Motivos para abandonar o Facebook.

Desde o surgimento do Facebook, como um projeto paralelo de universitários, a ideia da rede social já vinha imbuída de polêmicas. Como se não bastasse o nascimento conturbado da rede, a trajetória de fama da plataforma acabou por revelar vários escândalos relacionando vazamento de dados, manipulação de estatísticas e divulgações pagas nada realistas. Em resumo, o Facebook prometia aos olhos dos usuários a oportunidade de finalmente se conectarem, criarem seus espaços e se divulgarem ao mundo, mas logo se viu que nada mais era do que uma grande ferramenta de intermediar os interesses de governos e grandes empresas com a ingenuidade de uma massa de usuários no mundo todo.

Em 2013, conforme esta notícia da CNN, o Facebook servia como fonte de dados para NSA, a Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos. Além do uso clássico dos registros telefônicos e registros de e-mail, a NSA usava também o Facebook para traçar conexões entre profiles e criar um mapa de conexões entre usuários, conforme dados de Edward Snowden, divulgados pelo New York Times. Mas este está longe de ser o único motivo para se deixar a rede social.

Com o extinto Orkut, o Brasil e uma parte do mundo aprendeu um conceito novo de interagir pela internet. Depois do fim dessa plataforma, houve espaço pro Facebook surgir e assumir o lugar. De lá pra cá, nunca havíamos nos expostos tanto na internet, com nossos dados pessoais, informações profissionais, gostos, costumes, personalidades, conexões de amigos e conhecidos, fotos, família e muito mais. Nos tornamos praticamente acessíveis a qualquer pessoa, até mesmo quando nosso profile está em modo fechado ou não-público, uma vez que existem ferramentas que burlam essa limitação tanto individualmente, quanto nos alegados vazamentos massivos que o Facebook faz com os dados dos usuários.

É surpreendente o crescimento rápido da plataforma e em como uma coisa simples, gratuita e, inicialmente, com pouco potencial de utilidade aos usuários, se tornou uma das principais mídias em toda internet. Tão famoso quanto Google ou Youtube, o Facebook parece ter conquistado a simpatia das pessoas. E nisso existe um componente perigoso. Em projetos dessa magnitude, não existe forma milagrosa que torne toda estrutura gratuita. Se por um lado usuários não precisam pagar pra acessar, por outro, alguém está bancando essa conta. E, claro, como em diversos outros meios de comunicação, a gratuidade é concedida em troca de uma cobrança massiva a anunciantes que estão sedentos pelo potencial de se conectarem com usuários. Mas não quaisquer usuários, afinal os algoritmos do Facebook permitem um filtro tão refinado de informações de cada pessoa que é praticamente possível personalizar todos os aspectos para entregar uma comunicação direcionada a cada tipo de indivíduo, elevando a eficiência nos objetivos, sejam eles quais forem. E aí entra um aspecto ainda mais perigoso.

Que as empresas tentam nos empurrar produtos dia e noite, isso não é novidade nenhuma. O problema é que, em escândalo recente, o Facebook foi surpreendido por estar envolvido no beneficiamento da candidatura de Donald Trump, por conta de acesso à dados de 50 milhões de usuários. Com a exploração destas informações de usuários e amigos de usuários, uma empresa, de nome Cambridge Analytica, criou um algoritmo capaz de formar um perfil ainda mais completo das pessoas e, assim, direcionar propaganda política altamente personalizada para eleitores indecisos, o que, certamente, impactou no resultado das eleições americanas. Confira a notícia de 20 de Março de 2018 aqui.

Até o momento, Mark Zuckerberg, CEO do Facebook, não se pronunciou sobre o assunto, seja porque não não tem algo de bom pra dizer em sua defesa ou seja porque não sabe o que fazer diante do escândalo. Com o ocorrido, o Facebook despencou as ações na bolsa e está sendo visto por muita gente como uma mídia sem futuro. Somente no Canadá, mais de 20 milhões de usuários abandonaram o Facebook. O Brasil, infelizmente, por conta da própria cegueira que predomina na média dos cidadãos, provavelmente, será um dos últimos países a sair massivamente da rede. Estes já são motivos suficientes pra se abandonar, mas ainda há muito mais.

Enquanto o Facebook engordava o bolso com bilhões, usuários do mundo todo se viram afundando em crises econômicas, perdendo desempenho em suas carreiras e deturpando o tempo diário diante do computador ou celular. Muita gente mergulhada em depressão, outras tantas desaprendendo severamente as premissas básicas de socialização tanto presencial quanto pela internet e enveredando por um caminho obscuro onde tudo que se tinha era um cabresto azul guiando as pessoas por uma tela cinza de timeline cheia de informações completamente irrelevantes que levavam as pessoas de lugar nenhum a nenhum lugar. Custou pra que as pessoas se dessem conta de que ceder suas vidas pessoais para empresas e usuários do mundo todo não era uma boa opção. Muita gente restringiu o acesso a seus profiles ou até mesmo suprimiu severamente as informações prestadas na internet para evitar esse abuso. Além disso, passar cada vez menos tempo na internet se tornou a meta de vários usuários, como forma de reaver o tempo perdido e investir mais em si mesmos, em suas carreiras e potenciais, principalmente retomando o contato físico e natural com as pessoas e os lugares.

Cada vez que a internet se torna mais e mais acessível, começa a permear pra dentro da rede a mesma diversidade de problemas que existe no mundo real. Desde um bom tempo que o Facebook se tornou alvo de todo tipo de crimes e pessoas mal intencionadas. Entre stalkers (pessoas que observam a vida alheia), estelionatários, divulgadores de notícias falsas, profiles fakes para forjar números e comentários falsos, traficantes de animais e drogas, falsificadores de dinheiro, estupradores, aliciadores para prostituição, pedófilos, além dos populares propagadores de ódio gratuito, fascistas e afins. Um verdadeiro bueiro de desgraça.

E se você é usuário brasileiro, a situação é ainda pior. Pelo mundo todo o brasileiro foi considerado o povo mais mal educado da internet. Não é de se espantar, considerando o nível deplorável nos setores de Cultura, Educação, estrutura familiar, estrutura psicológica e social. Tirar algum proveito da rede social nesse cenário, só se você estiver em busca de trocar chumbo entre usuários igualmente mal intencionados. Quem já se deu conta que a rede afundou não quer nem ouvir o  nome dela.

Uma parcela das pessoas tenta manter o Facebook para fins profissionais, alimentando e divulgando suas fanpages com o intuito de fomentar adesão a seus produtos, serviços, ideias, ONGs, causas sociais e afins. Contudo, mesmo para estes, o cenário nunca foi bom. Há vários anos que o Facebook limitou drasticamente a visibilidade dos conteúdos nas timelines devido a impossibilidade de se apresentar tudo para todos ao mesmo tempo. Para que um usuário consiga visualizar um conteúdo no horário em que ele habitualmente está online e predisposto a vagar pela rede, ele precisa receber uma certa quantidade máxima de conteúdos. Mesmo que cada usuário tenha suas próprias preferências previamente selecionadas em tipo de conteúdo, ainda é algo demasiado pra ser entregue. O que o Facebook faz, então, é suprimir 99% de tudo isso e entregar, geralmente, 1% de conteúdo ao usuário. O critério é basicamente a “relevância” do conteúdo, porém não pela análise do conteúdo em si, mas pelo quanto esse conteúdo já tem de presença numérica em termos de inscritos, visualizações, curtidas, etc. Em resumo, quem já está no topo, é visto, quem não está, é invisível.

Eu, como adepto do minimalismo há muitos anos, vim reduzindo tudo que podia em diversos setores da vida. No Facebook não foi diferente. Por razões de trabalho, ainda mantenho um profile e algumas páginas, mas, com toda certeza, o foco é sempre direcionar o fluxo para mídias externas, uma vez que eu já não passo tanto tempo no Facebook, não participo de mais do que dois ou três grupos e já havia previsto a queda dessa ferramenta. Atualmente, opções melhores (ou menos ruins) estão saltando aos olhos, especialmente dos que trabalham com internet ou que querem dar visibilidade e retorno pra seus projetos, sejam eles pessoais ou profissionais.

Abandonar o Facebook me tirou um peso das costas, desde que comecei o processo de redução de interação e de disponibilidade de dados e conexões com outros usuários. Isso me permitiu trabalhar melhor e de forma muito mais engajada nos meus projetos, tendo repercutido na criação de várias outras mídias próprias, uma volta a produção literária e várias ótimas surpresas que não convém contar antes do momento. Se eu pude fazer isso por mim, você pode pelo menos tentar por você. Alguns dos leitores aqui do blog já não fazem parte do Facebook e talvez isso explique também o engajamento destes nestas outras plataformas e conteúdos. Vamos em frente, porque pra trás sobram destroços.

Rodrigo Meyer

Crônica | Miséria e Luxo.

Na frente da loja de conveniência, um morador de rua sentado. Aos desavisados, parece não esperar nada, mas pra quem vive fora da bolha, eis alguém que decaiu não só pra rua, como pro consumo de droga pesada. Não faz mal a ninguém. A comunidade em torno o conhece e o respeita. É educado mesmo quando não está sóbrio. A droga não transforma, ela só potencializa a essência do indivíduo. Alí está um homem que tinha vergonha da sua condição, de pedir dinheiro, de estar entre os demais. Um dia lhe disse que não precisava ter vergonha de nada daquilo, pois muitos de nós já se encontrou sem saída e o importante é tentar tirar o melhor proveito dos dias. Lágrimas do lado de lá, de alguém que lembrava, claramente, que nunca tinha ouvido ninguém se solidarizar. As pessoas passam reto, não olham nos olhos, mal chegam perto. As madames com seus carros pretos de luxo, abrem a carteira e tentam encontrar alguma nota de baixo valor, quando lhes pedem alguma moeda. Moeda elas não possuem e talvez a menor nota delas seja só de R$ 10 ou R$ 20 reais. “Mendigo inoportuno que não tem máquina de passar cartão de débito”, devem pensar. Ele, sempre volta; elas, raramente. Elas preferem o conforto de casa, como um bunker, trancadas e inseguras, por conta dos monstros que elas mesmas fabricaram. Ele, pede porque não tem; pede porque a abstinência cobra o consumo da droga; pede porque, muito antes, foi esquecido pela sociedade; pede porque, se a vida estivesse, antes, estável, não teria que pedir coisa alguma; pede porque uma minoria da sociedade não abdica dos luxos herdados, dos privilégios e até da corrupção, quando notam que é mais fácil ser egoísta e inútil, do que reconhecer que não tem mérito nenhum aceitar como certo o que foi dado errado. Não trabalharam duro, apenas lapidaram um diamante bruto herdado. E, geralmente, um diamante roubado.

Rodrigo Meyer

Crônica | Levantei. E agora?

Levantei e sentei a beira da cama. Um dia um tanto repetitivo, depois de tantas tentativas. Na mesa, o teclado com teclas emperradas fazia companhia pro mouse que já não respondia bem aos cliques. O fone de ouvido abafa o som da imbecilidade ao redor, mas não o suficiente pra que eu não note e não me irrite. Para os idiotas, todo espaço é deles, principalmente se for pra regredir na vida. Eu que escolhi trabalhar, tento sobreviver. Se não há trabalho remunerado, trabalho do mesmo jeito, porque o mundo não para e ser útil é minha obrigação. Hoje eu escrevi, atendi clientes, denunciei, comentei o que somava e compartilhei com o mundo alguns fatos relevantes. O mundo, em média, pode estar seguindo adormecido, entorpecido por suas crises de adolescente sobre assuntos que eu nem sabia que existiam. Qual será o novo drama de quem passou a vida dentro de uma bolha rosa, do tipo que fica indignado quando encontra um grão de areia dentro do seu carro de luxo? Para os patéticos, querer é poder. Só se esquecem que a maioria quer e não pode. Queria comer, queria não me deparar com pessoas fúteis, queria trabalhar, queria me ver livre do risco constante de voltar a ter depressão, queria ter família, queria não ter nascido, queria outro planeta, queria ter 1% do dinheiro que os fúteis da classe alta gastam pra arrotar racismo na mesa de Domingo. Pegaria essa fração e construiria o que todos eles somados e multiplicados nunca teriam sequer na imaginação. Hoje eu levantei, mas não queria. Todo dia eu levanto, apenas porque sei que ainda tenho algo pra deixar nessa vida.

Rodrigo Meyer

Crônica | O orgulho em ser inútil.

Fui ao estabelecimento. Tudo muito bonito, organizado, exceto por aquele atendente, com a cara toda fechada, um desgosto pelo trabalho, uma falta de educação e atenção. A cada simples pergunta sobre os produtos, uma resposta seca ou até mesmo resposta alguma em claro sinal de desprezo. Eu sabia que ele nunca mudaria. Já é um idoso e não fez nada pra aprender a ser melhor, mesmo depois de tanto tempo na mesma atividade. Praticamente um apêndice do próprio comércio, tal como o apêndice no órgão humano, mantido enquanto não dói, mas que pouco sabemos da utilidade. Meu alívio é saber que ele está cada vez mais perto de se aposentar, que o comércio terá que mudar ou fechar e que eu continuarei educado e útil por onde passo. Sempre gostei de trabalhar. O que me dá energia é saber que estou sendo útil pra algo ou alguém. Mas nem todos pensam igual. Eu sou só alguém que acredita que atirar no próprio pé não é uma alternativa. A maioria das pessoas, por se darem esse tiro, acham que eu estou errado. Ai de mim, pobre coitado.

Rodrigo Meyer

Especial | Aulas de Redação.

O mundo traz novas oportunidades quando lapidamos nossos processos e objetivos. Aprender a escrever bem é uma destas ferramentas e hoje vou te apresentar uma sequência de aulas que você poderá fazer diretamente da sua casa, através de vídeo-chamadas por skype. Escolha o horário e a frequência de aulas de maior comodidade pra você. As aulas estão compostas em 9 sessões e 2 tópicos por sessão.

Sessão 1:
+ Como fazer uma introdução de um texto.
+ A importância do começo, meio e fim.

Quebre o gelo com a escrita e entenda algumas regras de redação que fazem tanto o autor quanto os leitores se ambientarem ao conteúdo, com interesse e fluidez.

Sessão 2:
+ Aprenda a ser conciso e completo.
+ Estruturando uma argumentação.

A regra da eficiência pressupõem que você diga o maior número de informações com o mínimo de texto possível. Portanto, para não sacrificar seu conteúdo, a redução deve ser planejada com criatividade e inteligência.

Sessão 3:
+ Redação publicitária.
+ Textos persuasivos.

Quando você está escrevendo para um público ou objetivo específicos, existem premissas importantes na sua linguagem e na composição do seu texto, em termos de hierarquia, valores e psicologia. Passar a mensagem correta é construir uma percepção de sentido e valor.

Sessão 4:
+ Como criar títulos funcionais.
+ Tamanho mínimo, médio e máximo de um texto para redes sociais, blogs e livros.

Aprenda a criar títulos curtos, fortes e atraentes que representem muito bem a essência de cada texto. Para ser lido, você precisa ser notado. Descubra também alguns parâmetros sobre o volume do seu texto, truques de edição e questões relacionadas ao seu público leitor.

Sessão 5:
+ Definindo temas para escrever.
+ Encontrando seu estilo de escrita.

Desenvolver a literatura é parte de um hábito. Encontrar temas interessantes e adequados, estão intimamente relacionados com quem você é e qual imagem você deseja passar. Atrelado a isso, encontrar seu estilo te fará único e é exatamente essa característica que te abre espaço entre os demais.

Sessão 6:
+ Estilos literários (conto, prosa, poesia, artigo, etc.)
+ A importância da imagem como suporte ao texto.

Muitas são as possibilidades de expressão. Entenda cada uma delas e conheça as primeiras portas para se aprofundar nas suas escolhas. Depois de ter se estabelecido como autor, é preciso entender um pouco mais da sua própria apresentação. É hora, então, de pensar como funciona a comunicação das imagens que acompanham seu texto.

Sessão 7:
+ Tire dúvidas de ortografia e gramática.
+ Reescrevendo frases em um modo curto, compreensível e sem repetições.

Refine seu texto com um constante aprendizado do idioma. Uma escrita correta e coerência no uso de certas expressões, vão elevar sua credibilidade diante do público e atrair mais pessoas para o que você tem a dizer. Quando você se torna inteligível ao seus leitores, você cria uma conexão sem ruídos.

Sessão 8:
+ Adequando a linguagem e o tamanho do seu texto ao seu público.
+ Consulta de fontes de referência pra dados.

Tão importante quanto escrever correto, é entender os vários ambientes e contextos de leitura. Adequar a linguagem sem cair em clichês ou empobrecimento da escrita é importante pra se manter como referência de confiança pra seus leitores. Transpor naturalidade nas suas frases e dados, exige embasamento e tato.

Sessão 9:
+ Melhorando sua segurança / confiança no ato de escrever.
+ A importância da estética e do ritmo na leitura.

Agora que você já tem as ferramentas para escrever textos eficientes, seu sucesso está mais próximo. Continue escrevendo, perceba os momentos e gatilhos dessa atividade e entenda quais são os fatores que te dão confiança em ser autor. A medida em que você aprende a envolver os leitores ao longo do seu conteúdo, você garante um lugar ao sol e essa é a chave também para você se envolver de forma confiante com sua própria atividade de escrita.

Extra:
+ Grupo Vip.
+ Leituras, análises e correções.

Ao adquirir as aulas, você tem o benefício de participar de um grupo exclusivo no Facebook, somente para alunos do curso, onde você pode enviar seus textos pra que eu possa tirar suas dúvidas, dar dicas, ler e opinar sobre os conteúdos, fazer correções e muito mais.

Investimento:  Apenas R$ 270 reais, equivalente a R$ 30 reais por sessão.
Duração: 90 minutos por sessão com 2 tópicos.

Datas:
Uma vez contratada as 9 sessões, você é quem escolhe o melhor dia, horário e frequência das aulas. Escolha quando começar a primeira e quando retornar para cada uma das próximas.

Dicas: Devido a carga horária e a frequência de sessões, pode ser útil programar e reservar suas datas e horários. Faça no seu tempo disponível e no ritmo que lhe for confortável ou conveniente e, certamente, irá desfrutar de todo o benefício desses conteúdos.

Inscrições e Pagamentos: Você pode adquirir o curso através de pagamentos por PayPal ou PagSeguro, garantindo segurança e praticidade pra ambos. Através dessas plataformas, você pode controlar que os pagamentos só sejam liberados a mim se você efetivamente receber o serviço combinado. Para solicitar mais informações ou se inscrever, entre em contato por mensagem inbox na minha página no Facebook.

Rodrigo Meyer

Muita demanda, pouca oferta.

O ser humano, geralmente, está em busca de alguma oportunidade de se destacar em uma atividade, mas as pessoas, frequentemente, possuem preguiça ou desinteresse para específicas atividades ou áreas de estudo e, justamente por isso, estas oportunidades sobram pra quem tenha disposição e interesse de ocupá-las. É como diz a expressão: “A preguiça de uns é o trabalho de outros.”.

Quando tive a oportunidade de entrar pra faculdade de Ciências da Computação, foi interessante ver quão poucas turmas e cursos haviam pra esse segmento. A sala começou com mais de 40 alunos e gradualmente foi esvaziando. No final do curso sobraram apenas umas 5 pessoas que se diplomaram e foram elas que colheram os frutos disso, ao poder brilhar em suas carreiras. Da única pessoa que eu conhecia e mantinha contato nessa fase pós-faculdade, sei que a pessoa fez ótimo proveito da carreira. Estudou pra valer, se concentrou no necessário e teve trabalhos interessantes, inclusive com a oportunidade de reinvestir em si mesma para novos cursos, viagens e aprendizados. Em resumo, em uma sala onde nem todos estavam dispostos a seguir naquela profissão ou estudo, alguns estavam e, por isso, saíram na frente.

Mas a vida é múltipla. Quando saímos de uma área ou nem sequer entramos nela, temos a oportunidade de ir pra outra atividade. Contudo, algumas atividades são tão comuns, que estão saturadas. É o caso da área de Direito, onde muita gente se forma, mas a seleção da OAB filtra, por prova, os melhores, justamente pra não saturar o mercado de gente que vai acabar não tendo espaço pra exercer a profissão pretendida. Diversas outras áreas também se tornaram “febre”, por assim dizer, deixando áreas menos comuns com menos interessados e, portanto, com menos concorrência. A concorrência em si não é ruim, mas quando o mercado se satura exclusivamente de umas poucas profissões, isso desestabiliza a sociedade, pois o mundo não precisa só de meia dúzia de tipos de profissionais, serviços ou produtos. Então, a diversidade é mais saudável e útil para a própria sociedade, tanto coletivamente, quanto pelo benefício pessoal de conseguir se estabelecer profissionalmente como indivíduo.

A realização pessoal de muita gente acaba revista quando notam que, embora gostem de uma determinada área, não conseguem sobreviver com a realidade do mercado gerada em um contexto de saturação ou de desvalorização. Ocorre, também, das pessoas terem expectativas muito otimistas sobre determinada profissão ou área de estudo e acabarem frustradas ao descobrir que, na prática, não é tão glamouroso como pensavam. Tudo isso gera uma adequação quase que automática, colocando pessoas indispostas para fora de uma atividade e segurando as que se adequaram. Não há problema algum em se descobrir incompatível ou desinteressado com determinada área. Tudo que temos que fazer é exatamente nos descobrir, pra podermos fazer escolhas mais assertivas. Foi assim comigo quando abandonei a faculdade de Ciências da Computação por ver que não estava apto a lidar com tanta matemática enquanto ainda tinha que tentar absorver os princípios da computação em si. Admiro quem consegue e sigo interessado pela área, mas só volto à mergulhar nela se eventualmente me sentir apto a lidar com a quantidade de matemática que me freou na época.

Ao invés de me sentir frustrado, eu segui para outro curso. Fiz a faculdade de Comunicação Social e realmente me senti entretido o suficiente pra chegar até o final das aulas. Foi uma experiência muito boa pra mim, especialmente pelos professores que conheci e pelos momentos divididos entre as pessoas da época, pelos corredores, bares e casas noturnas. Mas, meu objetivo neste curso, por já ter conhecimento na área, não era ter determinados tipos de emprego como era pra todos os demais alunos. Pode-se dizer que fui a ‘ovelha-negra’ do curso, mas sigo tirando proveito e trabalhando com isso exatamente no espaço deixado pelos demais. Enquanto eles tentam ocupar uma área que, pra mim, era insatisfatória, discordante e saturada, eu escolhi atuar justamente onde ninguém tinha olhos ou interesse: apoiar pessoas, causas e pequenos negócios com ajuda do conhecimento que eu tinha. Apesar de não ter dinheiro pra gerir minhas próprias iniciativas nesses meios, consegui alavancar muito bem minhas mídias e ideias, até o ponto onde elas só não progrediram pra algo maior, por essa barreira financeira. Isso mostra que ocupar uma área onde outros não querem, pode ser bastante próspero, desde que haja suficiente apoio inicial.

Usando um dos exemplos que eu conheço, por conta da minha proximidade com o tema, cito a própria área de programação e TI, onde os salários propostos pelas empresas podem chegar a fantásticos R$ 100 mil reais por mês, justamente porque existe tanto potencial na informática e tão poucos programadores disponíveis, que um salário alto é a forma que encontraram de tornar a área atraente pra que mais pessoas se formem em computação, análise de sistemas ou alguma coisa relacionada a TI, podendo, assim, ocuparem as vagas que as empresas mais valorizam atualmente. Dessa escassez, pode-se encontrar até mesmo oportunidades como ter o curso de faculdade bancado pela empresa que pretende lhe contratar ou mesmo de ter uma vaga de trabalho praticamente garantida já no segundo ano de faculdade. Além disso, inúmeros brasileiros são tentados a trabalhar como programadores no exterior, justamente pelo combo salário + qualidade de vida de determinado país (frequentemente na Europa) ou, então, por poder estar em uma empresa renomada internacionalmente como Google, Microsoft ou Facebook.

É claro que estar ausente desse mercado não é, por si, sinônimo de preguiça. Há pessoas que simplesmente se esforçaram ao máximo pra tentar, mas não conseguiram, por inúmeras razões possíveis. Algumas pessoas não possuem condição de bancar um curso até o fim, outras não conseguem passar na seleção de uma faculdade pública e outras simplesmente podem ter se visto destoantes do tipo de estudo ou realidade de determinada área ou profissão.

Contudo, em várias outras atividades da vida cotidiana, é sim a preguiça de uns que abre portas para outros profissionais. Quando as pessoas não querem ter que lavar a própria louça, o carro ou casa, estão abrindo uma demanda pra que outras pessoas façam isso. Geralmente, em nossa sociedade discriminatória, esses trabalhos são evitados pelas pessoas com mais renda, renegando as pessoas de menor renda a aderirem a esses trabalhos que ninguém quis fazer, por demanda e por falta de capacitação ou espaço pra outras funções. Assim como existem muitas pessoas que ocupam as vagas de diarista, faxineiro, gari ou lixeiro, por exemplo, por não terem estudos suficientes pra pleitear vagas com exigências maiores de formação escolar, também existem as que migram pra essas áreas quando se veem desempregadas nas áreas em  que estudaram e se formaram, seja por saturação do mercado ou por algum revés pessoal. Fato é que, em ambos os casos, onde muita gente não estiver interessada de fazer algo, alguém virá pra fazer. O grande porém é que em países que discriminam as pessoas e os serviços, a remuneração dessas áreas tende a ser precária, como é o caso do Brasil. Em alguns países no exterior, profissões como a de lixeiro são uma das mais bem remuneradas, justamente porque as pessoas reconhecem a importância desse trabalho, cientes de que, sem isso, estariam no caos. Em tais países, existem lixeiros com faculdade, casa própria, dinheiro excedente pra viajar o mundo, etc.

Há muita coisa que é relativamente fácil de se aprender e executar, mas que muita gente evita, por que tem preguiça mesmo. Quando as pessoas não pensam por conta própria, por exemplo, abrem um enorme espaço pra que colunistas de pseudo-mídias ocupem e determinem o que é que as pessoas devem “pensar”, “concluir” ou replicar aos demais como “adequado” ou “correto”. Outro prejuízo se vê quando as pessoas deixam de exercer seu potencial artístico, por exemplo, ficando sujeitas a serem meras fãs passivas de algum artista. Isso não é saudável e, por vezes, pode ser apenas uma forma de você gastar muito dinheiro pra que outra pessoa faça o que você teve preguiça de se envolver. Noto isso em inúmeros casos de famílias que optam abertamente por babás na criação dos filhos, ficando completamente omissas da função na maternidade e paternidade. Consigo entender a inscrição de filhos pequenos em creches ou em  episódios isolados de tutoria com babás, mas se isso é o padrão de uma família na maioria dos dias, certamente comprometerá a relação entre pais e filhos.

Eu, ao contrário da tendência no mundo, sou daqueles que gosta da fazer tudo (ou quase tudo) por mim mesmo. Eu amo limpar a minha casa, organizar as minhas coisas, solucionar um problema do computador, seja em hardrware ou em software, cozinhar pra mim e, eventualmente, pros outros, fazer as compras no supermercado, pagar as contas, me enveredar pela minha expressão artística e literária, ler e estudar aquilo que ainda não domino pra impor, eu mesmo, tais benefícios aos meus projetos e necessidades. Me propus a estudar Idiomas, Culturas, História, Sociologia, Psicologia, noções gerais e básicas de Medicina, Direito e diversas outras áreas do conhecimento. De certa forma, estar ativo em todas essas coisas, pra finalidades pessoais de conhecimento e lapidação, me motivam ao invés de me deixar em preguiça. Aliás, se eu tivesse 8 mãos e estabilidade financeira, faria muito mais. Por vezes, deixei de expandir minhas ideias, simplesmente porque era, no meu contexto, impossível de se fazer.

Mas, a verdade é que eu não tenho como criticar os preguiçosos, afinal é por conta deles que sobra espaço pra que os demais façam algo, criando suas carreiras e tirando seu sustento na vida. É ótimo que o mundo seja diverso, desde que as pessoas sejam conscientes de que quando escolhem não estudar e não fazer as coisas por conta própria, terão que remunerar bem quem remou contra a maré da sociedade e decidiu estudar e fazer tal coisa. Então, é preciso, pra ontem, valorizar os fotógrafos, os cozinheiros, os lixeiros, os designers gráficos, os pintores, os professores, os músicos, etc. Ou seja, se você gosta e precisa de algo que você não domina, terá que valorizar quem domina, senão tal área tenderá a ficar precarizada até sumir ou se degenerar em qualidade. Se você não investe um valor justo pra que um profissional viva dignamente e possa estudar e se aprimorar na carreira pra te oferecer sempre um serviço cada vez melhor, você está, basicamente, plantando uma realidade onde os serviços e profissionais serão cada vez piores e mais raros. E, se eles se tornam piores, não trazem bom retorno pra quem os contrata. No caso de se tornarem raros, podem se tornar caríssimos e restritos somente aos que realmente entendem o valor daquilo, ao mesmo tempo em que podem pagar por tal valor.

Então, para não dar tiro no próprio pé, é preciso saber sustentar uma modelo de trabalho com remuneração justa. A lógica é simples, mas muita gente não tem paciência ou apreço pra se ver diante dessa realidade incômoda todo dia, por isso raramente refletem sobre essa urgência. E, se muitos não refletem, lembre-se, alguém vai ocupar esse vazio e refletir por eles. Espero que tais substitutos sejam sempre pessoas bem intencionadas e capazes, pois, do contrário, o mundo acabará mergulhado em realidades cada vez piores, como ocorre no Brasil, por exemplo, onde empresas, mídias, políticos e personalidades ditam a asneira conveniente que desejam pra manipular e extrair lucro e poder em cima dos incautos na população.

Inclusive, o fato de muitos não saberem diferenciar uma pessoa capacitada e correta de uma fraude é a demonstração de como tal pessoa se absteve tanto tempo da autonomia de pensamento dos assuntos do mundo, que acabou criado e moldado pelos que vieram pra moldar e ditar a realidade trágica dessa pessoa. E claro, entre indivíduos mal intencionados, um dos primeiros objetivos é fazer o público apontá-lo como líder ou referência, assim ele pode continuar controlando as pessoas com a própria aprovação delas. Alguém que vive esse cenário onde é usado e mesmo assim apoia ou defende seu opressor, diz-se que a pessoa tem Síndrome de Estocolmo. Depois de tudo isso, afinal, de que lado você quer estar?

Rodrigo Meyer

Cansaço e comodismo são a mesma coisa?

A imagem que ilustra esse texto é parte da fotografia de autoria de Eslam Ashraf.

Será que há semelhanças entre cansaço e comodismo? Definitivamente não há, mas mesmo assim, por conveniência própria, muita gente gosta de chamar as pessoas cansadas de acomodadas. É apenas um jeito fácil de não ter que pensar no problema real pelo qual aquela pessoa passou a ponto de não estar conseguindo ser mais produtiva ou tão produtiva.

Nossa sociedade espera que sejamos ativos, principalmente pra dar conta das atividades básicas de trabalho e manutenção da vida. Muitas pessoas, infelizmente, perderam suas infâncias, quando tiveram que dar suporte a sua família, trabalhando em casa ou até mesmo fora de casa, pra aumentar um pouco que fosse a renda ou a alimentação. Muitas dessas crianças sem infância, tiveram que trocar a diversão pelo trabalho praticamente forçado, atuando desde jovens em serviços que até para adultos é pesado. Se uma pessoa percorre um histórico desse e em algum momento desenvolve depressão a ponto de não conseguir quebrar a rotina de dormir e acordar, um piano cai sobre suas costas pela opinião preconceituosa e opressiva das pessoas que chamam essa pessoa de ‘acomodada’. Pra piorar o quadro, se essa mesma pessoa tentasse ganhar credibilidade na sociedade, provavelmente não conseguiria, pois ficaria vista como alguém que não se esforça mais.

As pessoas fingem interesse em progresso social, estudo e trabalho, mas na verdade só estão destilando ódio contra as pessoas as quais elas nada sabem ou escolhem não saber. O preconceito de muitos força a visão a permanecer fechada, especialmente quando a realidade que poderia ser vista, evidencia a opressão e o opressor. Quando a realidade anuncia aos gritos os culpados de todo caos, dor e insucesso, as pessoas, acovardadas diante do fato de que não fizeram nada pra favorecer a sociedade, transferem essa culpa ao próprio oprimido, pra tentarem se isentar de qualquer responsabilidade. Não funciona, claro, e ficam irritadas e descontam essa irritação novamente aos seus oprimidos e a quem tenha exposto essa realidade.

As pessoas cansadas estão em toda parte. É a criança recolhendo latinhas de alumínio pra vender na reciclagem e tentar sobreviver, sem saber ao certo onde está sua infância; é o idoso abandonado pela família quando ele mais precisava de apoio; é a pessoa com a doença da depressão, sendo desacreditada na família, na escola, no trabalho, entre os amigos e na sociedade em geral, tentando simplesmente ficar vivo, mas sendo sabotado pelas químicas de seu cérebro; é a mulher que abandona o emprego e os estudos quando enfrenta a sensação de ruína em um estupro; é o desemprego anunciando portas fechadas na cara de pessoas dispostas a trabalhar e que passam meses sem opção alguma de dignidade, por vezes sem sequer conseguirem se manter limpas e com um currículo na mão pra suas próximas tentativas. Aqui eu poderia citar infinitos outros contextos onde as pessoas simplesmente podem se ver cansadas e, de forma nenhuma, acomodadas.

Acomodados, mesmo, são os que enxergam essas pessoas com maus olhos, que não param pra notar que elas chegaram em seus limites ou que simplesmente estão em condições tais que as impedem de fazer qualquer coisa sobre a situação em que estão. A sociedade sujeitou essas pessoas a uma inação ou a uma realidade tal, que somente a sociedade pode resolver e, claro, não quer resolver e não resolve. Acomodados são aqueles que evitam saber que é perfeitamente possível que todas as pessoas no planeta tenham farta comida, renda estável, estudo e uma atividade (profissional ou não) que contemple seu potencial, seus desejos ou objetivos. Acomodados são os que tem fortunas financeiras, privilégio na sociedade e mesmo assim escolhem não fazer bom uso disso com melhor aprendizado sobre si mesmo, sobre o mundo. São acomodados os que, apesar de terem um emprego e estarem plenamente bem de saúde física, fecham os olhos pra quem destoa dessa realidade. Aqui também são inúmeros os casos que poderíamos citar.

Somos uma sociedade hipócrita que enaltece os que fazem muito sem nenhum esforço ou barreira, chamando esses fracassados de líderes, exemplos, etc. Ao mesmo tempo, tornam insignificantes os que, apesar de imenso esforço, não conseguiram sair do buraco em que a própria sociedade os colocou. Se você jogar um peixe em um poço vazio, ele nunca vai sair do fundo, mas se o poço estiver cheio de água, a condição está favorável pra que um peixe ativo consiga permear todo o poço, como bem entender. O que nossa sociedade faz, usando ainda a metáfora do poço, é simplesmente construir um poço e nunca enchê-lo de água. Dessa forma, quem está fora do poço se vangloria de não estar lá embaixo e acusa quem está lá embaixo de ser acomodado demais pra subir. São construtores e donos desses “poços” os banqueiros; os corruptos; os que receberam imensas terras gratuitas do Estado e repassaram essas vantagens aos seus familiares; os herdeiros de pais ricos que nunca trabalharam um dia sequer na vida, bancados por um estilo de vida fácil, onde podem viajar sempre ao exterior, viver de investimentos e negócios abertos por seus parentes, esperando passivamente o lucro abusivo cair em suas contas bancárias e desperdiçando suas comidas enquanto ofendem a classe trabalhadora em suas pseudo-conversas de mesa. Esses são tremendamente acomodados.

Vencedores, mesmo, são aqueles que permanecem vivos e dignos, apesar da vida dura que levam; os deprimidos que escolhem dormir pra não se suicidarem; os que se recusam a vida criminosa ou antiética, mesmo não vendo nenhuma oportunidade honesta de trabalho; os que escolhem ficar sozinhos, do que se envolver em relacionamentos tóxicos; os que preferem não enganar o público em troca de lucro fácil ou maior; os que não abaixam a cabeça pra violência do Estado e das quadrilhas paramentadas, mesmo sabendo da realidade; os que escolhem ser úteis ao mundo, mesmo tendo plena certeza de que é o mundo que lhes deve utilidade. Outra vez, inúmeros casos se encaixariam aqui.

Se houvesse tempo e menos cansaço, poderíamos listar cada um dos chamados ‘cânceres sociais’ e desmascará-los um a um, nesse nefasto sistema que favorece somente aos desonestos e antiéticos. Não se pode esperar que uma sociedade construída pelos mal intencionados, venha ser uma construção diferente deles mesmos. Tudo que fazem é encontrar uma brecha fácil e barata pra explorar friamente qualquer outra pessoa que não tenha tido o azar deles em ter nascido em uma família ou contexto social que os coloca como fracassados acomodados em oposição aos que tiveram que optar pela dignidade, trabalho e, infelizmente, pelo pouco retorno dessas decisões em um ambiente onde honestidade e trabalho não são bem valorizados por quem já detém o dinheiro fácil e em grande quantidade, exceto quando a “valorização” é simbólica e fictícia, reforçando “quão bom” é se esforçar pelo lucro desproporcional da empresa ou do chefe enquanto se ganha um pouco mais de água ou uma cesta-básica adicional pra não se ver morto por fadiga no trabalho.

Enquanto as pessoas acreditarem que não conseguem subir no poço seco por culpa delas mesmas, estarão compactuando com pessoas fracas que riem dessa situação ao mesmo tempo em que olham com nojo e desprezo aos que almejam dignidade. Forma-se, então, uma pseudo-teoria de que existem duas classes de seres humanos. Somente países que fracassaram nos principais temas chegam a tal conclusão absurda. O erro prático acompanha o equívoco de pensamento. Um exemplo de como se pode ser assertivo foi a ideia sugerida pela Suíça, em 2016, conforme esta notícia, que pretendia estabelecer uma renda equivalente a R$ 9 mil reais a todo e qualquer cidadão (R$ 2.270 reais para crianças), sendo o trabalho facultativo, apesar da renda. A ideia partiria do princípio de que todos pudessem ter a mesma renda, sem levar em conta quaisquer outros fatores prévios de riqueza ou status, permitindo um estilo de vida digno a todos. Todo o sistema financeiro para este feito é autossustentável, pois tem como alicerce o chamado “dividendo digital”, que é, a grosso modo, o dinheiro extra que se consegue por trabalho automatizado não-humano (máquinas e robôs), depois de ter feito o pagamento a todos os cidadãos. E engana-se quem pensa que isso acomodaria as pessoas, pois segundo pesquisas feitas à época, a preferência das pessoas era de justamente continuar trabalhando. O motivo, claro, é que uma vez que as pessoas não precisassem mais se sujeitar a empregos que não gostam só pra ter a renda necessária, elas poderiam finalmente trabalhar com aquilo que realmente gostam e ainda seriam pagas pra ter essa liberdade. Essa ideia, embora pareça inovadora, já existe há, pelo menos, 500 anos.

Ideias como a da Suíça, libertariam as pessoas dessa dependência do trabalho e, assim, elas poderiam exercer seus potenciais além desse setor da vida. Nasceriam deste contexto, inúmeros novos autores, artistas, pesquisadores, famílias com mais tempo pra dedicarem a si mesmos, e quaisquer outros tipos que, de outra forma, teriam dificuldade em substituir o trabalho por renda pela atividade por prazer. É como diz aquela frase: “Só é utopia se ninguém fizer.”.

E como seguimos dizendo obviedades nesse mundo enquanto elas ainda forem necessárias, vou registrar esses dois trechos da matéria da BBC:

Produzimos três vezes mais do que conseguimos consumir (…), mas isso não está acessível a todos. A renda mínima é um direito nesse contexto. Por que não tornar a riqueza acessível a todos?“, questiona o porta-voz do movimento pela renda mínima, Che Wagner, em entrevista à BBC Brasil.

É útil promover uma sociedade em que as pessoas tenham a estabilidade para tentar coisas novas (…), é útil dar a liberdade para as pessoas serem criativas. Isso vai ajudar muito a Suíça se for adotado“, opina Che Wagner.

E agora? Quem são os acomodados? A capacidade humana de inventar foi o que lhe poupou esforço ao longo da História. A própria invenção das máquinas e robôs são exemplos clássicos e atuais de como o ser humano pode se isentar do cansaço, se usar a realidade de modo inteligente e a serviço do bem-estar geral. Contudo, essa realidade futurista que estamos sonhando desde a Era Industrial, nunca se estabeleceu corretamente na maioria dos lugares, simplesmente porque as pessoas que almejam status e diferenciação social por meio do dinheiro, do poder, do sobrenome ou do cargo, ainda se acomodam e se acovardam diante dessa ideia frágil que é tentar ser melhor que outro ser humano, mesmo não tendo razão consistente ou qualidade pra tal pretensão. Ironicamente, é exatamente em modelos como esse proposto pela Suíça, que é possível que o ser humano possa, finalmente, ter renda e bem-estar sem ter a obrigatoriedade de trabalhar. Embora seja isso que muitos ricos no Brasil e em outros países pelo mundo desejem, na ideia concebida pela Suíça, além de ser possível, seria dado a todos os cidadãos.

Sendo realista e honesto, se eu tivesse essa liberdade financeira, podendo, inclusive, ser bem menor em valor, eu já teria optado por fazer estritamente o que eu gosto, sem me preocupar se as contas estariam pagas. Essa realidade é possível até mesmo fora dessa ideia suíça, desde que as pessoas se engajem em um sistema de interação realmente fluído. Quando, por exemplo, uma pessoa recebe um dinheiro pra exercer uma determinada atividade, automaticamente ela fica munida de dinheiro pra consumir produtos e serviços de outra pessoa, fazendo as próximas pessoas ficarem munidas de dinheiro pra fazerem o mesmo a outras e outras, sucessivamente. O problema está justamente quando o sistema não é fluído e uma única pessoa despeja uma quantia absurda de dinheiro somente em pessoas, produtos ou empresa que, ao invés de reverter esse dinheiro de volta pro fluxo, retém esse dinheiro por pura megalomania, para estruturar um “império” ainda maior de captação desse recurso. Esse é o exemplo clássico do que vemos hoje na maioria do mundo, onde apenas 8 pessoas detém mais dinheiro do que a metade mais pobre do mundo. Exatamente porque essa conta não fecha é que algumas pessoas ficam de fora do fluxo sadio de dinheiro e enveredam pela pobreza ao invés da igualdade de oportunidades.

Um sistema que é falho e fracassado a ponto de não ter apoio nem da matemática simples, não pode ser tolerado pelas pessoas se elas quiserem ser dignas e inteligentes o suficiente pra experimentarem a realidade aos moldes do que a Suíça suscitou para nossa reflexão em 2016. Aliás, vale lembrar que de 2016 pra cá, o Brasil conseguiu o inimaginável: estragar o que estava bom e piorar mil vezes o que não estava, apenas porque fracassados acomodados na corrupção da Política não tiveram vontade de trabalhar um dia sequer na vida e, se recebessem dinheiro do Estado para trabalho facultativo, ainda sim seriam um câncer, pois recebendo salários altíssimos como os atuais da Política brasileira, nada trabalham e ainda ficam com sede de mais dinheiro pelo caminho da corrupção. Agora que você conhece quem são os vagabundos desse planeta, fortaleça-se junto aos teus semelhantes, junto aos que lutam por ideais dignos e coerentes e fomente o aprendizado, a consciência e a recusa a modelos desnecessários no mundo. Sua inação lhe cobrará um preço caro: a sua própria piora junto com a piora exponencial do coletivo social. Quando você perde, a sociedade toda perde. Somos peças de um quebra-cabeça maior. Se cada indivíduo não estiver conectado ao necessário, nunca se desfrutará da harmonia do quebra-cabeça finalizado.

Há vários meses atrás eu distribuí livros novos gratuitos e, acredite se quiser, alguns supostos leitores de um enorme grupo de leitura, se sentiram incomodados com a prática. Desacostumados eles mesmos com a ideia de doar e dividir, desacreditam nos que fazem isso. Se esquecem que é exatamente entre os que menos tem, que figuram os que mais sabem partilhar. Quem compreende a dureza da miséria ou da injustiça é aquele que provavelmente irá agir contra tais equívocos no mundo. Sempre e toda a vez que eu pude, eu dividi o que eu tinha junto aos que estavam ao meu redor. Não cabe aqui fazer propaganda, porque não fiz mais que a minha obrigação diante dos contextos. Quando tive mais, dividi mais, quando tive menos, dividi menos, mas nunca deixei de dividir. Até mesmo em situações onde passei fome e que nada poderia comprar com 5 ou 10 centavos, optei por doar esse dinheiro a algum mendigo, que sobrevive, justamente, graças a arrecadação fracionada no coletivo. Se tivéssemos uma noção mais clara e menos doentia do mundo, bastaria preferir riqueza ao invés de pobreza e todos nós, poderíamos desfrutar de um mesmo padrão confortável e digno de vida. Não veríamos mendigos, nem bilionários dando declarações esdrúxulas como esta infeliz, herdeira de um império de mineração, que nunca trabalhou na vida pra reter a fortuna que lhe é atribuída hoje e que, mesmo assim, acha que o ideal ao mundo é que qualquer coisa acima de R$ 4 reais por dia é um salário muito caro pra se pagar a um ser humano. Me pergunto, então, se ela viveria o mês com 20 x R$ 4 reais = R$ 80 reais.

Esse tipo de gente acomodada, fraca, doente e mal intencionada só ocupa essas posições distorcidas na sociedade enquanto os próprios membros da sociedade se descuidam do que é importante de conhecer, fomentar e agir. Sei que muitos estão cansados da situação opressiva do mundo, mas se não podem entrar ativamente nessa batalha de combate ao erro, espera-se que, pelo menos, não critiquem nem criem barreiras para os que estão tentando fazer essa luta ocorrer. Cedo ou tarde a idiotice despenca e quanto mais alta estiver, maior será o impacto e mais garantida será a morte.

Rodrigo Meyer

Especial | Pesquisa para novos projetos.

O projeto

O blog chegou em mais de 2.500 visualizações, incluindo diversos países. Atualmente estou cumprindo nele um projeto de mais de 600 temas, dos quais cerca de 250 textos já estão no ar. Por conta do blog ter se tornado relevante pra comunidade do WordPress e pra diversos outros leitores pela internet, decidi fazer uma pesquisa sobre a viabilidade de se expandir e/ou fortalecer o projeto através do apoio pelo Patreon.

Como funciona?

Para quem não conhece, o Patreon é uma plataforma onde inúmeros criadores abrem espaço pra recompensas aos usuários em troca de um apoio mensal. São estabelecidas categorias de valor e de recompensa, permitindo que diversos tipos de pessoas possam apoiar e receber seu benefício proporcional. As pessoas podem escolher apoiar um mês e desistir do próximo apoio a qualquer momento. Não há nenhuma obrigatoriedade.

Formulário do Google

Acesse aqui o formulário de pesquisa do Google para deixar sua opinião sobre essa ideia. As respostas são anônimas e são computadas automaticamente em uma planilha pra que eu possa visualizar quão viável é esta ideia e quais meios são melhores para o público. Conto com sua interação no formulário, que é algo bem rápido de responder e vai me ajudar bastante.

Gratidão,
Rodrigo Meyer

Onde estão as pessoas noturnas?

Sou uma pessoa noturna e fico me perguntando onde estão as outras. Embora eu consiga lidar bem com as atividades diurnas quando elas são necessárias, desde nascença eu fui noturno e essa tendência nunca sumiu. Eu gosto da noite e é o horário que naturalmente me sinto mais disposto e interessado em interagir e trabalhar. Por ser autônomo, muito do meu horário é definido por mim mesmo e, caso eu não precise fazer nada durante o dia, eu simplesmente opto pela noite imediatamente.

Na fase embrionária de diversas mídias que eu estou alavancando, a presença diária pra intervir manualmente em alguns detalhes me fazem ter uma certa rotina diurna, o que, muitas vezes, me tira a liberdade de dormir tarde e acordar tarde. É basicamente isso que faz muita gente que, em teoria, são noturnas, terem um estilo de vida moldado ao padrão diurno, por conta de estudo, trabalho ou socialização. A média das pessoas está mais ativa durante o dia, provavelmente como resultado de uma convenção social global que, desde os primórdios da humanidade, fixou-se no período de maior incidência de luz para gerir as atividades, deixando a noite para o sono e descanso, já que nesse período pouco poderiam fazer no ambiente.

Nas sociedades que se desenvolveram de lá pra cá, estabeleceu-se até mesmo um certo padrão de horário pra se acordar e trabalhar, funcionando como uma faixa de tempo em comum para as pessoas poderem fazer comunicação e trabalho de maneira mais abrangente e efetiva. A padronização dos horários tem muito que ver com um modelo onde tenta-se aproveitar o máximo possível da atenção das pessoas em um bloco só. Porém, nem assim os noturnos sumiram. Muitas pessoas, assim como eu, escolhem o modelo autônomo de trabalho, justamente pra desfrutar da noite. Assim como tem gente ativa de noite pra desfrutar, tem gente trabalhando pra atender essa parcela de pessoas também. Os comércios noturnos ou até alguns ’24 horas’, estão presentes em cidades grandes ou pontos turísticos.

Apesar de tudo parecer o paraíso, a diversidade de opções não é tanta assim. Uma loja de conveniência aqui, um posto de gasolina alí, talvez uma padaria e alguns bares, mas nada muito mais que isso. As casas noturnas, apesar do nome, por vezes, terminam mais cedo do que muitos gostariam, mas elas refletem uma realidade dos próprios frequentadores, que, depois de suas noitadas dançando e bebendo, ainda terão que estar ativos pra estudar e/ou trabalhar no dia seguinte. Soa como se o melhor da vida estivesse no potencial da noite, porém a sociedade e as exigências desse modelo nos priva desse benefício em troca da nossa busca automatizada por trabalho, dinheiro, socialização e até por encaixe em padrões e expectativas alheios.

É verdade que ser noturno destoa o suficiente pra nos vermos descriminados em alguns aspectos. As pessoas olham com maus olhos aqueles que levam suas vidas fora dos horários convencionais. Já chegaram a me perguntar se eu nunca tomo sol e até mesmo a deduzirem que eu sequer trabalhava. Ser noturno nunca me impediu de trabalhar e minha vitamina D está em dia justamente porque tomo sol sempre. Mesmo que eu esteja ativo de noite, o dia tem 24 horas e pelo menos metade dele tem incidência de sol. Ainda que eu não goste de fritar no calor e prefira curtir um ar-condicionado geladinho, eu acabo tendo a grata oportunidade de ver o dia nascer várias e várias vezes, já que eu sigo acordado madrugada a dentro. Além disso, nem sempre é possível levar uma rotina noturna e, então, acabo pegando até os horários de pico de sol.

Ser noturno me abre inúmeras possibilidades, mas também fecha muitas portas. Quando eu mais quero fazer as coisas, as pessoas estão indo dormir ou simplesmente já estão cansadas ou preguiçosas demais pra fazer qualquer coisa significativa. É de noite que eu tenho energia e concentração pra escrever, desenhar, editar foto, gravar um áudio, um vídeo, ler ou cumprir algum projeto de trabalho. Mas e quanto a dividir o tempo com outras pessoas? Onde estão as pessoas noturnas pra podermos conversar, dar umas risadas e compartilhar a presença? Acaba sendo uma condição um tanto quanto solitária. A menos que eu molde as atividades noturnas para os ambientes de bares e casas noturnas, provavelmente não verei gente ao redor.

Aqui por onde moro, felizmente, tenho acesso a uma loja de conveniência onde às vezes gosto de fazer uma pausa nas minhas atividades e ir tomar um café e respirar um ar novo, ver rostos e observar um pouco da realidade. Mas, mesmo assim, não é um ambiente com o qual eu possa e/ou queira dividir tanta interação assim. As pessoas que geralmente se agrupam por estes meios, estão lá em um estilo de vida que não reflete meus interesses. Ficam com o som do carro ligado no último volume dos amplificadores pra chamar a atenção a todo custo, tomando algumas latas de cerveja aguada e quente na tentativa de diversão. Eu, tomo meu café e sigo de volta pro meu ambiente privado.

Na minha casa ou mesmo andando pela cidade ouvindo alguma música ou curtindo o movimento ocasional de carros e luzes, vou arquitetando uma sutil e importante poesia que me mantém um pouco mais satisfeito em estar acordado, apesar de não ter muita reciprocidade com aqueles que gostaria. Cruzar a noite sozinho não é um problema em si, sendo até muito prazeroso, mas tem dias em que queremos contar alguma coisa a alguém, ser ouvido, poder olhar nos olhos ou simplesmente ter uma agradável visita, mesmo que virtualmente. Tem momentos específicos que sinto falta de uma mensagem, uma voz, um movimento no vídeo ou mesmo os mimos presenciais que surgem da interação com pessoas e ambientes, como os perfumes, as texturas, os toques, o passar do tempo, os olhares, o desenrolar das situações de forma um pouco mais imprevista, entre outras coisas.

Não sei onde estão os noturnos e nem sei quantos são. Muitos escolhem a noite por falta de opção, seja pela insônia ou por uma vaga de trabalho. Eu, escolhi a noite por gosto e por inevitável característica de nascença. Me interesso pelo aspecto silencioso da noite, contemplando a lua e as estrelas, sentindo o vento no rosto enquanto olho pra lugar nenhum naquela escuridão que permeia os telhados mal iluminados da cidade. Saturei meu físico e minha disposição por longos anos em casas noturnas, bares, apartamentos de amigos, festas, ensaios musicais, shows e uma coletânea paralela de sonos interrompidos ou mal cumpridos. Mas, também, muitas compensações ao descansar nos dias subsequentes a todas essas agitações.

Acredito, inclusive, que existe uma enorme relação entre a vida noturna acordado e o apreço por dormir. O mundo dos sonhos é aquele mundo onde o irreal é possível e tudo tem um componente intrigante, misterioso, que embora pareça realista, é uma grande fantasia, por assim dizer. Na vida real, acordado durante a noite, sinto que o mundo se torna um lugar fantástico, onde as coisas podem ser mais do que normalmente são. As pessoas se tornam outras pessoas, a cidade tem outra aparência e até os becos mais descuidados ficam recobertos de uma beleza clean pela ausência de detalhes. Onde falta realidade, há espaço de sobra pra imaginarmos o que quisermos e, então, sermos personagens em cenários idealizados. Uma cidade pode se tornar palco para criarmos uma história um pouco mais agradável de se exercer, já que seremos obrigados, até o fim da vida, a sermos protagonistas e diretores desse espetáculo. Que seja algo bom, então.

Quando muitos estão se despedindo, eu estou me apresentando, chegando, tomando um banho, vestindo meu coturno, tomando um café e começando minhas tentativas de fazer sentido no mundo. Às vezes dá certo e posso notar um ou outro noturno perdido na multidão de dorminhocos que levantam a mão pra acenar que estão acordados, sinalizando uma interação em uma postagem na internet ou deixando uma mensagem. Nesses momentos, sinto como se estivesse em uma praia deserta e, de repente, visse alguém acendendo uma lanterna em uma ilha distante. Dá uma sensação de que ainda estou vivo, que ainda sou visto, que ainda existo e que há mais gente na mesma situação. Talvez haja um pouco mais de identificação entre os noturnos, justamente por não serem maioria na sociedade. Mas é preciso lembrar que, mesmo em minoria, o número de noturnos é significativo e seria muito bom se as pessoas tivessem um pouco mais de olhos pra esse nicho de realidade. Várias vezes quis exercer atividades que simplesmente não podia, porque não havia nenhum suporte na cidade que contemplasse esse estilo de vida.

É raro encontrar onde se possa comer de madrugada e, mais raro ainda, achar algum comércio noturno que não seja estritamente de comida e bebida. Se eu quiser comprar roupas, pagar meus boletos, visitar um museu de arte ou assistir um filme no cinema, estou obrigado a escolher horários convencionais ou simplesmente não fazer nada disso. Assim, a vida noturna torna-se um pouco mais difícil por falta de opções. Por outro lado, enquanto pouca coisa acontece, abre-se espaço pra uma experiência mais lúdica e minimalista, com pouco ou nenhum trânsito, quase tudo apagado, pouca gente circulando e, dependendo do lugar e do bom senso das pessoas, um silêncio agradável.

Aqui onde eu moro atualmente, infelizmente, não desfruto dessa paz, já que, sabe-se lá como e porquê, uma trupe sempre ocupa as ruas próximas para berrar, “conversar” e pesar na terra, apesar do horário tardio em um bairro estritamente residencial com grande parte de idosos e enfermos. O que eu faço, então, sempre que posso, é ir pra bem longe daqui e andar pela cidade, pensando em assuntos e contemplando pequenas coisas. Quando não posso, desabafo e tento fugir desse caos desnecessário, com headphones e boa música. Nem sempre é eficiente, porque é difícil competir com os decibéis dos imbecis, mas sigo tentando, pois não tenho opções melhores por enquanto.

Fico me perguntando se melhoraria ou pioraria estar em uma cidade que, embora tivesse mais tranquilidade pros meus ouvidos, fosse tão inativa durante a noite que me deixasse desmotivado em estar lá. Já viajei pra vários lugares incríveis e passei vários dias e noites fotografando e apreciando o lugar, com pouca ou nenhuma interação com as pessoas, sem depender tanto dos comércios, exceto vez ou outra pra comprar comida e bebida. Talvez esse próximo passo para uma vida cada vez mais minimalista possa ser viável, mas exige também um postura diferente das atividades profissionais, pois, onde tem pouca agitação, tem também outro modo de se levar a vida e o trabalho. Adoraria sentar à mesa e desenhar, escrever, ler, conversar ou sair pra fotografar. É uma pena que, pra coisas simples como essa, precisamos de um mínimo de estabilidade financeira pra bancar as contas da casa e a pequena estrutura de um computador e câmera fotográfica. Além disso, se vamos precisar trabalhar pra sustentar esse pequeno contexto, ocuparemos boa parte do nosso tempo fora das atividades idealizadas, a menos que consigamos unir trabalho e prazer em uma atividade só. E é esse plano mirabolante que eu tenho tentado arquitetar noite após noite.

Atualmente, depois de muito conquistar e aprender coisas importantes pro meu crescimento pessoal, ainda há um grande buraco no crescimento financeiro. Sinto falta de estar unido a outros noturnos que possam formar uma rede de apoio em vários sentidos. Idealizar mudanças para uma vida minimalista e noturna, passa, muitas vezes, pela necessidade de conquistar autonomia financeira suficiente pra financiar esse lifestyle de ausência dos horários convencionais de trabalho, ausência dos espaços e modelos convencionais de socialização e também uma visão diferente sobre o que é viável de se exercer com qualidade, eficiência e prazer, como, por exemplo, poder concretizar essa lacuna de ser um escritor ou artista visual. Tentei a Fotografia, por outro viés, por longos 17 anos e foi cansativo. Atualmente tenho investido meu tempo na execução de mídias e conteúdos, o que me dá chance de estar satisfeito e ser útil ao mesmo tempo. Resta esperar que isso seja também viável financeiramente e que eu possa finalmente me tornar um noturno de sucesso. Bom dia pros diurnos e boa noite pros noturnos!

Rodrigo Meyer

Como eu enxergo o Instagram?

Quando esse aplicativo surgiu e se tornou popular também aqui no Brasil, eu não tive o menor interesse em me associar, pois o que eu entendia que era a essência dessa rede social era a cultura estereotipada que se formou rapidamente. Inicialmente (e até hoje ainda é bastante assim), as pessoas passavam o dia postando imagens captadas pelo próprio celular, tentando externar um padrão de vida que soasse superior e interessante. Fotografando os pratos de comida, as viagens ou simplesmente fazendo selfies, a grande parte das pessoas estava afogada nesse lifestyle de superficialidade que era registrar sua rotina desinteressante, tornando ela lapidada o suficiente pra ser uma imagem cativante que pudesse arrancar likes e seguidores. Enquanto a tendência geral era essa, eu simplesmente nem instalei o aplicativo no meu celular, pois não haveria com o que eu contribuir ou absorver valor nesse contexto.

Levou tempo pra eu perceber que, como em tudo o mais na sociedade, era possível tentar permear o espaço, sem aderir ao padrão de cultura estabelecido. Embora fosse óbvio que isso seria possível, ficava o questionamento se valia a pena o esforço de transferir conteúdo e contatos para essa nova plataforma, sendo que já existiam tantos outros meios de comunicação e exposição na internet. Pra mim, o minimalismo sempre foi importante e, a menos que eu realmente precisasse de determinado item, eu passava longe.

Meu celular não gera imagens nítidas e livres de ruído e tão pouco tem espaço pra armazenar tantas fotos. Nunca esteve nas minhas prioridades usar a câmera do celular pra criar fotografias, por isso nunca me interessei em publicar algo no Instagram. Sendo fotógrafo há mais de 17 anos, o Instagram, pra mim, era a antítese máxima da Fotografia. Quando vi a possibilidade de transferir fotografias reais pro celular e poder publicar essas fotos, imaginei que seria algo pelo menos divertido, pra poder encontrar pessoas que apreciavam fotos, outros artistas ou até mesmo ter alguma repercussão nesse meio, a medida em que o uso de smartphones estava crescendo bastante em relação aos computadores de mesa. Tomei fôlego e, bem tardiamente, abri minha conta com o resumo das minhas fotografias nessas quase duas décadas como fotógrafo. Mas, como toda rede social, tem suas regras, premissas e truques. Ganhar alguma visibilidade e interação por lá exigia conhecer uma série de fatores, tal como foi no Facebook, por exemplo. E pra isso, certamente eu não estava tão disposto, pois celular pra mim nunca foi ferramenta de trabalho, embora eu soubesse que muita gente estava se estabelecendo no Instagram pra ampliar seu público, suas mídias e controlar, assim, os rumos da sua carreira.

É evidente que o Instagram cresceu tanto que tornou-se uma plataforma de trabalho tão promissora quanto o próprio Youtube. As pessoas criam perfis e conteúdos com base num lifestyle que atrai seguidores e, portanto, visualizações. Isso gera interesse por parte de anunciantes e patrocinadores que querem ter sua marca ou produto expostos para aqueles seguidores. Nada muito diferente do que ocorre em quase toda mídia. O grande problema do Instagram, pro meu caso em particular, é que, por ele ser uma mídia de consumo rápido e raso, não há conteúdo relevante o suficiente pra que faça valer a pena. As pessoas que estão assistindo a tela do celular em aplicativos como este, estão apenas matando o tempo, vendo algumas fotos que enchem os olhos ou que suscitam alguma atenção. Pra mim, isso é o exemplo mais fiel do que é ser zumbi nos tempos atuais. Se tem uma coisa que eu não tenho estômago pra fazer é arrastar minha vida atrás de uma tela de celular.

As pessoas podem justificar que esse é um tipo de mídia, de entretenimento ou até mesmo um prazer pela curiosidade sanada, mas, ainda continua sendo uma pessoa consumindo seu tempo atrás de uma tela de celular, vendo tão somente fotos de anônimos, subcelebridades ou até mesmo celebridades. A versão eletrônica das revistas de fofoca, porém sem texto, sem contexto, resumido e formatado pra não precisar que o usuário do lado lá raciocine com absolutamente nada. A velha estratégia das mídias de massa do “sente e assista passivamente”. Para não passar a impressão de que é exatamente só isso que ocorre, é dado ao usuário a opção de interagir com alguns likes ou até de deixar um comentário abaixo de alguma foto. É evidente que ninguém em sã consciência vai ler centenas de comentários de seguidores, por mais que, eventualmente, houvessem centenas de pessoas dispostas a comentar em uma foto. Essa conta não bate exatamente porque o Instagram é uma rede social feita pra ser de consumo rápido. Você não está sentado em uma mesa com um computador e recursos extras, mas apenas com uma pequena tela na mão, lhe custando a mobilidade pra outras tarefas e exigindo sua atenção pra uma timeline que te força a olhar pra uma minúscula área, tal como um cabresto. Não é atoa que chovem cenas viralizando na internet de pessoas tropeçando na rua ou batendo a cabeça em postes, por não estarem olhando pra frente enquanto estão mergulhadas na tela do celular.

Isso não transforma outras redes sociais em algo melhor, até porque quase todas elas podem ser acessadas pelo celular também e, majoritariamente, já são. Apesar da minha crítica deixar poucos motivos pra se fazer uso desse aplicativo, eu entendo perfeitamente que ele tem sua serventia, especialmente por conseguir se adaptar a um modelo de vida que muitas pessoas estão tendo atualmente. Em um cenário onde as tecnologias são cada vez mais individuais e até íntimas, é natural que tudo seja desenvolvido para que seja portátil e personalizado a cada indivíduo, afinal isso atrai o público ao mesmo tempo em que é uma grande oportunidade pras empresas poderem chegar exatamente nas pessoas específicas que compõem seu target de consumo de produtos, marcas ou ideias. Mas, entender que isso seja uma realidade, não torna essa realidade automaticamente interessante. Enquanto pra muita gente o Instagram é indispensável, até mesmo por conta desse posicionamento profissional, pra mim, que estou a caminho de completar 36 primaveras, é algo que deixo para a geração anterior, um pouco mais jovem ou aos que estão realmente engajados em extrair dinheiro disso.

Perceba que essa não é uma crítica simplista para as pessoas que usam a plataforma, mas com certeza é algo que não se alinha com o que eu tenho vontade ou disposição de fazer do meu tempo ou vida. Soa como se eu tivesse me transformado em um ranzinza que reclama de tudo. Não há como negar que, enquanto o mundo for raso, qualquer um que tiver apreço por mergulhos profundos, vai ter muita dor de cabeça se tentar saltar nessas águas. Para evitar tal dissabor, eu simplesmente mudo de praia, por assim dizer. Enquanto alguns estão apreciando os 2 dedos de água desse “mar”, eu estou em outros cantos, buscando outras ideias, outro estilo de vida, outros propósitos no meu dia, outros aprendizados, outros conteúdos, outros objetivos pra minha existência. Isso não garante que eu seja alguém melhor que os demais, mas garante que eu seja melhor pra mim mesmo, dentro dos meus próprios anseios. E é só isso que eu estou construindo por aqui, enquanto me expresso e absorvo as expressões ao redor.

O mundo está sempre em transformação. Quando o Facebook começou, as pessoas literalmente desprezavam a rede social e hoje, ironicamente, sentem-se tão dependentes dela que, quando ela falha, vira notícia internacional, as pessoas se desesperam e começam a mover os olhos pra fora da tela do navegador com a terrível sensação de que há um mundo de coisas lá fora que precisa ser pensado, porque grita quando estamos em silêncio. O silêncio é o bem mais precioso e poderoso que o ser humano tem. É por isso que as mídias estão sempre tentando fazer algum barulho e converter sua atenção para eles. É isso que lhes garante visibilidade, fama, poder, dinheiro e perpetuação dos modelos e tradições sociais que, de outra forma, seriam intragáveis.

Estou ciente de que muita gente faz uso do aplicativo e pode se sentir em desprazer de ler que eu não tenho prazer algum pelo Instagram. Isso é comum e reflete apenas que o mundo é diverso e que as pessoas estão engajadas e conectadas com as coisas que fazem algum sentido pra elas em determinado momento e/ou contexto. Assim como está sendo válido pra elas o uso do aplicativo, pra mim também existem coisas das quais considero válido e que, eventualmente, pra alguém será desnecessário, sem valor ou incômodo. Eu não vim ao mundo pra dizer o que você deve ou não gostar e muito menos ser seu guru de realidade que vai apontar o caminho secreto. Cada um de nós recebeu uma vida com características próprias que nos colocam em responsabilidade por nós mesmos, para definir o que fazemos com aquilo que entendemos da realidade. Tudo que eu posso fazer, portanto, é tentar apontar luzes sobre a realidade pra que as pessoas ao redor se apercebam melhor do que antes, talvez, não estivesse tão visível para elas. O que elas decidem fazer após essa percepção é algo que só depende delas e eu não tenho nada com isso, enquanto isso não interferir na minha liberdade.

Exemplo de como as redes sociais estão se saturando pelo modelo comercial e massificado é que o Facebook alterou bruscamente seu modelo de rede social nos últimos tempos, como resposta a uma mudança igualmente brusca de uma grande parcela dos usuários. Muitas e muitas pessoas estão simplesmente abandonando o Facebook em definitivo, deletando suas contas e concentrando-se em um modelo de realidade mais offline, por assim dizer. Na tentativa de ainda ser relevante para a maioria, O Facebook se concentra em recursos populares como a possibilidade de vender produtos dentro da plataforma, inclusive automatizando isso para dentro de grupos.

Em paralelo a essa crise do Facebook, nasceu recentemente uma outra rede social chamada ‘Vero’ que promete exatamente o que muitas pessoas queriam e que não encontraram no Facebook: um modelo orgânico de distribuição dos conteúdos, eliminando qualquer artifício de hankeamento ou filtro, permitindo, assim, que qualquer pessoa tivesse o mesmo potencial de visibilidade que outros usuários. Essa isonomia, interfere bruscamente no modelo econômico da rede social, já que não é um ambiente onde ter mais dinheiro ou seguidores vá interferir no seu posicionamento diante dos demais usuários. Vale lembrar que houve um momento onde o próprio Instagram era algo mais orgânico voltado a amigos e familiares e logo se tornou um espaço de marcas e personalidades. Na última atualização, inclusive, o Instagram (que é de propriedade do Facebook há algum tempo) tornou-se um modelo de timeline que privilegia as pessoas com mais acesso e interação, tirando de vista todos os demais que não parecem grandes o suficiente pra serem úteis para anunciantes e patrocinadores.

Foi pensando nesse problema que a Vevo surgiu para contrariar esse modelo de fazer negócios. Ao invés de depender de usuários ou anunciantes que pagam pra terem maior visibilidade na rede, nasceu com a premissa de ser uma rede social sem anúncios em que toda estrutura é mantida pelo dinheiro de assinaturas anuais dos próprios usuários, dando gratuidade vitalícia para os primeiros 1 milhão de usuários, como forma de agradecer e promover a inserção das pessoas nessa nova tendência. Resta saber se, em uma realidade onde as pessoas mal possuem condições de se distanciar da pobreza e cultivam uma crescente dificuldade de trabalho digno e estável, se vão conseguir se destacar na sociedade, sem o uso da rede social paga, enquanto os que podem pagar por isso, estarão caminhando com certo privilégio. A suposta isonomia da rede social funciona muito bem para os que já estiverem dentro, mas em termos gerais, não tem isonomia alguma para a sociedade em geral, principalmente se levarmos em conta que o serviço de internet de grande parte do mundo é caríssimo e que há famílias que simplesmente nem possuem acesso ou acesso contínuo.

A internet é uma poderosa ferramenta de expressão, comunicação, educação e transformação do ser humano e, sempre que alguém não puder pagar pra desfrutar dessa realidade atual, ficará segregado do seu próprio potencial no mundo moderno. Embora as tecnologias avancem, há sempre alguém que estará por fora delas ou fazendo o pior uso possível das funcionalidades. O potencial na internet para quem tenta vencer, cai substancialmente se essa pessoa não tiver nem mesmo condição de acesso e disputa igualitária com os demais usuários. Além da questão numérica, outra barreira é a qualidade de compreensão e proveito que cada tipo de usuário vai ter dos conteúdos. Por isso é importante que apoiemos sempre iniciativas mais promissoras para o benefício de todos, principalmente dos que não possuem quase nada, ao invés de entregarmos de bandeja nosso potencial de progredirmos na vida. Façam suas escolhas, pois as apostas já foram feitas há muito tempo.

Rodrigo Meyer