Crônica | Por trás do fogo.

Na contraluz do fogo, escondido atrás de um laranja vivo, queimava forte o recado dado. De cima pra baixo, de baixo pra cima, pra ambos os lados. Os bons tempos voltaram. Não é o paraíso, pois isso não se pode esperar da Terra com estes hóspedes. Mas é mais uma viagem pra dentro de mim mesmo. O mundo pode acabar e eu ainda estarei de pé. Ruíram todos os outros, porque não sabiam o que era ter valor. Lá embaixo eles rastejam, em busca de sanar o tédio, enquanto eu já sou o meu próprio remédio. Por isso eu venci. Fora daqui, ninguém parece ter percebido que tudo mudou. Pra eles, mudou para pior, pra mim um novo degrau. Já subi muitas escadas. Vez ou outra calejei as mãos e ralei um pouco dos joelhos, mas nunca algo letal como quem rolou em queda livre sucessivas vezes como um vício ou um bug de computador. Ter olhos é tudo nessa vida. Por isso tenho três. Quando dois deles se fecham, o terceiro fica bem acurado. Não sou um privilegiado. Sou apenas alguém que decidiu não atirar no meu próprio pé. Por isso eu subo e eles caem.

Rodrigo Meyer

Anúncios

Crônica | Pitada de esperança.

Um tom desbotado começava a tomar conta do clima da casa. Do lado de fora, a sensação de que alí já não tinha vida. Do lado de dentro, um vazio igual ou pior. O cansaço não permitia pensar de maneira organizada sobre o que fazer com aquilo. Por sorte, o minimalismo ajudou a reduzir as opções. A cada dia que passa, a casa torna-se, cada vez mais, apenas paredes. Quando completamente vazia, será motivo de festa. Talvez eu possa comemorar, talvez eu não esteja mais por aqui. Enquanto o futuro não chega em definitivo pra me dizer, eu sigo acordando e dormindo, sentindo o cheiro de tempero na comida da vizinha. Me parece alguém que gosta de cozinhar. Às vezes dá vontade de me auto-convidar para um momento desses, especialmente nos dias em que está mais frio. Nas outras casas do bairro, tudo parece tão enfadonho e monótono que chego a pensar que por lá nem comida se faz. Quando eu me mudar, quero voltar a cozinhar. Algo tão simples e com um significado tão importante.

Rodrigo Meyer