Para nos redimir, precisamos ser ouvidos.

Todo ser humano está sujeito a falhas. Às vezes gostaríamos de voltar no tempo pra mudar algumas coisas, como, por exemplo, poder passar mais tempo com certas pessoas, mudar as escolhas de curso, pedir desculpas para alguém ou reaver um trabalho, um cliente, um companheiro de relacionamento, etc. Estes são alguns poucos exemplos da imensidão de possibilidades onde podemos precisar nos redimir em algum momento. Mas, para que possamos nos redimir, as pessoas precisam, necessariamente, nos ouvir.

Muitas das vezes, principalmente se um erro foi grave, a pessoa afetada pode sentir-se tão prejudicada que não deseja nem mesmo mais contato com o autor do dano. É compreensível a situação e faz todo o sentido que uma pessoa se isole de quem lhe causou danos em algum momento. Contudo, pra diversas outras situações, as pessoas parecem agir precipitadamente, tanto quanto aqueles que erraram com ela. É o caso, por exemplo, quando alguém se afasta, antes mesmo de saber os reais motivos de uma determinada ação ou reação de uma pessoa, uma palavra ou uma decisão. Nisso moram muitos problemas.

O modo mais sensato e sadio de se lidar com qualquer situação, seja ela positiva ou negativa, é se colocar a entender a situação, antes mesmo de disferir qualquer emoção ou decisão exacerbada ou definitiva. Coloque-se a ouvir as pessoas sobre o que elas fazem, pensam, são. Entenda os motivos de cada pessoa e entenda, sobretudo, os contextos por trás de cada situação. As pessoas são, normalmente, muito mais complexas do que os estereótipos que as mídias e nossa mente possam retratar em um primeiro momento. Não se pode achar que nossa visão seja sempre suficiente pra entender todas as pessoas, mesmo que você já tenha conhecido centenas de pessoas aparentemente similares ao que você crê que seja a próxima julgada. Por isso, se quiser ser surpreendido e também surpreender, faça o que pouca gente faz: dê ouvidos para quem tenta se redimir.

Lembro de exemplos pra citar que vivenciei na época da faculdade. Tinha uma boa amizade com uma determinada pessoa de um pequeno círculo de convívio. Dividíamos muitas coisas em comum, especialmente o modo de ver a vida, a personalidade, os aspectos culturais e até, talvez, um interesse recíproco. Iniciamos pela amizade e foi isso que desenvolvemos até ali, ao meu ver. Mas, em determinado momento, fui surpreendido por uma situação que, na época, não soube lidar da melhor maneira. Essa pessoa, a quem só tinha coisas boas pra descrever, mostrou-se interessada por um beijo, talvez um relacionamento. Embora eu quisesse, minha primeira reação foi recusar, tamanha era a sinceridade e o modo automático com que eu lidava com aquela amizade. E nisso, moram diversas necessidades de explicações.

Primeiramente, o fato de eu ter recusado um beijo, não significa que não quisesse nada com aquela pessoa. Significou, pra mim, apenas que fui surpreendido por algo além da amizade e que isso me deixou sem a habilidade necessária pra fazer a melhor reação ou dar a melhor resposta. Em segundo lugar, não significa que eu pense que amizades não podem gerar relacionamentos. Na verdade eu penso exatamente o oposto. Pra mim, bons relacionamentos devem vir exatamente de boas amizades, pois se a companheira não for uma boa amiga, esse relacionamento já é pouco valioso e interessante. Meu sonho de vida sempre foi encontrar alguém com quem eu pudesse dividir uma boa amizade a ponto disso se transformar em um relacionamento de casal. Mas, por incrível que pareça, quando isso finalmente ocorreu, eu não lidei da maneira que deveria.

Algumas pessoas, assim como eu neste exemplo dado, podem ter reações estranhas ou improváveis, apesar de suas vontades ou ideais. Naquela situação, por exemplo, tudo que soube fazer pra contornar a surpresa foi dizer que prezava a amizade da pessoa, como justificativa pelo meu recuo. Foi uma situação desconfortável e, infelizmente, claro, a pessoa se sentiu rejeitada e também desconfortável com a situação. Neste momento, o mais sensato seria ter acolhido a pessoa, mas me vi tão sem jeito pela situação que, recuei ainda mais, talvez um pouco envergonhado e sem jeito para lidar com tudo aquilo acontecendo em tão pouco tempo. Por fim, esse episódio acabou gerando um certo distanciamento gradativo até que, com o fim da faculdade e a redução da interação, inclusive pela internet, me vi falho demais para dividir a realidade com diversas pessoas do meu passado e presente. A socialização estava difícil, pois eu estava enfrentando outras questões pessoais na época, inclusive crises de depressão.

Há algum tempo atrás, depois de ter me reerguido um pouco, consegui me por novamente em um cenário pessoal aceitável, onde eu conseguia engolir meus erros do passado e me aceitar, tentando um novo contato com aquela pessoa, pra me explicar ou me redimir. É interessante como podemos nos cobrar tanto, especialmente diante de algo que ocorreu há tanto tempo. Mas essa cobrança é sinal do quanto foi importante aquela situação. Essa é uma pessoa a quem eu tive bastante estima, mas talvez o passar do tempo já não me permita ser ouvido mais. Uma coisa é escrever um texto em um blog e outra, completamente diferente, é conversar ou dividir uma mensagem coerente com alguém, especialmente se estamos em uma situação um pouco confusa e ansiosa ou com a qual não sabemos lidar bem. É como se ainda estivesse, de certa forma, na situação original daquele beijo pedido e não obtido. Esse andar em círculos, falhando com as pessoas, muitas vezes me colocou em desmotivação e também em mais dificuldade de socialização.

Ideal teria sido que eu pudesse ter tido a melhor reação, desde o primeiro episódio. Não ocorreu. Não posso jamais culpar a outra pessoa pelas impressões obtidas, mas, seria interessante conseguir ser ouvido em algum momento depois. Sou consciente do tempo que já percorreu, mas pra que eu possa me redimir de uma situação, eu precisaria ser ouvido para, então, ser compreendido. Tudo bem se isso significar que a pessoa não vá concordar com minhas explicações ou mesmo que não vá receber minhas tentativas de contato. Eu não pretendo insistir, apenas tentar.

Contudo, fica de exemplo pra todas as diversas situações hipotéticas na vida, de como a interação humana pode ser frágil e complexa. Detalhes, falhas e o próprio tempo, transformam algo promissor em algo potencialmente oposto. Em situações desse tipo onde precisamos explicar nossa conduta, justificar nossa pessoa ou até mesmo nos desculpar por uma falha, o principal elemento na equação teria de ser essa postura de troca, onde um se coloca a tentar se comunicar e o outro a tentar ouvir.

Gostaria de ser ouvido quando digo que estou deprimido, quando digo que estou sem trabalho, quando digo que estou perdido. Gostaria de ser ouvido quando me sinto silenciado ou quando estou tão desacreditado, que perdi a visão do paraíso. Nessa vida, já errei inúmeras vezes, sendo a maioria comigo mesmo. Errei quando achava que eu não seria notado pra um relacionamento ou que se algo positivo e recíproco acontecesse, talvez fosse um engano, já que eu vivia pessimista sobre a vida. Muita coisa boa esteve a meu favor em vários setores e momentos da vida, mas eu perdi muitas das portas abertas, por desacreditar em mim mesmo e nas possibilidades da vida. Eu desconfiava imediatamente de qualquer sinal de que as coisas estivessem boas demais pra mim. Como descrito, eu sequer estava preparado pra tais surpresas. E, acredite, eu me surpreendia mesmo.

Mas o tempo não deixa só marcas, ele também ensina. Aliás, os erros são uma poderosa fonte de aprendizado. Todos os reveses da vida nos mostram onde erramos, como erramos, com quem / o que, porque e em qual intensidade. Temos, então, noção de como proceder melhor da próxima vez. Aprendi, inclusive, que estive certo em também recusar a reaproximação de outras pessoas, por conseguir ouvi-las repetidas vezes e perceber que muitas delas não haviam melhorado ou se arrependido de seus erros. Eu sempre fui muito paciente nesse sentido e, por muito tempo, usei, sistematicamente, um método que apelidei de ‘5 estrelas’. Para cada vez que uma pessoa cometesse um deslize importante, eu tirava uma estrela na classificação dela. Enquanto sobrasse 1 estrela intacta, o relacionamento se mantinha, apesar de eu ficar cada vez mais preparado pra lidar com as possibilidades negativas daquela pessoa. Se a pessoa não conseguisse manter nem mesmo a última estrela, essa pessoa estaria cortada da minha convivência em definitivo. Considero isso um bom modo de ser flexível e dar oportunidade pras pessoas se redimirem. Atualmente não faço uso tão sistemático desse método, mas ainda filtro bastante as pessoas, afinal, relacionamentos não podem ser uma chuva de falhas, principalmente se os erros e/ou danos forem muito grandes.

Rodrigo Meyer

Anúncios

Será que desaprendemos a conversar?

Acredite se quiser, havia um tempo em que celular nem mesmo tinha tela. Usávamos pra telefonar e éramos obrigados a falar se quiséssemos nos comunicar. Não significa que isso seja necessariamente o único modelo possível e bom, mas retrata uma época em que, por falta de outras tecnologias, não podíamos abrir mão ainda da socialização. Atender o celular incluía interagir de fato com uma pessoa e não apenas com uma notificação virtual de que um usuário fez ou deixou de fazer algo. E nessa diferença, habita questões pros tempos de hoje.

Eu me recordo dos primórdios da internet no Brasil quando vivíamos atrás de uma conexão discada que só era gratuita depois da meia-noite. Sorte de quem tinha paciência, pois se conectar não era algo automático como ligar o computador e já sair navegando. Aspirávamos por conexões, mesmo que difíceis, pois elas eram a nossa oportunidade de socializarmos com pessoas e conteúdos no conforto de nossas casas, mas com pessoas que não moravam conosco. Trocamos boa parte dos telefonemas por conversas digitadas no ICQ ou no MSN Messenger, mas até mesmo antes disso tudo já conseguíamos um pouco de interação pelas salas de chat dos chamados ‘portais’.

Parecia tudo muito bom. As pessoas, ainda descobrindo as possibilidades dessas mídias todas, se colocavam no mesmo papel de pessoas e não de usuários. Dividíamos conversas como se estivéssemos de fato conhecendo alguém presencialmente. Ainda que muita gente se desviasse um pouco da qualidade, na média ainda íamos bem. Muitas pessoas formaram boas amizades e até relacionamentos amorosos a partir dessas interações. Conversar com alguém online ainda era um mero detalhe, pois certamente as pessoas acabariam se encontrando no mundo real para darem continuidade ao que foi começado. Bons tempos onde tecnologia ainda não era sinônimo de ruína social.

É triste termos que admitir, mas saímos dos trilhos e nosso trem tombou com carga e tudo e não temos a menor ideia de onde vamos. Estamos parados no meio do caminho, olhando o trem virado, mudos, olhando um pro outro, sem nada fazer. Estamos esperando um milagre que nos reconecte com a estrada, pois desaprendemos a andar sem trem, mas também não temos mais um trem que ande. Ficamos paralisados, quase como se estivéssemos em estado de choque.

Atualmente, com smartphone nas mãos, redes sociais e aplicativos intermediando tudo e todos, nem sabemos ao certo quem é que está do outro lado de uma foto de avatar, um nome ou conteúdo qualquer. Tudo nos vem já representado, mastigado, moldado, dobrado, adaptado pra servir como comunicação massiva, mas que de comunicação mesmo tem pouco. Conseguimos instantaneamente enviar mensagens para uma pessoa do outro lado do mundo, apenas clicando em alguns filtros de interesse. E esse é o lado bom da história toda, pois a coisa só fica triste quando essa comunicação de fato “começa”. É um começo com cara de fim e muitas vezes sem meio. Somos colocados pra interagir e agimos como se as pessoas fossem botões, ícones, nomes e avatares. Parece até mesmo que nós somos robôs tentando dar conta de linhas de comandos encontradas pelo caminho.

Por Facebook, Skype, Whatsapp ou um desses aplicativos de relacionamento, tentamos conhecer pessoas, mas chegamos à elas somente depois de algumas fotos e uma tabela com suas informações resumidas. Muita gente anda substituindo o “Oi” por simplesmente um clique no botão de “add”. Pra muita gente é suficiente que os sites ou aplicativos se encarreguem de informar que alguém lhes adicionou. E fazem absolutamente nada com essa informação, pois tornou-se apenas uma mera burocracia do ato de conectar-se virtualmente à usuários (já não vistos mais como pessoas reais). Imagine-se em um ambiente real onde você pressiona um botão para entrar em um comércio e ao invés de ser recebido por alguém, apenas é informado de que você agora está dentro do comércio. É claro que isso parece inútil e burocrático pois já descartamos a associação entre a conexão virtual com a conexão à uma pessoa real.

Mudamos drasticamente o modo como socializamos pela internet e, por isso mesmo, estamos perdendo nossa habilidade na socialização presencial também, afinal passamos tanto tempo nos computadores e longe das pessoas que temos dificuldades de conviver fora deste mundo individualista em que ficamos atrás de uma tela de celular ou computador, trancados em um quarto ou em um ambiente imaginário que se limita ao campo de visão diante do eletrônico, mesmo que estejamos em uma enorme sala, restaurante ou no meio da rua. Nos teletransportamos pra dentro do mundo virtual, tal qual os personagens do filme ‘Matrix’, onde a realidade já se confunde com o virtual (podendo ser até mesmo a mesma coisa), mostrando que tudo é mental e, portanto, relativo.

Passamos incontáveis momentos sem saber lidar com esses inícios de conversa. Os espaços de digitação de mensagens não estão mais presos à estrutura ou ritmo algum. Você diz algo hoje e semana que vem, quando você nem mais lembrava que havia escrito algo, alguém surge, lê (ou não) e inicia outra mensagem nova, desvinculada ao que foi escrito originalmente. Vivemos na base de links, emoticons, indicações, botões, lembretes virtuais, resenhas padronizadas, álbuns de fotos com legendas que nada dizem, mas oferecem links pra outras coisas que, por vezes, nada dizem também.

Claro que, por vezes, tudo isso nos economiza tempo. É verdade que é cansativo ter que nos apresentarmos tantas vezes, especialmente quando nosso tempo já foi totalmente roubado pela nossa procrastinação regada à atualizações de tela e navegações aleatórias em busca de postagens quaisquer que surjam automaticamente pela nossa frente. Acostumados a viver com o que nos entregam, já não buscamos mais nada. Sentamos e absorvemos passivamente. Perdemos muito das aspirações pessoais pelas questões da vida e até mesmo pelo mistério por trás de cada pessoa. Perguntas incomuns travam a maioria das pessoas nesse jogo moderno de botões de “Ok” e “Cancelar”. Qualquer coisa mais complexa que exija mais do que respostas afirmativas ou negativas já inquietam as pessoas e nos faz parecer uma grande perda de tempo pra essas pessoas que já se sentem sem muito tempo.

Isso me faz lembrar do relojoeiro dos contos de Alice no País das Maravilhas, sempre com pressa, correndo contra o tempo, sem poder parar pra qualquer explicação ou conversa. Estamos em tempos de aprisionamento a um modelo de vida que exige que sejamos tão rápidos quanto os computadores podem ser. E como isso não é possível, acabamos equivocados, reduzindo nosso tempo de sono, nosso horário de refeição e também nossas conversas, nossos momentos mais humanos e profundos. Parecemos com os extintos ascensoristas atendendo pessoas com base nos andares em que elas solicitam parar. Nos tornamos inúteis e superficiais pois queremos atender a demanda imaginária de 7 Bilhões de pessoas no planeta, mas sem entregar nada de relevante pra nenhuma delas, afinal o tempo é curto, fracionado e mal utilizado.

O desafio deixado hoje é que você consiga reverter seu estilo de vida, nem que seja começando por rever o ritmo de suas atividades. Você terá que repensar porque é que aquele seu projeto que normalmente levaria semanas, você quer muito terminar em 2 horas de um único dia. Pra quem é que você estaria realizando? O que é que está em jogo? A qualidade do projeto é menos importante que ter ele disponível o quanto antes na terra da visibilidade virtual?

Atender a demanda do Facebook e se moldar ao ritmo imaginário é o que está fazendo tudo ser mais pobre, menos útil e menos prazeroso, tanto pra quem cria quanto pra quem absorve essas criações. J.R.R. Tolkien, autor de ‘Senhor dos Anéis’, escreveu de forma intensa e completa sobre todo o universo por trás daqueles momentos. Chegou a criar o próprio idioma, além de inúmeros outros detalhes que fazem de sua obra algo completamente único, diferente da maioria dos conteúdos rasos da modernidade que muitas vezes não possuem sequer um propósito.

Temos que conversar, temos que olhar nos olhos, tocar, sentir, cheirar, viver. Temos que sentar ao lado das pessoas e rir, contar histórias, contar memórias, ter memórias para contar. Precisamos, intensamente, aspirar por momentos reais, ao lado de pessoas reais. Precisamos entender que não somos máquinas, nem linhas de programação, mas que temos consciência, tato, olfato, visão, paladar, audição e inúmeras outras capacidades sensoriais. Não espere que as pessoas sejam todas descartáveis, senão acabará igualmente descartado por elas. O sistema de sociedade e cultura que incentivamos entre as pessoas acaba prevalecendo e incluindo todos nós. Se não quisermos viver um mundo distante, frio, automatizado, feito às pressas e mal feito, precisamos nos desconectar de uma lista de ilusões que acreditamos fazer parte da modernidade.

Tempos modernos não excluem o ser humano da equação. Você pode fazer uso de tudo que a tecnologia proporciona, desde que coloque o bem-estar do ser humano como prioridade em tudo. De que serve poder conversar à distância por um eletrônico, se o conteúdo é fraco ou nulo? Qual é o ganho real? De que serve termos câmeras com ótima qualidade de imagem, se já não criamos comunicação pela Fotografia? De que serve estarmos conectados com milhares de pessoas, se não lembramos o nome de quase nenhuma? De que serve termos um Home Office, se na prática, não temos o esperado conforto de trabalhar em casa? Que qualidade de tempo temos? Que qualidade de conteúdo oferecemos? Que verdade há por trás de interações tão secas e virtualizadas? Quão feliz estamos vivendo essas regras que nós mesmos inventamos? Pra onde vamos? Porque vamos? Quem somos? O que queremos? O quanto podemos? E pra responder a tudo isso? Será que sabemos?

Rodrigo Meyer

Porque as pessoas desejam sempre as mesmas coisas?

Em um mundo onde a maioria das sociedades são formadas por modelos de excessivo consumismo, é fácil ver que boa parte desses momentos de desejo de compra são puramente artificiais e se mostram como um claro reflexo da propaganda mal intencionada que é veiculada não só pelas mídias mas pela própria sociedade. Da mesma maneira que as marcas vendem-se como necessárias ou importantes pra vida das pessoas, algumas pessoas, tomadas por essa crença, espalham esse modelo de vida cobrando e pressionando outras pessoas a se adequarem nesses moldes doentes.

Havia um tempo em que os presentes de datas comemorativas eram embrulhados em papel de presente ou nem mesmo eram embrulhados. Hoje em dia os presentes são abertamente dados com as sacolas e embalagens das lojas, com suas marcas estampadas de forma bem visível, afinal é isso que estão doando na verdade. Antigamente, os produtos em si eram o presente, mas hoje, o status de marcas e lojas fazem as vezes de “produto” a ser consumido.

Sempre tínhamos a visão de que certas marcas eram pra público mais abastado financeiramente e que outras marcas eram deixadas como uma opção barata de produtos iguais ou similares. Em todo tipo de produtos ou serviços as pessoas sentem essa depreciação de valor e qualidade (ou de suposta qualidade). E com isso, gera uma certa vontade de compensar o prejuízo social tentando adquirir um desses produtos mais caros. É assim que surgem pessoas dispostas a loucuras como gastar todo o salário de um mês na compra de um único produto, apenas pra ostentar o uso daquela marca. Outros, um pouco menos ousados, buscam as imitações / falsificações que cabem melhor no bolso, mas que falham em outros fatores, tanto do ponto de vista da legalidade quanto da própria qualidade. E, convenhamos, ostentar uma marca da qual você não pode sequer comprar o original devido ao preço caro, é o mesmo que divulgar seu próprio explorador.

Diversas pessoas trabalham em empresas das quais jamais poderiam comprar o produto que elas mesmas fabricam. Empresas de produtos esportivos figuram em crimes de trabalho infantil e exploração de mão-de-obra em contextos de trabalho escravo, sendo o extremo da ironia por produtos tão caros, onde nem a matéria prima é cara e nem a mão-de-obra é dignamente paga.

E porque será que apesar de tanto contexto ruim nessas empresas e produtos, as pessoas continuam desejando sempre ter as mesmas coisas? Uma busca por igualdade através do produto ao invés da equiparação das rendas? Busca por igual status e suposto privilégio social ao invés de buscar real respeito e valorização no meio? Será que ter uma roupa de marca, comer no fast-food da moda, morar na região nobre da cidade ou comprar o carro do momento transforma alguém em algo melhor?

As pessoas não se perguntam muito isso, afinal se o fizessem teriam que admitir que nada disso é feito para elas, mas apenas pra mostrar pra sociedade que elas venceram. Traumas e complexos as fazem devolver exageros na postura e no consumo, pra cobrir a diferença entre não ter tido condições no passado para as possibilidades financeiras do presente. Alguns, cientes de que não poderão sequer chegar nesse ganho financeiro, compram as falsificações no camelô apenas pra desfrutar entre os amigos de igual situação social um “sub-status” dentro desse grupo social em particular.

Se resolvermos nossas fraquezas psicológicas, superarmos o passado e revermos o valor real das coisas, entenderemos que pra sermos mais prósperos não precisamos nos render a status ou marcas de renome. Não precisamos fazer o que a maioria faz e nem precisamos pensar como a maioria pensa. Qualquer ganho social, seja do ponto de vista financeiro ou de outros tipos, não precisam vir acompanhados dos mesmos vícios que todos os demais tiveram ao cruzar com aquelas realidades.

Você pode achar uma roupa bonita, dentro do seu estilo, sem que tenha que se render à formatos predefinidos do que é bonito e bom pra uma roupa, conforme as regras que plantaram em sua mente apenas pra explorar seu bolso. Em tempos de internet onde podemos acessar conteúdos de empresas tão distintas entre si, temos duas situações principais: por um lado colidimos entre nossas realidades e realidades opostas, mas o lado bom disso é que podemos, contudo, ter opções e reafirmarmos a possibilidade de substituir certas coisas por outras. O conhecimento é poder em muitos sentidos.

Esse desejo que muitas pessoas mal sabem de onde vem e que alguns até acreditam que são desejos legítimos e demandas reais por produtos e marcas, é, na verdade, uma grande indústria de trabalho psicológico explorando nichos e grupos cada vez mais específicos de pessoas, massificando de forma geral o consumo, levando cada pessoa a achar que precisa de uma ou outra coisa, conforme o que ela pode ter e, contudo, a desejar também o que não pode ter, pra que isso se torne, então, muito mais valorizado perante os que podem comprar, pois nasce, então, uma competição de que, se o pobre deseja e não pode ter, é papel de quem tem dinheiro pra tal, comprar pra demonstrar poder e oprimir, consciente ou inconscientemente, os que estão abaixo.

Talvez as pessoas nunca tenham se dado conta, mas existe essa batalha constante entre ter e não ter. As pessoas que conseguem adquirir um produto, serviço, cargo ou posição social de qualquer tipo, sentem-se com uma ferramenta de poder nas mãos capaz de diferenciá-los dos demais sem que eles precisem fazer nada de especial ou útil. São diferenciados apenas por poder destacar a diferença na posse, de forma opressiva, ostentando e mostrando ao mundo que poucos podem ter e a maioria não pode. É o estilo de vida das vitrines de shopping da classe média e alta em que não se aceita bem a entrada de pobres, especialmente os negros, pra figurarem ao lado de seus maiores opositores.

Os oprimidos deveriam, portanto, pensar que manter desejos e consumos por essa massa de desprazer que se fantasiam de empresas, produtos e clientes, é altamente danoso pra si mesmo. Em resumo, é Síndrome de Estocolmo, quando o oprimido sente-se admirado ou apaixonado pelo seu próprio opressor, passando a defendê-lo. Isso alimenta um contexto social onde empresas pouco éticas e quase sempre ilícitas e desnecessárias, lucram bilhões às custas dos pontos fracos (especialmente os psicológicos) das sociedades em que elas exploram.

Você tem, contudo, o poder de diminuir ou até eliminar isso de nosso meio, bastando que se oponha na prática. Cesse o consumo, o apoio, a propaganda gratuita estampada nos produtos que usa, a gana de querer igualar-se à outros por questões equivocadas como status e padrão social. A liberdade que você gostaria de ter e não tem, às vezes é conseguida por uma mudança de postura como essa. Talvez você não venha a enriquecer, mas independente disso, você não precisa apoiar quem lucra às custas de opressões de classes. Lembre-se que, embora grande parte dos consumidores de marcas caras sejam pessoas ricas, quem produz muito daquilo são pessoas em situações pouco dignas ou indignas e às vezes até ilícitas, em trabalho escravo e/ou infantil.

Você se sentiria confortável de gastar mais de R$ 500,00 num produto em que apenas 1 centavo é destinado a pessoa que fabricou tal produto? Talvez fique ainda pior se te contar que pra ela ganhar este único centavo por produto, ela precisasse passar horas enfurnada numa sala sem iluminação, sentada ao chão, sem condições de higiene ou segurança de trabalho, sem alimentação adequada, sem perspectivas de vida, sem outras escolhas. Tudo se agrava quando esse “funcionário” é uma criança de 7, 10 ou no máximo 14 anos, que nunca teve oportunidade de desfrutar a infância, dividir seu tempo com a família ou mesmo de poder planejar saídas pra sua própria situação. Em casos assim, a escolha da empresa em aceitar tais contextos é que determina o que existirá ou não em termos de modelos de trabalho.

Se nos enxergamos como inaptos pra certos produtos e serviços, fica fácil entender que, por vezes, quem os fabrica ou serve também não possuem condições de comprá-los. Pode haver sistema mais injusto e doente que este? Portanto não há motivos sadios pra se apoiar isso. Se eventualmente se sentir em situação de fraquejo diante dessas questões, busque repensar um pouco seus valores e suas reais necessidades na vida. Avalie se o que está fazendo em seus hábitos de consumo não são apenas uma tentativa falha de compensar complexos e traumas do passado. Sempre que achar necessário, busque ajuda de pessoas mais esclarecidas sobre o assunto, bons amigos que possam ser parâmetro e incentivo pra condutas melhores ou até mesmo de psicólogos e terapeutas que possam te ajudar a superar suas questões internas, pra que você realmente progrida socialmente e pessoalmente, ao invés de se enroscar em situações ilusórias sobre qualidade de vida. Tristes são as sociedades que confundem qualidade de vida com poder de consumo e que confundem consumo com consumismo e futilidade.

Rodrigo Meyer

Porque as profissões da área de criação se tornaram moda?

2017_mes04_dia09_profissoes_da_area_de_criacao_se_tornaram_moda

Eu sempre fui conectado com as áreas de criação. Dos desenhos e pinturas da infância, os poemas, a literatura, caligrafia, comunicação visual, pintura à óleo e posteriormente a Fotografia e a Comunicação Social profissionalmente, incluindo a parte da publicidade, redação publicitária, design, ilustração, diagramação e diversas outras áreas associadas. Em razão disso eu sempre estive acompanhando os nichos de trabalho, o mercado e as pessoas envolvidas com essas temáticas. E é dessa experiência de uma vida toda que eu pude perceber fases e tendências entre as profissões de criação e as demais.

Por ser fotógrafo há mais de 15 anos, acabei em contato com muita gente da área artística. Conheci gente do teatro, da música, da dança, tatuadores, pintores, desenhistas, maquiadores, modelos e, claro, outros tantos fotógrafos. Com a Comunicação Social, cruzamos com jornalistas, publicitários e outros que seguiram, inclusive, várias dessas mesmas áreas ao mesmo tempo, afinal em tempos de internet, profissão única já é incomum.

Estamos vivenciando há alguns anos um boom da área de criação. E isso não é necessariamente positivo, porque nem todo mundo que está se associando à essa onda, está de fato se capacitando pra se tornar profissional nas atividades que escolhe. E quando falo em se capacitar, não precisa ser sentado na cadeira de uma universidade ou gastando todo o dinheiro do mundo pra aprender uma profissão. Estou simplesmente falando em ir atrás de aprender, seja como for e com quem for, desde que aprenda de fato. E estou acompanhando uma defasagem triste nesse sentido.

Existe um glamour por trás das áreas de criação e isso é culpa de vícios de exposição e pensamentos mal estruturados em nossa sociedade ao longo de várias e várias décadas. Sempre tratamos os profissionais da área de criação como se estivessem à margem da sociedade e que seus trabalhos nunca fossem trabalho de fato. Para grande parte da sociedade, ser um pintor, por exemplo, é tido como exemplo de quem optou por não trabalhar e se encostou em uma atividade divertida como fosse um passatempo. Publicitários são vistos até hoje como aqueles que sentam num sofá e relaxam pra rir e começar a rabiscar ideias criativas. Ainda traçam a visão de que todas as áreas de criação existem por acaso, pois seriam apenas mera diversão. Quem enxerga essas profissões assim, está perdido em ignorância e imaturidade.

Como consequência desse senso comum da sociedade, é gerada uma atração que aproxima à essas áreas muitas pessoas que de fato não querem trabalhar com seriedade. O sujeito que não valoriza o desenho como profissão pensa que se ele não tiver muito interesse em trabalho, ele pode rabiscar umas folhas e essa pode ser sua divertida atividade pra vida. Tem sido assim com a Fotografia (vista como a arte de apertar botão), o Design Gráfico (visto como a arte de brincar no Illustrator Photoshop), a Comunicação em Geral (que pra muitos se resume em postar no Facebook), Modelagem 3D (que alguns acreditam ser simplesmente um efeito de Photoshop pra dar volume à textos), produção de vídeos (visto como apertar botão REC e fazer upload no Youtube) e também na escrita de blogues, livros e outros formatos (onde muitos acreditam que basta copiar e colar uma frase que encontraram em algum lugar da internet e o resto será sucesso garantido).

Mas depois que nosso estômago sossega e para de ficar embrulhado com essa realidade triste, a gente volta a cabeça ao centro e tenta entender esse fenômeno. É claro que se você disser que existem pessoas trabalhando com mera diversão ou com ‘não-trabalho’, muita gente vai crescer os olhos pra cima disso, afinal nossa sociedade, infelizmente, formou muita gente pra perder interesse por trabalho e estudo. Criamos pessoas que se acostumaram a pensar que trabalho sério é sinônimo de escravidão e chatice e que estudos são perda de tempo com a mesma chatice já anunciada.

Essas pessoas nunca foram instigadas a pensar que ter uma profissão não é algo que deveria vir apenas da necessidade forçada de se pagar as contas. Elas nunca viram ao redor as pessoas trabalhando felizes com aquilo que gostavam de fazer. Elas nunca viram alunos no meio escolar se interessando por aquelas aulas que a maioria não estava sequer preparada pra receber. Para muitas das pessoas, em várias partes do mundo e em especial no Brasil, estudo e trabalho são palavras que criam repulsa, desconforto, tédio e insatisfação do começo ao fim. E é assim que ‘memes’ e piadas sobre a chegada da sexta-feira tomam a internet desde sempre. As pessoas comemoram o dia em que finalmente largam o trabalho ou a escola e se jogam no fim-de-semana livres pra fazer algo prazeroso.

Eu nunca tive sequer a noção de que sexta-feira fosse o dia de encerramento da semana de trabalho, até porque na área de criação trabalha-se principalmente nos finais de semana. Enquanto você está dançando e bebendo numa casa noturna, um fotógrafo está lá trabalhando, inclusive em horários incomuns pra maioria dos trabalhos formais. Enquanto você estava curtindo um evento de rua como a Parada Gay, um fotógrafo ou cinegrafista estava lá pra trabalhar. Enquanto alguns estão descansando, outros estão madrugando, escrevendo o texto que precisa chegar antes de todo mundo acordar. Jornalistas, blogueiros, criadores de conteúdo  e social media, publicitários e comunicadores em todas as vertentes, estão sempre ali planejando o que só virá à tona somente depois de pronto.

Infelizmente, as pessoas tendem a simplificar a análise do que elas veem pela frente, acreditando que o trabalho desses profissionais criativos se resume somente ao trabalho final, como o desenho sobre a mesa, a foto clicada, ou o livro na prateleira da livraria. Em outras profissões, feitas às claras, é mais difícil de ignorar o extenso trabalho que está associado a elas. Quando vemos o pizzaiolo, literalmente, com a mão na massa, vemos o trabalho dele quase que por inteiro. Quando vemos um motoboy na rua, vemos o trabalho (e o risco do trabalho) que ele desenvolve. Também é fácil observar o trabalho de um gari, carteiro, pedreiro, repositor de estoque, motorista de ônibus, eletricista, mecânico e outros.

Isso ocorre, claro, porque são profissões em que o trabalho é desempenhado abertamente à nossa frente. Por outro lado, o trabalho das profissões criativas geralmente não é visto, porque as pessoas em geral (mesmo os clientes) não tomam contato com o momento da criação. Você consegue ver o padeiro segurando a massa e levando ela ao forno, mas não consegue ver o que está por trás do clique de um fotógrafo. Você não nota a regulagem do diafragma, velocidade, ISO, distância focal, enquadramento, fotometria, foco, ângulo, entre dezenas de outras questões.

Isso talvez explique o encantamento que muita gente tem com médicos, por exemplo. Essas pessoas não veem o que está por trás do ato de costurar um corpo em uma cirurgia. Parece simples como um bordado e, apesar disso, salva vidas. Peça pra uma costureira trabalhar como médica e morreremos todos assim que as doses de medicação estiverem fora do necessário pro contexto. Da mesma forma um médico que se atreva a costurar roupas, vai desempenhar um trabalho insuficiente pras necessidades daquela atividade. Não conhecemos o que cada profissional faz, à menos que estejamos em contato com essas atividades. E se não forem atividades abertas como a de um motorista ou mecânico, você terá que se dedicar um pouco mais pra descobrir o que está por trás dessas profissões.

Imagine como deve ter soado como mágica quando cientistas da antiguidade dominaram a química e podia, por exemplo, colocar um líquido junto à outro e ter mudanças de cor ou uma erupção de espuma. Se não fosse o extenso estudo sobre o que cada substância faz, porque faz e como faz, não teríamos a valorização do profissional de química. Não vemos os átomos e elementos a olho nu e muito menos podemos visualizar a relação quase que abstrata entre eles. Só nos resta, então, a compreensão do que está por trás do efeito visual final. Isso requer estudo, requer flexibilidade mental e social pra aceitar que é o cientista ou o profissional de cada específica área que sabe o que se passa por trás de toda aquela realidade.

As áreas de criação se tornaram moda justamente quando a tecnologia nos deu a facilidade de fazer certas imitações sem ter o conhecimento real. Podemos simplesmente apertar o botão de gravar do celular e já temos um vídeo. Se quisermos uma fotografia, podemos apertar o botão e até mesmo corrigir vários estragos pelo Photoshop. Temos acesso à programas gráficos, imagens para montagem e todo tipo de recurso de software que nos permite imitar atividades. E com as redes sociais, podemos, inclusive dividir espaço lado a lado com os profissionais e ter a visibilidade do público. Isso nos dá a ilusão de que estamos de fato dentro dessas áreas, profissionalmente.

A internet deu visibilidade extrema pra todo tipo de atividade criativa, quando as pessoas já tinham uma visão deturpada sobre qual era o trabalho dessas áreas e então ficou acentuado quando, por exemplo, criar “marcas”, fanpages, fotografias, textos ou vídeos se tornou a “necessidade” do momento. Acreditam que se todos estão fazendo e todos estão vendo, talvez seja esse o caminho fácil e prazeroso pra se ter trabalho nos tempos modernos da internet. Se esquecem, porém, que antes da internet já existia a Publicidade, a Fotografia, a Literatura, o Design, a Ilustração, o Cinema, etc. E a existência da internet e das tecnologias digitais não elimina, de forma nenhuma, a necessidade de ser profissional para se desempenhar qualquer uma dessas profissões.

Criar é tudo de bom, com certeza. Todo ser humano tem, em algum grau, o impulso de criação, seja em uma ou mais áreas. Todos nós deveríamos estar envolvidos, de alguma forma, com a produção de algo nesse sentido. Mas precisamos, antes, aprender a realidade por trás de cada área de estudo e entender que, assim como dirigir carros não é meramente girar volante pela cidade, as áreas de criação também não são aquela fantasia infantil que a sociedade teve prazer em sustentar e espalhar por tanto tempo no inconsciente coletivo. O problema nunca esteve na popularidade dessas profissões ou mesmo nas atividades em si. O único problema é a colisão catastrófica entre o encantamento por essas atividades criativas e o desconhecimento sobre o que realmente essas atividades são. Quando uma profissão séria e complexa colide com a imaturidade de quem a busca, os resultados são sempre ilusórios e danosos.

Ficarei imensamente feliz de ver novos profissionais chegando na sociedade em todas as áreas, mas terão que entender e se adequar ao necessário pra cada área se quiserem ser respeitados e valorizados como profissionais ou entusiastas no meio. Desde sempre tento ensinar Fotografia pra mais gente, pois meu grande sonho era ver novos fotógrafos surgindo e levando esse estilo de comunicação adiante. Mas, infelizmente, tem sido uma batalha árdua tentar agradar com Fotografia uma massa de gente que vem em busca apenas de aprender a apertar botão. Quando as pessoas descobrem que Fotografia não é, nem de longe, nada parecido com apertar botão, elas correm loucamente pra longe da área, afinal é como quebrar aquela ilusão doce de que áreas criativas são só entretenimento próprio, muita descontração, nenhum estudo ou trabalho e bastante glamour e moleza. Quando elas são obrigadas a ver a realidade por trás da ilusão, encerra a vontade por aquilo, afinal a vontade não era por Fotografia, mas apenas por apertar botão.

Se me dissessem que dormir e comer pudessem ser as únicas atividades “profissionais” da minha vida, certamente eu ficaria encantado também. E, se parar pra pensar, já tem gente encontrando respaldo nessa possibilidade quando sabem que certos programas de televisão pagam prêmios pra encarcerados fazerem basicamente isso enquanto são filmados em tempo integral para entretenimento de massas idiotizadas que, por essas mesmas razões, acabam se encantando com o mundo fantástico da televisão, do não-trabalho, do glamour de não se fazer nada de sério e assim por diante.

É preciso quebrar esse estigma alucinado que grandes mídias propositalmente plantaram na mente das massas e começarmos a buscar, na raiz, a trilha pro nosso novo aprendizado. Precisamos discutir como vamos repensar as escolas, os modelos de reunião familiar, os conteúdos da internet, das rodas de amigos, as conversas de bar, os novos modelos de mídias e de trabalhos. Precisamos ‘reaprender a aprender’. Estamos tão acostumados com falsas definições de termos como ‘escola’, ‘educação’, ‘família’, ‘sociedade’, ‘trabalho’, ‘diversão’, ‘oportunidades’, que temos dificuldade gigantesca em ver qualquer coisa que venha com a definição original / real.

Antes de ensinarmos uma profissão pra alguém, precisamos ensinar tudo que vem antes do entendimento do que é uma profissão de fato. As pessoas só poderão escolher qual profissão querem estudar e seguir se souberem, antes, a realidade por trás dessas atividades. Você não pode ensinar Cinema pra aprendizes que estão buscando essa área de estudo na esperança de apertar o botão REC e mais nada. Se isso estiver nesse nível de entendimento, precisamos emergencialmente reeducar essas pessoas para outras questões anteriores a escolha de profissões e atividades pra vida, senão veremos as pessoas batendo recordes de evasão escolar e forjando profissões das quais nunca entenderam ou estudaram.

Já vemos muito disso, quando alguém compra uma câmera fotográfica e no dia seguinte já se anuncia como fotógrafo pelas redes sociais. Pior do que nada saber sobre a área é cobrar por ela e reforçar a ideia para o público (através dos clientes) de que de fato Fotografia não tem valor, pois basta comprar uma câmera e apertar botão. E, sem perceber, essas pessoas dão dois tiros. Um tiro vai no próprio pé, ao anunciar pra todo o planeta que sua profissão não tem valor nenhum e o outro tiro vai em todos os verdadeiros fotógrafos que, embora façam um trabalho real, são misturados aos não-profissionais e igualmente ignorados e desvalorizados pela visão do público que agora enxerga esse despreparo como sinônimo da área de criação.

Embora seja verdade que ainda restem pessoa que sabem o que os profissionais de criação fazem, é também verdade que essa quantidade é cada vez menor, pois a divulgação contrária é constante e cada vez maior. Cada vez que uma pessoa aprende de verdade uma profissão criativa, outras milhares estão chegando no “mercado” sem ter estudado absolutamente nada e deixando pra sociedade a noção equivocada de como são essas áreas. Como dizem, ‘uma mentira dita mil vezes, torna-se verdade.” e é exatamente esse o triste momento que estamos enfrentando. Profissionais de criação estão desacreditados desde longa data, pois nossa sociedade cresceu alimentando mentiras grotescas acerca dessas áreas e, agora que temos exposição absurda na internet, é praticamente impossível controlar a epidemia que espalha a mentira pra todo canto do planeta, 24 horas por dia.

E o que podemos fazer pra reverter esse estrago? Precisamos, cirurgicamente, pinçar aprendizes pra vida e guiá-los em alguma profissão concreta. Precisamos segurar nas mãos de alguém do começo ao fim e lhes dizer com prioridade sobre tudo o mais que se precisa absorver antes das profissões e somente no futuro, eventualmente, ensinar-lhes a profissão em si. Trabalho de dedicação full time que toma tempo, dinheiro e suor, mas que é a única opção que temos. A palavra ‘aprendiz’ já não pode ser mais sobre um ofício em particular, mas deve, sobretudo, ser sobre todo o entendimento da realidade que nos cerca.

Eu me contorço de orgulho em ver profissionais de outras áreas levando transformações pelo interior das pessoas, pois é essa a ordem correta no longo caminho de aprimoramento social. Você não consegue polir uma estátua antes de lapidá-la, assim como não consegue nem lapidar, se não tiver um bloco bem firme de rocha, extraído da forma certa, do material certo e no local certo. A construção do ser humano apto a desfrutar do potencial de qualquer sociedade passa pela transformação profunda do próprio ser em todas os aspectos. Precisamos falar em muitos outros textos e momentos, com muitas outras mídias e formas de ação, sobre as importâncias maiores da vida humana, antes de pintarmos as fachadas desses templos com questões menores e posteriores como atividades e profissões.

Rodrigo Meyer

Habilidades defasadas e o atraso cultural.

2017_mes03_dia21_14h00_habilidades_defasadas_e_o_atraso_cultural

Antes da internet, a cultura mundial podia demorar muito anos antes de permear outro país. Depois da internet sofremos um abalo por essa desigualdade. Enquanto um lado do mundo estava vivendo um atraso cultural, outros estavam usando a internet até mesmo para darem o próximo salto de inovação. E deram. Talvez isso explique porque o brasileiro foi a maior concentração de público nas redes sociais como o extinto Orkut e, depois, o ainda presente Facebook. Parecia uma busca por algo mágico, tão novo que não podiam acreditar. E correram abraçar.

Tentando suprir cada nova defasagem que descobria, o brasileiro começou a seguir as “exigências” citadas nas vagas de emprego para nortear o que era necessário ter em habilidade pra ter melhores chances no mercado de trabalho e na sociedade. Aprenderam inglês, datilografia, informática, internet, Pacote Office, sistemas operacionais novos e, assim, achavam-se sempre em dia. Hoje daríamos risada de tudo isso, porque tudo isso não é mais requisito, nem pré-requisito. Tornou-se uma espécie de “pré-pré-requisito” tão pressuposto quanto precisar estar vivo para ocupar uma vaga de emprego.

As habilidades necessárias pra vencer são cada vez em maior número e devem ser adquiridas em cada vez menos tempo. Nos tempos modernos as crianças já nascem sabendo usar o computador, o smartphone e a internet. Tudo parece instintivo e lógico para todas elas e são elas quem ensinam os mais velhos a entrar pra esse mundo, caso ainda não tenham entrado.

Mas, ter esse contato com as tecnologias é bem diferente de ter reais habilidades e conhecimentos para trabalhar firme. As pessoas sabem, por exemplo navegar na internet, mas não sabem praticamente nada de como se portar na rede. Sabem muito de como acessar sites, mas fazem pouco uso desses sites e ainda menos dos conteúdos em si que brotam deles. Dominam os pacotes de software e tornam-se ótimos apertadores de botão das ferramentas, pois não dão vazão concreta para o potencial dessas mídias. O aprendizado ficou restrito apenas às tecnologias em si e não no uso delas para algo efetivo.

Sabem utilizar o editor de textos, mas não sabem escrever um texto. Sabem utilizar um editor de vídeo, mas não sabem produzir um vídeo funcional. Estão empenhados em explorar a mágica do Photoshop, mas sabem pouco ou nada de edição fotográfica. Dominam as planilhas de Excel, mas são ruins em administração financeira ou coisa similar. Em resumo, o conhecimento só é importante se você souber o que fazer com ele. E esses aprendizados paralelos são apenas ferramentas de suporte para o trabalho principal. Ficam obsoletos e ultrapassados os que não sabem o que estão fazendo.

Se apesar de tudo isso, você ainda estiver defasado no entendimento básico desses recursos, você corre o risco de ficar pra trás, tal como aqueles que deixaram de ver filmes porque não sabiam manejar um videocassete. Cursos de datilografia foram extintos faz muito tempo e ninguém vai te ensinar informática. O mundo não vai te esperar alcançar os avanços dos últimos 30 anos, ainda mais se tiver que ser no seu ritmo. Então, se você deseja fazer parte da realidade e estar ativo nela, precisará compensar o tempo perdido de maneira surpreendente.

Quem se conformou em aprender as velhas linguagens de programação de computador, hoje já encontra enormes barreiras para preencher as vagas atuais até mesmo das empresas mais pequenas de tecnologia. Aliás, atualmente, uma grande parte dos trabalhos são todos relacionados com a produção tecnológica, principalmente por trás das mídias.

Em parte esse avanço é bom, mas muita gente fica desempregada porque não tem condições de acompanhar o ritmo de aprendizado ou sequer oportunidades de ter contato com essas realidades antes que elas já se tornem ultrapassadas. E isso vem transformando o valor de oferta pelas vagas, de duas maneiras bem distintas. Não estão encontrando profissionais aptos para os trabalhos propostos e por isso estão tentando fisgar os profissionais através da oferta de altos salários, na esperança de que esse seja o atrativo que os faça sair de outra empresa ou mesmo de outra profissão. Mas mesmo com salários que chegam à generosos R$ 100.000,00 (Cem Mil Reais) não estão encontrando pessoas para preencher tais vagas. Outras empresas estão lidando com o problema de maneira oposta. Sabendo que estão fadadas ao fracasso caso não se adequem tecnologicamente, começam a explorar o mercado de trabalho, oferecendo salários ridículos em troca de uma montanha de trabalho e exigências. Alguns chegam a virar piada na internet, com seus anúncios.

O fato é que, seja lá qual for o salário, as pessoas não estão aptas para as grandes vagas. A alta tecnologia é sempre novidade a cada ano e talvez até a cada trimestre. Querem especialistas em algo que acabou de surgir. E isso não será possível. Quando alguém se tornar especialista em algo, tal coisa já será obsoleta. Aceleramos o mercado de trabalho num ritmo alucinante onde ninguém consegue ser mais útil com o que sabe no momento. Estamos sempre defasados e somos sempre incompetentes para levar o presente adiante. Não conseguimos mais construir o metro de trilhos à nossa frente e, por isso, o trem está parado.

A maioria dos países defasados em cultura e tecnologia, tropeçaram com a internet por causa da globalização e do nivelamento das exigências ao redor do mundo. As cobranças para uma empresa de aplicativos de celular, por exemplo, serão as mesmas, independente de que país seja o profissional a programar, porque o acesso é internacional e as ferramentas são praticamente as mesmas, devido a compatibilidade com os aparelhos de celular e seus sistemas, além da própria internet, as redes sociais e tudo o mais.

Muitos brasileiros tem viajado para o estrangeiro em busca de aprendizado nas grandes empresas e organizações tal como a NASA, Microsoft, Google, entre outras. Palestras, workshops, intercâmbios e até estágios estão sendo uma realidade cada vez maior nessas buscas ao exterior. E, verdade seja dita, essas empresas estão fisgando os melhores profissionais e deixando os demais países ainda mais perdidos. Muita gente decidiu mudar de vez para fora e trabalhar, morar e formar família em países como Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, Finlândia, Islândia, Canadá, Portugal e vários outros que nem imaginamos que sejam grandes polos de trabalho, dependendo do potencial que o indivíduo tiver.

Aquilo que aprendemos no colégio, já foi alterado e custará a ser atualizado nos novos livros. Somos alimentados com informação errada e vamos ensinar essa informação errada para a próxima geração. A ciência antiga está se redescobrindo e o que era fato antes, hoje já se sabe que não procede. E assim, acumulamos uma horda de adultos que repetem as mesmas bobagens e colidem com o novo até se verem insuficientes para as atuais necessidades. Os vendedores de antigamente que se restringiam a etiquetar preços nos produtos, hoje não podem perder mais tempo com isso pois precisam se dedicar em mil outras importâncias. Grande parte das vendas hoje em dia, são feitas pela internet e um vendedor online ou presencial precisa ser um outro tipo de profissional atualmente.

Temos o potencial de chegar longe, mas se não nos transformarmos à tempo, não seremos nada. Indústrias que antes dependiam do ser humano pra apertar parafusos agora possuem robôs que fazem tudo melhor, mais rápido e com menos custo. Então, quem quiser continuar trabalhando, precisa mostrar valor além de um robô. Precisa fazer o que ele não faz, precisa ser aquele que opera robôs, que os programa, que os retifica. E daqui uns anos, os próprios robôs construirão à eles mesmos. Estamos chegando à um ponto onde precisamos ter valor intrínseco, por dentro, pelo que somos. Nossas habilidades humanas serão indispensáveis quando tudo o mais deixará de ser humano.

Em certos países as máquinas já dominaram o atendimento em mercados e lojas e a figura humana está saindo até mesmo das cozinhas. Garçons, cobradores em caixas e a coleta do lixo, estão automatizados e deixando que as pessoas se concentrem em trabalhos mais mentais do que braçais. Estamos sendo conduzidos para a tecnologia e o pensamento. O grande diferencial, a grande habilidade requerida pro futuro será a nossa mente, o nosso potencial criativo, nossas ideias para transformar a própria tecnologia. Querem os nossos sonhos, nossas invenções, nossos modos diferentes de enxergar. Em 2017 mesmo já vemos as empresas pagarem altas quantias para quem venha os surpreender, afinal, é isso que alimentará todas os produtos e serviços vindouros. O valor já não está no que podemos fazer mas no que podemos pensar. E, infelizmente, a humanidade no geral, está tremendamente defasada no ato de pensar. Corra ter conteúdo, exercite a mente, antes que você se veja desempregado de vez daqui curtos dez anos.

Leitores e escritores estão reunidos neste grupo do Facebook: Escritores e Leitores. Entre e venha conhecer novos conteúdos ou divulgar o seu.

Obrigado por acompanhar. Faça comentários ou perguntas aqui na caixa de texto ou na página. Dê apoio. Vamos todos ler e escrever. Vamos nos conhecer. Se gosta dos textos daqui, deixa um ‘joinha’ no Facebook também.

Rodrigo Meyer

Inglês só depois de um bom Português.

2017_mes03_dia20_22h30_inglês_so_depois_de_um_bom_portugues

Bom seria se pudéssemos aprender dois ou mais idiomas de forma natural e desde o começo de nossa alfabetização no idioma nativo. Mas isso geralmente não acontece nem dentro das famílias e nem dentro das escolas. Crescemos absorvendo o Inglês paralelamente, mas quase como um intruso. E isso, em parte, joga as pessoas para uma busca posterior de um curso de idiomas para dar continuidade ao que começaram no colégio.

Antigamente ensinava-se também o Francês e Latim nas escolas e na minha geração nada disso estava perto de acontecer. Quando cursei o colégio, já era um adicional especial haver inglês. É como se estivéssemos desfrutando de qualidade apenas porque existia tal matéria na grade de aulas. Claro que, sempre foi insuficiente e não conheço ninguém que tenha, só com isso, saído do colégio falando inglês.

Mesmo depois de ter tentado aulas em cursos de idiomas, não me tornei fluente. Infelizmente essas escolas não vivem de formar alunos, mas sim de mantê-los sempre incompletos para permanecerem a vida toda amarrados às mensalidades. Os cursos sempre tentavam inventar algo em que pudesse agregar valor nas vendas. Fitas K-7, livros e até a ideia lúdica de que alguns cursos eram melhores que outros porque davam acesso à computadores para a prática do inglês. Hoje eu dou muita risada de tudo aquilo.

O que eu aprendi sozinho, lendo e assistindo vídeos americanos com áudio original, me deixaram mais próximo do idioma do que anos de escola e cursos de idiomas. Não é exatamente que o método não tenha importância, mas que talvez naquelas empresas de vender cursos, o método servia à empresa e não ao cliente.

Desde muito tempo o Inglês era prometido como a diferença no mercado de trabalho. E que você poderia melhorar seu currículo cursando um idioma novo. As pessoas rapidamente seguiram essas recomendações das mídias e nunca se viu tanta gente nos tais cursos. Em alguns ambientes, era mais comum as pessoas perguntarem qual curso de Inglês você fazia do que perguntar se fazia algum curso de Inglês. Para a sociedade dessa época, não cursar outro idioma além da língua nativa era atestado de que não se pretendia ter uma boa carreira profissional.

Décadas depois e isso ainda está presente no nosso modelo de sociedade. Continuam nos vendendo a ideia de que o Inglês é a salvação. Porém, hoje, como muita gente já cursou o tal idioma no passado e ele se tornou mais disseminado nas mídias, na internet e no mundo todo, ficou praticamente impossível que as pessoas não tivessem noção ou até aprofundamento nele. Em razão disso, o público-alvo dos atuais cursos são para classes sociais mais baixas, que não puderam ter os mesmos acessos e que sentem-se bastante deslocadas na hora de socializar ou manejar um software. O apelo das propagandas não cansa de incentivar esses potenciais alunos a acreditar que é melhor cursar Inglês e continuar desempregado, dando despesa aos pais do que desistir do curso e tentar a independência na vida, primeiramente.

Aprender outros idiomas é importante, claro. Mas as prioridades de cada pessoa são ainda mais importantes. E se você adultera a noção dessas prioridades em um público que morre de medo de perder espaço na sociedade, você está fazendo um terrível jogo sujo de manipulação apenas pra tirar dinheiro de que já nem tem muito.

Você nunca verá as empresas se empenharem na divulgação de cursos de Português para os próprios brasileiros. E penso que esse deveria ser, moralmente, o foco dessas empresas todas, porque o brasileiro às vezes se arrisca a aprender o Inglês quando mal domina o idioma nativo. Chega a ser cômico até mesmo na hora em que tentam cumprir com o método dos cursos, pois se não conhecem nem o idioma nativo, como vão fazer associações e trocas com o Inglês? Ficarão duplamente perdidos. Boa coisa não vem daí.

Mas muitos sentem vergonha de não terem cursado Inglês ou de terem pouco domínio nele, apesar do estudo. Deveriam, contudo, ter vergonha maior por não saberem sequer o idioma nativo. Se a base do aprendizado está incompleta e corrompida, que adições farão nessa casa, sem que tudo desmorone terrivelmente?

E centenas de currículos começam a figurar com erros grosseiros de Português anunciando pretensiosamente que possuem Inglês intermediário ou qualquer coisa similar. Alguns, um pouco mais ousados, arriscam até a dizer que são fluentes, mesmo não sendo. E tem se tornado moda, inclusive, recriar o significado de ‘fluente’. Agora, para ser, já não precisa mais ser. Basta incluir alguma desculpa sobre não se poder chegar tão “alto” e você segue autorizado a reconhecer-se como fluente. Também morre perto disso o ‘Inglês avançado’, porque agora todos que eram deste nível, foram promovidos automaticamente para ‘Inglês fluente’. Agora o ‘intermediário’ é qualquer coisa acima do ‘básico’, que por sua vez se resume, atualmente, em conhecer meia dúzia de termos como, play, stop, email, work, like e messenger.

E o mais incrível é que a maioria das pessoas não viajam pra lugar nenhum onde exercerão seu aprendizado e tão pouco conversam com as pessoas para treinar, seja presencialmente ou pela internet. Acreditam que o curso basta e que ostentar esse detalhe no currículo fará, magicamente, elas serem contratadas ou ainda que terão seus salários aumentados com o toque de uma varinha de condão. E assim, os donos de empresas que “lecionam” idiomas, vão engordando os bolsos. Espero que pelo menos façam bom uso do dinheiro e façam duradouras viagens para os respectivos países e que absorvam bem a cultura e a riqueza do idioma com o qual trabalham.

A verdade é que o curso eficiente de um idioma está nas faculdades de Letras de cada país. Fora desse meio, tudo que se faz é evitar os quatro ou cinco anos de faculdade e gastar quatro ou cinco anos em um curso de idiomas inferior e, às vezes, levar até mais anos que isso pra continuar sem saber falar.

A educação escolar do brasileiro já é bem precária e sobram itens na lista de críticas se compararmos com a geração de meus pais que ainda viviam escola pública com orgulho. Também é desastroso se a comparação for entre os países vizinhos ao nosso. Perdemos de lavada em toda América Latina, pois nem com muito mais dinheiro e investimentos conseguimos chegar perto dos índices vizinhos. Há questões culturais envolvidas e, claro, um terrível rastro de corrupção que desmonta nosso país e o transforma apenas em um amontoado de peças soltas, enferrujando. Mas isso é assunto pra outros momentos.

A questão é que, não importa quantas adições modernas façamos, ainda continuamos ignorantes naquilo que pulamos inicialmente. Estamos sempre varrendo os problemas pra debaixo do tapete e sempre quebramos a cara na hora de ter que encarar a limpeza do que deixamos acumular por tanto tempo. A nossa negligência diante da base nos fará ruir constantemente, pois queremos sempre colocar novos andares no prédio, mas a fundação é frágil como papel. Então, encurtando a análise, aprenda quantos idiomas quiser, mas comece pelo seu idioma nativo e assim verá que seu potencial de relacionamento, estudo, trabalho e compreensão das realidades de sua cultura, te colocarão em patamares mais altos do que as propagandas enfadonhas de cursos te sugerem. Dessa forma, todos saem ganhando.

Leitores e escritores estão reunidos neste grupo do Facebook: Escritores e Leitores. Entre e venha conhecer novos conteúdos ou divulgar o seu.

Obrigado por acompanhar. Faça comentários ou perguntas aqui na caixa de texto ou na página. Dê apoio. Vamos todos ler e escrever. Vamos nos conhecer. Se gosta dos textos daqui, deixa um ‘joinha’ no Facebook também.

Rodrigo Meyer

Ter conteúdo é sua salvação.

2017_mes03_dia20_18h30_ter_conteudo_e_sua_salvacao

Ter conteúdo não exige necessariamente ter escolaridade, estar envolvido em mil projetos ou “grandes” profissões. Ter conteúdo não significa nada além de ter algo interno que possa compartilhar. Quando uma pessoa é rasa demais, isso falta e ela encontra uma barreira que ela mesma criou e que impede a conexão com as coisas e pessoas de maneira mais profunda. A vida torna-se muito desagradável quando as pessoas tentam socializar e essa diferença se coloca no meio.

Quando conhecemos alguém, esperamos desenvolver uma relação, seja de amizade, trabalho, professor e aluno, pais e filhos,  ou mesmo um romance. E pra que isso flua bem, as pessoas envolvidas precisam estar alinhadas em pelo menos alguns objetivos em comum. Se alguém está buscando uma boa conversa, vai ser difícil traçar uma conexão se o outro lado não tiver conteúdo pra adicionar. As boas relações vivem de trocas.

Mesmo se alguém for um aprendiz numa profissão, por exemplo, poderá ter inúmeras outras coisas que troca nessa experiência com quem lhe ensina a atividade. É preciso que as pessoas consigam expor suas vontades, seus interesses e transmitir boas histórias, memórias, opiniões que fazem a diferença, ter conhecimentos gerais e um mar de outras coisas. Por muitas vezes, temos que mudar o rumo de conversas ou mesmo desistir do ensino de certos temas e profissões, quando as pessoas do outro lado não possuem cultura geral mínima pra absorver aquilo que pretendemos passar. E esse game over é triste.

Todos nós que temos acesso frequente à internet, temos a obrigação moral de fazer bom uso dela, pois é um desperdício ofensivo ter essa poderosa ferramenta e não utilizá-la bem, enquanto outros que sequer podem acessá-la penam pelo impacto da falta de informação e socialização em suas vidas. Compartilhar conhecimento, claro, não é feito apenas pela internet, mas esta é, com certeza, uma das ferramentas com maior potencial, pois permite usarmos vídeos, textos, fotografias, animações, links, além de podermos compartilhar diretamente com um grande número de pessoas e deixarmos isso disponível pra qualquer horário que quiserem acessar. Não dá pra negar que tudo isso é muito mais poderoso do que as demais formas de comunicação.

Mesmo assim, a internet não é (e não deve ser) o único meio de aprendizado, senão corremos o risco de definhar nossa própria compreensão do que é aprender. E conteúdo interno é, sobretudo, nossas experiências, nossa visão crítica, nosso humor, nosso jeito diferente de ser e pensar os assuntos, toda a bagagem que coletamos ao longo da vida e os rumos que damos para nossos relacionamentos através disso tudo.

O vocabulário de um indivíduo, por exemplo, cresce à medida em que ele mesmo se coloca diante da leitura e de novas conversas, pois não se pode conhecer palavras novas se nunca for exposto à elas. Ler o dicionário não é nenhum ato absurdo e deve, sempre, ser uma opção pra quando não temos muito traquejo para nos comunicar. Evite, porém, usar excessivamente as palavras que acabou de aprender como se já dominasse o extenso significado e contexto delas, senão corre o risco de parecer artificial e/ou pretensioso demais.

Uma professora da época de faculdade nos propôs de lermos uma certa quantidade de vocábulos do dicionário por dia e ao final do curso de Comunicação Social estaríamos bem distantes de onde começamos, apenas com esse simples ato. Sendo feito de pouco em pouco, diariamente, esse aprendizado não pesaria e como seria fracionado ao longo do curso todo, mesmo se interrompêssemos a prática, teríamos absorvido pelo menos algumas palavras à mais no começo da tentativa. Só tínhamos a ganhar.

Mas, conhecimento não se resume a conhecer palavras. Essas você pode ter facilmente a qualquer momento que quiser, perguntando à alguém ou consultando-as na enciclopédia, na Wikipédia, em um dicionário convencional impresso ou mesmo no Google. O que conta mesmo é o que você faz com as palavras. Mas para fazer algo com elas, é preciso conhecê-las, inevitavelmente. Lendo e escrevendo você pode refletir através de textos, poemas, frases, ou qualquer que seja o formato de conteúdo. E isso não é um mero capricho. Isso é sua vida, são suas chances, sua realidade, suas chaves e também a diferença entre derrotar-se ou ter meios para vencer. E isso se aplica em qualquer setor da vida.

Você pode, eventualmente, estar buscando um emprego novo, um namoro, bons amigos ou mesmo dividir um pouco do seu tempo com familiares ou desconhecidos em uma festa. Não há outro meio de se traçar conexões coerentes e mais profundas se não for através do seu conteúdo e a habilidade que tem de compartilhá-lo. Certa vez me apresentaram a ideia de que se pudéssemos ler as mentes uns dos outros, seríamos todos solitários e deprimidos. E mesmo no modelo de realidade onde não lemos as mentes de ninguém, podemos acabar chegando em similares situações apenas pelo que as pessoas expressam.

Com exceção da timidez, ninguém deveria ter dificuldades em se expressar. Com exceção dos naturalmente misteriosos, ninguém deveria ser confuso em suas expressões e intenções. Com exceção dos afetados por químicas, ninguém deveria perder a lógica ou a cadência em uma ideia proposta. Com exceção dos que não podem fazer mais por si mesmos, ninguém deveria ficar restrito ao vazio da falta de conteúdo.

Aquilo que somos por dentro é nossa salvação. É lá que habitam as trocas fundamentais para um aprendizado, uma conversa, uma análise de nós mesmos, da vida, da filosofia por trás das coisas, do sentido de nascermos ou morrermos. Está também no interno de cada um, as vontades, as ambições, os impulsos criativos, os pensamentos abstratos ou de outros tipos. São eles que nos fazem chegar à conclusões que mudam nossas vidas de uma só vez a cada vez. São essas grandes possibilidades que nos colocam em atividades maiores e melhores. Sem conteúdo interno não teríamos jamais inventado a internet, os computadores, as sociedades e suas culturas. O que expressamos adiante é fruto do que temos dentro de nós. Não há como dividir com o mundo aquilo que não se tem. As relações envelhecem melhor quando estamos cientes de que temos a melhor conexão.

Eu não estou dizendo que o conteúdo interno anula ou inferioriza as conexões emocionais. Mas, mesmo elas, são geradas e sustentadas por causa do conteúdo interno. Tudo que somos como pessoa e tudo que construímos de forma subjetiva entre seres, lugares e coisas, está relacionado ao que conseguimos enxergar para traçar um significado maior, mais profundo e, muitas vezes, intraduzível.

As pessoas rasas frequentemente se assustam ou se incomodam com qualquer quantidade que seja maior do que estão acostumadas a lidar. Uma bandeja suporta muito menos líquido que um balde. Se vertermos apenas metade da água de um balde cheio nela, ela transborda de imediato. Tudo que for vertido em excesso será um incômodo, um atropelo ou até uma angústia. As pessoas não querem sentir que estejam afogadas em coisas das quais elas não podem ou não querem lidar. Isso às faz perceber que são rasas e imediatamente ativam o possível complexo que possuem sobre isso. E se, por outro lado, voltarem a esquecer desse contato, tudo se normaliza e elas voltam a lidar apenas com as gotas de seus interesses. Mas, inevitavelmente vão se deparar com novas situações semelhantes e podem acabar defendendo a ideia de que baldes são excessos. Perigo à vista!

Não serei eu a impedir alguém de mergulhar em tais escolhas, mas o prejuízo pessoal de quem assim escolhe é imenso. Em um aparente benefício, essas pessoas buscam o caminho mais curto e fácil, mas passam a vida toda andando em círculos e chegam a lugar nenhum, enquanto outros, por andarem em linha reta com propósitos e objetivos, chegam mais longe. A velha tática de varrer tudo pra debaixo do tapete não anula a necessidade de ter que lidar com isso mais tarde e ainda amplia o problema, pois é mais fácil varrer umas migalhas por dia do que ter que carregar caçambas delas de uma só vez. No caso das pessoas rasas, o acúmulo é de vazios, que pesam mais que toda matéria do Universo.

Leitores e escritores estão reunidos neste grupo do Facebook: Escritores e Leitores. Entre e venha conhecer novos conteúdos ou divulgar o seu.

Obrigado por acompanhar. Faça comentários ou perguntas aqui na caixa de texto ou na página. Dê apoio. Vamos todos ler e escrever. Vamos nos conhecer. Se gosta dos textos daqui, deixa um ‘joinha’ no Facebook também.

Rodrigo Meyer