Crônica | Honestidade pra quê?

Até hoje me lembro daquela moça. A hipocrisia batia nos dentes. Apesar de evangélica, escolheu ir a um cartomante. Pra amenizar o papelão, decorou umas perguntas das quais nunca quis saber as respostas. Queria mesmo é saber de macho. Quem fica? Quem vai? Vale a pena tentar mais? Por dentro eu ria, por fora tentava explicar. A moça não entendia, fazia cara de quem estava bem-resolvida, mas era maior sua ansiedade em ouvir a resposta que ela queria do que ouvir a verdade. Por isso, insistia. Me perguntou umas cinco vezes o que é que ela deveria fazer. Não parecia pronta pra entender que estava toda errada, do começo ao fim. Tantos anos enroscada com um palerma e ele nunca havia apresentado ela para a família. Dois hipócritas, tentando fazer harmonia. Foi-se embora, mas fez sinal de que pretendia voltar. Estava realmente ansiosa pra ouvir eu ditar. Mal sabia ela que ditadura não tinha espaço por aqui.

Rodrigo Meyer

Ego ferido? Volte duas casas

Existem pelo menos duas definições distintas de ‘ego’. Uma delas fala em um sentido mais filosófico e, por vezes, místico ou espiritualista sobre uma camada do ser ou até mesmo a essência de um ser / indivíduo. Em outra definição, mais popular, fala-se de ‘ego’ como o conceito pejorativo, como quando se fala em ‘egoísmo’, por exemplo. É sobre esse segundo tipo que pretendo discorrer.

Acredito que todos nós conseguimos compreender o conceito de egoísmo, onde uma pessoa tende a usar a si mesmo como eixo de todas as coisas na vida. A princípio, de maneira superficial, isso pode até parecer sensato e razoável, pois suscita um senso de identidade e valor onde cada indivíduo sente e se impacta de forma única pra cada situação da vida e do mundo em que está inserido. Contudo, pautar-se sempre por essa ótica, representa acabar afogando-se no lado obscuro da prática que é, entre outras coisas, desconsiderar as demais pessoas, as demais realidades, as demais necessidades, os demais valores e manter-se concentrado apenas nos próprios confortos, nos próprios desejos, nos próprios limites, nos próprios interesses. É a isso que, popularmente chamamos de ‘egoísmo’ no final das contas.

Grande parte da humanidade é muito afogada em egoísmo em uma grande parte das situações. Em certas ocasiões, deixam de lado o egoísmo e tendem a expressar um lado empático. Talvez essa alternância tenha a ver com quais situações, assuntos ou condições cada pessoa se sente exposta em uma falha que nem ela mesma aceita. Penso que, por não saberem lidar com suas questões, supostamente evidenciadas, acabam reagindo mal a coisas que, a princípio, deveriam ser tidas como ótimas oportunidades pra se refletir, progredir o pensamento, a visão de mundo e suscitar uma fagulha de transformação interna, bem como na conduta.

Existem pessoas que reagem a situações como se estivessem com o ‘ego ferido’. E o que isso significa? Há quem esteja tão centrado em si mesmo de forma pejorativa e doentia, que ao menor sinal de não se ver mais incondicionalmente prioritário, sente-se atacado, agredido, como se seu ‘Ego’ estivesse ferido. E quem são as pessoas quem podem sentir alguma dor de ferimento no Ego? Somente as que tem um Ego inflado em seu imaginário, que esbarra em tudo e todos. Acostumados a sempre serem engolidos a seco, passam a acreditar que não importa quão desinteressantes sejam e quanta bobagem falem, ainda terão espaço e aceitação. E quando tais pessoas descobrem que o mundo é muito maior do que aquela bolha em que vivem, sentem-se constantemente atacadas por cada vez que alguém surge pra fazer qualquer comentário que as contrarie de alguma forma, por mais simples ou sutil que seja. Se para elas, o mundo é quadrado, sentem-se mal com quem apareça pra comentar que o mundo é redondo.

A ironia de tudo isso é que as pessoas que alimentam egoísmo como uma espécie de estilo de vida, reafirmam por esse mesmo método o quanto valem pouco aos olhos de si mesmas. Sim, é uma contradição. Ao mesmo tempo em que estufam o peito pra se sentirem superiores, são elas mesmas que se privam do progresso em si mesmas. Logo, acabam admitindo, sem ajuda de ninguém de fora, que, até então, pouco fizeram para o benefício real de si mesmas. E é assim que se pode diferenciar amor-próprio de egoísmo, pois, na verdade, são termos opostos. Quando a pessoa tem amor-próprio ela se dá coisas boas, momentos bons, porque quer se beneficiar, se ajudar, se ver feliz, livre, etc. Já quando a pessoa é egoísta, ela está se privando do progresso, do conhecimento, da verdade, da coragem, da mudança, da transformação, de momentos melhores, de relações melhores, de evolução pessoal em vários níveis e sentidos.

Sabendo disso, uma pessoa que deseja estar a frente das próprias falhas e limitações de ontem, deve fazer, hoje, algo que construa a mudança. Deve estar aberta a perceber que vale muito mais aprender algo e fazer um upgrade pra melhor do que colidir com outra pessoa ou situação, apenas pra manter seu equivocado ponto-de-vista intacto, apesar de saber que está errado ou apesar de sequer ter se permitido refletir em como poderia estar errado.

Observo e vejo com certa frequência, pessoas que, diante de um debate, ao invés de tentarem argumentar ou absorver algo de proveitoso no argumento dos outros, tentam, de forma inútil, satisfazerem-se com uma repetição de conduta baseada apenas em falar o que lhes convém e, assim que lhes faltar argumentos, abandonar a conversa pra se sentirem superiores, como se fossem sublimes gênios incompreendidos. A estratégia falha é velha e faz muita gente passar vergonha ao se expor. Antes da internet, ou das redes sociais mais abrangentes, se alguém fizesse isso numa conversa e saísse, a conversa praticamente acabaria. Com a internet cada vez mais inclusiva e permanente, quando uma pessoa usa desse artifício, fica marcada diante de uma infinidade de pessoas.

A sabedoria ensina que diante daquilo que não sabemos, é melhor ficarmos calados. Falar para preencher espaço vazio é subestimar o silêncio e superestimar a própria bobagem. E superestimar a própria bobagem é tão somente egoísmo e retrocesso. Há pessoas que sentem que não possuem voz suficiente. E, por vezes, isso pode ser verdade. Mas é sempre verdade que dizer bobagens só pra exercer seus segundos de fama e fala, não vão te favorecer pra que seja bem-visto. Portanto, uma oportunidade deve ser usada para se dizer algo relevante, que empodere, que acrescente, que combata, que funcione como ferramenta de mudança rumo a coisas melhores. Tudo que for dito, se não for positivo / agradável, precisa ser, pelo menos, útil / necessário. E pra saber se o que estamos dizendo, pensando ou fazendo está alinhado com essas premissas, precisamos observar se elas realmente nos beneficiam ou se só nos encurtam. Se elas realmente podem ajudar alguém a se libertar ou se empoderar ou se, apenas reduz e ofende gratuitamente alguém a troco de uma massagem no imaginário monstro Ego que tanta gente acredita ser enorme, mas, contraditoriamente, insistem em reduzirem-se diante dos reais benefícios possíveis a si mesmas.

No fundo, quem se “ama” em excesso, não está se amando, mas está com grande falta de amor-próprio. A afirmação exagerada de algo, como é a autoafirmação de uma pessoa egoísta, é o mecanismo doentio onde ela tenta compensar sua visão complexada de si mesma com recursos artificiais e exagerados de enaltecimento da própria pessoa. É assim que surgem situações vergonhosas como a chamada “carteirada” (termo na cultura brasileira pra se referir a pessoas que usam do status ou poder de seu nome, sobrenome, profissão, diploma ou condição financeira pra tentarem obter alguma vantagem imaginária sobre as pessoas a quem desejam inferiorizar).

Talvez, essas pessoas se sintam tão complexadas sobre quem são (ou quem acham que são na visão sigilosas que elas possuem sobre si mesmas) que se apegam a coisas irreais como sobrenomes, diplomas, profissões ou dinheiro pra sentirem algum valor ou importância em si mesmas. E isso é muito triste, pois indica o quanto a pessoa está sem amor-próprio sem uma visão bem conceituada de si. O Complexo de Inferioridade, seja ele consciente ou inconsciente, faz da pessoa uma vítima de si mesma, pois acaba fazendo escolhas desnecessárias e imprudentes que vão lhe deixar sempre em situações vergonhosas, humilhantes e que, frequentemente, impedem a pessoa de progredir e desfrutar de seus eventuais potenciais reais.

Em resumo, no jogo da vida, se você quiser vencer, precisa se ajudar. E, como se sabe, se estiver com ego ferido, terá que voltar duas casas. Escolha seu objetivo, perceba pra que direção deve ir e caminhe ao lado de situações e pessoas que te ajudam a encontrar verdades, reflexões, coisas novas, coisas melhores. Se conformar com aquilo que você acha que sabe, pode te fazer ser alguém cada vez mais distante do saber. Há uma música de Humberto Gessinger que diz “A dúvida é o preço da pureza e é inútil ter certeza.”. Quando você se abre pra dúvida, você considera que o mundo ou a vida não se limitam ao seu Ego e é só assim que você adquire o necessário pra não estar adoecido ou contaminado. Pense nisso e pense com tranquilidade, com sinceridade e com empenho. Todos nós podemos (e devemos) desenvolver amor-próprio, mas o egoísmo é o oposto disso. E agora que você sabe, o que vai fazer sobre? Guardar o momento ou compartilhar pra que mais gente se beneficie? O seu progresso também depende de como você lida nas coisas sutis. Então, se a ideia é ter amor-próprio, você já sabe o que fazer pelo mundo e por você mesmo.

Rodrigo Meyer

Onde está a sabedoria?

A imagem que ilustra esse texto é parte da obra “El Alquimista” (1649), do pintor David Rijckaert.

Em menor ou maior grau, todos nós temos alguma sabedoria. Mas, pra fins didáticos, vamos tomar como referência a sabedoria que transcende a percepção média da sociedade. Pode-se dizer, assim, que falta sabedoria na maioria das pessoas e o motivo disso será analisado neste texto.

Pode parecer óbvio, mas é preciso dizer que a sabedoria é para os sábios. A razão de se reforçar tal obviedade é que, em nossa sociedade, as pessoas não costumam aceitar a posição contrária da saberia que, eventualmente, lhes é atribuída. Em parte, porque todos se julgam capazes e sábios o suficiente para não merecerem uma classificação que os reduza. A insegurança diante da pouca sabedoria que possuem, somada com o provável desconhecimento da própria situação, faz com que os parâmetros pareçam distorcidos demais para quem esteja abaixo. E, convenhamos, sempre haverá alguém abaixo, porque, como uma escada infinita, por mais alto que esteja um degrau, sempre haverá outro acima.

Contudo, em certo momento, adquirimos um nível de sabedoria tal que passamos a aceitar com segurança e tranquilidade nossa própria ignorância, nossa limitação nas coisas e, claro, também na sabedoria. É evidente que a pessoa que se julga sábia demais a ponto de se fechar em status, mostra exatamente o inverso. A sabedoria traz, entre outras coisas, uma postura de humildade e a compreensão de que quanto mais sabemos, menos sabemos. Mas como é possível saber menos a cada vez que sabemos mais? Isso é um modo de explicar que conforme adquirimos conhecimento, aumentamos nossa visão sobre as coisas, inclusive sobre nossa pequenez diante da infinidade de outros conteúdos ou da complexidade do mesmo tema. Seria como dizer que quanto mais viajamos o Universo, menos conhecemos do Universo, pois descobrimos, a cada vez, que ele é maior do que imaginávamos anteriormente.

É importante dizer que sabedoria não é conhecimento. Frequentemente um sábio pode ter grande conhecimento, mas não é uma premissa. Existem pessoas com uma sabedoria fenomenal que, contudo, não inclui grande domínio de conhecimento específico. Entendo isso como um tipo de sabedoria, onde até mesmo o acúmulo desnecessário de conteúdos já não fazem parte das prioridades da vida do próprio indivíduo. Não significa abster-se de conhecimento, mas apenas evitar de se enforcar pelo excesso e concentrar-se naquilo que soma transformação pessoal.

Nada impede, porém, de desenvolver sabedoria e conhecimento paralelamente. O único cuidado que se deve ter na busca de sabedoria e conhecimento é não cair na possível ilusão de ir pro extremo oposto, onde todo conhecimento se transforma apenas em vício e soberba e a sabedoria, que deveria  ser absorvida e praticada naturalmente, se transforma na ausência de sabedoria devido a condutas pejorativas diante daquilo que já se “conquistou” como pessoa ou figura frente à outras pessoas ou até mesmo diante de si mesmo. Por tudo isso é que vale sempre reafirmar que a sabedoria é para os sábios.

Então, pensando um pouco sobre o assunto, é possível entender que a sabedoria brota espontaneamente como consequência de certos entendimentos e atitudes. É a transformação concreta do indivíduo que o coloca na posição de sábio. Não é possível, portanto, absorver sabedoria por contato, compra ou conhecimento isolado. A prática e a transformação requeridas para elevar uma pessoa a um novo estágio de sabedoria, é indissociável.

Não existe, a princípio, pré-requisitos para uma pessoa transformar-se em alguém mais sábia, exceto a sincera vontade de tentar. Sem ação e intenção nada se concretiza. Ao procurar pela sabedoria, você talvez seja tentado a vasculhar livros, vídeos, filmes, conversas, viagens, experiências de terceiros, conversas e até a pertença a instituições, filosofias de vida, religiões ou ordens iniciáticas. Mas, aprenderá exatamente que a sabedoria não vem destes lugares, mas sim da experiência do indivíduo ao tentar buscá-la nesses locais e, eventualmente, se aperceber que a sabedoria nunca esteve lá, mas sempre em si mesmo. É o momento em que a pessoa olha pra dentro de si e percebe que aprendeu onde a sabedoria não está, que passa a ver onde a sabedoria efetivamente está.

Esse olhar pra dentro pode ser parte de uma meditação curta ou de uma fase da vida, mas pode, também, ser exatamente a compreensão de todos os momentos vividos ao longo de uma vida inteira que resulta numa compreensão maior, como um insight ou até mesmo uma iluminação. Acredito, contudo, que essas experiências fracionadas e “menores” são importantes para conectar o indivíduo à uma noção consistente posterior. É como se peças de quebra-cabeça dessem respaldo para a proposta de compreensão da imagem completa, formada pelas partes e etapas anteriores.

Quando brota um sentimento de tranquilidade diante das coisas, pode-se dizer que o indivíduo dominou e compreendeu aquilo que era necessário aos temas nos quais ele teve contato, pessoalmente ou mentalmente. A grande transformação é, no final das contas, sempre uma mudança interna dos paradigmas, das emoções, pensamentos, condutas, sensações, reações, desejos ou ausência de desejos, etc.

Não cometeria a imprudência de me classificar em alguma posição nessa escala infinita de sabedoria, justamente por entender que o infinito pressupõem a impossibilidade de se traçar uma escala coerente. Me limito a dizer que faço o possível pra me transformar todos os dias da minha vida, dentro das minhas visões e entendimentos. É tão somente isso que eu posso fazer. Se desconheço algo, não há como compreender este algo. E a medida em que domino e supero uma nova realidade, um novo conceito ou dilema, avanço um passo simbólico em direção ao progresso. Quantificar isso é desnecessário e ineficiente. Basta saber que estamos fazendo todo o esforço que conseguimos pra nos ver mais abertos ao entendimento de nossas fraquezas, nossas ilusões, nossas ignorâncias, nossas falhas, etc.

Uma vez que você entende que a sabedoria está em você mesmo, você já se torna um pouco mais sábio que antes.

Rodrigo Meyer