O Brasil atual: muito além da pobreza financeira.

A imagem que ilustra este texto é uma adaptação de parte das gravuras de Gustave Doré em “A Divina Comédia” (1861-1868), onde vê-se Charon chegando para transportar almas través do rio Acheron para o Inferno.

Estamos nos aproximando das próximas eleições do Brasil e, devido aos acontecimentos dos últimos anos na política nacional, estamos atualmente num cenário cada vez mais deplorável, enquanto alguns fingem que querem arrumar tudo isso, porque são covardes demais pra dizer o que realmente querem, ao lado estão os corruptos nadando solto, não investigados ou completamente ignorados pela pseudo-Justiça que passou os olhos por estes, rindo da cara dos apoiadores cegos e/ou cúmplices do crime, usando a velha estratégia de apontar pra qualquer inimigo convenientemente inventado, pra desviar a atenção de si mesmos e de seus atos criminosos. De um lado está o brasileiro médio de direita, o clássico racista, xenófobo, machista, analfabeto político, viciado em dinheiro e violência, se masturbando mentalmente diante do caos. Do outro lado, diametralmente oposto, está uma esquerda cansada de tanto tentar um caminho que, pelo menos, seja tolerável pra todos. Tal tarefa, nada fácil e, por vezes, nada coerente, espantou muitas pessoas pra fora das políticas convencionais e abriu portas para um celeiro de problemas que estavam encubados na sociedade.

O Brasil sempre foi um país de péssima qualidade de ensino e estrutura social. Mesmo nos tempos áureos de quando ‘ensino público’ significava ensino de melhor qualidade que o ensino particular, já se tinha uma defasagem brutal sobre o necessário. Não atoa, nos tornamos o que nos tornamos. Estamos caindo de um abismo dia após dia, tentando nos enganchar em alguma pedra que nos freie um pouco ao menos, porém caímos com velocidade suficiente pra levar até mesmo as pedras do caminho pro fundo do abismo.

Em algum momento, no final de 2015 e 2016, o Brasil se deparou com um teatro que já estávamos à espera de acontecer. A direita brasileira, inconformada em não ter mais espaço pra agir na corrupção com tanta liberdade, começou a forçar este espaço, removendo à força as barreiras. Deu-se início a derrubada do governo que mais investiu em mecanismos de investigação e combate à corrupção. Foi exatamente isso que culminou na cartada final de recusa do governo de Dilma Rousseff e também da candidatura da próxima figura provável a substituí-la em uma eleição, Lula. Assim que os corruptos encontraram algum pretexto para a derrubada desta barreira, vestiram-se de péssimos atores e se posicionaram como heróis pra uma classe de pessoas que ou não compreendiam absolutamente nada de política ou eram perfeitamente cúmplices dos crimes ali praticados em nome da pseudo-necessidade de combater uma má gestão política ou os rumos do país. Atrelados a discursos que transbordavam chavões e frases decoradas criadas pelos seus ventríloquos, os bonecos manipulados se tornaram muitos. Foi basicamente como ver um aglomerado de moscas encontrando fezes em abundância com respaldo forjado da constituição, a mesma constituição que foi rasgada na ocasião do golpe político nomeado de ‘Impeachment’, para dar um ar de legalidade ao feito e dar algum alívio pras marionetes que, de tão covardes, não conseguiriam admitir as verdadeiras intenções, ideologias e modus operandi na vida, já que, pra estes, a fachada é muito mais importante que a realidade. Pra este tipo de gente, não há problema algum em racismo, homofobia, machismo, xenofobia, ódio de classes, corrupção e falsa religiosidade, pois só o que os incomoda é ter que nomear todas essas características com estes reais nomes, ao invés de máscaras inúteis que nem eles e nem os opositores acreditam ou se importam. No fim, só estão tentando completar algum capricho diante do próprio medo de se classificarem como realmente são. De maneira análoga (e isso inclui até mesmo muitos dos já citados), ocorre com os pseudo-cristãos que, na hipótese de retorno de seu suposto ídolo central (Jesus Cristo), o odiariam e o perseguiriam até a morte por tudo que ele é e representa. Ironicamente, as pessoas que mais abominam a ideologia de Cristo, estão entre os que se dizem cristãos. Essa aparente contradição, na verdade se explica pelo fato de que todos estes, na verdade, são completamente ateus, mas encontraram um esconderijo parcialmente conveniente atrás dessas etiquetas, como uma forma de continuar a exercer de forma compulsiva a hipocrisia.

Mesmo que você alegasse à eles que estes rótulos falsos são desnecessários, eles não teriam a minúscula coragem de abandoná-los na hora de forjar um igualmente desnecessário personagem social. Para eles, esse joguete de palavras, bordões, máscaras, etiquetas, nomes e denominações, são puro prazer. É como o prazer de ter algo simples que não exige complexidade de pensamento algum. É o prazer obtido em não precisar pensar uma senha de 8 dígitos segura, enquanto ainda puderem usar uma senha altamente insegura de 2 dígitos. É o mesmo prazer de só terem que se preocupar com a primeira e única definição do dicionário sobre um determinado verbete e, assim, não terem que lidar com a complexidade de significados que ‘fobia’ traz como sufixo de palavras. São as mesmas pessoas que gostam de polir a ignorância com cera de demência, ao tentar dizer que hidrofobia é somente ‘medo de água’, quando na verdade, um material hidrofóbico pode ser, por exemplo, também um material que repele a água. Para os menos esclarecidos, por pura conveniência em continuarem ignorantes e simplistas, um tecido hidrofóbico seria um tecido que tem medo de água, pois tudo que eles aceitaram convenientemente aceitar é que ‘fobia’ só pode representar medo, pois assim facilita a tentativa de inventar argumentação para a ‘homofobia’, por exemplo, bastando citar, pateticamente, que não possuem medo algum de homossexuais, portanto não sendo homofóbicos. Este foi um simples exemplo da estrutura de pensamento que percorre as mentes bizarramente fracas e/ou desonestas dessa massa de manobra que espuma ódio e tristeza, cujos membros continuam deprimidos e infelizes tanto em ver a si mesmos longe de qualquer plenitude, como por ver que suas presenças só visam destruir a conquista alheia. Cientes de que nunca ganham por lado nenhum, precisam, constantemente, compensar essa insatisfação, inventando metas constantes de “vitória”. Para alguns, vencer é ver o opositor atacado, é ver uma feminista estuprada, é ver um pobre morto, é ver um libertário agredido, é ver um opositor preso ilegalmente, é todo mundo odiado por exporem as feridas da sociedade que os frouxos não possuem coragem e/ou competência de resolver.

Atualmente passamos vergonha internacional, por figurar em todos os noticiários  estrangeiros como o país que chafurda no terrível contexto absurdo de ter que escolher se elege pessoas tentando um plano de governo ou elegem uma figura que, sozinho, por conta própria, se orgulha em dizer que não tem nenhuma capacidade de governar, nenhum conhecimento sobre política e que só estará presente em entrevistas e debates para responder estritamente o que achar conveniente, já que notou que passou vergonha imensa ao não saber sequer responder perguntas simples e banais sobre a realidade política do país e as metas e/ou pensamentos para o suposto governo pretendido com estas Eleições de 2018.

Enquanto o brasileiro conquista novos níveis de recusa em vários países da Europa e do mundo, por conta das insanidades ditas, apoiadas e replicadas dentro e fora da internet, os próprios indivíduos que são o motivo desses problemas, estão tão cegos sobre sua própria condição de ignorantes que jamais teriam como parar, sentar e refletir o quanto são inaptos a opinar, pensar, planejar, decidir ou votar sobre qualquer assunto que envolva a realidade. Antes fosse isso uma mera ofensa, dessas que se joga em cima do balcão de um boteco. Seria menos trágico. A realidade é que, ter que dizer essas verdades, não me agrada em nada. É deplorável e desesperador ter que constatar que o brasileiro médio é uma fábrica tragicômica de problemas. E é tão real, que o simples fato de eu explicar isso, faz brotar pessoas argumentando que eu só digo isso pra tentar atacá-los ou adjetivá-los. Mal sabem que, o meu maior sonho, assim como de muitos outros é justamente não precisar mais descrever o brasileiro médio da forma como ele tem sido até hoje. Quisera eu poder escrever um texto ainda em vida, com a grata oportunidade de descrever o brasileiro como alguém que verdadeiramente recusa corrupção, que tem autonomia de pensamento, que consegue argumentar com lógica e se abstém do uso de falácias, bordões, frases fabricadas / frases de efeito, que consegue interpretar um texto ao invés de se transformar numa máquina veloz de deturpação, dedução rasa, equívocos e desprezo pela Literatura, Filosofia, Sociologia, Economia, Política, Ciência, etc.

No ritmo que as coisas estão, eu não tenho muita esperança de que eu verei o Brasil melhorar nos aspectos mais urgentes. Continuaremos a ver as pessoas voltarem pra antes da Idade Média, onde ainda se discutia se a Terra era plana ou não. Estamos cercados de pessoas odiosas, que não somam absolutamente nada em setor nenhum, que pesam imensamente nas costas de todo e qualquer outro ser vivente, ainda que pesem mais em uns que em outros, conforme o nível de contraste de prática e pensamento. Vivemos em tempos onde as pessoas ainda precisam de rótulos e, pior que isso, de rótulos que expressam o oposto do que são. A humanidade cruzou tantas e tantas eras e parece que, de tempos em tempos, regredimos ao passado remoto. Talvez seja isso que explique como tardamos a descobrir estrelas que as civilizações antigas já conheciam bem. Talvez esse seja o motivo de tecnologias antigas precisarem ser redescobertas por já terem ficado perdidas e desaprendidas. Idiomas são mortos, livros se perdem, habilidades são esquecidas e, no final das curtas contas, parece que o ser humano não sabe mais usar a única parte do corpo que verdadeiramente teria algum potencial especial: o cérebro. Estamos abrindo mão da nossa melhor ferramenta de construir um mundo decente que nos provenha conforto e facilidades, em detrimento do nosso vício de continuarmos sendo usados, feito as pessoas com distimia que são carregadas pelas situações, sem um posicionamento marcante ou autônomo. O ser humano parece estar dopado, sendo levado pelas asneiras de meia-dúzia de infelizes que querem o dinheiro e a disposição deles gastas em propagandas “espontâneas” e gratuitas, tal como ocorre na vítima de Síndrome de Estocolmo, que se dispõem a falar bem de seu próprio opressor, simplesmente por estar completamente incapacitada de enxergar sua própria realidade e condição. Na ausência de sensores que lhes acusem a realidade, as pessoas boiam nesse mar de sangue e ignorância, sentindo-se no controle de tudo e dando como “prova” desse controle, as linhas que não partem de suas mãos, mas das mãos dos ventríloquos que lucram (e muito) às custas dos apoiadores. Mais intrigante do que ser um ignorante desonesto rico é ser um ignorante desonesto pobre. Meia dúzia ocupa as pseudo-lideranças e o restante da massa de manobra continua ocupando a base da pirâmide, longe de qualquer verdadeira qualidade de vida.

Não é de se espantar que, nos últimos anos, houve uma onda imensa de migração de brasileiros reacionários, pseudo-patriotas, tentando a vida no exterior, bem longe da imundice que ajudaram a disseminar no Brasil, mesmo sabendo que lá fora teriam condições deploráveis de trabalho e ainda teriam que se contentar calados com governos expressamente contrários a sua ideologia. Os mesmos brasileiros que gritavam contra o projeto “Bolsa Família” no Brasil, simplesmente por este ter sido ampliado pelos governos opositores, desejam ardentemente receber similares benefícios nos países alheios, sem nenhuma objeção ou constrangimento. Isso reflete que a questão nunca foi sobre um verdadeiro posicionamento sobre política ou administração, mas simplesmente o resultado randômico de serem papagaio de piratas a vida inteira, marionetes em território nacional, em um contexto específico forjado que evidenciou que eles foram jogados a vida inteira contra um país deteriorado, contra monstros imaginários, para gastarem o tempo guerreando ao invés de notarem que estavam sendo saqueados e tendo seus direitos e valores eliminados. Com o tempo, se deram conta que andar pra trás não ajudava a chegar em objetivo nenhum e que, na verdade, muitos que se achavam ricos, eram tão pobres quanto os demais a quem eles insistiam em desprezar, odiar e enxergar como inimigos.

Hoje, de forma tragicômica, figuram no exterior, pessoas que largaram seus títulos, diplomas,  faculdades, carros, casas e salários, pra ir viver com rendas mais baixas do que os piores salários praticados no Brasil, simplesmente pra poder ostentar mais uma etiqueta estúpida e ilusória de “morador da Europa”. Será que sabem estes que entre os próprios europeus existe a fuga massiva em busca de outras possibilidades na vida, que não aquelas migalhas que o brasileiro está idolatrando? Em Portugal, por exemplo, os jovens, há muito tempo, saíram pra outros países da União Europeia em busca de trabalho, estudo e outros cenários de existência que lhes parecessem um pouco mais dignos ou de acordo com seus ideais. Ironicamente, nos destinos pra onde estes portugueses normalmente iam, estão os jovens nativos que, igualmente, optaram por sair dali e ir pra outros destinos. A migração em si não é problema algum. As pessoas estão sempre em busca de encontrarem-se em algum canto do mundo. O triste mesmo é a hipocrisia de muitos brasileiros que, vão ser imigrantes na casa alheia, mas despejam ódio e xenofobia contra os imigrantes que chegam no Brasil. Muitas vezes, são os mesmos que aplaudem a expulsão de imigrantes em todos os países, mas se cagam nas calças de serem eles mesmos deportados pra fora, por estarem ilegais em terra alheia, desempregados, implorando pela ajuda e atenção de outras pessoas, apesar de, eles mesmos, nunca terem ajudado ninguém no próprio país em que nasceram. Os mesmos que fechavam os vidros dos carros quando se aproximava um vendedor ou morador de rua, agora sentem-se rejeitados quando um estrangeiro não lhes dá plena confiança se notarem que trouxeram de fora a imundice do fascismo, da falta de educação, do desrespeito, do “jeitinho brasileiro” de descumprir o certo, do machismo, da arrogância, da corrupção e da, já famosa, posição de povo mais mal-educado de toda a internet. O que será que espera esse povo, que não consegue administrar a própria contradição e quer decidir sobre a administração de um país inteiro? Como querem conquistar coisas melhores na vida, se tudo que fazem é cuspir mensagens prontas de teor motivacional, sem que acreditem ou pratiquem uma única vírgula daquilo? Como querem colher salários melhores, se estão lutando pra destruição da própria educação? Como esperam se integrar em uma cultura e sociedade lá fora, se carregam vícios primariamente incompatíveis com o que lá se desenvolve como valor mínimo? Como podem querer emplacar seus diplomas escolares, se, ao mesmo tempo, querem contestar a própria Alemanha sobre o fato do Nazismo ter sido um movimento de direita? Que tipo de terraplanistas são estes que vão querer ocupar cargos de astrônomos em terras alheias sem serem vistos como uma falha social bizarra e aleatória? O que esperam estas pessoas somar se o máximo que fazem é procurar ignorantes do mesmo naipe e grau de distúrbio, pra disseminar seus ódios e preconceitos em manada?

O brasileiro médio não é levado a sério nem dentro e nem fora do Brasil. E se não mudar de postura imediatamente, não vai ser levado a sério nem dentro da Terra. No Brasil faltam muitas coisas, mas o dinheiro é apenas uma delas e, nem de longe, a maior.

Rodrigo Meyer

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Crônica | Por trás do fogo.

Na contraluz do fogo, escondido atrás de um laranja vivo, queimava forte o recado dado. De cima pra baixo, de baixo pra cima, pra ambos os lados. Os bons tempos voltaram. Não é o paraíso, pois isso não se pode esperar da Terra com estes hóspedes. Mas é mais uma viagem pra dentro de mim mesmo. O mundo pode acabar e eu ainda estarei de pé. Ruíram todos os outros, porque não sabiam o que era ter valor. Lá embaixo eles rastejam, em busca de sanar o tédio, enquanto eu já sou o meu próprio remédio. Por isso eu venci. Fora daqui, ninguém parece ter percebido que tudo mudou. Pra eles, mudou para pior, pra mim um novo degrau. Já subi muitas escadas. Vez ou outra calejei as mãos e ralei um pouco dos joelhos, mas nunca algo letal como quem rolou em queda livre sucessivas vezes como um vício ou um bug de computador. Ter olhos é tudo nessa vida. Por isso tenho três. Quando dois deles se fecham, o terceiro fica bem acurado. Não sou um privilegiado. Sou apenas alguém que decidiu não atirar no meu próprio pé. Por isso eu subo e eles caem.

Rodrigo Meyer

Você é vítima de click bait?

Click bait é o termo em inglês para “isca de clique”. Como o nome sugere, é exatamente uma armadilha para tentar conseguir um clique do usuário na internet. Embora este termo e contexto específico seja algo próprio da internet, a essência por trás disso é antiquíssima em todo tipo de mídia, comércio e afins.

O que está por trás do click bait é a a ideia de que você precisa atrair pessoas para um “conteúdo” por meio de recursos artificiais que sejam apelativos a curiosidade ou ao impulso pouco controlado das pessoas. Isso ocorre com facilidade quando o público em questão é idiotizado o suficiente pra não ter esse filtro ou controle sobre si mesmo diante do que lhe é apresentado.

As formas mais comuns de click bait são: títulos sensacionalistas, títulos falsos, títulos dúbios, títulos de teor sexual, títulos agressivos, títulos contendo nome de personalidades como principal e/ou único recurso, além de imagens com expressões faciais exageradas, montagens sensacionalistas, etc.

A mesmíssima coisa pode ser vista em mídias impressas, televisões, comerciais, trailers de filmes do cinema ou até mesmo nos anúncios em voz ou texto dos supermercados. Contudo, a internet conseguiu massificar essa conduta, em razão do acesso instantâneo a milhares de usuários com uma única publicação, piorando, ainda mais, por conta da opção de compartilhamento e do hankeamento automático desses conteúdos em plataformas como Youtube e Facebook. A medida em que usuários incautos e pouco instruídos escolhem consumir esse material, as redes sociais interpretam essa crescente demanda por aquilo e dão visibilidade extra para o conteúdo, gerando um efeito bola de neve. É basicamente isso que fez uma horda de inúteis ganharem milhões às custas da ignorância alheia, fabricando entulho, não acrescentando absolutamente nada de útil e monetizando não só a si mesmos, como a própria plataforma junto com inúmeros outros anunciantes que vivem de empurrar anúncios e produtos para a massa.

Muita gente tem vergonha em admitir que usa do click bait em suas mídias, porque estão cientes de que as pessoas começam a se conscientizar do fenômeno que, por si só, é uma forma indigna de explorar a fragilidade alheia. Em um mundo onde muita gente não tem discernimento, cultura, educação e estrutura psicológica o suficiente pra saber desviar e recusar esse tipo de prática oportunista, é, no mínimo, um desserviço à sociedade e ao progresso da população. Mas, obstinados por lucro a qualquer custo, com pouca ou nenhuma ética, aceitam se dobrar a muitas práticas para chegar ao tão sonhado dinheiro.

Tão ruim quanto praticar o click bait ou ser vítima dele, é ter a tal Síndrome de Estocolmo que torna tais vítimas em defensoras dos próprios opressores, no caso, os criadores de “conteúdo”. Uma vez que se tornam cegas, viram uma massa de manobra vazia, moribunda e com uma mesma personalidade distorcida e mal constituída, moldada sobre preceitos pouco ou nada determinados, quase sempre seguindo a ilógica “lógica” do “porque sim”. Sem autonomia de pensamento e um fanatismo declarado, tornam-se os idiotas perfeitos para cumprir o papel de massa que faz esse enorme mecanismo funcionar. Enquanto alguns raros se tornam milionários, todo o restante da população, segue na mesma condição precária ou até pior. Gastam seu tempo nutrindo a vida alheia, ao invés da própria, pois, lhes parece muito mais interessante a fantasia fabricada nas mídias do que a própria realidade sórdida.

O mesmo conceito por trás disso é o que fomenta pessoas dispostas a ler tabloides ou revistas / sites de fofocas. Há uma frase que diz:

“Idiotas discutem sobre pessoas, inteligentes discutem sobre ideias.”

Além desse mecanismo psicológico onde o indivíduo prefere observar a vida alheia para desviar o foco da própria vida / realidade, existe também outro fator por trás dessas práticas. Quando o ser humano se torna adoentado em sua sensibilidade, empatia e bons valores, facilmente começa a apreciar o caos, como uma espécie de vingança pelos próprios dissabores vividos. É uma forma de vivenciar, através de cenas e ocorrências, uma tentativa (mesmo que falha) de esvaziar tais frustrações dentro de si. É o caso, por exemplo, quando uma pessoa foi alvo de um assalto e, por não ter lidado bem com o ocorrido, passa a ver prazer em toda cena em que um assaltante é mostrado em situação degradante ou de desproporcional violência. É um tipo de sadismo desenvolvido que dá espaço, por exemplo, pra um consumo fácil de toda e qualquer mídia que se anuncie com extremismos na imagem ou título. A armadilha está feita e os adoentados tem ingresso vip pra digerir as farpas e as toxinas dessa isca que os matará.

É evidente que o click bait não é apenas ruim pelo ato de enganar as pessoas para verter fluxo de visualizações nas mídias, mas também é um terrível dano pela ausência de conteúdo relevante ou saudável. É uma maneira garantida de encaminhar uma massa de gente para um abatedouro mental que, por vezes, repercute também na saúde física. Um lifestyle baseado nisso não resulta em um raciocínio melhor, nem em uma formação de visão apropriada sobre a vida, o mundo, as questões sociais, a própria realidade pessoal e muito menos sobre as próprias mídias. Tudo isso encaminha as pessoas para um modelo clássico de sobrevivência, mas não de vida em si. É um ato de desperdício do tempo, da saúde, do dinheiro, do potencial intelectual e de tudo que estiver, direta ou indiretamente, relacionado com os hábitos de vida em sociedade.

Em última análises, se arrastar por esse modelo de absorção de “conteúdo” é a maneira garantida de não absorver nenhum conteúdo real e ainda ser subjugado como cidadão de segunda classe, em diversos sentidos. Toda e qualquer história de sucesso que você pinçar sobre superação, aprimoramento e reposicionamento diante da sociedade, passa, necessariamente, por essa transformação de dentro pra fora. Exemplos ótimos da cultura do rap nacional, especialmente advindo das favelas e periferias, ensinam a importância de se discutir a sociedade, o sistema, as mídias, as condições da própria população, de cada indivíduo, etc. É este preparo que dá suporte para transformações a favor da própria população, pois se depender dos envenenados pelo preconceito de classes, pelo racismo, pelo fascismo e pelos corruptos, você não terá suporte nenhum, exceto se for pra piorar ainda mais.

Viver em uma sociedade que, basicamente, é composta por gente que odeia uma às outras, tratam-se como mercadorias, vítimas ou pontes, requer ter discernimento suficiente pra não tropeçar nesse lamaçal. Se você não ajudar a si mesmo, você já decretou seu fracasso. As mídias não vão te ajudar e quem te explora pra lucrar às tuas custas quer mais é que você continue ignorante, passivo e fanático. Um idiota constante é o maior aliado na perpetuação do sistema de exploração, pois não só ele é explorado, como também espalha como positiva a ideia da exploração para o resto do mundo. ‘Síndrome de Estocolmo’ é um termo que não vai sair da internet tão cedo, especialmente porque mesmo diante de tanta demonstração explícita dos problemas, as pessoas ainda conseguem tornar cada ano pior que o outro. Se você achou que 2015 foi um ano enojante, certamente repensou isso com a chegada de 2016 e ficou abismado em saber que tinha como surgir ocorrências como as de 2017, o que, certamente, não foi nem um átomo perto da galáxia de fezes que chegou em 2018 (e estamos apenas no terceiro mês). Espere o pior pra 2019, mas, mesmo assim, lembre-se que a culpa de tudo isso é a permissividade de um povo manipulado e sem nenhuma autonomia de pensamento e ação. São marionetes aguardando as cenas dos próximos capítulos, sejam lá quais forem.

Enquanto você se delicia assistindo pessoas defecando, transando e comendo, seja na internet, na televisão, nas mídias impressas ou na vida real, uma meia dúzia de gente está rindo tanto da sua cara, que é possível que à essa hora um ou dois deles já tenha até infartado durante a crise de riso. A melhor arma para o combate dos erros do mundo é a inteligência. Guarde seu tempo, sua saúde, sua atenção e seu dinheiro para coisas que possam lhe fazer alguém melhor e mais preparado pra sair da condição em que está. Pode ser cansativo ou até desencorajador no começo, mas você vai descobrir que, uma vez que dá esse passo com sinceridade, pessoas que você nem imaginava começam a se aproximar de você para investir no seu potencial e dividir apoio. As portas começam a se abrir e você verá como uma realidade ruim tem sempre o outro lado da moeda.

Rodrigo Meyer

Você se incomoda com críticas?

Já parou pra ponderar que o incômodo ou até o ódio diante das críticas recebidas pode ser vergonha da própria ignorância? Quando um indivíduo é confrontado com uma crítica que invalida ou reduz sua ideia, expressão ou argumento, ele é obrigado a perceber a ignorância que possui, pois ela foi evidenciada. Se a pessoa não é bem resolvida, ela pode se sentir desconfortável em passar por esse equívoco, como resultado de não administrar o sentimento de vergonha diante dessa ignorância.

Contudo, isso seria facilmente resolvido, se a pessoa procurasse entender que não há mal nenhum em não saber das coisas, desde que não se negue a reconhecer tal desconhecimento e passe a aceitar qualquer adição de informação, argumento e lógica como suportes de melhoria para o conhecimento. A verdadeira vergonha é persistir na ignorância depois de ter sido iluminado pelo conhecimento trazido por uma crítica.

Parte disso tem a ver também com a maturidade de cada indivíduo. Quando amadurecemos o suficiente pra saber ouvir uma crítica, entendemos que toda crítica é construtiva, pois se não é construtiva não é crítica, mas apenas ofensas. Aceitar uma crítica construtiva não pressupõem, contudo, endossar como verdade. Significa apenas receber para poder ponderar a informação e refletir sobre sua própria ideia anterior. É colidindo duas informações, no bom sentido, que você pode comparar e descobrir o que naquilo faz sentido, o que não procede, o que pode acrescentar de informação ou até mesmo se o que é proposto nessa colisão, não adiciona nada de útil, com é o caso de ofensas que passam longe de ser críticas.

As pessoas quando aprendem que críticas não possuem nada de pejorativo, desejam que elas sejam feitas sempre, afinal é por meio delas que podemos crescer e melhorar nosso desempenho de pensamento, de reflexão, de compreensão das coisas, do mundo, de nós mesmos, das ideias que expressamos ou ouvimos / lemos de outras fontes. Críticas são, em resumo, aquilo que precisamos ter a todo momento. Sendo assim, não há motivos para se ter vergonha das críticas. Obviamente que uma crítica pode acabar destacando em um episódio que o alvo da crítica está equivocado, tem desconhecimento ou é leigo sobre o tema, por exemplo. Mas também não é preciso sentir-se envergonhado por tais falhas, porque a crítica vem pra somar, não pra reduzir. Logo, o indivíduo que tem a oportunidade de se deparar com uma crítica deve sentir-se contemplado e não destratado. Inclusive, dentro de certos contextos, receber uma crítica é um privilégio. Sinta-se bem por saber que alguém preferiu trazer-lhe uma crítica, por querer lhe ver crescer, do que uma ofensa.

Entendido como a crítica funciona e o que é necessário ou desnecessário nesses contextos da expressão humana, a proposta adiante é de que as pessoas consigam permear a sociedade, os assuntos, as questões da vida, os dramas, os relacionamentos e todo tipo de realidade humana, fazendo uso equilibrado e sensato das ferramentas, das emoções, da lógica, das investidas em argumentação, das conversas, do trato com outras pessoas, das decisões, da administração de seus sonhos, vontades e desejos. O benefício é inegável e é não só para o indivíduo como para todos ao redor.

Em uma sociedade onde todos saem ganhando, a disputa por retrocessos perde espaço, afinal as pessoas estão ali vencendo por si mesmas, abraçando um ao outro, figurativamente, a princípio, como premissa para que todos possam progredir. Não importa em qual situação um indivíduo esteja, é possível lhe convidar a coisas melhores. Claro que isso não significa que todos nós iremos conseguir bons resultados nesses convites, afinal há pessoas que simplesmente não querem ser ajudadas, a princípio, pois podem estar afundadas em traumas, medos, ódios, receios, descrenças, vícios e incoerências de pensamentos engessados e falhos, entre outros contextos. Mas o papel de quem convida, é fazer a sua parte e tentar. Além disso, uma vez que se entende que nem todo indivíduo é simples de ser lidado ou ajudado, não pode haver cobrança para que qualquer pessoa seja extremamente apta para lidar ou ajudar qualquer outra pessoa. Há casos onde é necessário a ajuda de um profissional ou de uma pessoa mais especializada e concentrada nesse tipo de situação ou indivíduo. E como cada indivíduo é único, até mesmo isso acentua essa premissa.

Viver de maneira adulta é aceitar que as críticas sempre existirão. Aprende-se com a maturidade, a entender a fragilidade alheia tanto como a nossa própria fragilidade e, claro, a entender os pontos fortes de outros tanto quanto podemos entender nossos próprios. É pela maturidade que conseguimos, por exemplo, ouvir uma ofensa ou tentativa de rebaixamento e, dependendo do contexto, simplesmente ignorar e retornar ao que realmente é importante e útil, pois a inutilidade de coisas deste tipo não vão garantir vantagem, bem-estar ou nada que acrescente na experiência de forma positiva. Quando uma pessoa se pauta pela ofensa e não pela crítica, ela mesma se rebaixa, ela mesma se ofende, ela mesma admite sua perda de valor.

Ao relevar a consequência da ignorância alheia, como as ofensas, por exemplo, podemos virar os olhos para as causas e não as consequências da ignorância dos indivíduos. Isso ajuda a compreender porque agem como agem, porque pensam o que pensam e porque expressam o que expressam. È desta maneira que nos tornamos aptos a conhecer, através da observação dos outros, vários tópicos sobre nós mesmos. É comparando as estruturas que podemos definir no que acertamos e erramos.

Por fim, em uma conclusão rápida, se você anda se sentindo incomodado com críticas, analise primeiro se são críticas ou apenas ofensas. Se o incômodo for diante de ofensas é compreensível, pois ninguém deve se sentir obrigado a tolerar ofensas. Mas sendo críticas de fato, e ainda sim sente-se incomodado ou até com ódio delas, então procure ajuda, seja com um profissional, com um parente ou amigo de confiança ou até mesmo sozinho, refletindo com sinceridade sobre sua pessoa diante do espelho, sem máscaras, sem falácias, sem parcialidades.

Rodrigo Meyer

A realidade bate mais em quem vive na ilusão.

A realidade se apresenta pra todos, mas nem todos veem ou nem todos admitem que veem (quase sempre por medo, ignorância ou interesses nefastos). E nisso mora o risco. Imagine que você é exposto a um quarto escuro cheio de armadilhas. Se não pode ver, acabará por estar mais vulnerável a cada uma delas. De maneira similar quem vê a realidade mas se recusa a validá-la, acaba igualmente afetado, já que se você nega a existência de armadilhas no quarto escuro, age como se nada houvesse e é fisgado por elas, consequentemente.

Na sociedade, existem pessoas que mesmo sabendo como as coisas são, possuem resistência em aceitar que aquilo é um fato. Não é preciso ir muito longe pra ver coisas tragicômicas. As pessoas chegam ao ápice de sugerir possibilidade pra teoria da Terra plana. De maneira igualmente imprudente e infrutífera, muitas outras pessoas, mesmo que não sejam bizarras terraplanistas, vivem outras questões com a mesma falta de realidade.

Passam por todo tipo de tema, mas ao invés de pensar em cada um deles, segue um pacote de orientações prévias sobre como deve pensar e o que deve dizer sobre os assuntos em geral. De um lado, os preconceituosos, acostumados a todo tipo de clichê, inverdades, falácias, manipulações e asneiras. E do outro lado, aqueles que optaram por pensar em cada um dos assuntos, ponderando detalhes e tudo mais. Pensar não é algo que agrada a muita gente, pois isso obriga a pessoa a se deparar com o resultado disso: a noção da realidade. E quando algumas pessoas se sentem contrariadas pelos fatos, ficam incomodadas por verem que suas falas, ações e pensamentos são pautados em asneiras e não em realidade. É isso que os incomoda, pois os ridiculariza e os deixa inválidos pra justificarem-se em qualquer tentativa de debate.

Se você observar porque as pessoas agem como agem, não demorará muito pra perceber o medo que as pessoas possuem de sentirem-se inferiores, incompletas, ignorantes ou insuficientes. Estudos já mostraram, por exemplo, uma tendência de menor índice de Q.I. em pessoas conservadoras. Isso é explicado no estudo como a predileção dessas pessoas por regras firmes e imutáveis, pois lhes garante um ambiente simplista, sem surpresas e que não requer pensar, apenas repetir bordões, replicar ideias prontas, conclusões prontas, etc. E essas pessoas são fáceis fantoches na mão de quem precisa delas como idiotas úteis para fins pessoais ou coletivos maiores.

Quando nos opomos a verdade, estamos sempre infelizes, irritadiços, massacrados por uma metralhadora de tapas que a realidade nos parece ser. Contudo, se notamos a realidade e não negamos ela, ela é absorvida e compreendida com mais facilidade, já que não inventamos barreiras a cada segundo pra negá-la. Claro que, conhecer a realidade não torna o mundo o paraíso, afinal a realidade é composta, em grande parte, de dissabores. Porém, é conhecendo o que há de errado e ruim na sociedade e na vida, que teremos parâmetros pra agir, pensar e propagar coisas melhores, para corrigir ou impedir o que não é aceitável.

Este é um caminho que pode ser longo ou nem tanto, dependendo de quantas pessoas estão engajadas em agir pautadas na realidade e a serviço do bem-estar do Planeta. E, obviamente, aqueles que passam pela vida negando fatos, estarão sempre em conflitos, por orgulho, pra defenderem sua ignorância ou  desonestidade, em troca de contribuir para a destruição do mundo e da qualidade de vida de quem o habita. Injustiças, ofensas, preconceitos, opressões, violências e muita gastrite, vão reinando nesse cemitério de lógica e contaminando tudo por onde passa, afinal se do lado oposto estão as pessoas que admitem a realidade, estas serão sempre alvo das que negam a realidade. A batalha entre informação e ignorância sempre existiu e parece que vai durar bastante, especialmente porque, pela ignorância é que vai ocorrendo o extermínio direto de indivíduos ou de seus direitos e liberdades.

Mas esse não é o fim. Na verdade é um neon enorme piscando ‘começo’. A melhor forma de viver é deixar de ter orgulho da ignorância e começar a se orgulhar daquilo que você pode aprender e transformar em si mesmo. Assim, você vai estar de mãos dadas com a realidade, não no sentido de concordar com o que de ruim ocorre nela, mas apenas reconhecendo os fatos que alí estão. E isso vai te ajudar a se preocupar mais em soluções do que em inventar muros e guerras contra quem aponta pras informações da vida.

A História humana passou por muitos atropelos em razão de ignorância e poder. Vimos, por exemplo, a perseguição a Galileu ao propor a Terra como redonda, como também vimos pessoa serem queimadas vivas, acusadas de qualquer coisa que fosse conveniente a época pra justificar matança e controle de inimigos. Usando a sociedade como marionete, muitos líderes políticos e instituições religiosas fomentaram ações, pensamentos e até hábitos quase culturais de ódio, preconceito, consumismo, desrespeito, ganância, corrupção, violência, intolerância e emburrecimento como se fossem a mais sublime forma de arte.

Se não tomarmos cuidado, a História se repete, mas sempre piora. Aprender com os erros do passado é não só não cometê-los mas se assegurar que eles não tenham brechas por onde possam voltar a ocorrer. Uma vez que se entende os danos que algo causa, é necessário agir de forma a coibir a ignorância e ter outras iniciativas pra fomentar o conhecimento, a razão, a liberdade, a justiça, a honestidade, o bom-senso, a lógica como premissa do pensamento e dos discursos / ideologias, entre outras coisas. Toda vez que o ser humano se recusa a lidar com a realidade, é ele quem para e não a realidade. A realidade segue sendo. Fatos são fatos e não deixam de ser fatos só porque alguém não os valida. Não seguir essas recomendações é admitir a própria ignorância em ambas as vezes. Se estiver preso num mecanismo sinistro onde não quer ser ignorante, mas é um, busque ajuda. Não precisa ter vergonha ou medo, pois foi buscando ajuda que outras pessoas puderem finalmente encontrar a realidade ou se aproximar o máximo possível dela.

Rodrigo Meyer

A ignorância é casada com a irresponsabilidade.

Ter responsabilidade em algo, pressupõem agir com consciência do que é importante, valoroso, certo, necessário, prudente, etc. Portanto, se formos ignorantes em determinado assunto ou sentido, não teremos os parâmetros para agir com responsabilidade. Seria o mesmo que dizer que sem conhecer como funciona a Física, não há como construir nada seguro na Engenharia. Princípios simples de como a vida e as pessoas funcionam, são necessários para desempenharmos responsabilidade junto a elas.

Agora que está compreendido porque a ignorância está sempre junto com a irresponsabilidade, é preciso pensar se nos portamos de forma responsável ou irresponsável com cada uma das coisas. Se, eventualmente, nos notarmos irresponsáveis, precisamos admitir que estamos ignorando informações sobre o tema. Ser ignorante sobre algo, ao final das contas, é simplesmente ignorar algo, no sentido de não ver, não compreender, não perceber algo. E se temos ignorância diante de tal coisa, somos automaticamente os menos indicados a falar ou tomar decisões sobre.

No meio político, por exemplo, é imprudente e improdutivo deixar que pessoas ignorantes comandem os rumos de uma determinada assunto da sociedade. Da mesma maneira que você não colocaria um leigo em Medicina para atuar como médico, você não colocaria um ignorante em determinado tema pra atuar em nome deste assunto.

O mesmo pode ser dito pra todas as áreas de estudo e atuação na sociedade. Encontraremos muita irresponsabilidade se deixarmos ignorantes regerem ou agirem pela História, Medicina, Arte, Filosofia, Comunicação, Literatura, Informática, Política, Psicologia ou qualquer outra área possível de ser imaginada. A responsabilidade sempre será necessária em toda área concebível, justamente porque se espera que dela se tenha conhecimento e não ignorância.

Flexibilizar a ignorância, apesar de parecer, a princípio, ruim, é necessário e positivo. Trata-se de, por exemplo, considerar que todas as pessoas tem, em algum grau, conhecimento sobre algum assunto. Claro que, muitas vezes, o conhecimento é tão pequeno que é insuficiente pra se apresentar um pensamento consistente, válido ou útil. A exemplo disso, poderia dizer que não posso propor teorias de Astrofísica apenas por saber que a palavra ‘astrofísica’ existe. Seria conhecimento insuficiente pra objetivos tão pretensiosos. Seria necessário, no caso, alguma noção adicional sobre do que trata a Astrofísica, em que ela se baseia, quais as premissas do estudo e o que já foi estudado e proposto antes.

Isso não significa, porém, que uma pessoa está impedida de ter seus pensamentos sobre qualquer assunto. Até mesmo a imaginação sobre o desconhecido é importante e deve estar sempre livre pra ocorrer. Seria como dizer que uma pessoa leiga em Astronomia pode contemplar na imaginação a cena de astronautas e estrelas, sem que isso lhe seja proibido ou ruim. É, inclusive, por meio da imaginação e da curiosidade que desenvolvemos interesse de conhecer mais a fundo determinados assuntos ou pessoas. Muitos de nós aspirou na infância um futuro em alguma profissão quando fossemos adultos.

No dia-a-dia, fazemos coisas similares ao cruzarmos pelos assuntos e ocorrências. Ao lermos um título de uma notícia na rede social, somos levados a consultar na mente tudo que sabemos sobre aquelas palavras, o que elas significam e o que elas suscitam sob aquele específico contexto. Se não conhecemos o contexto, perdemos a condição de avaliar com eficiência aquele conteúdo. Em razão dessas barreiras para o consumo de conteúdo, muita gente se vê desanimada, pois acredita que terá sempre que fazer um grande esforço a cada vez que fitar os olhos pra um título na tela. Mas a verdade é que quanto mais você aprende, mais fácil e rápido fica compreender os novos conteúdos que lhes são apresentados. A razão disso é que uma vez que você aprende sobre conceitos, palavras e combinações, você permite que seu cérebro busque um atalho para acessar uma versão rápida do significado de tudo aquilo assim que nota os sinais daquela realidade que lhe foi apresentada. É o caso, por exemplo, quando um médico consegue fazer um diagnóstico de maneira rápida, baseado apenas na observação dos sintomas. De tanto se deparar com repetidos casos iguais, o cérebro automaticamente associa os sintomas a algum provável quadro médico.

E este é o legado que desejo deixar por hoje. Ao se ver diante de um assunto novo ou que, mesmo não sendo novo, você ainda não tenha conhecimento suficiente, não limite-se na sua dedução, pois ausência de conhecimento suficiente vem acompanhada de conduta irresponsável. Este princípio é universal e é por isso que em toda cultura do mundo, por sabermos, por exemplo, que crianças tem pouco conhecimento sobre determinados assuntos, os adultos se antecipam às crianças de forma a prevenir atitudes danosas e irresponsáveis. Pra ilustrar, imagine que em uma casa com bebês, crianças ou animais, costuma-se colocar tela de proteção nas varandas, esconder as facas em local menos acessível ou mesmo monitorar pra que estes não estejam em contato com a panela quente da cozinha, etc.

Como visto, o conhecimento ajuda a ter uma conduta responsável e, por isso, é papel de quem tem, usar a favor dos demais e de si mesmo. Quando nos deparamos com um grupo de pessoas na sociedade que pouco sabem da realidade, é importante que façamos nossa intervenção com conhecimento, transferindo poder e autonomia pra estes. Assim, construímos pessoas responsáveis e evitamos danos indesejados. Todo conhecimento que você tiver, compartilhe com outras pessoas e ajude cada uma delas a absorver o real sentido das coisas, das palavras, das pessoas, dos valores, etc. Aprofunde o conhecimento dos iniciantes, dos amadores, dos aprendizes, dos leigos. Amplie a conexão entre informação e transformação de pensamento, pois é isso que determina que tipo de ação as pessoas terão sobre si mesmas e o mundo.

Há uma frase bem interessante sobre isso que diz que ‘para burlar uma regra é preciso conhecê-la.’. Usa-se muito isso no segmento da Arte, para dizer que é preciso conhecer os fundamentos pra poder, posteriormente, impor suas mudanças e personalidade como artista, de forma consciente, consistente, etc. De fato, em tudo na vida, quanto mais dominamos um tema, mais controle temos para sermos independentes, criativos, surpreendentes. Para inventar o futuro  de maneira assertiva é preciso conhecer as necessidades do presente e desviar das limitações e erros do passado.

Rodrigo Meyer

O que o luxo e status tentam compensar?

Com pouco tempo de convivência na sociedade, já será possível se deparar com pessoas que optam por um estilo de vida baseado em status e luxo. Às vezes podem não ter as condições financeiras necessárias pra tal, mas seguem apreciando essa realidade idealizada. Sei, inclusive de gente que se endivida apenas pra ter algum acesso aos luxos. Triste.

O que estaria por trás dessas práticas e pseudo-necessidades? O que leva um indivíduo a buscar um artigo ou serviço de luxo? O que é o luxo para a sociedade? Quais são as premissas do luxo? O luxo é uma maneira de diferenciar algo, dando-lhe uma característica subjetiva de valor, refinamento, qualidade, estética, conforto, praticidade ou simplesmente, acredite, parecer e/ou ser financeiramente mais caro sem nenhum outro motivo extra.

Talvez muitos achem estranho, mas até uma simples água mineral pode ter preços completamente diferentes. O que faz uma marca, um rótulo ou um contexto mudar o preço de produtos similares? Algumas vezes é a qualidade, mas geralmente é apenas luxo e status (podendo ou não incluir qualidade). Nem tudo que é mais caro é melhor e nem tudo que é barato é ruim.

Em sociedades onde os produtos, serviços, posses e as vantagens que o dinheiro pode comprar, figuram como representação do indivíduo, é compreensível que estes estejam construindo uma expressão a partir do luxo. É como se fosse a maneira de mostrarem ao mundo que são pessoas maiores, melhores, mais importantes, etc. E muitos até acreditam que isso proceda, afinal a mídia espalha essa mensagem em todo canto pra poder fomentar uma demanda por produtos, serviços e estilos de vida que são, na prática, muito mais caros e, portanto, mais lucrativos pra quem tenta extrair dinheiro nesse modelo de sociedade, usando as próprias vítimas como degraus para tal objetivo.

Do ponto de vista psicológico, a busca por luxos pode apontar complexos. O indivíduos que usa do luxo pra tentar compensar um passado ou fugir de uma aparência ou estilo de vida mais simples e barato, está, na verdade, tentando destacar sua pessoa, através do dinheiro, do poder de compra, do refinamento de seus produtos, posses, serviços, etc. Tenta compensar traumas, complexos ou medos, elevando-se simbolicamente ao invés de se transformar por dentro, pois sabe que a sociedade valida como equivalente ou real esse simbolismo.

Você pode comprovar a reação da sociedade preconceituosa ao observar como pessoas diferentes são recebidas de maneiras diferentes por tais pessoas. Se surgirem em um carro caro e estiverem vestindo um terno, um relógio com aspecto de caro, uma maleta de trabalho, a sociedade parece lhe prestar um serviço e atenção diferenciados, como se essas pessoas fossem mais dignas, mais importantes, mais merecedoras de inclusão, de espaço, de bem-estar, de acessos, etc. Se uma pessoa surge sem nada disso, cai consideravelmente o prestígio, a aceitação, a visão positiva, etc. E é exatamente a repetição dessas diferenças que faz as pessoas perceberam que uma vida com luxos é melhor, já que, socialmente, gera reações e situações positivas por parte das outras pessoas. E aí começa a busca por luxo ou, então o vício pelo luxo que já se tem.

É assim que a necessidade de luxo surge e se perpetua. Mas ela pode ser repensada e combatida, antes, durante e depois. O combate na origem é resolver dentro de cada pessoa os complexos, medos e o preconceito que distorcem a visão da realidade, do valor e da importância das coisas. Pessoas bem resolvidas por dentro, formam sociedades e culturas mais justas, mais equilibradas e unidas. É disso que se vê, também, o aumento da empatia, a redução da competição, da violência, do preconceito, da opressão, etc.

Também é possível combater o luxo durante, refletindo sobre a necessidade ou não de se permanecer em consumo de coisas desnecessárias por motivos rasos ou tortos. Ter essa consciência do porque se está levando um certo estilo de vida é o começo pra você frear alguns comportamentos e mudar de direção. Ao perceber, por exemplo que está vestindo uma roupa mais cara, apenas porque a marca dela suscita status, é hora de ponderar se você só depende de gastar mais dinheiro pra se sentir feliz ou valorizado. Sem tal dinheiro, você valeria menos? Se acredita que valeria menos, então o valor nunca esteve em você de fato. Que tal construir valor em si mesmo? Este é um valor que independe de dinheiro pra existir. Esse é real.

E também é possível combater os luxos depois que ele já está sistematicamente instalado na sociedade, contaminando de maneira mais abrangente, quase como uma cultura. Podemos ver a ostentação em certos locais onde o dinheiro ultrapassou os limites médios da região e as pessoas passaram a não saber o que fazer com tanto dinheiro. Como as necessidades humanas não são muitas na verdade, o excesso de dinheiro fica meio sem destino, se as pessoas acharem que precisam ser donos até mesmo do excesso. Então elas começam a gastar esse dinheiro extra em luxos extremos, como banhar um carro em ouro, apenas porque possuem dinheiro pra isso. É a maneira de dizerem ao mundo que são pessoas poderosas, mesmo que tal poder seja somente fruto do dinheiro (pois em um mundo de pessoas que vivem atrás de dinheiro, as que tiverem dinheiro, conseguirão vantagens pelo mundo).

O luxo é algo tão doentio que as pessoas que vivem nele perdem a noção do que é realmente prioridade na vida. Um exemplo tragicômico disso foi uma situação que eu ouvi de um rapaz que tentou ajudar um mendigo comprando calçados pra ele. Ao invés de aproveitar o dinheiro pra oferecer mais possibilidades pro mendigo, comprou dois pares de tênis de marca caríssima. Nem é preciso pensar muito pra ver que, provavelmente, o mendigo passou os calçados adiante pra tentar converter em dinheiro, pois mesmo que estivesse precisando de calçados, não precisaria ser um tão caro, já que com o dinheiro equivalente a este luxo, ele conseguiria ter sapato, comida por muito mais tempo, sem perder em nada na qualidade, conforto ou função.

Em uma sociedade que atribui valor alto para coisas simples, suscita também os roubos desses mesmos produtos, já que eles são passíveis de conversão em muito dinheiro. Se você já frequentou um mercado, provavelmente já notou que alguns produtos específicos possuem uma proteção adicional contra furto. Às vezes pilhas, às vezes alguma garrafa de bebida. Furtos em comércios podem ocorrer pra qualquer produto, mas a diferença é que para produtos de baixo valor provavelmente o furto é para consumo próprio e o furto de produtos de alto valor, normalmente é pra revenda, para conversão em bastante dinheiro. Se a maioria dos produtos tivessem o mesmo nível de valor, não haveria muito espaço ou motivo pra implantar status ou luxo como ferramenta de diferenciação social ou de valorização simbólica do indivíduo. Além disso, se todos tivessem acesso similar aos produtos e serviços, a qualidade de vida de todos seria melhorada substancialmente, tanto pelo acesso ás vantagens diretas, quanto pela redução proporcional de furtos e assaltos que antes eram motivados pela hipervalorização de algumas coisas.

Mas essa busca por luxo, seja por uma pessoa financeiramente pobre ou por uma mais rica, não está sempre pautada na honestidade. Assim como há pessoas mais pobres que furtam pra obter produtos e serviços, existem pessoas ricas que fazem a mesmíssima coisa. Provavelmente se você só consome pseudo-mídia, vai ser levado a crer que a criminalidade só existe entre pobres, devido ao destaque que dão a esses casos que são minoria. Já entre ricos, as pseudo-mídias evitam de tratar como bandidos ou até mesmo evitam de noticiar os casos que surgem. Aliás, surgem muito menos casos, às vezes, justamente porque a sociedade pouco investiga ou pouco denuncia os criminosos ricos. O preconceito de classes é evidente. Quando um criminoso é rico, traficando drogas em seu apartamento na área nobre da cidade, com seu helicóptero e fazendas, ele costuma se safar de qualquer penalidade. Se fosse um criminoso pobre, seria visto de maneira oposta. O luxo e o status compra até mesmo a impunidade e isso deixa muita gente desonesta e de mente fraca viciadas nesse estilo de vida e pensamento.

Muitas razões tortas figuram entre os possíveis motivos pra alguém buscar ou exercer esse estilo de vida baseado em luxo e status. Mas todos eles reduzem o indivíduo, evidenciam suas fraquezas e seu pouco valor real interno, além de corroer a sociedade em diversos níveis e setores, promovendo ambientes tóxicos, violentos, infelizes, caros e sem qualidade de vida. O conforto em si não é necessariamente ruim, mas quando a maior parte das pessoas não tem acesso ao supérfluo e só uma pequena minoria obtém isso, cria a impressão de que o objetivo de todos os seres humanos dessa sociedade ou mundo é obter aquilo que só essa minoria possui, por ver que esta minoria é melhor recebida, com acesso a lugares melhores, com mais segurança, com mais “respeito”, onde suas ideias são mais ouvidas, suas vontades são supridas, etc. Não caia na armadilha de se reduzir acreditando que está crescendo.

Rodrigo Meyer