O que aprendi jejuando?

Adiei muito em escrever esse texto, até encontrar a maneira mais apropriada de se falar positivamente sobre jejum em um mundo onde muita gente passa fome por falta de opção. É evidente que são situações completamente diferentes e, nem de longe, a ideia é romantizar a abstinência de comida. Mas, quero dividir a minha experiência nesse tema e fazer alguns comentários sobre sociedade, consumo, padrão de vida e alimentação.

Esse é um tema delicado que envolve inúmeros dramas para muitas e muitas pessoas. Falar de alimentação, acesso a alimentos, jejum, desnutrição ou alimentação precária é ainda um grande problema no mundo, apesar de termos várias vezes mais alimentos produzidos do que a necessidade de consumo dos seres. Isso ocorre porque existe um enorme desperdício de alimento que vai ao lixo como sobra do que não foi consumido por quem planejou uma compra desproporcional de alimentos.

Na minha família, cozinhar e comer era um evento tão importante que o que mais haviam eram festas e reuniões entre parentes e amigos como pretexto pra se cozinhar e comer sempre mais e mais. Como se pode prever, coletamos disso um vício e diversos problemas de saúde. Era um excesso de comida aliado ao prazer de comer e tendo como gatilho ou origem os dilemas psicológicos. O convívio familiar incentivava que esse modelo se perpetuasse com facilidade, já que bastava estar ali para surgirem pratos maravilhosos todos os dias.

No começo da minha infância eu gastava muita energia e era uma pessoa magra. Depois, gradualmente, fui sentindo os efeitos da depressão se agravarem e, junto com isso, um aumento substancial do consumo de comida. O isolamento e a procrastinação foram dando espaço para um pessoa que via o ato de comer como uma fonte de prazer temporária. Dividir uma refeição com alguém ou mesmo comer algo bem saboroso sozinho de fato pode ser gratificante. Na minha família, infelizmente, o motivo da refeição, pra mim, era tão somente a comida. As reuniões familiares em torno da mesa eram sempre conturbadas e acredito que isso tenha impactado na degradação do psicológico e colocado mais força nesse ato de descontar tudo na alimentação compulsiva.

Em alguns anos da minha adolescência eu comecei a perder o controle sobre minha aparência e peso, virando uma certa bola-de-neve. Estar gordo me fazia comer e comer me fazia estar gordo. Equação óbvia que leva muita gente a uma progressão letal. Essa é uma realidade que vi com meus próprios olhos entre algumas pessoas do meu convívio. Impactado por isso, sempre tentei reverter a minha condição e até consegui. No começo da vida adulta, tinha uma aparência satisfatória e me sentia muito motivado em fazer inúmeras atividades, especialmente com o recente resgate pra fora do poço da depressão. Com um relacionamento promissor, frequência e sintonia no sexo, a tal ‘química’ em estar apaixonado e todo organismo agradecendo, o resultado foi conseguir estar estável fisicamente, mesmo tendo um consumo significativo de comida. Energia gasta e metabolismo ativo faziam tudo parecer fácil de se controlar, sem nenhum esforço.

Mas, depois dessa fase e com as decepções que me levaram de volta ao isolamento e a depressão, entrei pra um consumo desproporcional de comida e álcool, especialmente na fase da faculdade, o que me fez estar tão diferente da imagem que eu tinha de mim mesmo, que não me reconhecia no espelho. A pessoa que eu aparentava ser, não representava a personalidade ou o ideal que eu tinha como identidade interna. Esse conflito também gerou um efeito bola-de-neve de mais comida e bebida e, por fim, minha saúde se degenerou tanto que eu tinha episódios indescritíveis, quase que todos os dias, achando que seria minha hora de morrer. Em alguns períodos mal tinha o contorno do rosto separado do pescoço, por conta do sobrepeso. Mas, de forma geral, levando em conta minha estrutura, eu não estava tão exagerado. Diríamos que passava desapercebido na média das pessoas. Mas, pro meu caso em específico, era um sobrepeso suficiente pra comprometer a saúde.

Muito provavelmente por conta da adição frequente do álcool, acabei em um estado que, se não fizesse nada para mudar drasticamente os hábitos, poderia ser surpreendido por um infarto. Então, resolvi cortar o consumo de álcool quase que totalmente, deixando a prática pra momentos especiais em uma ou outra época do ano. Troquei a diversidade de tipos de bebidas por algumas poucas opções e comecei a me planejar pra uma transição de hábitos alimentares. Apesar disso, nunca tinha passado pela minha cabeça que jejuar fosse uma opção saudável ou interessante. O que eu fiz, na verdade, foi uma redução gradual do volume de comida, especialmente quando o dinheiro se tornava cada vez mais escasso. Se formos comparar, por exemplo, a compra em um restaurante por quilo, eu praticamente reduzi pela metade meu consumo logo de cara e depois, com mais confiança, vi que podia reduzir pela metade da metade. Mal sabia eu que esse domínio na reeducação alimentar me deixou tão condicionado, que nunca me senti privado de comida, mesmo quando comia até menos que isso ou nos dias em que simplesmente esquecia do horário de ir almoçar. Por hábito, desde estas mudanças, eu passei a somente almoçar. Não faço refeições na janta, nem no café-da-manhã.

Passei por umas situações difíceis nos últimos tempos, com a transição de mais de 17 anos de trabalho na Fotografia pra uma volta ao Design Gráfico. Me encaixar profissionalmente em um período da vida que coincidiu com a minha mudança de casa e de parte do meu estilo de vida, me fez decair bastante no controle financeiro e, não tenho vergonha nenhuma em dizer que, por várias vezes, por falta de dinheiro, estive sem ter condições de comer coisa nenhuma. No começo, o jejum forçado foi bastante desagradável. Me sentia tão transtornado em estar a dias sem comer que estava praticamente andando de um lado pro outro dentro de casa, em claro sinal de ansiedade. Dormir me ajudou bastante a superar e me reposicionar nesse contexto. De fato, como dizem, um período de sono ajuda a enganar a fome.

A cada nova vez que eu tinha restrições financeiras, estava um pouco mais preparado para a chegada do inevitável jejum. Pela terceira ou quarta vez em que esses períodos ocorreram, eu já estava bem mais “conformado” e “confortável”, por assim dizer. Se anos atrás eu esquecia o horário de ir almoçar, atualmente chego a esquecer e passar dias sem comer. Não é que eu me force a não comer, mas apenas que estou tão tranquilo na mente que não me veem nenhum desespero por conta do tempo estar passando sem eu ter feito uma refeição. É como se a fome estivesse sob controle e só soasse um sinal quando fosse realmente necessário. Depois de uns 3 ou 4 dias começa a brotar uma vontade um pouquinho diferente de comer alguma coisa. Contudo, já passei por vários episódios onde, em cada um deles, estive mais de 30 dias consecutivos em jejum. Queria, então, dividir o que eu aprendi jejuando.

Quando eu me apercebi do volume de comida que eu consumia quando mais novo e como isso degradou minha saúde, eu percebi o quanto aquilo era desproporcional a minha necessidade. Conforme eu fui mudando de hábito, pude notar que era possível se adaptar facilmente a redução do volume e da frequência da alimentação, desde que se fizesse disso um hábito. E, por fim, se era possível reduzir, um jejum também poderia vir a ocorrer de maneira similar, como vim a descobrir nos últimos anos. Aprendi que jejuar não é a garantia de um incômodo e nem é algo tão extremo se você já tiver preparado fisicamente e emocionalmente pra essa restrição. As experiências anteriores e a aceitação do contexto, principalmente depois de ter superado com sucesso as crises, me ajudaram a ver o jejum de maneira neutra, sendo ele, pra mim, um ótimo aliado quando eu preciso fazer alguma contenção de gastos para contornar a dificuldade financeira.

O jejum me ensinou que eu sou mais resistente e capaz do que imaginava e que, mesmo com um mar de gente ao redor com muito mais posses e dinheiro a disposição, eu não preciso do mesmo tanto que eles pra concretizar minha vida de maneira muito mais estável, digna e satisfatória. É evidente que eu seria feliz dividindo bons momentos em uma refeição ou até mesmo tendo conforto financeiro pra não precisar pensar se vai ser possível comer ou não, pagar as contas mínimas ou seguir devendo novamente. Porém, na ausência deste ideal, tenho conseguido lidar muito bem com o meu cenário atual, enquanto muitos outros não conseguiriam passar 1 dia no meu papel, enfrentando as coisas que enfrento nas diversas áreas da vida.

Ter passado por essa experiência me fez sentir bem, apesar de confirmar o abandono social e familiar, destacando, consequentemente, o nível deplorável dos indivíduos que supostamente tinham algum elo.  Família e sociedade são termos desgastados pra realidade prática dessas entidades. Sorte de quem tem uma verdadeira, pois, para a maioria das pessoas, esses termos são nomes de meras lendas. Família, de verdade, independe de parentesco sanguíneo, uma vez que é tão somente a soma de pessoas que realmente estão interessadas umas nas outras por elos de afeto e empatia, pessoas as quais pode-se contar quando for necessário. Qualquer coisa diferente disso é só convenção social inútil. Família, tal como é para casais na famosa frase do juramento de casamento, tem que ser “na alegria e na tristeza, na pobreza e na riqueza, na saúde e na doença.”. Os revezes da vida, me mostraram com quem eu podia contar e tudo que eu vi foi que eu só tinha valor e utilidade para os demais enquanto tinha alegria, dinheiro e saúde. Na tristeza, na pobreza e na doença, as pessoas simplesmente se distanciaram, da noite pro dia.

O jejum me ensinou que eu hipervalorizava a comida e, muitas vezes, ironicamente, dava pouco valor a ela quando tinha em excesso. Aquilo que temos com muita facilidade, podemos não reconhecer o valor, até perdermos aquilo. Mas depois de ter aprendido o valor da comida, entendi algo ainda melhor: que ela não é tão necessária quando eu imaginava. Resolver meus problemas com outras ferramentas, também foi uma das consequências automáticas. Na ausência da fuga dos problemas pelo caminho da comida, eu tive que buscar alternativas, querendo ou não.

Assim que a cabeça centrou, pude olhar com mais tranquilidade pras coisas e entender melhor e mais profundamente algo que eu sempre acreditei a vida toda: que a média do ser humano valoriza coisas amplamente superficiais e desnecessárias, num modelo de vida de consumo contínuo e desenfreado, mergulhado em dívidas e servidão no trabalho, para sustentar uma busca, quase sempre infrutífera, de objetivos ocos. Acreditam estar subindo na vida, conquistando uma realidade cheia de entulhos, mas, na verdade, trazem tantos problemas pra suas vidas que, depois da metade dos consumos desnecessários, buscam na outra metade soluções pros efeitos colaterais adquiridos com a primeira metade. A grosso modo, resumindo, é como se estivessem usando metade do tempo e do dinheiro de suas vidas pra quebrarem suas pernas e com a outra metade do tempo e do dinheiro investindo no remendo das pernas quebradas. Esse é o exemplo mais explícito de dano desnecessário e vício em equívocos.

Dessa sociedade doente eu não faço parte. Meu foco, há muitos e muitos anos, é a ideologia do minimalismo. Meu lema ao longo do tempo tem sido uma frase que repito muitas e muitas vezes pra mim e pros outros: “reduzir, reduzir, reduzir.”. Comigo eu só quero aquilo que realmente for necessário e útil; o resto eu dispenso. Provavelmente, nesse modelo de vida, o jejum se encaixou muito bem, em uma época oportuna pro meu histórico particular. A minha experiência serve para o meu contexto e para os meus objetivos. Comparar a minha situação, por dentro e por fora, com a de qualquer outra pessoa no mundo, não seria justo pra podermos dizer que há algo único e verdadeiro que possa e/ou deva ser espalhado como ideal de prática ou pensamento.

O que as pessoas precisam entender é que, em diversos assuntos na vida, o que pra alguns é difícil ou utopia, pra outros é pura facilidade e satisfação. A transformação interna de um indivíduo depende muito mais dele mesmo do que de qualquer outro fator ou contexto do entorno. Aquilo que cabe somente a nós entender e resolver, não há pessoa no mundo que possa assumir essa responsabilidade em nosso lugar. Isso não significa, porém, que a sociedade não está adoentada e cheia de práticas ineficientes pra lidar com a própria abertura de pensamento e bem-estar dos seus membros e nem que a sociedade não construa barreiras reais que atrapalham a vida das pessoas. Quando os indivíduos estão adoentados, eles formam uma sociedade igualmente adoentada, já que sociedade nada mais é que a soma desses indivíduos. A expressão de um coletivo de pessoas egoístas, gananciosas, viciadas, ansiosas, preconceituosas, cheias de complexos e desvios psicológicos, só gera um ambiente conturbado onde todos estão em constante conflito por questões e detalhes que nem eles mesmos entendem e não possuem disposição para aquietar, refletir e absorver o necessário pra solução de si mesmos. Nesse sentido, eventos drásticos podem ajudar as pessoas a se colocarem no lugar delas, chacoalhando-as pra que notem o óbvio e comecem a priorizar as coisas certas, valorizando pessoas ao invés de dinheiro e/ou posses e respeitando princípios básicos de convivência, não pra ser um pônei colorido da caridade passiva, mas pra rever em si mesmas, quais são as condutas e pensamentos desnecessários e equivocados que estão fazendo pra si mesmas, no claro exemplo do chamado ‘tiro no pé’. Assim que um indivíduo se apercebe que está errando com ele mesmo, ele tem condições, se quiser, de entender como ele esteve errando com os demais, eventualmente.

Rodrigo Meyer

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Nossas prioridades dizem muito sobre nossos valores e sentimentos.

Não é preciso ir muito fundo na observação pra saber que as pessoas tem prioridades diferentes. E os motivos por trás disso podem ser variados. Algumas pessoas priorizam o trabalho ao invés de relacionamentos, por exemplo. Outras pessoas, priorizam aparência sobre conteúdo. Há quem priorize o prazer acima das responsabilidades, há quem faça o inverso e há quem tente dar igualdade pra esses aspectos. Mas de que forma essas características podem contar algo sobre os valores e sentimentos das pessoas?

Se duas pessoas estão hospitalizadas e escolho visitar uma delas, crio uma prioridade. Se ambas estão na mesma gravidade de situação, a escolha pode ser baseada no valor ou sentimento que conferimos a estas pessoas. Priorizamos as pessoas e momentos a quem gostamos mais ou que nos dá aquilo que queremos mais. Pessoas interesseiras, por exemplo, podem, eventualmente, priorizar a companhia de quem lhe oferte dinheiro.

Outro dia, conversando com uma senhora sobre trabalho e relações sociais, ela me contava do descontentamento de receber convites para eventos que não tinha grande potencial de traçar contatos profissionais. Em resumo, se o evento não fosse recheado de pessoas influentes que pudessem lhe abrir alguma porta no âmbito profissional, ela simplesmente não tinha tempo, interesse ou paciência pra ir. Reclamava, inclusive, de quem prestava o convite a tais festas que ela julgava serem inúteis, afinal, sua prioridade naquele momento estava em trabalho e não em pessoas, amizades e diversão.

Deveria eu ter dito, com todas as letras, que a postura dela espantava as próprias oportunidades de trabalho. Costumo dizer que ‘suscitar trabalho exige não falar de trabalho.’ e que a melhor maneira de ser convidado para atividades profissionais é mostrar-se bom amigo, sincero e sem interesses. É muito mais sensato que as pessoas te valorizem como pessoa primeiro e que, por isso, estejam abertas a te incluir nas questões de trabalho. Quem vive por interesse, raramente percebe que nem todas as pessoas ao redor são como ela e que, muitas vezes, ela já foi desmascarada a tanto tempo que, por isso mesmo, há tempos não é convidada pra nenhum dos eventos que ela priorizava em razão dos potenciais contatos profissionais.

As pessoas precisam distinguir ‘relações de amizade’ de ‘relações profissionais’ ou, pelo menos, entender que relações profissionais, quando através de amigos, surgem depois da amizade preestabelecida. Logo, se quiserem ter benefícios advindos de qualquer relacionamento, precisam compreender melhor quem são as pessoas com quem estão lidando e quais as verdadeiras possibilidades ou prioridades que estão em jogo.

As prioridades das pessoas, apontam o que é que elas valorizam mais. Conto por experiência própria que as pessoas, geralmente, pouco se importam com as outras. Somos uma sociedade materialista e egoísta. As pessoas estão muito mais centradas em seus próprios interesses financeiros e bem-estar pessoal temporário do que em construir relações com o mundo, com as pessoas e com os valores que ajudam a mais gente viver melhor. Não é preciso ser um gênio pra ver isso.

Centenas de vezes estabeleci convites pra que as pessoas me visitassem, desde que mudei de casa. Queria que os amigos dividissem comigo meu momento de alegria pelo meu novo espaço de trabalho e moradia. Algumas pessoas se prestaram a isso e vieram olhar nos meus olhos novamente. Outras, pra evitar o desprazer de visitar quem elas pouco se importavam, simplesmente ignoravam a situação e seguiam suas vidas. Por vezes, entediadas em suas casas, mostravam que bufar de tédio ainda era menos ruim do que convidar um amigo pra sair, afinal, pra elas, esse “amigo” aí era qualquer coisa menos isso. Assim você descobre, facilmente quem são as pessoas que estão ao seu lado de verdade e as que só fingem proximidade enquanto você oferece o que elas queriam de fato. Por vezes queriam apenas dinheiro, bebida ou suas habilidades profissionais.

Pergunte-se onde estão as pessoas quando você está pobre, doente, morando longe, solitário, deprimido. As pessoas que queriam somente o oposto disso tudo e não a sua amizade, elas somem automaticamente. As que queriam sua amizade, sem interesses, continuam por perto, mesmo se você estiver na pior. E quando estamos felizes, saudáveis, atraentes, bem resolvidos financeiramente, as pessoas interesseiras brotam até dos bueiros para tentar uma reaproximação. Quando temos o que elas querem, elas aceitam cruzar metade do planeta só pra ir buscar essas migalhas. Triste.

Independente de como estejamos na vida, precisamos filtrar com cautela as pessoas com quem nos relacionamos. A maioria delas estão pelo mundo usurpando umas às outras, da forma que conseguem. Terminam sempre infelizes, acompanhadas de pessoas igualmente falsas em relações superficiais que não entregam nada além daquela pequenez que elas aspiravam desde o começo como prioridade. Essas pessoas descobrem, às vezes, quase sempre tardiamente, que essa prioridade delas não era a melhor das prioridades pra se ter.

Sempre vou me lembrar de quantas vezes me procuraram apenas pra pedir ajuda financeira. Pra algumas pessoas eu só tinha serventia pra isso e elas jamais pensariam em dividir uma atividade, uma saída pra beber uma cerveja ou uma conversa. Para essas pessoas, o dinheiro é prioridade. Se sobrar tempo elas fazem amigos reais. Para mim, a prioridade é fazer amigos. Se sobrar tempo penso em dinheiro. E com certeza, pessoas interesseiras não tem espaço na minha checklist. Qualquer coisa que eu faça no mundo é mais importante do que atender aos anseios de pessoas interesseiras. E ria comigo, por saber que muitas dessas pessoas buscavam migalhas, pois eu não era uma pessoa bem-sucedida. Pra essas pessoas, qualquer troco de pinga valia mais que uma amizade sincera. Pobre dessas pessoas que agora ficam sem o troco de pinga e sem a amizade.

Prioridades são grandes reveladores de nossos valores. As pessoas se mostram por dentro, quando, por exemplo, preferem namorar uma pessoa bonita por fora e feia por dentro. Mostram que se importam mais com a embalagem do que com o conteúdo. O prejuízo é todo delas, ao terem que conviver com um entulho embrulhado em papel de presente. Pra mim, vale mais encontrar uma pessoa bonita por dentro, independente de como seja sua embalagem. O benefício se torna todo meu.

As pessoas também se revelam interiormente, quando preferem perder um emprego do que serem coniventes com um preconceito, uma postura errada, uma fraude, etc. Quem se cala diante de um ato errado para manter seu emprego está dizendo que seu emprego vale mais que a honestidade e o respeito, por exemplo. Cada um é que sabe quais são suas prioridades. O mundo certamente seria um paraíso se as pessoas não tivessem essas podres prioridades. Eventualmente, problemas surgiriam, claro, mas seriam lidados sem conflito, sem desprazer, sem pisar ou usar os outros e sem colocar dinheiro, poder ou influência social na frente do respeito humano, do bem-estar físico e psicológico das pessoas.

E você? Quais são suas prioridades? Você atira no próprio pé apenas pra não deixar de atirar? Ou você é daqueles que valoriza mais a integridade de seu pé do que um banal e desnecessário disparo, ainda mais se for contra si mesmo? Pense sobre isso e vai ver que, todo aparente benefício passageiro e superficial, não leva ninguém a desfrutar de momentos realmente bons. Existe uma ilusão de vitória e bem-estar nas pessoas que tentam extrair somente benefícios egoístas das relações. No final das contas elas terminam sempre vazias, tristes e cercadas de pessoas que não as valorizam por dentro. Além disso, viver e propagar esse modelo, só faz com que o ambiente ao redor seja igualmente tóxico e completamente desinteressante. Em qual realidade você quer viver? A sociedade é apenas a soma dos indivíduos. Se a sociedade não é interessante, a culpa está em cada indivíduo dela. Se cada pessoa mudar a si mesma, o mundo mudará automaticamente.

Rodrigo Meyer