dia comum, como todos os outros do ano. Lembro que, às vezes, tudo isso era substituído por um dia de pizza em casa e, quase sempre, isso só representava alguma coisa diferente pra comer, seguido de longas horas de sono e isolamento. Quando eu comecei a trabalhar, pude comprar, esporadicamente, alguns presentes pra dar pra mim mesmo. Não importava se era meu dia de aniversário ou qualquer festividade. Se eu tivesse algum dinheiro sobrando em qualquer época do ano, eu saía pra comprar filmes, livros, alguma roupa, comida e bebida. Meu mundo era só eu, porque eu já não fazia parte do mundo há muito tempo.

Provavelmente trabalhei na maioria dos Sábados, Domingos e Feriados, que era quando as pessoas podiam pausar seus trabalhos pra vir participar do meu trabalho de Fotografia. Também estive à trabalho ou diversão em diversos momentos pelas noites de São Paulo, eventos, viagens, manifestações. A Fotografia me acompanhava todo o dia e dava algum sentido pra minha existência, então, talvez, eu devesse comemorar meus anos trabalhando nela. Se pude me realizar um pouco em alguma coisa nessa vida, certamente foi na Fotografia. Desde que pausei a atividade, a sensação de ser desnecessário na vida aumentou profundamente. Passei a escrever e a fazer outros tipos de arte, mas só o tempo irá dizer o que é que isso tudo tem potencial de ser. Tudo parece um tanto medíocre e sem propósito. A verdade é que muito do que faço fora da Fotografia é uma tentativa de desabafo. Já tentei trabalhar com muitas coisas, mas a verdade é que percebo que não tenho o necessário. Estou apenas dando o melhor de mim, mas pra uma pessoa destruída esse ‘melhor’ ainda é muito aquém do necessário.

Sim, isso me frustra, mas também me faz acordar pra realidade. É importante percebermos quem somos e do que somos capazes. Nada de grandes sonhos ou de supervalorizar a realidade. Assim como a vida e os tais aniversários, não são de fato grande coisa e, às vezes, a melhor forma de lidar com eles é ignorá-los. Nada de especial pra se comemorar, só mais um dia errante entre quase todos do ano inteiro. Dizem que um ano é composto de 365 oportunidades, mas se isso for verdade, certamente minha depressão me obriga a desperdiçar todas elas, porque não consigo aproveitar um dia sequer pra fazer algo que me satisfaça. Sei que estou quebrado por dentro, que minha alma está apagada. A cabeça desistiu de funcionar e já vejo novas consequências terríveis desse tempo todo em que fui esmagado, como se a cada novo ano eu tivesse um peso extra nas costas por não ter me superado no presente, nem ter superado o passado. Um histórico terrível é pendurado na minha frente todos os dias, me fazendo lembrar que estou chegando em quatro décadas de vida, sem ainda ter tido nenhum bom motivo pra comemorar.

Me acostumei a viver sozinho em meu mundo, passando reto pelos dias, bebendo, dormindo e, com sorte, trabalhando. Isso provavelmente me fez ignorar não só os meu aniversários, mas também de esquecer completamente a data de outras pessoas. Frequentemente, só me dei conta do aniversário de colegas ou companhias quando já havia ultrapassado um ou dois meses do ocorrido. E, independente do quanto eu me importava com essas pessoas, lembrar de datas nunca foi algo que minha mente se acostumou a fazer.

Eu não quero parabéns, porque ‘parabéns’ se dá pra quem teve uma conquista. Também não espero por presentes, porque a única coisa que eu realmente preciso e gostaria de receber é saúde mental e perspectiva de vida. Sem isso, nada do que eu pense, planeje ou faça, me trará sentido na vida. Acordo todos os dias com a vontade de voltar a dormir e o próprio sono já não me acolhe há vários anos. Me reviro na cama de um lado pro outro, desviando da dor física. Acordado ou dormindo, estou sempre perdendo. Nessa guerra não existe vitória e a única forma de sairmos dela é confirmarmos nossa derrota diante da vida, aceitando morrer.

Com alguma sorte eu vou levantar um dia e buscar medicação. Faz enorme diferença pra mim saber quem é que vai me atender. Enquanto isso, as pessoas que supostamente lutam do mesmo lado, ignoram, não possuem tempo ou interesse de responder. Fico sem ter esperança pelos próximos passos, sem respostas pra quem eu deveria recorrer. Quem detém a resposta, parece nem saber que eu existo. Há vários dias, talvez mais de um mês, escrevi pro Conselho Federal de Psicologia, buscando por informações que me ajudassem a filtrar um profissional. Mas nem ao menos sei se fui lido, porque nunca tive qualquer reação ao contato. Se essas são as pessoas que representam a Psicologia no Brasil, já dá pra imaginar o tamanho do buraco em que estamos. Se já sabíamos que não havia com quem contarmos entre as pessoas comuns da sociedade, fica ainda mais difícil quando descobrimos que nem mesmo os profissionais podem nos ajudar.

Os dias passam e a vontade de aceitar ajuda passa junto. Um dia estamos dispostos a escrever uma mensagem e no outro parece que aquilo já não faz mais sentido nenhum. Um dia estamos pensando que poderemos nos salvar com a medicação e depois entendemos que nada é tão simples assim. Existe um caminho constante nesse vai e vem, que é típico da depressão e que nos coloca à andar em círculo, sem mudar coisa alguma nos nossos dias. Aquilo que realmente seria importante e urgente, facilmente deixamos de lado, enterramos debaixo do tapete, varremos atrás de uma garrafa de bebida, uma noite de sono, um prato de comida. E vou empurrando meus dias, pra mais um ano de sobrevida, enquanto as pessoas se perguntam porque é que não estou comemorando meu aniversário. São explicações que nem mesmo gostaria de dar e que se juntam à inúmeros outros anexos de frustrações e memórias inglórias. Passei mais tempo explicando, justificando e desabafando minha sobrevida, do que buscando qualquer tipo de ajuda efetiva que me desse a honra de conhecer o que é viver. Já estive medicado e reerguido lá pelos meus 20 anos de idade, mas alguns anos depois eu já não sabia mais o que era viver.

Já não desejo ‘feliz aniversário’ pra ninguém, porque ‘feliz’ é um conceito que já virou mitologia na minha mente. Espero que as pessoas encontrem algum conforto e tranquilidade ou que obtenham sucesso em algo que elas queiram ser, ter ou fazer. Mas sempre me senti desconfortável em desejar felicidade em aniversários, festas de Natal ou Ano Novo, porque tudo isso parece uma grande ficção e falsidade, em especial no mundo destruído em que vivemos, independente de ter ou não depressão. Acho que o mundo precisa ser mais honesto, mais direto, mai realista e dizer aquilo que realmente sente, o que deseja, o que de fato acredita. Não vamos chegar à lugar nenhum alimentando a egrégora da mentira com todos esses depósitos de palavras, símbolos e energias, enquanto, na prática, estamos nos dizimando, todos os dias, em gestos, palavras, pensamentos, sentimentos, tudo do ruim e do pior, apodrecendo o mundo com um modelo de conduta que se opõem diametralmente à felicidade e cava fossos cada vez mais fundos, insustentáveis, cheios de violência, dor, agonia, ansiedade, miséria, guerra, conflito, preconceito, mentira e tudo aquilo que as pessoas fingem que não sabem, mas praticam de perto, e magistralmente, todos os dias.

Rodrigo Meyer – Author

Custa caro ser feliz.

A imagem que ilustra esse texto é parte de uma fotografia marcada como livre para reutilização, segundo os filtros de pesquisa de imagens do Google.

Sentei pra ouvir música, como há várias semanas eu não ouvia. Mas não pude sentir o prazer que isso me dava anos ou décadas atrás. Algo em mim continua desligado, desconectado ou quebrado. Algo em mim grita silêncios, espalha tédio pelo meu dia. Esse algo me faz sentar na mesma cadeira todos os dias e não me deixa sentir descansado. É alguma coisa que me tira da cama para, logo em seguida, me jogar de volta. É algo que me tira o prazer de comer, a vontade de abrir as janelas e às vezes me desencanta até de abrir os olhos. Esses dias o chuveiro de casa queimou e a frieza da água já não me surpreendeu. Talvez, em um contexto normal, eu até reclamasse do azar, mas a verdade é que já não me importo. O chuveiro está queimado, a janela emperrada, a porta empenada e o portão enferrujado. Tudo combina bem com as dores nos joelhos, os olhos cansados, o peso nas costas, a angústia no peito, o frio nos pés.

O mundo parece corroído, lidando com uma vida enferrujada, o trabalho precário, o desemprego, o despejo, a miséria e a falta de perspectiva. Somos um mundo doente, tentando mover as juntas, antes que elas se acabem no atrito. Estamos aflitos e de aflição entendemos bem. Somos uma sociedade vendida como ‘feliz’ por muitos, mas que, na verdade, não está nada bem. Que felicidade é essa que todo ano bate recordes de suicídio, assassinatos, ódio de todo tipo, pobreza, desafeto e desconfiança? Quem é que está feliz de perder a vida todos os dias, de se vender por um prato de comida e não ter nem mesmo garantia de aposentadoria? A felicidade, ao contrário do que dizem os farsantes egoístas, não é uma simples escolha do indivíduo. Dizer tal absurdo, no alto dos seus privilégios sociais é só mais um motivo, entre milhares de outros, pra ninguém abaixo conseguir alcançar o tão desejado caminho da felicidade. Essa gente debocha da dor alheia e difunde a ideia, em mídia aberta, de que o caos não existe e que tudo só depende do olhar que damos às coisas. Nada pode ser mais desonesto e criminoso do que incentivar o conformismo entre os que mais sofrem na sociedade.

Essa gente mesquinha, egoísta, psicopata e desacreditada de todo e qualquer valor na vida, vive pelo dinheiro, poder e fama, pois é tudo que lhe resta na cabeça. Atropelam multidões apenas para apanhar seus próximos centavos. Enquanto isso, eu sento pra ouvir música, mas não sinto mais prazer algum. Também não tenho esperança pelo próximo dia de trabalho e nem sei o que faço nessa sociedade. Talvez eu acorde de um grande pesadelo, mas, por enquanto, tudo me parece real e profundamente amargo. Me enojo pela manhã de ver bandidos fardados abertamente nazistas, debochando das repercussões midiáticas das manifestações antirracistas que percorreram os Estados Unidos e o mundo, repetindo diversas vezes o mesmo ato criminoso que desencadeou tais manifestações. A escolha proposital do momento e dos detalhes de cada ato desses vermes fardados, deixam claro a referência e a intenção. Por isso e por muito mais, eu me sento pra ouvir música, mas já não sou capaz. Eu tento, aproximo os ouvidos, presto atenção, mas nada daquilo cativa a minha mente.

Você que me lê, talvez ainda não esteja do jeito que eu estou. Talvez ainda tenha brilho nos olhos, prazer pulsando pelos poros, virtudes a serem contempladas e dias divertidos à sua espera. Talvez você tenha esperança pelo momento em que essa pandemia propositalmente descontrolada chegue ao fim. Talvez você não adoeça sua cabeça de ver o genocídio na rua ao lado, os cemitérios entupidos e os hospitais colapsados. Talvez você não tenha apreço por nada disso, nem se importe de ver o mundo um pouco mais deteriorado, menos útil e menos mundo. Talvez seja só eu, sozinho no meu imaginário, definhando de dor, de infelicidade, sem saber pra onde vou amanhã, por não ser um daqueles desocupados com indigno título de filósofo ou doutor que brincam de política ao lado de fascistas em um país internacionalmente humilhado, devastado, miserável e indigno.

Sou, talvez, junto com milhões de outros brasileiros, a estranha exceção, a minoria que soma mais de 70% da população, o caso isolado que se vê sempre em toda esquina e a opinião meramente pessoal que, coincidentemente, é a mesma de um imenso coletivo. Dever ser um erro da Matemática, uma falha nas leis da Física e uma ruptura desconhecida com a “verdadeira realidade”. Talvez eu esteja feliz e não saiba, mesmo quando me sento pra ouvir música e sinto absolutamente nada. Por alguma razão misteriosa, olho pela janela e nada mais me importa, entro debaixo do chuveiro de luz apagada, pra não ofuscar essa suposta felicidade brilhante no banheiro. As cortinas estão fechadas, mas deve ser só ornamento pra festejar a euforia que dizem que sinto, mas que não consigo sentir. Deve ser a felicidade que chega sem chegar, a saúde pra nomear doenças, a vida pra representar a morte e assim por diante.

Debaixo das fardas e paletós, sujos de sangue, pólvora e cocaína, a imundice contamina mais que qualquer epidemia. Tem muito dela desde sempre e nos últimos anos foi ainda pior. A imundice se tornou o objetivo de uma classe tão vazia quanto esse mundo sem felicidade alguma. É desse vazio torto de uma parcela doentia, que o mundo se vê apodrecido, morto e sem esperança. Esse ambiente podre no mundo se torna o próprio gatilho que ativa as munições mais pesadas contra a qualidade de vida, a saúde mental, a dignidade humana, a vontade de viver. Nenhuma dessas doenças e mazelas chegam ao acaso e não são nada fáceis de se vencer. Quem me dera se fosse simples como apenas decidir ser feliz, quando nem mesmo a realidade física e química do meu corpo correspondem às alucinações e à falta de caráter desses estercos falantes. Permitir que os imundos tracem qualquer parecer sobre a felicidade da sociedade é dar palco pra quem não deveria sequer estar ocupando espaço físico ou simbólico em canto algum.

Hoje eu acordei, me sentei pra ouvir música e não pude sentir nada. Minha vida está corrompida há décadas e nos raros dias em que existiram sonhos, rapidamente sumiram pra dar espaço pra constante frustração e desejo sincero por vingança e revolução. O tempo passa e ainda estamos na mesma batalha. Batendo todo dia na mesma tecla, contra a alucinação coletiva, contra a barbárie do capitalismo e de sua versão final, o fascismo. Enquanto eu estiver vivo, vou acordar lembrando do que eu preciso, do que eu sinto e do que eu já não consigo mais sentir. Vou me lembrar de cada nome, cada detalhe, cada momento e chegarei cobrando um alto preço pela minha realidade roubada, meus anos de vida não vividos, minha saúde deteriorada e minha raiva acumulada. Só por ironia, me lembrarei de aplicar pesados juros, multas desproporcionais, impostos improdutivos e correções monetárias que façam ervilhas se tornarem o mais novo Universo em expansão. Vai ter poesia, drama, ficção, como toda boa obra de cinema, mas será tudo baseado em fatos reais, como a própria História nos convida para ver e fazer. Se forem necessárias as explosões, como costumam ser nos filmes de guerra, não me oponho. Que venham de todos os tons e megatons. Se um verme me diz que felicidade é questão de escolha, então eu vou dizer pra ele o que é que eu escolho pra me ver mais próximo de ser feliz. Que ele aguente o tranco, porque, como ele mesmo diz, basta assim decidir. Mudanças virão e eu não quero ouvir verme chorando de barriga cheia.

Rodrigo Meyer – Author

[+18] Obrigado pela partida.

A imagem que ilustra esse texto é fictícia e baseada em uma fotografia marcada como livre para utilização, segundo os filtros de pesquisa do Google.

Você chegava no seu carro cor de carmim com os cabelos soltos e ondulados. Tão leve, tão independente, tão feminina. Amava quando você usava o jeans decorado com rasgos pelos joelhos. Te fazia mais garota, mais divertida, mais ousada. Bem me lembro do seu olhar atento, entrando em casa, se recuperando da viagem. Incrível como seu perfume persistia ao tempo. Era um vício aspirar o seu perfume quando te abraçava. Você fazia eu me sentir mais vivo e eu retribuía cada movimento seu.

Bom mesmo era ser surpreendido com seu toque na porta, anunciando sua chegada. Como era bom acordar nessa névoa de sonho, te puxar pra dentro, encostar a porta e te sentir inteira. Matar saudade com os olhos, com as mãos, com você prensada contra a parede, de frente e de costas e notar cada um dos seus ornamentos. Você se produzia toda só pra me ver. Era meu presente, depois de tantos dias longe de casa. E vinha sempre atiçada, como quem estivesse com sede todo esse tempo. Teus olhos brilhavam e tudo em você parecia tão bem escolhido.

Na memória, tenho você em dias diversos, em todas as casas, no cinema, no teu carro. Lá estava você em cima da cama, no sofá, no chão da sala, no jardim, debaixo do chuveiro, no meio do almoço, depois do banho e até quando tínhamos mais gente dividindo o quarto. Você era sempre uma estrela, incansável sereia. Se eu me atirava sobre suas roupas, esfregando o corpo e te beijando, você se contorcia e me colocava pra te admirar. Debaixo da sua blusa, com os ombros de fora, um sutiã branco cheio de detalhes parecia um tesouro à ser descoberto. E como eu ficava feliz de desvendar cada camada. Seus sapatos eram poesia e era impossível não notar como você se sentia usando eles. Se possível fosse, os manteria enquanto te despia. E como era bom perceber o cheiro da sua roupa. Tudo isso fazia eu me sentir especial.

Você gostava de tudo intenso, porque quanto mais desejada, melhor. Com toda intensidade, eu tirava suas calças e te cobria de beijos entre as pernas, até eu me render e te deixar toda nua, impacientemente esperando minha boca molhada devorando a porta da sua casa. Um castelo, devo dizer, cheio de magia. E disso você entendia bem, porque parecia controlar a minha vida. Eu, ciente do que tinha do meu lado, nem precisava me esforçar pra querer fazer todo o esforço possível. Eu simplesmente era compelido a te ver dançar, à querer fundir prazer e prejuízo na mesma equação. E quanto mais eu me esgotava, mais eu queria continuar. Talvez acabássemos mortos por excesso de saudade. E teria valido a pena cada absurdo realizado.

Você sabe que as memórias não se apagam da noite pro dia. Talvez, algumas jamais poderão ser apagadas, porque impregnaram diretamente na alma. Parte de você, alterou a percepção da minha própria vida. Tem você no que eu faço ainda hoje e é por isso que escrevo sem freios, quando lembro do que vivíamos. Tem comigo aquelas tuas graças, seu jeito hilário de parodiar pessoas com seus personagens e também seu jeito inconfundível de falar. Tudo em você era engraçado, porque você enxergava a vida com humor. Tinha isso nos filmes que você gostava, nos bonecos que você moldava, nas artes que sobrepunha às cartas que me enviou. Éramos dois palhaços, rindo um do outro, um para o outro e um com o outro. Éramos imperdíveis e infalíveis. Se hoje eu lembro de você por todas essas coisas, é exatamente isso que eu admiro nas pessoas desde sempre e ainda hoje.

Mas você não soube apenas ser e logo o paraíso te pareceu bom demais pra ser verdade. Começou a imaginar coisas, a ver situações onde não havia, a criar monstros imaginários pra depois passar o dia lutando contra eles. E lutou, até o ponto em que teve que declarar guerra, por debaixo dos panos, talvez por medo, insegurança ou algum fator que eu nunca saberei dizer. Quando você se foi, eu havia pensado que eu estava destruído. Levou tempo, mas depois de uns anos eu percebi que eu tinha vencido duas vezes. Venci quando desfrutei da alegria e do vigor, enquanto ainda existia e depois venci novamente quando você saiu da minha vida, pois já não éramos mais compatíveis, seja lá o que isso tenha sido. O importante é que não prolongamos o que não sobreviveria e voltamos à realidade cinza, cada um com seu próprio plano, tentando se reconectar ao sentido da vida.

Pra você, outros filhos, outros relacionamentos e a volta pra sua casa. Pra mim, outras cidades, outras verdades, outros momentos, novas pessoas, novos aromas, novas intensidades. Não me atrevo a especular ou comparar a vida de cada um. Tudo que posso falar é do que vivemos e do que nos poupamos de viver. Por trás da sua figura engraçada, havia um recheio amargo de preconceito, de racismo e ódio de classes. Se eu tivesse percebido tudo isso desde o início, eu teria te recusado. Mas você foi boa no feitiço, me deixou marcado e conectado por aquilo que temos de mais poderoso e instintivo. Você carregou minhas baterias e me fez transbordar. Mas, pra se viver não podemos atropelar nenhum princípio e, por isso, foi livramento quando você escolheu se afastar. Ninguém é perfeito, mas temos que procurar por compatibilidade e reciprocidade. Décadas depois, cá estou, ainda conseguindo ver que pessoas ruins também tem partes boas. Talvez se aplique, subjetivamente, a ideia de que quanto mais luz incide sobre uma pessoa, mais densa é a sombra por ela projetada.

Pessoas depressivas talvez se pareçam com baterias descarregadas. Se alguém vem nos socorrer, precisamos de muita carga. Mas quando finalmente ganhamos autonomia, a bateria continua a se carregar sozinha, pelo giro do próprio motor. Precisamos manter nosso carro em movimento. E aqui vou eu, levantar voo para a maior de todas as estradas. Tô indo vencer na vida, de um jeito que só eu sei o que significa. Para os que ficam, eu já estou em outro jogo, mas obrigado pelas partidas.

Rodrigo Meyer – Author

Crônica | Mais do mesmo.

Janela contra janela, duas casas lado a lado evitam de se olhar. Do lado de lá, a janela nunca se abre, provavelmente um hábito em busca de privacidade. Do lado de cá, fecho a minha porque evito a luz. Às vezes de noite, ou sempre que me sinto excessivamente sufocado, abro minhas janelas pra deixar o ar entrar. Não me importo que haja outra janela bem em frente, pois está sempre fechada, então tenho vantagem em abrir a minha sem perder a privacidade. E quando olho pra dentro do cômodo, confirmo a ideia de que não há nada pra se manter privado, porque nada relevante está acontecendo em nenhum momento. São só as cobertas desarrumadas em cima da cama, as garrafas de bebida em cima da mesa, nenhum quadro na parede, nada além de um indivíduo sentado numa cadeira, olhando pra tela do computador e procurando alguma surpresa que sabe que não virá. O smartphone se tornou inútil há muitos anos, se transformando num relógio de bolso, marcando, desnecessariamente, o tempo pra quem não tem compromissos ou horários demarcados. Qualquer momento do dia é completamente indiferente. Se acordo pela manhã ou pelo final da tarde, não muda em nada a rotina que se estende homogênea e inquietante por todo tempo. Não mudam as garrafas vazias de meses atrás, nem o computador constantemente ligado em cima da mesa, a cadeira sobrevivendo no mesmo lugar, a casa ao lado, o amontoado de casas sem reboco à se perderem na linha do horizonte, as canetas sem uso guardadas em uma caneca, a dor nos ossos, a fraqueza nas pernas, o cheiro de mofo, o chão frio, a angústia, a dor nos pulsos, o fígado inchado, as náuseas, o semblante destruído, a depressão corroendo a cabeça há décadas, a bagunça no banheiro, as marcas na parede, os longos períodos de sono seguidos por inquietantes horas acordado. Janela contra janela, sei o que tem atrás da minha. Mas, o que será que tem na janela ao lado? Passei tanto tempo me afundando no meu mundo que raramente me importei sobre o que estava acontecendo ao redor, desde que não me incomodassem com excessivo barulho.

Rodrigo Meyer – Author

O sol é para todos?

A imagem que ilustra esse texto faz menção ao girassol, uma planta que se tornou símbolo da campanha para alertar sobre a depressão. O simbolismo do girassol na conscientização sobre a depressão faz uma alusão à busca por luz, característica marcante do girassol, adaptada de modo figurativo, embora haja até uma relação literal entre o tratamento da depressão e a exposição do indivíduo aos raios solares.

Segundo dados da OMS, 322 Milhões de pessoas no mundo sofrem com depressão, seguido de um alerta sobre o aumento progressivo de casos no planeta. No Brasil esses dados são de, pelo menos, 11,5 Milhões de pessoas na depressão, além de 18,6 Milhões de pessoas em distúrbios relacionados à ansiedade. Esses números já são imensos e é fácil prever que eles provavelmente são muito maiores, já que a coleta de dados é difícil pela própria circunstância da doença.

Dados do Ministério da Saúde do Brasil, do final de Maio de 2019, demonstraram um aumento de 12% no risco de suicídio na população jovem negra, enquanto o índice se manteve estável entre brancos. O índice de suicídio entre adolescentes e jovens negros é 45% maior do que entre brancos, reforçando a condição social e psicológica a que essas pessoas são submetidas na cultura estruturalmente racista do Brasil.

De volta aos dados da OMS (Organização Mundial da Saúde), em 2019 estipulou-se que a cada 40 segundos ocorre um suicídio no mundo. A cada parágrafo que você está lendo, uma pessoa está se matando. Não há como achar isso banal ou pouco e é inevitável perceber que é sintomático de uma realidade que adoenta massivamente as pessoas, por diversos contextos e gatilhos. O suicídio, embora muito associado à pessoas com depressão, nem sempre é fruto dessa condição. Um número muito maior é o de pessoas com distúrbios de ansiedade, sendo que ao redor desses dois cenários há incontáveis situações menos conhecidas que também podem gerar um desfecho em suicídio, como, por exemplo, uma tentativa de se livrar de uma doença incômoda ou mesmo da dificuldade em aceitar uma realidade injusta imposta.

O suicídio pode ser visualizado em situações diversas como no desemprego, na doença, na solidão (em especial os idosos), em vítimas de abuso sexual, em cenários de guerra, em crises políticas e na perda de esperança diante do avanço desregrado das condições de vida. De forma resumida, o suicídio acaba sendo como a busca de solução para questões que aparentemente estão inaceitáveis. Quando o mundo não vale mais a pena, a vida começa a ser questionada. E quando viver não traz mais prazer, a dor se acumula até que não se aguente mais senti-la. Morrer, para muitas pessoas, é o encerramento de um sofrimento ou de uma condição indigna. Para muitos outros, o tema ainda é um enorme tabu, motivo pelo qual muitas pessoas sofrem, de certa forma conformadas, como quem tenta desviar da morte por não achá-la aceitável. Em todo caso, cedendo ou não à morte, é fato que grande parte das pessoas está remoendo problemas e dores. É difícil saber quanto tempo as pessoas aceitam ou aguentam sofrer, já que para cada pessoa o peso dos problemas e sua resistência são combinações que variam imensamente.

Nos Estados Unidos a taxa de suicídio bate recorde já em 2017, chegando ao maior patamar desde a Segunda Guerra. Enquanto em 1999 os dados mostravam que a cada 100 pessoas, 10,5 se matavam, em 2017 esse número sobe pra 14 suicídios a cada 100 pessoas.

De forma geral, as taxas de suicídio caíram na maior parte do mundo, porém o Brasil, sem surpreender, teve aumento ao invés de redução, conforme notícia de Abril de 2019. Além disso foi estimado que, depois dos 13 anos, meninos tem 3 vezes mais chance de cometer suicídio do que meninas. Apesar dessa tendência, há por trás desses dados o fato de que mulheres fazem muito mais tentativas de suicídio, porém atingindo menos êxito que os homens, em razão do modo mais agressivo e letal que os suicídios masculinos são tentados, incluindo enforcamento e arma de fogo, por exemplo. Para as mulheres as maneiras mais comuns de suicídio incluem pesticidas, drogas e saltos de lugares altos.

Observa-se que suicidas masculinos são mais impulsivos e agressivos, geralmente, enquanto suicidas femininos costumam buscar ajuda mais cedo e com mais frequência.

Esses são dados críticos de uma sociedade que não parece estar caminhando minimamente onde se espera. Por mais que o mundo sempre tivesse problemas, a proporção de tragédias sociais e políticas acumulando ao longo da História acaba por somar uma percepção triste e desesperançosa pelos rumos da vida da humanidade em geral. Dados apontam que crises econômicas e políticas possuem influência no aumento de suicídios, assim como as políticas que facilitam o acesso à armas de fogo. No Brasil, conforme dados destacados anteriormente, as taxas de suicídio seguem aumentando, contrariando uma tendência de muitos outros países. Isso se dá por inúmeros fatores, em especial o contraste da realidade dessas populações e os rumos políticos desastrosos. Tal problema pode ser medido por notícias como a do suicídio do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que foi denunciado sem provas por um crime que não cometeu, cercado de arbitrariedades e teatralismos patéticos de um desgoverno corrupto que tomou o Brasil de assalto, promovendo guerra à universidades, professores e alunos, combatendo Ciência, Cultura e a dignidade humana com discursos ultrajantes, perseguições políticas, muito ódio e nenhuma aceitação social. Diante de tal miséria política e humana, é compreensível o aumento do suicídio no Brasil.

Há muito que pode e precisa ser feito em apoio à essas situação, porém quero alertar as pessoas que lidam pessoalmente com a depressão ou que possuem amigos ou parentes nesse contexto que jamais, em hipótese alguma, entrem em contato com canais de comunicação como o CVV – Centro de Valorização da Vida, que, infelizmente, figura como uma péssima opção de atendimento, tendo relatos desastrosos por parte do público “atendido”, incluindo assédio, abusos, negligência, deboche, descaso, colocando em risco a vida de pessoas em situação de emergência. São inúmeros os casos relatados de suicidas que tentaram contato com o CVV e tiveram de ouvir o telefone ser colocado de volta ao gancho. Esse tipo de conduta é totalmente inaceitável, imprudente e eu diria até que é criminosa, uma vez que trata-se de um canal exclusivo para lidar com pessoas que estão sensibilizadas por depressão ou ansiedade e quem possuem grande probabilidade de cometer suicídio. Colocar uma pessoa que é avessa à causa, que não se interessa de fato pela vida das pessoas que são atendidas é o mesmo que condenar diversas dessas pessoas à um suicídio que poderia ter sido evitado se fosse lidado de maneira ética, lícita e humana.

Setembro é o mês de conscientização sobre as questões da depressão, cuja campanha é nomeada de ‘Setembro Amarelo’. Mas, não consigo, infelizmente, recomendar esse termo, simplesmente porque é uma iniciativa atrelada ao CVV. Outro ponto que pesa nesse sentido é o fato de que a ferramenta de prevenção ao suicídio oferecida pela rede social Facebook consiste basicamente em instruções que direcionam o usuário para uma tela final de contato para o CVV, o que é lamentável. Ninguém precisa passar pela roleta russa de contactar uma instituição que se intitula como Centro de Valorização da Vida e que, na prática, não valoriza a vida de seus atendidos, muitas vezes sendo a própria razão de suicídios ou uma contribuição fatal como a “gota d’água” para pessoas que estão em situação de desespero e recorrem ao contato do CVV como um último esforço de sobrevivência. Em todo e qualquer lugar que eu for eu seguirei não recomendando e alertando as pessoas para igualmente não recomendarem isso em hipótese alguma. Sendo o CVV uma organização não governamental (ONG), é preocupante saber que estão se valendo de voluntários para um desserviço tão grande em um tema tão importante. É sinistro imaginar qual seria a intenção de voluntários que se aliam ao CVV e que, na prática, figuram como causa de suicídios. Seria algum incentivo financeiro a razão por trás desse nicho? Em um país onde a depressão só cresce, seria possível imaginar pessoas tentando se valer da popularidade do tema e das vítimas da depressão e ansiedade para angariarem algum recurso financeiro ou vantagem. E se imaginarmos que o motivo não é financeiro, torna-se ainda mais sinistro, deixando margem pra interpretarmos que seja o puro sadismo em ver gente sofrer e morrer. Precisamos ficar atentos e desviar daquilo que não se presta como uma ajuda sincera.

Do outro lado, bem longe dessa catástrofe, deixo recomendações universais para lidar com a depressão:

A exposição do corpo ao sol é uma recomendação médica e psiquiátrica recorrente e básica, em razão do efeito que gera no organismo pela proliferação de Vitamina D, um componente conhecido no trato da depressão. Além disso, é preciso buscar apoio entre as pessoas de sua confiança, sejam amigos, parceiros, familiares, professores, colegas de trabalho, etc. Também é importante buscar a ajuda de um profissional da área médica, seja ele um clínico geral, um psiquiatra ou até mesmo profissionais do campo da Psicologia ou terapeutas. É preciso lidar com o problema e caso não sinta disposição pra buscar essas ajudas sozinho, é importante aceitar a ajuda externa de quem possa te encaminhar, acompanhar e incentivar você nessas ações.

Outros pontos que são básicos no assunto é a mudança de rotina e a atividade física. Embora pareça apenas simbólico para alguns, a atividade física dispara diversas químicas no organismo que são responsáveis pela sensação de prazer. Isso ajuda muito a colocar o indivíduo em uma condição favorável pra que ele consiga concretizar outros passos para sua recuperação. Em alguns casos o psiquiatra poderá recomendar medicações que deverão ser seguidas respeitando as doses e os prazos e, caso ache necessário, solicite uma revisão do seu medicamento junto ao profissional, para que, eventualmente, haja uma mudança da composição, da dose ou da frequência. Em alguns casos a suspensão do medicamento poderá ser recomendada ou aceita pelo profissional, mas é importante que o indivíduo não tente fazer automedicação.

Para pessoas que fazem uso de álcool ou outras drogas, é importante dividir essa realidade e personalizar o atendimento, o diagnóstico e o tratamento, fugindo de medidas como os fraudulentos centros de recuperação de dependentes químicos mantidos por quadrilhas que exploram a família dos dependentes colocando os pacientes em situações degradantes, trabalho escravo, violência física e psicológica, transformando os espaços em verdadeiras prisões de sadismo e enriquecimento ilícito.

À parte de todas essas decisões práticas de tratamento, procure preencher sua vida com objetivos e ideais para mover-se em direção à algo que você considere um parâmetro, um destino idealizado ou melhor, tal como o girassol que se move para acompanhar e absorver a luz do sol. Encontre algo a que se apegar que lhe seja positivo e viável. De repente isso pode ser o aprendizado de um instrumento musical, cantar músicas, escrever, desenhar, caminhar, contemplar a natureza, adotar um animal para companhia, visitar pessoas necessitadas para que você possa ser útil à elas, aprender um novo assunto ou se encorajar a tornar-se melhor em algo por meio de um hobby, profissão ou desafio. Faça algo que lhe instigue a perseguir um momento à frente, um ideal, e isso te manterá ativo. Quanto mais ativo você estiver, mais fácil será de conquistar espaços e descobrir novos contextos pra sua vida.

Se você é naturalmente uma pessoa solitária e que, nem por isso, sofre de solidão, tudo bem permanecer em seu mundo, assim como também será bom quando decidir cortar esse padrão ir ir buscar socialização. Se você é uma pessoa que normalmente prefere a companhia, procure equilibrar isso, filtrando bons momentos e lugares que possam somar na sua vida e te trazer memórias boas dali pra frente. Sorrir diante das coisas, seja do silêncio ou de um show de música, pode ser uma ponte para outros grandes passos. Eu não tenho as respostas para as questões da depressão e ansiedade e, até onde sei, nada disso tem cura. Todo tratamento vinculado a esses contextos é algo que deve ser feito com a certeza de que não há garantias de que as coisas não possam decair ou de que você não volte a ter crises e intervalos até maiores de depressão ou ansiedade. Infelizmente, sabe-se que uma vez que se tenha tido depressão, você corre o risco de ter recaídas. Não se pode prever quando e quão intensas elas ocorrerão, mas você poderá aproveitar tudo que sabe sobre o assunto pra desviar delas e buscar ajuda pra tentar se reerguer. Eu espero que todos os meus outros conteúdos possam contribuir de alguma forma para apontar ideias e mudanças e que você possa resolver e superar seus problemas, seja lá quais forem.

Rodrigo Meyer – Author

Crônica | Emergência médica.

Um imprevisto e lá estava eu. Não tive escolha. E, talvez, não poder escolher seja o pior de tudo. Logo nos primeiros dias o corpo se desintoxicou. Me senti renovado. Ainda que estivesse cheio de incômodos, dores e tédio, ainda era melhor. Em dado momento acordo e me sinto visita no lugar, como se eu fosse o estranho. Não deixa de ser verdade.

A televisão ligada em um pseudo-telejornal. Ela estava sentada assistindo e eu aproveitei o momento pra ver como estava indo. Me fiz de idiota e lhe perguntei algo que eu já sabia detalhe por detalhe. Veio uma resposta hipócrita, cheia de preconceitos e ódio. Vi que nada havia mudado, apesar de tantos anos passados. Não havia esperança alí. Deixei o assunto se encerrar, pra evitar socializar. Fui buscar o que fazer. Alternava entre dormir, comer, ler e matar tempo no smartphone. Tudo ia meio devagar pro meu gosto, mas ao menos havia silêncio.

Mas isso não durou muito. Logo veio à tona a essência de tudo que eu me afastei anos atrás, por não suportar o acúmulo em uma vida inteira. No cômodo ao lado, discutiam asneiras, como se fosse a coisa mais urgente do mundo. Gastavam vinte, trinta minutos inventando motivos pra estarem alí, falando, falando, falando, mesmo que não estivessem dizendo nada. Era como se eu fosse o doente, mas elas que estivessem com o intestino no lugar da boca. Me saturei. Um gatilho instantâneo foi ativado na minha mente e eu me senti no inferno. Escolhi ir embora mesmo sem forças, sem nem comer. Às vezes andar pra trás é melhor que andar pra direção do abismo. Eu voltei pra casa e agradeci por estar sozinho, mesmo sabendo que poderia não aguentar. Não tenho medo da morte, mas sim de ter que aturar esse mundo por muito tempo.

Rodrigo Meyer

Crônica | O dia que não nasceu.

Hoje eu não trabalhei, não aguardei pela hora do almoço, não botei o prato em cima da mesa, não entornei o copo de bebida, não sorri. Hoje eu não lavei roupa, não arrumei a casa, não movi nada de lugar, não troquei de roupa, não me olhei no espelho, nem cozinhei. Hoje eu não tomei sol, não andei na rua, não peguei fila, não paguei contas, não socializei. Hoje eu não fiz nada além de acordar, sentir tontura e sentar. Sentei, fiz o meu melhor, resisti mais tempo e me coloquei a dormir novamente, guardando forças pra um momento mais oportuno. Hoje o dia não nasceu e nem sei se deixei alguma semente pra que amanhã nasça. Quem sabe do meu histórico recente, sabe das minhas prioridades. Ninguém se importa. Todos hipócritas. Ao menor sinal de um dedo apontado evidenciando suas hipocrisias, se doem, se armam contra. Adoram dizer que apoiam causas humanas, exceto se precisar fazer algo. O rótulo é mais fácil de carregar e ainda dá um belo status diante da sociedade idiotizada que vive de aparências e mentiras. Se hoje o dia não nasceu, a maior parte da culpa é da sociedade que já tá morta. Acreditam estar vivos, afinal, andam, compram e falam. Apenas não pensam, porque isso revela o lado amargo da realidade. Covardes.

Rodrigo Meyer