A autoestima das pessoas de mais idade.

Logo de cara é preciso deixar claro que em todas as idades, inclusive entre os mais idosos, existe diversidade, em termos de autoestima, de qualidade de vida, saúde, contextos, etc. Não há como dizer que alguns exemplos isolados retratam toda a comunidade de idosos. Com este texto eu pretendo tão somente despertar o olhar sobre algumas pessoas, alguns episódios e alguns contextos.

Quando eu era criança, olhava para os idosos e me punha a pensar como seriam essas pessoas em suas juventudes. Talvez essa fosse a maneira de tentar desvendar quem eram essas pessoas no momento presente e porque eram de tal maneira. Na maioria das vezes, via idosos com uma expressão de cansaço, um ar sério ou triste. Algumas raras vezes encontrava alguns em condições diferentes. É de se imaginar que o tempo vivido, a condição de saúde e a própria idade avançada em si desse a estes tais características. Mas é preciso dizer, também, que algumas outras pessoas parecem burlar tudo isso, como se fossem mais resistentes fisicamente e/ou mentalmente.

Ouvia que algumas pessoas ‘envelheciam melhor’, como se prolongassem a juventude por mais tempo que a média das pessoas. Sempre achei isso intrigante. Lembro que quando eu tinha uns 15 anos, aproximadamente, vislumbrei uma moça na calçada, em frente a um salão de cabeleireiro. Alguém havia comentado que se tratava da dona do estabelecimento e que já tinha 70 anos. Na época, não consegui tomar como verdade, porque nunca tinha visto uma pessoa de 70 anos com aquela aparência tão jovem. Eu nunca fui bom em distinguir idades, mas mesmo pra mim, foi fácil ver que a aparência não estava nem próxima do número, segundo o que minha mente conseguia pinçar de referências anteriores. Ela era uma pessoa muito ativa, de postura firme, com um andar fluído, um rosto bonito, um olhar marcante. Uma pessoa realmente bonita e, inclusive, atraente. Embora eu não apreciasse o estilo de suas roupas, era fácil ver que, ao estilo dela, ela caprichava em cada detalhe.

Diversos outros episódios similares foram surgindo com o tempo. Várias das pessoas que eu conheci durante os tempos de ensino, eram pessoas entre 30 e 80 anos. Algumas, mesmo com a mesma idade de outras, destoavam na aparência, principalmente pelo semblante. Enquanto algumas pessoas de 40 anos pareciam irritadas com a vida, outras pareciam estar se divertindo. Sorriso no rosto e brilho nos olhos parecia ser o que movia a beleza e jovialidade de algumas delas, enquanto que em outras, as dores e padrões tóxicos as consumia também fisicamente. Começava a ficar claro pra mim que o modo de vida dessas pessoas tinha um peso na equação.

Devido ao meu apreço por pessoas mais velhas pra dividir conversas e interações mais produtivas, eu socializei com muitas dessas pessoas em diversos contextos. E assim eu pude conhecer de perto a realidade de muitas dessas pessoas. Era interessante ver como a autoestima de algumas ajudava a sentirem-se tranquilas e felizes o suficiente pra externar um semblante melhor. E, claro, rendiam elogios entre os mais atentos. Eu notava, inclusive, em como essas pessoas mudavam de postura sobre si mesmas, sobre a vida, sobre o espaço em que socializavam. Parecia que ganhavam uma carga extra de energia para exercer as tarefas do dia ou até mesmo ficavam mais imunes ao stress e as situações infrutíferas da vida e do trabalho. Muito provavelmente, isso as ajudava a retomar um condicionamento físico, refletido, talvez, pelas regulações de hormônios ou algo do tipo.

Com algumas pessoas, por eu não ter conhecido elas em fases anteriores, não sei dizer se foram transformadas para melhor ou se sempre foram daquele jeito. Também não sei dizer se esse padrão de envelhecimento é raro ou se só me parece incomum por eu não ter conhecido um número maior de pessoas. Tudo que sei é que, a autoestima pesa muito na vitalidade do ser humano. Não é preciso dizer que o fator mental e emocional podem levar pessoas a somatizar doenças ou a levar uma vida cercada de hábitos prejudiciais. Uma boa alimentação, atividade física (inclusive o sexo) são fatores impactantes. Não há como negar que essa jovialidade ajuda inclusive a levarem uma vida mais ativa e estimulante, o que as faz manter o vigor, numa espécie de círculo-vicioso.

Do lado oposto, as pessoas com baixa autoestima, parecem alimentar problemas na mente e no corpo. Por vezes, o aspecto pouco receptivo de seus semblantes, a saúde abalada e a pouca disposição, podem repelir contextos prósperos de socialização, atrações físicas ou até mesmo criar um efeito bola-de-neve onde a condição em que se está baixa a autoestima e as faz deteriorar ainda mais a mente e o corpo, chegando em resultados que vão criar mais descontentamento, repetidamente.

Eu tenho 35 anos e adoraria chegar aos 70 anos com o vigor de algumas dessas pessoas que eu conheci. As pessoas ao meu redor comentam, às vezes, que eu pareço ser mais jovem do que a idade aponta. Eu não sei endossar ou negar isso, pois, como eu disse, tenho dificuldade de diferenciar idades e aparências. Conheci pessoas com a minha idade que tinham aspectos melhores, piores, iguais. Eu não sei como é que deveria ser uma pessoa de 35 anos. Me olho no espelho e fico com a impressão de que o tempo não está passando. A única coisa que me mostra o passar do tempo são os pelos brancos na barba, o cruzar dos meses no calendário e o acúmulo de memórias de situações vividas. Não sei se estou envelhecendo bem do ponto de vista físico, mas sinto que vivi bem a minha vida, fazendo sempre coisas incríveis, dando o meu melhor em tudo. Apesar de eu ter boa autoestima, não sirvo como parâmetro sobre o impacto disso na minha saúde física e mental, pois tive um histórico longo de depressão e deterioração da saúde com comida, álcool e sedentarismo. Felizmente tudo isso ficou pra trás há um bom tempo e é perceptível o impacto dessas mudanças.

Há uma obviedade que precisa ser dita: o bem-estar gera bem-estar e como diz a frase célebre, “mente sã, corpo são.”. Ter a mente jovem ajuda demais. O corpo agradece por cada risada sincera e profunda que você deu e por cada estresse que você evitou, quando viveu apontado pra outras direções melhores e mais úteis.

Rodrigo Meyer

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Relacionamento: não procure, seja encontrado.

No modelo predominante da sociedade, as pessoas estão geralmente desejando um relacionamento. De forma declarada ou não, colocam-se a procurar por esses relacionamentos ou pessoas. Esse é um dos motivos pelos quais parecem estar sempre tropeçando em dissabores com tentativas falhas de início de relações ou mesmo com a decepção com aqueles com quem aderem a um relacionamento. Em uma análise simplista, as pessoas acreditam que se um relacionamento pode vir a trazer coisas boas, então é natural desejar ter um e, portanto, procurar é a postura a ser tomada. Mas, com uma análise um pouco mais séria, percebe-se coisas diferentes.

Primeiro, um indivíduo precisa ser completo em si mesmo e não deve atribuir a nenhuma outra pessoa a função de completá-lo. Quem precisa ser completado é gente incompleta e dois incompletos não formam dois inteiros. Relacionamentos funcionam bem quando duas pessoas inteiras, completas em si mesmas, tomam a decisão de dividirem momentos, sentimentos e outras possíveis reciprocidades. As pessoas precisam vir pra somar e não pra remendar. Uma frase que é muito falada, mas pouco absorvida na prática, é: “Quando você aprende a ser feliz sozinho, ter uma companhia se torna uma opção e não uma necessidade.”. A partir disso, se extrai algumas conclusões: a felicidade vem de indivíduos autossuficientes e, portanto, que não dependem de ninguém mais para se sentirem inteiros. Isso não significa que todas as pessoas desacompanhadas serão automaticamente felizes e nem significa que pessoas felizes em si mesmas não possam optar por relacionamentos que também tragam coisas positivas.

Outra questão é que relacionar-se, seja por amizade, trabalho, sexo, romance ou o que for, é uma ocorrência derivada da existência humana e não a razão da existência humana. Na contramão disso, muita gente sai pelo mundo, equivocadamente, como se estivesse numa busca incessante de algo ou alguém. Olhando de fora, essas pessoas parecem ansiosas, angustiadas, despreparadas para o que encontram e, frequentemente, desconhecedoras de si mesmas sobre o que são, o que podem oferecer, o que esperam do outro e a quem podem suscitar interesse. Por vezes, essas pessoas encontram somente aquilo que não estavam procurando, afinal não haviam determinado bem o que buscariam, muito menos como. Outras vezes, por estarem compulsivamente engajadas em buscar algo extremamente específico, terminam por encontrar personagens caricatos e não pessoas reais.

Certa vez vi uma notícia de que um executivo havia tido a ideia de tratar a busca por um relacionamento como a administração de uma empresa. A obsessão pelas regras fez o sujeito considerar que a melhor opção para a vontade dele de se relacionar com a pessoa que fosse a “mais recomendável” pra ele, era, no final das contas, converter cada pessoa em mero dado e iniciar uma busca fria por resultados através de filtros, estratégias e nada mais. Não é preciso dizer que o rapaz continuou solteiro e que o que ele mais encontrou pelo caminho foi gente tentando se enquadrar em tais critérios para tentar “ganhar” a vaga de relacionamento e tirar proveito das vantagens financeiras e sociais de se “namorar” um executivo perdido e desesperado por um relacionamento.

Quando você está procurando relacionamentos, você se coloca numa postura específica de interação com as pessoas, o que ativa nas outras pessoas uma postura similar de reação. Acaba por ser um sintético jogo de análises para um objetivo claro de “dar um match“. Enquanto as pessoas dependem da naturalidade para se encantarem por alguém, encontram apenas artificialidade nesses modelos e acabam sempre insatisfeitas. São tempos estranhos, onde as pessoas cobram contextos para potenciais “candidatos” que sequer trocaram olhares, nunca sentiram o cheiro um do outro, nunca tiveram a sensação do toque, do calor ou da percepção da ‘química’ eventual entre ambos. De maneira muito irreal, atropelam premissas valiosas do contato humano e esperam que disso brote opções maravilhosas de relacionamento, como se, por trás de um aplicativo e algumas mensagens de texto trocadas, fosse sair a solução mágica para uma sociedade que está cada vez mais solitária, deprimida, mais viciada em eletrônicos, com cada vez menos atividade sexual ou com grande perda da qualidade do sexo.

Anos atrás fervilhava a novidade chamada ‘Tinder’, um aplicativo de celular onde os usuários poderiam visitar uns aos outros para aprovar ou recusar cada um, baseados principalmente numa única foto de referência e nada mais, praticamente. Tempos onde a atração sexual por um rosto tenta substituir o sentido de uma amizade, um relacionamento real pra romance ou mesmo de um sexo vindo de um contexto mais consistente (e mais interessante, eu diria). O número de pessoas decepcionadas com os frequentes desfechos incômodos dessa pseudo-socialização pode ser conferido pelos desabafos dentro e fora do ambiente virtual.

A minha descrença em sistemas aos moldes do Tinder sempre foi tanta, que eu me surpreendi ao saber que ainda hoje o aplicativo é usado pelas pessoas. Fiz papel de otimista ao achar que as pessoas haviam se apercebido, desde o início, qual era o objetivo dessa plataforma e quais as únicas possibilidades que poderiam brotar disso. Fui otimista em pensar que as pessoas, mesmo que estivessem equivocadamente buscando relacionamentos, tentariam, ao menos, usar de meios um pouco mais eficientes para se conhecer pessoas tal como elas são. Mas me jogaram na realidade dura, mostrando que, sim, as pessoas ainda se pautam por fotos de rostos para eleger alguém para uma possível conversa ou encontro. Não significa que isso não possa ser feito. Apenas significa que é surpreendente que um número massivo de pessoas ainda interprete esse modelo de “socialização” como algo padrão para nossos tempos. Fico com medo de que, daqui 5 ou 10 anos, as pessoas já não façam mais nem o sexo casual, substituindo tudo por virtualidades encurtadas, sem sabor, sem prazer e sem sentido.

No fim das contas, pra qualquer um que goste de se relacionar, a dica que eu possa dar é a mais simples, a mais repetida e também a mais esquecida ou ignorada, propositalmente por conveniência de muitos. A dica é exatamente não buscar relacionamento algum, não procurar, mas deixar ser encontrado, naturalmente. Deixe que as coisas fluam. Viva sendo você mesmo e aqueles que gostarem de quem você é e como você vive, estarão sintonizados em sua realidade, sua vibração, seus pensamentos, suas atividades, suas ideologias, suas iniciativas. Somos encontrados ocasionalmente no caminho para um curso ou durante um passeio em outro país. Somos surpreendidos por boas amizades, trabalho ou relacionamentos amorosos, através daquele primo do amigo, da tia do vizinho do motorista que nunca imaginávamos encontrar. Também somos surpreendidos por pessoas interessantes, em todos aqueles aleatórios lugares e contextos que não idealizamos, não pensamos e não procuramos especificamente. Apenas vivemos e nos deparamos com algo ou alguém que faz diferença pros nossos dias, que nos acrescenta algo de valor, naturalmente.

Muito mais importante que investir em fotos performáticas e outras ilusões, é investir na qualidade de si mesmo, na sua bagagem interior, na sua capacidade de rir de si mesmo, de driblar desafios, de prestar um pouco mais de graça e mistério naquilo que você diz, em como você aponta seu olhar pro mundo e pras pessoas, no companheirismo, na prestação da sua gentileza, da sua amizade, do seu apoio, da sua compreensão. Vale muito mais, inclusive para quem busca sexo casual, encontrar pessoas que vão transformar este momento em algo diferente, melhor, com possibilidades. Vale na vida, se entreter além do óbvio, porque a obviedade cansa, é maçante, não engrandece, não nos mantém nem firmes nem felizes. A obviedade desgasta, maltrata, encurta, empobrece, desmerece e retira o sentido da própria vida, das pessoas e dos momentos. Pode parecer pra muitos uma grande mera poesia, mas nada menos poético que grifar e gritar pela volta da realidade. Muita gente parece tão afobada e afogada que, provavelmente morrerão na praia, cansadas de serem levadas pelas ondas, tentando surfar, mas sem nem ao menos saber nadar.

Rodrigo Meyer

O medo de perder nos faz perder.

Algo muito comum de se ver são pessoas recuando em decisões, atividades ou relacionamentos pelo simples medo de perder. O que estas pessoas talvez não racionalizem é que este medo que as faz recuar, também as faz perder. Logo elas que não queriam perder, perdem antecipadamente por decisão delas mesmas. A princípio, uma contradição, mas o que explica isso é que, por trás do ‘medo de perder’, estão condutas automatizadas por traumas e condicionamentos que já afetaram a autonomia da pessoa. Assim, muitas dessas pessoas admitem abertamente estarem conscientes de que estão perdendo, mas preferem a certeza do ‘não’ do que a incerteza entre ‘sim’ e ‘não’, por puro medo da chegada do ‘não’. Mas como é isso? Como pode haver medo do ‘não’ se escolhem antecipadamente ele?

Geralmente, quando uma pessoa está neste contexto, ela traz consigo uma história marcante anterior que gerou esse trauma. Uma pessoa que tem medo de se relacionar por medo de perder o companheiro, evita entrar nesse relacionamento como uma forma de defesa inconsciente e, portanto, automática, devido a uma perda anterior, geralmente muito mais grave que um simples relacionamento de casal. Às vezes uma mulher que perdeu a figura paterna muito cedo ou em uma fase decisiva de sua vida, pode acabar tendo dificuldade de se entregar pra um relacionamento com outra figura masculina ou com qualquer pessoa que represente um vínculo ou laço afetivo muito grande. Ou seja, devido a possibilidade forte de que um relacionamento conduza a pessoa pra um apego ou envolvimento intenso com a outra, isso faz soar um alarme sobre um possível perigo, já que quando esteve apegada e envolvida intensamente com a figura que perdeu originalmente, terminou sofrendo com uma perda ou abandono.

A associação inconsciente nos traumas quase sempre é imprecisa e, devido ao impacto emocional intenso que o traumatizado verteu pra si, isso tudo tem menos racionalidade e mais emoção. A ocorrência original é sempre lida de maneira bastante simbólica e acaba por afetar, no futuro, contextos aparentemente diferentes, mas que, pela Psicologia, estão sempre vinculados como uma espécie de causa e efeito ou de simbolismo para o funcionamento da psique humana.

É fácil lembrar de casos de pessoas que, por exemplo, tiveram uma infância sofrida com problemas financeiros drásticos e que, por isso, desenvolveram algum trauma relacionado. De maneira similar ao exemplo anterior da perda de uma figura de referência, o trauma pela pobreza pode fazer uma pessoa ter medo de perder dinheiro. Torna-se, assim, avarenta ou muito controladora e, sobretudo, gananciosa ou ambiciosa. Embora nesse caso a pessoa esteja ganhando dinheiro ao invés de perder, ocorre um outro tipo de perda que não é financeira, que é a perda do bom uso do dinheiro. Uma vez que tem medo da perder tal riqueza, evita ao máximo aproveitar o que ganha com coisas prazerosas. Mesmo tendo condições, prefere não gastar com nada, já que toda compra potencialmente reduz seu dinheiro. Claro que esse medo é pouco racional, como todo trauma tende a ser, mas a pessoa pouco escolhe sobre isso.

Outro caso fácil de associar são os distúrbios alimentares. Pessoas que em algum momento se traumatizaram por seu peso corporal, podem vir a desenvolver uma obsessão pela magreza, chegando ao extremo da anorexia, por exemplo. Há casos de pessoas que abandonam a alimentação até figurarem em quadros médicos de vida ou morte. É tamanho o medo de engordar, que mesmo estando anoréxicas, podem ainda não ter uma visão correta de si mesmas na mente. Pessoas com este tipo de distúrbio podem ficar obcecadas com a perda de gordura que qualquer mínimo volume no corpo que não seja osso, as faz ficar em alerta automático, desejando ansiosamente por mais redução de medidas. Não é preciso dizer que isso é infindável e leva as pessoas a morte se não houver uma intervenção a tempo. De maneira igual, há pessoas que passaram fome em alguma fase da vida e pelo trauma sofrido desenvolvem uma compulsão por comida até se tornarem obesos mórbidos. Para ambos os casos, o tratamento psicológico do indivíduo é indissociável dos demais cuidados médicos.

Apresentei alguns exemplos de como traumas brecam a vida de um indivíduo. Este medo de perdas, seja de uma companhia afetiva, de um dinheiro, de um padrão corporal, de uma comida ou qualquer que seja o caso, leva a pessoa a ter outras perdas posteriores. É racional entender e respeitar que, por trás da conduta humana adoentada ou enfraquecida, estão questões que fogem ao controle de algumas pessoas e que, por isso, figuram em distúrbios e outras atitudes reativas. É compreensível que elas transformem-se em pessoas com algumas características mais acentuadas e é nosso papel estar de olhos e mente abertos, para poder recepcioná-las sem esperar delas mais do que elas estão dispostas a dar em cada momento. Sei que algumas pessoas não querem lidar com temas difíceis e muitas evitam qualquer tipo de ajuda psicológica, porque não querem tocar na ferida.

Tive a oportunidade de conhecer pessoas diferentes, cada uma com um destes diferentes contextos de trauma e pude ver de perto como isso impacta extensivamente o dia-a-dia delas. Ainda que  se escondam boa parte do tempo atrás de trabalhos, sorrisos e outras atividades, no fundo, vê-se, pelas reações e palavras, que estão em fuga de tudo que cutuque seus traumas de alguma forma. Vivem sob pressão do medo e frustram-se com a vida por estarem sempre em situação desfavorável para a vitória ou a plenitude. O emocional fica abalado, as pessoas podem desabar em depressão, vícios ou somatizar os problemas da mente em doenças e dores pelo corpo. Vi as pessoas armarem mil e uma justificativas para seus erros, medos, manias, vícios e até ataques, tudo fruto de uma vivência conturbada com o próprio inconsciente delas.

O medo afasta as pessoas do equilíbrio de si mesmas. Ele deixa as pessoas em estado de alerta ou paralisadas. Nunca as faz ficar tranquilas e felizes. O medo condiciona a mente humana a fugir de certos contextos, por mais que não seja a conduta ideal na vida. O medo priva as pessoas do bem-estar emocional, mental, social, assim como pode também ser uma terrível armadilha pra controle político e ideológico. É sob medo, que o pior acontece e é sob o medo que perdemos sempre. O primeiro passo pra nos livrarmos das perdas, é superando nossos medos.

Em casos de traumas por situações drásticas, a ajuda psicológica ou a reavaliação de si mesmo sozinho podem ser soluções que, uma vez alcançadas, você se tornará eternamente grato por ter tido a iniciativa de tentar. Para medos de cunho cultural, político e social eu recomendaria o exercício das próprias liberdades, procurando sentir-se pleno de seus direitos e poderes natos como humano livre que pretende ser. Ousar se torna a regra, se quiser superar as barreiras que antes tinham algum efeito sobre seu psicológico. A medida em que você vence monstros imaginários, percebe que eles são apenas isso: imaginários. Quando não conferimos valor ou poder a algo ou alguém que só detinha tal poder por um jogo psicológico, este algo ou alguém se dissolve no nada e, se for sensato, corre, pois, agora, ele é quem deverá ter medo dos que perderam medo dele.

Com este texto espero ter acendido em cada um de vocês uma motivação, um empoderamento para o controle de suas próprias vidas, para que tornem-se pessoas mais vivas, mais felizes, mais independentes, mais firmes psicologicamente e que, através das mudanças pessoais, consigam se tornar boas peças para a transformação social no mundo. Onde quer que você esteja, busque todos os recursos disponíveis para ficar de pé, burlando prejuízos e mergulhando fundo em seus potenciais. Apenas a motivação não garante nosso sucesso, mas sem motivação não chegamos longe.

Rodrigo Meyer

Atléticos suicidas.

Se formos bastante ingênuos, poderemos achar que as pessoas que praticam alguma atividade física estão, na maioria das vezes, buscando saúde e bem-estar. Claro que existem outros benefícios, tal como combate ao estresse, a raiva e até a depressão. Todavia, nunca imaginamos que muitas das pessoas que praticam atividades físicas regulares estão pouco interessadas de fato na saúde do corpo. Vou te contar de onde eu tirei essa conclusão.

Por muito tempo, devido as minhas atividades, estive sempre indo de um lado ao outro, principalmente de carro. Por onde moro, embora exista um grande parque florestal, vejo muito mais gente nas avenidas cheias de carro do que dentro do próprio parque. Fosse só a razão da locomoção e necessidade, faria todo sentido encontrá-las por lá no meio da fumaça dos ônibus, caminhões, carros e motos. Contudo, essas pessoas, estão sempre vestidas com roupas de academia, prontas para suas rotineiras caminhadas (e até corridas) ao longo da cidade.

“Estranhamente”, elas abrem mão do grande parque florestal, todo arborizado e próprio pra prática da caminhada. Mas é claro que, lá dentro, a visibilidade é pouca. Somente pessoas tranquilas desinteressadas pelo que os outros estão fazendo. Para esses atletas de avenida poluída, bom mesmo é caminhar à 20 centímetros dos escapamentos dos veículos, aspirando toda aquela fumaça tóxica enquanto seus corpos estão fazendo um esforço extra, demandando mais oxigênio. Para tais atletas, cultivar um infarto no coração ou um problema pulmonar é muito mais interessante e/ou aceitável do que se verem saudáveis, com a mente mais bem-resolvida, no conforto e benefício de um ambiente melhor.

Fica muito claro, pra mim, que essas pessoas não estão lá pela atividade física exatamente. Elas não visam nenhuma melhoria nesse sentido, exceto pelas rasas aparências. O que elas parecem buscar é tão somente a visibilidade, o exibicionismo diante de uma plateia gigante. Com tanto trânsito na cidade, elas se destacam com suas roupas esportivas, seus tênis especiais e sua inusitada atividade, disputando espaço nas calçadas com pedestres e figurando ao lado de uma infinidade de carros. Devem, talvez, sentirem-se muito notadas por toda aquela gente parada nos semáforos.

Vi isso a minha vida toda, praticamente, mas noto que se tornou mais frequente, de uns 15 anos pra cá. Não tem como não notar a contradição logo de cara. Em um ambiente barulhento, cheio de perigos de trânsito e uma poluição visível a olho nu, é impossível dizer que quem corre ou caminha ali por opção própria, está buscando algum hábito saudável pro corpo. E digo que pra mente, também.

O exibicionismo chega a tal ponto, que já perderam até mesmo os critérios para tal. Antes, imaginava que os exibicionistas estariam restritos aos que possuem bom porte físico. Mas, fica fácil ver que, não importa como estejam seus portes, se tiverem complexos que os tornem exibicionistas, farão isso até pelos motivos mais impensáveis. Há quem esteja lá justamente pra ser visto quando ninguém mais tem interesse de ver. Há quem esteja lá tentando convencer o mundo de que, atrás daquele corpo doente e cansado, está uma pessoa com hábitos nobres, distintos, acima da média das pessoas, ainda mais se comparado visualmente com os sedentários motoristas de carro ao lado.

Você deve se perguntar, como isso pode ser tão relevante. De fato não é, exceto pra essas pessoas que se forçam à essas rotinas. O prejuízo é todo delas e a relevância disso só pode existir e impactar pra elas. Claro que, contudo, existe uma rebarba de dano social, afinal, as pessoas que crescem assistindo essa imbecilidade acontecer, podem acreditar que isso seja viável, saudável ou interessante de se fazer. A imitação é uma das formas mais comuns de geração de cultura e o que mais me preocupa é que as gerações seguintes perpetuem essa tendência obscura de atletismo suicida.

Não precisa ser nenhum cientista, médico ou gênio pra perceber que essas práticas estão deixando muita gente na beira de doenças. Somar uma prática dessas com todos os outros problemas que já são pressupostos em uma grande cidade, é uma receita garantida pra desenvolver problemas de ordem psicológica e física. Embora seja num ritmo mais lento, esse ato é como um suicídio. Em algum momento as pessoas escolhem impor um dano concreto à si mesmas até que sejam “surpreendidas” por um efeito que as mata.

Longe de mim querer ser o controlador do que as pessoas fazem com seus corpos. Se as pessoas optam por comer o que comem, beber o que bebem e ter os hábitos que tem, elas estão livres para tal. Acredito que cada um escolhe o modo como interpreta e leva a vida. Estou longe de ser aquele que tem respostas pra tudo e que vai poder dizer que um suicídio, mesmo que lento, não seja uma alternativa para a realidade dessas pessoas. Isso quem deve definir é cada pessoa e elas já fazem isso.

Atualmente eu não sou uma pessoa cheia de hábitos saudáveis, porém, tudo que eu faço está atrelado à alguma necessidade, seja social, física ou psicológica. Pensando assim, somos todos iguais. O que difere nossas realidades é o propósito e a intensidade dos danos. Me permito comer massas e frituras, eventualmente, mas nunca me imaginaria correndo ou caminhando por opção em uma avenida poluída. Vejo que meu tipo de suicídio indireto é muito mais sutil e demorado. Não me vejo morrendo por problemas pulmonares ou cardíacos tão cedo, embora já tivesse feito uso de tanto álcool no passado que imaginava, na ocasião, que meu desfecho seria precoce e atrelado à esses hábitos.

A vida passa e a gente clareia a mente. Hoje em dia eu bebo muito esporadicamente e procuro ser um pouco mais ativo fisicamente, pelo menos pra manter meu metabolismo em funcionamento e ter mais disposição. Me alimento bem sempre que posso e procuro me manter em paz com a minha mente. Em resumo, a sociedade vai mal quando as pessoas vão mal. Ambientes e pessoas desinteressantes tornam a vida desinteressante e, por isso mesmo, causa comportamentos desastrosos, o que só alimenta o efeito bola-de-neve. Vamos tentar sair desses ciclos e incentivar que as pessoas sejam melhores para gerar um ambiente melhor? Que tal começarmos agora mesmo?

Rodrigo Meyer

Silêncios são melhores que ruídos.

Quando o assunto é comunicação e interação, muita gente acredita que diante da impossibilidade de fazer o completo e/ou ideal, qualquer coisa é melhor que nada. E não é bem assim. Vamos pegar a música como analogia. Se você não pode criar algo harmonioso que valha a pena ser ouvido, qualquer tentativa insuficiente não ficará no meio do caminho entre péssimo e ótimo. Um chiado de rádio fora do ar nunca foi 50% bom na escala de música. Tudo que não cumpre bem-estar a quem recepciona, não está minimamente aceitável para aquela finalidade.

Outra analogia seria a própria matemática para a Engenharia. Não tente construir uma peça com medida diferente da necessária ou fora da margem de tolerância. Se aquilo não cumpre a função mínima necessária, não servirá. Não existe como dizer que uma roda cortada ao meio como uma meia-lua, possa ter metade da função de uma roda plena. Aceite.

Por características pessoais, os ruídos são bem mais incômodos pra mim do que pra maioria das pessoas. Entro em profunda irritação com sons estridentes, berros, cães latindo insistentemente, alarmes, muitas pessoas falando ao mesmo tempo e todo tipo de desastre de comunicação. Independente das minhas características, pode-se analisar a questão do ponto de vista da necessidade e eficácia.

Você nunca verá, por exemplo, chover ouro e soluções quando um cachorro passa 4 horas incessantes latindo. O cachorro é o que menos tem culpa nisso. Ele age instintivamente reagindo em defesa de algum suposto estranho ou inimigo, fazendo o papel ao qual ele se vê encaixado, protegendo o território dele.

Você nunca verá alguém com verdadeiro interesse em aprender ou ensinar, debatendo qualquer pseudo-conversa que seja, por meio de gritaria ou com todos falando ao mesmo tempo. Isso não leva a resultado positivo nenhum e é apenas total perda de tempo mesmo. Pessoas que podem escolher como se portar e agem com essas práticas, estão dando vazão pra própria imbecilidade e descontrole. Essa impulsividade descontrolada nunca fez o salário de ninguém aumentar de forma lícita, nem nunca fez com que uma ideia fosse melhor compreendida por ninguém. É só uma chateação a mais de gente que não tem noção e respeito pelos ambientes onde está.

Você também já deve ter visto situações onde as pessoas aumentam o som do carro em tal altura, que pra tal feito precisam de amplificadores e baterias adicionais. Não satisfeitos de apenas gastarem o dinheiro em vão, tentam fazer isso com algo que importuna a quase todo mundo por onde passa. Quem faz isso tem a mentalidade equivocada de que chamar a atenção é sinônimo de sucesso, mas a única verdade que podemos extrair disso tudo é que pessoas assim, com complexo, que precisam colocar uma melancia na cabeça pra aparecer, só conseguem repelir as outras pessoas enquanto atrai somente pessoas vazias e complexadas como essas. Forçar alguém a ouvir o que você está ouvindo não é só egoísmo e necessidade de chamar atenção pra si, mas é uma das formas garantidas de confirmar sua imbecilidade. Não seja essa pessoa, a menos que seu foco seja em fracassar. Se for esse o caso, fracasse longe dos ouvidos de quem não tem culpa pelas suas questões mal resolvidas.

Então, quando você notar que não consegue apresentar algo agradável aos demais, prefira o silêncio. Não consegue evitar que seu alarme dispare todos os dias, pois não tem tempo ou vontade de consertar o defeito? Desligue o alarme, pois se o alarme não está cumprindo a função real dele, então ele não te serviu de absolutamente nada e não faz sentido gastar eletricidade com algo 100% inútil. Poupe o ouvido de seus vizinhos e seja alguém menos detestável.

Quando não conseguir conversar de maneira agradável com alguém, feche a boca e fique em absoluto silêncio. Observar e ouvir vão te dar opções muito valiosas pra compreensão de inúmeras coisas sobre a vida e as pessoas, mesmo que as pessoas estejam simplesmente falando bobagens. Aliás, quando as pessoas estiverem desinteressantes pra você, sinta-se no direito de mudar de companhia, de ambiente, etc. Você não é obrigado a debater com alguém ou ouvir o que as pessoas tem a dizer. Se todas as pessoas do mundo soubessem o valor do silêncio, menos conversas desgastantes seriam traçadas em vão.

Não consegue compor uma música? Cante no chuveiro, cante só pra você, mentalmente ou simplesmente não cante. Que tal transformar sua inabilidade pra cantar em uma dança ou texto? Ou então, se quer persistir na música, aprenda os meios de torná-la melhor. Incentivo completamente que as pessoas busquem seus talentos e desenvolvam suas habilidades, mas não há necessidade de estorvar ninguém com barulhos que não agregam nada. Quando as pessoas tem o mínimo de noção e perdem o egoísmo, superando complexos e fraquezas, fazem um melhor papel na sociedade, estorvam menos e se tornam mais úteis e queridas. Todos saem ganhando.

Os ruídos também estão presentes em outras formas que não o som. Chama-se de ruído tudo aquilo que é secundário e inconveniente. Um ruído é um estímulo ou conjunto de estímulos que fica em torno de algo ou alguém. Excesso de fios e placas numa cidade podem ser considerados ruídos. Chuvisco e granulações em imagens são ruídos. Também são ruídos toda diversidade de pequenas coisas que ocorrem pelo mundo que, quando somadas, tornam-se uma malha de incômodos que destoa da experiência pura ou limpa de algo. Pra quem é mais antenado com a área de Design Gráfico, já deve ter ouvido o termo ‘clean‘ pra se referir a um estilo de gráfico mais “limpo”, com menos elementos ou até mesmo ‘minimalista’. A experiência se torna mais agradável pros olhos e pra mente quando você simplifica e reduz o excesso de informação, a poluição visual e o excesso de estímulos, seja em cores, variações de fontes, quantidade de imagens, formas, texto, texturas, etc. É o caso de dizer que ‘menos é mais’, uma frase bem famosa no meio de criação.

Juízo, pessoal. Nos vemos em breve.

Rodrigo Meyer

Esse é o título. O texto vem a seguir.

Tão importante quando o texto em si, são os títulos que os representam. Quando você entra em uma livraria e se depara com toda aquela profusão de capas, algo te puxa a atenção pra um livro em particular. Você começa sendo guiado pela capa ou lombada e logo em seguida confere o título pra ver do que se trata. É o título que pode te fazer querer consumir aquele livro ou não. É ele a fronteira entre a capa e o conteúdo. E isso serve também pra conteúdos na internet, como as imagens de miniatura de um link compartilhado e sua respectiva descrição / título que acompanha.

Um título eficiente precisa comunicar um pouco do que o texto vai trazer e ter alguma criatividade pra não ser um rótulo técnico e banal que poderia, facilmente, ser substituído por uma sequência de números ou um código de barras. Existem títulos que são muito mais persuasivos para levar as pessoas a ler um livro ou clicar em um link de conteúdo. Mas, muitas vezes, esses títulos fazem uso de sensacionalismo. Para títulos assim (e também para as imagens que os apresentam), chamamos popularmente na internet atual de “click bait”, ou seja, uma isca de cliques. Basicamente tentam atrair a pessoa com algo muito ‘apetitoso’, despertando não só a curiosidade como um micro-prazer em explorar aquela curiosidade. Contudo, o motivo de seu nome é descoberto a partir daí, pois depois de clicar pra ver o conteúdo, percebe-se que não era tudo aquilo e que o título superestima o momento e conteúdo, transformando ervilhas em elefantes e biribinhas de festa junina em explosões atômicas. E a decepção vem, mas já é tarde demais, pois você já absorveu o conteúdo, deixando sua visualização naquela mídia.

Em tempos onde as pessoas vivem de estatísticas pra suas monetizações de conteúdo, atrair incautos pra suas mídias sensacionalistas é quase que uma unanimidade. De maneira similar, impressos como os tabloides americanos e alguns jornais brasileiros, alicerçaram suas rendas na venda desses entulhos sensacionalistas. As pessoas se impactavam pelo absurdo e adquiriam o material pra sanar a curiosidade.

Uma vez que os criadores de conteúdo sabem como as pessoas vão lidar com esse tipo de mídia, tornam-se responsáveis eticamente perante seu público. É extremamente difícil criar um título pra qualquer coisa que seja. Interpretar um valor, um evento, um livro, um vídeo ou filme do cinema, exige compreensão da essência por trás de toda aquela mensagem. Às vezes uma sequência de conteúdos é absorvida com entusiasmo, porque o autor dos conteúdos é mais forte do que qualquer título. Se Bill Gates lançasse um livro escrito “Livrinho 1 – por Bill Gates”, as pessoas teriam curiosidade de saber o conteúdo desse livro, pois independente do título, o autor é alguém relevante tanto pra fãs quanto pra opositores. As pessoas querem saber o que o homem mais rico do mundo tem a dizer. Talvez o título ruim possa ser até mesmo um motivador adicional para a curiosidade, pois não se espera que um milionário não consiga algo melhor pra suas mídias. Mas, se você é um anônimo e está tentando ganhar visibilidade no meio, você dependerá muito da sua melhor apresentação de suas mídias.

Como criar um conteúdo que seja atrativo sem tornar-se sensacionalista ou apelativo? Esse é o grande embate. Eu procuro repensar bastante os títulos finais de tudo que eu produzo, mas às vezes essa tarefa pode ser mais demorada do que a criação do próprio conteúdo em si e, por isso, muitas vezes sou obrigado a simplificar e deixar títulos mais diretos que estejam relacionados com o objetivo óbvio do texto. Mas a obviedade não é atraente, não é instigante, não é criativa, não é viva. Por vezes, sem querer, os títulos podem parecer um pouco sensacionalistas, devido a natureza do texto e por como certas menções no título se tornam indispensáveis ou mesmo o caminho mais fácil pra descrever seu conteúdo.

Algumas pessoas se acham geniais por conseguirem administrar bem essa exploração de click baits, mas, na verdade, são apenas pessoas sem ética que aceitam com tranquilidade forjar conteúdos para parecerem mais interessantes do que são e lucrarem com esse crescimento fácil. Pessoas desse tipo, não estão preocupadas se seus conteúdos prestam ou não. O objetivo delas não é entregar conteúdos relevantes, mas apenas te fazer absorver esses conteúdos, plantando em você a curiosidade diante do sensacionalismo. Vê-se claramente que isso dá resultados entre uma população que é pouco regrada e que tem uma ingenuidade e credulidade exacerbada. A idiotice humana sempre rendeu muito lucro e poder para uma minoria de exploradores dessas massas idiotizadas. O ser humano que pouco questiona o que se apresenta diante de si é o candidato perfeito pra endossar conteúdos vazios e ajudar a propagá-los.

Se o seu conteúdo estiver a altura de um título atraente e criativo, é possível que ele seja adequado sem cair em algo apelativo ou com prejuízo da ética. Não existe uma fórmula específica. Há de se colocar no papel do público e imaginar como seria se deparar com o título e imagem de algo pela primeira vez. Que impacto e sentimento aquilo causaria em determinados tipos de pessoas? Que outros valores e sentimentos essa combinação suscita a quem vê? Entender a psicologia por trás do que criamos é importante para sabermos como somos vistos e como impactamos o mundo. Que legado estamos deixando? De que maneira estamos buscando nossas supostas vitórias? Essas reflexões são urgentes. Em tempos de internet onde as pessoas tendem a imitar casos famosos, o exemplo é essencial.

Quando você se sente enganado com um título ou imagem sensacionalistas e apelativos, depois de compreender que o conteúdo está distante da proposta inicial, você reage como? Você endossa essa mídia mesmo assim? Você boicota tal mídia? Você inspira outras pessoas a seguirem caminhos melhores? Qual seu papel no mundo? Se todos tivéssemos equilíbrio e ética naquilo que produzimos, não veríamos necessidade de tentar buscar sucesso por meio do egoísmo que é tentarmos vencer a qualquer custo, mesmo que isso envolva pisar e usar os outros. Comece a repensar sua conduta, porque até mesmo os melhores e maiores prédios que a Engenharia pode produzir, ainda podem ruir se o solo em que estão alicerçados for insuficiente pro peso. Diz-se que quanto mais alto subimos, maior será o dano na eventual queda. Então, suba sem colocar sua qualidade estrutural em risco e tente vencer da forma correta, pelos motivos corretos e ao lado das pessoas e não contra elas. Você não precisa explorar ninguém pra vencer. Lembre-se do conceito de Ubuntu, onde o coletivo trabalha pra vencer junto e não pra competir entre si. Se todos se derem as mãos pra chegar em lugares melhores, nunca faltará apoio e sucesso pra todos. O bem-estar maior é quando não só nós vencemos, mas todos ao nosso lado também. Vencer sozinho é egoísmo. Vencer junto é paraíso.

Rodrigo Meyer

Porque corto meu próprio cabelo?

Esse não será um texto destoante dos demais conteúdos meus, pois não vim trazer nenhum tutorial de beleza ou dicas do tipo. Vim contar um pouco sobre relações sociais e o descontentamento com certas tradições que pouca gente questiona.

Eu nunca tive o hábito de ir ao cabeleireiro. Quando mais novo, esses momentos eram bem fora da rotina de outros parentes ao redor. Eu simplesmente não me importava muito com isso e estava confortável com a ideia de que cabelos crescem e mudam. Lembro de situações da infância e adolescência onde cortei meu cabelo sem nenhum cuidado específico e me senti bem com o resultado. Isso não quer dizer que eu tinha algum talento pra ser cabeleireiro. Muito pelo contrário. Eu simplesmente não tinha disposição alguma pra todo aquele elaborado processo de moldar um cabelo ou penteado e encontrava na tesoura doméstica a maneira mais breve e simples de agir sobre o assunto.

Depois de crescido, raramente estive num salão pra cortar o cabelo, exceto se precisasse, por exemplo, raspar toda cabeça com uma daquelas máquinas elétricas. Houve um tempo onde manter os cabelos raspados era uma forma de liberdade pra mim, pois me irritava com os cabelos caindo ao olhos. Ainda hoje isso me incomoda e soluciono com um elástico. Já tive cabelos longos até o umbigo, mas o calor me venceu e eu acabei desistindo. Embora fosse libertador não ter que cortar o cabelo nunca, o cabelo longo me fazia passar por irritabilidades no vento, com cabelos voando pela minha cara. Me cansava da aparência dos cabelos presos e, por fim, acabei cortando pra me livrar de tudo isso. Atualmente tenho os cabelos acima dos ombros.

Diferente do que muita gente possa imaginar, cortar os próprios cabelos não é nenhum passo em direção ao caos e não significa que eles ficarão feios. Além dos padrões de beleza serem relativos, é importante destacar a principal característica de um cabelo cortado de maneira informal por você mesmo: eles ficam com aspecto natural como se estivessem um pouco crescidos e revirados.

Quando você corta seu cabelo com um profissional, geralmente ele vai moldar seu cabelo de tal maneira que tudo ali vai parecer um desenho geométrico. Você entra natural e sai meio robotizado. Há estética nisso também, mas não é o que reflete minha personalidade e estilo de vida. Citar famosos como referência seria, ao mesmo tempo, pretensioso e contraditório, pois o estilo deixado aos meus cabelos são bem mais reflexo de um acaso e boemia do que qualquer busca de referência. Talvez no inconsciente isso tenha alguma passagem por certos valores e associações de imagem, mas pra mim, ao dia-a-dia, apenas deixo meus atos e realidades internas se destacarem por cima dessa carcaça.

Somos um mundo abarrotado de gente que se enforca na busca obstinada por padrões estéticos, beleza e padrões sociais. Pra mim, tudo isso me embrulha o estômago. E quando foco meu pensamento na beleza, ironicamente, quase nada do que vejo ao redor se enquadra no que eu julgo belo.  As pessoas se tornaram todas iguais e a personalidade se foi. Por onde eu olho, as pessoas tem o mesmíssimo corte de cabelo, com os mesmos milímetros de dimensão de suas franjas e topetes. Padronizaram as sobrancelhas de tal maneira que, alguns chegam a tatuar uma forma definitiva na região. As pessoas estão se robotizando e se enquadrando em um padrão de estética que não diz nada sobre elas, exceto sobre suas fraquezas diante da padronagem social.

Pra mim, não cortar os cabelos ou cortá-los somente em casa de maneira completamente improvisada é a certeza de que minha essência estará lá, apesar da tesoura. Ao não controlar demasiadamente o que a natureza deixou de marca em mim e apenas moldá-la conforme minha personalidade, é a garantia de me sentir enquadrado no meu próprio universo de satisfação e expressão. É por meio das minhas características únicas que eu serei visto como eu e não como mais um entre tantos outros humanos produzidos em série.

Quando as pessoas tem pouco amor-próprio, elas dão muito mais valor ao externo do que a elas mesmas. Quando isso ocorre, os padrões sociais de estética e conduta tendem a prevalecer para essas pessoas e elas encontram até mesmo um sentimento de pertença coletiva, quando estão inclusas nesses moldes. A mesmice as faz sentir que elas estão finalmente aceitas e em conformidade com o que a sociedade espera delas. Possuem pouca autonomia pra fazer a vida acontecer conforme suas próprias vontades, pois não prezam mais pelos seus interesses. A falta de amor-próprio varre pra longe essa prioridade em si mesmas.

Existem dois motivos para a admiração de quem tem estilo próprio e personalidade. Pode ocorrer por concordância e valorização disso como ideal em cada indivíduo ou pode ocorrer como uma contemplação ao inalcançável, como se viver pautado em personalidade própria fosse algo que a pessoa não tem capacidade ou alcance pra exercer. Eu quando vejo alguém único, me sinto presenteado com arte. A personalidade de alguém que não se dobra a padrões inúteis, me deixa encantado por essa pessoa. Já quando olho alguém que parece ter sido produzido em série, me sinto repelido e decepcionado. Vem em mim uma certeza de que ali está uma pessoa vazia, sem vontade própria, sem conteúdo, sem amor-próprio, sem experiência na vida, sem vivências consistentes, sem grandes prazeres, sem segurança, sem valores, ou seja, sem personalidade.

Não me considero o ápice de originalidade e nem tenho uma personalidade tão profunda como já vi em diversas pessoas. Mas não tomo isso como objetivo ou competição. Tudo que sou, está sendo quase que por acaso. Não interfiro muito em quem eu sou, exceto se for pra me reaproximar de minha própria naturalidade. Tento me tornar mais próximo de mim mesmo a ponto de minha expressão ser automática. Gente que se planeja demais para existir, acaba se esquecendo de quem realmente é.

Sou um grande apreciador de culturas, subculturas, estilos e estéticas, mas desprezo de forma ferrenha a repetição pelo padrão. Me cansa chegar em um bar ou casa noturna e me sentir diante de uma prateleira de supermercado onde tem uma fileira de 100 produtos idênticos lado a lado. Talvez isso não seja tão óbvio quando olhamos as pessoas variando um detalhe ou outro, mas pare pra reparar que, ao longo de uma semana ou mês, basicamente essas pessoas estão rodando em torno de um tema central, uma mesma realidade, com seus mesmos tons de roupa, o mesmo corte de camiseta, mesmo formato de barba, de óculos, de sapato, etc.

Por onde olho, só vejo pessoas que sucumbiram a produtos de massa que, pra viabilizar a produção em série, instituem padrões de consumo de tempos em tempos pra que as pessoas, de forma massiva, absorvam toda aquela produção barata e mecanizada. As pessoas já não definem uma estampa própria para suas camisetas e, muitas vezes, não conseguem sequer se verem livres de uma imensa propaganda da própria marca de suas roupas, estampadas por quase toda área da peça. As pessoas já não vestem uma roupa pelo seu estilo, mas apenas pela marca que possa ser exibida nela para que toda sociedade veja. Não é necessário nem útil citar quais marcas figuram nesses padrões, pois é tão recorrente em nossas sociedades que certamente todos já sabem. Eu é que não preciso dar visibilidade desnecessária pra essas bobagens.

Eu teria vergonha de pagar caro pra ser um outdoor de propaganda gratuita pra qualquer empresa que fosse. Muitos clientes se tornaram tão escravos que aplaudem as próprias empresas que os explora. São explorados na venda, na propaganda, na inserção do padrão social de estética e consumo e, por fim, são explorados até mesmo quando são colocados pra prestar propaganda gratuita a estas mesmas empresas. Quando alguém se apaixona pelo seu próprio opressor, dá-se o nome de Síndrome de Estocolmo. Se for o seu caso, busque ajuda.

Rodrigo Meyer