Perdemos o que abandonamos.

A imagem que ilustra esse texto é parte de uma fotografia de 2007, de autoria de Majorly, da ruína da prisão de Birkenau / Auschwitz, na Polônia.

Muitas das coisas na vida são baseadas num sistema de reciprocidade. É natural e automático que as pessoas queiram benefícios pra suas vidas, porém quando elas deixam de fazer o necessário em troca, elas acabam percebendo o distanciamento, o insucesso, etc. Um exemplo fácil é quando uma pessoa leva uma vida de pouco uso do cérebro e incorre em uma velhice com sinais de esclerose, demência, Mal de Alzheimer, entre outros. Médicos recomendam que as pessoas levem uma vida intelectual mais ativa para assegurar que futuramente não estejam nesses cenários citados. É claro que não é apenas a falta do exercício mental que leva pra esses desfechos. As doenças podem ter inúmeros fatores e boa parte é influenciada pela genética em tom de predisposição. Mas, em paralelo à isto, ocorre o chamado ‘fator ambiental’, que é só um nome bonito pra dizer que contextos, substâncias e ocorrências ao longo do crescimento da pessoa em sociedade (ou fora dela), podem funcionar como gatilhos que impulsionam ou ativam as doenças e características do corpo e da mente vindas da predisposição genética ou geradas de forma isolada ao longo da vida.

Se observarmos com um mínimo de atenção, logo vemos que isso se estende para inúmeros outros setores da vida. As amizades, por exemplo, se não cultivamos e não damos o devido valor, com o tempo deixam de existir. Aqueles números massivos de pessoas que os usuários nutrem nas redes sociais ou até mesmo “pessoalmente”, acabam se tornando só mais um número, se não houver um contato real, profundo e constante. A interação humana ganha sentido e valor quando ela consegue deixar um rastro no tempo. Claro que às vezes sentimos que algo já tem grande valor, mesmo que tenha sido breve, porém isso só se mantém intenso se for levado adiante. Perdemos facilmente os amigos, conhecidos, contatos de trabalho, simplesmente porque deixamos de participar da realidade deles e, consequentemente, eles da nossa.

Nos relacionamentos amorosos, vê-se bem como o abandono e o descaso, acabam por gerar a perda desse relacionamento. Mesmo que unidos pela formalidade ou um teto, inúmeros casais deixam de dividir cumplicidade, felicidade, amor e respeito, simplesmente porque alí já não era nutrido nada disso há muito tempo e adoeceu como um prédio em ruínas por falta de manutenção. O desgaste que vemos nas relações com as pessoas e o mundo são exemplos constantes para podermos observar e aprender que quando não somos mais ativos em algo, perdemos o direito da companhia, do desfrute, do amor, da alegria, do prazer, do significado, etc.

Outro exemplo de como perdemos pelo desuso, são os dons, talentos, habilidades ou similares. Se você é um artista e fica sem criar por muito tempo, é natural que você se torne menos capaz ou que tenha mais dificuldade para chegar nos mesmos resultados de antes. Tudo na vida exige que estejamos engajados o tempo todo, para não ficarmos pra trás. Se levarmos esse conceito para cenários políticos e sociais, também podemos perceber que negligenciar certos assuntos do país ou mundo, acaba nos tirando os benefícios, a qualidade de vida, as conquistas, as liberdades. Este ano, no Brasil, vimos como a ausência do pensamento crítico, da desconstrução dos preconceitos e da Educação em geral, pode gerar a ausência de todo ambiente sadio dessas temáticas. De tanto as pessoas negligenciarem a Educação, por exemplo, estão hoje, aos montes, aplaudindo um ignorante, que é fortemente embasado por um outro pseudo-intelectual que diz coisas insanas como “a Terra é plana” e sentem-se felizes de fazer parte de uma quadrilha que, em última instância, são tão ou mais ignorantes que seus próprios seguidores. Isso mostra que, se as pessoas não fazem uso do intelecto, o intelecto deixa de estar disponível pra elas. E quando isso ocorre, é só tristeza, pois não poderão perceber sua própria condição.

Ao menos nos outros setores da vida, nossas perdas podem ser um pouco mais fáceis de se notar, já que nem sempre comprometem a percepção e a intelectualidade. Um artista inativo, por exemplo, pode até reduzir suas habilidades em algum momento, mas, se tudo estiver bem com seu intelecto, ele saberá reconhecer sua condição, as causas disso e, se quiser, retornar para a condição anterior, treinando e se fortalecendo.

Nos últimos tempos eu estive distante de várias atividades práticas, mas nunca das temáticas em si. A Fotografia, por exemplo, que tive de pausar a prática, nunca deixou de fazer parte da minha realidade. Estive sempre aprimorando, estudando, vendo, compartilhando e pensando em Fotografia. Isso mantém minha mente ocupada com as informações, de maneira que o distanciamento não se concretiza. Enquanto sua mente estiver recebendo estímulos para uma determinada área do cérebro, para um certo assunto ou modelo de atividade, aquilo lhe será fortalecido automaticamente. Alguns gostam de fazer uma analogia entre o cérebro e um músculo, pois de maneira simbólica, o cérebro também pode “atrofiar” por falta de uso / exercício. A questão é que a mente humana é muito mais que simplesmente a parte orgânica. A estrutura invisível que não vemos é, talvez, a parte mais poderosa da nossa mente. É por meio dos nossos pensamentos e da organização das nossas sinapses em constelações de significado, que conseguimos definir se teremos uma mente mais poderosa, mais capaz, mais diversa, mais resistente ou se seremos levados a caminhos de degradação.

Gosto de associar a perda de vitalidade / saúde física e mental com a perda de direitos em geral, inclusive os direitos sociais e políticos. Se analisarmos os dois universos sob o mesmo preceito difundido à pouco, veremos que a inação de muitos diante de si mesmos e do mundo, os leva pra um caminho sórdido de Síndrome de Estocolmo, onde são manipulados por seus próprios opressores a se tornarem fiéis escravos, cegos e ignorantes de tudo que lhes ocorre de ruim. Não é de se espantar que recentemente, diante do desastre das Eleições de 2018, regadas à muita fraude, corrupção e Fake News, tenha surgindo a expressão ‘gado demais’ pra definir essa massa de eleitores sendo encaminhados para o abate social e intelectual, em troca de absolutamente nada. O triste é que, pela inação de uns, o prejuízo se estende também para os que sempre lutaram pelo uso e manutenção de seus direitos.

Por isso, fica a lição de que preservar e exercitar é sempre a melhor saída pra você não terminar ignorante, viciado, preconceituoso, fraco, equivocado, inexperiente, sem traquejo, doente, descontrolado e sem razão. Se você não quer se tornar um entulho na sociedade é preciso dedicar-se firme à sua própria transformação, dia após dia. Todo segundo que você abandona o seu potencial, você cava sua própria miséria. Seu sucesso pessoal (que é só o qual você tem algum controle), está relacionado com as ações que você faz pra si e pro mundo, numa relação de observação, contemplação, troca, ação, compreensão, transmutação, etc.

Tão importante quanto não ser teu próprio fardo, é não ser um fardo pra outras pessoas. Empenhe-se em ser alguém melhor todos os dias, longe de falácias, longe de discursos prontos, de bordões viciados e vazios, longe de pessoas mal intencionadas que transbordam ódio e reinam na escassez da intelectualidade, do bom-senso e da utilidade ao mundo. Fuja pra longe daquilo que te reduz, porque no final das contas, tudo que você vai precisar hoje, lá na frente e sempre, é estar de pé e pleno, mesmo que hoje você não ache nada disso tão preocupante ou iminente. As maiores desgraças da humanidade foram justamente as que foram negligenciadas e tratadas inicialmente como ‘não tão problemáticas’, ‘não tão absurdas’, ‘não tão nocivas’, ‘não tão extremas’ até que fosse tarde demais. O arrependimento foi certo e o passado não pode ser desfeito. Então faça algo de bom no momento presente e todos sairão ganhando, inclusive você.

Rodrigo Meyer – Author

Quem parou de rir, parou de ir.

Quem já foi afetado pela doença da depressão ou conhece alguém que esteve ou está em similar situação, sabe como isso interfere drasticamente nos progressos gerais desse indivíduo. Pessoas com imenso potencial acabam subaproveitadas quando a depressão lhes toca, afinal ninguém consegue se engajar tanto nas atividades, se não sente prazer pela vida. Em situações mais brandas que a depressão (embora até ela tenha nuances), as pessoas podem estar com distimia, que é um transtorno depressivo com sintomas menos severos que a depressão em si, porém mais duradouro. De qualquer forma, seja lá qual for o momento, intensidade e duração com que deixamos de rir sinceramente na vida, estamos parando de caminhar.

Quando uma pessoa tem depressão por muitos anos, pode acabar criando uma imagem mental de si mesma completamente distorcida, por associar o histórico de vida com sua personalidade ou realidade nata. Entender a diferença entre o estado depressivo e o modo “normal” de ser, é uma tarefa difícil, principalmente se você praticamente não teve bons momentos desde a infância. A ausência de parâmetros de felicidade por longos períodos pode interferir na compreensão desse estado ou realidade, em termos de comparação com o estado depressivo. Embora as pessoas saibam que estão tristes, desmotivadas e sendo sugadas pela própria depressão, a felicidade e o prazer parecem coisas impossíveis de se conseguir ou até mesmo abstratas demais pra serem concebidas. Mas é importante lembrar que essa percepção de pouca ou nenhuma esperança é tão somente uma distorção gerada pela própria depressão. Indivíduos deprimidos, possuem uma alteração cerebral sobre o sistema químico, bloqueando ou não aproveitando as químicas que estão direta e naturalmente relacionadas a sensação de prazer. A grosso modo, seria como dizer que o sujeito está imune a felicidade, independente das coisas que acontecem ao redor.

Mas, esse não é um texto apenas sobre depressão. É muito mais abrangente que isso. A grande realidade que precisamos ver aqui é que, por qualquer que seja o motivo, se tivermos um modelo de vida e pensamento que nos priva do riso, estamos ativando outros fracassos na vida. Dizem que sorrir abre portas e que rir é uma das conexões mais intensas que o ser humano consegue traçar socialmente. Temos esse hábito social em comum com os macacos e alguns estudos mostram que algumas outras espécies de animais fazem proveito consciente de certas substâncias, para fins recreativos, assim que entendem a relação entre prazer e consumo. É também visto em algumas espécies, algo que, antes, achava-se ser algo exclusivo dos humanos: a realização do sexo por prazer e não só por instinto de reprodução.

De forma geral, pra todos os seres, sentir prazer pela vida é basicamente a mesma coisa que aproveitar o potencial de si mesmos e da própria vida, seja lá o que ela seja. Uma vez que não sabemos ao certo o que fazemos e quais propósitos realmente temos nessa existência misteriosa, tudo que temos de garantia são nossos sentidos e percepções da realidade. Nossa presença social e também como indivíduos cobra de nós que estejamos mais do que em harmonia, cobra de nós que estejamos felizes o suficiente pra fazer valer os momentos vividos. Embora muita gente tenha tido uma vida longeva em estados menos entusiasmados, é fato que, na média, a tendência é que as pessoas com pouco prazer pela vida levem um estilo de vida mais destrutivo, menos saudável, com diversas somatizações. Quando a mente não vai bem, muito disso se transforma em implicações no corpo físico. Especula-se, por exemplo, que doenças como o câncer estão intimamente relacionadas com outros quadros e experiências, entre eles, as emoções contidas. Pessoas que estão amarguradas ou insatisfeitas por muito tempo, podem acabar somatizando esses e outros dramas em um câncer, devido ao desequilíbrio do sistema imunológico.

O lado bom da vida se expressa pelas coisas que nos dá diversão, felicidade, prazer e motivação em continuar a ser e fazer, especialmente quando permite que outros indivíduos ao redor experimentem esse contexto, tal como se todos estivessem compartilhando de uma mesma festa. Pessoas felizes constroem sociedades com grande interesse de preservar e fomentar felicidade. Através da empatia podemos dividir com outras pessoas as alegrias e dramas. As emoções humanas são possíveis de serem compreendidas e replicadas, em certo sentido, para que outra pessoa sinta aquilo. Essa conexão que temos configura um padrão natural e sadio, pois isso promove o bem-estar nas relações humanas e deixa as portas abertas para que os indivíduos possam exercer suas vidas com satisfação, liberdade e desejo em viver mais. Quando essa conexão não existe ou é altamente corrompida, as pessoas começam a não se importar umas com as outras, gerando um ambiente de desprezo, infelicidade, ódio, violência e pouco ou nenhum respeito e/ou valorização pelas demais pessoas.

Um padrão de vida que externaliza hábitos nocivos pra si e pros outros, invariavelmente, reforça um desequilíbrio que nasceu internamente no indivíduo, devido a inúmeras possíveis origens, inclusive, diversas delas, externas. Sociedades que oprimem, por exemplo, plantam a própria ruína, uma vez que geram pessoas insatisfeitas, infelizes e reativas a opressão. A receita garantida de aumentar problemas, ao invés de solucionar. A ausência do riso ou da felicidade, está intimamente ligada ao fracasso das expressões humanas, afinal realizamos tudo em dependência da motivação da própria vida. Precisamos ver sentido ou ter imenso prazer, ou perdemos a disposição ou interesse de desenvolver ou participar de algo. É assim que a vida deixa de ser uma opção interessante quando somos afetados pela depressão e, exatamente por isso, muitos depressivos podem vir a se tornar suicidas.

Embora pareça óbvio, ainda estamos em tempos em que obviedades precisam ser ditas. Então fica a mensagem de que ser feliz e estar em paz é melhor do que estar infeliz e incomodado. Mesmo que as pessoas digam que querem uma boa vida pra elas mesmas, elas se esquecem de que em nenhum momento conseguirão isso através da violência, da corrupção, da guerra, da opressão, do preconceito, da desconfiança, da perda de qualidade, da má educação e da valorização de arquétipos destrutivos. Enquanto as pessoas estiverem enaltecendo pessoas, instituições ou ideias que reduzem o ser humano em seu potencial de felicidade e bem-estar geral, estarão freando a própria sociedade e a si mesmas, impedindo que desfrutem de um ambiente favorável. O nome disso é “atirar no próprio pé e se queixar da dor.”.

Aquele que não é capaz de entender que é parte inseparável da equação, não conseguirá perceber que seu estado doentio é parte do que bloqueia e impede a sociedade de ser plena e satisfatória. Assim como o desequilíbrio nas químicas afeta o cérebro do deprimido, indivíduos desequilibrados em certos aspectos sociais afetam a sociedade. Partes adoentadas ou danificadas não cumprem a mesma função em uma máquina, seja ela um cérebro, um motor ou uma sociedade. Se não estamos rindo e expressando prazer, estamos sofrendo e estagnando, tanto individualmente quando coletivamente.

O próprio sentido de família e amizade, embora abstratos, explica como e porquê o ser humano depende de bons momentos pra conseguir existir coletivamente e ver sentido em si mesmo como peça dessa engrenagem maior. No fundo, tudo o que o ser humano são deseja é estar bem e compartilhar o bem. Qualquer desvio dessa premissa, confere, por vários motivos, patologias psicológicas ou psiquiátricas que devem ser devidamente cuidadas para não transbordar impactos e prejuízos aos demais indivíduos. Em teoria, as sociedades já fazem esse controle, ao estabelecer vigília, tratamento ou detenção a sociopatas ou a indivíduos que, de alguma forma, estão inaptos a viver em sociedade. Porém, bem longe do ideal, a realidade prática é que, ao invés das pessoas inadequadas e perigosas estarem controladas, elas figuram entre os cargos de maior relevância e impacto na sociedade. Não deveria ser surpresa nenhuma de que há uma lista interminável de criminosos de todo tipo, na política, na polícia, no comando de corporações, em pseudo instituições religiosas, etc. E é exatamente por estarem livres pra agir, que deixam esse legado tóxico ao mundo, em tudo e todos que tocam. Não é, portanto, exagero classificar esse tipo de membro da sociedade como um câncer que afeta as células sadias e destrói a saúde geral do organismo ou sociedade.

Sempre ouvimos a expressão “rir é o melhor remédio.” e de fato é. Se pudéssemos escolher clicar em um botão e mudarmos automaticamente para um padrão de felicidade, certamente faríamos. Ninguém gosta de sofrer. E se ninguém é feliz sofrendo, isso inclui não só o próprio indivíduo, como todos os demais. Ser racional e fazer uso da lógica a favor do próprio bem-estar emocional, físico e social é lutar extensamente para que nosso ambiente ao redor seja melhor, mais feliz, mais livre, com mais riso e menos dor. Trabalhos conscientes nesse sentido, incluem desde cidadãos comuns que escolhem um jeito de viver e de se expressar mais positivo, até indivíduos que entram pra alguma causa ou ação social que visa amenizar o sofrimento e suscitar mudanças de ação e de pensamento. Iniciativas como os ‘Doutores da Alegria’, que visitam pacientes em hospitais, vestidos de médicos-palhaços, ajudam os enfermos a se reposicionarem diante da própria situação e terem mais disposição de enfrentar seus dilemas. Estar doente é um contexto duro de se experimentar e sob isolamento ou pouco prazer, pode tornar-se um fator crucial na piora do quadro clínico.

Outras ações, como as que ocorrem em algumas ONGs ou iniciativas avulsas de assistência social, podem ser gratificantes a quem tenha visão sobre a teia que somos, mas também pode impactar bastante, uma vez que plantar a ajuda quase sempre implica em absorver a dor alheia por conta da empatia e do convívio contínuo em ambientes e contextos de sofrimento, guerra, doença, abandono social, etc. São frequentes as notícias de depressão entre psicólogos, médicos, psiquiatras, professores e ativistas sociais. Muitas vezes a mudança é tão gradual ou camuflada pela própria atividade, que eles não se dão conta do desfecho drástico a que estão submetidos quando afetados emocionalmente e psicologicamente por aquele ambiente. Por razão similar, estudantes de Psicologia, por exemplo, precisam ter alta antes de serem liberados para exercer a profissão. Embora seja altamente necessário e sensato tal filtro, na prática isso é feito de forma simbólica, distribuindo no mercado uma multidão de profissionais sem uma verdadeira alta de seus quadros psicológicos, sendo um terrível risco a saúde psicológica dos pacientes e, portanto, da sociedade em si. Pelo simples motivo de que você não colocaria um estuprador para atender pacientes que foram vítimas de estupro, você não colocaria certos formandos para clinicarem na área da Psicologia.

Assim, todos os dilemas que temos em nossa sociedade são mero reflexo das conturbações de cenários menores, como os países e suas gestões, as cidades e suas realidades, as condições de um bairro, o círculo de amigos, o ambiente de trabalho, a composição familiar, os relacionamentos ditos “amorosos” e, por fim, o universo interno do próprio indivíduo. Não se pode analisar a felicidade do mundo, sem antes, pensar extensivamente na felicidade do próprio indivíduo. Sociedades que ignoram o problema das peças, jamais poderão manter a totalidade da máquina estável. Simples assim.

Apesar de estar escrevendo com certa frequência, o que pra mim é relativamente fácil e interessante, por vezes eu não me sinto disposto ou apto a fazer o necessário. Enfrentei depressão a vida inteira e ainda não me vi seguramente distante desse malefício a ponto de dizer que não voltará a ocorrer. Neste meio, diz-se que depressão é o tipo de coisa que uma vez que se tenha, nunca mais há garantias de que não poderá recair. Sou o claro exemplo de quem parou de ir, porque parou de rir. Sempre fui uma pessoa com bastante senso de humor, ironizando o mundo com piadas e comentários sarcásticos, mas, apesar disso, estive infeliz, arrastando a doença da depressão por todos esses longos anos.

Deixar de rir, no sentido de não estar feliz por padrão, me impediu de ter momentos além daquelas exceções onde ria estritamente em determinados casos, especialmente com ajuda de fugas e estilos de vida que me deixassem vagando pelo tempo. A infelicidade me impediu de socializar, de estudar, de trabalhar, de lutar pelos meus objetivos e potenciais. A infelicidade deixou marcas indeléveis no meu histórico e também na minha saúde. Ela me tomou tempo, levou meu dinheiro e cavou um buraco de insatisfação onde eu não encontro mais amparo. Talvez seja a depressão tocando a campainha novamente, talvez seja a minha análise realista de que um ambiente tóxico e cada vez pior não pode ser viável pra quem deseja boas coisas nessa vida. Fico em dúvida, pois sempre me lembro dessa frase de Freud que nunca me canso de repetir:

“Antes de se autodiagnosticar com depressão, verifique se não está apenas cercado de idiotas.”

Quem tenta inventar bem-estar onde não tem, colocando princípios ilusórios de valores ou ideologias, está tão somente aumentando a própria cova. Sociedades que visam controlar aspectos superficiais, ignorando a origem dos problemas, estão apenas enxugando gelo. Se as pessoas realmente quisessem se ver livres e felizes, fariam exatamente o oposto do que está sendo feito coletivamente na maioria dos lugares. Ideologias que se preocupam em apagar incêndios locais com gasolina, sempre terão que lidar com incêndios e incêndios cada vez maiores. A estupidez e o egoísmo nunca foram soluções pra coisa alguma. Discordar disso é ser a prova disso. Premissas básicas de pensamento e relações precisam, necessariamente, incluir felicidade e liberdade sinceras. A felicidade falsa, expressa sem sinceridade pode ser muito mais tóxica que a tristeza sincera. Em depressão, por exemplo, eu continuo fazendo o melhor possível por mim e pelos outros. Mas uma pessoa em expressão insincera da felicidade, só está enganando a si mesma e iludindo milhões de outras pessoas de que a vida consiste nessa busca rasa, inútil, superficial e doentia de coisas que, na verdade, não deixam ninguém feliz de fato.

Se alguém parece satisfeito demais em um contexto inóspito, pode estar com Síndrome de Estocolmo, onde nega o sofrimento ou opressão experimentados, em defesa de seu próprio opressor. A opção menos provável é de estar em paz, apesar do caos percebido ao redor, o que, com plena certeza, é o caso de raríssimas pessoas e, portanto, não é algo que deva ser exigido por padrão. Não cobre das pessoas que elas estejam sempre de bom-humor, entusiasmadas, dispostas a trabalhar e lutar pelos objetivos e potenciais pessoais, enquanto elas estão enfrentando uma batalha inominável de sobrevivência a própria dor, a dor do mundo e a desnecessidade de tudo isso. Sempre que alguém tenta justificar os insucessos de uma pessoa deprimida, a colocando como culpada, eu, como deprimido, me sinto, ao menos, motivado em não ser tão cego e ignorante a ponto de achar que a vida de um indivíduo e sua bela e rosa exceção, tem qualquer relação com a realidade fora dessa bolha. Não tem, nunca terá e discordar não vai te fazer mais consistente nessa ausência de raciocínio e lógica.

Hoje eu simplesmente gostaria de rir, mas a tudo que olho, me parece insosso, desnecessário, sem graça, estúpido e doentio. Tal como alerta Freud, sinto como se estivesse cercado de idiotas e, portanto, com ou sem depressão não me veria em um contexto favorável. Existir nessa realidade intragável me obriga a repetir: melhorem!

As pessoas devem tentar ser o tipo de pessoa que elas gostariam de conhecer. Foi exatamente isso que eu fiz a minha vida inteira, exceto pela depressão que é algo ao qual não escolhemos e pouco ou nada controlamos. Se não puder sorrir para o mundo, tente pelo menos ser útil e sincero, sempre pautar suas ideias e ações em princípios de lógica e bem-estar coletivo, senão acabará infeliz do mesmo jeito e ainda será a razão principal da infelicidade dos demais. Acorde ou será acordado, pois bolhas estouradas não voltam a se regenerar. Aprenda a conviver com a realidade fora da bolha e perceberá que a solução interna é também a solução coletiva.

Rodrigo Meyer

Entenda seu papel na qualidade de vida.

Qualidade de vida todos querem, mas assim que descobrem o que é necessário pra se ter, desistem e ainda reclamam por não conseguir. Alguns pensam, por isso, que conquistar qualidade de vida é difícil. Na verdade é o inverso. De tão fácil, pouca gente quer.

É fácil encontrar gente dizendo que não suporta o trânsito das metrópoles, mas você nunca verá elas abrirem mão do carro. Essa multidão de pessoas, cada uma delas sozinha em seu automóvel de 5 ou mais lugares, entopem as ruas para cumprir percursos desnecessários ou evitáveis. No final das contas acreditam que o problema da cidade não está relacionado com o modo como elas mesmas vivem na cidade.

Países que figuram entre os melhores em termos de qualidade de vida, fizeram o básico, sem nenhum milagre ou grandes custos. Simplesmente aderiram a hábitos e realidades mais coerentes. Ao desistir do uso excessivo de carros,  reduziram o trânsito por completo, além de garantir melhor qualidade do ar, diminuição de ruídos, diminuição de acidentes, encurtamento dos custos de manutenção das vias e muito mais.

Esse exemplo foi pequeno, mas a estrutura lógica pode ser observada em todos os demais aspectos que se queira na chamada ‘qualidade de vida’, que é tão almejada por muitos, mas tão pouco concretizada por estas mesmas pessoas. Não há milagre na equação. Você não conquista o paraíso enquanto fizer tudo ao oposto do paraíso. A contradição não sobrevive na realidade e se você realmente deseja algo, precisa estar disposto ao que este algo exige para existir. Simples e direto, sem firulas, sem poréns, sem artifícios, sem desculpas.

Vejo em toda parte, desde sempre, as pessoas tentando sustentar sonhos na mente e chamá-los de utópicos. Esquecem-se, contudo, de que muitas dessas utopias só são utopias enquanto as pessoas não aderirem a ela. Uma sociedade educada será uma utopia se ninguém receber ou ofertar a educação. Pode-se dizer o mesmo sobre a desigualdade social, o preconceito, a violência, a fome, as pressões culturais, a própria cultura, a arte, o sucesso, a liberdade, o bom-senso, a superação, a tranquilidade, o conforto, o atendimento aos serviços de bem-estar humano, como os do campo da saúde. Os itens que escolhermos priorizar, formarão os resultados da nossa qualidade de vida.

Esperar cair do céu é inútil. As coisas não brotam magicamente. Mas, a boa notícia é que o esforço de criar o necessário se reduz a quase zero quando as pessoas unem suas forças coletivamente. Se um país como o Brasil com mais de 200 milhões de brasileiros, não estivesse enfurnado em desigualdade social, preconceito de classes, e ainda figurasse em casos de fome / miséria, poderíamos dizer, hipoteticamente, que se cada um dos moradores desta nação separassem R$ 1 real de sua renda mensal para um fundo, teríamos, todo mês, mais de R$ 200 milhões de reais para iniciativas. Isso representa 2,4 Bilhões de Reais por ano. Essa fortuna é grande junta e insignificante do ponto de vista da unidade de dinheiro de cada pessoa.

Isso não é muito diferente do conceito de imposto / tributo. Contudo, como o próprio nome diz, o imposto não é opcional e, uma vez que é cobrado pelo governo, abrem-se brechas para outras questões, tais como a forma como isso vai ser cobrado, o objetivo do fundo e a gerência desse valor. Quando uma sociedade é unida entre seus membros, a gerência social é entregue igualmente nas mãos de cada membro da sociedade. O poder ao povo é uma ferramenta que impacta diretamente nas responsabilidades individuais dentro de um coletivo. Quando os indivíduos estão bem, promovem o bem ao interagir com outros indivíduos. Lhe parece outra utopia? O que tem feito sobre tal sonho de qualidade de vida?

Quando seu ideal de vida seguir uma direção, tente acompanhar essa direção o máximo possível. Caminhar na direção oposta só alimenta o efeito de fuga em manada. A cada vez que uma, dez ou mil pessoas, fogem dos ideais, esses ideais vão morrendo e perdendo a viabilidade. Quando as pessoas se voltam pros seus ideais, mesmo que, inicialmente, pareçam difíceis de serem alcançados, tudo começa a se encaixar melhor. Vai ficando cada vez mais fácil viver nossos sonhos, se quisermos de fato tomar uma iniciativa sobre eles.

Aliás, lembre-se que ações contagiam. O exemplo deixado tem o potencial de impactar outras pessoas. Quando você vê seu vizinho plantando uma árvore ou pintando o portão de casa, não te dá uma vontade de fazer o mesmo? E quando você faz, você tem a oportunidade de ver o próximo vizinho refletindo e mudando para a mesma ação. Então, se podemos replicar o caos, podemos replicar o bem-estar coletivo, a qualidade de vida.

Grandes revoluções mais severas a partir do combate da corrupção, por exemplo, foram iniciativas quase que isoladas de sociedades e regiões que, por já entenderem bem o potencial de impacto da ação popular coletiva, sempre se mantiveram unidos para tudo que pudesse dar retorno positivo a eles mesmos. Em paraísos como estes, as pessoas não possuem interesse algum de mudar pra pior, afinal o prazer em viver bem só os mantém mais e mais interessados na manutenção desse benefício. Já em sociedades que ainda desconhecem seu próprio potencial no coletivo, preferem fomentar a bola-de-neve no sentido oposto, trazendo mais conflito, egoísmo e desonestidade, para um ambiente que elas já não gostam com os conflitos preexistentes. O que lhe parece mais inteligente?

Rodrigo Meyer

A cultura alternativa está cada vez menos alternativa.

De uma forma ou de outra, a chamada ‘cultura alternativa’ sempre existiu. Ela é como um contraponto da cultura convencional abrangente. Em toda sociedade, existem parâmetros em tudo. As pessoas determinam quais sãos as convenções aceitáveis para roupas, cumprimento de cabelo, cores, profissões, modificações corporais, estilos musicais, decoração dos ambientes, horários, estudo, profissões e tudo mais. É como se existisse uma realidade moldada conforme o que instituíram como “certo” ou “ideal”. Mas a cultura alternativa e as subculturas, existem justamente pra contestar esses padrões, para se desencaixar desse formato, quebrar essas normas e experimentar as próprias realidades.

Nos anos 60 e 70, manter os cabelos cumpridos pra um homem era um ato relevante em uma sociedade chafurdada em preconceitos e regras. Quem se via livre disso, era tido como ‘marginal’ ou desrespeitoso. Bandas de música, especialmente as que dariam seus passos no rock, deixaram legados importantes sobre conduta social e liberdade. Muito do que se vê como alternativo hoje, está de alguma forma conectado com movimentos artísticos em diversas áreas. O movimento punk, o pós-punk, movimento gótico, heavy metal, death rock e tantras outras vertentes e estilos deram, cada um, uma mensagem à sociedade convencional e também às próprias demais subculturas. Muitos desses movimentos foram dissidências de pensamento como forma de explorar novos caminhos ou direções e também de adequar nichos específicos em um modelo aparentemente já consolidado de cultura alternativa.

Em algum momento, chegamos ao máximo da popularização da música nos anos 80 com a vinda dos video-clipes e todo um conceito único que ficou marcado de forma atemporal na História. Os Anos 80 foram mais do que mais uma década no calendário. Eles se tornaram por si só uma realidade, uma entidade, desde o surgimento até hoje (e possivelmente pra sempre). Com a chegada da década posterior, os artistas cada vez mais massificados em shows e apresentações pela televisão, acabaram apresentando o alternativo para os não-alternativos de maneira mais abrangente. Com isso, muita gente supostamente aderiu aos movimentos apresentados sem de fato estar alinhado com os ideais e valores trazidos pelas subculturas. Começa aí um problema grande.

Enquanto a cultura alternativa procura ser a apresentação do diferente e do original, quebrando paradigmas, tabus, preconceitos e padrões sociais, algumas pessoas, encantadas com a possibilidade de fazer fama ou figurar um certo status nesse meio, entraram nesses nichos e literalmente os contaminaram. Cresceu em número e em intensidade os casos de violência, racismo, xenofobia, machismo, homofobia em grupos sociais onde não se pretendia e nem se esperava nada disso florescer. Em grande parte das vezes, os encontros em casas noturnas ou mesmo pelas ruas da cidade se tornaram simplesmente uma competição de quem tinha o melhor visual ou estilo mais aceitável. E isso nos lembra que a sociedade convencional buscava igualmente plantar cobranças e padrões sociais como muitos ditos ‘alternativos’ de hoje em dia tentam fazer no próprio meio underground.

Pelas minhas andanças em São Paulo e outras cidades e também acompanhando essas cenas pela internet, tudo que vejo e continuo a ver é um certo distanciamento do próprio significado de ‘alternativo’. As pessoas estão cada vez mais semelhantes aos moldes sociais, com iguais pensamentos, as mesmas posturas doentias, ausência de questionamento. os mesmos hábitos e condutas pejorativos, as mazelas gerais de uma sociedade fracassada, abandonada e consumida pela intolerância ao novo.

É alarmante o número de pessoas que, por exemplo, se escondem atrás do Movimento Gótico para praticar racismo. Cercados de pretextos, conseguem encontrar nesse meio tudo aquilo que contempla seus preconceitos. Em razão da estética relativamente predominante nessa subcultura, com muitos rostos pálidos, maquiagens embranquecidas para contraste com as roupas pretas, no clima fantasmagórico e sombrio dos filmes clássicos de vampiro (entre outras referências), formou-se um ambiente que cultiva o embranquecimento das peles, pelo baixo ou nulo contato com o sol, protetores solares, roupas de proteção ou até mesmo pessoas buscando intervenções químicas e médicas pra ficarem ainda mais brancas.

Não custou muito a vermos as festas e eventos góticos serem tomados por racistas e neonazistas. Equivocados sobre os alicerces dessas culturas e os motivos por trás da estética, muita gente se viu atraída por esses meios, especialmente por conta da facilidade de exercerem seus preconceitos e terem um pretexto pra disfarçá-los. De maneira semelhante, as festas de BDSM e Fetish, foram tomadas por leigos que viram a oportunidade perfeita de tirar proveito imaginário de um contexto que, pra estes, parece ser totalmente sexual e nada alternativo. Diversas casas noturnas tentaram contornar tal problema, restringindo os públicos pelos preços diferenciados conforme o cumprimento ou não das “regras” de vestuário. De certa forma isso tenta tornar o evento menos atrativo para os que são de fora da subcultura e tornar mais seguro e real para os que são de dentro. Porém, convenhamos, isso acentua a quebra da própria subcultura, uma vez que, novamente, padroniza realidades das quais ela mesma deveria estar contestando.

Nesses meios, figurava em algum momento a busca por diversidade e aceitação do diferente e atualmente, está contaminado de pessoas que estão lá pelos motivos errados. Já não há solidariedade entre os frequentadores, até porque conhecendo-os um pouco sabe-se bem quem é quem e porque estão ali. Grande parte, em busca de satisfazer fetiches pessoais em termos de estética, etnia ou hábitos sociais, aceitam se render à esses eventos mesmo não tendo afinidade com a cultura. Se ambientam de tal maneira que estão sempre presentes nas mesmas festas, nos mesmos endereços, da mesma maneira. São previsíveis como um animal que cai na armadilha toda vez em busca de comida.

Em alguns eventos específicos de rock, anos 80, gótico e death rock, devido ao tipo de música que será apresentada na ocasião, faz-se necessário até mesmo explicitar nos flyers a proibição / rejeição de visitantes neonazistas, tamanha é a certeza de que a música, a estética e a oportunidade atrairão esse tipo de pessoa em um ambiente onde, pelo evento específico da data, muitos outros serão o extremo inverso, podendo suscitar conflitos diretos. Nada disso é, porém, garantia de que não ocorrerão as presenças e os conflitos.

Sobreviventes são as casas que baseiam suas políticas de trabalho em diversidade e segurança e também em preservação das subculturas. Cada vez menos estão conseguindo se manter fixas em seu meio e estão se abrindo pra públicos cada vez mais convencionais. Aos poucos, o que estava alternativo, está tomando dimensões maiores. A princípio isso não é ruim. Fico feliz que estejam difundindo o acesso e a aceitação dessas realidades culturais para mais gente, pois quebra preconceitos também. Por outro lado, pessoas totalmente desinteressadas de aprender com esses meios, acabam contaminando a cena simplesmente para preencher seus próprios objetivos, anteriores e isolados à essas culturas alternativas.

O convencional já conhecemos e recusamos. A sociedade convencional é a sociedade onde meninos vestem azul e meninas vestem rosa, cabelos curtos são para homens e cabelos cumpridos para mulheres. A cultura convencional é aquela onde reina opressão, preconceito, violência, intolerância, desrespeito e ignorância. Mais do mesmo que está aos poucos encontrando espaço onde não deveria. Estamos aos poucos apagando o termo ‘alternativo’ das coisas as quais nos vinculamos em algum momento e que agora parecem ser apenas mais um momento comum do qual não queremos fazer parte.

Mas este não é o fim! Embora tudo isso esteja se transformando nessa direção, os que mantém a coerência diante das cenas, podem plenamente apontar seus novos nichos e vertentes, suas novas casas noturnas, seus espaços diferenciados, seus meios de burlar essa crise cultural e social pela qual todos estamos passando em todos os lugares do mundo. Podemos simplesmente quebrar as correntes com os velhos movimentos, os velhos cenários, assim como quebramos com a sociedade convencional. Em um mundo onde quase tudo se entorta e apodrece, é importante marcar bandeiras e destacar contraste, valores, diferenças. Precisamos cada vez mais reafirmar nosso espaço para que não sejamos esmagados ou misturados a nossos próprios inimigos.

Muitas das vezes a cena underground e a cultura alternativa são mal vistas exatamente por causa dessa presença contaminante de quem não é do meio. O estrago causado por quem está ali pra tirar uns quinze minutos de fama dura bem mais que isso. A apropriação das realidades para fins menos dignos pode colocar as pessoas de volta aos cabrestos pelos quais lutamos tanto tempo pra destruir. Faz-se necessário um pouco mais de reflexão e seriedade entre as próprias pessoas. Que deixem um pouco de lado esses vícios de personalidade por buscas narcisistas de aparência e comecem a se preocupar muito mais com as amizades com que fazem, a qualidade interna das pessoas com as quais dividem os eventos e também a quem atribuem notoriedade e destaque nesse meio. É preciso ter pulso firme e coragem de não só contrariar a sociedade de forma superficial e abstrata, mas, principalmente, contrariar os valores e condutas de cada pessoa dessa sociedade que estejam em desarmonia com o aceitável e proposto.

Vejo ao meu redor, pessoas que flexibilizam os contatos, aceitando neonazistas declarados, apenas por admiração à estética e ao “status” que certas pessoas tiveram na cena. Diziam tanto que a aparência não deveria importar e hoje se veem escravas da aparência. Buscavam aceitação social e usavam a dissonância estética como ruptura de valores e hoje se veem presos à pessoas e posturas nojentas por não conseguirem remar contra a adoração e os padrões visuais que eles mesmos estabeleceram. Correm o risco de serem tão inúteis e indesejados quanto seus supostos opositores do passado ou talvez ainda do presente. Difícil é saber de que lado estão aqueles que, por desinteresse ou cumplicidade, ficam permissivos e acabam apoiando todo tipo de lixo social, em diversos sentidos.

Precisamos ficar atentos, pois quanto mais subimos a montanha, menos gente nos acompanha. Muitos ficam pra trás, não acompanham o ritmo ou não desejam verdadeiramente subir naquele momento. Temos que vigiar nossas trilhas, nossos hábitos, nossos círculos de amizade, nossos trabalhos, objetivos, projetos e conteúdos. Estamos enfrentando batalhas duplas, com tanto inimigo infiltrado. Não fico feliz que isso soe alarmista, pois vai deixar muita gente ansiosa e insatisfeita, mas não há outro modo de pedir cuidado senão dizendo a realidade da situação.

Estamos assim no momento e não vejo um bom crescimento adiante. Parece que estamos perdendo o vigor e estamos rendidos. Números gigantescos de pessoas abandonaram esses meios, tanto por serem verdadeiramente deles e não se identificarem mais com aquilo em que o meio se tornou quanto por não serem de fato desses meios e acabarem cansados de dissimular pra ter tão pouco retorno e felicidade. Mas, velhos figurões ainda estão lá, caricatos ao extremo, com as mesmíssimas roupas, como se praticassem um personagem pra vida toda. Patético. Eu quero a ruptura, eu quero o novo, o diferente, gente de mente viva, que pensa, que age, que faz acontecer. Eu não quero preconceituosos atrás de fantasias feito palhaços de um universo paralelo. Eu espero gente que esteja engajada em viver caminhos maiores, caminhos melhores. O encurtamento do caminho só convém aos que querem reunir novamente as massas pro afunilamento rumo ao abatedouro social. E eu não aceito ter esse final.

Rodrigo Meyer

Porque as pessoas desejam sempre as mesmas coisas?

Em um mundo onde a maioria das sociedades são formadas por modelos de excessivo consumismo, é fácil ver que boa parte desses momentos de desejo de compra são puramente artificiais e se mostram como um claro reflexo da propaganda mal intencionada que é veiculada não só pelas mídias mas pela própria sociedade. Da mesma maneira que as marcas vendem-se como necessárias ou importantes pra vida das pessoas, algumas pessoas, tomadas por essa crença, espalham esse modelo de vida cobrando e pressionando outras pessoas a se adequarem nesses moldes doentes.

Havia um tempo em que os presentes de datas comemorativas eram embrulhados em papel de presente ou nem mesmo eram embrulhados. Hoje em dia os presentes são abertamente dados com as sacolas e embalagens das lojas, com suas marcas estampadas de forma bem visível, afinal é isso que estão doando na verdade. Antigamente, os produtos em si eram o presente, mas hoje, o status de marcas e lojas fazem as vezes de “produto” a ser consumido.

Sempre tínhamos a visão de que certas marcas eram pra público mais abastado financeiramente e que outras marcas eram deixadas como uma opção barata de produtos iguais ou similares. Em todo tipo de produtos ou serviços as pessoas sentem essa depreciação de valor e qualidade (ou de suposta qualidade). E com isso, gera uma certa vontade de compensar o prejuízo social tentando adquirir um desses produtos mais caros. É assim que surgem pessoas dispostas a loucuras como gastar todo o salário de um mês na compra de um único produto, apenas pra ostentar o uso daquela marca. Outros, um pouco menos ousados, buscam as imitações / falsificações que cabem melhor no bolso, mas que falham em outros fatores, tanto do ponto de vista da legalidade quanto da própria qualidade. E, convenhamos, ostentar uma marca da qual você não pode sequer comprar o original devido ao preço caro, é o mesmo que divulgar seu próprio explorador.

Diversas pessoas trabalham em empresas das quais jamais poderiam comprar o produto que elas mesmas fabricam. Empresas de produtos esportivos figuram em crimes de trabalho infantil e exploração de mão-de-obra em contextos de trabalho escravo, sendo o extremo da ironia por produtos tão caros, onde nem a matéria prima é cara e nem a mão-de-obra é dignamente paga.

E porque será que apesar de tanto contexto ruim nessas empresas e produtos, as pessoas continuam desejando sempre ter as mesmas coisas? Uma busca por igualdade através do produto ao invés da equiparação das rendas? Busca por igual status e suposto privilégio social ao invés de buscar real respeito e valorização no meio? Será que ter uma roupa de marca, comer no fast-food da moda, morar na região nobre da cidade ou comprar o carro do momento transforma alguém em algo melhor?

As pessoas não se perguntam muito isso, afinal se o fizessem teriam que admitir que nada disso é feito para elas, mas apenas pra mostrar pra sociedade que elas venceram. Traumas e complexos as fazem devolver exageros na postura e no consumo, pra cobrir a diferença entre não ter tido condições no passado para as possibilidades financeiras do presente. Alguns, cientes de que não poderão sequer chegar nesse ganho financeiro, compram as falsificações no camelô apenas pra desfrutar entre os amigos de igual situação social um “sub-status” dentro desse grupo social em particular.

Se resolvermos nossas fraquezas psicológicas, superarmos o passado e revermos o valor real das coisas, entenderemos que pra sermos mais prósperos não precisamos nos render a status ou marcas de renome. Não precisamos fazer o que a maioria faz e nem precisamos pensar como a maioria pensa. Qualquer ganho social, seja do ponto de vista financeiro ou de outros tipos, não precisam vir acompanhados dos mesmos vícios que todos os demais tiveram ao cruzar com aquelas realidades.

Você pode achar uma roupa bonita, dentro do seu estilo, sem que tenha que se render à formatos predefinidos do que é bonito e bom pra uma roupa, conforme as regras que plantaram em sua mente apenas pra explorar seu bolso. Em tempos de internet onde podemos acessar conteúdos de empresas tão distintas entre si, temos duas situações principais: por um lado colidimos entre nossas realidades e realidades opostas, mas o lado bom disso é que podemos, contudo, ter opções e reafirmarmos a possibilidade de substituir certas coisas por outras. O conhecimento é poder em muitos sentidos.

Esse desejo que muitas pessoas mal sabem de onde vem e que alguns até acreditam que são desejos legítimos e demandas reais por produtos e marcas, é, na verdade, uma grande indústria de trabalho psicológico explorando nichos e grupos cada vez mais específicos de pessoas, massificando de forma geral o consumo, levando cada pessoa a achar que precisa de uma ou outra coisa, conforme o que ela pode ter e, contudo, a desejar também o que não pode ter, pra que isso se torne, então, muito mais valorizado perante os que podem comprar, pois nasce, então, uma competição de que, se o pobre deseja e não pode ter, é papel de quem tem dinheiro pra tal, comprar pra demonstrar poder e oprimir, consciente ou inconscientemente, os que estão abaixo.

Talvez as pessoas nunca tenham se dado conta, mas existe essa batalha constante entre ter e não ter. As pessoas que conseguem adquirir um produto, serviço, cargo ou posição social de qualquer tipo, sentem-se com uma ferramenta de poder nas mãos capaz de diferenciá-los dos demais sem que eles precisem fazer nada de especial ou útil. São diferenciados apenas por poder destacar a diferença na posse, de forma opressiva, ostentando e mostrando ao mundo que poucos podem ter e a maioria não pode. É o estilo de vida das vitrines de shopping da classe média e alta em que não se aceita bem a entrada de pobres, especialmente os negros, pra figurarem ao lado de seus maiores opositores.

Os oprimidos deveriam, portanto, pensar que manter desejos e consumos por essa massa de desprazer que se fantasiam de empresas, produtos e clientes, é altamente danoso pra si mesmo. Em resumo, é Síndrome de Estocolmo, quando o oprimido sente-se admirado ou apaixonado pelo seu próprio opressor, passando a defendê-lo. Isso alimenta um contexto social onde empresas pouco éticas e quase sempre ilícitas e desnecessárias, lucram bilhões às custas dos pontos fracos (especialmente os psicológicos) das sociedades em que elas exploram.

Você tem, contudo, o poder de diminuir ou até eliminar isso de nosso meio, bastando que se oponha na prática. Cesse o consumo, o apoio, a propaganda gratuita estampada nos produtos que usa, a gana de querer igualar-se à outros por questões equivocadas como status e padrão social. A liberdade que você gostaria de ter e não tem, às vezes é conseguida por uma mudança de postura como essa. Talvez você não venha a enriquecer, mas independente disso, você não precisa apoiar quem lucra às custas de opressões de classes. Lembre-se que, embora grande parte dos consumidores de marcas caras sejam pessoas ricas, quem produz muito daquilo são pessoas em situações pouco dignas ou indignas e às vezes até ilícitas, em trabalho escravo e/ou infantil.

Você se sentiria confortável de gastar mais de R$ 500,00 num produto em que apenas 1 centavo é destinado a pessoa que fabricou tal produto? Talvez fique ainda pior se te contar que pra ela ganhar este único centavo por produto, ela precisasse passar horas enfurnada numa sala sem iluminação, sentada ao chão, sem condições de higiene ou segurança de trabalho, sem alimentação adequada, sem perspectivas de vida, sem outras escolhas. Tudo se agrava quando esse “funcionário” é uma criança de 7, 10 ou no máximo 14 anos, que nunca teve oportunidade de desfrutar a infância, dividir seu tempo com a família ou mesmo de poder planejar saídas pra sua própria situação. Em casos assim, a escolha da empresa em aceitar tais contextos é que determina o que existirá ou não em termos de modelos de trabalho.

Se nos enxergamos como inaptos pra certos produtos e serviços, fica fácil entender que, por vezes, quem os fabrica ou serve também não possuem condições de comprá-los. Pode haver sistema mais injusto e doente que este? Portanto não há motivos sadios pra se apoiar isso. Se eventualmente se sentir em situação de fraquejo diante dessas questões, busque repensar um pouco seus valores e suas reais necessidades na vida. Avalie se o que está fazendo em seus hábitos de consumo não são apenas uma tentativa falha de compensar complexos e traumas do passado. Sempre que achar necessário, busque ajuda de pessoas mais esclarecidas sobre o assunto, bons amigos que possam ser parâmetro e incentivo pra condutas melhores ou até mesmo de psicólogos e terapeutas que possam te ajudar a superar suas questões internas, pra que você realmente progrida socialmente e pessoalmente, ao invés de se enroscar em situações ilusórias sobre qualidade de vida. Tristes são as sociedades que confundem qualidade de vida com poder de consumo e que confundem consumo com consumismo e futilidade.

Rodrigo Meyer

Seu futuro pode ser diferente do seu passado.

Existe, infelizmente, uma crença de que estamos condenados a nossa realidade do momento. Mas, as coisas não são assim. Esse pessimismo e/ou imediatismo é um equívoco diante das possibilidades reais. Inclusive, quem mantém esse pensamento equivocado está apenas dificultando que coisas novas e melhores aconteçam no futuro.

A sociedade brasileira e tantas outras, em similar ou pior situação estão acostumadas que tudo piora e nenhum benefício chega até as pessoas que mais precisam. E alimentam-se de esperança apenas quando algo positivo significativo acontece. Valorizar as possibilidades apenas quando estamos em vantagem não é útil se quisermos viver bem e termos melhores chances pra nós mesmos.

Mas, lembre-se que a proposta não é que você forje ilusões sobre o futuro, nem mesmo sobre o presente, como fazem os otimistas. Não devemos ser nem otimistas, nem pessimistas. Acompanhar as realidades já é suficiente pra que possamos decidir quais opções seguir, pois veremos elas à nossa frente, tal como de fato são ou o mais aproximado possível. Já falei em outro texto sobre a importância da postura realista.

Por pior que tenha sido nosso passado, com as mazelas da vida, as dores, os medos, os traumas, os rompimentos emocionais, eventuais situações de doença física, pobreza material ou experiências desconfortantes, temos sempre que lembrar que tudo isso não é garantia de que sempre será assim. Não significa que um toque mágico vai brotar e fazer tudo mudar, mas significa que, suas ações podem eventualmente te tirar dessas condições. E claro, não são nenhuma garantia também, afinal o que fazemos está dependendo do que podemos fazer, do que temos coragem de fazer, do que temos condições, vontade, visão, capacidade, etc.

Não existe fórmula pro sucesso, mas em tudo que pudermos aprender melhor sobre nós mesmos e sobre a realidade que nos cerca ajudará pra sairmos das situações que não desejamos que continuem. É sempre importante estar de olhos abertos, mente aberta e acreditar cada dia mais em você mesmo e no potencial que pode desenvolver ao longo do tempo. Frequentemente, dependendo da sua situação, será necessário abrir os braços e aceitar ajuda de quem puder lhe oferecer. Não há nada de ruim nesse ato e só demonstra que você está pronto para as mudanças e soluções que poderão vir a seguir.

Se você está vivenciando desemprego, por exemplo, não significa que não poderá estar trabalhando em breve. Se está enfrentando superação de traumas ou depressão, tem um caminho pela frente de tentativas que vão te levar para condições melhores. Embora estejamos sempre ansiosos pelas soluções de problemas grandes assim, não podemos fixar o pensamento na urgência do tempo, porque essas situações podem levar tempos diferentes pra serem solucionadas, dependendo de cada caso. A combinação entre a situação e a pessoa vão formar particularidades na equação e que, inclusive, podem se alterar ao longo do processo todo.

O mais importante pra que nosso amanhã seja melhor que nosso presente é entendermos quais são os problemas que temos ou que nos cercam. Uma vez que saibamos disso, temos que tentar apontar valores, condutas ou iniciativas que nos levem pra escolhas de transformação, de ajuda ou superação. Às vezes o acolhimento junto à algum parente de confiança, um profissional da área médica ou psicológica, um terapeuta, um advogado ou, dependendo da sua situação, um agente de Serviço Social.

Muitas pessoas que hoje estão tranquilas e bem-sucedidas, já passaram por situações difíceis no passado. Lembro-me sempre que o ator Keanu Reeves, que muitos admiram e conhecem pela trilogia de filme ‘Matrix’ e tantos outros, já teve a experiência de ser morador de rua. Apesar de todo sucesso, ele se mostrou uma pessoa simples, dividindo o metrô com os demais, sem extravagâncias. Pode ser que o contato com a dificuldade junto à outros moradores de rua tenha contribuído pra uma conduta mais assertiva diante da fama, mas sabemos que isso não é nenhuma regra, afinal várias outras personalidades que vieram de situações difíceis, às vezes compensam o passado, ostentando riqueza ou até mesmo esnobando as pessoas abaixo. Tudo vai depender do estado psicológico de cada indivíduo e de como ele superou ou não os problemas do passado.

Algumas pessoas se sentem tímidas ou envergonhadas de irem de uma situação melhor para uma pior. É como se estivessem deslocadas de si mesmas, pois se acostumaram a viver num padrão de vida ou em uma situação pessoal mais confortável e, de repente, se veem, de certa forma, humilhadas por terem que se submeter a situações mais difíceis de vida. Acontece muito isso com quem perde o emprego e é obrigado a rever toda sua realidade de hábitos, consumos e até mesmo de socialização.

Andando pelas ruas de São Paulo e também de algumas outras cidades, conheci muito morador de rua. Em cada um deles, situações diferentes. Embora todos eles aparentemente na mesma situação, no momento, cada um teve um passado diferente. Já conheci gente que foi pras ruas depois de serem trapaceados pela família em troca de dinheiro, músicos profissionais, intelectuais, poliglotas e vários outros que, por uma razão ou outra, acabaram sem nada e tendo que se render às ruas. Mas, tendo vindo de baixo ou de cima, o fato é que pro momento presente, encontram-se pelas ruas e, a partir disso, cabe a cada um fazer as possíveis escolhas a cada dia que surge.

Para pessoas em situação de vício com drogas, pode ser ainda mais complexo, pois é difícil até mesmo controlar as opções que se tem ao redor, por questões do momento, do tempo, das reações psicológicas diante da droga ou mesmo da limitação social que existe, por conta do afastamento que as pessoas tem diante desse meio. É muito mais comum vermos, por exemplo, alcoólatras serem melhor recebidos do que dependentes químicos de outras substâncias. A classe média e alta empanturrada de remédios controlados é muito mais aceita socialmente do que os entorpecidos de classes sociais abaixo.

As barreiras pelas frente serão geralmente essas. Preconceito social, restrição de oportunidades de trabalho e socialização, a própria limitação física, alimentícia e psicológica diante do modelo de vida e questões ao redor disso, como abrigo, ocorrências isoladas do convívio diário e até mesmo alguns detalhes sobre as políticas públicas sobre as pessoas nessas condições e a cidade no geral.

O que será do nosso amanhã é, porém, a somatória de nossas ações junto com as oportunidades que o meio nos dá. Se unirmos a superação psicológica dos problemas com a iniciativa da busca de ajuda, já teremos quase todo caminho percorrido rumo à transformação. Eu sou especialmente grato pelo momento em que fui alavancado da depressão no passado por quem me enxergou como alguém e teve paciência e vontade de permanecer do lado até que eu estivesse bem. Eu tive momentos incríveis de muita diversão, prazeres físicos e psicológicos de todo tipo e satisfações na vida como a concretização de estudos, aprendizado de idiomas, autovalorização como pessoa e como potencial profissional, entre tantas outras coisas. Passei de derrotado e sem esperança pra alguém que cultivou uma visão melhor sobre a vida e sobre si mesmo.

O grande salto na transformação dos nossos dias está em como lidamos com o que temos ao nosso redor. Eu fui suficientemente flexível pra aceitar possibilidades. E, por isso mesmo, as possibilidades que existiam ao meu redor surgiram. Tive a oportunidade de me tornar fotógrafo profissional, tendo experiências únicas durante o curso de Fotografia que não teria em nenhum outro curso atual, em razão das ocorrências que são próprias do momento. E isso me fez perceber que muitas portas estão abertas ao nosso redor, mas frequentemente não as vemos, porque não as entendemos como portas para aquilo que achamos que precisamos no momento. Temos que mudar nosso entendimento da equação pra sermos mais bem-sucedidos nas nossas tentativas de se erguer.

Às vezes as pessoas acham que a única porta válida pra quem está desempregado é uma oferta de emprego em um cargo em que ela já gostaria de estar pro resto da vida. Se esquecem, assim, que às vezes o mero contato com uma pessoa, em uma situação que não está diretamente relacionada à essa vaga de emprego desejada, pode ser o elo indispensável pra que a pessoa se aproxime da meta principal. A vida não é uma linha entre dois pontos, mas sim uma complexa teia de relações. Você não pode, nunca, descartar as oportunidades que surgem sem antes estar aberto ao potencial delas. Claro que você não precisa atuar em tudo que surge pela sua frente, mas precisa, sobretudo, conhecer e estar aberto pras possibilidades.

Se eu não tivesse conhecido as pessoas que conheci, no momento em que as conheci, da forma que as conheci e pelo intermédio das outras pessoas que tínhamos em comum, nada na minha trajetória teria sido como foi. Os cursos que fiz, os aprendizados que iniciei, os livros que li, as conversas que tive, as viagens que realizei e até mesmo as decisões mais cotidianas sobre meus hábitos e vontades, me levaram onde eu estou hoje. Controlar essa navegação pode não ser tão simples quanto vislumbrar um horizonte ou destino e decidir seguir pra lá. Lembre-se, não estamos vivendo em uma linha reta entre dois pontos.

Você se surpreenderia em quantas pessoas superaram a depressão a partir de um simples ‘sim’ que deram pra oportunidades totalmente desvinculadas com tratamento de depressão. Você se surpreenderia em quantos fotógrafos foram formados a partir de um ‘sim’ para uma amizade despretensiosa. Se surpreenderia em quantas pessoas ganharam a tão desejada credibilidade e valorização apenas por se colocarem em uma postura mais aberta e receptiva diante de momentos. Seu próximo trabalho pode estar atrás daquele emaranhado de conexões de um conhecido que tem um amigo do primo da vó do funcionário de uma outra pessoa, que, essa sim, vai te apresentar pra um projeto que não tem absolutamente nada a ver com seu trabalho pretendido, mas que em certo momento, vai ser dividido pelo amigo do vizinho que finalmente é o seu elo final pra solução que você buscava desde o começo.

Resumindo: esqueça essa crença de que o futuro não tem solução e que as portas que você encontra pela frente não te servem de nada. A vida é feita de interações. Quanto melhor for seu networking, melhor serão suas possibilidades. Esteja sempre em contato com tudo e com todos e verá como surgem coisas tão diferentes de cada conexão. A diversidade nos leva para novas possibilidades pois cada pessoa tem um universo dentro de si e milhares de outras novas conexões distintas que vão alterar, a cada vez, a trilha que percorremos entre todas essas mais de 7 Bilhões de pessoas que existem no mundo.

Se você despreza a teia, está contrariando a própria matemática da vida e está se boicotando diante do seu próprio sucesso e benefício. Se você começar a desenvolver amor-próprio e se abrir pra situações que te beneficiam, terá as melhores chances de vencer e se dar os melhores resultados possíveis na vida conforme suas realidades gerais. A todo momento eu estou passando e estendendo as mãos, mas, infelizmente, muita gente se fecha e acaba deixando as oportunidades passarem. Eu me sinto grato em perpetuar esse ciclo de transformações por ter entendido o potencial e necessidade de tudo que foi feito pra mim e, depois, por mim. Viveremos melhor se ajudarmos uns aos outros a subir.

Em todo lugar que você estiver, seja grato pelas coisas todas que te beneficiaram ou que podem vir a te beneficiar. Esteja em contato com as pessoas numa relação transparente, seja lá quais forem seus problemas pessoais. Quem tiver mérito pra estar do seu lado, apesar dos seus problemas, estará e quem não estiver, felizmente, irá embora deixando o caminho livre. Não se menospreze pelo modo como você está hoje, porque estar e ser são coisas diferentes. Estamos sempre em constante transformação e o que somos hoje, poderemos não ser amanhã.

Rodrigo Meyer

Pela janela de casa eu vejo …

Atrás das cortinas, o mundo grita lá fora. Pessoas desesperadas por um minuto de reconhecimento. De semana em semana, as pessoas, sem nenhuma grana, correm as ruas do bairro atrás de vento na cara e barulho da boca pra fora. De bicicleta ou a pé, de skate ou em um carro qualquer, ouve-se tudo menos a voz do pensamento. O barulho é sangrento.

Poderia eu culpar o mundo todo pela falta de paciência que às vezes habita em mim. Poderia eu dizer que o vazio de todos eles não está um pouco em mim. Poderia dizer que eu estive sempre à frente de todo caos e que eu sou meu próprio fim. Mas, não digo, não sou, não posso, não vou.

Pela janela de casa, vejo vizinhos entristecidos com a própria vida. Uma senhora idosa já cansada de solidão, espia pela janela se mais alguém está surgindo junto com o barulho da multidão. Atrás das cortinas, da sala apagada, está também a alma cansada de habitar o corpo cheio de dor, esquecido com louvor.

Também é pelos vidros sujos de poluição que consigo ver semelhança com os céus de São Paulo. Um bairro alto, tão mais perto das estrelas, mas sem que eu possa vê-las. Elas lá, escondidas atrás de nuvens cinzas de metrópoles nada transparentes ou coloridas. Lá estão elas esperando uma chuva que as venha dissipar. Vejo muito futuro pro caos e pouca esperança pra nós. Fecho as janelas na esperança de pausar a vida.

Do lado de dentro das janelas, os olhos insistem em não ver, querem se esconder de tudo e de todos, pois sabe que lá fora, debaixo do sol e muitas vezes da chuva, estão  as realidades nuas e cruas. É chato ter que olhar todo dia pras mesmas casas, sem nada poder entender do porque de tanta mesmice se nem mesmo quem as cria está satisfeito com esse modo de vida.

Tem dias que sou obrigado a rasgar as janelas pra abrandar o calor e, sem nenhum amor, faço barulho com elas pra quebrar um pouco da estagnação e de qualquer passividade que possa trazer dor. É quando me dou conta de que, de alguma forma, os gritos lá fora também são semelhantes. Embora muito mais constantes, eles também existem quando precisam extravasar a ausência de valor. Comigo ainda posso frear a visão excessiva do caos buscando amparo no amor-próprio. Muitos outros, se são tal como entendo, não conseguem ainda se orgulhar de existir, especialmente depois que toda a cidade os fez sumir.

Consigo entender, mas não quero absorver. São ruídos que não somam, não me fazem crescer. Escuto o barulho da marreta caindo, do cachorro latindo, da vizinha fingindo, da molecada riscando o skate nos buracos do asfalto, a madame perdida triscando a ponta do salto-alto. Escuto barulho de carro quebrado, carro esquecido, estacionado em lugar errado. Escuto alarmes inúteis que só se desligam quando todo o tempo do mundo já passou.

Pela janela de casa eu não vejo paisagem nenhuma, só casas e a certeza de que nem mesmo nas alturas estamos altos o suficiente pra não parecermos visualmente deficientes. Nada se pode ver, mas tudo se pode ouvir. Ninguém aceita o espaço vazio entre um telhado e outro e mesmo pelas janelas dos outros, são só outros piores tesouros. Desligaria tudo e viajaria pra longe, mas não sei mais em que lugar distante eu não encontraria a mesma jaula transformada numa casa com janelas. Queria mesmo é viver sem elas.

De alguma forma, eu não vejo muito, porque estou mais preocupado em sentir, em ser. Eu deixei de lado aquela repetição infinita de gritos que pedem coisas das quais nem elas sabem que não precisam pra viver. Eu deixei tudo isso encostado em algum baú empoeirado e fui reorganizar a minha própria vida. Sento na cadeira, penso dois minutos e logo me levanto. É verdadeiramente um espanto que eu já não consigo esconder. Estou assustado comigo mesmo, com a vontade incontrolável de sair e inventar coisas pra fazer. Aquela saudade de países distantes que nem posso decidir o tal ‘ser ou não ser’. Aceito, pra doer menos. Aceito que não tem jeito e a vida vai seguir com ou sem mim nesse mar que afoga principalmente os que não sabem viver.

Fico imaginando se estivesse na terra dos diamantes se estaria mais preso ou mais livre, por não saber brilhar tão forte quanto é necessário pra ser percebido por dentro. Escolho olhar a janela me convidando pra, mais tarde, decidir sair um pouco e me divertir. Esqueço elas e abro as minhas próprias, botando na caneca um pouco de álcool e aquela dose de risada e observação. Desse jeito, parece até que eu tenho dentro de mim alguma razão. Quem sabe eu me descubra alcoolizado e me sentindo muito mais feliz do que toda aquela gente desnecessariamente orgulhosa que em tudo que toca quer ver regras e atenção.

Eu sei que o efeito passa, o tempo passa, a vida amassa, a gente assa, perde a asa e acaba sempre deitado e encolhido no chão. Sei também que embora eu queira dizer muito ‘sim’, eu só consigo dizer ‘não’. Estou sempre em busca de fechar as janelas do quarto e esperar que dentro de casa seja menos turbulento do que o enfrentamento da realidade patética que brota na esquina de casa, na avenida adiante, no bairro distante, do outro lado do país, como em quase toda parte do mundo.

No fundo, todos sabemos, não importa onde estejamos ou o que queremos, a vida é feita daquilo que temos por dentro e, quase sempre, não entendemos. Precisamos deixar de lado a construção idealizada das casas com vista pro paraíso e abrir os olhos e ouvidos pra ver o que não se pode ver nem escutar. É preciso sentir um pouco, de vez em quando, o chamado que vem de longe, como quem anuncia um evento importante. São pessoas que, embora não saibam nada sobre suas próprias mazelas, vivem todos os dias, as minhas e as delas, porque estamos todos juntos vivendo a mesma vida, dividindo os mesmos dias vencidos e a falta de aliados pra discutir alguma saída ou ideia.

Mas não há motivos pra desanimar. Nem todo mundo entende porque é que tentamos fazer algo positivo quando todo o planeta está sempre em guerra, sem querer mais beijar ou abraçar. A vida não é o que a janela filtra, nem o que cada pessoa grita. A vida antecede tudo e todos e é um mistério que não cabe no bolso. Temos que ter a  certeza de que se perpetuarmos um pouco da nossa experiência, seremos vitoriosos de alguma maneira surfando em ondas de prazer e transformação, mesmo que, lá da praia, pouca gente possa entender o que é que estamos a fazer, de pé na prancha, no meio daquela terrível inundação.

O brilho da vida só parece um pouco empalidecido por causa do filtro sujo da janela, mas podemos limpá-la de tempos em tempos pra lembrar o valor do vidro, do vento surgindo e das cores vivas por trás da poluição do ar. Podemos sempre viajar, mudar de casa, mudar de bar, mudar de lado, de pessoas e voar o mundo com outras vassouras. Os verbos de ação nos tiram quase todas as más sensações e nos permitem brincar até mesmo na contramão. Se algo na vida não muda e parece não ter mais sentido, podemos fechar os olhos e usar a imaginação. Se o momento não é o melhor, desligue a mente e deixe o corpo trabalhar até produzir suficiente suor. Hoje é Terça-feira, e eu preciso explicar, pra quem queira, que amanhã é um dia novo e podemos conquistar um belo futuro se impedirmos que nosso presente seja aquela velha baboseira.

Rodrigo Meyer