Crônica | Emergência médica.

Um imprevisto e lá estava eu. Não tive escolha. E, talvez, não poder escolher seja o pior de tudo. Logo nos primeiros dias o corpo se desintoxicou. Me senti renovado. Ainda que estivesse cheio de incômodos, dores e tédio, ainda era melhor. Em dado momento acordo e me sinto visita no lugar, como se eu fosse o estranho. Não deixa de ser verdade.

A televisão ligada em um pseudo-telejornal. Ela estava sentada assistindo e eu aproveitei o momento pra ver como estava indo. Me fiz de idiota e lhe perguntei algo que eu já sabia detalhe por detalhe. Veio uma resposta hipócrita, cheia de preconceitos e ódio. Vi que nada havia mudado, apesar de tantos anos passados. Não havia esperança alí. Deixei o assunto se encerrar, pra evitar socializar. Fui buscar o que fazer. Alternava entre dormir, comer, ler e matar tempo no smartphone. Tudo ia meio devagar pro meu gosto, mas ao menos havia silêncio.

Mas isso não durou muito. Logo veio à tona a essência de tudo que eu me afastei anos atrás, por não suportar o acúmulo em uma vida inteira. No cômodo ao lado, discutiam asneiras, como se fosse a coisa mais urgente do mundo. Gastavam vinte, trinta minutos inventando motivos pra estarem alí, falando, falando, falando, mesmo que não estivessem dizendo nada. Era como se eu fosse o doente, mas elas que estivessem com o intestino no lugar da boca. Me saturei. Um gatilho instantâneo foi ativado na minha mente e eu me senti no inferno. Escolhi ir embora mesmo sem forças, sem nem comer. Às vezes andar pra trás é melhor que andar pra direção do abismo. Eu voltei pra casa e agradeci por estar sozinho, mesmo sabendo que poderia não aguentar. Não tenho medo da morte, mas sim de ter que aturar esse mundo por muito tempo.

Rodrigo Meyer

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Crônica | O dia que não nasceu.

Hoje eu não trabalhei, não aguardei pela hora do almoço, não botei o prato em cima da mesa, não entornei o copo de bebida, não sorri. Hoje eu não lavei roupa, não arrumei a casa, não movi nada de lugar, não troquei de roupa, não me olhei no espelho, nem cozinhei. Hoje eu não tomei sol, não andei na rua, não peguei fila, não paguei contas, não socializei. Hoje eu não fiz nada além de acordar, sentir tontura e sentar. Sentei, fiz o meu melhor, resisti mais tempo e me coloquei a dormir novamente, guardando forças pra um momento mais oportuno. Hoje o dia não nasceu e nem sei se deixei alguma semente pra que amanhã nasça. Quem sabe do meu histórico recente, sabe das minhas prioridades. Ninguém se importa. Todos hipócritas. Ao menor sinal de um dedo apontado evidenciando suas hipocrisias, se doem, se armam contra. Adoram dizer que apoiam causas humanas, exceto se precisar fazer algo. O rótulo é mais fácil de carregar e ainda dá um belo status diante da sociedade idiotizada que vive de aparências e mentiras. Se hoje o dia não nasceu, a maior parte da culpa é da sociedade que já tá morta. Acreditam estar vivos, afinal, andam, compram e falam. Apenas não pensam, porque isso revela o lado amargo da realidade. Covardes.

Rodrigo Meyer

Crônica | Pensar é crime.

Por quase todo canto que chego, as pessoas querem que eu abdique do cérebro, da reflexão, do questionamento, da verdade, da curiosidade, do raciocínio, da inteligência e do senso crítico. Se incomodam com tudo isso, porque isso evidenciava aquilo que eles mesmos não querem fazer. E não fazem. Se eu estivesse apenas feito um zumbi rindo de uma asneira qualquer, assistindo algum lixo tóxico da televisão ou internet, gastando meu tempo em conversas de elevador, ou gritando aleatoriamente, estaria camuflado entre estes. Mas, escolhi fazer diferente, escolhi, desde cedo, ser eu mesmo, alguém que já tinha esse impulso nato pela curiosidade e, feliz ou infelizmente, uma inteligência acima da média. Não é algo pra se gabar, ainda mais em um mundo onde tal exceção é um fardo para a socialização e aceitação da sociedade precária. Quando temos visão melhor e mais rápida sobre as coisas, não nos contentamos com a maioria das coisas. Depressão? Claro, veio como um tiro, desde criança. Mas, se eu pudesse escolher estar na média? Não sei. Dizem que os idiotas são mais felizes, justamente porque não veem problema em nada e se contentam com pouco. Mas será que valeria a pena atravancar as possibilidades de progresso e satisfação pessoal, só pra ter essa ilusão de felicidade? Reflexões! Reflexões que só são possíveis justamente porque estou onde estou, sou quem sou e faço o que faço. Eu gosto mesmo é de pensar. Sou contemplador e explorador da vida, no sentido mais aventureiro, nessa trilha de mistérios que é o Universo. Cada vez que eu penso, evidencio um não-pensante, mesmo sem querer. Aquilo que eles não entendem (ou não querem tentar entender), soa como errado, soberba, rispidez, insistência. Durante minha vida toda, simplesmente por escrever, muitos achavam que eu queria ser mais do que era. O que eu sei é que eles queriam ser menos do que poderiam ser. E foram. E todos os lados perdem com isso.

Rodrigo Meyer

Crônica | Levantei. E agora?

Levantei e sentei a beira da cama. Um dia um tanto repetitivo, depois de tantas tentativas. Na mesa, o teclado com teclas emperradas fazia companhia pro mouse que já não respondia bem aos cliques. O fone de ouvido abafa o som da imbecilidade ao redor, mas não o suficiente pra que eu não note e não me irrite. Para os idiotas, todo espaço é deles, principalmente se for pra regredir na vida. Eu que escolhi trabalhar, tento sobreviver. Se não há trabalho remunerado, trabalho do mesmo jeito, porque o mundo não para e ser útil é minha obrigação. Hoje eu escrevi, atendi clientes, denunciei, comentei o que somava e compartilhei com o mundo alguns fatos relevantes. O mundo, em média, pode estar seguindo adormecido, entorpecido por suas crises de adolescente sobre assuntos que eu nem sabia que existiam. Qual será o novo drama de quem passou a vida dentro de uma bolha rosa, do tipo que fica indignado quando encontra um grão de areia dentro do seu carro de luxo? Para os patéticos, querer é poder. Só se esquecem que a maioria quer e não pode. Queria comer, queria não me deparar com pessoas fúteis, queria trabalhar, queria me ver livre do risco constante de voltar a ter depressão, queria ter família, queria não ter nascido, queria outro planeta, queria ter 1% do dinheiro que os fúteis da classe alta gastam pra arrotar racismo na mesa de Domingo. Pegaria essa fração e construiria o que todos eles somados e multiplicados nunca teriam sequer na imaginação. Hoje eu levantei, mas não queria. Todo dia eu levanto, apenas porque sei que ainda tenho algo pra deixar nessa vida.

Rodrigo Meyer

Crônica | Fugindo da seca.

Deitei e tentei dormir. Difícil foi encontrar uma forma de me acomodar. Nenhuma posição oferecia conforto razoável pra poder me desligar do mundo e ir pros braços de Morpheus. Passei a noite virando de um lado pro outro tentando burlar a dor no corpo. Controlar a mente era minha única saída. O corpo adoecia. Acordei inúmeras vezes e achei que era sorte por me livrar de sonhos tão enojantes. Da última vez, decidi levantar, bebi mais água, sentei na cadeira e tentei respirar com profundidade. Muitos rostos apareceram no mural de culpados dentro da minha memória. Eu sei da minha história tão bem quanto dos que sempre tentaram me sabotar. Sei, sobretudo, que a fraqueza do inimigo está naquilo que ele não pode enxergar. Tentei suportar uma ou duas horas diante do computador, mas prevaleceu a dor. Abri as janelas pra entrar um pouco de novidade. Deitei e voltei pro mundo dos sonhos, contando os dias para o fim do mês. Logo mais, se tudo correr bem, eu não estarei mais por aqui. Que fiquem os carniceiros disputando ódio, mesquinharia e podridão. Eu estarei praticamente viajando, para aquele lugar que pouca gente conhece, quase nunca falam e surtam de medo de um dia chegar perto. A mente dessas pessoas é puro deserto. Sobra areia, nada floresce. Essa gente não cresce.

Rodrigo Meyer

Quem parou de rir, parou de ir.

Quem já foi afetado pela doença da depressão ou conhece alguém que esteve ou está em similar situação, sabe como isso interfere drasticamente nos progressos gerais desse indivíduo. Pessoas com imenso potencial acabam subaproveitadas quando a depressão lhes toca, afinal ninguém consegue se engajar tanto nas atividades, se não sente prazer pela vida. Em situações mais brandas que a depressão (embora até ela tenha nuances), as pessoas podem estar com distimia, que é um transtorno depressivo com sintomas menos severos que a depressão em si, porém mais duradouro. De qualquer forma, seja lá qual for o momento, intensidade e duração com que deixamos de rir sinceramente na vida, estamos parando de caminhar.

Quando uma pessoa tem depressão por muitos anos, pode acabar criando uma imagem mental de si mesma completamente distorcida, por associar o histórico de vida com sua personalidade ou realidade nata. Entender a diferença entre o estado depressivo e o modo “normal” de ser, é uma tarefa difícil, principalmente se você praticamente não teve bons momentos desde a infância. A ausência de parâmetros de felicidade por longos períodos pode interferir na compreensão desse estado ou realidade, em termos de comparação com o estado depressivo. Embora as pessoas saibam que estão tristes, desmotivadas e sendo sugadas pela própria depressão, a felicidade e o prazer parecem coisas impossíveis de se conseguir ou até mesmo abstratas demais pra serem concebidas. Mas é importante lembrar que essa percepção de pouca ou nenhuma esperança é tão somente uma distorção gerada pela própria depressão. Indivíduos deprimidos, possuem uma alteração cerebral sobre o sistema químico, bloqueando ou não aproveitando as químicas que estão direta e naturalmente relacionadas a sensação de prazer. A grosso modo, seria como dizer que o sujeito está imune a felicidade, independente das coisas que acontecem ao redor.

Mas, esse não é um texto apenas sobre depressão. É muito mais abrangente que isso. A grande realidade que precisamos ver aqui é que, por qualquer que seja o motivo, se tivermos um modelo de vida e pensamento que nos priva do riso, estamos ativando outros fracassos na vida. Dizem que sorrir abre portas e que rir é uma das conexões mais intensas que o ser humano consegue traçar socialmente. Temos esse hábito social em comum com os macacos e alguns estudos mostram que algumas outras espécies de animais fazem proveito consciente de certas substâncias, para fins recreativos, assim que entendem a relação entre prazer e consumo. É também visto em algumas espécies, algo que, antes, achava-se ser algo exclusivo dos humanos: a realização do sexo por prazer e não só por instinto de reprodução.

De forma geral, pra todos os seres, sentir prazer pela vida é basicamente a mesma coisa que aproveitar o potencial de si mesmos e da própria vida, seja lá o que ela seja. Uma vez que não sabemos ao certo o que fazemos e quais propósitos realmente temos nessa existência misteriosa, tudo que temos de garantia são nossos sentidos e percepções da realidade. Nossa presença social e também como indivíduos cobra de nós que estejamos mais do que em harmonia, cobra de nós que estejamos felizes o suficiente pra fazer valer os momentos vividos. Embora muita gente tenha tido uma vida longeva em estados menos entusiasmados, é fato que, na média, a tendência é que as pessoas com pouco prazer pela vida levem um estilo de vida mais destrutivo, menos saudável, com diversas somatizações. Quando a mente não vai bem, muito disso se transforma em implicações no corpo físico. Especula-se, por exemplo, que doenças como o câncer estão intimamente relacionadas com outros quadros e experiências, entre eles, as emoções contidas. Pessoas que estão amarguradas ou insatisfeitas por muito tempo, podem acabar somatizando esses e outros dramas em um câncer, devido ao desequilíbrio do sistema imunológico.

O lado bom da vida se expressa pelas coisas que nos dá diversão, felicidade, prazer e motivação em continuar a ser e fazer, especialmente quando permite que outros indivíduos ao redor experimentem esse contexto, tal como se todos estivessem compartilhando de uma mesma festa. Pessoas felizes constroem sociedades com grande interesse de preservar e fomentar felicidade. Através da empatia podemos dividir com outras pessoas as alegrias e dramas. As emoções humanas são possíveis de serem compreendidas e replicadas, em certo sentido, para que outra pessoa sinta aquilo. Essa conexão que temos configura um padrão natural e sadio, pois isso promove o bem-estar nas relações humanas e deixa as portas abertas para que os indivíduos possam exercer suas vidas com satisfação, liberdade e desejo em viver mais. Quando essa conexão não existe ou é altamente corrompida, as pessoas começam a não se importar umas com as outras, gerando um ambiente de desprezo, infelicidade, ódio, violência e pouco ou nenhum respeito e/ou valorização pelas demais pessoas.

Um padrão de vida que externaliza hábitos nocivos pra si e pros outros, invariavelmente, reforça um desequilíbrio que nasceu internamente no indivíduo, devido a inúmeras possíveis origens, inclusive, diversas delas, externas. Sociedades que oprimem, por exemplo, plantam a própria ruína, uma vez que geram pessoas insatisfeitas, infelizes e reativas a opressão. A receita garantida de aumentar problemas, ao invés de solucionar. A ausência do riso ou da felicidade, está intimamente ligada ao fracasso das expressões humanas, afinal realizamos tudo em dependência da motivação da própria vida. Precisamos ver sentido ou ter imenso prazer, ou perdemos a disposição ou interesse de desenvolver ou participar de algo. É assim que a vida deixa de ser uma opção interessante quando somos afetados pela depressão e, exatamente por isso, muitos depressivos podem vir a se tornar suicidas.

Embora pareça óbvio, ainda estamos em tempos em que obviedades precisam ser ditas. Então fica a mensagem de que ser feliz e estar em paz é melhor do que estar infeliz e incomodado. Mesmo que as pessoas digam que querem uma boa vida pra elas mesmas, elas se esquecem de que em nenhum momento conseguirão isso através da violência, da corrupção, da guerra, da opressão, do preconceito, da desconfiança, da perda de qualidade, da má educação e da valorização de arquétipos destrutivos. Enquanto as pessoas estiverem enaltecendo pessoas, instituições ou ideias que reduzem o ser humano em seu potencial de felicidade e bem-estar geral, estarão freando a própria sociedade e a si mesmas, impedindo que desfrutem de um ambiente favorável. O nome disso é “atirar no próprio pé e se queixar da dor.”.

Aquele que não é capaz de entender que é parte inseparável da equação, não conseguirá perceber que seu estado doentio é parte do que bloqueia e impede a sociedade de ser plena e satisfatória. Assim como o desequilíbrio nas químicas afeta o cérebro do deprimido, indivíduos desequilibrados em certos aspectos sociais afetam a sociedade. Partes adoentadas ou danificadas não cumprem a mesma função em uma máquina, seja ela um cérebro, um motor ou uma sociedade. Se não estamos rindo e expressando prazer, estamos sofrendo e estagnando, tanto individualmente quando coletivamente.

O próprio sentido de família e amizade, embora abstratos, explica como e porquê o ser humano depende de bons momentos pra conseguir existir coletivamente e ver sentido em si mesmo como peça dessa engrenagem maior. No fundo, tudo o que o ser humano são deseja é estar bem e compartilhar o bem. Qualquer desvio dessa premissa, confere, por vários motivos, patologias psicológicas ou psiquiátricas que devem ser devidamente cuidadas para não transbordar impactos e prejuízos aos demais indivíduos. Em teoria, as sociedades já fazem esse controle, ao estabelecer vigília, tratamento ou detenção a sociopatas ou a indivíduos que, de alguma forma, estão inaptos a viver em sociedade. Porém, bem longe do ideal, a realidade prática é que, ao invés das pessoas inadequadas e perigosas estarem controladas, elas figuram entre os cargos de maior relevância e impacto na sociedade. Não deveria ser surpresa nenhuma de que há uma lista interminável de criminosos de todo tipo, na política, na polícia, no comando de corporações, em pseudo instituições religiosas, etc. E é exatamente por estarem livres pra agir, que deixam esse legado tóxico ao mundo, em tudo e todos que tocam. Não é, portanto, exagero classificar esse tipo de membro da sociedade como um câncer que afeta as células sadias e destrói a saúde geral do organismo ou sociedade.

Sempre ouvimos a expressão “rir é o melhor remédio.” e de fato é. Se pudéssemos escolher clicar em um botão e mudarmos automaticamente para um padrão de felicidade, certamente faríamos. Ninguém gosta de sofrer. E se ninguém é feliz sofrendo, isso inclui não só o próprio indivíduo, como todos os demais. Ser racional e fazer uso da lógica a favor do próprio bem-estar emocional, físico e social é lutar extensamente para que nosso ambiente ao redor seja melhor, mais feliz, mais livre, com mais riso e menos dor. Trabalhos conscientes nesse sentido, incluem desde cidadãos comuns que escolhem um jeito de viver e de se expressar mais positivo, até indivíduos que entram pra alguma causa ou ação social que visa amenizar o sofrimento e suscitar mudanças de ação e de pensamento. Iniciativas como os ‘Doutores da Alegria’, que visitam pacientes em hospitais, vestidos de médicos-palhaços, ajudam os enfermos a se reposicionarem diante da própria situação e terem mais disposição de enfrentar seus dilemas. Estar doente é um contexto duro de se experimentar e sob isolamento ou pouco prazer, pode tornar-se um fator crucial na piora do quadro clínico.

Outras ações, como as que ocorrem em algumas ONGs ou iniciativas avulsas de assistência social, podem ser gratificantes a quem tenha visão sobre a teia que somos, mas também pode impactar bastante, uma vez que plantar a ajuda quase sempre implica em absorver a dor alheia por conta da empatia e do convívio contínuo em ambientes e contextos de sofrimento, guerra, doença, abandono social, etc. São frequentes as notícias de depressão entre psicólogos, médicos, psiquiatras, professores e ativistas sociais. Muitas vezes a mudança é tão gradual ou camuflada pela própria atividade, que eles não se dão conta do desfecho drástico a que estão submetidos quando afetados emocionalmente e psicologicamente por aquele ambiente. Por razão similar, estudantes de Psicologia, por exemplo, precisam ter alta antes de serem liberados para exercer a profissão. Embora seja altamente necessário e sensato tal filtro, na prática isso é feito de forma simbólica, distribuindo no mercado uma multidão de profissionais sem uma verdadeira alta de seus quadros psicológicos, sendo um terrível risco a saúde psicológica dos pacientes e, portanto, da sociedade em si. Pelo simples motivo de que você não colocaria um estuprador para atender pacientes que foram vítimas de estupro, você não colocaria certos formandos para clinicarem na área da Psicologia.

Assim, todos os dilemas que temos em nossa sociedade são mero reflexo das conturbações de cenários menores, como os países e suas gestões, as cidades e suas realidades, as condições de um bairro, o círculo de amigos, o ambiente de trabalho, a composição familiar, os relacionamentos ditos “amorosos” e, por fim, o universo interno do próprio indivíduo. Não se pode analisar a felicidade do mundo, sem antes, pensar extensivamente na felicidade do próprio indivíduo. Sociedades que ignoram o problema das peças, jamais poderão manter a totalidade da máquina estável. Simples assim.

Apesar de estar escrevendo com certa frequência, o que pra mim é relativamente fácil e interessante, por vezes eu não me sinto disposto ou apto a fazer o necessário. Enfrentei depressão a vida inteira e ainda não me vi seguramente distante desse malefício a ponto de dizer que não voltará a ocorrer. Neste meio, diz-se que depressão é o tipo de coisa que uma vez que se tenha, nunca mais há garantias de que não poderá recair. Sou o claro exemplo de quem parou de ir, porque parou de rir. Sempre fui uma pessoa com bastante senso de humor, ironizando o mundo com piadas e comentários sarcásticos, mas, apesar disso, estive infeliz, arrastando a doença da depressão por todos esses longos anos.

Deixar de rir, no sentido de não estar feliz por padrão, me impediu de ter momentos além daquelas exceções onde ria estritamente em determinados casos, especialmente com ajuda de fugas e estilos de vida que me deixassem vagando pelo tempo. A infelicidade me impediu de socializar, de estudar, de trabalhar, de lutar pelos meus objetivos e potenciais. A infelicidade deixou marcas indeléveis no meu histórico e também na minha saúde. Ela me tomou tempo, levou meu dinheiro e cavou um buraco de insatisfação onde eu não encontro mais amparo. Talvez seja a depressão tocando a campainha novamente, talvez seja a minha análise realista de que um ambiente tóxico e cada vez pior não pode ser viável pra quem deseja boas coisas nessa vida. Fico em dúvida, pois sempre me lembro dessa frase de Freud que nunca me canso de repetir:

“Antes de se autodiagnosticar com depressão, verifique se não está apenas cercado de idiotas.”

Quem tenta inventar bem-estar onde não tem, colocando princípios ilusórios de valores ou ideologias, está tão somente aumentando a própria cova. Sociedades que visam controlar aspectos superficiais, ignorando a origem dos problemas, estão apenas enxugando gelo. Se as pessoas realmente quisessem se ver livres e felizes, fariam exatamente o oposto do que está sendo feito coletivamente na maioria dos lugares. Ideologias que se preocupam em apagar incêndios locais com gasolina, sempre terão que lidar com incêndios e incêndios cada vez maiores. A estupidez e o egoísmo nunca foram soluções pra coisa alguma. Discordar disso é ser a prova disso. Premissas básicas de pensamento e relações precisam, necessariamente, incluir felicidade e liberdade sinceras. A felicidade falsa, expressa sem sinceridade pode ser muito mais tóxica que a tristeza sincera. Em depressão, por exemplo, eu continuo fazendo o melhor possível por mim e pelos outros. Mas uma pessoa em expressão insincera da felicidade, só está enganando a si mesma e iludindo milhões de outras pessoas de que a vida consiste nessa busca rasa, inútil, superficial e doentia de coisas que, na verdade, não deixam ninguém feliz de fato.

Se alguém parece satisfeito demais em um contexto inóspito, pode estar com Síndrome de Estocolmo, onde nega o sofrimento ou opressão experimentados, em defesa de seu próprio opressor. A opção menos provável é de estar em paz, apesar do caos percebido ao redor, o que, com plena certeza, é o caso de raríssimas pessoas e, portanto, não é algo que deva ser exigido por padrão. Não cobre das pessoas que elas estejam sempre de bom-humor, entusiasmadas, dispostas a trabalhar e lutar pelos objetivos e potenciais pessoais, enquanto elas estão enfrentando uma batalha inominável de sobrevivência a própria dor, a dor do mundo e a desnecessidade de tudo isso. Sempre que alguém tenta justificar os insucessos de uma pessoa deprimida, a colocando como culpada, eu, como deprimido, me sinto, ao menos, motivado em não ser tão cego e ignorante a ponto de achar que a vida de um indivíduo e sua bela e rosa exceção, tem qualquer relação com a realidade fora dessa bolha. Não tem, nunca terá e discordar não vai te fazer mais consistente nessa ausência de raciocínio e lógica.

Hoje eu simplesmente gostaria de rir, mas a tudo que olho, me parece insosso, desnecessário, sem graça, estúpido e doentio. Tal como alerta Freud, sinto como se estivesse cercado de idiotas e, portanto, com ou sem depressão não me veria em um contexto favorável. Existir nessa realidade intragável me obriga a repetir: melhorem!

As pessoas devem tentar ser o tipo de pessoa que elas gostariam de conhecer. Foi exatamente isso que eu fiz a minha vida inteira, exceto pela depressão que é algo ao qual não escolhemos e pouco ou nada controlamos. Se não puder sorrir para o mundo, tente pelo menos ser útil e sincero, sempre pautar suas ideias e ações em princípios de lógica e bem-estar coletivo, senão acabará infeliz do mesmo jeito e ainda será a razão principal da infelicidade dos demais. Acorde ou será acordado, pois bolhas estouradas não voltam a se regenerar. Aprenda a conviver com a realidade fora da bolha e perceberá que a solução interna é também a solução coletiva.

Rodrigo Meyer

É possível preferir piorar?

O ser humano, geralmente, é cheio de contradições, falhas e outros problemas que bloqueiam o progresso dele mesmo. Algo bem comum na sociedade são os indivíduos que escolhem, conscientemente, piorar. Mas será que isso é real? É bem real e te trago exemplos pra poder explicar porque isso ocorre.

Você já deve ter visto inúmeras pessoas que idealizam algo para a vida delas, porém, são levadas a descumprir esse ideal, simplesmente porque é mais cômodo, conveniente, fácil ou momentaneamente mais interessante seguir por um caminho diferente. A pessoa pode estar enfrentando um problema de saúde, por exemplo, mas ao invés de tomar as precauções necessárias pra evitar a piora ou até mesmo para solucionar tal problema, ela pode vir a escolher a perpetuação de hábitos que pioram a saúde dela. Alguns diriam que isso tem relação com a chamada ‘lei do menor esforço’, onde o cérebro se pauta em decisões ou processamentos que sejam mais fáceis de serem cumpridos, seja do ponto de vista da complexidade do raciocínio, seja do ponto de vista físico e prático do dilema. É assim que, por exemplo, é muito mais tentador quebrar uma dieta alimentar para comer o que é mais gostoso, apesar de ser mais calórico e/ou menos saudável, do que se manter firme no objetivo proposto. O mesmo ocorre quando estamos diante da meta de fazer exercícios físicos e somos tentados a simplesmente procrastinar, adiar ou dormir.

Que o ser humano tenta sempre buscar atalhos, isso nós sabemos. Se pudermos fazer sempre o mais fácil, melhor. Porém, nem tudo que é mais fácil entrega os mesmos objetivos e é aí que mora o problema. Aquilo que evitamos de fazer por preguiça ou comodismo, acaba por ser uma autossabotagem. Mesmo que saibamos que estamos escolhendo piorar em algo, podemos ser compelidos a tomar essa decisão, simplesmente porque sabemos que a mudança positiva que queríamos requer ação, iniciativa e engajamento. Por essa simples razão, muita gente se vê desistindo de suas metas, pois acaba ficando desmotivado ou acomodado.

Quando a autoestima de um indivíduo está afetada por alguma situação prévia, como um trauma, um complexo, uma depressão, um evento marcante ou algum desvio psicológico que interfere na correta percepção de si mesmo, acaba sendo bastante provável que as decisões tomadas sobre melhora, terminem sendo focadas na piora, já que esse quadro específico deixa as pessoas desmotivadas ou acomodadas. Você já deve ter visto, por exemplo, uma pessoa enfrentando a doença da depressão, tendo que tentar controlar outros setores da sua vida, mas acabar em uma rotina que parece acobertar o estilo de vida depressivo, por assim dizer. Embora não seja uma regra, muitas pessoas em depressão podem ter a decisão do isolamento, da desistência da escola ou de cursos e até mesmo do trabalho em alguns casos. Ainda que essas pessoas desejem bem-estar pra si mesmas, a doença da depressão muda substancialmente a motivação e a percepção de valor e prazer nas coisas, de forma que ela acaba, por esses motivos, provavelmente escolhendo itens de piora pra seu estilo de vida. Alguns passam a beber mais, outros enveredam por outros tipos de droga e alguns outros lidam com essa dor através do consumo exagerado de comida ou mesmo da supressão drástica de alimentação.

Claro que, para casos como este de depressão e transtornos psicológicos mais específicos, os indivíduos afetados praticamente não possuem controle de decisão, afinal tudo acontece de forma tão intensa, automática e encadeada, que os efeitos colaterais de seu problema inicial se tornam praticamente indissociáveis do problema em si. Mas, para outros tipos de indivíduos, fora desses quadros, a escolha em piorar pode ser o reflexo simples do comodismo. Feitas essas distinções importantes, é preciso erguer uma bandeira de responsabilidade e de incentivo para as melhores opções de comportamento e pensamento. Uma vez que sabemos que algo pode nos tornar melhores, temos que compreender se estamos seguros e com autoestima suficiente para seguir esse caminho. É hora de nos cobrarmos com mais seriedade, pra não cairmos naquele repetitivo ‘meme’ nas transições de ano, onde muita gente brinca com a ideia de que fez dezenas de planos no ano passado, mas que não cumpriu nenhum e repassará os planos para o ano seguinte. De maneira semelhante quando adiamos uma dieta para a próxima semana ou mês que vem, muita coisa em nossa vida é deixada de lado, simplesmente porque não é tão fácil como gostaríamos que fosse. Estou ciente de que não é nada fácil ter motivação, especialmente quando nossas vidas são uma sequência de pressões, cobranças, problemas e insucessos acumulados. Estamos tão cercados de dramas em outros setores e momentos que, sempre que tentamos fazer uma decisão mais útil, ficamos tão instáveis que é fácil tombar para o erro ou desistir da ação.

Em todos os momentos que eu tive que permanecer de pé, enfrentando depressão, preconceitos, pressão familiar, pressão social, me vi tropeçando e desistindo. Isso alimentou ainda mais esses cenários tóxicos ao redor e virou uma bola-de-neve de problemas. Encontrar motivação pra ser quem eu queria ser e fazer o que eu realmente queria fazer, me custou muitos anos de transmutação. Essa alquimia interna a qual pouca gente fala e que é tão essencial a todo e qualquer ser, é que vai permitir que ativemos em nós os gatilhos para a motivação nas atividades ou objetivos. Desde algum tempo, sempre que algo se torna ruim demais na minha vida, eu me sinto desafiado a reverter aquilo a meu favor. É como se eu olhasse pra trás e soubesse que o que mais me estragou foi eu ter aceitado entrar nesse círculo vicioso de desmotivação e inação, cada vez que surgia uma barreira. Nem sempre teremos como escolher o que fazer de nossas vidas, especialmente se estivermos enfrentando contextos específicos como a doença da depressão, mas, devemos sempre procurar por opções em cada cenário e ver o que conseguimos fazer de melhor por nós mesmos. Não tenho todas as chaves e respostas para uma vida sem problemas. Este, certamente não sou eu. Mas tenho respostas claras e diretas sobre quem eu sou, como o mundo está e quais os erros mais clássicos que a maioria de nós já fez, faz ou continuará a fazer por um bom tempo. Se pudermos, pelo menos, refletir e decidir algo sobre esses aspectos, já seremos pessoas muito melhores que as da geração anterior. Negligenciar as pequenas mudanças, apenas porque não podemos ser perfeitos, é o mesmíssimo problema daqueles que escolhem piorar, por acharem que o caminho da mudança requer ação ao invés do comodismo. Fazer a diferença, conforme mostra a própria História da Humanidade, começa em pequenas iniciativas sinceras, que acabam por crescer em um efeito bola-de-neve.

Em conclusão, faça o seu melhor hoje, seja lá qual for este melhor possível ao momento e isso já será um passo valioso pra que amanhã ou daqui alguns meses e anos, você consiga passos muito mais estáveis, confiantes e ousados. Não vim lhe prometer o paraíso, mas você pode viver melhor do que antes, se tomar essa decisão a seu favor.

Rodrigo Meyer