Crônica | Emergência médica.

Um imprevisto e lá estava eu. Não tive escolha. E, talvez, não poder escolher seja o pior de tudo. Logo nos primeiros dias o corpo se desintoxicou. Me senti renovado. Ainda que estivesse cheio de incômodos, dores e tédio, ainda era melhor. Em dado momento acordo e me sinto visita no lugar, como se eu fosse o estranho. Não deixa de ser verdade.

A televisão ligada em um pseudo-telejornal. Ela estava sentada assistindo e eu aproveitei o momento pra ver como estava indo. Me fiz de idiota e lhe perguntei algo que eu já sabia detalhe por detalhe. Veio uma resposta hipócrita, cheia de preconceitos e ódio. Vi que nada havia mudado, apesar de tantos anos passados. Não havia esperança alí. Deixei o assunto se encerrar, pra evitar socializar. Fui buscar o que fazer. Alternava entre dormir, comer, ler e matar tempo no smartphone. Tudo ia meio devagar pro meu gosto, mas ao menos havia silêncio.

Mas isso não durou muito. Logo veio à tona a essência de tudo que eu me afastei anos atrás, por não suportar o acúmulo em uma vida inteira. No cômodo ao lado, discutiam asneiras, como se fosse a coisa mais urgente do mundo. Gastavam vinte, trinta minutos inventando motivos pra estarem alí, falando, falando, falando, mesmo que não estivessem dizendo nada. Era como se eu fosse o doente, mas elas que estivessem com o intestino no lugar da boca. Me saturei. Um gatilho instantâneo foi ativado na minha mente e eu me senti no inferno. Escolhi ir embora mesmo sem forças, sem nem comer. Às vezes andar pra trás é melhor que andar pra direção do abismo. Eu voltei pra casa e agradeci por estar sozinho, mesmo sabendo que poderia não aguentar. Não tenho medo da morte, mas sim de ter que aturar esse mundo por muito tempo.

Rodrigo Meyer

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Crônica | Fugindo da seca.

Deitei e tentei dormir. Difícil foi encontrar uma forma de me acomodar. Nenhuma posição oferecia conforto razoável pra poder me desligar do mundo e ir pros braços de Morpheus. Passei a noite virando de um lado pro outro tentando burlar a dor no corpo. Controlar a mente era minha única saída. O corpo adoecia. Acordei inúmeras vezes e achei que era sorte por me livrar de sonhos tão enojantes. Da última vez, decidi levantar, bebi mais água, sentei na cadeira e tentei respirar com profundidade. Muitos rostos apareceram no mural de culpados dentro da minha memória. Eu sei da minha história tão bem quanto dos que sempre tentaram me sabotar. Sei, sobretudo, que a fraqueza do inimigo está naquilo que ele não pode enxergar. Tentei suportar uma ou duas horas diante do computador, mas prevaleceu a dor. Abri as janelas pra entrar um pouco de novidade. Deitei e voltei pro mundo dos sonhos, contando os dias para o fim do mês. Logo mais, se tudo correr bem, eu não estarei mais por aqui. Que fiquem os carniceiros disputando ódio, mesquinharia e podridão. Eu estarei praticamente viajando, para aquele lugar que pouca gente conhece, quase nunca falam e surtam de medo de um dia chegar perto. A mente dessas pessoas é puro deserto. Sobra areia, nada floresce. Essa gente não cresce.

Rodrigo Meyer

Depressão convive com amor-próprio?

Normalmente as pessoas tem uma visão curta daquilo que elas mesmas pouco vivenciaram. Muita gente no mundo não tem conhecimento concreto nem da depressão nem do amor-próprio. Não ter cruzado com essas experiências ainda, pode levar a deduções e, como sabemos, deduções sem embasamento em fatos é só preconceito.

O amor-próprio é a estima prioritária que temos por nós mesmos, é nos vermos como dignos, merecedores de respeito, de coisas boas, etc. Assim, ter amor-próprio nos faz querer buscar uma realidade que contemple nosso ser de forma positiva. Todos que possuem amor por si mesmos, desejam ter liberdade, prazer, progresso, dignidade, assim como receber respeito pelos demais. Se perdemos o amor-próprio, começamos a não nos preservar nesse sentido, deixando que pessoas, coisas e situações ruins, façam parte da nossa realidade, sem filtro, sem críticas, sem resistência. Por vezes, relacionamentos são basicamente a união de duas pessoas sem amor-próprio. Uma tolera a outra, apesar do malefício que causam reciprocamente.

Entendido o que é o amor-próprio e a ausência dele, falemos um pouco da depressão. A depressão é uma doença real que afeta um número alarmante de pessoas ao redor do mundo todo. As razões para alguém desenvolver um quadro de depressão podem ser diversas, incluindo combinações. Embora possa existir predisposição genética na equação, frequentemente é o ambiente e as situações vividas que se tornam gatilhos que ativam a manifestação da depressão em si. Quando uma pessoa vive situações na vida das quais não concorda, não sabe como lidar, não controla ou não tem soluções a altura pra resolver, pode se ver cansada, como se estivesse lutando contra a correnteza em vão. É nesse ponto que se observa que, mesmo desejando o melhor pra si, tal pessoa pode se ver sem espaço no mundo, sentindo como se ela estivesse perdendo valor e que tudo parecesse sem esperança.

O senso de preservação da vida e do bem-estar, quando estamos minimamente saudáveis psicologicamente, costuma estar ativado. O ser humano, a princípio, está sempre em busca de prazer e bem-estar. Porém, longe desse ideal, muita gente escapa dessa premissa humana por conta de distúrbios, traumas, complexos ou outras situações. Pode parecer estranha a ideia, mas muita gente que tem amor-próprio colide com a realidade em quase tudo, já que o mundo não corresponde aos seus valores e não é um ambiente no qual alguém saudável desejaria viver. Quando você ama uma pessoa, por exemplo, você quer ver ela livre e feliz, pois qualquer coisa diferente disso não é amor. Da mesma forma, se você ama a si mesmo, quer se ver livre e feliz. E, sabemos, o modo como a sociedade se apresenta, com suas condutas doentias e equivocadas, muitas vezes nos impede exatamente de sermos livres e felizes. Explicando assim, passo a passo, torna-se mais evidente essa conexão entre depressão e amor-próprio.

Há uma frase de Jiddu Krishnamurti que diz “Não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade doente.”.

Assim, conclui-se que se você quer o melhor pra si, mas a sociedade lhe é tóxica, você não estará bem adaptado a ela. E se estiver bem adaptado a tal sociedade, então, certamente, você não tem amor-próprio. O amor-próprio nos faz buscar mudanças, pois não aceitamos conformados o malefício que nos corrói. Desenvolvemos defesas, criticamos os males do mundo e nos posicionamos de forma ativa pra combatê-los, justamente porque não queremos que os malefícios nos combatam e que destruam o mundo no qual vivemos, pois queremos e precisamos de um mundo positivo. Lembra-se? Amor-próprio é gostar de si, se dar coisas boas, querer se ver livre e feliz.

Lamento se, eventualmente, esse texto suscita lembranças incômodas sobre a realidade ou se quebra um pouco os fios de esperança tão difíceis de serem sustentados nesse mundo adoentado. Sei que muitas das pessoas que cruzam o meu caminho, assim como eu, tiveram depressão ou estão passando por uma agora mesmo. E é exatamente por saber desses contextos e da importância do assunto, que levanto ele diante da internet, sempre que necessário. Gostaria de ter a solução pra isso que muitos de nós vivencia individualmente, mas não tenho. Oportunamente, o próprio Freud dizia “Antes de se autodiagnosticar com depressão, certifique-se de que não está apenas cercado de idiotas.”. Com essa frase, fica fácil entender porque tanta gente se sente cansada, saturada, desiludida da vida e do mundo, sem esperança, sem paciência e até mesmo com pensamentos suicidas. Em um mundo onde as pessoas fazem idiotices, o ambiente se torna tóxico, inóspito, inviável para princípios básicos da saúde mental: liberdade e felicidade.

É difícil caminhar em um ambiente onde as pessoas estão colidindo umas com as outras, transformando-se em barreiras para os demais. Habitamos um mundo que transborda inveja, sabotagem, falta de apoio, preconceito, racismo, fanatismo, alienação, ignorância, violência, hipervalorização da futilidade e pouco apoio aos indivíduos em si, aos seus potenciais, suas necessidades, seus desejos, seus valores. Estatísticas, nada animadoras, colocam o Japão como um dos lugares de maior incidência de suicídios no mundo. Isso se dá, segundo as próprias queixas da população, ao modelo de sociedade que exige muito das pessoas, especialmente em estudo e trabalho, sobrecarregando-as de estresse, pressão social, cobranças familiares e profissionais, gerando um sentimento de que não se é capaz de atender as demandas ‘padrões’ dessa realidade.

Independente de cultura e predominância, em outras regiões do mundo, as taxas de suicídio acompanham motivos similares ou com a mesma estrutura lógica. De forma resumida, a depressão que chega ao extremo do suicídio é um grito de alerta ao mundo de que o mundo não é um lugar viável pra se viver. Explicando a situação em repetidas frases, algumas realidades óbvias do mundo saltam aos nossos olhos. Muitos de nós ignoramos a saúde psicológica das pessoas em detrimento de metas e padrões inventados que, no fundo, causam mais prejuízo do que benefício. Um mundo que permite que cresça o número de pessoas que optam pelo suicídio, apenas pra não ter que abrir mão de certos vícios e/ou modelos de sociedade, de família, de relacionamentos “amorosos” ou de “amizade”, bem como os modelos e relações de trabalho e estudo, certamente está se destruindo. Uma sociedade que aceita carregar o prejuízo da própria destruição, eliminando seus membros em casos evitáveis de suicídio ou outras fugas, certamente é uma sociedade que não ama a si mesma. Se uma sociedade é composta por indivíduos somados, fica claro ver que as pessoas que constroem essa sociedade não possuem amor-próprio, já que fomentam exatamente o cenário do qual lhes dá o maior prejuízo tanto pessoalmente quanto coletivamente (se é que podemos separar uma coisa da outra).

Outra curiosidade é que estas pessoas que plantam e moldam a sociedade pra um ideal inviável e nocivo, ao mesmo tempo em que não possuem amor-próprio, são também por demais egoístas, já que suas ações não levam em conta o malefício causado aos demais. Uma coisa é não estarmos bem com o mundo e com nós mesmos e nos expressarmos de forma a fugir ou nos defender dessa realidade e outra, completamente diferente, é arrastar todos os demais pro buraco pelo modo como escolhemos reagir ao problema ou ao mundo. Eu não pretendo ser insensato a ponto de incentivar o suicídio, mas, entenda o que vou dizer: o suicídio é um jeito menos errado de lidar com a inadequação ao mundo, quando comparado com a conduta do egoísta que, não se importa de causar ainda mais malefício no ambiente e ainda mais dor nas pessoas, arrastando elas pra um cenário ou buraco de violência, abandono, fome, miséria, machismo, cobranças desproporcionais, abusos, desemprego, falta de apoio, doença, disputas doentias, etc. Enfim, não se pode dizer que o suicídio é menos aceitável que a opção de submeter outras pessoas a esse mundo torto projetado por egoístas. Nesse sentido, me vem na memória um trecho de letra cantada por Cazuza onde ele dizia:

“Eu não posso causar mal nenhum, a não ser a mim mesmo.”.

Embora o contexto da frase de Cazuza se referisse ao uso pessoal de drogas, é válida a ideia de que, em qualquer que seja nossa escolha de fuga do mundo, não causamos danos diretos aos demais, quando nos voltamos pra opções individuais. Muita gente alega, contudo, que tanto para o caso de abuso de drogas ou suicídio, as famílias e os amigos em torno do indivíduo são também impactados por essa decisão individual. Mas, acredito, no momento, que não se pode controlar o que os outros vão sentir sobre fatos e nem sobre como nos portamos sobre nossa própria vida e experiência. Somos responsáveis somente por nós mesmos. Cada um de nós tem uma vida e dela escolhe o que fazer, como gerir e o que aceita ou não incluir no hall de valores. Querer que uma pessoa se prive de suas fugas com o simples argumento de que outros sofrerão com essa decisão, é um argumento vazio, até porque a pessoa que opta por uma fuga já está sofrendo e não vai deixar de sofrer, mesmo que se coloque mais cobrança e pressão social e familiar pra que ela dê preferência a proteção do sofrimento de terceiros, hipoteticamente no futuro. Nada menos saudável que isso. É como entregar mais um motivo de dor pra quem já está com tanta dor que deseja se ausentar da vida. Sejam conscientes do equívoco e evitem propor isso como argumento a uma pessoa deprimida e/ou suicida.

Apesar das boas intenções de querer ver alguém superar essa situação ruim, quando o assunto é interno a um indivíduo e subjetivo o suficiente pra ser único em cada pessoa, não se deve tentar sobrepor os interesses sociais e/ou de pessoas externas aos interesses do indivíduo em questão. Isso não é, nem de longe, um incentivo ao suicídio, pois, bem ao contrário, visa poupar uma pessoa de mais danos do que ela já carrega, possivelmente desacelerando a chegada de um potencial desfecho suicida. Não coloque mais água em um copo que já está cheio, senão ele vai transbordar. Se queremos frear os casos de suicídio, precisamos parar de sobrecarregar as vítimas de depressão e deixar que elas tenham espaço e condição pra caminharem. Por vezes essas pessoas estão buscando ajuda, mas só estão encontrando pessoas e situações que atrapalham ainda mais seu quadro. O ser humano tem o potencial de abafar ou incentivar coisas tanto em si mesmo quanto nos outros. Assim como os que veem um incêndio em uma floresta podem tentar brecá-lo com um círculo de pedras ou simplesmente colocar inúteis gravetos ao redor das chamas. Na vida é preciso saber se o que fazemos, falamos ou cobramos de um indivíduo ou coletivo, mais atrapalha do que ajuda. De uma coisa eu sei: não falar de suicídio pode até não suscitar a ideia na mente de muita gente, mas é também por não falar disso, que o assunto segue desconhecido e ignorado por grande parte da sociedade e, com toda certeza, isso não ajuda a eliminarmos esse tipo de problema do mundo.

Primeiramente é preciso reconhecer que nossa sociedade é doente, as pessoas estão doentes, seja com depressão, egoísmo, complexo, desvios de conduta, de educação ou de amor-próprio e que, sim, precisamos falar repetidas vezes as obviedades que o mundo insiste em ignorar, seja por preguiça, por ignorância, por conivência doentia e/ou por vício em pseudo-poder. Cada vez que as pessoas se posicionam contra a realidade podre do mundo, elas se aproximam de resolver dois problemas de uma vez só: o caos do ambiente e a propensão a depressão por conta desse ambiente inóspito. As regra é tão simples que nem vou me estender mais por este texto. Estejam certos de que basta agir de forma sensata na vida, que as sociedades se tornam melhores, já que elas são a soma de cada indivíduo. Não plante um mundo inóspito e não terá um mundo inóspito.

Rodrigo Meyer