Quem tem tempo livre é privilegiado.

Diante do tédio ou até da solidão, as pessoas podem pensar que esse aparente vazio de atividades ou pessoas é um desprazer ou problema. Mas olhando pro tema de forma mais fria, o tempo livre que advém de certos estilos de vida ou contextos acabam por ser um privilégio.

Em um mundo conturbado onde faltam condições boas de trabalho e socialização, as pessoas, muitas vezes, estão sem tempo para nada. Lhes falta tempo para digerir a comida, para conversar, para pensar, para sentir prazer, para dormir, para viver. Amarradas pelo trabalho excessivo ou por um trabalho que as obriga a permanecer disponíveis por muito tempo, sem poderem ir pra outro lugar ou sem poder iniciar outra atividade, essas pessoas ficam sugadas por realidades pouco proveitosas.

Muitas pessoas acreditam que o benefício do salário ou simplesmente a “sorte” de terem um emprego enquanto muitos estão desempregados, é motivo suficiente pra aceitarem essa ausência de tempo livre. Se esquecem (ou desconhecem) que existem inúmeras outras formas de trabalho. Talvez não resultem no ilusório status como ser um engravatado que vai ao escritório todos os dias ou que preencha uma fantasia mal estruturada como a de trabalhar em algo que elas julguem mais divertido, mais importante ou mais digno, mesmo quando não procede.

Muita gente escolhe encerrar seu tempo extra preso ao trabalho e outras pessoas, por falta de opção ou por não verem as opções que existem. Permanecem em trabalhos que lhes toma muito esforço físico, mental e/ou emocional e lhes deixa com pouco tempo livre pra qualquer coisa de cunho pessoal, como os prazeres, os descansos, os pensamentos, as reflexões, os momentos de cultura, as abstrações sobre a vida, etc.

Uma vida sem tempo livre, torna-se, portanto, uma vida improdutiva. Produz-se o máximo possível dentro do trabalho em que se exerce, mas, ao final das contas, pouco se produz em prol da sociedade ou de si mesmo como indivíduo. O coletivo adoece do ponto de vista social enquanto que os patrões se fortalecem com modalidades de trabalho que pouco tem a ver com pessoas, mas muito tem a cobrar sobre resultados, vendas, dinheiro e uma perseguição alucinada por lucro às custas de quem precisa de empregos pra sobreviver e não quem está disposto a ser uma peça colaborativa em uma atividade por escolha própria.

É tão verdade isso que raros são os países que tentaram alternativas sociais e econômicas como foi o caso da Finlândia, com a ideia de tornar o trabalho facultativo no país. Imagine uma sociedade onde cada pessoas recebe um valor mensal independente de trabalhar ou não. Você pode pensar que receber dinheiro sem trabalhar pode fazer as pessoas desistirem de trabalhar, mas a verdade é que o que se observou é que as pessoas continuam trabalhando, porém, como a renda é igual para todos, as pessoas escolhem trabalhar com o que gostam e não com o que “precisam”. Livres das amarras de seus empregos, elas decidem lidar com aquilo que possuem mais prazer, aptidão ou que lhes faça mais sentido.

É nesse ponto que precisamos tocar. Em outros países, onde isso não é aplicado, as pessoas não possuem tempo para fazer o que realmente acham prioridade, porque sobreviver se torna uma prioridade ainda não garantida, que só é conseguida através da aceitação de um emprego, mesmo que não seja o emprego ideal, afinal, sem emprego a pessoa não tem renda para bancar sua existência em um mundo onde essa é a moeda de troca para os bens e serviços na sociedade.

Mas, ao invés de focar em questões específicas dessas políticas, quero destacar o valor por trás do tempo em si. É deste tempo que muitos não possuem, que vem a oportunidade de, por exemplo, meditarem, criarem arte, se envolverem mais com a vida de seus filhos e parentes, expressarem suas ideias em um livro ou qualquer outra mídia, realizarem seus sonhos e vontades de conhecer outros países e realidades, dedicar tempo para servir a sociedade de forma mais assertiva e constante, como no caso de ONGs ou iniciativas de ajuda social menos formal.

Pense em como a sociedade seria muito mais engajada em se resolver e se entender. Muito mais seria produzido, sem desconforto, sem que seus tempos sejam desperdiçados com o que elas não querem fazer ou não julgam ser uma prioridade pra seus ideais de vida, tanto pessoalmente quanto coletivamente.

Pensar o mundo e mudar paradigmas humanos sobre a existência, passa, invariavelmente, por decisões criativas e inovadoras de se ver o próprio modelo social, o sistema político, o sistema econômico e os modelos sociais e culturais de uma região. A medida em que essas mudanças trazem opções e não pressões, as pessoas passam a entender que o valor humano não é uma utopia distante do bem-estar coletivo. Na verdade, descobrem que, caso se organizem bem, todo mundo pode viver confortavelmente tanto no sentido financeiro e material quanto no sentido de suas aspirações pessoais, sua realidade como indivíduo, sua personalidade, suas questões e dramas emocionais e psicológicos, a medida em que tem uma abertura maior para opções em sua própria vida, podendo resolver outras questões com mais dedicação, menos pressão e maior suporte.

Pensar no coletivo é, no final das contas, pensar no bem-estar de cada indivíduo. E sem tempo livre, não temos nada disso. Sem tempo livre, só nos resta obrigações perante a realidade ao invés de nos colocar no papel de pessoas que criam, que expressam, que pensam, que mudam, que se divertem, que fazem o mundo melhor e que fazem de suas próprias vidas algo melhor. Vamos mudar?! Empodere o coletivo de sua região, seu bairro, sua família, seu grupo de amigos, seu espaço de ação pública, seu grupo artístico, suas mídias de iniciativa política, os espaços de educação e reflexão, as ONGs e qualquer outro espaço de interação e ajuda social ou de suporte pessoal. Vamos em frente!

Rodrigo Meyer

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Como é ser workaholic?

Workaholic é um termo adotado pra fazer uma analogia com “alcoholic” (alcoólatra, em inglês). Assim, o workaholic é como um viciado em trabalho (work). Claro que isso não é necessariamente ao pé-da-letra, mas existem também casos de pessoas que adoecem pelo excesso de trabalho ou que passam por situações indesejadas em decorrência do vício em trabalhar. Mas, de forma geral, o termo “workaholic” é usado quase que por humor pra casos mais leves onde as pessoas são muito mais interessadas em trabalhar e produzir do que ficar a esmo. E existem muitos graus disso e também motivos muito distintos pra essa postura.

Eu me considero um workaholic, no sentido de sentir necessidade de criar. Eu estou sempre disposto a fazer alguma coisa. Talvez por eu ver prazer nas coisas que faço, o trabalho não seja um incômodo e, portanto, desejo mais dele. Passei cerca de 17 anos na Fotografia e, incontáveis vezes, fotografei de graça quando não haviam clientes, pois adorava fotografar. Geralmente quem tem uma profissão como essa, estende ela pros momentos pessoais também. Eu viajei bastante pra registrar lugares e sempre estive com a câmera a postos nos momentos de família e relacionamentos. É claro que esses momentos pessoais não eram trabalho, mas eram preenchidos com atividades que demandavam certo esforço.

Ocupar minha mente com tudo isso, seja por dinheiro ou não, fazia parte de quem eu era. Ainda me vejo em situação similar, embora eu tenha aceitado, com muita tranquilidade, o ritmo diferente de atividades de quem está sem trabalho às vezes. Sempre fui autônomo e, por isso, nem sempre estive ocupado com clientes. Preenchi meus dias escrevendo, desenhando, desenvolvendo pinturas digitais, vídeos, composições e todo tipo de criação. Atualmente, com uma predominância maior de trabalhos em design gráfico, me vejo sempre recriando velhas mídias, atualizando projetos e prospectando novos clientes a partir do que já tenho feito.

Cursei faculdade de Comunicação Social e de lá pra cá, tudo que eu fazia estava muito marcado por essa ponte entre o público e algo. Desde a Fotografia, que também é Comunicação, até todas as outras mídias de expressão, sempre estive na busca de encontrar os meios necessários pra viabilizar a aceitação e entendimento do que havia de melhor entre as pessoas, os projetos, os eventos, os conteúdos, as ideias, etc. Acredito que por gostar muito de tudo isso e de ver resultados sólidos brotarem, acabei me entregando full time nessas atividades, mesmo quando eram apenas pra mim. Talvez eu tenha me tornado workaholic apenas por ter encontrado algo que realmente gostasse de fazer. E acho sensato que as pessoas gastem muito tempo naquilo que lhes dá satisfação.

Desde que essas atividades não estejam me privando de saúde física e emocional, acho que é válido. Eu não deixo de vivenciar nada por conta disso. Estou sempre em busca de bons momentos ao lado de quem realmente importa pra mim. Socializando, rindo, dividindo um som, uma conversa, umas risadas e, muitas vezes, me permitindo não fazer absolutamente nada em específico. Dormir, por exemplo, é das coisas que mais gosto de fazer e tem dias que é só o que faço. O que me incomoda é quando quero fazer algo e não tenho opções. O tédio diante da escassez de momentos me deixa até mesmo mais tendencioso ao trabalho excessivo, pra não me ver com tantos momentos vagos.

Às vezes gostaria que certos lugares estivessem abertos em horários fora do convencional e que as pessoas também tivessem essa inquietude e disposição pra aderir a atividades de última hora. Eu sou aquele que diz ‘sim’ pra quase tudo. Essa mentalidade e personalidade, com certeza, tem muito a ver com ser workaholic. Há pessoas que preenchem o vazio do tempo com momentos menos satisfatórios e, claro, passam a desprezar suas próprias realidades, afinal, ninguém vai ter uma vida agradável se fizer de seus dias somente coisas desagradáveis. A vida é apenas a somatória de nossos momentos. Se as pessoas se entregam a banalidades e coisas que não lhes preenchem, certamente sentirão que a vida não está valendo a pena.

A grande satisfação da minha vida é saber que, todo dia, estou fazendo meu melhor e buscando os contextos, pessoas e atividades que me deixam engajado, satisfeito, feliz, etc. Às vezes isso flui pela leitura de um livro, um blog, um canal de vídeo, uma música, uma troca de mensagens, uma conversa de bar, um momento sozinho, a contemplação de um prato de comida diferente, o próprio ato de cozinhar, a arrumação da casa, uma volta de carro pra ouvir música e sair sem rumo, uma visita, a chegada em uma cidade nova, um projeto gráfico pra uma nova mídia, escrever, pensar na vida, abraçar, rir e pairar em outras realidades.

O mundo é diverso e, pra mim, estagnar não leva a nada de bom. Enquanto as pessoas dizem ‘não’ pra tudo e todos, eu me abro pras possibilidades e mergulho de cabeça. Eu quero mais é que a vida aconteça. Eu não tenho medo algum do futuro, mesmo que ele não seja vitorioso ou dentro do idealizado. Eu não me preocupo com o futuro, nem tenho pendências com o passado. Tudo que eu quero é o momento presente e a certeza de que fiz o meu melhor.

Rodrigo Meyer

Amigos sumidos, mudados, distantes e do outro lado.

Recentemente me deparei com o caso de uma garota que estava enfrentando solidão, se sentindo deslocada por não se enquadrar na sociedade e não encontrar semelhantes para dividir suas realidades. A pessoa estava já em busca de ajuda profissional pra este e outros fatores e, até mesmo nessa busca, encontrou barreiras, pois a pessoa que deveria prestar o serviço de ajuda, mostrou-se, ela mesma, um problema. Em resumo, a pessoa sentiu-se ainda mais solitária, pois nem mesmo com um suposto profissional ela conseguiu encontrar amparo. Note que tempos desnecessários que o mundo anda passando.

Ao falarmos de solidão, nos damos conta que muita gente está cercada de pessoas que não as preenchem ou de que, literalmente, estão sozinhas. A solidão, como é preciso saber, não significa estar sozinho, mas sim de sofrer por estar sozinho, pois muita gente está sozinha e não sente solidão. Estar sozinho, muitas vezes, é tudo que se quer e pode ser a melhor opção, muitas vezes. Pela quantidade indescritível de pessoas tóxicas e indesejáveis pelo mundo, é compreensível a sensação de alguns de estarem fora da realidade, de não pertencerem ao mundo, de não se sentirem contemplados por nada e ninguém.

Viver em uma sociedade onde não encontramos mentes parecidas que nos enxergue e nos compreenda tal como somos, pode nos fazer sentir que não somos humanos. Por padrão, a espécie humana é marcada pela característica da socialização. Almejamos isso e pautamos nosso bem-estar nisso. Quando não estamos inclusos ou bem-aceitos no meio em que vivemos, surgem os conflitos, questionamentos e crises. Muita gente passa por isso e desenvolve reações variadas, podendo ir da timidez, vício em substâncias, isolamento, depressão, atitudes extremas e/ou desequilibradas em termos de saúde, hábitos, práticas, pensamentos, etc. Ninguém ganha com isso.

Essa ocorrência e o conhecimento que tenho na temática, me fizeram associar, de imediato, com a questão dos amigos ausentes. Para maior precisão, alguns poderão chamar de ex-amigos, colegas, etc. O caso é que são pessoas das quais, por algum motivo, já não estão mais conosco, sejam presencialmente ou subjetivamente. Falo de pessoas que sumiram de nossas vidas, que mudaram o suficiente pra não termos mais a mesma intensidade ou tipo de contato, que estão fisicamente distantes pela mudança de casa ou por uma longa viagem e também das pessoas que, feliz ou infelizmente, faleceram.

Pensando nisso, me veio na mente vários exemplos de gente que conheci há muitos anos atrás e que hoje já não fazem parte da minha realidade. Gente que, sendo sincero, eu desprezei, eliminei da minha vida, ignorei, esqueci e diversos outros verbos possíveis. Algumas pessoas dizem que se amigos deixam de ser amigos, então é porque nunca foram. Isso pode ser verdade com a condição de que o falso amigo dessa equação seja alguém que, por motivos torpes, abandonou a companhia de alguém de valor. Mas não se pode dizer o mesmo de quem desfaz uma amizade por ver que o outro não é digno de sua companhia. E isso acontece demais. Às vezes nos doamos com sinceridade pelo outro, ofertamos companhia real, sentimentos reais e, ao menos de nossa parte, cultivamos uma amizade real, sem que isso impeça que nos livremos dessa pessoa, caso ela não se mostre digna ou merecedora de nossa companhia ou amizade. E quando isso ocorre, não significa, de maneira nenhuma, que ofertamos menos verdade ou valor em nossa amizade.

As pessoas precisam perder o péssimo hábito de acreditar e repetir em mentiras convenientes. Fala-se muito de que amizades precisam ser eternas como se fossem perdurar até mesmo diante do inaceitável, do absurdo e do não salutar. Tais pessoas, afirmam isso por conveniência, como quem quer desferir no outro um peso, que faça o outro sentir culpa por ter encerrado uma conexão. Se esquecem, convenientemente, que toda quebra tem um porquê e que ao contrário das pessoas que se livram de pessoas tóxicas, os seres tóxicos abandonados é que realmente mostram-se como não-amigos justamente quando, diante da quebra de conexão, não visam resgatar o contato, não sentem saudade, não refletem, não mudam, não se permitem a possibilidade de que eles mesmos sejam o motivo essencial daquela quebra de conexão. Firmam-se, de forma bem oposta, na posição de vítimas e acusadoras, como se tivessem sido abandonadas injustamente pelos demais.

Essa tentativa de inverter o jogo é algo velho na nossa sociedade. As pessoas, incapazes de olharem pra si mesmas, de degustarem horas e meses diante do espelho com sinceridade, optam pelo conforto de varrer tudo pra debaixo do tapete, fingindo que o problema são os outros e perpetuando seus malefícios praticados, sua toxidade, sua cegueira, seus falsos dramas e sua estranha relação com as pessoas que elas insistem em chamar de ‘amigos’, quando na verdade, são seus alvos turbulentos que, cedo ou tarde, notam-se atropelados e resolvem desviar para o acostamento dessa relação e partir para longe daquilo.

Falar dessas pessoas ausentes, deixadas para trás, cortadas ou transmutadas, é falar dos porquês da própria relação humana e de como as pessoas enxergam a si mesmas na vida, como pessoas, consciências, presenças ou personalidades. É importante que as pessoas aceitem, o quanto antes, o fato de que suas passagens pela vida dos outros não gira em torno dos outros, nem de si mesmas, afinal relações saudáveis são trocas e não um sistema de hierarquia onde um é mais importante que o outro. Somos seres humanos, todos tentando encontrar aceitação e espaço para nos expressarmos como indivíduos, mas também como personagens de um coletivo.

A pertença a um grupo pode ser fator crucial para o psicológico humano, assim como é também de inúmeros outros animais. A socialização nos aponta referenciais de estima, aceitação, valor, prazer, potencial, sucesso e dignidade. Tentar reduzir o ser humano a qualquer outra coisa abaixo da plena socialização é marcá-lo com o peso da desumanização e, portanto, com a quebra de valor e necessidade, desde a esfera física até as esferas mais sutis como a consciência ou alma (que, embora mais sutis, são provavelmente as mais pesadas, impactantes e relevantes pra cada indivíduo).

Desde sempre eu procurei filtrar minhas relações. Sem nenhum peso ou demora, removi e me afastei de tudo e todos que não se adequavam nem ao mínimo de minhas concepções sobre relações de amizade, trabalho, romance, etc. Apesar de sempre ser breve naquilo que não me interessava, me vi arrastando, desnecessariamente, tempo, energia e mente com expectativas e esperanças em romances ou pseudo-romances que, no final das contas, não se concretizavam tal como esperado e que deixavam sofrimentos e danos adicionais pela minha própria insistência em tentar dar outro desfecho ou visão para aquela situação. Imensa bobagem de minha parte foi achar que a sinceridade e as emoções fossem ser levadas em conta por pessoas que, no máximo, estavam administrando uma conexão apenas do ponto de vista racional, tal como um típico interesseiro faz.

Os tropeços na vida nos deixa escolados, nos faz perceber as nuances do ser humano. Enquanto muita gente tenta se arrastar pra perto da minha realidade, eu já estou planejando o corte de uma galáxia inteira, sem que eu precise descartar astronautas específicos com quem eu esteja valorando no momento. Nessa vida, aprende-se que não é por acaso o termo ‘indivíduo’. As pessoas são únicas e, portanto, cada uma delas é um caso único a ser considerado. Avalio pessoas e me relaciono com pessoas e não com massas estereotipadas. É nisso que habita a sinceridade, inclusive.

Já tive gente por perto que eu não quis mais, tive gente que nunca me quis por perto e que depois implorou aproximação e gente que, com bastante reciprocidade, foi embora enquanto eu também fui, sem nenhum drama. Mas, de todas as pessoas, as que valem mais são as que deixam algo pra se aprender, lembranças pra sorrir e boas sensações pra se reviver. Mesmo que distantes, mesmo que mortas, mesmo que ausentes e desconectadas de nossa vida atual, deixam em nós algo que talvez seja mais importante do que elas em si, que é a essência de si mesmas durante aqueles momentos que pariram boas marcas indeléveis. E, claro, também são especiais aquelas pessoas que permanecem ao nosso lado, crescendo na cumplicidade, na integridade, no valor, no respeito, no apoio e na sinceridade. Quando as pessoa mudam para melhor e nos incentivam a sermos melhores, aí sim temos uma relação duradoura e sadia. Foque-se nessas pessoas.

Se algo daqui te ajuda, seja bem-vindo(a). Agora há inúmeras mídias onde você pode compartilhar esse texto, inclusive Whatsapp e e-mail. Divida um conteúdo com uma pessoa que seja importante pra você ou mesmo deixe um alerta pra uma pessoa que possa estar pesando sem saber. Provoque o mundo, deixe sementes, aprecie momentos, faça algo acontecer. Um legado não sobrevive sem a coletividade engajada.

Rodrigo Meyer

[+18] Madame Satã, nudez e clássicos.

[+18] Esse texto apresenta assuntos que podem não ser adequados a todas as faixas etárias e públicos. Envolve assuntos sobre sexo, álcool, cultura underground e vida noturna.

Vários anos atrás, cursando faculdade de Comunicação Social pelo bairro da Liberdade em São Paulo, tive a grata oportunidade de dividir vários anos ao lado de alguns professores geniais e alguns colegas de classe que, bem ou mal, estavam fazendo parceria com o álcool. Pra mim, que já estava com o fígado afogado, qualquer pretexto pra beber estava valendo.

Nesse período de faculdade, a rotina era beber. Por vezes não havia dinheiro, mas sobrava vontade. Entrar com um copo de bebida pra assistir aulas era a forma de aguentar alguns professores que, por alguma razão do acaso, haviam conseguido tal profissão. Talvez fosse caridade do destino ou, o mais provável, a clássica falta de critério na sociedade. Nada que um pouco de humor e perspicácia não ajudasse a compensar.

Nos reuníamos em dois ou três e, raramente em mais que isso. Se não estávamos bebendo na própria faculdade, descíamos pra rua onde tinha bares e comidas. Pequenos mercadinhos abertos na noite podiam ser alcançados a um ou dois quarteirões. Em tempos onde toda moeda era importante, nem sempre dava pra pagar a bebida avulsa do bar, então garrafas eram a melhor opção. Obrigado Bianca pela presença nos financiamentos coletivos.

Ah, o álcool. Muita gente nem imagina a vida sem ele. Pra muitos é mais do que a ferramenta pra outras situações, sendo a própria situação. Infelizmente algumas pessoas cruzam o consumo de álcool por vício mesmo e ele já não se torna uma diversão eficiente. Mas, para maioria de nós, creio que o objetivo mesmo era anestesiar a mente, alterar um pouco a realidade sem sal e dar boas risadas. Foram ótimos dias.

A quem tivesse um pouco mais de interesse na noite, especialmente se curtisse um rock, anos 80 e estilo gótico, a opção mais sensata pra depois das aulas era caminhar até o Madame Satã, uma casa noturna de longa história em São Paulo. Pra quem só conhece ela atualmente, talvez não conheça as inúmeras versões anteriores do mesmo espaço. Hoje em dia ela já não tem absolutamente nada do que a casa um dia foi. E mesmo pra quem já viveu umas duas versões anteriores, talvez não tenha vivido os primórdios quando ainda estavam por lá bandas históricas e personalidades de peso.

Sexta e Sábado, principalmente, eram dias de “encaixotar”, ou seja, dia de ir pro “caixão”, dia de ir pro Madame Satã. Pra quem fosse do meio, aquilo era motivo mais que suficiente pra beber três vezes mais. Quando acontecia open bar, o estrago era garantido e indispensável. Aproveitava pra colocar em dia todo eventual descompasso. Bebendo, dançando, conversando, assistindo felinos cruzarem o meio do salão, observando as mentes que chegavam de tempo em tempos, cada um com suas características bem marcadas, suas roupas bem ornamentadas, escolhidas a dedo, personalizadas pra dar consistência praquelas horas todas. Funcionava muito bem.

A cara da decadência, em um ambiente escuro, cheio de personalidade e história, recheado por gente que sabia bem o que aquilo representava. Certa vez, a casa noturna surpreendeu todo mundo com o fechamento repentino, talvez devido a pendências com a prefeitura. Tempos depois, quando já estávamos sem esperança de que ela voltasse, ela foi reaberta em uma prometida festa, mas, tão rápido quanto anunciaram a volta, nos entregaram outro fechamento, deixando muita gente pelas calçadas esperando a decisão definitiva. Houveram voltas e, por fim, o casarão foi vendido pra um empresário que administrava outras casas noturnas, entre elas, a DJ Club. E esta foi a machadada final que encerrou a história legítima do Madame Satã, pois com o atual proprietário, a casa deixou de ter qualquer vínculo com a história e essência das versões anteriores. O público é totalmente outro e, ao menos pra mim, não vejo motivos pra pisar lá.

Lembrar de Madame Satã, pra mim, é reviver histórias que só eram possíveis e imagináveis na atmosfera das versões antigas da casa. Gostaria de dividir com vocês alguns momentos do casarão.

Em uma das noites, com a casa literalmente lotada, o público se espremia pra tentar dançar, sem esbarrar em pelo menos umas cinco pessoas ao redor. Mas, no escuro característico e no clima da música, as pessoas pouco se importavam com isso. Aliás, era bom momento pra extravasar e fazer valer o dinheiro gasto. Casa cheia era sinal de dia bom. Aqueles eram outros tempos, onde as pessoas estavam focadas em não ter certeza alguma sobre certos detalhes, mas estarem plenamente “certas” sobre avançar limites na noite.

Neste dia, lembro que estava acontecendo uma performance perto da área onde ficava o DJ e pra todo espaço ao redor só sobrava luz ocasional por causa do movimento dos spots. Corria a informação de que o segurança tinha cedido a entrada gratuita pra uma ou duas prostitutas, em troca de “favores sexuais”. Tempos depois com algumas situações de conversas, caminhos cruzados pelo balcão do bar e os corredores dos banheiros, ficamos por saber de quem se tratava. E não demorou muito pra que chegassem, por opção própria, na pista de dança já nuas sem nem mesmo um anel nos dedos.

Ninguém estava incomodado ou impressionado. Fazia parte do contexto, ainda que, sejamos realistas, era o álcool que devia estar libertando impulsos pra muita gente que, se não estavam reprimidos, estavam explorando novos limites de suas liberdades preexistentes. Não vou entrar na análise do que seja liberdade e do quanto isso é ou não libertador no final das contas, mas na superficialidade do termo, era o que estava acontecendo por aquele dia.

Nudez na pista, pessoas dançando, mãos passando, beijos, abraços, bebidas, masturbações e sexo completo estava sendo a pauta da vez. Entre sobretudos e corseletes, via-se pessoas sumindo e reaparecendo entre uma sombra e outra enquanto outros pequenos prazeres vinham da surpresa por uma música específica que obrigava todo mundo a descer pra dançá-la. Depois de uma boa surra nos ouvidos com Depeche Mode, Joy Division e outros clássicos oitentistas, aumentávamos a dose de álcool pra dar conta, pois com tanto baque de satisfação era certo que a noite ia ser longa.

E como era bom entrar num lugar e saber exatamente quem eram muitas das pessoas. Os grandes figurões estavam sempre lá. Pela escadaria que separava a pista do bar, era comum encontrarmos o frequentador que, por convenção, era nomeado de “Louco” ou “Louquinho”. Um rapaz que, por estilo, compulsão ou outra razão, vestia duas camisas uma sobre a outra. Estava sempre sentado pela escadaria com um copo de bebida na mão. Não socializava muito e era silencioso, mas era indispensável pra compor a atmosfera do casarão. Aliás, se não fosse a certeza da naturalidade desses tipos por esses ambientes, diria até que ele era um ator contratado pela casa pra promover essa atmosfera lucrativa.

Por muito tempo quem atuava como DJ por lá era “Pé de Vento”, apelido de um dos famosos na cena. Nas mãos dele, mesmo quando a música falhava era épico. O público, acostumado e interessado sobretudo com o improviso, desfrutava um disco riscado, uma música que hesitava em entrar ou que subitamente parava. Era fervor na cabeça alcoolizada de uma turma que, se ainda tem fígado, é porque esqueceu de remover esse aglomerado necrosado de tripas.

As pessoas quase sempre já entravam embriagadas, pois na frente do casarão figurava um bar onde o público ia amaciando a cabeça enquanto esperava o casarão abrir. Histórias ótimas circulavam antes, durante e depois. Há quem viesse até de outros estados do país pra aproveitar uma noite no Madame.

Certa vez até “demos carona” pra um espírito perdido que estava pelo meio. Em muitas outras épocas o Madame Satã foi palco e sinônimo de underground puro, onde também circulava muitos usuários de drogas diversas. Certamente overdoses ocorreram e muita gente alimentou-se de muitos vícios por ali, da cocaína aos ácidos, passando, claro, pelo álcool, sexo e outros tapas mais pesados e certeiros que chegavam de forma injetável. O espírito de um desses falecidos, depois de uma longa noite de casarão, decidiu seguir junto conosco no carro e veio desembocar em casa. Posteriormente ele foi desconectado do ambiente e encaminhado pro lugar devido.

Em situações de menor atenção, possivelmente nos cercávamos de muita energia e presenças de quem estava ali pra mais uma dose de álcool apesar do pós-morte ou que simplesmente se alinhava com a egrégora do lugar, pela cultura ou público. A energia do casarão era muito intensa, como é de se esperar pela temática gótica. Fez muita gente dar exclusividade ao evento e até a propor uma ‘vaquinha’ pros momentos de crise da casa noturna.

Eu sou um entusiasta convicto da história do Madame Satã, mas, infelizmente, não me vejo mais frequentando o novo formato que ele se tornou atualmente. Ouço pelas bocas, eventualmente, que o próprio novo dono percebeu o mal investimento que fez ao tentar enquadrar Madame Satã no molde de negócios de suas outras casas noturnas que ele tinha fora desse nicho tão específico.

Na minha opinião, Madame Satã é algo completamente alheio aos padrões de uma casa noturna convencional e, ao contrário do que muitos empresários diriam, investir dinheiro pra modernizar o casarão é, na verdade, perder dinheiro, pois o público que frequentava queria mesmo era a decadência e a certeza de que, cedo ou tarde, desabaria um teto, gatos seriam parte indiscutível da frequência e que instalar um ar-condicionado não seria motivo suficiente pra agradar um público acostumado a ferver no sol com coturnos fechados até o joelho, sobretudos e roupas sintéticas pretas. A melhor opção pra manter vivo um espaço underground é simplesmente deixá-lo seguir sozinho, com suas falhas e sua personalidade construída ao longo do tempo.

E você? Tem boas lembranças dessas épocas? Vamos trocar memórias.

Rodrigo Meyer

Boas conversas, humor e arte.

Sei o quanto é incômodo pra muitos estarem constantemente tocados por assuntos que apontam problemas ao invés de serem conteúdos fáceis, doces e divertidos. Nem sempre a realidade será só facilidades e nem sempre será só mazelas e questionamentos. Temos potencial de transformar o “chato” em algo mais palatável se estivermos fazendo as transformações necessárias ao invés de ignorarmos os problemas varrendo eles pra debaixo do tapete.

As pessoas podem decidir com o que lidam hoje. Cada pessoa controla o que vai absorver e, em certa medida, até mesmo com que olhos vai sobrevoar o assunto encontrado. Por vezes, as pessoas estão tão cercadas de problema que sentem-se cansadas ou inaptas a lidar com a situação, devido ao peso do acúmulo. E é por isso mesmo que é importante lidarmos com os problemas, pra que estejamos com menos pesos guardados, ao invés de fingir que eles não existem até que nossas feridas sejam tocadas por um texto ou ocorrência que nos aponta nossa real situação.

Partindo consciente de tudo isso, venho hoje pra dizer sobre o outro lado da moeda. Quero dividir com vocês o quão importante é o contrapeso na vida. Além de cuidarmos de nossa própria realidade, temos, também, que abrir caminhos pra que ela seja mais gratificante, engrandecedora e, possivelmente, nos gere mais esperança. Mas, até mesmo pra isso, precisamos levantar um questionamento sobre uma barreira que nos impede de brincar deste lado da moeda.

Você que deseja uma vida mais satisfatória, já se perguntou se você está dando espaço pra esses momentos surgirem? Você traça e incentiva boas conversas, momentos de humor e arte? O que você tem feito de seus momentos para transformar as situações em algo mais agradável? Você apenas lê textos e dados e os processa como uma máquina ou absorve a essência de cada um deles e aplica isso no seu relacionamento com as pessoas? Você se transforma por dentro ou só superficialmente? Você sente-se mais vivo e divertido nas coisas que faz? Com quem você está dedicando tempo, atenção, valor e realidade?

A vida está passando para todos e a única diferença entre uma pessoa sorrindo e outra entediada está nas conexões presentes ou ausentes. Precisamos, com urgência e prioridade, nos fortalecer enquanto seres sociais e socializar. Tudo bem se você sente-se incomodado com a qualidade das relações humanas e prefere o isolamento, muita vezes. Mas, se tiver a oportunidade de desfrutar momentos com uma pessoa compatível contigo e interessante o suficiente pra tirarem boas conversas e risadas, faça isso, sem pensar duas vezes.

Neste ano, onde tudo parece insólito e desanimador, precisamos resgatar nossa própria capacidade de rir e superar as fraquezas externas para nos tornarmos fortes o suficiente pra permanecermos de pé e cruzarmos esse período sem sucumbir. Chegaremos em dias até piores, mas o que vai importar mesmo é como lidamos com essa situação. Não hesite em dizer ‘sim’ para um momento de diversão, uma saída para fotografar, ver gente, conversar, driblar o tempo entre um copo ou outro de sua bebida preferida ou até mesmo descobrir ou redescobrir a si mesmo em casa, sozinho.

Até mesmo se você, eventualmente, estiver deprimido, mas, de um jeito ou de outro, tiver condições de se propor umas horas diferentes, vale a pena a tentativa. Faça algo ao lado de pessoas que possam te apoiar, te enxergar, te valorizar e, sobretudo, faça algo que quebre o momento presente, nem que seja só uma exceção na totalidade de suas semanas ou meses. Toda experiência será somada na sua memória e você estará um passo mais próximo de ter grandes opções e lembranças futuramente.

As pessoas já se esqueceram como é conversar e o que devem fazer sobre isso sem que sejam as mensagens automatizadas dentro de messengers em busca de trabalhos, links de conteúdos externos ou qualquer outra coisa que já não expressa nada com duração e propósito coerentes. Muita gente já está perdendo a valorização do ser humano e está preferindo se relacionar com máquinas, depois de já terem substituído o convívio com humanos pela companhia de outros animais e, agora, buscam algo ainda mais individual. Como resultado triste disso, nos desacostumamos a lidar com pessoas e perdemos o traquejo social.

Por muito anos da minha vida, tive o efeito colateral de certas situações da infância e adolescência que me soldaram numa plataforma de não socialização. Como todo problema dessa proporção, surgiram problemas derivados que se espalharam mesmo depois que as questões iniciais já estavam resolvidas, pois ter passado tanto tempo de um jeito, trouxe, por exemplo, um certo descompasso com o momento do retorno da socialização, tal como as questões de identidade e personalidade, questões de carreira profissional, estudos, etc. Foi quase como acordar de um coma num futuro totalmente desconhecido e repentino.

Por toda essa experiência que tive e todo o esforço que foi necessário pra me colocar de volta nos trilhos, posso dizer que não vale a pena esse novo “modelo” de sociedade em que estamos, pois o resgate é sempre mais difícil do que a queda. Tendemos a nos afundar em modelos “alternativos” de realidade, através dos eletrônicos, em especial da internet. Isso poderia ser algo bastante proveitoso se não estivéssemos usando tudo isso apenas como fuga da realidade. Ao tentarmos desviar do convívio humano, ficamos menos humanos, pois a característica maior de nossa espécie é justamente a de sermos seres sociais. Negar isso é plantar problemas.

Eu não posso tirar a razão das pessoas que preferem animais e máquinas, afinal o ser humano se tornou intragável com tanto tempo na contramão do necessário. Mas, cavando um pouco aqui e ali, você pode tentar encontrar pessoas que também estão cansadas do caos humano e que buscam as exceções espalhadas para preencher suas vidas com melhores opções.

Com quem iremos conversar e extrair bons momentos se as pessoas estão presas ao imediatismo e automação da vida pseudo-moderna? Onde encontraremos satisfação no toque, no perfume e no olhar, se já deixamos tudo isso de lado para nos resumirmos a emoticons? Eu quero te propor uma reconexão com os prazeres da vida real e humana. Escreva cartas a mão, substitua o excesso das conversas virtuais por visitas, substitua os links de humor por momentos presenciais de risada a dois ou em grupo. Ande quarteirões pra encontrar o que nem estava procurando. Permita-se um sorriso no rosto ao encontrar uma peça de roupa perdida de alguém que esteve em sua casa. Note como as coisas são simples e poderosas apenas por haver o componente presencial.

Em última análise, toda satisfação desses pequenos momentos são consequência de nossa essência como seres sociais. Precisamos socializar e dividir tempo e espaço com as pessoas. Se dê o benefício de ver alguém e poder reparar nos seus trejeitos, seu calor, seus atos espontâneos. Dizer tudo isso soa como se estivesse dizendo obviedades e de fato são coisas bem óbvias, mas que estão sendo perdidas e descartadas dia após dia. E se nem o óbvio está sendo executado, então precisamos repetir obviedades. Como diz a frase:

“Tristes tempos onde é preciso dizer o óbvio.”

Não deixe essa chama se apagar. Não deixe a humanidade se desumanizar. Não espere que o outro te proponha convites, saídas e opções. Faça você mesmo sua parte e seja engajado na causa mais importante do mundo que é manter-se humano dentro da humanidade.

Rodrigo Meyer

Rir ao lembrar de momentos de 10 ou 20 anos atrás.

Para muitos, esse é o tempo de uma vida. Para outros são fases de uma experiência maior. Viver é basicamente uma linha evolutiva de aprendizados e experiências ao longo do tempo. Desse ato de viver, escorrem lembranças, prazeres, sensações, gatilhos, emoções, conhecimento, sabedoria e tantas outras coisas. Tudo que somos hoje é reflexo do que processamos anteriormente. Todos os contextos e detalhes da nossa pessoa e nossas relações com o mundo e outros seres transformam nossa consciência, nosso corpo, nossa vida, nossa memória, nossa história, nossos valores, pensamentos e momentos. Somos sempre diferentes a cada segundo. E quem não muda, já está morto.

Sempre me pego em momentos onde estou experimentando o passado novamente. Rindo de piadas que dividi em algum momento com pessoas que me eram valiosas na ocasião. De certa forma é como uma saudade, pois gostaríamos de voltar a ter aquela experiência. Talvez por isso mesmo é que fazemos esse resgate na memória para revivermos essa projeção do momento para rirmos novamente, relembrarmos um abraço, um olhar, uma frase, uma ideia ou uma situação.

Bom é olhar pro passado e ter muito pra se orgulhar de tudo que fez e foi. Eu estou sempre agradecido por ter feito da minha vida algo próprio, num universo próprio. Isso não significa que não tenha dividido esse meu mundo com inúmeras pessoas. Na verdade, foi por estar tão assentado em meu mundo que pude, com muita firmeza, oferecer minha realidade à todos os que se aproximavam de mim. E foram momentos incríveis de muitas trocas e transformações. É como se conectar finalmente com alguém que seja compatível conosco, tal qual um eletrônico que finalmente encontra o modelo certo de conexão para ter função e ir adiante no seu objetivo.

A satisfação de poder reviver o passado é tão somente a certeza de que tivemos bons momentos. Mas, se ao olharmos pra trás a saudade pesar de forma pejorativa, então algo incompleto ficou nessa história e precisa ser reavaliado e/ou corrigido. O passado não deve ser um peso em que sentimos que perdemos algo, mas sim algo que nos faça sentir ter acertado nossa jornada, nosso caminho de progresso pessoal. Ficar em paz no momento presente depende de estarmos bem resolvidos com nosso passado e não termos nenhuma ansiedade desnecessária com relação ao futuro.

Às vezes parece que dentro da vida existem várias outras vidas. Em cada fase vivenciamos momentos que não sabemos quanto tempo vai durar e quão importantes serão posteriormente na história maior dessa cronologia. Tudo que sabemos inicialmente é que estaremos diante de pessoas e situações e a medida em que as conhecemos vamos definindo um norte para seguir. Como navegantes em mar desconhecido, tudo que temos pra nos basear são as referências próximas do que gostamos e não gostamos, de onde está mais confortável ou desconfortável e o que nos preenche de maneira mais intensa ou menos intensa.

Embora não existam garantias, não podemos abandonar os momentos com medo do que eles possam se tornar no futuro, principalmente sobre a possibilidade do término desses prazeres ou da nossa guinada de interesses na vida. Tudo que devemos fazer é aproveitar o momento, pois só ele é real e ignorá-lo por medos ou incertezas é a receita garantida pra não vivenciar nada além da superfície e terminar a vida infeliz, sem experiência, sem sabedoria, desperdiçar seu tempo e também o dos ouros.

A coisa mais produtiva que você pode fazer pro seu bem-estar psicológico, físico, emocional, intelectual e até mesmo espiritual é se entregar verdadeiramente a cada novo momento. Ninguém poderá evitar que no meio de tudo que existe no mundo, algumas coisas não sejam tão boas como pareciam inicialmente, mas também é verdade que nos surpreendemos muito diante de coisas que começam pouco interessantes e se mostram sensacionais ao longo do tempo. Histórias são construídas e divididas e não nascem prontas. Você nunca poderá saber o que te espera na próxima curva da sua vida e, mesmo com todo filtro que tenhamos, ainda somos consciências explorando um infinito ao redor. Permita-se opções novas, diferentes, improváveis, maiores, melhores e deixe tudo ser tão intenso quanto você tiver potencial pra ser e desejar em si mesmo.

No final das contas é isso que vai te permitir também chegar em certa idade e rir de coisas que ocorreram há 10 ou 20 anos atrás. Talvez você ria de seus próprios erros ou simplesmente reviva seus acertos. Importante é que sinta-se em espaço novo, renovado, mais inteligente, mais flexível, mais sorridente, mais vivo, mais interessante, mais divertido, mais feliz, mais tranquilo, mais amigo, mais bonito, por dentro e por fora. Qualquer hora o tempo passa, a vida te escolhe pra avaliar e você é obrigado a levantar o tapete e lidar com o que ali tiver escondido e negligenciado por tanto tempo na vida. Melhor, então, que sua vida tenha sido construída de maneira leve, transparente e justa. O resto, com boas companhias, sempre se ajusta.

Rodrigo Meyer

A espiral descendente na Literatura.

A Literatura tem um forte impacto no mundo, desde que o homem aprendeu a se comunicar por textos, sejam eles compostos de letras convencionais modernas ou por símbolos outros. É através da Literatura que o conhecimento começou a ser disseminado além da oralidade e também a ser estocado e compartilhado de maneira mais prática. A partir disso o mundo se transformou drasticamente. Mas, por ter passado tanto tempo que a escrita está entre as pessoas, já não nos damos conta mais do papel que ela tem e de como é viver sem os benefícios dela.

Nos tempos atuais, estamos passando por uma transformação pela internet e as novas mídias. Redes sociais, messengers, compartilhamento de fotos, links, criação de vídeos e até uma certa infinidade de blogues e sites diversos de notícias e informações através do texto. Na época em que televisões eram algo comum pelas casas e computador não, a leitura de livros ou revistas já havia sido deixada de lado pelos poucos que ainda liam. E com a chegada e massificação das mídias digitais, a televisão foi substituída pelo Youtube e Netflix e os livros parecem ter sido ainda mais esquecidos, talvez em detrimento da possibilidade de criar sem custo de impressão com o uso do ambiente digital. Mas é difícil dizer a que passo anda a leitura no Brasil e no mundo em geral (de qualquer tipo que seja).

Segundo os últimos dados que vi, 73% dos brasileiros não leem. Se considerarmos o tamanho da nossa população, é alarmante pensar que quase toda ela está desvinculada da leitura. Claro que, de maneira informal, estamos todos sempre lendo alguma coisa ou outra, afinal até pra trocar mensagens pelo Whatsapp precisamos ler, assim como boa parte das pessoas lê, bem ou mal, posts de redes sociais e algumas notícias aqui e ali (creio). Mas, continua sendo um cenário preocupante, pois se é somente isso que estão lendo, imagino que a leitura deve estar falha, sem parâmetros, sem aprofundamentos e sem reflexões muito coerentes, pois o conhecimento humano passa, principalmente, pelos livros, em razão da estruturação mais profunda e prolongada do conteúdo, o foco e a própria prevalência de maior confiabilidade da fonte, uma vez que não é tão simples quanto rascunhar um texto gratuito qualquer pela internet.

Se de fato chegarmos a conclusão de que estamos ficando sem leitores, surge um segundo problema que é a quantidade e/ou qualidade dos escritores que temos ou teremos por aqui. É evidente que pra ser bom escritor, ler é essencial. Podemos escrever livremente, mas a qualidade do que escrevemos deveria ser alicerçada no que conhecemos e estudamos com os livros, as reflexões que fazemos a partir dessa longa jornada mastigando ideias e referências, cruzando informações, dados, opiniões, acontecimentos históricos, compreensão de diferentes obras de filosofia ou até mesmo a possibilidade de tocarmos em conteúdos traduzidos de autores estrangeiros para visões mais diversas e completas do ponto de vista cultural, político, além de termos a chance de ler autores de séculos anteriores, o que se opõem fortemente com os contatos imediatistas e instantâneos das comunicações de internet. Se estivermos sem leitores, estaremos também sem escritores ou pelo menos sem bons escritores. E se isso ocorre, temos menos gente disponível pra criar conteúdos que nos prendam a leitura. E assim, numa espiral descendente, teremos ainda menos leitores.

Eu não sou aquele que combate modernidades, apesar de saber que o contexto psicológico e social da maioria das pessoas, às coloca de forma pouco estruturada diante das tecnologias. Pela facilidade que temos de apertar o botão do mouse e assistir 15 minutos de um vídeo ou até mesmo de assistir coletâneas inteiras de episódios de séries, nos acomoda de tal maneira atrás das telas de computador, celular ou tablet, que é compreensível que muita gente esteja preferindo ver imagens e ouvir sons do que ler textos.

Consigo entender que estamos nos tornando multitarefas, consumindo diversas mídias ao mesmo tempo e até mesmo que reinventamos os modos de socializar, até porque, o que hoje está se tornando uma característica por conta das tecnologias, já fazia parte de mim, independente delas e, portanto, entendo que possa ser possível e positivo se bem desenvolvido. Eu tenho Distúrbio de Déficit de Atenção e, por muitas e muitas vezes, desde sempre, eu acabo facilmente distraído pra outras coisas, enquanto tento prestar atenção em uma aula, um filme ou a leitura de um texto. Inúmeras foram as vezes em que me peguei pensando por meia-hora em outras coisas a partir de uma sucessão de pensamentos por conta de uma lembrança ou reflexão que me levaram pra um longo caminho de saltos e desvios em relação ao conteúdo original.

Durante a infância e adolescência, quando percebia que estava nesses processos derivados da perda de atenção, já havia se passado um enorme tempo e eu havia esquecido o que estava inicialmente assistindo, lendo ou ouvindo. Claro que, felizmente, com o passar dos anos, acostumado com essa característica, acabei criando maior controle para evitar esses momentos que, embora muito bons e úteis, eram contraditoriamente ruins e inúteis, porque iam na contramão dos objetivos sociais por destoar da forma ou ritmo padrão de aprendizado ou socialização. Eu queria caminhar, apesar de tudo e essas características estavam atrapalhando, a princípio. Você já deve ter conhecido muita gente em situação parecida, que começa a contar algo sobre um determinado assunto e começa a abrir parênteses na comunicação e se estendem tanto que até se esquecem do que estavam falando. Com o Déficit de Atenção há também isso, mas há o mesmo problema na absorção do conteúdo.

E, como bom DDA (Distúrbio de Déficit de Atenção), nome do “problema” que usamos também pra nos identificar, cá estou dando uma volta imensa pra falar de Literatura. Imagine quantas e quantas pessoas não são levadas pelas mesmas distrações (seja pelo DDA ou outros motivos) e que acabam abandonando os textos, os livros ou os conteúdos em geral, pela busca de conteúdos mais breves ou fracionados que possam ser absorvidos integralmente se divididos em trechos rápidos o suficiente pra que não dê tempo de se distraírem. Sei que o problema de muitos não-leitores em relação a leitura é tédio, preguiça e visão pejorativa do próprio ato de leitura, mas sei também que isso é sintoma e não causa. A causa disso tudo é, porém, uma questão mais pessoal do que cultural, embora em ambos os lados seja necessário e possível que mudemos a realidade.

Ler mais (assim como escrever), está relacionado ao quanto estamos acostumados com esse formato de comunicação. O hábito é muito mais do que aquela ideia poética de que magicamente as pessoas passam a gostar de ler apenas lendo. O hábito é fruto de vontade e de necessidade. Essas duas coisas juntas fazem nosso convívio com os conteúdos muito mais prazeroso. É chato ler por obrigação assim como é desgastante pra nossa mente e consciência ler um assunto ou tema que não gostamos ou não temos curiosidade. E em nossa sociedade, verdade seja dita, não despertamos entendimento nem mesmo de nossos reais gostos ou curiosidades, porque temos um preconceito gigantesco com praticamente tudo, sem nem mesmo conhecermos de verdade, já que, muitas vezes, somos apresentados de forma errada aos temas ou até mesmo à conteúdos ruins sobre tais assuntos.

É difícil fazer alguém gostar, por exemplo, de matemática se a maneira que apresentamos ela nos faz bocejar ou ficar de cabelos em pé em meio ao emaranhado de números. As coisas, por mais complexas que sejam, podem e devem ser explicadas da maneira mais simples possível, sobretudo com uso de muita criatividade, exemplos práticos e fusão de diversas áreas do conhecimento. E isso não ocorre em um sistema de ensino onde os professores são máquinas de repetir conteúdos que eles também aprenderam pelo mesmo sistema. Muita gente passou a vida sem comer brócolis, talvez traumatizados pela infância, época em que o paladar humano está mais voltado pra doces e, portanto, o brócolis e outras coisas parecem menos apetitosos. Mas, passado os anos, quantas pessoas se propuseram a redescobrir o sabor e a textura do brócolis? De maneira semelhante, somos traumatizados por um sistema de ensino falho que nos traumatizou com aulas maçantes, livros fora de contexto, redações escolares obrigatórias com temas e formatos pouco ou nada úteis, convívio escolar marcado por situações desagradáveis, uniforme escolar, estrutura precária e/ou antiquada e várias outras referências.

Se já superamos essa fase, é chegada a hora de revermos o quão proveitoso pode ser a Literatura. A internet, inclusive, pode ser uma grande aliada pra começarmos essa experimentação ou transição para conteúdos maiores e melhores. Há muita coisa na internet, em temas tão diversos que é praticamente impossível que pelo menos algo dela não seja motivo suficiente pra você dedicar tempo pra ler, nem que sejam algumas linhas por vez. E não faltam iniciativas ótimas que tentam nos reconectar pros aprendizados, em especial pela leitura.

No tempo do extinto Orkut, toda nossa participação na rede social se resumia a pequenas frases, saudações, emoticons e alguns gif-animados. Com a chegada do Facebook, demoramos um tempo pra nos adaptar e começamos bem lentamente, por poder postar apenas 12 fotos por profile. Com o sucesso da rede, os servidores se ampliaram pra atender a demanda de milhares de usuários e, assim, mais conteúdo foi possível de ser adicionado. Mas, inicialmente, tudo se resumia a pequenas postagens de status, como uma espécie de Instagram em modo texto, sobre o que cada um estava fazendo, pensando ou como estavam se sentindo. E com a massificação dos grupos / comunidades dentro do Facebook, os debates começaram a se ascender em diversos temas, com um sentimento de “obrigação” de comentar e dividir ideias sobre o que outros usuários estavam postando. Foi uma fase difícil onde muita gente socializava, porém dedicavam muito pouco tempo escrevendo ou lendo, até mesmo porque não mantínhamos o Facebook constantemente aberto no navegador ou celular, o que tornavam os debates bem pobres e superficiais.

Mas, a chegada de certos eventos e crises políticas e sociais no Brasil (alguns até internacionais) cutucaram o brasileiro pra uma conduta surpreendente de engajamento na internet e, como efeito colateral, textos maiores começaram a ser escritos e lidos. Acompanhei essa transformação como estudo e também como algo que estava vivenciando na prática junto aos demais. Gradativamente as pessoas foram de pequenas frases para curtos parágrafos e em pouco tempo estavam abertas para textos de 5 ou mais parágrafos sem nenhum incômodo pela extensão do conteúdo. Textos longos, ocasionais, eram absorvidos na íntegra e até comentados de forma massiva. Parecia um bom período pra Literatura, ainda que fosse via internet e por eventos momentâneos. Passamos por alguns altos e baixos e acabamos caindo numa época onde a moda era postar o chamado “textão” na internet. Grupos de debate, desconstrução e ativismo fizeram a vez por um bom período deixando algumas verdades pelo caminho, apesar de também deixar muito desabafo descabido. Mas de uma coisa eu agradecia: as pessoas pareciam estar lendo e escrevendo e descobrindo que isso não fazia cair os olhos ou os braços.

O Youtube não era ainda a carreira mais provável e desejável de tanta gente, então ainda se prendiam mais aos blogues, os sites de humor e os grupos. Agora, com a chegada de mídias diferentes e de tantos aplicativos de smartphone, as pessoas se acostumaram com um modelo de vida que é essencialmente baseado nessas tecnologias todas, desde o consumo, a produção de conteúdo, a socialização e, por fim, o trabalho de maneira profissional ou que aspira ser. O Youtube invadiu a vida e a mente das pessoas de tal forma e com tal quantidade de conteúdo que muita gente de fato largou tudo e todos e foi viver o Youtube, produzindo e assistindo. Não é de se surpreender que a indústria literária teve uma grande baixa nos últimos tempos. Estamos em crise literária, não só do ponto de vista financeiro das editoras e livrarias, mas da própria Literatura em geral, em produção e leitura, seja digital ou não.

É claro que textos longos afastam muita gente, especialmente em uma época onde a velocidade das informações é tanta que estamos numa constante ansiedade pra cumprir cada vez mais coisas. Atualizamos a tela do navegador de maneira compulsiva em busca de mais, mais e mais, desde que sejam conteúdos rápidos, curtos, superficiais. Trocamos os textos por hashtags, trocamos as fotos autorais por imagens genéricas do Google, trocamos os vídeos por trechos específicos convertidos em gif-animados e trocamos, muitas vezes, até a produção de conteúdo por um simples arrastar e soltar de qualquer coisa para dentro das páginas de Facebook, blogs e até dos messengers. Nunca se teve tanto SPAM e vendas imediatistas em lugares onde nem se divide tal atividade. Desesperados pela crise financeira de 2016 pra cá, muita gente está, de forma alucinada e sem nenhum critério, postando vendas e supostos serviços e produtos em todo e qualquer grupo de Facebook que fazem parte. E a Literatura? Ela morreu afogada nesse caos todo. Já não lemos, pois sequer temos tempo pro superficial e banal.

Estamos verdadeiramente adoentados e, tirando uma pequena parcela de internautas brasileiros, não somos mais absorvedores de conteúdos sérios em nenhum formato mais. Até mesmo os vídeos que poderiam ser uma grande conexão com todas as pessoas, independente da escolaridade, já se tornaram um mar de bobagens, famosos gravando suas inúteis superficialidades ao longo do dia, sem nada pra dizer, sem nada pra ensinar, apenas dividindo um pouco do tempo deles com você, lucrando às custas do vazio intelectual  de uma sociedade que, ironicamente, plantou seu próprio vazio ao se distanciar de diversas outras fontes de comunicação. E, pra por cereja nesse bolo todo, quem mais vende livros atualmente são os próprios Youtubers. Parte deles, sem nem ter capacidade pra tal, fizeram uso de GhostWriters (escritores contratados pra escrever o livro no lugar dos “autores”). Será que essa onda de fama pelas carreiras de ídolos do Youtube, por estarem vendendo livros, aproximará as pessoas de volta à Literatura? Acho improvável, pois como muitos apontam, comprar não significa ler. Caminhe pelos grupos de “leitores” no Facebook e verá o mar de gente dizendo tranquilamente de como acumulam livros novos sem terem sequer lido os anteriores. Muitos deles, renovam suas compras, vendendo livros intactos ainda com o plástico da embalagem, para transformar os livros que nunca leram em qualquer outra moda passageira, como trocar de celular a cada seis meses ou comprar uma câmera ou lente pra vendê-las uma semana depois.

A crise literária é, antes, uma crise existencial humana, crise pela modernidade com mal uso das tecnologias e, possivelmente, uma crise no sistema educacional e cultural do Brasil e da maioria dos países do mundo. Estamos enfrentando um monstro muito maior do que simplesmente uma queda no interesse pela leitura. Estamos enfrentando um aumento gritante de casos de depressão e suicídio de uma população que se viu aprisionada pelo vício em redes sociais, relacionamentos frios e sintéticos, ausência de convívio humano com amigos e família, trabalhos virtualizados, alimentação rápida e precarizada na própria mesa do computador com o celular em mãos por cima do prato.

As pessoas estão se enforcando a cada dia, porque recusaram os tesouros anteriores que lhes apresentaram de maneira falha, sem que pudessem notar o valor e posteriormente se viciaram em coisas das quais não souberam extrair valor, mas que lhes foram apresentadas como se fossem as coisas mais preciosas e necessárias da Terra, talvez justamente porque a sociedade estava tão vazia em cultura que abraçou com bons olhos as algemas que hoje veste. Esse dilema faz muitas gente morrer pelas mídias que elas mesmas inventaram e que não sabem porque ainda continuam com elas ou como parar. Seguem acessando as redes sociais, apesar de não pretenderem extrair nada delas, cientes que as redes sociais também já não pretendem oferecer.

Estou repensando a ideia de continuar a escrever livros. Não quero tomar muito tempo, nem gastar papel, com algo que possivelmente não será lido e, se lido, poderá ser muito pouco compreendido. Talvez fizesse mais sentido, entrar por dentro do Youtube e plantar a chave que nos liberta dessa prisão virtual. Com o potencial infinito da internet, deveríamos estar vencendo pelo conhecimento, mas a verdade é que estamos nos degradando em diversos sentidos e, na maior parte do nosso tempo. A verdade é que, por trás dessa virtualidade toda, estão seres humanos comendo mal, dormindo pessimamente, infelizes, cansados, desempregados, iludidos e viciados, que desaprenderam a socializar, já não fazem mais sexo e o pouco que sabem da vida se resume à algum link que possam te mandar. Já não traçam mais conversas, não viajam, não se encorajam, não questionam e nem querem ser questionados. Não sonham, não vivem e nem sabem por quem foram derrotados.

Essa semana eu vou sentar pra pensar exclusivamente nisso. Estou em uma jornada maior, tentando entender pra poder ajudar a recolocar as pessoas nos trilhos do aprendizado, da saúde emocional e física, do desenvolvimento de talentos e potenciais e de diversas outras questões que parecem estar nos dando ultimatos. Quero encontrar saídas novas, soluções melhores, alternativas, ferramentas, parcerias, iniciativas, ações mais eficientes e qualquer coisa que faça as pessoas se sentirem vivas novamente. Me envie suas sugestões e vamos fazer um grande brainstorm.

Rodrigo Meyer