O que vem depois dos 30 anos?

Atualmente com 35 anos, observei mudanças significativas desde a aproximação dos 30 anos. Claro que não é exatamente a idade em si que traz essas mudanças, mas, pras muitas pessoas, é próximo dessa fase da vida que se costuma mudar um pouco as visões, as realidades e também as necessidades. E essas mudanças são diferentes pra cada pessoa. Em outra oportunidade talvez lhes conte meu histórico antes dos 30, pra poder ilustrar um pouco do que me levou até esse desfecho.

Aprende-se com a experiência vivida das fases anteriores aquilo que se precisa mais e o que precisa menos. Fica-se um pouco menos apegado a certas coisas passageiras ou certas bobagens e foca-se um pouco mais em outras questões. Talvez muitas pessoas custem a transformar a si mesmas desta mesma maneira e algumas cheguem a se transformar antes até. Deixo, então, a minha visão, pela minha experiência pessoal.

Aprendi aos 30 que muitos dos nossos sonhos e objetivos de infância eram poéticos, mas pouco realistas. Contudo, muito do que eu tentei construir desde criança, ainda são ideais que carrego pra vida toda. Aprendi que as vontades e objetivos da adolescência podem, frequentemente, perder o sentido com extrema facilidade ou se transformarem em algo diferente, com outras formas de exercer, em outros contextos. O que eu percebi aos 30 me fez abrir mão de muita coisa e de valorizar muitas outras. Por mais que eu me considerasse sensato quando mais jovem, é certo que eu tinha vivido tempo insuficiente pra sentir na pele alguns impedimentos concretos mais severos da existência e convivência nesse mundo.

Depois dos 30 me tornei mais seguro, mas também mais cansado. Me tornei mais exigente, mais crítico e, talvez, com menos perspectivas de me ver feliz. A saúde foi colocada em cheque tantas vezes que aprendi a resistir com mais facilidade às adversidades que eram difíceis nas fases anteriores. Pra mim, a morte nunca foi um tabu e envelhecer também não. Sei que, cedo ou tarde, todos morreremos e que não há nada demais nisso. A vida só se torna interessante e importante pelo que fazemos dela enquanto ativos.

Aprendi que importa mais aquilo que senti, os prazeres que tive, as alegrias divididas, os sorrisos, as lembranças duradouras de piadas e viagens, o conforto das noites de sono. Importa mais aquilo que deixei com meus pensamentos, minhas ideias propostas ao mundo, meus textos, minhas artes, minha marca de personalidade naqueles em que cruzei pelo caminho.

Importa mais é saber o que já fiz, quem sou, me descobrir como uma nova pessoa e não perder tempo mais com o que não vai me ajudar a chegar em dias bons. Passei a evitar redes sociais, a comentar muito menos as coisas que leio por lá, a interagir somente quando me parece justo e, portanto, necessário. Intervir com a palavra se tornou algo mais criterioso. Sei o quanto já falei demasiadamente na vida e, com isso, só perdi tempo e tranquilidade.

Depois dos 30 anos eu não quero visibilidade ou aceitação. Eu quero apenas minha própria realização. Continuo a ofertar aos outros aquilo que posso, dentro dos limites de cada situação, mas, com certeza, em muitos casos, sou eu mesmo o alvo da prioridade. Se dessa vida ninguém sai vivo, o que eu quero é tentar pelo menos aproveitar a viagem de alguma maneira.

Minhas visões ideológicas sobre política e estilo de vida se solidificaram, ou seja, se tornaram mais concretas. Ainda que sempre aberto a refletir e adicionar informações, a essência daquilo que parecia certo pra mim foi organizada e fortalecida em cada novo passo, cada novo detalhe, cada nova iniciativa. Quando mais jovem eu flexibilizava levemente a postura ideológica das pessoas, o que refletia também na minha, de certa forma. Com a mudança de fase, meu esforço não está em fazer sala pra quem não soma pra minha luta. Eles lá e eu aqui fazendo o meu papel de forma cada vez mais engajada.

Passei a ignorar muito mais as coisas que me tomavam tempo em vão e me dediquei muito mais nas minhas criações. Voltei a desenhar, voltei a sonhar em ter um piano um dia, voltei a estudar outros idiomas, voltei a escrever, voltei a deixar algo de positivo pro meu dia-a-dia e também um certo pequeno legado pra humanidade. Não me tornei uma pessoa conhecida, nem mesmo bem-sucedida. Fui só mais um no meio da multidão que enfrentou inúmeros desprazeres, mas que procura, sempre que pode, lembrar dos momentos felizes, porque aprendi que a vida é feita somente de momentos.

Hoje, estou em busca de soluções pra minha saúde e felicidade de uma maneira mais assertiva. Não quero me ver escapando da realidade pra ficar satisfeito. Não quero afogar os pensamentos críticos no álcool, mas sim resolver esse descontentamento com o mundo e tentar otimizar meus dias pra me ver um pouco mais em paz, mesmo que as situações ao redor sejam ruins. Gostaria que mais gente fosse como eu, que nunca se apegou a dinheiro e bens-materiais. Enquanto assisto essa trupe de perdidos se enforcando por tão pouco, eu quero é sentar e sentir prazer em viver, mesmo se não tiver 1 centavo no bolso.

O que parece difícil pra muitos, é a realidade fácil de muitos outros. A diferença? Querer. Agora com meus 35 anos, meu legado está espalhado pela internet, pelas pessoas que conheci na rua, pelas interações impactantes entre familiares, colegas de trabalho ou qualquer outra pessoa. Não fiz nada grandioso, principalmente se for sob o ponto de vista dos fracos inimigos. Mas fiz tudo com sinceridade, diferente deles. Eu vivi sincero, com orgulho de nunca ter enganado ninguém, de nunca ter sido um mentiroso ou usado os outros. Vivi com consciência tranquila, apesar de imenso desprezo pela conduta humana em geral.

Cheguei até aqui sem me dobrar e a única dificuldade estava nas barreiras que os outros queriam impor e não na execução em si da minha postura. Se todos tivessem a mesma postura (ou pelo menos a maioria), ninguém teria dificuldade de fazer o simples, o necessário. Tudo isso me veio ao longo da vida e ficou mais intenso depois dos 30. Para grande parte da sociedade, vão continuar envelhecendo até os 50, 70 ou 90 anos ainda idiotizados, imaturos, inseguros, egoístas, superficiais e patéticos. Essa é a prova de que não basta envelhecer para melhorar. Metal enferrujado só deteriora com o passar do tempo. Já os vinhos, cuidadosamente criados e armazenados no tempo, na posição certa, ficam cada vez melhores.

Rodrigo Meyer

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