Prosa | Perdida na cidade cinza.

A imagem que ilustra esse texto é ficcional e meramente ilustrativa, baseada em fotografia marcada como livre para utilização, segundo os filtros de pesquisa de imagem do Google.

Você me perguntava coisas que eu não entendia como poderiam ser dúvidas verdadeiras. Você já tinha seus 28 anos, mas ainda parecia uma eterna menina. Sua realidade me parecia contraditória. Você que já sabia bem o que beber, o que fumar e quais comprimidos tomar depois do banho, não sabia, porém, praticamente nada sobre si mesma, sobre o sexo, sobre como jogar esse jogo do flerte ou que rumo tomar pros seus dias. Parecia um pouco cansada de várias regras sociais, mas, ao mesmo tempo, se forçava a acreditar e dividir tempo com aquilo que você chamava de igreja. Eu, muito distante dessa realidade, ironizava suas contradições e te colocava diversas questões pra você brigar sozinha. Parecia que seus lados contraditórios eram a sua maneira de equilibrar a sua vida. Você, talvez, se sentisse na tendência de viver largada demais e, assim, poderia ser útil um outro lado exagerado que pudesse te desacelerar.

Você praticamente não trabalhava. Sua família estava longe, de vida feita, e você resolveu que vir pra esta cidade seria uma boa aventura. Acho que você esperava muito da cidade, mas não esperava quase nada da sua própria vida. Você se dividia entre o curso de artes, rindo e criticando aqueles velhos alucinados, enquanto abria uma clareira na sala de aula, separando à todos conforme a afinidade. E foi assim que nos conhecemos. Estávamos do mesmo lado. Você gastava o dinheiro alheio, ocupava seu tempo dentro e fora de casa, mas sua vida não parecia ter suficiente veneno. Eu te via como uma menina, mesmo a minha memória me dizendo que eu era muito mais novo que você. Estávamos perdidos juntos, mas eu não sabia quais eram os seus labirintos. Eu fui atrás, como quem fareja novidade, qualquer coisa que me tirasse de casa, me levasse pra outro chão de apartamento.

Assim como eu, você não estava disposta a levar a vida a sério. Perceber isso, me fez acreditar que você seria um bom mistério pra desvendar. Eu gostava da sua companhia, porque bastava pra mim que você me oferecesse uma bebida e me deixasse ficar no seu apartamento pra ficarmos o dia todo desocupados, rindo e conversando. Várias vezes você pagou pela minha comida e eu não tinha muito pra retribuir. Então eu ficava, dividia meu tempo, te ensinava informática e ria das suas loucuras. Era tudo que eu tinha. Você era extremamente ansiosa, não parava um minuto calada e de um segundo pro outro decidia fazer outra coisa. Você era perturbada e nem mesmo toda aquela maconha resolvia. Prensado, sem nenhuma qualidade, de qualquer coisa que não se deveria queimar. Mas, pra você, que acendia compulsivamente cigarros de nicotina, não se importava muito com a qualidade do hábito.

Levou tempo até você aceitar mais do que uns beijos. Eu não era nada recatado, mas você parecia estar esperando por um momento idealizado. Acho que todos nós, algum dia, idealizou um romance ou alguma relação pretendida. A gente sempre espera que nossas primeiras vezes em diversas coisas, sejam de maneira satisfatória. Conseguia entender, de certa forma, a sua “demora”. Mas, pelo tempo passado, parecia que você estava escolhendo minuciosamente seu momento ideal. Talvez você tivesse medo ou não tivesse conhecido ninguém interessante. Eu, certamente, não era o sujeito mais incrível, mas você parecia encantada comigo. Eu realmente nunca pensei que você estivesse apaixonada ou idealizando um romance e quando você quis começar sua vida na cama, você pareceu um tanto perdida, preocupada com uma lista de detalhes, me perguntando, cheia de rodeios, os riscos de cada pequeno contato. Confesso que achei um tanto engraçado, mas isso não era um bom sinal. Logo eu vi que estávamos em universos muito diferentes. Não cabe a mim dizer quando e o que cada um aprende, mas, diante do impulso da situação, aquilo certamente teria que ficar pra outra oportunidade. Havia muita coisa que você ainda precisava entender.

A minha vida estava fluindo em outras realidades e eu acabei, não de propósito, me distanciando. Passaram-se muitos e muitos anos e, de repente, sou surpreendido por uma mensagem sua na internet. Conversamos um pouco, ouvi você falar dos rumos que sua vida tomou e fiquei ainda mais surpreso. Parece que as cosias não melhoraram e você tropeçou em relacionamentos ruins que lhe renderam filho(s) e aborto(s). Foi estranho ver que, apesar de tudo que você viveu, sua mente ainda estava interessada por mim, como se você ainda estivesse habitando aquele passado remoto. Não pude lhe oferecer mais do que a verdade dita, então te deixei ciente de que éramos praticamente desconhecidos naquele momento. Há tantas coisas da minha adolescência que eu não tenho memória alguma, que eram grandes as chances de eu não ter lhe reconhecido depois de tanto tempo distante. E, mais do que isso, não era recíproco o sentimento ou a paixão que você mantinha. Você custou a aceitar mais um ‘não’ da vida e insistiu em me escrever. E quando o respeito acaba, já não há nada de bom pra dividir. Ofereci minha amizade, mas isso não lhe era suficiente. Sei que retornou pra sua cidade, acolhida novamente pelos seus pais. Fico feliz que receberam-se todos entre família, pois onde as pessoas se gostam e se ajudam é lar suficiente pra qualquer situação. Eu fui pra frente, porque pra trás nunca teve lugar pra mim. Até nisso somos diferentes.

Sabe, se algum dia calhar de ler esse texto e, apesar de todo sigilo no relato, conseguir se reconhecer nele, saiba que a vida é muito mais do que o passado que arquitetamos e polimos em nossas mentes. Há um universo lá fora, que, desde sempre, precisou ser melhor explorado. Olhe pra sua história, as situações pelas quais passou e veja a falta que fez não ter experimentado o mundo mais à fundo, com mais liberdade. Talvez isso teria mudado cada um dos episódios que aqui eu relatei. O tempo passa e, se tudo correr bem, temos a chance de ressignificar o passado e dar preferência pro momento presente. Se possui curiosidade sobre o que aconteceu com a minha vida, daquela época em diante, eu te conto. Não é nada muito melhor ou pior, apenas diferente. Eu não tive filhos, me tornei fotógrafo porque, deve ter notado, as aulas da escola não tinham nada a ver comigo. Conheci pessoas que me marcaram positivamente, mas que também me deixaram uma dor quase permanente. Conheci pessoas excelentes que morreram muito cedo e outras que, infelizmente, sobrevivem apesar de numerosos anos pesando no mundo. De fato a vida não é justa e o que algumas pessoas chamam de satisfação é apenas ver pessoas decentes desmoronando em fracassos e doenças. A alegria do medíocre é torcer pra que ninguém os vença, ninguém os supere, ninguém os ultrapasse. Então, pro bem da sua própria razão, se mantenha diferente disso, com aquele espírito divertido de quando nos conhecemos. Mas, mais do que isso, se mantenha questionadora, divergente, “gente como a gente”, simples e complexa, conforme o que realmente importa em cada momento, sempre procurando novos rumos, porque a vida só acaba na hora da derradeira partida.

Eu tive de fazer inúmeras pausas e baldeações até chegar em algum mínimo resultado e, devo dizer, não sou nem uma vírgula de tudo que eu já fui um dia. Eu perdi as pessoas que eu mais gostava e tive que aturar o convívio de quem nunca se importou sequer com a minha vida. Para algumas pessoas somos só um objeto ou um número, porque só quando a gente sente verdadeiro afeto por alguém, nossa vontade é ver essa pessoa livre e feliz. Quem dedica tempo aprisionando pessoas ou empurrando elas para constantes abismos, aprisiona também a si mesmo e se arremessa neles junto. A verdadeira salvação, se é que existe, é dedicarmos nosso tempo pra nós mesmos primeiramente e, se houver condição e disposição, ajudar à quem nos parece digno de nossa ajuda. Não estendo a mão pra todos e faço questão de destacar isso, porque diversas vezes em que as pessoas puderam contar comigo, eu não pude contar com elas em nenhum momento, pra coisa alguma. E se não há reciprocidade, não adianta insistir na porta, que essa porta não abre pra qualquer um.

Rodrigo Meyer – Author

Prosa | Saudade ou tranquilidade?

A imagem que ilustra esse texto é parte de uma fotografia marcada como livre para utilização segundo os filtros de pesquisa de imagem do Google.

Um pouco de saudade faz bem, mas, tal como o fiapo de um tecido, nunca sabemos quão longo será, até que tenhamos terminado de puxar. Se envolver numa memória de saudade é sempre um risco. Começamos com um pensamento curto, como um flashback e ficamos mastigando isso como se estivéssemos novamente naquele cenário, naquele tempo. Vários são os dias que eu sou tomado por lembranças do passado, mas, feliz ou infelizmente, elas são muito curtas. Na minha memória, as pessoas se converteram em pedaços isolados de cenas. Certamente as mais marcantes, tanto boas quanto ruins. E mesmo que as cenas logo se acabem, o sentimento pode durar muito mais. Isso é parte do que é a saudade.

Tenho saudade dos lugares onde dancei, dos bares onde bebi, das risadas que dei, das companhias com quem dormi, os lugares por onde viajei. Tenho saudade de mim mesmo quando eu era mais jovem, mais vivo e mais inteiro. Saudade também pelos livros que li, os filmes, as madrugadas, os momentos sozinhos dirigindo na estrada e os apartamentos-portais que visitei e assim os apelidei, de forma humorada, porque neles eu me transportava pra outros mundos e realidades, enquanto perdia a noção do tempo. Percebo que a saudade tem um componente dramático, feito de incerteza. Não sabemos se vamos experimentar novamente aquelas realidades e, talvez, por isso nos apegamos aos momentos que já vivenciamos. É a tentativa de continuar a obter prazer com o que já não está presente além da mente.

Mas, saudade demais machuca e nos deixa mergulhados em uma realidade que vicia. Quanto mais olhamos pra trás, mais abandonamos o presente. Se nos entregarmos ao saudosismo, sem adicionar novas realidades, corremos o risco de paralisar a vida e sobreviver apenas de memórias que nunca saciarão nossa fome. A saudade é um desabafo gritando para a linha do horizonte nossa vontade de que tudo se materializasse na nossa frente e que vivêssemos tudo aquilo outra vez. Saudade é, sobretudo, um sentimento não resolvido, que está nos perfurando de forma recorrente, até que tenhamos mais furos do que partes pra serem furadas. O excesso de saudade elimina nossa própria pessoa da equação e nos faz dependentes de nossas próprias memórias. Talvez seja válido dizer que a saudade é como a abstinência por uma droga. A crise vem porque já estávamos viciados e ao não ter aquilo de que somos dependentes, ficamos transtornados, sem saber lidar com a realidade nos dizendo ‘não’.

É verdade: tenho saudades. Mas, antes de tudo, tenho saudades do tempo em que eu ainda não tinha saudade alguma. Houve esse tempo, onde eu era apenas alguém projetando minhas expectativas sobre o futuro, na maior inocência, podendo, apesar do mundo, viver o momento presente da época, sem me preocupar se amanhã algo me tiraria a paz, me faria falta ou algo assim. Essa saudade é uma saudade diferente. É querer voltar no tempo, mas não pra correr atrás dos nossos vícios e desejos mal resolvidos, mas sim nos livrarmos de tudo isso e sermos apenas alguém que aprecia o exato segundo de algo, sem se perguntar mais nada. Quem, hoje em dia, pode se dar ao luxo de dizer que vive dessa forma?

Quanto mais o mundo se atropela à caminho do seu estado insustentável final, mais nos vemos dependentes de uma salvação, de algo que nos dê um mínimo de prazer, um pingo de dignidade, uma faísca de alegria e uma migalha de tranquilidade. Estamos fugindo do futuro porque percebemos, desde sempre, que estamos no caminho errado para um destino que não vale nem ao menos descrever. Estamos aficionados por qualquer exceção que o mundo possa nos prometer. Se não podemos voltar no tempo, queremos que o momento presente seja nosso novo vício. E disso também surgem problemas, pois continuamos dependentes de um prazer que parece não vir de lugar algum. Estamos sempre idealizando cenários onde nossa vida seja menos dolorida, mais humana, mais divertida e mais sólida. Mas tudo não passa de desejos e sonhos. São planos que não sabemos sequer como começar a concretizar. Estamos naufragando num mar gelado chamado ‘sociedade’, enquanto olhamos ao redor procurando uma boia, um pedaço de terra firme, um barco ou qualquer coisa que nos prometa mais que a mesma água fria.

Olhamos as redes sociais atrás de novidades e ficamos engajados nesse sistema de cliques e comentários, como se algo pudesse brotar no meio da tela e nos estender a mão. Agarrados ao celular, estamos tendo nossa energia mental sugada, pela constante atenção que damos à inúteis notificações. Sua operadora de celular tem mais 5 novos SPAMs na caixa de mensagens, suas redes sociais querem te avisar que alguém fez uma publicação e que talvez você possa se interessar de rever seu próprio conteúdo de 10 anos atrás. Talvez, o abismo que a sociedade atual está ainda não tenha nome, mas, certamente, tem a internet como principal cenário. Não que a vida offline seja menos problemática, mas justamente porque toda ela está representada dentro da internet. O que acontece no mundo lá fora é a mesma coisa que a internet está replicando de inúmeras maneiras, incluso os excessos, as mentiras, as disputas, as guerras, as mazelas, os discursos de ódio, as ilusões e fantasias, as crises psicológicas, sociais e políticas. A internet se tornou o lugar onde vamos para viver um segundo round da mesma realidade. Assim, torna-se compreensível alguém sentir saudade.

Estamos esperando por uma trégua, mas o mundo não parece minimamente pronto ou interessado pra nos conceder. Temos que nos aliviar das dores com as próprias dores. Temos que aprender a sentir prazer com aquilo que só machuca. É como se tivéssemos transformado a vida num jogo sadomasoquista. Queremos ver até onde conseguimos apanhar ou bater, antes que a vida nos destrua de vez. Assim como a saudade revela nosso vício por um prazer inalcançável, esse novo modelo de vida na internet também nos faz entrar em conflito por ideais de sociedade e autorrealização que estão, ao meu ver, incoerentes com o que hoje é praticado pelo usuário padrão.

Um dia desses estava conversando sobre a vontade de largar tudo e ir viver isolado. Como seria o mundo distante das cidades, das pessoas e, claro, da internet? Que impactos positivos teria ao viver como um eremita ou como um monge budista? Por mais repentino que isso pareça, esses pensamentos frequentemente pulsaram em mim desde a adolescência. Penso no que as pessoas ganhariam se deixassem de lado todas essas construções viciadas de sociedade, pra ir viver, novamente, o sentido puro das coisas, contemplando o momento, sem pensar no passado ou no futuro. Acho que, assim, deixaríamos de ter saudade e viveríamos muito melhor. Talvez fosse de grande ajuda para a ansiedade, depressão, crises existenciais, brigas, intrigas, conflitos sazonais, síndromes, medos, fobias, inseguranças, vícios, dramas e tudo o mais. Ou, talvez, tudo isso seja apenas especulações e mais idealizações que podem nunca se concretizar.

Será que todo o caos no mundo é causado por um enorme equívoco chamado ‘sociedade’ ou será que ainda há esperança de construirmos uma sociedade justa, digna e feliz, desde que escolhamos os modelos certos? Nos apontam como seres sociais o tempo todo, mas talvez nossa verdadeira habilidade seja de buscar nossa paz pelo importante exercício de ficarmos sozinhos. Poderíamos, tentar trilhar um caminho com menos estrutura e mais espontaneidade, menos planos e mais sinceridade, menos dramas e mais felicidade. Quão longe chegaríamos em um modelo assim? Essas reflexões surgem porque todo aquele que um dia sentiu saudade, ficou sequelado ou, pelo menos, com uma cicatriz. A dor de ter vivido dias melhores e se perceber defasado, num mundo que não faz pausas é fruto de uma percepção que pra alguns é real e pra outros é subjetiva. De certa forma, não perdemos nada, exatamente. Não somos donos do nosso passado, nem mesmo da nossa vida. Um dia morreremos todos e teremos que aceitar esse desfecho. Não estamos no controle de nada e cada dia que passa estamos mais próximos do nosso próprio fim. Superar as perdas e aceitar construir novos momentos é um caminho possível que ressignifica certos conceitos, muda nossa perspectiva de vida, muda nossas sensações e se não apaga as memórias, pode, ao menos, torná-las menos dolorosas ou até mesmo inofensivas. Pra viver os benefícios de uma sociedade, somos obrigados a viver também uma lista interminável de prejuízos.

Será que essa é a deixa para substituirmos a pesada saudade por uma necessária tranquilidade? Não era exatamente isso que tentávamos alcançar com a própria saudade? Se simplesmente pararmos de esperar pelo que não volta, já encurtamos nosso caminho, indo diretamente para aquilo que já sabemos que nos faz bem agora. No final das contas, o que queríamos não era exatamente nos sentir vivos e despreocupados? De que outra forma podemos alcançar esse objetivo, se ficarmos presos nesse padrão de sociedade? Eu não vejo futuro algum em entrar em conflito constante, pra terminar a vida sem experimentar os resultados dos meus esforços. Eu quero viver o benefício hoje, porque depois de morto, nossos esforços só terão serventia para os que vierem depois. Se por um lado esse pensamento parece um tanto egoísta, por outro, é verdade que as pessoas podem aderir à mudança da percepção subjetiva por elas mesmas também. Para que não tenhamos que pensar nem no passado e nem no amanhã, talvez devêssemos deixar a escolha pela mudança de vida para cada indivíduo. Você escolheria se isolar da sociedade? Valeria a pena ficar pra ver algum modelo organizado de coletivo que pudesse entregar dignidade, tranquilidade e felicidade?

Mesmo que não tenhamos uma resposta definitiva, precisamos ter esse assunto na mente, se quisermos ser decentes com nós mesmos e com o resto da humanidade. O indivíduo que não tem dúvidas sobre as dores pessoais e alheias, não está se debruçando o suficiente no tema, o que denotaria uma falha primordial de caráter e/ou uma profunda deficiência no senso de humanidade. Enquanto vocês pensam um pouco mais sobre a vida individual e coletiva, eu vou tentar viver um dia diferente, pra ver se algum insight surge pra melhorar minha perspectiva de vida. Não me desejem sorte, nem morte. Me desejem uma vida bem vivida.

Rodrigo Meyer – Author

Prosa | Cartas, saudades e novos substantivos.

Esse texto é ficcional, incluindo os personagens e os acontecimentos. Qualquer semelhança com pessoas e episódios reais é mera coincidência. A imagem que ilustra esse texto é meramente ilustrativa, baseada em fotografia marcada como livre para utilização, segundo os filtros de pesquisa de imagem do Google.

Que saudade tenho de escrever cartas pra ela. Trocávamos correspondências como se fosse nossa única opção de contato, apesar da internet. Raramente nos víamos online. Me lembro como era gratificante abrir a caixa de correio e encontrar um envelope com a letra dela. Eu dedicava boa parte dos meus dias contemplando cada aspecto. Depois de retirar com o máximo cuidado a novidade da caixa de correio, levava pro quarto pra olhar mais de perto. Apesar da distância percorrida, o envelope se mantinha perfumado. Era como se eu estivesse conectado diretamente à ela, só de olhar para a carta.

Desde a primeira vez, adotei um padrão de corte na lateral, na intenção de preservar o máximo possível, quando fosse extrair a carta. Era caprichoso, quase que devotado. Adorava fechar os olhos e sentir o presente que eu havia ganhado. Observava o tipo de papel, o desenho das letras, o tom da tinta, os desenhos, a assinatura, os anexos cuidadosamente prensados, quase sempre flores ou folhas secas. Era agradável de ler, mas eu evitava de manusear por muito tempo, pois considerava o meu tesouro pessoal. Logo fui atrás de algumas pastas pra arquivar as folhas individualmente. Se tornou um ritual ou hobby e eu investi tempo e dinheiro nisso.

No final da noite, eu me sentava em uma sala fechada, ligava o rádio bem baixinho e deixava um abajur sobre a mesa. Enquanto ia relendo a carta dela, ia rascunhando a minha. Depois, quando acreditava ter dito tudo, fazia uma versão definitiva com a melhor letra que eu conseguia. Nem de longe eu alcançava a personalidade e a leveza da caligrafia dela, mas eu me cobrava pra ser legível e impor alguma beleza no que eu fazia. Fazia questão de escolher o tom da tinta e fechar o envelope logo em seguida, mesmo que só fosse enviar a carta no dia seguinte. Bons momentos em que estar ansioso era uma coisa positiva. Eu ficava entusiasmado, rindo sozinho e, se pudesse reparar, certamente veria brilho nos meus olhos.

Por muitas e muitas vezes repetimos esse processo de esperar pelo próximo contato, dedicar um tempo escolhendo alguns pequenos detalhes, desenhar palavras e prensar junto uma série de sentimentos e desejos. Ficava cada vez mais intensa a energia enviada e recebida naquelas cartas. Os envelopes quase que falavam sozinhos, tinha luz própria. E enxergar essa conexão tão peculiar com alguém, parecia ser a melhor e única forma de se viver a vida. Se pudéssemos, teríamos antecipado nosso relacionamento desde o primeiro dia.

Vivemos bons momentos, isso é inegável. A saudade que sinto hoje, me faz lembrar de cada um desses detalhes, porque tudo foi realmente muito importante. A saudade é exatamente isso. É saber que perdemos algo de imenso valor que queríamos ter por perto. Não quero especular como seria voltar no tempo e nem divagar sobre porque as coisas acontecem do jeito que acontecem. A vida se inicia, cresce, floresce e, claro, termina. Pessoas morrem, isso é natural. Cedo ou tarde, por um motivo ou outro, as pessoas deixam de nos fazer companhia. Lembrar que as pessoas não são eternas enquanto corpos, nos obriga a olhar pra nossa própria vida. Às vezes eu revisito minhas memórias, tentando me banhar desses momentos bonitos. Mas, se por um lado eles tem esse poder de nos encantar, por outro nos obriga a perceber que não temos mais aquilo. E, às vezes, isso dói, mas também há coisas que perdemos que são puro alívio.

Tenho saudade também pelo estilo de vida. Hoje já não tenho para quem escrever e, mesmo que tivesse, creio que não mais faria. Não é o tipo de interação que faz o devido sentido pra maioria das pessoas. Talvez o momento de escrever cartas já tenha passado e eu me tornei um triste saudosista. Talvez eu queira apenas reviver os sentimentos aos quais isso estava atrelado. Eu realmente não sei dizer. Sei apenas que são outros tempos, outras pessoas e até mesmo eu sou diferente. Me tornei alguém transformado por tudo que vi, vivi e venci, mas, sobretudo, por aquilo que não pude ver, não pude viver, muito menos vencer. Somos a soma de nossos acertos e erros, nossos fracassos e glórias. Se vivemos intensamente, é bem provável que tenhamos mais fracassos do que glórias. A vida não ameniza pra quem quer que seja.

O que faço eu com essa saudade? Onde enterro a minha vontade de escrever cartas? Talvez eu encontre outras formas de trocar tesouros, que não sejam simplesmente cartas manuscritas. Já pensei um bocado nisso e fiquei um tempo listando, de improviso, as coisas que eu gostaria de receber ou presentear, se houvesse alguém realmente digno desse momento. Muita gente não entende o valor das coisas, até que tenha recebido elas de alguém importante. Mesmo que seja um papel amassado, uma fotografia, uma peça de roupa ou um livro, tudo isso vira ouro, se nos causa um específico sorriso. São objetos que não possuem um valor especial em si, mas vindos das mãos certas viram tesouro no mesmo segundo. Foi muito bonito enquanto durou a sensação, mas depois de tantos anos, não havia mais nada que justificasse todas aquelas coisas acumuladas. Me livrei de cada uma delas, transmutando e ressignificando. Fica a saudade, claro, mas isso ainda pode ser discutido.

Quando olho pra esse buraco, sei que ele só existe, porque eu fiz disso algo que me ocupava mais do que devia. Se as coisas começam a pesar e nos impedir de seguir a vida, então é hora de mudarmos o valor que damos ao passado e nos empenhar mais naquilo que ainda temos pra fazer no presente. Não precisamos tentar apagar o que vivemos, pois nunca conseguiremos. Temos simplesmente que perceber que as coisas não são tão importantes como pensamos e que o peso delas na nossa mente, depende exatamente disso. Acho que é essa a resposta que eu preciso pra lidar com aquela saudade. Vou olhar pros meus próximos dias, tentando criar um mundo todo novo, longe daquelas velhas manias, aquelas histórias repetitivas. Tenho muito pra viver, muito pra dizer e, se eu não me sabotar, pode ser que eu vença a próxima partida. Vai depender dos novos hábitos que eu cultivar, das palavras escolhidas, das decisões que faço a cada dia. Eu mesmo dizia pra tanta gente quão importante era cuidar do próprio jardim e, por imenso descuido ou até acaso, eu parei de investir na minha própria vida. Mas, estejam avisados, principalmente eu mesmo, de que amanhã fará sol e eu serei minha própria notícia.

Rodrigo Meyer – Author

Crônica | Mais do mesmo.

Janela contra janela, duas casas lado a lado evitam de se olhar. Do lado de lá, a janela nunca se abre, provavelmente um hábito em busca de privacidade. Do lado de cá, fecho a minha porque evito a luz. Às vezes de noite, ou sempre que me sinto excessivamente sufocado, abro minhas janelas pra deixar o ar entrar. Não me importo que haja outra janela bem em frente, pois está sempre fechada, então tenho vantagem em abrir a minha sem perder a privacidade. E quando olho pra dentro do cômodo, confirmo a ideia de que não há nada pra se manter privado, porque nada relevante está acontecendo em nenhum momento. São só as cobertas desarrumadas em cima da cama, as garrafas de bebida em cima da mesa, nenhum quadro na parede, nada além de um indivíduo sentado numa cadeira, olhando pra tela do computador e procurando alguma surpresa que sabe que não virá. O smartphone se tornou inútil há muitos anos, se transformando num relógio de bolso, marcando, desnecessariamente, o tempo pra quem não tem compromissos ou horários demarcados. Qualquer momento do dia é completamente indiferente. Se acordo pela manhã ou pelo final da tarde, não muda em nada a rotina que se estende homogênea e inquietante por todo tempo. Não mudam as garrafas vazias de meses atrás, nem o computador constantemente ligado em cima da mesa, a cadeira sobrevivendo no mesmo lugar, a casa ao lado, o amontoado de casas sem reboco à se perderem na linha do horizonte, as canetas sem uso guardadas em uma caneca, a dor nos ossos, a fraqueza nas pernas, o cheiro de mofo, o chão frio, a angústia, a dor nos pulsos, o fígado inchado, as náuseas, o semblante destruído, a depressão corroendo a cabeça há décadas, a bagunça no banheiro, as marcas na parede, os longos períodos de sono seguidos por inquietantes horas acordado. Janela contra janela, sei o que tem atrás da minha. Mas, o que será que tem na janela ao lado? Passei tanto tempo me afundando no meu mundo que raramente me importei sobre o que estava acontecendo ao redor, desde que não me incomodassem com excessivo barulho.

Rodrigo Meyer – Author

Crônica | Emergência médica.

Um imprevisto e lá estava eu. Não tive escolha. E, talvez, não poder escolher seja o pior de tudo. Logo nos primeiros dias o corpo se desintoxicou. Me senti renovado. Ainda que estivesse cheio de incômodos, dores e tédio, ainda era melhor. Em dado momento acordo e me sinto visita no lugar, como se eu fosse o estranho. Não deixa de ser verdade.

A televisão ligada em um pseudo-telejornal. Ela estava sentada assistindo e eu aproveitei o momento pra ver como estava indo. Me fiz de idiota e lhe perguntei algo que eu já sabia detalhe por detalhe. Veio uma resposta hipócrita, cheia de preconceitos e ódio. Vi que nada havia mudado, apesar de tantos anos passados. Não havia esperança alí. Deixei o assunto se encerrar, pra evitar socializar. Fui buscar o que fazer. Alternava entre dormir, comer, ler e matar tempo no smartphone. Tudo ia meio devagar pro meu gosto, mas ao menos havia silêncio.

Mas isso não durou muito. Logo veio à tona a essência de tudo que eu me afastei anos atrás, por não suportar o acúmulo em uma vida inteira. No cômodo ao lado, discutiam asneiras, como se fosse a coisa mais urgente do mundo. Gastavam vinte, trinta minutos inventando motivos pra estarem alí, falando, falando, falando, mesmo que não estivessem dizendo nada. Era como se eu fosse o doente, mas elas que estivessem com o intestino no lugar da boca. Me saturei. Um gatilho instantâneo foi ativado na minha mente e eu me senti no inferno. Escolhi ir embora mesmo sem forças, sem nem comer. Às vezes andar pra trás é melhor que andar pra direção do abismo. Eu voltei pra casa e agradeci por estar sozinho, mesmo sabendo que poderia não aguentar. Não tenho medo da morte, mas sim de ter que aturar esse mundo por muito tempo.

Rodrigo Meyer

Crônica | Fugindo da seca.

Deitei e tentei dormir. Difícil foi encontrar uma forma de me acomodar. Nenhuma posição oferecia conforto razoável pra poder me desligar do mundo e ir pros braços de Morpheus. Passei a noite virando de um lado pro outro tentando burlar a dor no corpo. Controlar a mente era minha única saída. O corpo adoecia. Acordei inúmeras vezes e achei que era sorte por me livrar de sonhos tão enojantes. Da última vez, decidi levantar, bebi mais água, sentei na cadeira e tentei respirar com profundidade. Muitos rostos apareceram no mural de culpados dentro da minha memória. Eu sei da minha história tão bem quanto dos que sempre tentaram me sabotar. Sei, sobretudo, que a fraqueza do inimigo está naquilo que ele não pode enxergar. Tentei suportar uma ou duas horas diante do computador, mas prevaleceu a dor. Abri as janelas pra entrar um pouco de novidade. Deitei e voltei pro mundo dos sonhos, contando os dias para o fim do mês. Logo mais, se tudo correr bem, eu não estarei mais por aqui. Que fiquem os carniceiros disputando ódio, mesquinharia e podridão. Eu estarei praticamente viajando, para aquele lugar que pouca gente conhece, quase nunca falam e surtam de medo de um dia chegar perto. A mente dessas pessoas é puro deserto. Sobra areia, nada floresce. Essa gente não cresce.

Rodrigo Meyer