Prosa | Perdida na cidade cinza.

A imagem que ilustra esse texto é ficcional e meramente ilustrativa, baseada em fotografia marcada como livre para utilização, segundo os filtros de pesquisa de imagem do Google.

Você me perguntava coisas que eu não entendia como poderiam ser dúvidas verdadeiras. Você já tinha seus 28 anos, mas ainda parecia uma eterna menina. Sua realidade me parecia contraditória. Você que já sabia bem o que beber, o que fumar e quais comprimidos tomar depois do banho, não sabia, porém, praticamente nada sobre si mesma, sobre o sexo, sobre como jogar esse jogo do flerte ou que rumo tomar pros seus dias. Parecia um pouco cansada de várias regras sociais, mas, ao mesmo tempo, se forçava a acreditar e dividir tempo com aquilo que você chamava de igreja. Eu, muito distante dessa realidade, ironizava suas contradições e te colocava diversas questões pra você brigar sozinha. Parecia que seus lados contraditórios eram a sua maneira de equilibrar a sua vida. Você, talvez, se sentisse na tendência de viver largada demais e, assim, poderia ser útil um outro lado exagerado que pudesse te desacelerar.

Você praticamente não trabalhava. Sua família estava longe, de vida feita, e você resolveu que vir pra esta cidade seria uma boa aventura. Acho que você esperava muito da cidade, mas não esperava quase nada da sua própria vida. Você se dividia entre o curso de artes, rindo e criticando aqueles velhos alucinados, enquanto abria uma clareira na sala de aula, separando à todos conforme a afinidade. E foi assim que nos conhecemos. Estávamos do mesmo lado. Você gastava o dinheiro alheio, ocupava seu tempo dentro e fora de casa, mas sua vida não parecia ter suficiente veneno. Eu te via como uma menina, mesmo a minha memória me dizendo que eu era muito mais novo que você. Estávamos perdidos juntos, mas eu não sabia quais eram os seus labirintos. Eu fui atrás, como quem fareja novidade, qualquer coisa que me tirasse de casa, me levasse pra outro chão de apartamento.

Assim como eu, você não estava disposta a levar a vida a sério. Perceber isso, me fez acreditar que você seria um bom mistério pra desvendar. Eu gostava da sua companhia, porque bastava pra mim que você me oferecesse uma bebida e me deixasse ficar no seu apartamento pra ficarmos o dia todo desocupados, rindo e conversando. Várias vezes você pagou pela minha comida e eu não tinha muito pra retribuir. Então eu ficava, dividia meu tempo, te ensinava informática e ria das suas loucuras. Era tudo que eu tinha. Você era extremamente ansiosa, não parava um minuto calada e de um segundo pro outro decidia fazer outra coisa. Você era perturbada e nem mesmo toda aquela maconha resolvia. Prensado, sem nenhuma qualidade, de qualquer coisa que não se deveria queimar. Mas, pra você, que acendia compulsivamente cigarros de nicotina, não se importava muito com a qualidade do hábito.

Levou tempo até você aceitar mais do que uns beijos. Eu não era nada recatado, mas você parecia estar esperando por um momento idealizado. Acho que todos nós, algum dia, idealizou um romance ou alguma relação pretendida. A gente sempre espera que nossas primeiras vezes em diversas coisas, sejam de maneira satisfatória. Conseguia entender, de certa forma, a sua “demora”. Mas, pelo tempo passado, parecia que você estava escolhendo minuciosamente seu momento ideal. Talvez você tivesse medo ou não tivesse conhecido ninguém interessante. Eu, certamente, não era o sujeito mais incrível, mas você parecia encantada comigo. Eu realmente nunca pensei que você estivesse apaixonada ou idealizando um romance e quando você quis começar sua vida na cama, você pareceu um tanto perdida, preocupada com uma lista de detalhes, me perguntando, cheia de rodeios, os riscos de cada pequeno contato. Confesso que achei um tanto engraçado, mas isso não era um bom sinal. Logo eu vi que estávamos em universos muito diferentes. Não cabe a mim dizer quando e o que cada um aprende, mas, diante do impulso da situação, aquilo certamente teria que ficar pra outra oportunidade. Havia muita coisa que você ainda precisava entender.

A minha vida estava fluindo em outras realidades e eu acabei, não de propósito, me distanciando. Passaram-se muitos e muitos anos e, de repente, sou surpreendido por uma mensagem sua na internet. Conversamos um pouco, ouvi você falar dos rumos que sua vida tomou e fiquei ainda mais surpreso. Parece que as cosias não melhoraram e você tropeçou em relacionamentos ruins que lhe renderam filho(s) e aborto(s). Foi estranho ver que, apesar de tudo que você viveu, sua mente ainda estava interessada por mim, como se você ainda estivesse habitando aquele passado remoto. Não pude lhe oferecer mais do que a verdade dita, então te deixei ciente de que éramos praticamente desconhecidos naquele momento. Há tantas coisas da minha adolescência que eu não tenho memória alguma, que eram grandes as chances de eu não ter lhe reconhecido depois de tanto tempo distante. E, mais do que isso, não era recíproco o sentimento ou a paixão que você mantinha. Você custou a aceitar mais um ‘não’ da vida e insistiu em me escrever. E quando o respeito acaba, já não há nada de bom pra dividir. Ofereci minha amizade, mas isso não lhe era suficiente. Sei que retornou pra sua cidade, acolhida novamente pelos seus pais. Fico feliz que receberam-se todos entre família, pois onde as pessoas se gostam e se ajudam é lar suficiente pra qualquer situação. Eu fui pra frente, porque pra trás nunca teve lugar pra mim. Até nisso somos diferentes.

Sabe, se algum dia calhar de ler esse texto e, apesar de todo sigilo no relato, conseguir se reconhecer nele, saiba que a vida é muito mais do que o passado que arquitetamos e polimos em nossas mentes. Há um universo lá fora, que, desde sempre, precisou ser melhor explorado. Olhe pra sua história, as situações pelas quais passou e veja a falta que fez não ter experimentado o mundo mais à fundo, com mais liberdade. Talvez isso teria mudado cada um dos episódios que aqui eu relatei. O tempo passa e, se tudo correr bem, temos a chance de ressignificar o passado e dar preferência pro momento presente. Se possui curiosidade sobre o que aconteceu com a minha vida, daquela época em diante, eu te conto. Não é nada muito melhor ou pior, apenas diferente. Eu não tive filhos, me tornei fotógrafo porque, deve ter notado, as aulas da escola não tinham nada a ver comigo. Conheci pessoas que me marcaram positivamente, mas que também me deixaram uma dor quase permanente. Conheci pessoas excelentes que morreram muito cedo e outras que, infelizmente, sobrevivem apesar de numerosos anos pesando no mundo. De fato a vida não é justa e o que algumas pessoas chamam de satisfação é apenas ver pessoas decentes desmoronando em fracassos e doenças. A alegria do medíocre é torcer pra que ninguém os vença, ninguém os supere, ninguém os ultrapasse. Então, pro bem da sua própria razão, se mantenha diferente disso, com aquele espírito divertido de quando nos conhecemos. Mas, mais do que isso, se mantenha questionadora, divergente, “gente como a gente”, simples e complexa, conforme o que realmente importa em cada momento, sempre procurando novos rumos, porque a vida só acaba na hora da derradeira partida.

Eu tive de fazer inúmeras pausas e baldeações até chegar em algum mínimo resultado e, devo dizer, não sou nem uma vírgula de tudo que eu já fui um dia. Eu perdi as pessoas que eu mais gostava e tive que aturar o convívio de quem nunca se importou sequer com a minha vida. Para algumas pessoas somos só um objeto ou um número, porque só quando a gente sente verdadeiro afeto por alguém, nossa vontade é ver essa pessoa livre e feliz. Quem dedica tempo aprisionando pessoas ou empurrando elas para constantes abismos, aprisiona também a si mesmo e se arremessa neles junto. A verdadeira salvação, se é que existe, é dedicarmos nosso tempo pra nós mesmos primeiramente e, se houver condição e disposição, ajudar à quem nos parece digno de nossa ajuda. Não estendo a mão pra todos e faço questão de destacar isso, porque diversas vezes em que as pessoas puderam contar comigo, eu não pude contar com elas em nenhum momento, pra coisa alguma. E se não há reciprocidade, não adianta insistir na porta, que essa porta não abre pra qualquer um.

Rodrigo Meyer – Author

Prosa | O navio está partindo.

A imagem que ilustra esse texto é parte de uma ilustração no estilo ‘retrowave marcada como livre pra utilização, segundo os filtros de pesquisa de imagem do Google.

Nos acostumamos com o cheiro da nossa própria casa e nem percebemos como ela destoa de qualquer outro lugar, até que visitamos alguém e sentimos o cheiro característico de lá. Até a comida tem cheiro diferente. Pode ser o mesmo prato que você costuma comer, mas cheira diferente. Deve ter algo impregnado nos móveis, nas panelas, na transpiração dos moradores. A minha casa tem cheiro próprio, como a casa de todo mundo deve ter.

Para quem é fumante, por exemplo, acho que já não percebe o cheiro de cigarro permeando tudo, desde os poros da pele até a roupa e as paredes. O mesmo pode-se dizer de quem tem animais de estimação. A maioria dos seres é treinada desde o nascimento a reconhecer os cheiros familiares e a comparar com qualquer outro cheiro diferente. Os cheiros conhecidos desde o começo representam uma certa segurança, enquanto que os cheiros diferentes, vem de fora, são estranhos, são potenciais ameaças e, portanto, nos incomodamos com eles.

Todo mundo já ouviu falar da predileção que as pessoas possuem pela comida da mãe, da avó ou de quem as criou. Somos alimentados por esses temperos e cheiros desde o nascimento. Convivemos nesse ambiente e nos acostumamos com esse padrão. Torna-se o novo normal. E a memória afetiva traduz isso na forma de predileção e prazer pela comida ou cheiro dessa origem. E tudo isso soa um pouco estranho, pois o sal é similar pra todos, tal como a pimenta ou outro ingrediente qualquer. Mas cheira diferente, tem gosto diferente. Deve ser o modo costumeiro de cozinhar, o odor impregnado no fogão, na madeira dos armários, no teto da casa e sei lá mais o que.

Ainda mais estranho é que, apesar de notarmos o cheiro e sabor característico da nossa casa e de outras casas, quando vamos à um restaurante, parece que tudo é neutro. Claro que as coisas tem cheiro e sabor, mas, de alguma forma, parece que chega à um consenso que agrade à todos os públicos, afinal é isso que se pretende quando se atende diferentes famílias, acostumadas com o cheiro e sabor de suas casas ou da mesma comida desde a infância. Talvez a constante limpeza dos ambientes impeça qualquer um dos cheiros de impregnar pela repetição, pelo acúmulo. E isso explica boa parte do sabor das chapas engorduradas dos botecos.

Repetição parece ser o que garante a impregnação do cheiro e o reconhecimento pela memória olfativa. São tantos sentimentos que voltam à tona quando reconhecemos um perfume de alguém. Quando me acostumava por tempo suficiente com alguma companhia, certamente é porque havia sintonia com o cheiro da pessoa. Isso é parte da chamada ‘química’. Algumas pessoas sequer usam um perfume, mas todas elas tem um cheiro próprio, único. E quando gostamos, nos conectamos. Talvez, em última análise, gostamos das pessoas porque elas nos trazem prazer pelos diversos sentidos humanos. A voz de uma pessoa, o cheiro, a textura da pele e tudo o mais, vão compondo uma zona de conforto, onde nos sintamos em segurança, protegidos numa bolha bem pequena. Nosso refúgio se torna nossa casa, as pessoas a quem nos conectamos. Pra muita gente, talvez, se desconectar desses cenários e pessoas é como uma ameaça.

Estamos todos buscando qualquer referência de segurança, por trás de um abraço, um olhar, um som, um cheiro, um sabor, um modo de fazer as coisas, um estilo visual. A sociedade começa a se separar em tribos desde sempre, buscando o convívio com os seus. É assim na formação de famílias, clãs, vilas, cidades, países e planetas. É assim também nas culturas e subculturas, nos nichos de música e estilo de vida. Eu, por exemplo, estou sempre em conexão com a atmosfera de onde eu passei a maior parte da minha vida, dos bares e casas noturnas que frequentei, das pessoas que conheci, das músicas que ouvi, das roupas que vesti. Mesmo que estejamos no ano de 2020, ainda é recorrente a necessidade de uma atmosfera dos anos 80. E como é bom ver as pessoas vestindo preto pra todo lado, uma predominância de coturnos, franjas em linha reta ou um corte em V e todos aqueles detalhes comuns no meio gótico, pós-punk, rock e afins.

Somos seres sociais, mas somos seres que buscam uma específica atmosfera. Estamos debaixo do mesmo céu, aparentemente, mas na verdade nossas bolhas nos separam completamente para dentro de realidades onde tudo é muito nosso e muito nós. Frequentadores assíduos de certos lugares se tornam parte do lugar, seja enquanto vivos ou mesmo depois de mortos. Inúmeros casos são vistos e contados de desencarnados que permanecem no mesmo lugar habitual, atrás de algo que reconhecem, gostam e/ou precisam. Às vezes a droga, o álcool, a energia específica das pessoas ou, simplesmente, aquela memória afetiva. Definitivamente, nossa consciência ultrapassa nosso cérebro. Por mais que se apague a parte física dessa equação, tudo já está enraizado na própria alma ou consciência, dentro e fora do corpo. A consciência não depende da matéria, mas é a matéria que depende da consciência.

Quanto tempo será que leva para nos acostumarmos com novos lugares, novas pessoas, novas comidas e novos cheiros? Quando as pessoas falam sobre a depressão de quem vai morar em outro país e da saudade que esses sentem de casa, não será exatamente isso que existe por trás? Às vezes as pessoas se sentem desconectadas daquilo que reconheciam como seguro, prazeroso e confortável. Talvez seja preciso redescobrir os gostos, mudar o paladar e aceitar que a vida muda, que há outras memórias pra serem formadas. Claro que, diante da novidade, não vamos ter as referências maternais ou da infância. O passado não se repete se o futuro for diferente do habitual. Mas, assim como aprendemos a frequentar e gostar de lugares ao longo da nossa vida, podemos experimentar o prazer por essa constância em qualquer lugar que pudermos ficar tempo o suficiente. Deve ser isso que motiva coletivos a fixarem residência nos lugares.

Moramos quase sempre na mesma casa ou se mudamos de casa, tendemos a ficar no mesmo bairro ou zona. Raramente nos mudamos pra muito longe, raramente trocamos nossa zona de conforto por algo novo que ainda não nos diz nada. Mas, pra quem quer fugir das lembranças, mudar de ares talvez seja a melhor opção. Ao se desconectar dos mesmos objetos, dos mesmos cheiros, das mesmas paisagens, dos mesmos lugares e das mesmas pessoas, temos a oportunidade de nos ver, de alguma forma, um pouco mais livres, quase como se fôssemos uma folha em branco, limpos para sermos preenchidos com coisas que, finalmente, vamos escolher. Se nosso passado é imutável, ao menos nosso presente e futuro podem ser construídos de um jeito diferente.

Mudar é importante, nos dá energia de organizar a vida do nosso jeito, descobrir que outra vida podemos ter. Eu estourei a minha bolha desde muito cedo e, à cada vez que uma nova bolha se formava, eu a estourava. Nunca permaneci muito tempo em lugar algum, porque estava tentando me encontrar. E quando eu percebia que não estava entre os meus, eu me afastava e seguia sozinho até outra bolha começar a se formar. O motivo pelo qual nunca me encontrei profundamente em nada e ninguém, talvez seja por causa dessa ruptura desde cedo. Por não ter um padrão a ser mantido ou perseguido, nunca encontrava algo que se encaixasse, pois não havia um padrão determinado para encaixe. Sem essa referência do que eu deveria encontrar no mundo pra me sentir confortável, percebi que não tenho que procurar isso nas pessoas ou nos lugares, mas, construir eu mesmo, meu padrão desde o zero. Assim, meu mundo é muito meu e eu sou muito do meu mundo. E quando o mundo parece demasiado vazio, não é de todo ruim, pois podemos preencher com qualquer coisa que quisermos. Sem vícios e sem apegos, o navio não fica preso no porto, nem compelido a percorrer uma mesma rota predefinida. Um navio que não está preso, nem programado, viaja pra onde a correnteza levar e pra onde impormos alguma direção. Cabe à mim escolher e é só nessa possibilidade que eu deposito todos os resquícios de esperança. Vamos aguardar e ver.

Rodrigo Meyer – Author

Na contramão dos aniversários.

A imagem que ilustra esse texto é parte de uma fotografia marcada como livre para utilização, segundo os filtros de pesquisa de imagem do Google.

Pra muita gente, aniversários são, talvez, uma das únicas datas festivas do ano todo. Pra mim, soma-se com o Natal e as festas de Ano Novo como igualmente incômodas. Nunca fui alguém que me sentisse compelido a comemorar nenhum desses eventos. Ao meu ver, não há nada de fato pra se comemorar, mas pra se lamentar. São marcos anuais de um regresso e não de um progresso. Além disso, essas festividades, geralmente, são feitas para os convidados, porque os próprios anfitriões pouco ou nada aproveitam.

Tem anos que eu simplesmente nem me lembro da aproximação do meu aniversário. E, às vezes, quando calha de eu ter que relembrar da data específica, figuro pensando rapidamente sobre isso e logo esqueço. Esses dias, ao acaso, vi um bolo e isso me fez lembrar de festas, até que uma coisa levou à outra e acabei vindo falar disso. Aniversários são, pra mim, uma lembrança triste onde sou obrigado a pensar na quantidade de anos em que eu permaneci sobrevivendo e sofrendo, quando a única coisa que eu realmente gostaria de comemorar era o fim de tudo isso. Ter arrastado uma vida permeada por depressão, praticamente desde sempre, faz com que eu não consiga ter lembranças positivas de nenhum desses eventos, nem de mim mesmo. Assim, o que é que eu teria pra comemorar sobre o meu nascimento?

Muita coisa da minha infância parece bloqueada na memória. Eu sinto como se nem ao menos tivesse vivido em boa parte dos meus dias no passado. Em parte porque não houveram episódios marcantes, mas também porque muita coisa eu fiz questão de esquecer de todas as maneiras que estavam ao meu alcance. Ainda hoje consigo me lembrar de breves cenas, dos lugares em que morei, das pessoas com quem eu conheci e me relacionei. Mas são sempre muito breves e esporádicas na sequência de tempo. Junto com essa memória corroída ou bloqueada, sobrevivem algumas cenas incômodas da minha infância e adolescência que eu preferia não lembrar. Fico arquitetando o que eu diria numa sessão de terapia ou algo assim. Tenho tanta coisa que eu gostaria que se resolvessem, mas que já moeram minha vida há tantos anos, que, não sei mais se faz qualquer diferença agora.

Quase quatro décadas de existência e não tenho nenhuma perspectiva sobre o meu tempo restante de vida. É difícil prever essas coisas. Li e ouvi muita gente dizer que imaginavam que jamais passariam dos 30 anos de idade, mas cruzaram idades elevadas. O estilo de vida exagerado de algumas pessoas, na contramão das probabilidades, os permitiu levar uma vida ativa até os 50 ou 60 anos e alguns, surpreendentemente, passaram da casa dos 90 anos. Pra mim isso parece mais assustador do que positivo, mas nunca sabemos o dia de amanhã. Às vezes alguma coisa muda em nossas vidas e ganhamos vontade de viver.

Na infância, por mero formalismo, minha mãe organizava festas ou, pelo menos, fazia um bolo. Eu nunca fiz questão e até me sentia um tanto constrangido de ter que figurar nesses momentos. E isso foi se ampliando com o passar dos anos, até que as festas deixaram de ocorrer, o bolo acabava sendo ignorado por mim na geladeira e tudo ia se enquadrando como se fosse um dia comum, como todos os outros do ano. Lembro que, às vezes, tudo isso era substituído por um dia de pizza em casa e, quase sempre, isso só representava alguma coisa diferente pra comer, seguido de longas horas de sono e isolamento. Quando eu comecei a trabalhar, pude comprar, esporadicamente, alguns presentes pra dar pra mim mesmo. Não importava se era meu dia de aniversário ou qualquer festividade. Se eu tivesse algum dinheiro sobrando em qualquer época do ano, eu saía pra comprar filmes, livros, alguma roupa, comida e bebida. Meu mundo era só eu, porque eu já não fazia parte do mundo há muito tempo.

Provavelmente trabalhei na maioria dos Sábados, Domingos e Feriados, que era quando as pessoas podiam pausar seus trabalhos pra vir participar do meu trabalho de Fotografia. Também estive à trabalho ou diversão em diversos momentos pelas noites de São Paulo, eventos, viagens, manifestações. A Fotografia me acompanhava todo o dia e dava algum sentido pra minha existência, então, talvez, eu devesse comemorar meus anos trabalhando nela. Se pude me realizar um pouco em alguma coisa nessa vida, certamente foi na Fotografia. Desde que pausei a atividade, a sensação de ser desnecessário na vida aumentou profundamente. Passei a escrever e a fazer outros tipos de arte, mas só o tempo irá dizer o que é que isso tudo tem potencial de ser. Tudo parece um tanto medíocre e sem propósito. A verdade é que muito do que faço fora da Fotografia é uma tentativa de desabafo. Já tentei trabalhar com muitas coisas, mas a verdade é que percebo que não tenho o necessário. Estou apenas dando o melhor de mim, mas pra uma pessoa destruída esse ‘melhor’ ainda é muito aquém do necessário.

Sim, isso me frustra, mas também me faz acordar pra realidade. É importante percebermos quem somos e do que somos capazes. Nada de grandes sonhos ou de supervalorizar a realidade. Assim como a vida e os tais aniversários, não são de fato grande coisa e, às vezes, a melhor forma de lidar com eles é ignorá-los. Nada de especial pra se comemorar, só mais um dia errante entre quase todos do ano inteiro. Dizem que um ano é composto de 365 oportunidades, mas se isso for verdade, certamente minha depressão me obriga a desperdiçar todas elas, porque não consigo aproveitar um dia sequer pra fazer algo que me satisfaça. Sei que estou quebrado por dentro, que minha alma está apagada. A cabeça desistiu de funcionar e já vejo novas consequências terríveis desse tempo todo em que fui esmagado, como se a cada novo ano eu tivesse um peso extra nas costas por não ter me superado no presente, nem ter superado o passado. Um histórico terrível é pendurado na minha frente todos os dias, me fazendo lembrar que estou chegando em quatro décadas de vida, sem ainda ter tido nenhum bom motivo pra comemorar.

Me acostumei a viver sozinho em meu mundo, passando reto pelos dias, bebendo, dormindo e, com sorte, trabalhando. Isso provavelmente me fez ignorar não só os meu aniversários, mas também de esquecer completamente a data de outras pessoas. Frequentemente, só me dei conta do aniversário de colegas ou companhias quando já havia ultrapassado um ou dois meses do ocorrido. E, independente do quanto eu me importava com essas pessoas, lembrar de datas nunca foi algo que minha mente se acostumou a fazer.

Eu não quero parabéns, porque ‘parabéns’ se dá pra quem teve uma conquista. Também não espero por presentes, porque a única coisa que eu realmente preciso e gostaria de receber é saúde mental e perspectiva de vida. Sem isso, nada do que eu pense, planeje ou faça, me trará sentido na vida. Acordo todos os dias com a vontade de voltar a dormir e o próprio sono já não me acolhe há vários anos. Me reviro na cama de um lado pro outro, desviando da dor física. Acordado ou dormindo, estou sempre perdendo. Nessa guerra não existe vitória e a única forma de sairmos dela é confirmarmos nossa derrota diante da vida, aceitando morrer.

Com alguma sorte eu vou levantar um dia e buscar medicação. Faz enorme diferença pra mim saber quem é que vai me atender. Enquanto isso, as pessoas que supostamente lutam do mesmo lado, ignoram, não possuem tempo ou interesse de responder. Fico sem ter esperança pelos próximos passos, sem respostas pra quem eu deveria recorrer. Quem detém a resposta, parece nem saber que eu existo. Há vários dias, talvez mais de um mês, escrevi pro Conselho Federal de Psicologia, buscando por informações que me ajudassem a filtrar um profissional. Mas nem ao menos sei se fui lido, porque nunca tive qualquer reação ao contato. Se essas são as pessoas que representam a Psicologia no Brasil, já dá pra imaginar o tamanho do buraco em que estamos. Se já sabíamos que não havia com quem contarmos entre as pessoas comuns da sociedade, fica ainda mais difícil quando descobrimos que nem mesmo os profissionais podem nos ajudar.

Os dias passam e a vontade de aceitar ajuda passa junto. Um dia estamos dispostos a escrever uma mensagem e no outro parece que aquilo já não faz mais sentido nenhum. Um dia estamos pensando que poderemos nos salvar com a medicação e depois entendemos que nada é tão simples assim. Existe um caminho constante nesse vai e vem, que é típico da depressão e que nos coloca à andar em círculo, sem mudar coisa alguma nos nossos dias. Aquilo que realmente seria importante e urgente, facilmente deixamos de lado, enterramos debaixo do tapete, varremos atrás de uma garrafa de bebida, uma noite de sono, um prato de comida. E vou empurrando meus dias, pra mais um ano de sobrevida, enquanto as pessoas se perguntam porque é que não estou comemorando meu aniversário. São explicações que nem mesmo gostaria de dar e que se juntam à inúmeros outros anexos de frustrações e memórias inglórias. Passei mais tempo explicando, justificando e desabafando minha sobrevida, do que buscando qualquer tipo de ajuda efetiva que me desse a honra de conhecer o que é viver. Já estive medicado e reerguido lá pelos meus 20 anos de idade, mas alguns anos depois eu já não sabia mais o que era viver.

Já não desejo ‘feliz aniversário’ pra ninguém, porque ‘feliz’ é um conceito que já virou mitologia na minha mente. Espero que as pessoas encontrem algum conforto e tranquilidade ou que obtenham sucesso em algo que elas queiram ser, ter ou fazer. Mas sempre me senti desconfortável em desejar felicidade em aniversários, festas de Natal ou Ano Novo, porque tudo isso parece uma grande ficção e falsidade, em especial no mundo destruído em que vivemos, independente de ter ou não depressão. Acho que o mundo precisa ser mais honesto, mais direto, mai realista e dizer aquilo que realmente sente, o que deseja, o que de fato acredita. Não vamos chegar à lugar nenhum alimentando a egrégora da mentira com todos esses depósitos de palavras, símbolos e energias, enquanto, na prática, estamos nos dizimando, todos os dias, em gestos, palavras, pensamentos, sentimentos, tudo do ruim e do pior, apodrecendo o mundo com um modelo de conduta que se opõem diametralmente à felicidade e cava fossos cada vez mais fundos, insustentáveis, cheios de violência, dor, agonia, ansiedade, miséria, guerra, conflito, preconceito, mentira e tudo aquilo que as pessoas fingem que não sabem, mas praticam de perto, e magistralmente, todos os dias.

Rodrigo Meyer – Author

Relato | Mentiras, drogas, racismo, agressões e exploração financeira.

A imagem que ilustra esse texto é uma composição incluindo uma fotografia de uma pessoa fictícia aleatória, pra fins de ilustração do texto. Esse é o relato de uma pessoa que passou por um relacionamento abusivo. Por questões de privacidade, substituiremos o nome dela pela letra aleatória A.

“Quatro anos atrás eu estava inscrita em um desses sites de relacionamento. Foi lá que conheci um rapaz. Ele veio falar comigo e eu me senti prestigiada, pois estava em um momento difícil da vida, onde meu pai havia falecido e eu estava frágil e carente. A vinda desse rapaz veio de encontro à minhas necessidades de acolhimento, principalmente por todos os elogios que ele fazia, que era bem o que eu queria ouvir.

Em dado momento, aconteceu de sairmos do virtual para o mundo real. Fomos nos encontrar. Mas algo não ia bem. Ele estava muito agitado, ansioso, preocupado. Olhava para todo lado como se estivesse com medo de ser visto por alguém. Aquilo me deixou um alerta, mas logo eu abafei aquilo da minha cabeça, pois sempre que eu recuava de insegurança sobre ele, ele mudava tentando passar uma imagem melhor. E assim as coisas foram acontecendo, mesmo que já de início os sinais ruins estivessem lá.

Em seis meses, ele já havia me proposto casamento. Eu me sentia contemplada e na época nem percebia o quão cega e vulnerável eu estava. Ele queria que eu encontrasse um vestido de noiva e planejamos até uma festa. Eu tinha minha vida relativamente estável, com um bom trabalho, meu apartamento, meu carro. Ele dizia ter trabalho e de início me pareceu tudo plausível. Tínhamos realidades um pouco diferentes nesse sentido, mas isso não era nenhum problema para mim.

Eu tinha um filho de relacionamento anterior e ele também anunciava ter um. Não demorou muito pra que ele começasse a contar histórias pra me pedir dinheiro. Alegava que o filho dele estava passando por problemas com droga e diante do contexto, eu ajudava. Mas, cada vez era uma necessidade diferente. De repente era um carro quebrado ou outra coisa qualquer. Eu não via nada daquilo na ocasião. Ele sempre tentava demonstrar que estava estudando ou trabalhando, mas tudo vinha muito só da boca pra fora. Quando algo não parecia muito crível ele se esforçava pra reverter a situação.

O casamento ocorreu no civil, abandonamos a ideia da festa, porque o buffet havia dado errado. Foi o começo de mais situações. Ele passava a depender muito de mim, me pedia dinheiro pra muita coisa e, provavelmente, se aproveitava do fato de eu ter um bom trabalho ou de simplesmente ter um trabalho, já que eu nunca soube se ele realmente tinha um também. Quando eu não dava dinheiro à ele, ele ficava agressivo, me ofendia, discutíamos e mais um sinal estava alí, sem eu notar bem o que estava acontecendo.

Houveram momentos em que o descontrole dele evidenciou o racismo. Ele branco e eu negra, dividíamos um teto pra que eu ouvisse dele expressões horríveis que nunca mais vou esquecer. Diante de meu pai, tudo isso parecia o pior cenário. Tentativas de agressões físicas ocorreram, mas a presença dos meus pais, em especial a minha mãe, foram um oportuno freio. De alguma forma ele tentava passar uma imagem positiva na frente dos meus pais, para ganhar a simpatia deles. Mas, como citei, em momentos mais drásticos, nem isso impedia ele de expressar as piores palavras nos cenários mais errados. Já não havia mais nada de bom alí. Eu só estava me sentindo derrotada.

As mentiras dele foram aparecendo e eu fui me dando conta de que ele mentia para tudo. O filho dele não tinha problema algum com drogas e o mais triste é que, era ele mesmo quem estava mergulhado nelas. Me pedia dinheiro pra sustentar o vício em álcool e cocaína. Os cursos que dizia fazer, nunca frequentou ou sequer existiram. Frequentemente era demitido dos trabalhos e eu não me dava conta desse imenso sinal. A nossa vida sexual era ruim, bem ocasional. Nunca suspeitei que o motivo disso fosse os hábitos dele com drogas. Eu só fui me dar conta da loucura que eu estava vivendo dentro de casa, quando eu encontrei um pino de cocaína no bolso da calça dele. Pensei o quão ruim era tudo aquilo, tendo eu um filho novo em casa. Eu não queria nada daquilo pra mim e nem pra minha família.

Não havia motivos consistentes pra estarmos juntos. Tudo que havia era exploração, agressão, mentiras e ciúmes. Com o meu sucesso profissional e meu círculo de trabalho e amizade, ficou muito claro na mente dele que eu tinha um cenário positivo na minha frente e não faria sentido nenhum eu estar com uma pessoa abusiva como ele. Por isso começaram as críticas ensinuando todo tipo de coisa ou tentando controlar minha vida. Roupas curtas eram um problema e até meu trabalho se tornou um alvo pra ele. De certo ele se sentia fracassado e susbtituível e ele se sentiria mais confiante e seguro se eu perdesse o meu bom emprego.

Mas, eu escolhi ouvir a mim mesma e a observar friamente todo cenário. Passei cerca de um ano observando tudo e percebi finalmente que estava em um relacionamento abusivo do qual eu não deveria aceitar jamais. Depois de tudo isso, estava decidida a me separar. Planejei o melhor momento e maneira pra fazer isso. Surgiu a grata oportunidade de uma viagem à trabalho pra outro país. E foi a brecha que eu precisava pra fazer todas as mudanças na minha vida. Anunciei a separação e assim que ele saiu de casa eu pedi que minha mãe trocasse a fechadura da porta. Finalmente me vi livre daquele sujeito. Eu segui a minha vida, aprendi com tudo isso. Ficou a lição de que a vulnerabilidade gerada pela carência foi o que permitiu tudo isso acontecer. Não sei se posso, mas, talvez, chamaria de sorte por isso não ter desviado pra situações piores. Sabemos de tantos outros casos onde as pessoas são ameaçadas, espancadas, violentadas, perseguidas e mortas. Eu sou grata por ter enxergado tudo, antes que tivesse o risco de conhecer cenários piores e de desperdiçar a minha vida em mais anos com alguém que apenas me usava e nunca gostou de mim.

De divórcio assinado e vida reconstruída, hoje eu invisto em mim mesma e não quero saber mais de nada disso. Quero apenas que meu relato sirva de alerta e de motivação para que outras mulheres consigam perceber eventuais relacionamentos abusivos, mesmo que sejam diferentes dessa minha experiência particular. Que todas elas possam se empoderar e descobrir a mulher forte e cheia de potenciais que são. Que todas elas possam desviar de mentiras, observando melhor os claros sinais. Que elas se tornem mais cuidadosas consigo mesmas e que estejam firmes pra não se deixarem levar por falsos elogios ou promessas. Precisamos, todas nós, nos afastar daquilo que não soma nada em nossa vida, de preferência antes mesmo de começar.

Hoje, o que eu quero mesmo é dançar e brilhar, seguir o meu trabalho e sorrir diante dos novos planos que surgiram pra minha vida. Convites aqui, convites por lá, eu sei que tenho muitas opções para dar saltos ainda maiores. Eu já venci e se você focar em você mesma também poderá brilhar.”

A.

O tempo que você não tem, lhe foi roubado.

O tempo, além dos ciclos naturais das estações do ano e o movimento dos astros, é também uma construção social. E dentro dessa construção social é comum de vermos as pessoas criarem construções derivadas desse modelo. O tempo é relativo, mas também tem seu fator concreto. Mais importante do que entender o que é o tempo, é saber o que você faz dele.

Quando as pessoas dizem que não possuem tempo para determinada atividade, geralmente isso significa o oposto na realidade. O que ocorre é que as pessoas que sentem-se sem tempo, por vezes, estão apenas cegas de si mesmas, justamente por estarem ocupando o tempo delas com coisas superficiais e que não são reais prioridades. Quando elas notam alguma coisa da qual elas gostariam ou precisariam muito fazer e se apercebem sem tempo, é preciso refletir que outras coisas estão preenchendo o tempo a ponto de não haver espaço para algo que se quer muito

O dia na Terra tem em torno de 24 horas. É bastante tempo para o modo como estamos acostumados a experimentar nossas rotinas. Uma pessoa comum dentro da média, acorda pela manhã, segue para o trabalho ou estudo, pausa para almoçar, encerra o dia lá pelas 19h00 e retorna pra casa ou segue para alguma atividade de cunho pessoal. Considerando o percurso triste de muitos lugares, isso pode se arrastar por mais algumas horas de transporte. Com alguma sorte essa pessoa vai conseguir dormir as recomendadas 8 horas de sono, pra acordar à tempo de ir pro trabalho ou estudo no dia seguinte.

Se você segue essa rotina descrita acima, é muito provável que você esteja cansado. Seu trabalho te ocupa o dia todo, se levar em conta a soma do transporte, da refeição e do sono que te mantém vivo pro próprio trabalho. Em nenhum desses horários você teve lazer ou algum prazer incluso. É provável que não tenha tido sequer o tempo necessário para se questionar sobre sua condição atual e suas possibilidades paralelas. Como buscar alternativas, quando tudo que você tem é a rotina te algemando à um modelo que te cansa e te ocupa o dia todo?

Se você teve tempo e oportunidade pra ler esse texto, provavelmente você está com uma margem nos seu horário ou então teve a grata oportunidade de folgar por alguns dias na semana inicial do ano. Talvez, ainda, você tenha insônia e, ao invés de cumprir suas 8 horas de sono, você se cansa ainda mais diante da internet, em busca de atender o chamado da mente. Eu não tenho como prever com exatidão qual a sua situação, mas posso lhe dizer algo importante sobre tudo isso. Em qualquer cenário que você estiver, uma coisa não muda: o dia continuará tendo 24 horas e você tem nas mãos escolhas e responsabilidade para colocar na balança. Vejamos.

Se você é uma pessoa solteira, sem responsabilidade com cônjuge, filhos e nem lhe é requerido cuidados mais constantes e presenciais para seus pais ou parentes, você já está em vantagem em relação a muita gente. O Brasil é um país onde raramente as pessoas alcançam qualidade de vida e, por isso, mais atribuições de responsabilidade acabam por se tornar um fardo que faz muita gente desistir ou transbordar em condutas e sentimentos indesejados. Se lhe foi dada a condição da escolha sobre esses aspectos da vida, sinta-se agradecido, pois a maternidade ou paternidade, o cuidado de enfermos ou a aceitação de um trabalho que rouba todas as horas do dia em troca de um salário que custeia apenas a sobrevivência, é uma triste realidade de grande parte da sociedade.

Nessa altura você deve estar se perguntando, como é que pode haver tempo de sobra, se acabei de mostrar que a maioria das pessoas não dispõem de tempo suficiente. A verdade é um contexto mutável e não algo fixo e eterno. Se nos apercebermos de nossas funções no mundo, do nosso esforço, nosso potencial, nosso valor, nosso trabalho, nossas relações com o tempo, com as pessoas e com a sociedade, teremos condições de estimular em nós um senso crítico sobre o que não parece justo, certo ou realista sequer. Quando você se dá conta de que está trabalhando simplesmente pra continuar vivo para o próprio trabalho, você está sendo, em certa forma, escravizado pelo trabalho, apesar da ilusão do salário. Digo isso porque seu salário não é dado para você exatamente, mas custeia apenas sua alimentação, sua moradia, seu transporte e evita que você amanheça morto no dia seguinte e deixe de trabalhar por quem “precisa” da sua fracionada mão-de-obra. Se aperceba que você não usufrui do seu salário para nada que seja destinado à você mesmo, como o seu aprendizado, seu lazer, seu relacionamento afetivo com as pessoas, sua exploração da espiritualidade, o cuidado com a saúde do seu corpo e mente, a elaboração de uma rede firme e saudável de amizades, uma pausa para pensar o mundo, pensar você, pensar a vida, questionar os caminhos e os porquês. Perceba que num modelo de vida apertado assim, ocupando todas suas 24 horas, o tempo lhe é roubado. E se lhe roubam o tempo, é porque você tem tempo de sobra pra ser roubado. Ficou mais claro?

Todos nós temos, tivemos e sempre teremos 24 horas do nosso dia, para fazermos nossas escolhas. É claro que, diante de certas responsabilidades éticas, escolhemos, por exemplo, não negligenciar os cuidados com filhos e família, não subestimar o salário que nos permite dar assistência e sobrevivência para aqueles a quem tutelamos e/ou amamos ou simplesmente para cumprir nosso instinto de sobrevivência e nos mantermos vivos e à salvo nas necessidades mais básicas da Pirâmide de Maslow. Mas, acima das urgências de respirar, urinar, comer, se proteger do frio e do calor, dormir, se manter vivo e com o máximo de saúde possível, temos um outro patamar de realidade, que é talvez igualmente importante por mais que não seja exatamente o motivo da nossa sobrevivência como seres orgânicos.

Além da sobrevivência, temos o viver. Viver é infinitamente diferente de sobreviver. Enquanto o sobrevivente pulsa o coração e mantém ativa as ondas cerebrais para ser tachado de vivo, a pessoa que realmente quer viver e não apenas sobreviver, precisa encontrar função e satisfação além da manutenção do organismo, afinal o ser humano não é apenas o próprio corpo. Ser um ser humano é, antes de tudo, ser dotado de uma individualidade, uma consciência, uma personalidade, uma vontade (e aqui permita-me listar também a Vontade, com ‘V’ maiúsculo, em referência a essência de um indivíduo, como anunciado por uma certa vertente de conhecimento). Viver é, sobretudo, abandonar a servidão da sobrevivência e desfrutar a vida ao lado de seus potenciais e anseios. Existimos para nossos próprios propósitos e não temos que nos sujeitar a nenhum modelo imposto de sociedade, trabalho ou relacionamento. As premissas do mundo, são criações de outros seres humanos, tão comuns e/ou especiais como qualquer outro. Somos todos iguais e o problema na administração do nosso tempo e valor está justamente em alguém ser subjugado por outro, pra que o outro faça o que quer do tempo dele, enquanto a vítima segue pressionada a não ter nada, a não ser nada, a não poder querer nada.

As pessoas que detém 24 horas do seu tempo, tem um tesouro nas mãos. Deveriam fazer bom proveito disso, pra não acabarem infelizes, com sentimento de derrota, frustradas, deprimidas, doentes ou distantes dos seus potenciais, sonhos e responsabilidades. Escolhemos vender a nossa força de trabalho, pois acreditamos pouco na nossa autonomia. Desde que eu me conheço por gente, sempre almejei e sempre fui um profissional autônomo. Trabalhar para os outros nunca me foi uma opção a ser considerada. Claro que se eu me sentisse sem nenhuma segurança ou esperança, viria o pensamento de me sujeitar à exploração do trabalho convencional, afinal tentamos sempre nos mantermos ao menos vivos pela sobrevivência e depois pensamos em viver. Mas, enquanto me foi dada a oportunidade de escolher minha própria vida, escolhi arcar com a responsabilidade de viver na incerteza dos ganhos como autônomo, mas desacorrentado da falsa promessa de estabilidade de um salário mensal em uma empresa. Não me arrependo jamais de ter escolhido o meu caminho.

Eu não posso dizer que você tenha as mesmas condições que eu para tomar essa decisão assim, da noite pro dia, mas posso te contar da experiência de inúmeras outras pessoas em diversos contextos sociais e familiares. Posso te dizer que há pessoas que mesmo tendo uma vida relativamente confortável, escolheram ir para as ruas, para morar e explorar a realidade paralela, como também conheço os que abandonaram as ruas ou o risco de estar morando nelas, para coletar materiais recicláveis descartados, para construir sua própria autonomia na vida, sua moradia, seu tempo livre, sua relativa paz. Sorriso no rosto de pessoas tão distintas falam mais sobre quem elas são por dentro, do que o cenário que deduzimos no mundo físico delas. Para algumas pessoas, certas atividades parecem degradantes, para outras é a oportunidade de se sentirem livres. Obviamente, a sensação de encaixe e satisfação dessas pessoas não anula o fato de que outras muitas sentem-se invisibilizadas ou maltratadas pela vida exatamente por estarem na condição ou cenário em que estão. Para muita gente o abandono familiar, a miséria, a ausência de um lar além do improviso nas calçadas, é uma realidade dolorosa que as pessoas tentam contornar por meio da transformação de significado da vida, mas que, quando não conseguem, caem no abuso de álcool e outras drogas, como fuga de suas próprias realidades.

Começar a falar de tempo e terminar falando de classes sociais é o tipo de realidade que precisa ser visitada mais vezes por aqueles que não perceberam a conexão entre assuntos aparentemente desconexos. O texto não desvia sequer do título. O texto tenta suscitar na sua mente consciente, aquilo que o seu inconsciente já sabe. Por meio das críticas e exemplos que trago, eu espero com sinceridade que você levante um dia e perceba que há valor no seu indivíduo, por mais que a vida tenha insistido em mentir pra você, em te reduzir ou te desacreditar. A vida, de um modo mais subjetivo, são as relações humanas pelo mundo. É o que fazemos uns com os outros que determina como será a vida de cada um. Qualidade de vida nada mais é que manter relações positivas e justas entre as pessoas que interagem em um mesmo ambiente. Se cada indivíduo estiver são e feliz, acaba por descobrir que todos possuem 24 horas do dia pra serem cada vez melhores, num nundo cada vez mais consistente, sem ódio, sem preconceito, sem separação de classes, sem pressão, sem guerra sem coisas desnecessárias que ocupam o tempo de muitos.

E nem vou entrar na questão, por hoje, do desperdício de tempo de atividades como a obrigatoriedade ilusória de sair todo fim-de-semana, de dedicar horas do seu dia pra assistir passivamente a timeline do Facebook, Instagram e Youtube. Essa crítica da vida pós-internet é tão conhecida quanto a própria internet e as pessoas são conscientes disso mesmo quando incorrem no vício que elas não gostariam pra si. Disso já falei em outros textos e, se necessário, voltarei com abordagens diferentes futuramente. Retomemos a linha do pensamento.

Após você ter se apercebido do necessário, é hora de fomentar suas mudanças no coletivo. Sozinho, talvez faça boas coisas, mas em conjunto poderá fazer coisas maiores. Se tornar livre no seu próprio mundo pode ser uma bela conquista, mas, estimular para que todo o mundo seja o seu e de todos os demais pode ser a melhor coisa que você já fez. Encontre-se com as pessoas que pensam de maneira similar com a sua, esclareça os pontos falhos sobre o assunto, divida apoio, esteja lá para empoderar, para deixar um sorriso, um novo modelo de vida, um teor de esperança, um perfume de vitalidade, um pensamento que vá além da opinião e que permita que mais pessoas sintam-se engajadas como você a querer mais da vida do que apenas sobreviver. De início isso poderá ocupar boa parte do seu tempo, mas é uma boa maneira de ocupá-lo, bem melhor do que se enforcar em horas e mais horas de trabalho sem significado, pra que seu patrão compre um carro novo, reforme a casa, viaje pra praia, abra outra empresa e siga enriquecendo às custas do seu suado trabalho.

Me parece mais justo que você escolha pros seus dias a incerteza no final do mês, porque só se torna difícil quando pouca gente está fazendo. Se todos estivéssemos vivendo em um cenário de trocas entre autônomos pelo mundo todo, seríamos todos livres para sermos quem quiséssemos ser. Seriamos livres para pensar, ler, sentir, escrever, desenhar, construir, sonhar, viver. Viver! Vamos redescobrir o sentido da vida, olhando exatamente para os lugares onde ela não está. Se não há vida no seu trabalho ou nas suas relações sociais, mas apenas sobrevivência, é hora de repensar. Tudo bem se você concluir que não é uma mudança boa para você ou que você não tem os contextos necessários para tomar essa decisão. Eu não estou aqui pra te julgar. Eu vim exatamente pra lhe enxergar, dizer que você existe, que você importa e que você deve ser livre o máximo que puder. Tudo que eu posso fazer por você, na posição em que estou é te provocar reflexões, abrir as portas do meu mundo e sorrir diante da reciprocidade e sintonia que houver. Eu não posso tomar as decisões por ninguém e nem mesmo cobrar as pessoas para que tomem qualquer decisão na vida delas. Somos indivíduos e, como tal, há uma vida em cada um de nós, uma autonomia, uma responsabilidade própria, uma liberdade, um hall de escolhas e ações. Exerça sua individualidade, seja o protagonista da sua vida.

Obrigado pelo seu tempo e espero que o meu tempo dedicado nesse texto tenha gerado algo de útil pra você também, pois foi útil pra mim e só seria uma troca se fosse útil à ambos. Isso é o que fiz desse pequeno momento do meu dia e tenho certeza que ele vai me render mais tempo livre em algum momento lá na frente. Eu escolhi viver e escrevo porque é isso que eu desejo fazer.

Rodrigo Meyer – Author

Crônica | Emergência médica.

Um imprevisto e lá estava eu. Não tive escolha. E, talvez, não poder escolher seja o pior de tudo. Logo nos primeiros dias o corpo se desintoxicou. Me senti renovado. Ainda que estivesse cheio de incômodos, dores e tédio, ainda era melhor. Em dado momento acordo e me sinto visita no lugar, como se eu fosse o estranho. Não deixa de ser verdade.

A televisão ligada em um pseudo-telejornal. Ela estava sentada assistindo e eu aproveitei o momento pra ver como estava indo. Me fiz de idiota e lhe perguntei algo que eu já sabia detalhe por detalhe. Veio uma resposta hipócrita, cheia de preconceitos e ódio. Vi que nada havia mudado, apesar de tantos anos passados. Não havia esperança alí. Deixei o assunto se encerrar, pra evitar socializar. Fui buscar o que fazer. Alternava entre dormir, comer, ler e matar tempo no smartphone. Tudo ia meio devagar pro meu gosto, mas ao menos havia silêncio.

Mas isso não durou muito. Logo veio à tona a essência de tudo que eu me afastei anos atrás, por não suportar o acúmulo em uma vida inteira. No cômodo ao lado, discutiam asneiras, como se fosse a coisa mais urgente do mundo. Gastavam vinte, trinta minutos inventando motivos pra estarem alí, falando, falando, falando, mesmo que não estivessem dizendo nada. Era como se eu fosse o doente, mas elas que estivessem com o intestino no lugar da boca. Me saturei. Um gatilho instantâneo foi ativado na minha mente e eu me senti no inferno. Escolhi ir embora mesmo sem forças, sem nem comer. Às vezes andar pra trás é melhor que andar pra direção do abismo. Eu voltei pra casa e agradeci por estar sozinho, mesmo sabendo que poderia não aguentar. Não tenho medo da morte, mas sim de ter que aturar esse mundo por muito tempo.

Rodrigo Meyer

Crônica | Aprender ou perder.

Há tempos que não se tinha silêncio pelo bairro. Depois de sucessivas chuvas, devem ter descoberto que ficar em casa, por pior que seja, ainda é melhor que gritar pela rua de manhã até de madrugada. Talvez tenham descoberto que ajudarem a si mesmos seja melhor e, então, foram buscar trabalho, escola ou, pelo menos, ajudar a família em casa. Não. Nada disso. Foi apenas o feriado que esvaziou a cidade. Logo o inferno volta. Faz tempo que não sei o que é andar pela cidade, pois perdi o interesse, desde que parei de fotografar e de consumir. Atualmente eu apenas sonho e tudo que faço me guia pra algum outro lugar bem distante. Eu não sei exatamente pra onde eu vou, mas sei exatamente onde não quero estar. Na vida, todos os passos precisam ser silenciosos, pois estamos sempre rodeados de gente sem luz que anda em círculos pelos moldes do oportunismo. Estão sempre tentando alguma vantagem, mas estão sempre andando pra trás.

Rodrigo Meyer

Crônica | Levantei. E agora?

Levantei e sentei a beira da cama. Um dia um tanto repetitivo, depois de tantas tentativas. Na mesa, o teclado com teclas emperradas fazia companhia pro mouse que já não respondia bem aos cliques. O fone de ouvido abafa o som da imbecilidade ao redor, mas não o suficiente pra que eu não note e não me irrite. Para os idiotas, todo espaço é deles, principalmente se for pra regredir na vida. Eu que escolhi trabalhar, tento sobreviver. Se não há trabalho remunerado, trabalho do mesmo jeito, porque o mundo não para e ser útil é minha obrigação. Hoje eu escrevi, atendi clientes, denunciei, comentei o que somava e compartilhei com o mundo alguns fatos relevantes. O mundo, em média, pode estar seguindo adormecido, entorpecido por suas crises de adolescente sobre assuntos que eu nem sabia que existiam. Qual será o novo drama de quem passou a vida dentro de uma bolha rosa, do tipo que fica indignado quando encontra um grão de areia dentro do seu carro de luxo? Para os patéticos, querer é poder. Só se esquecem que a maioria quer e não pode. Queria comer, queria não me deparar com pessoas fúteis, queria trabalhar, queria me ver livre do risco constante de voltar a ter depressão, queria ter família, queria não ter nascido, queria outro planeta, queria ter 1% do dinheiro que os fúteis da classe alta gastam pra arrotar racismo na mesa de Domingo. Pegaria essa fração e construiria o que todos eles somados e multiplicados nunca teriam sequer na imaginação. Hoje eu levantei, mas não queria. Todo dia eu levanto, apenas porque sei que ainda tenho algo pra deixar nessa vida.

Rodrigo Meyer

Crônica | Fugindo da seca.

Deitei e tentei dormir. Difícil foi encontrar uma forma de me acomodar. Nenhuma posição oferecia conforto razoável pra poder me desligar do mundo e ir pros braços de Morpheus. Passei a noite virando de um lado pro outro tentando burlar a dor no corpo. Controlar a mente era minha única saída. O corpo adoecia. Acordei inúmeras vezes e achei que era sorte por me livrar de sonhos tão enojantes. Da última vez, decidi levantar, bebi mais água, sentei na cadeira e tentei respirar com profundidade. Muitos rostos apareceram no mural de culpados dentro da minha memória. Eu sei da minha história tão bem quanto dos que sempre tentaram me sabotar. Sei, sobretudo, que a fraqueza do inimigo está naquilo que ele não pode enxergar. Tentei suportar uma ou duas horas diante do computador, mas prevaleceu a dor. Abri as janelas pra entrar um pouco de novidade. Deitei e voltei pro mundo dos sonhos, contando os dias para o fim do mês. Logo mais, se tudo correr bem, eu não estarei mais por aqui. Que fiquem os carniceiros disputando ódio, mesquinharia e podridão. Eu estarei praticamente viajando, para aquele lugar que pouca gente conhece, quase nunca falam e surtam de medo de um dia chegar perto. A mente dessas pessoas é puro deserto. Sobra areia, nada floresce. Essa gente não cresce.

Rodrigo Meyer

Crônica | A vizinha fantasma.

Saí na varanda, olhei pro outro lado da rua. Que cena cansativa. Em dias normais, a idosa que mora quase que na casa em frente, fingiria arrumar a cortina só pra matar a curiosidade ingrata de saber o que os outros estavam fazendo. Mas hoje, um dia mais intenso, foi um pouco além, mesmo não sendo a primeira vez. Saiu e foi até o portão. Olhou como se tentasse matar o tédio de estar o tempo inteiro largada em casa sozinha. Saiu pra calçada em claro sinal de comprometimento da mente e se prostrou perto do portão do vizinho, surgindo sinistramente com seu rosto espiando pelo canto do portão, pra ver sabe-se lá o que. O que ela esperava encontrar? Uma festa onde todo planeta foi convidado, menos ela? Talvez estivesse depositando apreço demais nos vizinhos, por conta da ausência da própria família. Socialização não tem. Talvez seja isso que lhe falte. Mas, a ruína na mente talvez a faça confusa ou sem memória pra entender ou lembrar que seus parentes não a visitam nunca, exceto uma vez ao ano ou até a cada dois anos, provavelmente pra saberem se ainda está viva. Aos meus olhos ela já estava morta faz tempo. Uma vida vazia é pura ansiedade e sofrimento.

Rodrigo Meyer