Prosa | Vermelho Cocaína.

A imagem que ilustra esse texto é fictícia e meramente ilustrativa, sendo parte de uma fotografia marcada como livre pra utilização, segundo os filtros de pesquisa de imagem do Google.

Quem é que sabe os motivos da vida? Algumas coisas acontecem sem que saibamos como reagir. Às vezes, queremos mudar o rumo das coisas, mas o tempo já passou e as coisas não querem mais serem mudadas. Custamos a entender que isso não é uma perda, pois não perdemos o que nunca tivemos. Você foi um desses episódios em um momento onde eu estava completamente perdido e descrente na minha vida.

Nos conhecemos na faculdade e foi fácil fazer amizade contigo. Estávamos conectados pelo que parecia ser um estilo de vida em comum. Tínhamos uma amizade em comum com quem dividíamos algumas noites de bar. Saíamos em pequenos grupos pra dividir a noite em diversos lugares. Era tudo muito bom, porque as companhias me prendiam a atenção. Dividimos muitas risadas, muitas conversas e muitas outras coisas em festas. Eu me encantava com o seu jeito, seu cabelo curto tingido de vermelho. Quando eu te olhava, a noite se preenchia com essa energia marcante. Quando estávamos no nosso restrito grupo, ninguém de fora era convidado. Construímos isso espontaneamente, sem ninguém ter falado.

Entre cigarros e bebidas, estava claro que, frequentemente, havia cocaína. E foi isso que, em pouco tempo, te deixou mais magra ainda. Te dei um apelido carinhoso por isso, porque, visualmente, você parecia muito frágil, muito pequenina. E foi totalmente verdade o que lhe disse certa vez: você sempre foi muito bonita e continuava, mas eu estava realmente preocupado com a progressão da sua magreza. Eu podia dar a volta em seu braço apenas com a minha mão. Você pode ter perdido o compasso com a sua ‘farinha’, mas eu só queria que você analisasse a situação e, se precisasse de ajuda, podia contar comigo, porque eu realmente queria te ver bem. Não toquei mais no assunto, porque, apesar de tudo, era só você quem deveria saber o que fazer da sua vida.

Se tem uma coisa que me lembro, como se fosse hoje, foram de todos os abraços que nos damos. Você parecia gostar que eu fosse maior que você. Talvez tivesse a sensação de ser totalmente acolhida quando se acomodava confortavelmente naqueles abraços. E quando eu te abraçava, eu podia te possuir inteira. Era realmente muito bom ter você apertada em mim. E eu admito, sem nenhum pudor, que, frequentemente, minha mente ia lá pra Lua e eu te imaginava nua, deitada comigo, cumprindo todo o potencial da química e da sintonia. Você me atraía de muitas maneiras, pela sua voz, o que pensava e dizia, seu semblante, seu cabelo, suas roupas, seu estilo de vida, seu jeito de se sentar e alguma coisa que derivava da sua silhueta e do meu imaginário do que seriam os seus dias. Não foi à toa que nos agrupamos desde os primeiros momentos. E nessas idas e vindas de uma noite e outra, acabou surgindo um incômodo dia que até hoje eu não sei bem como descrever.

Estávamos em uma mesa de bar, junto com mais uma ou duas pessoas. Éramos os mesmos de costume e desde sempre já nos sentíamos livres e confortáveis naquele pequeno grupo. Você estava sentada ao meu lado e, gradualmente, se aproximou sugerindo um beijo. Mas eu, apesar de todos os meus desejos e pensamentos, estava realmente muito perdido na vida. Antecipando tristes possibilidades futuras, eu desviei do seu beijo por achar que, se eu cedesse e, depois de um tempo, você não quisesse mais nada comigo, eu acabaria sofrendo e, provavelmente, ia tentar me afastar de você, pra frear o sentimento. E, imaginando tudo isso, eu realmente não queria fazer nada que pudesse eliminar nossa amizade. Foi estranho, eu reconheço, mas a minha vida naquele tempo estava tão perturbada, que eu estava sistematicamente evitando sentimentos e relacionamentos de casal, enquanto, ao mesmo tempo, estava preservando ao máximo qualquer amizade valiosa que surgia.

A minha reação de recusa te frustrou e te deixou, talvez, insegura. E tudo ficou um pouco mais confuso, porque eu te adorava e aquilo doeu em mim também. Eu te acolhi, te dei um abraço, puxei você pra perto de mim e tentei te reconfortar. Não havia nada de errado contigo. Era apenas eu que viajava em incertezas sobre a vida e recusava tudo, até o que não devia. Eu levei um tempo pra organizar tudo isso na minha mente e foi mais longo do que eu queria que fosse. Mesmo que eu tivesse me explicado à tempo, você, talvez, já não me aceitasse. E por não saber como explicar, eu deixei as coisas se perderem no tempo. Não sei o que a vida poderia ter sido, se tivéssemos reagido diferente. Tudo que eu sei é que, assim como você, eu também tinha uma série de questões nos bastidores. Eu fui te procurar, muito tempo depois, pra tentar me redimir ou, pelo menos, me explicar. Mas, nunca houve sua resposta e ficou implícito que só me restava seguir a vida e me conformar. Botei na minha cabeça que, se você não iria sequer me ler, sua opinião sobre o assunto já estava dada e encerrada.

Recentemente, relembrando tudo isso, me bateu a curiosidade. Fui ver que rumo tomou a sua vida. Grande parte dela, ainda me parece igualmente interessante, mas uma parte me deixou dúvidas. Às vezes é difícil distinguir se os seus interesses em determinados assuntos é seu universo pessoal ou mera necessidade da sua profissão. Como eu não vi nada muito claro que mostrasse qualquer posição diferente de tudo aquilo, eu preferi ignorar e deixar tranquilo o que já estava tranquilo. Não posso negar que você é intrigante e que rouba espaço nas minhas melhores memórias. Por isso, prestei esse texto da forma mais sincera que pude e, caso um dia resolva vir falar comigo, saiba que eu tenho tempo, tenho tranquilidade e quase tudo do meu passado já foi organizado e resolvido. Eu só queria mesmo que as pessoas que marcaram minha vida em pequenos grandes momentos estivessem ainda hoje por perto, pra que pudéssemos nos escutar, nos apoiar, como sempre fazíamos. Se ainda houver compatibilidade, eu serei o primeiro a manter a mão estendida. Mas, se nossos mundos forem inconciliáveis, mudemos de jogo e de jogadores, pra tentarmos ganhar nossas próprias próximas partidas.

Não vou me prolongar muito. Quero só dizer que estou de partida pra fora do país, que as condições estão bem estáveis e que, desde que eu percebi que perdi o que não deveria perder, eu tenho vivido sem nenhum medo ou restrição. Quando a gente perde tudo, não tem mais nada pra perder, então, nada mais nos assusta, nem nos impede de tentar. Eu não faço ideia se o destino ainda me reserva algum momento bom, mas eu vou continuar a fotografar tudo que eu puder e tentar conhecer o maior número de lugares desse mundo. Se alguém se sentir confortável de me acompanhar, é só chegar junto.

Enquanto eu escrevia esse texto, essa música me veio à cabeça: “Bem Que Se Quis”, na voz de Marisa Monte.

Rodrigo Meyer – Author

Relato | Mentiras, drogas, racismo, agressões e exploração financeira.

A imagem que ilustra esse texto é uma composição incluindo uma fotografia de uma pessoa fictícia aleatória, pra fins de ilustração do texto. Esse é o relato de uma pessoa que passou por um relacionamento abusivo. Por questões de privacidade, substituiremos o nome dela pela letra aleatória A.

“Quatro anos atrás eu estava inscrita em um desses sites de relacionamento. Foi lá que conheci um rapaz. Ele veio falar comigo e eu me senti prestigiada, pois estava em um momento difícil da vida, onde meu pai havia falecido e eu estava frágil e carente. A vinda desse rapaz veio de encontro à minhas necessidades de acolhimento, principalmente por todos os elogios que ele fazia, que era bem o que eu queria ouvir.

Em dado momento, aconteceu de sairmos do virtual para o mundo real. Fomos nos encontrar. Mas algo não ia bem. Ele estava muito agitado, ansioso, preocupado. Olhava para todo lado como se estivesse com medo de ser visto por alguém. Aquilo me deixou um alerta, mas logo eu abafei aquilo da minha cabeça, pois sempre que eu recuava de insegurança sobre ele, ele mudava tentando passar uma imagem melhor. E assim as coisas foram acontecendo, mesmo que já de início os sinais ruins estivessem lá.

Em seis meses, ele já havia me proposto casamento. Eu me sentia contemplada e na época nem percebia o quão cega e vulnerável eu estava. Ele queria que eu encontrasse um vestido de noiva e planejamos até uma festa. Eu tinha minha vida relativamente estável, com um bom trabalho, meu apartamento, meu carro. Ele dizia ter trabalho e de início me pareceu tudo plausível. Tínhamos realidades um pouco diferentes nesse sentido, mas isso não era nenhum problema para mim.

Eu tinha um filho de relacionamento anterior e ele também anunciava ter um. Não demorou muito pra que ele começasse a contar histórias pra me pedir dinheiro. Alegava que o filho dele estava passando por problemas com droga e diante do contexto, eu ajudava. Mas, cada vez era uma necessidade diferente. De repente era um carro quebrado ou outra coisa qualquer. Eu não via nada daquilo na ocasião. Ele sempre tentava demonstrar que estava estudando ou trabalhando, mas tudo vinha muito só da boca pra fora. Quando algo não parecia muito crível ele se esforçava pra reverter a situação.

O casamento ocorreu no civil, abandonamos a ideia da festa, porque o buffet havia dado errado. Foi o começo de mais situações. Ele passava a depender muito de mim, me pedia dinheiro pra muita coisa e, provavelmente, se aproveitava do fato de eu ter um bom trabalho ou de simplesmente ter um trabalho, já que eu nunca soube se ele realmente tinha um também. Quando eu não dava dinheiro à ele, ele ficava agressivo, me ofendia, discutíamos e mais um sinal estava alí, sem eu notar bem o que estava acontecendo.

Houveram momentos em que o descontrole dele evidenciou o racismo. Ele branco e eu negra, dividíamos um teto pra que eu ouvisse dele expressões horríveis que nunca mais vou esquecer. Diante de meu pai, tudo isso parecia o pior cenário. Tentativas de agressões físicas ocorreram, mas a presença dos meus pais, em especial a minha mãe, foram um oportuno freio. De alguma forma ele tentava passar uma imagem positiva na frente dos meus pais, para ganhar a simpatia deles. Mas, como citei, em momentos mais drásticos, nem isso impedia ele de expressar as piores palavras nos cenários mais errados. Já não havia mais nada de bom alí. Eu só estava me sentindo derrotada.

As mentiras dele foram aparecendo e eu fui me dando conta de que ele mentia para tudo. O filho dele não tinha problema algum com drogas e o mais triste é que, era ele mesmo quem estava mergulhado nelas. Me pedia dinheiro pra sustentar o vício em álcool e cocaína. Os cursos que dizia fazer, nunca frequentou ou sequer existiram. Frequentemente era demitido dos trabalhos e eu não me dava conta desse imenso sinal. A nossa vida sexual era ruim, bem ocasional. Nunca suspeitei que o motivo disso fosse os hábitos dele com drogas. Eu só fui me dar conta da loucura que eu estava vivendo dentro de casa, quando eu encontrei um pino de cocaína no bolso da calça dele. Pensei o quão ruim era tudo aquilo, tendo eu um filho novo em casa. Eu não queria nada daquilo pra mim e nem pra minha família.

Não havia motivos consistentes pra estarmos juntos. Tudo que havia era exploração, agressão, mentiras e ciúmes. Com o meu sucesso profissional e meu círculo de trabalho e amizade, ficou muito claro na mente dele que eu tinha um cenário positivo na minha frente e não faria sentido nenhum eu estar com uma pessoa abusiva como ele. Por isso começaram as críticas ensinuando todo tipo de coisa ou tentando controlar minha vida. Roupas curtas eram um problema e até meu trabalho se tornou um alvo pra ele. De certo ele se sentia fracassado e susbtituível e ele se sentiria mais confiante e seguro se eu perdesse o meu bom emprego.

Mas, eu escolhi ouvir a mim mesma e a observar friamente todo cenário. Passei cerca de um ano observando tudo e percebi finalmente que estava em um relacionamento abusivo do qual eu não deveria aceitar jamais. Depois de tudo isso, estava decidida a me separar. Planejei o melhor momento e maneira pra fazer isso. Surgiu a grata oportunidade de uma viagem à trabalho pra outro país. E foi a brecha que eu precisava pra fazer todas as mudanças na minha vida. Anunciei a separação e assim que ele saiu de casa eu pedi que minha mãe trocasse a fechadura da porta. Finalmente me vi livre daquele sujeito. Eu segui a minha vida, aprendi com tudo isso. Ficou a lição de que a vulnerabilidade gerada pela carência foi o que permitiu tudo isso acontecer. Não sei se posso, mas, talvez, chamaria de sorte por isso não ter desviado pra situações piores. Sabemos de tantos outros casos onde as pessoas são ameaçadas, espancadas, violentadas, perseguidas e mortas. Eu sou grata por ter enxergado tudo, antes que tivesse o risco de conhecer cenários piores e de desperdiçar a minha vida em mais anos com alguém que apenas me usava e nunca gostou de mim.

De divórcio assinado e vida reconstruída, hoje eu invisto em mim mesma e não quero saber mais de nada disso. Quero apenas que meu relato sirva de alerta e de motivação para que outras mulheres consigam perceber eventuais relacionamentos abusivos, mesmo que sejam diferentes dessa minha experiência particular. Que todas elas possam se empoderar e descobrir a mulher forte e cheia de potenciais que são. Que todas elas possam desviar de mentiras, observando melhor os claros sinais. Que elas se tornem mais cuidadosas consigo mesmas e que estejam firmes pra não se deixarem levar por falsos elogios ou promessas. Precisamos, todas nós, nos afastar daquilo que não soma nada em nossa vida, de preferência antes mesmo de começar.

Hoje, o que eu quero mesmo é dançar e brilhar, seguir o meu trabalho e sorrir diante dos novos planos que surgiram pra minha vida. Convites aqui, convites por lá, eu sei que tenho muitas opções para dar saltos ainda maiores. Eu já venci e se você focar em você mesma também poderá brilhar.”

A.

Crônica | Miséria e Luxo.

Na frente da loja de conveniência, um morador de rua sentado. Aos desavisados, parece não esperar nada, mas pra quem vive fora da bolha, eis alguém que decaiu não só pra rua, como pro consumo de droga pesada. Não faz mal a ninguém. A comunidade em torno o conhece e o respeita. É educado mesmo quando não está sóbrio. A droga não transforma, ela só potencializa a essência do indivíduo. Alí está um homem que tinha vergonha da sua condição, de pedir dinheiro, de estar entre os demais. Um dia lhe disse que não precisava ter vergonha de nada daquilo, pois muitos de nós já se encontrou sem saída e o importante é tentar tirar o melhor proveito dos dias. Lágrimas do lado de lá, de alguém que lembrava, claramente, que nunca tinha ouvido ninguém se solidarizar. As pessoas passam reto, não olham nos olhos, mal chegam perto. As madames com seus carros pretos de luxo, abrem a carteira e tentam encontrar alguma nota de baixo valor, quando lhes pedem alguma moeda. Moeda elas não possuem e talvez a menor nota delas seja só de R$ 10 ou R$ 20 reais. “Mendigo inoportuno que não tem máquina de passar cartão de débito”, devem pensar. Ele, sempre volta; elas, raramente. Elas preferem o conforto de casa, como um bunker, trancadas e inseguras, por conta dos monstros que elas mesmas fabricaram. Ele, pede porque não tem; pede porque a abstinência cobra o consumo da droga; pede porque, muito antes, foi esquecido pela sociedade; pede porque, se a vida estivesse, antes, estável, não teria que pedir coisa alguma; pede porque uma minoria da sociedade não abdica dos luxos herdados, dos privilégios e até da corrupção, quando notam que é mais fácil ser egoísta e inútil, do que reconhecer que não tem mérito nenhum aceitar como certo o que foi dado errado. Não trabalharam duro, apenas lapidaram um diamante bruto herdado. E, geralmente, um diamante roubado.

Rodrigo Meyer

Quem parou de rir, parou de ir.

Quem já foi afetado pela doença da depressão ou conhece alguém que esteve ou está em similar situação, sabe como isso interfere drasticamente nos progressos gerais desse indivíduo. Pessoas com imenso potencial acabam subaproveitadas quando a depressão lhes toca, afinal ninguém consegue se engajar tanto nas atividades, se não sente prazer pela vida. Em situações mais brandas que a depressão (embora até ela tenha nuances), as pessoas podem estar com distimia, que é um transtorno depressivo com sintomas menos severos que a depressão em si, porém mais duradouro. De qualquer forma, seja lá qual for o momento, intensidade e duração com que deixamos de rir sinceramente na vida, estamos parando de caminhar.

Quando uma pessoa tem depressão por muitos anos, pode acabar criando uma imagem mental de si mesma completamente distorcida, por associar o histórico de vida com sua personalidade ou realidade nata. Entender a diferença entre o estado depressivo e o modo “normal” de ser, é uma tarefa difícil, principalmente se você praticamente não teve bons momentos desde a infância. A ausência de parâmetros de felicidade por longos períodos pode interferir na compreensão desse estado ou realidade, em termos de comparação com o estado depressivo. Embora as pessoas saibam que estão tristes, desmotivadas e sendo sugadas pela própria depressão, a felicidade e o prazer parecem coisas impossíveis de se conseguir ou até mesmo abstratas demais pra serem concebidas. Mas é importante lembrar que essa percepção de pouca ou nenhuma esperança é tão somente uma distorção gerada pela própria depressão. Indivíduos deprimidos, possuem uma alteração cerebral sobre o sistema químico, bloqueando ou não aproveitando as químicas que estão direta e naturalmente relacionadas a sensação de prazer. A grosso modo, seria como dizer que o sujeito está imune a felicidade, independente das coisas que acontecem ao redor.

Mas, esse não é um texto apenas sobre depressão. É muito mais abrangente que isso. A grande realidade que precisamos ver aqui é que, por qualquer que seja o motivo, se tivermos um modelo de vida e pensamento que nos priva do riso, estamos ativando outros fracassos na vida. Dizem que sorrir abre portas e que rir é uma das conexões mais intensas que o ser humano consegue traçar socialmente. Temos esse hábito social em comum com os macacos e alguns estudos mostram que algumas outras espécies de animais fazem proveito consciente de certas substâncias, para fins recreativos, assim que entendem a relação entre prazer e consumo. É também visto em algumas espécies, algo que, antes, achava-se ser algo exclusivo dos humanos: a realização do sexo por prazer e não só por instinto de reprodução.

De forma geral, pra todos os seres, sentir prazer pela vida é basicamente a mesma coisa que aproveitar o potencial de si mesmos e da própria vida, seja lá o que ela seja. Uma vez que não sabemos ao certo o que fazemos e quais propósitos realmente temos nessa existência misteriosa, tudo que temos de garantia são nossos sentidos e percepções da realidade. Nossa presença social e também como indivíduos cobra de nós que estejamos mais do que em harmonia, cobra de nós que estejamos felizes o suficiente pra fazer valer os momentos vividos. Embora muita gente tenha tido uma vida longeva em estados menos entusiasmados, é fato que, na média, a tendência é que as pessoas com pouco prazer pela vida levem um estilo de vida mais destrutivo, menos saudável, com diversas somatizações. Quando a mente não vai bem, muito disso se transforma em implicações no corpo físico. Especula-se, por exemplo, que doenças como o câncer estão intimamente relacionadas com outros quadros e experiências, entre eles, as emoções contidas. Pessoas que estão amarguradas ou insatisfeitas por muito tempo, podem acabar somatizando esses e outros dramas em um câncer, devido ao desequilíbrio do sistema imunológico.

O lado bom da vida se expressa pelas coisas que nos dá diversão, felicidade, prazer e motivação em continuar a ser e fazer, especialmente quando permite que outros indivíduos ao redor experimentem esse contexto, tal como se todos estivessem compartilhando de uma mesma festa. Pessoas felizes constroem sociedades com grande interesse de preservar e fomentar felicidade. Através da empatia podemos dividir com outras pessoas as alegrias e dramas. As emoções humanas são possíveis de serem compreendidas e replicadas, em certo sentido, para que outra pessoa sinta aquilo. Essa conexão que temos configura um padrão natural e sadio, pois isso promove o bem-estar nas relações humanas e deixa as portas abertas para que os indivíduos possam exercer suas vidas com satisfação, liberdade e desejo em viver mais. Quando essa conexão não existe ou é altamente corrompida, as pessoas começam a não se importar umas com as outras, gerando um ambiente de desprezo, infelicidade, ódio, violência e pouco ou nenhum respeito e/ou valorização pelas demais pessoas.

Um padrão de vida que externaliza hábitos nocivos pra si e pros outros, invariavelmente, reforça um desequilíbrio que nasceu internamente no indivíduo, devido a inúmeras possíveis origens, inclusive, diversas delas, externas. Sociedades que oprimem, por exemplo, plantam a própria ruína, uma vez que geram pessoas insatisfeitas, infelizes e reativas a opressão. A receita garantida de aumentar problemas, ao invés de solucionar. A ausência do riso ou da felicidade, está intimamente ligada ao fracasso das expressões humanas, afinal realizamos tudo em dependência da motivação da própria vida. Precisamos ver sentido ou ter imenso prazer, ou perdemos a disposição ou interesse de desenvolver ou participar de algo. É assim que a vida deixa de ser uma opção interessante quando somos afetados pela depressão e, exatamente por isso, muitos depressivos podem vir a se tornar suicidas.

Embora pareça óbvio, ainda estamos em tempos em que obviedades precisam ser ditas. Então fica a mensagem de que ser feliz e estar em paz é melhor do que estar infeliz e incomodado. Mesmo que as pessoas digam que querem uma boa vida pra elas mesmas, elas se esquecem de que em nenhum momento conseguirão isso através da violência, da corrupção, da guerra, da opressão, do preconceito, da desconfiança, da perda de qualidade, da má educação e da valorização de arquétipos destrutivos. Enquanto as pessoas estiverem enaltecendo pessoas, instituições ou ideias que reduzem o ser humano em seu potencial de felicidade e bem-estar geral, estarão freando a própria sociedade e a si mesmas, impedindo que desfrutem de um ambiente favorável. O nome disso é “atirar no próprio pé e se queixar da dor.”.

Aquele que não é capaz de entender que é parte inseparável da equação, não conseguirá perceber que seu estado doentio é parte do que bloqueia e impede a sociedade de ser plena e satisfatória. Assim como o desequilíbrio nas químicas afeta o cérebro do deprimido, indivíduos desequilibrados em certos aspectos sociais afetam a sociedade. Partes adoentadas ou danificadas não cumprem a mesma função em uma máquina, seja ela um cérebro, um motor ou uma sociedade. Se não estamos rindo e expressando prazer, estamos sofrendo e estagnando, tanto individualmente quando coletivamente.

O próprio sentido de família e amizade, embora abstratos, explica como e porquê o ser humano depende de bons momentos pra conseguir existir coletivamente e ver sentido em si mesmo como peça dessa engrenagem maior. No fundo, tudo o que o ser humano são deseja é estar bem e compartilhar o bem. Qualquer desvio dessa premissa, confere, por vários motivos, patologias psicológicas ou psiquiátricas que devem ser devidamente cuidadas para não transbordar impactos e prejuízos aos demais indivíduos. Em teoria, as sociedades já fazem esse controle, ao estabelecer vigília, tratamento ou detenção a sociopatas ou a indivíduos que, de alguma forma, estão inaptos a viver em sociedade. Porém, bem longe do ideal, a realidade prática é que, ao invés das pessoas inadequadas e perigosas estarem controladas, elas figuram entre os cargos de maior relevância e impacto na sociedade. Não deveria ser surpresa nenhuma de que há uma lista interminável de criminosos de todo tipo, na política, na polícia, no comando de corporações, em pseudo instituições religiosas, etc. E é exatamente por estarem livres pra agir, que deixam esse legado tóxico ao mundo, em tudo e todos que tocam. Não é, portanto, exagero classificar esse tipo de membro da sociedade como um câncer que afeta as células sadias e destrói a saúde geral do organismo ou sociedade.

Sempre ouvimos a expressão “rir é o melhor remédio.” e de fato é. Se pudéssemos escolher clicar em um botão e mudarmos automaticamente para um padrão de felicidade, certamente faríamos. Ninguém gosta de sofrer. E se ninguém é feliz sofrendo, isso inclui não só o próprio indivíduo, como todos os demais. Ser racional e fazer uso da lógica a favor do próprio bem-estar emocional, físico e social é lutar extensamente para que nosso ambiente ao redor seja melhor, mais feliz, mais livre, com mais riso e menos dor. Trabalhos conscientes nesse sentido, incluem desde cidadãos comuns que escolhem um jeito de viver e de se expressar mais positivo, até indivíduos que entram pra alguma causa ou ação social que visa amenizar o sofrimento e suscitar mudanças de ação e de pensamento. Iniciativas como os ‘Doutores da Alegria’, que visitam pacientes em hospitais, vestidos de médicos-palhaços, ajudam os enfermos a se reposicionarem diante da própria situação e terem mais disposição de enfrentar seus dilemas. Estar doente é um contexto duro de se experimentar e sob isolamento ou pouco prazer, pode tornar-se um fator crucial na piora do quadro clínico.

Outras ações, como as que ocorrem em algumas ONGs ou iniciativas avulsas de assistência social, podem ser gratificantes a quem tenha visão sobre a teia que somos, mas também pode impactar bastante, uma vez que plantar a ajuda quase sempre implica em absorver a dor alheia por conta da empatia e do convívio contínuo em ambientes e contextos de sofrimento, guerra, doença, abandono social, etc. São frequentes as notícias de depressão entre psicólogos, médicos, psiquiatras, professores e ativistas sociais. Muitas vezes a mudança é tão gradual ou camuflada pela própria atividade, que eles não se dão conta do desfecho drástico a que estão submetidos quando afetados emocionalmente e psicologicamente por aquele ambiente. Por razão similar, estudantes de Psicologia, por exemplo, precisam ter alta antes de serem liberados para exercer a profissão. Embora seja altamente necessário e sensato tal filtro, na prática isso é feito de forma simbólica, distribuindo no mercado uma multidão de profissionais sem uma verdadeira alta de seus quadros psicológicos, sendo um terrível risco a saúde psicológica dos pacientes e, portanto, da sociedade em si. Pelo simples motivo de que você não colocaria um estuprador para atender pacientes que foram vítimas de estupro, você não colocaria certos formandos para clinicarem na área da Psicologia.

Assim, todos os dilemas que temos em nossa sociedade são mero reflexo das conturbações de cenários menores, como os países e suas gestões, as cidades e suas realidades, as condições de um bairro, o círculo de amigos, o ambiente de trabalho, a composição familiar, os relacionamentos ditos “amorosos” e, por fim, o universo interno do próprio indivíduo. Não se pode analisar a felicidade do mundo, sem antes, pensar extensivamente na felicidade do próprio indivíduo. Sociedades que ignoram o problema das peças, jamais poderão manter a totalidade da máquina estável. Simples assim.

Apesar de estar escrevendo com certa frequência, o que pra mim é relativamente fácil e interessante, por vezes eu não me sinto disposto ou apto a fazer o necessário. Enfrentei depressão a vida inteira e ainda não me vi seguramente distante desse malefício a ponto de dizer que não voltará a ocorrer. Neste meio, diz-se que depressão é o tipo de coisa que uma vez que se tenha, nunca mais há garantias de que não poderá recair. Sou o claro exemplo de quem parou de ir, porque parou de rir. Sempre fui uma pessoa com bastante senso de humor, ironizando o mundo com piadas e comentários sarcásticos, mas, apesar disso, estive infeliz, arrastando a doença da depressão por todos esses longos anos.

Deixar de rir, no sentido de não estar feliz por padrão, me impediu de ter momentos além daquelas exceções onde ria estritamente em determinados casos, especialmente com ajuda de fugas e estilos de vida que me deixassem vagando pelo tempo. A infelicidade me impediu de socializar, de estudar, de trabalhar, de lutar pelos meus objetivos e potenciais. A infelicidade deixou marcas indeléveis no meu histórico e também na minha saúde. Ela me tomou tempo, levou meu dinheiro e cavou um buraco de insatisfação onde eu não encontro mais amparo. Talvez seja a depressão tocando a campainha novamente, talvez seja a minha análise realista de que um ambiente tóxico e cada vez pior não pode ser viável pra quem deseja boas coisas nessa vida. Fico em dúvida, pois sempre me lembro dessa frase de Freud que nunca me canso de repetir:

“Antes de se autodiagnosticar com depressão, verifique se não está apenas cercado de idiotas.”

Quem tenta inventar bem-estar onde não tem, colocando princípios ilusórios de valores ou ideologias, está tão somente aumentando a própria cova. Sociedades que visam controlar aspectos superficiais, ignorando a origem dos problemas, estão apenas enxugando gelo. Se as pessoas realmente quisessem se ver livres e felizes, fariam exatamente o oposto do que está sendo feito coletivamente na maioria dos lugares. Ideologias que se preocupam em apagar incêndios locais com gasolina, sempre terão que lidar com incêndios e incêndios cada vez maiores. A estupidez e o egoísmo nunca foram soluções pra coisa alguma. Discordar disso é ser a prova disso. Premissas básicas de pensamento e relações precisam, necessariamente, incluir felicidade e liberdade sinceras. A felicidade falsa, expressa sem sinceridade pode ser muito mais tóxica que a tristeza sincera. Em depressão, por exemplo, eu continuo fazendo o melhor possível por mim e pelos outros. Mas uma pessoa em expressão insincera da felicidade, só está enganando a si mesma e iludindo milhões de outras pessoas de que a vida consiste nessa busca rasa, inútil, superficial e doentia de coisas que, na verdade, não deixam ninguém feliz de fato.

Se alguém parece satisfeito demais em um contexto inóspito, pode estar com Síndrome de Estocolmo, onde nega o sofrimento ou opressão experimentados, em defesa de seu próprio opressor. A opção menos provável é de estar em paz, apesar do caos percebido ao redor, o que, com plena certeza, é o caso de raríssimas pessoas e, portanto, não é algo que deva ser exigido por padrão. Não cobre das pessoas que elas estejam sempre de bom-humor, entusiasmadas, dispostas a trabalhar e lutar pelos objetivos e potenciais pessoais, enquanto elas estão enfrentando uma batalha inominável de sobrevivência a própria dor, a dor do mundo e a desnecessidade de tudo isso. Sempre que alguém tenta justificar os insucessos de uma pessoa deprimida, a colocando como culpada, eu, como deprimido, me sinto, ao menos, motivado em não ser tão cego e ignorante a ponto de achar que a vida de um indivíduo e sua bela e rosa exceção, tem qualquer relação com a realidade fora dessa bolha. Não tem, nunca terá e discordar não vai te fazer mais consistente nessa ausência de raciocínio e lógica.

Hoje eu simplesmente gostaria de rir, mas a tudo que olho, me parece insosso, desnecessário, sem graça, estúpido e doentio. Tal como alerta Freud, sinto como se estivesse cercado de idiotas e, portanto, com ou sem depressão não me veria em um contexto favorável. Existir nessa realidade intragável me obriga a repetir: melhorem!

As pessoas devem tentar ser o tipo de pessoa que elas gostariam de conhecer. Foi exatamente isso que eu fiz a minha vida inteira, exceto pela depressão que é algo ao qual não escolhemos e pouco ou nada controlamos. Se não puder sorrir para o mundo, tente pelo menos ser útil e sincero, sempre pautar suas ideias e ações em princípios de lógica e bem-estar coletivo, senão acabará infeliz do mesmo jeito e ainda será a razão principal da infelicidade dos demais. Acorde ou será acordado, pois bolhas estouradas não voltam a se regenerar. Aprenda a conviver com a realidade fora da bolha e perceberá que a solução interna é também a solução coletiva.

Rodrigo Meyer

O que aprendi jejuando?

Adiei muito em escrever esse texto, até encontrar a maneira mais apropriada de se falar positivamente sobre jejum em um mundo onde muita gente passa fome por falta de opção. É evidente que são situações completamente diferentes e, nem de longe, a ideia é romantizar a abstinência de comida. Mas, quero dividir a minha experiência nesse tema e fazer alguns comentários sobre sociedade, consumo, padrão de vida e alimentação.

Esse é um tema delicado que envolve inúmeros dramas para muitas e muitas pessoas. Falar de alimentação, acesso a alimentos, jejum, desnutrição ou alimentação precária é ainda um grande problema no mundo, apesar de termos várias vezes mais alimentos produzidos do que a necessidade de consumo dos seres. Isso ocorre porque existe um enorme desperdício de alimento que vai ao lixo como sobra do que não foi consumido por quem planejou uma compra desproporcional de alimentos.

Na minha família, cozinhar e comer era um evento tão importante que o que mais haviam eram festas e reuniões entre parentes e amigos como pretexto pra se cozinhar e comer sempre mais e mais. Como se pode prever, coletamos disso um vício e diversos problemas de saúde. Era um excesso de comida aliado ao prazer de comer e tendo como gatilho ou origem os dilemas psicológicos. O convívio familiar incentivava que esse modelo se perpetuasse com facilidade, já que bastava estar ali para surgirem pratos maravilhosos todos os dias.

No começo da minha infância eu gastava muita energia e era uma pessoa magra. Depois, gradualmente, fui sentindo os efeitos da depressão se agravarem e, junto com isso, um aumento substancial do consumo de comida. O isolamento e a procrastinação foram dando espaço para um pessoa que via o ato de comer como uma fonte de prazer temporária. Dividir uma refeição com alguém ou mesmo comer algo bem saboroso sozinho de fato pode ser gratificante. Na minha família, infelizmente, o motivo da refeição, pra mim, era tão somente a comida. As reuniões familiares em torno da mesa eram sempre conturbadas e acredito que isso tenha impactado na degradação do psicológico e colocado mais força nesse ato de descontar tudo na alimentação compulsiva.

Em alguns anos da minha adolescência eu comecei a perder o controle sobre minha aparência e peso, virando uma certa bola-de-neve. Estar gordo me fazia comer e comer me fazia estar gordo. Equação óbvia que leva muita gente a uma progressão letal. Essa é uma realidade que vi com meus próprios olhos entre algumas pessoas do meu convívio. Impactado por isso, sempre tentei reverter a minha condição e até consegui. No começo da vida adulta, tinha uma aparência satisfatória e me sentia muito motivado em fazer inúmeras atividades, especialmente com o recente resgate pra fora do poço da depressão. Com um relacionamento promissor, frequência e sintonia no sexo, a tal ‘química’ em estar apaixonado e todo organismo agradecendo, o resultado foi conseguir estar estável fisicamente, mesmo tendo um consumo significativo de comida. Energia gasta e metabolismo ativo faziam tudo parecer fácil de se controlar, sem nenhum esforço.

Mas, depois dessa fase e com as decepções que me levaram de volta ao isolamento e a depressão, entrei pra um consumo desproporcional de comida e álcool, especialmente na fase da faculdade, o que me fez estar tão diferente da imagem que eu tinha de mim mesmo, que não me reconhecia no espelho. A pessoa que eu aparentava ser, não representava a personalidade ou o ideal que eu tinha como identidade interna. Esse conflito também gerou um efeito bola-de-neve de mais comida e bebida e, por fim, minha saúde se degenerou tanto que eu tinha episódios indescritíveis, quase que todos os dias, achando que seria minha hora de morrer. Em alguns períodos mal tinha o contorno do rosto separado do pescoço, por conta do sobrepeso. Mas, de forma geral, levando em conta minha estrutura, eu não estava tão exagerado. Diríamos que passava desapercebido na média das pessoas. Mas, pro meu caso em específico, era um sobrepeso suficiente pra comprometer a saúde.

Muito provavelmente por conta da adição frequente do álcool, acabei em um estado que, se não fizesse nada para mudar drasticamente os hábitos, poderia ser surpreendido por um infarto. Então, resolvi cortar o consumo de álcool quase que totalmente, deixando a prática pra momentos especiais em uma ou outra época do ano. Troquei a diversidade de tipos de bebidas por algumas poucas opções e comecei a me planejar pra uma transição de hábitos alimentares. Apesar disso, nunca tinha passado pela minha cabeça que jejuar fosse uma opção saudável ou interessante. O que eu fiz, na verdade, foi uma redução gradual do volume de comida, especialmente quando o dinheiro se tornava cada vez mais escasso. Se formos comparar, por exemplo, a compra em um restaurante por quilo, eu praticamente reduzi pela metade meu consumo logo de cara e depois, com mais confiança, vi que podia reduzir pela metade da metade. Mal sabia eu que esse domínio na reeducação alimentar me deixou tão condicionado, que nunca me senti privado de comida, mesmo quando comia até menos que isso ou nos dias em que simplesmente esquecia do horário de ir almoçar. Por hábito, desde estas mudanças, eu passei a somente almoçar. Não faço refeições na janta, nem no café-da-manhã.

Passei por umas situações difíceis nos últimos tempos, com a transição de mais de 17 anos de trabalho na Fotografia pra uma volta ao Design Gráfico. Me encaixar profissionalmente em um período da vida que coincidiu com a minha mudança de casa e de parte do meu estilo de vida, me fez decair bastante no controle financeiro e, não tenho vergonha nenhuma em dizer que, por várias vezes, por falta de dinheiro, estive sem ter condições de comer coisa nenhuma. No começo, o jejum forçado foi bastante desagradável. Me sentia tão transtornado em estar a dias sem comer que estava praticamente andando de um lado pro outro dentro de casa, em claro sinal de ansiedade. Dormir me ajudou bastante a superar e me reposicionar nesse contexto. De fato, como dizem, um período de sono ajuda a enganar a fome.

A cada nova vez que eu tinha restrições financeiras, estava um pouco mais preparado para a chegada do inevitável jejum. Pela terceira ou quarta vez em que esses períodos ocorreram, eu já estava bem mais “conformado” e “confortável”, por assim dizer. Se anos atrás eu esquecia o horário de ir almoçar, atualmente chego a esquecer e passar dias sem comer. Não é que eu me force a não comer, mas apenas que estou tão tranquilo na mente que não me veem nenhum desespero por conta do tempo estar passando sem eu ter feito uma refeição. É como se a fome estivesse sob controle e só soasse um sinal quando fosse realmente necessário. Depois de uns 3 ou 4 dias começa a brotar uma vontade um pouquinho diferente de comer alguma coisa. Contudo, já passei por vários episódios onde, em cada um deles, estive mais de 30 dias consecutivos em jejum. Queria, então, dividir o que eu aprendi jejuando.

Quando eu me apercebi do volume de comida que eu consumia quando mais novo e como isso degradou minha saúde, eu percebi o quanto aquilo era desproporcional a minha necessidade. Conforme eu fui mudando de hábito, pude notar que era possível se adaptar facilmente a redução do volume e da frequência da alimentação, desde que se fizesse disso um hábito. E, por fim, se era possível reduzir, um jejum também poderia vir a ocorrer de maneira similar, como vim a descobrir nos últimos anos. Aprendi que jejuar não é a garantia de um incômodo e nem é algo tão extremo se você já tiver preparado fisicamente e emocionalmente pra essa restrição. As experiências anteriores e a aceitação do contexto, principalmente depois de ter superado com sucesso as crises, me ajudaram a ver o jejum de maneira neutra, sendo ele, pra mim, um ótimo aliado quando eu preciso fazer alguma contenção de gastos para contornar a dificuldade financeira.

O jejum me ensinou que eu sou mais resistente e capaz do que imaginava e que, mesmo com um mar de gente ao redor com muito mais posses e dinheiro a disposição, eu não preciso do mesmo tanto que eles pra concretizar minha vida de maneira muito mais estável, digna e satisfatória. É evidente que eu seria feliz dividindo bons momentos em uma refeição ou até mesmo tendo conforto financeiro pra não precisar pensar se vai ser possível comer ou não, pagar as contas mínimas ou seguir devendo novamente. Porém, na ausência deste ideal, tenho conseguido lidar muito bem com o meu cenário atual, enquanto muitos outros não conseguiriam passar 1 dia no meu papel, enfrentando as coisas que enfrento nas diversas áreas da vida.

Ter passado por essa experiência me fez sentir bem, apesar de confirmar o abandono social e familiar, destacando, consequentemente, o nível deplorável dos indivíduos que supostamente tinham algum elo.  Família e sociedade são termos desgastados pra realidade prática dessas entidades. Sorte de quem tem uma verdadeira, pois, para a maioria das pessoas, esses termos são nomes de meras lendas. Família, de verdade, independe de parentesco sanguíneo, uma vez que é tão somente a soma de pessoas que realmente estão interessadas umas nas outras por elos de afeto e empatia, pessoas as quais pode-se contar quando for necessário. Qualquer coisa diferente disso é só convenção social inútil. Família, tal como é para casais na famosa frase do juramento de casamento, tem que ser “na alegria e na tristeza, na pobreza e na riqueza, na saúde e na doença.”. Os revezes da vida, me mostraram com quem eu podia contar e tudo que eu vi foi que eu só tinha valor e utilidade para os demais enquanto tinha alegria, dinheiro e saúde. Na tristeza, na pobreza e na doença, as pessoas simplesmente se distanciaram, da noite pro dia.

O jejum me ensinou que eu hipervalorizava a comida e, muitas vezes, ironicamente, dava pouco valor a ela quando tinha em excesso. Aquilo que temos com muita facilidade, podemos não reconhecer o valor, até perdermos aquilo. Mas depois de ter aprendido o valor da comida, entendi algo ainda melhor: que ela não é tão necessária quando eu imaginava. Resolver meus problemas com outras ferramentas, também foi uma das consequências automáticas. Na ausência da fuga dos problemas pelo caminho da comida, eu tive que buscar alternativas, querendo ou não.

Assim que a cabeça centrou, pude olhar com mais tranquilidade pras coisas e entender melhor e mais profundamente algo que eu sempre acreditei a vida toda: que a média do ser humano valoriza coisas amplamente superficiais e desnecessárias, num modelo de vida de consumo contínuo e desenfreado, mergulhado em dívidas e servidão no trabalho, para sustentar uma busca, quase sempre infrutífera, de objetivos ocos. Acreditam estar subindo na vida, conquistando uma realidade cheia de entulhos, mas, na verdade, trazem tantos problemas pra suas vidas que, depois da metade dos consumos desnecessários, buscam na outra metade soluções pros efeitos colaterais adquiridos com a primeira metade. A grosso modo, resumindo, é como se estivessem usando metade do tempo e do dinheiro de suas vidas pra quebrarem suas pernas e com a outra metade do tempo e do dinheiro investindo no remendo das pernas quebradas. Esse é o exemplo mais explícito de dano desnecessário e vício em equívocos.

Dessa sociedade doente eu não faço parte. Meu foco, há muitos e muitos anos, é a ideologia do minimalismo. Meu lema ao longo do tempo tem sido uma frase que repito muitas e muitas vezes pra mim e pros outros: “reduzir, reduzir, reduzir.”. Comigo eu só quero aquilo que realmente for necessário e útil; o resto eu dispenso. Provavelmente, nesse modelo de vida, o jejum se encaixou muito bem, em uma época oportuna pro meu histórico particular. A minha experiência serve para o meu contexto e para os meus objetivos. Comparar a minha situação, por dentro e por fora, com a de qualquer outra pessoa no mundo, não seria justo pra podermos dizer que há algo único e verdadeiro que possa e/ou deva ser espalhado como ideal de prática ou pensamento.

O que as pessoas precisam entender é que, em diversos assuntos na vida, o que pra alguns é difícil ou utopia, pra outros é pura facilidade e satisfação. A transformação interna de um indivíduo depende muito mais dele mesmo do que de qualquer outro fator ou contexto do entorno. Aquilo que cabe somente a nós entender e resolver, não há pessoa no mundo que possa assumir essa responsabilidade em nosso lugar. Isso não significa, porém, que a sociedade não está adoentada e cheia de práticas ineficientes pra lidar com a própria abertura de pensamento e bem-estar dos seus membros e nem que a sociedade não construa barreiras reais que atrapalham a vida das pessoas. Quando os indivíduos estão adoentados, eles formam uma sociedade igualmente adoentada, já que sociedade nada mais é que a soma desses indivíduos. A expressão de um coletivo de pessoas egoístas, gananciosas, viciadas, ansiosas, preconceituosas, cheias de complexos e desvios psicológicos, só gera um ambiente conturbado onde todos estão em constante conflito por questões e detalhes que nem eles mesmos entendem e não possuem disposição para aquietar, refletir e absorver o necessário pra solução de si mesmos. Nesse sentido, eventos drásticos podem ajudar as pessoas a se colocarem no lugar delas, chacoalhando-as pra que notem o óbvio e comecem a priorizar as coisas certas, valorizando pessoas ao invés de dinheiro e/ou posses e respeitando princípios básicos de convivência, não pra ser um pônei colorido da caridade passiva, mas pra rever em si mesmas, quais são as condutas e pensamentos desnecessários e equivocados que estão fazendo pra si mesmas, no claro exemplo do chamado ‘tiro no pé’. Assim que um indivíduo se apercebe que está errando com ele mesmo, ele tem condições, se quiser, de entender como ele esteve errando com os demais, eventualmente.

Rodrigo Meyer

É possível preferir piorar?

O ser humano, geralmente, é cheio de contradições, falhas e outros problemas que bloqueiam o progresso dele mesmo. Algo bem comum na sociedade são os indivíduos que escolhem, conscientemente, piorar. Mas será que isso é real? É bem real e te trago exemplos pra poder explicar porque isso ocorre.

Você já deve ter visto inúmeras pessoas que idealizam algo para a vida delas, porém, são levadas a descumprir esse ideal, simplesmente porque é mais cômodo, conveniente, fácil ou momentaneamente mais interessante seguir por um caminho diferente. A pessoa pode estar enfrentando um problema de saúde, por exemplo, mas ao invés de tomar as precauções necessárias pra evitar a piora ou até mesmo para solucionar tal problema, ela pode vir a escolher a perpetuação de hábitos que pioram a saúde dela. Alguns diriam que isso tem relação com a chamada ‘lei do menor esforço’, onde o cérebro se pauta em decisões ou processamentos que sejam mais fáceis de serem cumpridos, seja do ponto de vista da complexidade do raciocínio, seja do ponto de vista físico e prático do dilema. É assim que, por exemplo, é muito mais tentador quebrar uma dieta alimentar para comer o que é mais gostoso, apesar de ser mais calórico e/ou menos saudável, do que se manter firme no objetivo proposto. O mesmo ocorre quando estamos diante da meta de fazer exercícios físicos e somos tentados a simplesmente procrastinar, adiar ou dormir.

Que o ser humano tenta sempre buscar atalhos, isso nós sabemos. Se pudermos fazer sempre o mais fácil, melhor. Porém, nem tudo que é mais fácil entrega os mesmos objetivos e é aí que mora o problema. Aquilo que evitamos de fazer por preguiça ou comodismo, acaba por ser uma autossabotagem. Mesmo que saibamos que estamos escolhendo piorar em algo, podemos ser compelidos a tomar essa decisão, simplesmente porque sabemos que a mudança positiva que queríamos requer ação, iniciativa e engajamento. Por essa simples razão, muita gente se vê desistindo de suas metas, pois acaba ficando desmotivado ou acomodado.

Quando a autoestima de um indivíduo está afetada por alguma situação prévia, como um trauma, um complexo, uma depressão, um evento marcante ou algum desvio psicológico que interfere na correta percepção de si mesmo, acaba sendo bastante provável que as decisões tomadas sobre melhora, terminem sendo focadas na piora, já que esse quadro específico deixa as pessoas desmotivadas ou acomodadas. Você já deve ter visto, por exemplo, uma pessoa enfrentando a doença da depressão, tendo que tentar controlar outros setores da sua vida, mas acabar em uma rotina que parece acobertar o estilo de vida depressivo, por assim dizer. Embora não seja uma regra, muitas pessoas em depressão podem ter a decisão do isolamento, da desistência da escola ou de cursos e até mesmo do trabalho em alguns casos. Ainda que essas pessoas desejem bem-estar pra si mesmas, a doença da depressão muda substancialmente a motivação e a percepção de valor e prazer nas coisas, de forma que ela acaba, por esses motivos, provavelmente escolhendo itens de piora pra seu estilo de vida. Alguns passam a beber mais, outros enveredam por outros tipos de droga e alguns outros lidam com essa dor através do consumo exagerado de comida ou mesmo da supressão drástica de alimentação.

Claro que, para casos como este de depressão e transtornos psicológicos mais específicos, os indivíduos afetados praticamente não possuem controle de decisão, afinal tudo acontece de forma tão intensa, automática e encadeada, que os efeitos colaterais de seu problema inicial se tornam praticamente indissociáveis do problema em si. Mas, para outros tipos de indivíduos, fora desses quadros, a escolha em piorar pode ser o reflexo simples do comodismo. Feitas essas distinções importantes, é preciso erguer uma bandeira de responsabilidade e de incentivo para as melhores opções de comportamento e pensamento. Uma vez que sabemos que algo pode nos tornar melhores, temos que compreender se estamos seguros e com autoestima suficiente para seguir esse caminho. É hora de nos cobrarmos com mais seriedade, pra não cairmos naquele repetitivo ‘meme’ nas transições de ano, onde muita gente brinca com a ideia de que fez dezenas de planos no ano passado, mas que não cumpriu nenhum e repassará os planos para o ano seguinte. De maneira semelhante quando adiamos uma dieta para a próxima semana ou mês que vem, muita coisa em nossa vida é deixada de lado, simplesmente porque não é tão fácil como gostaríamos que fosse. Estou ciente de que não é nada fácil ter motivação, especialmente quando nossas vidas são uma sequência de pressões, cobranças, problemas e insucessos acumulados. Estamos tão cercados de dramas em outros setores e momentos que, sempre que tentamos fazer uma decisão mais útil, ficamos tão instáveis que é fácil tombar para o erro ou desistir da ação.

Em todos os momentos que eu tive que permanecer de pé, enfrentando depressão, preconceitos, pressão familiar, pressão social, me vi tropeçando e desistindo. Isso alimentou ainda mais esses cenários tóxicos ao redor e virou uma bola-de-neve de problemas. Encontrar motivação pra ser quem eu queria ser e fazer o que eu realmente queria fazer, me custou muitos anos de transmutação. Essa alquimia interna a qual pouca gente fala e que é tão essencial a todo e qualquer ser, é que vai permitir que ativemos em nós os gatilhos para a motivação nas atividades ou objetivos. Desde algum tempo, sempre que algo se torna ruim demais na minha vida, eu me sinto desafiado a reverter aquilo a meu favor. É como se eu olhasse pra trás e soubesse que o que mais me estragou foi eu ter aceitado entrar nesse círculo vicioso de desmotivação e inação, cada vez que surgia uma barreira. Nem sempre teremos como escolher o que fazer de nossas vidas, especialmente se estivermos enfrentando contextos específicos como a doença da depressão, mas, devemos sempre procurar por opções em cada cenário e ver o que conseguimos fazer de melhor por nós mesmos. Não tenho todas as chaves e respostas para uma vida sem problemas. Este, certamente não sou eu. Mas tenho respostas claras e diretas sobre quem eu sou, como o mundo está e quais os erros mais clássicos que a maioria de nós já fez, faz ou continuará a fazer por um bom tempo. Se pudermos, pelo menos, refletir e decidir algo sobre esses aspectos, já seremos pessoas muito melhores que as da geração anterior. Negligenciar as pequenas mudanças, apenas porque não podemos ser perfeitos, é o mesmíssimo problema daqueles que escolhem piorar, por acharem que o caminho da mudança requer ação ao invés do comodismo. Fazer a diferença, conforme mostra a própria História da Humanidade, começa em pequenas iniciativas sinceras, que acabam por crescer em um efeito bola-de-neve.

Em conclusão, faça o seu melhor hoje, seja lá qual for este melhor possível ao momento e isso já será um passo valioso pra que amanhã ou daqui alguns meses e anos, você consiga passos muito mais estáveis, confiantes e ousados. Não vim lhe prometer o paraíso, mas você pode viver melhor do que antes, se tomar essa decisão a seu favor.

Rodrigo Meyer

Sua roda de amigos é diversa?

Apesar do Brasil ser um país de bastante diversidade e mistura étnica, o modo como a sociedade se organizou, deixou um rastro de separatismo visível e invisível. Ainda que em certo convívio diário, ainda se vê estas claras separações sociais, isolando determinados grupos ou características, privando-os de acesso ou boa receptividade em determinados outros meios e grupos de pessoas. De forma geral, essas separações são fruto de uma cultura de racismo, machismo, preconceito de classes, entre outras mazelas humanas. Em decorrência desse modelo adoentado de sociedade, ocorre uma baixa diversidade nos grupos de interação humana, tanto nas amizades, relacionamentos amorosos, espaços de trabalho, espaços de lazer, de compra e os próprios espaços de moradia.

Lembro de um episódio de quando eu era pré-adolescente, onde um amigo de escola me chamou pra opinar sobre um dilema dele. Fiquei contente pela confiança prestada, mas não havia passado pela minha cabeça a possibilidade daquela indagação feita. Ele perguntava, ao modo da época, sob a ótica da idade, se ele seria considerado ‘negro’ ou ‘pardo’ na sociedade, pelos termos dele mesmo. Eu, surpreso pela pergunta, fiz uma breve análise e comentei a única coisa que sabia: que o tom de pele dele era mais escuro que o meu, mas eu não fazia a menor ideia de quais eram os pré-requisitos pra que aquilo fosse classificado ou determinado. Eu entendi que a inquietação dele diante do tema era reflexo da visão pejorativa que ele mesmo desenvolveu sobre sua característica ou condição, ao perceber que na sociedade racista em que vivíamos, quanto mais escuro fosse o tom de pele, menos prestígio social a sociedade atribuía ao indivíduo. Ele desabafava sobre se considerar ‘branco’ e se, não me falha a memória, filosofava sobre classificações, embora tudo aquilo, na época, não fazia muito sentido pra mim, já que estávamos em um ambiente onde haviam centenas, senão milhares, de tons diferentes de pele e qualquer que fosse o nome escolhido, continuariam diversos.

Esse episódio me marcou, provavelmente, porque foi a primeira vez que parei pra refletir por meses sobre diversos aspectos da psicologia humana, questões sociais e como a estrutura do racismo de fato agia na sociedade. Nesta época, ainda percorria anos em depressão e aproveitava meus momentos de intensa reclusão, para pensar. Isso me permitiu refletir sobre muita coisa e também de me tornar um observador engajado da conduta humana. Fechado em meu mundo, com muito poucos contatos e talvez nenhum amigo de fato, olhava para aqueles problemas e conseguia entender com grande facilidade. As coisas injustas, os equívocos e os interesses nefastos de grande parte das pessoas, saltava diante dos meus olhos, evidenciadas por si mesmas, bastando que eu estivesse ali, sem evitar de ver. No final das contas, ser observador, naquele contexto, era simplesmente viver com os olhos abertos normalmente, algo que a maioria das pessoas ainda não faz.

Era fácil ver a diferença em todo lugar, visitando a feira, andando pelo supermercado, folheando as revistas, acompanhando os filmes e programas da televisão. Se antes nunca havia parado pra pensar em quanta diversidade havia ou deixava de haver no meu círculo de convívio, com essa atenção voltada ao tema, foi instantâneo notar que, de fato, a sociedade estava fragmentada ao invés de unida indistintamente. As pessoas estavam separadas, basicamente, por conta de distorcidas visões de mundo, ideias, preconceitos, vontades, recusas, medos, erros, entre outras coisas. Eram tempos, talvez, nada diferentes de hoje, onde ainda vemos gente ostentando sobrenomes, profissões, crachás, diplomas, cargos e outras piadas de mal gosto.

Fato é que, podemos fazer uma análise simples das pessoas de nosso convívio e medir essa diversidade. Se você nasce em determinado lugar, mora em determinado bairro e frequenta determinadas escolas, as chances de seu círculo de convívio ser totalmente (ou quase) composto por pessoas similares é grande. No bairro onde passei minha infância, na mesma rua, convivia-se com diferenças entre os próprios vizinhos. A diversidade  de pessoas, escolaridades, classes sociais, idade, etnias, gêneros e outros aspectos, estava lá, viva e fluindo. Naquele tempo, saíamos de casa pra brincar, pra ralar joelhos nos carrinhos de rolimã, empinar pipa, comprar gelinho, jogar bola, inventar decoração de festa junina ou simplesmente convidar as pessoas da rua pra estarem na sua festa de aniversário. Ainda que isso fosse uma realidade, ao mesmo tempo era claro ver que o que uns consideravam normal, outros estufavam o peito pra desaprovar. O preconceito sempre esteve lá. As pessoas podiam estar todos os dias em nosso convívio, mas sempre haveria alguém plantando a semente do racismo, provavelmente pra tentar atribuir valor em si mesmos, mesmo que de maneira imaginária e doentia. Eu podia ouvir as pessoas destilando xingamentos, expressões pejorativas, exclusão prática, por mais que não fossem capazes, em momento algum, de esclarecer o sentido daquela conduta automática. Mal sabiam elas que foram marionetes frágeis, usadas por influenciadores que também foram marionetes de outras marionetes numa terrível sucessão histórica. Acostumados a não pensar, chamavam aquilo de pensamento.

Conforme fui crescendo, mesmo que em discordância de tudo isso, o peso do separatismo social preexistente ainda formava círculos de convívio pouco diversos. Ao percorrer por outros bairros, mudanças de casa, trocas de escola, cursos aqui e alí (principalmente os de faculdade), ficava claro o quanto ainda seguíamos segregados uns dos outros. Não compactuar com isso me permitiu cavar meus próprios caminhos para estabelecer conexão e convívio com a diversidade. Enquanto muitas pessoas ao meu redor ocupavam seus dias em falar mal dos outros, eu fugia cada vez mais desses cenários, pra não ter que conviver justamente com estes que se achavam melhores, mas que nada somaram pra mim. A cada vez que eu exercia a natural diversidade, aumentava o desprezo pelas pessoas preconceituosas, por ainda precisar dividir teto, festas ou alguma outra necessidade de socialização ou interação.

É interessante como, automaticamente, todos os estereótipos pejorativos que meus parentes tinham, rapidamente se converteu num imenso tapa na cara devolvido, quando eu cruzei a adolescência e a vida adulta. Para o desprazer de muitos, mas para o meu prazer, dividi ótimos momentos ao lado de pessoas de todo tipo. Moradores de rua, periféricos, ricos, escolados, desempregados, músicos, atores, dançarinos, prostitutas, boêmios, usuários de drogas, estrangeiros, gays, lésbicas, trans, andróginos, hippies, punks, góticos, rapers, skatistas, negros, brancos, amarelos e vermelhos. Se houvesse oportunidade de conhecer marcianos, animais falantes e robôs, certamente também teriam sido inclusos nas mesmas rodas de convívio. A minha vida se tornou basicamente andar pelas ruas, pelos bares, pelos apartamentos, pelas casas de amigos de amigos e, praças, casas noturnas e qualquer outro canto onde tivesse gente e alguma coincidente incompatibilidade com o resto do mundo. Estávamos lá, pra repartir alguns copos de bebida, uma música, risadas, conversas, fotos, aventuras, sexo e, para alguns, oportuna sincera amizade.

Hoje em dia, infelizmente, estes meios onde normalmente se via tanta gente alternativa, misturada e divertida, hoje não representa mais os mesmos valores. Nestes espaços passou-se a ecoar o ranço do preconceito, das pessoas superficiais, violentas, alienadas, imaturas, buscando apenas fama pela aparência em um mundo de status para os que nunca tiveram isso. Eles tinham tudo pra dar certo e somar pro mundo, mas se corromperam pelas mesmas bobagens que antes diziam combater ou desprezar. E foi assim, que, pouco a pouco, eu fui me recolhendo, voltando pro isolamento e para novas reflexões. Meu círculo de convívio continua diverso, mas muito mais restrito, infelizmente. Nem mesmo com o poder da internet consigo encontrar muita gente pra dividir bons momentos comigo. Não queria me tornar um chato saudosista, mas, infelizmente tem sido assim a realidade apresentada. São poucas as pessoas do cenário geral que refletem a diversidade que eu gostaria de ver. Talvez a globalização e a internet ajudaram a normatizar tudo e todos e, agora só existe uma grande salada de gente sem sal, sem conteúdo e sem quintal. Onde é que eu vou brincar agora?

E sua roda de amigos, como anda? O que você tem feito pra combater esse funil social artificial de separatismo e preconceito nesse modelo adoentado de sociedade?

Rodrigo Meyer

O perigo do falso entretenimento.

O ser humano, assim como outros animais, busca por entretenimento. É uma necessidade natural e é buscada automaticamente pela mente. Exploramos o ambiente em busca de algo que possa prender nossa atenção e nos entregar alguma satisfação. Queremos ocupar nosso tempo de uma forma que faça valer o momento, simplesmente pra não nos sentirmos entediados ou sem propósito. Chegamos no mundo sem descobrir porquê e passamos nossa existência buscando ocupar da melhor forma possível esse intervalo misterioso até o falecimento do nosso corpo.

É nesse cenário que passamos a buscar entretenimento, às vezes assistindo um filme, conversando com alguém, dividindo uma piada, contemplando ou fazendo arte, se desafiando em um videogame, lendo um livro, escrevendo um poema, visitando a natureza ou mesmo observando o movimento na rua. Nossa mente precisa sempre se sentir ocupada pra que nossa existência faça algum sentido. Porém, infelizmente, muitos de nós se perde nessas buscas ou não encontra acesso ou interesse por variedades eficientes de entretenimento.

Quem já visitou um asilo de idosos alguma vez, provavelmente se deparou com uma cena desoladora. Ao menos dos que conheci no Brasil e os que pude deduzir pelas mídias de outros países, certamente é global a tendência de abandono pra essa fase da vida. Por vezes, sem recursos financeiros ou estrutura mínima pra essa comunidade, ficam sem ter como produzir algum entretenimento que contemple as necessidades, limitações e anseios dos tutorados. Não é preciso dizer que são frequentes os casos de depressão entre idosos. Estou citando essa parcela da população, justamente porque este contexto destaca uma questão primordial no ser humano de todas as idades. A sensação de não estar mais ativo, em uma espera passiva pelo dia da morte é o desprazer que mais assombra o ser humano. Enquanto jovem,  o ser humano luta para fugir basicamente de duas coisas: da velhice e da morte. E, claro, mesmo assim, sempre terá esse desfecho.

A vida nos exige que façamos algo dela e é exatamente por isso que estamos sempre em conflito com o que não ocupa o nosso tempo. Apesar de tantas coisas terem sido criadas para supostamente entreter o ser humano, muitas vezes isso não o está preenchendo de fato, podendo apenas estar conduzindo ele para uma morte passiva. Entenda que o problema não é sermos conduzidos até a morte, afinal isso é natural e todos nós chegaremos nela. O problema real é quando, eventualmente, a vida se torna tão somente a ligação vazia e direta entre nascer e se aproximar do fim. Esse intervalo é tudo que temos e por isso nos é sagrado, caro, de valor inestimável. Por isso, para todos nós, a vida não se resolve apenas por existirmos, sendo importante, portanto, exatamente aquilo que fazemos de nossa existência e quanta satisfação conseguimos obter dela.

Existem inúmeras formas de entretenimento para resolver o intervalo da vida junto da curiosidade humana. Em todas elas podemos experimentar momentos bons ou ruins, a depender da veracidade desses momentos. Dividir uma conversa, por exemplo, pode ser muito engrandecedor, mas se o assunto ou o interlocutor nos parece desagradável, podemos nos sentir entediados, cansados ou até irritados. Nesse caso, podemos facilmente identificar que tal entretenimento foi ruim e não nos preencheu, porém, existem outros tipos que, de tão comuns e maquiados pela sociedade, passam pela absorção do público sem o filtro da crítica. Ocorre, por exemplo, quando se trata de um programa de pseudo-humor com piadas sem graça, que ao invés de nos preencher o vazio,  apenas despeja referências rasas de sexo, preconceitos ou até discursos de ódio.

Por muitos anos na televisão aberta brasileira se via os quadros de programa como os de ‘videocassetadas’ onde se expunha uma compilação de vídeos de pessoas se machucando, caindo, escorregando, etc. Essa suposta demanda justificou, inclusive, a criação dos posteriores programas de violência ainda maiores e até mais explícitas, como os programas de tv nomeados de ‘policiais’, onde o público já insatisfeito se nutria de mais insatisfação, cultivando mais motivos pra odiar as pessoas enquanto enaltecia a violência até entrar no padrão mental do desprezo, do preconceito, da opressão, etc.

De tanto ver desgraça, mentira, preconceito e outros entulhos, dentro e fora da televisão, a mente fica insensível a todos esses estímulos, aceitando níveis cada vez piores de “conteúdo” e realidade. Manter a população acostumada ao inaceitável é a meta de muita gente que lucra as custas da ruína do público, durante essas milhares de horas diante desse falso entretenimento dentro e fora das mídias. Por isso, é importante filtrarmos aquilo que nos sujeitamos ou não a absorver ou vivenciar.

Você já deve ter ouvido a expressão “comer isopor” em referência a alimentos que, embora sejam visualmente volumosos, não sustentam o organismo, gerando, muito em breve, vontade de comer novamente. Da mesma forma ocorre com o falso entretenimento que, justamente por ser falso ou raso, te mantém vazio. Com este tipo de entretenimento, você tem a impressão temporária de preenchimento do vazio da vida, mas logo se apercebe que apenas “comeu isopor”. Esse hábito pode se tornar um vício e degenerar sua saúde física e mental. Enquanto a vida não para e o vazio continua, os viciados se tornam intolerantes com a ausência desse falso entretenimento, por efeito da crise de abstinência, similar ao que ocorre com o cigarro de nicotina que mesmo inútil, é requerido como se fosse necessário. Muita gente, inclusive, tem o ato de fumar nicotina, como equivocada tentativa de preenchimento do vazio da vida, perdendo saúde, tempo e dinheiro com algo tão vazio que nem mesmo dá “brisa” ou prazer real.

Quem em sã consciência compraria isopor para o almoço? Quem em sã consciência preencheria os dias de sua vida tentando rir do que não é engraçado ou tentando aliviar o estresse assistindo conteúdos estressantes? Se a conta não fecha, você está fazendo errado. Eu não quero dizer o que é que você tem ou não que escolher pra se entreter, pois isso é completamente subjetivo a cada pessoa. Algumas pessoas se ocupam em estudar idiomas, outras não possuem afinidade ou curiosidade por isso. Algumas se preenchem tocando um instrumento musical ou escrevendo poesias, enquanto outras podem preferir passar longe disso e desfrutar seu tempo cozinhando ou dividindo o prazer de uma refeição com alguém querido. Não importa que tipo de área se tenha interesse, desde que encontre meios sinceros de se entreter nessa atividade, pra não ser enganado com os tais “isopores” da vida. Descobrir aquilo que nos preenche, pode nos eliminar o medo desse incógnito vazio da vida e nos motivar em nossa missão, seja ela qual for.

Rodrigo Meyer

Depressão convive com amor-próprio?

Normalmente as pessoas tem uma visão curta daquilo que elas mesmas pouco vivenciaram. Muita gente no mundo não tem conhecimento concreto nem da depressão nem do amor-próprio. Não ter cruzado com essas experiências ainda, pode levar a deduções e, como sabemos, deduções sem embasamento em fatos é só preconceito.

O amor-próprio é a estima prioritária que temos por nós mesmos, é nos vermos como dignos, merecedores de respeito, de coisas boas, etc. Assim, ter amor-próprio nos faz querer buscar uma realidade que contemple nosso ser de forma positiva. Todos que possuem amor por si mesmos, desejam ter liberdade, prazer, progresso, dignidade, assim como receber respeito pelos demais. Se perdemos o amor-próprio, começamos a não nos preservar nesse sentido, deixando que pessoas, coisas e situações ruins, façam parte da nossa realidade, sem filtro, sem críticas, sem resistência. Por vezes, relacionamentos são basicamente a união de duas pessoas sem amor-próprio. Uma tolera a outra, apesar do malefício que causam reciprocamente.

Entendido o que é o amor-próprio e a ausência dele, falemos um pouco da depressão. A depressão é uma doença real que afeta um número alarmante de pessoas ao redor do mundo todo. As razões para alguém desenvolver um quadro de depressão podem ser diversas, incluindo combinações. Embora possa existir predisposição genética na equação, frequentemente é o ambiente e as situações vividas que se tornam gatilhos que ativam a manifestação da depressão em si. Quando uma pessoa vive situações na vida das quais não concorda, não sabe como lidar, não controla ou não tem soluções a altura pra resolver, pode se ver cansada, como se estivesse lutando contra a correnteza em vão. É nesse ponto que se observa que, mesmo desejando o melhor pra si, tal pessoa pode se ver sem espaço no mundo, sentindo como se ela estivesse perdendo valor e que tudo parecesse sem esperança.

O senso de preservação da vida e do bem-estar, quando estamos minimamente saudáveis psicologicamente, costuma estar ativado. O ser humano, a princípio, está sempre em busca de prazer e bem-estar. Porém, longe desse ideal, muita gente escapa dessa premissa humana por conta de distúrbios, traumas, complexos ou outras situações. Pode parecer estranha a ideia, mas muita gente que tem amor-próprio colide com a realidade em quase tudo, já que o mundo não corresponde aos seus valores e não é um ambiente no qual alguém saudável desejaria viver. Quando você ama uma pessoa, por exemplo, você quer ver ela livre e feliz, pois qualquer coisa diferente disso não é amor. Da mesma forma, se você ama a si mesmo, quer se ver livre e feliz. E, sabemos, o modo como a sociedade se apresenta, com suas condutas doentias e equivocadas, muitas vezes nos impede exatamente de sermos livres e felizes. Explicando assim, passo a passo, torna-se mais evidente essa conexão entre depressão e amor-próprio.

Há uma frase de Jiddu Krishnamurti que diz “Não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade doente.”.

Assim, conclui-se que se você quer o melhor pra si, mas a sociedade lhe é tóxica, você não estará bem adaptado a ela. E se estiver bem adaptado a tal sociedade, então, certamente, você não tem amor-próprio. O amor-próprio nos faz buscar mudanças, pois não aceitamos conformados o malefício que nos corrói. Desenvolvemos defesas, criticamos os males do mundo e nos posicionamos de forma ativa pra combatê-los, justamente porque não queremos que os malefícios nos combatam e que destruam o mundo no qual vivemos, pois queremos e precisamos de um mundo positivo. Lembra-se? Amor-próprio é gostar de si, se dar coisas boas, querer se ver livre e feliz.

Lamento se, eventualmente, esse texto suscita lembranças incômodas sobre a realidade ou se quebra um pouco os fios de esperança tão difíceis de serem sustentados nesse mundo adoentado. Sei que muitas das pessoas que cruzam o meu caminho, assim como eu, tiveram depressão ou estão passando por uma agora mesmo. E é exatamente por saber desses contextos e da importância do assunto, que levanto ele diante da internet, sempre que necessário. Gostaria de ter a solução pra isso que muitos de nós vivencia individualmente, mas não tenho. Oportunamente, o próprio Freud dizia “Antes de se autodiagnosticar com depressão, certifique-se de que não está apenas cercado de idiotas.”. Com essa frase, fica fácil entender porque tanta gente se sente cansada, saturada, desiludida da vida e do mundo, sem esperança, sem paciência e até mesmo com pensamentos suicidas. Em um mundo onde as pessoas fazem idiotices, o ambiente se torna tóxico, inóspito, inviável para princípios básicos da saúde mental: liberdade e felicidade.

É difícil caminhar em um ambiente onde as pessoas estão colidindo umas com as outras, transformando-se em barreiras para os demais. Habitamos um mundo que transborda inveja, sabotagem, falta de apoio, preconceito, racismo, fanatismo, alienação, ignorância, violência, hipervalorização da futilidade e pouco apoio aos indivíduos em si, aos seus potenciais, suas necessidades, seus desejos, seus valores. Estatísticas, nada animadoras, colocam o Japão como um dos lugares de maior incidência de suicídios no mundo. Isso se dá, segundo as próprias queixas da população, ao modelo de sociedade que exige muito das pessoas, especialmente em estudo e trabalho, sobrecarregando-as de estresse, pressão social, cobranças familiares e profissionais, gerando um sentimento de que não se é capaz de atender as demandas ‘padrões’ dessa realidade.

Independente de cultura e predominância, em outras regiões do mundo, as taxas de suicídio acompanham motivos similares ou com a mesma estrutura lógica. De forma resumida, a depressão que chega ao extremo do suicídio é um grito de alerta ao mundo de que o mundo não é um lugar viável pra se viver. Explicando a situação em repetidas frases, algumas realidades óbvias do mundo saltam aos nossos olhos. Muitos de nós ignoramos a saúde psicológica das pessoas em detrimento de metas e padrões inventados que, no fundo, causam mais prejuízo do que benefício. Um mundo que permite que cresça o número de pessoas que optam pelo suicídio, apenas pra não ter que abrir mão de certos vícios e/ou modelos de sociedade, de família, de relacionamentos “amorosos” ou de “amizade”, bem como os modelos e relações de trabalho e estudo, certamente está se destruindo. Uma sociedade que aceita carregar o prejuízo da própria destruição, eliminando seus membros em casos evitáveis de suicídio ou outras fugas, certamente é uma sociedade que não ama a si mesma. Se uma sociedade é composta por indivíduos somados, fica claro ver que as pessoas que constroem essa sociedade não possuem amor-próprio, já que fomentam exatamente o cenário do qual lhes dá o maior prejuízo tanto pessoalmente quanto coletivamente (se é que podemos separar uma coisa da outra).

Outra curiosidade é que estas pessoas que plantam e moldam a sociedade pra um ideal inviável e nocivo, ao mesmo tempo em que não possuem amor-próprio, são também por demais egoístas, já que suas ações não levam em conta o malefício causado aos demais. Uma coisa é não estarmos bem com o mundo e com nós mesmos e nos expressarmos de forma a fugir ou nos defender dessa realidade e outra, completamente diferente, é arrastar todos os demais pro buraco pelo modo como escolhemos reagir ao problema ou ao mundo. Eu não pretendo ser insensato a ponto de incentivar o suicídio, mas, entenda o que vou dizer: o suicídio é um jeito menos errado de lidar com a inadequação ao mundo, quando comparado com a conduta do egoísta que, não se importa de causar ainda mais malefício no ambiente e ainda mais dor nas pessoas, arrastando elas pra um cenário ou buraco de violência, abandono, fome, miséria, machismo, cobranças desproporcionais, abusos, desemprego, falta de apoio, doença, disputas doentias, etc. Enfim, não se pode dizer que o suicídio é menos aceitável que a opção de submeter outras pessoas a esse mundo torto projetado por egoístas. Nesse sentido, me vem na memória um trecho de letra cantada por Cazuza onde ele dizia:

“Eu não posso causar mal nenhum, a não ser a mim mesmo.”.

Embora o contexto da frase de Cazuza se referisse ao uso pessoal de drogas, é válida a ideia de que, em qualquer que seja nossa escolha de fuga do mundo, não causamos danos diretos aos demais, quando nos voltamos pra opções individuais. Muita gente alega, contudo, que tanto para o caso de abuso de drogas ou suicídio, as famílias e os amigos em torno do indivíduo são também impactados por essa decisão individual. Mas, acredito, no momento, que não se pode controlar o que os outros vão sentir sobre fatos e nem sobre como nos portamos sobre nossa própria vida e experiência. Somos responsáveis somente por nós mesmos. Cada um de nós tem uma vida e dela escolhe o que fazer, como gerir e o que aceita ou não incluir no hall de valores. Querer que uma pessoa se prive de suas fugas com o simples argumento de que outros sofrerão com essa decisão, é um argumento vazio, até porque a pessoa que opta por uma fuga já está sofrendo e não vai deixar de sofrer, mesmo que se coloque mais cobrança e pressão social e familiar pra que ela dê preferência a proteção do sofrimento de terceiros, hipoteticamente no futuro. Nada menos saudável que isso. É como entregar mais um motivo de dor pra quem já está com tanta dor que deseja se ausentar da vida. Sejam conscientes do equívoco e evitem propor isso como argumento a uma pessoa deprimida e/ou suicida.

Apesar das boas intenções de querer ver alguém superar essa situação ruim, quando o assunto é interno a um indivíduo e subjetivo o suficiente pra ser único em cada pessoa, não se deve tentar sobrepor os interesses sociais e/ou de pessoas externas aos interesses do indivíduo em questão. Isso não é, nem de longe, um incentivo ao suicídio, pois, bem ao contrário, visa poupar uma pessoa de mais danos do que ela já carrega, possivelmente desacelerando a chegada de um potencial desfecho suicida. Não coloque mais água em um copo que já está cheio, senão ele vai transbordar. Se queremos frear os casos de suicídio, precisamos parar de sobrecarregar as vítimas de depressão e deixar que elas tenham espaço e condição pra caminharem. Por vezes essas pessoas estão buscando ajuda, mas só estão encontrando pessoas e situações que atrapalham ainda mais seu quadro. O ser humano tem o potencial de abafar ou incentivar coisas tanto em si mesmo quanto nos outros. Assim como os que veem um incêndio em uma floresta podem tentar brecá-lo com um círculo de pedras ou simplesmente colocar inúteis gravetos ao redor das chamas. Na vida é preciso saber se o que fazemos, falamos ou cobramos de um indivíduo ou coletivo, mais atrapalha do que ajuda. De uma coisa eu sei: não falar de suicídio pode até não suscitar a ideia na mente de muita gente, mas é também por não falar disso, que o assunto segue desconhecido e ignorado por grande parte da sociedade e, com toda certeza, isso não ajuda a eliminarmos esse tipo de problema do mundo.

Primeiramente é preciso reconhecer que nossa sociedade é doente, as pessoas estão doentes, seja com depressão, egoísmo, complexo, desvios de conduta, de educação ou de amor-próprio e que, sim, precisamos falar repetidas vezes as obviedades que o mundo insiste em ignorar, seja por preguiça, por ignorância, por conivência doentia e/ou por vício em pseudo-poder. Cada vez que as pessoas se posicionam contra a realidade podre do mundo, elas se aproximam de resolver dois problemas de uma vez só: o caos do ambiente e a propensão a depressão por conta desse ambiente inóspito. As regra é tão simples que nem vou me estender mais por este texto. Estejam certos de que basta agir de forma sensata na vida, que as sociedades se tornam melhores, já que elas são a soma de cada indivíduo. Não plante um mundo inóspito e não terá um mundo inóspito.

Rodrigo Meyer

Cultura underground versus estrutura ruim.

No início, toda a contracultura ou a chamada cultura underground apresentava-se em tom de improviso, justamente porque era esse o limite possível naquele contexto. Em um ambiente onde era caro produzir a cultura “padrão”, esse feito limitava a expressão a quem detinha dinheiro ou influência, ou, ao menos, a pessoas que se sujeitavam aos modelos convencionais das grandes mídias ou mídias tradicionais. Criar e difundir conteúdo diferente, na contramão dessa correnteza de ideias moldadas, era achar uma brecha no tempo e no espaço, e fazer acontecer, nas condições que fossem possíveis. Faziam alguma coisa ruim em estrutura ou simplesmente não fariam nada.

Contudo, o cenário de cultura se ampliou significativamente e já não há uma barreira tão limitadora que renegue as pessoas a algo sempre sem qualidade na estrutura ou na técnica. Já é possível, por exemplo, ter um disco de música gravado com pouco recurso e disponibilizar para absorção ou venda via internet, praticamente sem custos. Pode-se ter credibilidade pra se defender uma temática alternativa como opção de negócio viável pra uma casa noturna, um bar, um comércio pautado em um estilo de vida tido como ‘incomum’, etc.

Claro que a cultura, muitas vezes, é exatamente o lado “ruim” que os ambientes ofertam e que o público aprecia, justamente pelo seu estilo, pela tradição, pelo clima do ambiente, pelas referências. Embora o improviso e a personalidade dos lugares tenham peso ímpar nessa equação, isso não significa que as coisas precisem ser ruins em tudo. É possível ter copos limpos, um banheiro onde não se afunde todo o sapato num lago de urina, funcionários minimamente educados e capacitados pra atender o público, etc. E isso é uma observação que faço mesmo sendo um dos que adora ambientes simples e detonados. Dentro da minha realidade de cultura gótica, indie, rock, punk ou qualquer coisa que permeie o meio urbano, é minha cara os becos, beiras de calçadas, esquinas, bairros afastados, apartamentos velhos, casarões sob risco, galpões abandonados, etc. Nem por isso, deixou de ser útil e importante, nos lugares onde isso é possível, um ajuste na estrutura que possa somar pra quem frequenta. Não é preciso sofisticar um lugar pra melhorar sua estrutura, mas não se deve cair no pensamento equivocado de que o ideal de “quanto pior, melhor” é algo pra se levar ao pé da letra e/ou em todos os quesitos.

Se décadas atrás era difícil conseguir ter expressão na sociedade com estas subculturas ou estilos, hoje em dia se tornou algo muito bem recebido dentro dos devidos segmentos. E é claro que isso não elimina a importância ou o papel de apoio pra tudo o mais que surge ainda em condições improvisadas. Ainda há muito underground pra ser expresso, mesmo abaixo de todos esses espaços que já estão bem sucedidos na sociedade. Espaços devem sempre ser gerados, independente de suas condições, afinal toda expressão é um sinal de que alguém quer voz, quer espaço, quer ter seu momento, sua ideia, seu destino, seu valor. Onde quer que olhemos, precisamos entender que tudo é dinâmico e único. Ao mesmo tempo em que alguns cenários querem simplesmente existir, outros já existem e podem progredir, mesmo quando optam por não fazer.

A impressão que tenho, às vezes, é que as pessoas estão, propositalmente, enterrando o investimento na subcultura por medo de ver aquilo se transformar em algo diferente da essência. De certa forma eu entendo esse medo, mas é preciso diferenciar com cautela o que é investir em subcultura / cultura underground e o que é matar a essência ou propósito desse nicho em troca de massificá-lo ou torná-lo a chamada ‘cultura de massa’ ou ‘cultura mainstream‘. Essa competição pra ver quem é mais anônimo ou restrito a pequenos grupos não é algo que deve ser levado a cabo por ninguém que tenha sensatez, afinal o que se espera da cultura, sempre, é difundi-la ao mundo todo, o quanto for possível (desde que isso não contrarie os princípios, claro), afinal, se alguém tem uma mensagem e ideologia expressa em uma letra de música, em um estilo de roupa ou no lefestyle, isso é o que se quer comunicar ao mundo como forma de alavancar reflexões, mudanças, ações, oposições, etc.

Penso que se estamos a nos opor a algo convencional, especialmente o modelo social, de mídia, e estamos tentando quebrar as correntes que limitam a nossa expressão de valores, verdades e ideologias, então devemos ser as pessoas mais engajadas em fazer acontecer essa concretização em nossos próprios espaços. No final das contas, apoiar a cultura alternativa, underground ou a ‘contracultura’ é nada mais que agir pra que a estrutura dela favoreça a permanência do próprio público adepto / simpatizante desses universos.

Relato com tristeza que, muitas vezes, a cultura alternativa se tornou um espaço que abandonou o interesse pelo aprendizado ou pela inovação. Vejo muita gente vestindo os crachás estritamente pela onda ‘cool‘ da aparência exótica e não exatamente pela sinceridade em viver essas realidades em termos de personalidade ou cenário cultural. Muitas dessas pessoas, infelizmente, estão tão viciadas na própria bobagem da pseudo-cultura forjada ao redor do mundo, moldados pelos padrões de pensamento, de moda, de ideias, de conduta, de objetivos, etc., que já não cumprem nenhum papel realista dentro dos cenários alternativos. Há muitos destes perdidos que tornam-se até mesmo famosos nesses meios, apesar da contradição berrante. São tempos onde o underground está perdendo o sentido ou, então, se reinventando em outros cantos ainda mais recentes e anônimos (desta vez por falta de opção).

Observo preocupado os lugares onde a essência é, por exemplo, combate a preconceito, mas borbulham nestes meios figuras completamente opostas a isso. Nada pode ser mais patético e desnecessário, ainda mais pra algo que é tão frágil e restrito como um nicho de subcultura. Talvez o encantamento pelo diferente seja a única coisa que faça essas pessoas se sujeitarem a estar onde sequer são bem-vindas. Talvez muitos destes nem entendam ou nem saibam o que é que cada nicho de cultura ou subcultura representa e, por isso mesmo, é importante que façamos um bom esforço em promover essas realidades, a fim de tornar isso mais visto, mais absorvido e discutido socialmente. Se nunca levarmos o underground pra fora dos subterrâneos da sociedade, talvez estejamos secando a fonte de cultura. Pense que as pessoas não vivem e não criam pra sempre e que a cultura não é só roupa, bebida, música e casa noturna. Vivenciar uma época, uma ideologia ou um estilo de vida é algo que exige das pessoas uma participação geral e full time.

Além de tudo isso que foi levantado é preciso dizer que, mesmo quando nos colocamos em preferência ao underground, a cultura dita ‘padrão’ ainda está ativa e predominante na sociedade, o que nos faz, muitas vezes, ter alguma dependência (seja pouca ou muita) para conseguirmos moldar alguma qualidade de vida, dignidade, etc., afinal, infelizmente, muita coisa ainda está na contramão do que idealizamos e não temos, ainda, todo controle sobre isso. Então, por conclusão, devemos fortalecer os nichos exatamente pra nos vermos a frente de opções que contemplem nossos próprios interesses, nossos objetivos, etc. Claro que não digo isso estritamente sobre os comércios, mas, eles também, afinal são um grande cenário de concentração de pessoas. Eventos e festivais também são  outro modelo similar com faceta de comércio, mas que ainda remete a um aspecto de difusão e comemoração da cultura muito mais do que um simples espaço de venda de ingressos e bebidas.

Em outros textos ainda terei oportunidade de falar sobre outros aspectos dessa temática, em especial sobre as relações humanas, as personalidades e as personagens de cada um nesse grande jogo incógnito que é viver e explorar o significado de tudo. Até breve!

Rodrigo Meyer