Prosa | Cozinhando o tempo.

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Às vezes, em um dia qualquer, de madrugada, vou à cozinha pra preparar alguma coisa. Não há muita diversidade, mas gosto de aproveitar o que está disponível pra misturar. Uma frigideira média, fogo alto, um pouco de óleo e as sobras de macarrão, podem ser um bom começo. Enquanto aquece, vou descascando uma cebola e fatiando pra obter os anéis. Em outra frigideira, as cebolas vão com um pouco de ervilhas. Se o dia permite, coloco um pouco de molho shoyu, apesar da bomba de sódio que isso é. Quando a cebola já está suficientemente mole, misturo com o macarrão e o prato está feito. Nada muito original, tão pouco difícil. Mas, a importância está no ato. Cozinhar é meu momento de me desconectar de todo o resto e pensar apenas naquilo que estou fazendo. É um dos raros momentos onde esqueço que a vida está trincada. Deve ser parecido pra quem pratica dança, faz artesanato ou algum esporte.

Sinto que quando o corpo está trabalhando em algo fácil e muito objetivo, há menos chances da mente sair navegando por outros mares. O trabalho manual traz esse contato com a realidade prática das coisas. Não sei se isso funciona da mesma maneira pra todo mundo. Eu encontrei esse refúgio ao acaso. Tem dias que cozinho de madrugada, mas às vezes me serve no final da tarde ou lá pelas nove da manhã. Depende muito mais do meu estado emocional prévio. Às vezes eu nem estou com fome, mas é bom ter algo pra fazer.

Se fosse apenas pra comer, bastaria uma mistura em temperatura ambiente ou vinda direto da geladeira. Nunca fui fã de comida quente. Tomava bebidas geladas inclusive no inverno e sempre tive muita frustração em queimar a língua quando estava desmoronando de fome, porque minha família tinha o hábito de fazer tudo fervendo de forma que ninguém podia jantar ou almoçar quando queria. Provavelmente isso incentivou que eu me dedicasse à cozinha desde muito cedo. Às vezes acordava de madrugada e ia cozinhar qualquer coisa, pra passar o tempo, ouvir um pouco de rádio ou assistir televisão. Nos últimos anos tenho feito isso novamente, com certa frequência. São momentos pra esquercer quem sou e onde estou, me concentrando apenas nos mecânicos atos de preparar a comida.


Já tentei os mesmos resultados por meio do artesanato, da pintura, da caligrafia e da música, mas nada disso me permitia me desconectar, porque eu me via obrigado a racionalizar diversas questões sobre aqueles processos e resultados. Com a comida me pareceu mais automático e descompromissado. Cozinhar parece ter um componente extra. Talvez seja a atenção ao ponto, ao fogo, o cheiro da comida ou qualquer outra coisa que a comida suscita. Então, eu cozinho e deixo esse espaço ser preenchido pelo estalo na panela, o barulho da faca e o ritual exercido pra que tudo dê certo.

Poucas coisas na vida têm essa simplicidade no ato. São coisas arraigadas na cultura média humana. Cozinhar nos lembra de todos os momentos em que dividimos a cozinha com gente querida ou, simplesmente, curamos a fome depois daquela ressaca de bebida. Comer é um ato universal e o momento em que estamos na cozinha nos conecta com esse lado essencial da vida. Também é assim no sono, no sexo ou quando ouvimos os animais ao redor. Talvez, de maneira similar, cozinhar seja um processo de reconexão com as coisas simples da vida humana, da natureza, da essência do que é viver.

Não sei se é exatamente a mesma coisa, mas percebo semelhanças entre o ato de cozinhar e aquelas cenas bucólicas que descrevemos sempre com um ar de poesia. O cheiro de terra molhada, o céu extremamente estrelado, as mesas rústicas de madeira, cidades simples, zonas rurais, pé no chão e pôr-do-sol entre as montanhas. Quando eu viajava pra lugares assim, eu esquecia do tempo, apenas sentindo cada momento e deixando a vida acontecer. Sem poder viajar, por enquanto, eu cozinho, escrevo meus pensamentos e me consolo com a possibilidade de um amanhã diferente.

É bom saber que estou escrevendo por um viés de esperança. Nem sabia que ainda poderia encontrar isso em mim. Talvez esteja dando certo a terapia na cozinha. Às vezes surge um cansaço ou um dilema e eu deixo passar, vou pra outro assunto, até o tempo trazer novidades. Uma noite de sono, um sonho diferente, às vezes, faz o amanhã ser melhor. Eu estava com muitas certezas sobre meus próximos passos, mas de um dia pro outro, uma conversa tirou minha firmeza. Agora estou ponderando o que me será mais fácil e mais palatável. Quero algo simples como o ato de cozinhar. Esse tem sido o meu modo de decidir as coisas na vida, depois de tantas frustrações.

Já não tenho disposição pra planos mirabolantes. Quero a tranquilidade no pensamento e uma vida simples. E isso não quer dizer uma vida sem aventuras ou emoções. Eu quero que a vida seja intensa, mas, sobretudo, que tenha consistência, espontaneidade, sinceridade e dignidade. Seria mágico se alguém me surpreendesse estendendo a mão e dizendo que tudo ficaria bem, mesmo que tivéssemos que atravessar o mundo escorados um no outro. A idade vai chegando e gera uma certa ansiedade estar à deriva. Sou alguém construindo novas portas nessa velha casa. Por algumas ainda se pode entrar, mas outras foram criadas apenas para sair.

Todo dia eu faço escolhas, tropeço, me escuto de perto, ouço novamente, mas nunca chego num veredito final. Eu sei que estou um tanto perdido, sem certezas de onde vou navegar. Os filmes que assisto me espantam com descrições fieis da realidade, quando mostram dramas psicológicos de pessoas mastigando a vida. Fora dos filmes, nos dizem pra mudarmos o foco da narrativa, prestar mais atenção nas coisas boas, nos momentos engraçados, mas eu ainda sigo cozinhando, tentando remendar meu cristal trincado. Talvez um pouco de silêncio na mente ajude. A vida pode não oferecer respostas, então, teremos que inventá-las, se quisermos ter algo pra acreditar que tudo vai melhorar. Mas eu fui teimoso, eu preferi a crueza da realidade e, nesse estilo de vida, não há doces ilusões que me desviem o olhar das coisas azedas e amargas. Talvez, a solução pra vida seja dançar com a ficção.

Podemos tentar largar as coisas ruins do mundo ou deixá-las mais afastadas do olhar e simplesmente nos concentrarmos em pequenas grandes ações. Quando estou muito destoante desse padrão estritamente positivista, sinto que estou fugindo de alguma coisa. Mas, do que é que eu estou fugindo? Quando eu fujo de tudo e de todos, talvez eu esteja fugindo de mim mesmo. Talvez, essa desconexão que eu sinto enquanto cozinho é a também uma fuga da realidade ou das coisas que não quero mais encarar. O mundo que, atualmente, parece intragável, nunca foi muito diferente do que é hoje. Então, a crise atual é só uma crise de saturação. Pode ser que essa minha angústia e a busca por novos lugares, momentos e sonhos, sinalize que algo dentro de mim está sempre me incomodando, me obrigando a correr pra longe de mim mesmo.

Prevejo que ainda tenho muito pra moer nas salas de terapia e escrever é parte desse processo, onde eu coloco pra fora meus pensamentos e questiono meus medos, inseguranças, defeitos, angústias, frustrações, desejos, objetivos e planos. Colocar tudo na minha frente me obriga a ver, a ler o que estou manifestando. Materializar o interior é extremamente importante. Quando vamos analisar a vida, não podemos nos limitar à textos técnicos ou críticas baseadas simplesmente na política e na História. É preciso tocar a natureza humana que nos habita, fazer reflexões profundas sobre nosso próprio ser e ver quais ferramentas temos à disposição para lidar com aquilo que encontramos. Melhorar a vida vai muito além de aplicar as ciências do lado de fora. Essa revolução interna é lenta, sem garantias e pode se arrastar por toda uma vida. Mesmo assim, tal como as revoluções políticas e sociais do lado de fora, devem ser feitas.

Quero que a vida seja um pouco mais palatável, mais fácil, mais amigável. Quero sentir algum prazer diferente, alguma emoção mais profunda, mais calor e um tempero novo, mas, também, a segurança de um trem que me leve pra casa depois de um dia difícil, uma fotografia que seja boa por muito tempo, um chuveiro quente, uma bebida esperando na geladeira, uma cadeira confortável, um abraço de quem se importe com a minha presença e sinta falta da minha ausência. Assim eu imagino que seja essa boa dança com a vida.

Para que eu me aproxime, novamente, dessas possibilidades, eu preciso continuar a sonhar e lapidar a qualidade do meu jardim. Sem os sonhos, todos nós já teríamos desistido de tudo e nos rendido às situações mais indignas, injustas e covardes. Precisamos enxergar nos nossos sonhos o componente da resistência, aquela fagulha que nos empurra pra frente. É importante ter a iniciativa e ir realizando, independente do tamanho dos nossos atos. Se pudermos ouvir o ritmo da música, precisamos nos manter dançando, criando, mudando. Mesmo com diversas saudades, eu não posso ficar preso no passado, senão meu futuro estará condenado. Para a comida não queimar, é preciso mantê-la em movimento. O corpo parado enferruja, assim como a mente, o coração, a razão, a cultura, a luta e a vida.

Estamos todos um pouco (ou muito) perdidos, tentando não adoecer em nossas próprias histórias. Mas viver do passado é sempre tarde demais. Se não vivermos o momento presente, não teremos nada além desse passado que não volta. Se é verdade que já não temos nada pra perder, vamos levando a vida no nosso ritmo até onde for possível. De repente, descobrimos um pedaço de bolo esquecido no fundo da geladeira ou alguém nos convida pra uma realidade diferente. Por mais que achemos que nada bom vai acontecer, temos que manter abertas as portas da alma, pois trancadas elas não nos oxigenam, não nos pulsa vida e não nos atrai nada. Nosso ser também é uma casa e para manter qualquer casa agradável, temos que varrer o chão, lavar as panelas, fazer outra comida, abrir as janelas, deixar o sol entrar, tomar um banho, mover o corpo e continuar nos expressando. E uma casa só emana vida quando tem alguém habitando.

Quando faço um pouco mais por mim, sinto que estou concretizando objetivos, mesmo que eles não sejam nenhum dos meus planos. São pequenas coisas no dia à dia que tornam nossa vida mais arejada, mais valiosa, mais digna de ser vivida. Se houver tempo, faça um macarrão e uma salada de brócolis, assista um filme desconhecido, cante uma música, escreva um texto, se permita algumas danças. Vista sua melhor roupa, confortável ou elegante e faça seu dia parecer especial e, talvez, ele acabe se tornando mesmo.

A bateria do carro descarregou de vez. Não teve mágica que desse conta. Reclamei por uns segundos, mas não havia o que fazer. Em breve eu dou um jeito, mas, por hoje, fiz meu dia terminar melhor. Ao invés de me render ao desprazer, fui comer algo gostoso, fiz um pouco de exercício e sentei pra escrever esse texto. Assim, me pareceu mais produtivo, fazendo algo simples pra que eu esqueça o problema e me mantenha no controle. Estou pegando o jeito da coisa. Se pensarmos demais nos revezes do nosso dia, a gente se afunda. “Cozinhando o tempo” é como nomeei esse modo de levar a vida. Sigo cozinhando o tempo pra ver o que me rende daqui umas horas, amanhã ou no fim do mês. Assim, nem vejo os dias passarem. Agora pouco era semana passada e, magicamente chegamos no começo de Agosto. Esse é meu plano pra chegar vivo do outro lado do mundo. Se a vida não me der muitos motivos pra sorrir, que, pelo menos, eu continue humano em cada minuto, me encantando, sentindo pequenas alegrias, apreciando piadas, aprendendo, ensinando, dividindo o tempo e suavizando o mundo enquanto for possível manter a mão estendida.

O que transmuta a dor da vida é tratar as pessoas com gentileza, oferecer carinho aos animais, olhar com curiosidade pra uma estrela que brilha diferente, descobrir um jogo novo, dar um livro de presente, olhar nos olhos de um amigo ou companhia, abraçar alguém que se sente invisível, entrar na brincadeira de uma criança, sentir o cheiro de uma planta, dormir debaixo do sol, elogiar a arte que te agrada, investir tempo em respirar corretamente, descobrir novas palavras no dicionário, ter sempre em mente que a diversidade é a melhor parte do mundo, cortar o próprio cabelo sem medo do resultado, passar menos tempo com aquilo que te irrita e dar apelidos aos gatos que encontra pela internet. Enfim, ressignificar a vida é se preencher de momentos pequenos, porém, melhores. É isso que eu tenho pra hoje. É isso que eu tive por muito tempo e ainda é isso que eu ainda gostaria de ter, talvez pra sempre.

Rodrigo Meyer – Author

Prosa | Saudade ou tranquilidade?

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Um pouco de saudade faz bem, mas, tal como o fiapo de um tecido, nunca sabemos quão longo será, até que tenhamos terminado de puxar. Se envolver numa memória de saudade é sempre um risco. Começamos com um pensamento curto, como um flashback e ficamos mastigando isso como se estivéssemos novamente naquele cenário, naquele tempo. Vários são os dias que eu sou tomado por lembranças do passado, mas, feliz ou infelizmente, elas são muito curtas. Na minha memória, as pessoas se converteram em pedaços isolados de cenas. Certamente as mais marcantes, tanto boas quanto ruins. E mesmo que as cenas logo se acabem, o sentimento pode durar muito mais. Isso é parte do que é a saudade.

Tenho saudade dos lugares onde dancei, dos bares onde bebi, das risadas que dei, das companhias com quem dormi, os lugares por onde viajei. Tenho saudade de mim mesmo quando eu era mais jovem, mais vivo e mais inteiro. Saudade também pelos livros que li, os filmes, as madrugadas, os momentos sozinhos dirigindo na estrada e os apartamentos-portais que visitei e assim os apelidei, de forma humorada, porque neles eu me transportava pra outros mundos e realidades, enquanto perdia a noção do tempo. Percebo que a saudade tem um componente dramático, feito de incerteza. Não sabemos se vamos experimentar novamente aquelas realidades e, talvez, por isso nos apegamos aos momentos que já vivenciamos. É a tentativa de continuar a obter prazer com o que já não está presente além da mente.

Mas, saudade demais machuca e nos deixa mergulhados em uma realidade que vicia. Quanto mais olhamos pra trás, mais abandonamos o presente. Se nos entregarmos ao saudosismo, sem adicionar novas realidades, corremos o risco de paralisar a vida e sobreviver apenas de memórias que nunca saciarão nossa fome. A saudade é um desabafo gritando para a linha do horizonte nossa vontade de que tudo se materializasse na nossa frente e que vivêssemos tudo aquilo outra vez. Saudade é, sobretudo, um sentimento não resolvido, que está nos perfurando de forma recorrente, até que tenhamos mais furos do que partes pra serem furadas. O excesso de saudade elimina nossa própria pessoa da equação e nos faz dependentes de nossas próprias memórias. Talvez seja válido dizer que a saudade é como a abstinência por uma droga. A crise vem porque já estávamos viciados e ao não ter aquilo de que somos dependentes, ficamos transtornados, sem saber lidar com a realidade nos dizendo ‘não’.

É verdade: tenho saudades. Mas, antes de tudo, tenho saudades do tempo em que eu ainda não tinha saudade alguma. Houve esse tempo, onde eu era apenas alguém projetando minhas expectativas sobre o futuro, na maior inocência, podendo, apesar do mundo, viver o momento presente da época, sem me preocupar se amanhã algo me tiraria a paz, me faria falta ou algo assim. Essa saudade é uma saudade diferente. É querer voltar no tempo, mas não pra correr atrás dos nossos vícios e desejos mal resolvidos, mas sim nos livrarmos de tudo isso e sermos apenas alguém que aprecia o exato segundo de algo, sem se perguntar mais nada. Quem, hoje em dia, pode se dar ao luxo de dizer que vive dessa forma?

Quanto mais o mundo se atropela à caminho do seu estado insustentável final, mais nos vemos dependentes de uma salvação, de algo que nos dê um mínimo de prazer, um pingo de dignidade, uma faísca de alegria e uma migalha de tranquilidade. Estamos fugindo do futuro porque percebemos, desde sempre, que estamos no caminho errado para um destino que não vale nem ao menos descrever. Estamos aficionados por qualquer exceção que o mundo possa nos prometer. Se não podemos voltar no tempo, queremos que o momento presente seja nosso novo vício. E disso também surgem problemas, pois continuamos dependentes de um prazer que parece não vir de lugar algum. Estamos sempre idealizando cenários onde nossa vida seja menos dolorida, mais humana, mais divertida e mais sólida. Mas tudo não passa de desejos e sonhos. São planos que não sabemos sequer como começar a concretizar. Estamos naufragando num mar gelado chamado ‘sociedade’, enquanto olhamos ao redor procurando uma boia, um pedaço de terra firme, um barco ou qualquer coisa que nos prometa mais que a mesma água fria.

Olhamos as redes sociais atrás de novidades e ficamos engajados nesse sistema de cliques e comentários, como se algo pudesse brotar no meio da tela e nos estender a mão. Agarrados ao celular, estamos tendo nossa energia mental sugada, pela constante atenção que damos à inúteis notificações. Sua operadora de celular tem mais 5 novos SPAMs na caixa de mensagens, suas redes sociais querem te avisar que alguém fez uma publicação e que talvez você possa se interessar de rever seu próprio conteúdo de 10 anos atrás. Talvez, o abismo que a sociedade atual está ainda não tenha nome, mas, certamente, tem a internet como principal cenário. Não que a vida offline seja menos problemática, mas justamente porque toda ela está representada dentro da internet. O que acontece no mundo lá fora é a mesma coisa que a internet está replicando de inúmeras maneiras, incluso os excessos, as mentiras, as disputas, as guerras, as mazelas, os discursos de ódio, as ilusões e fantasias, as crises psicológicas, sociais e políticas. A internet se tornou o lugar onde vamos para viver um segundo round da mesma realidade. Assim, torna-se compreensível alguém sentir saudade.

Estamos esperando por uma trégua, mas o mundo não parece minimamente pronto ou interessado pra nos conceder. Temos que nos aliviar das dores com as próprias dores. Temos que aprender a sentir prazer com aquilo que só machuca. É como se tivéssemos transformado a vida num jogo sadomasoquista. Queremos ver até onde conseguimos apanhar ou bater, antes que a vida nos destrua de vez. Assim como a saudade revela nosso vício por um prazer inalcançável, esse novo modelo de vida na internet também nos faz entrar em conflito por ideais de sociedade e autorrealização que estão, ao meu ver, incoerentes com o que hoje é praticado pelo usuário padrão.

Um dia desses estava conversando sobre a vontade de largar tudo e ir viver isolado. Como seria o mundo distante das cidades, das pessoas e, claro, da internet? Que impactos positivos teria ao viver como um eremita ou como um monge budista? Por mais repentino que isso pareça, esses pensamentos frequentemente pulsaram em mim desde a adolescência. Penso no que as pessoas ganhariam se deixassem de lado todas essas construções viciadas de sociedade, pra ir viver, novamente, o sentido puro das coisas, contemplando o momento, sem pensar no passado ou no futuro. Acho que, assim, deixaríamos de ter saudade e viveríamos muito melhor. Talvez fosse de grande ajuda para a ansiedade, depressão, crises existenciais, brigas, intrigas, conflitos sazonais, síndromes, medos, fobias, inseguranças, vícios, dramas e tudo o mais. Ou, talvez, tudo isso seja apenas especulações e mais idealizações que podem nunca se concretizar.

Será que todo o caos no mundo é causado por um enorme equívoco chamado ‘sociedade’ ou será que ainda há esperança de construirmos uma sociedade justa, digna e feliz, desde que escolhamos os modelos certos? Nos apontam como seres sociais o tempo todo, mas talvez nossa verdadeira habilidade seja de buscar nossa paz pelo importante exercício de ficarmos sozinhos. Poderíamos, tentar trilhar um caminho com menos estrutura e mais espontaneidade, menos planos e mais sinceridade, menos dramas e mais felicidade. Quão longe chegaríamos em um modelo assim? Essas reflexões surgem porque todo aquele que um dia sentiu saudade, ficou sequelado ou, pelo menos, com uma cicatriz. A dor de ter vivido dias melhores e se perceber defasado, num mundo que não faz pausas é fruto de uma percepção que pra alguns é real e pra outros é subjetiva. De certa forma, não perdemos nada, exatamente. Não somos donos do nosso passado, nem mesmo da nossa vida. Um dia morreremos todos e teremos que aceitar esse desfecho. Não estamos no controle de nada e cada dia que passa estamos mais próximos do nosso próprio fim. Superar as perdas e aceitar construir novos momentos é um caminho possível que ressignifica certos conceitos, muda nossa perspectiva de vida, muda nossas sensações e se não apaga as memórias, pode, ao menos, torná-las menos dolorosas ou até mesmo inofensivas. Pra viver os benefícios de uma sociedade, somos obrigados a viver também uma lista interminável de prejuízos.

Será que essa é a deixa para substituirmos a pesada saudade por uma necessária tranquilidade? Não era exatamente isso que tentávamos alcançar com a própria saudade? Se simplesmente pararmos de esperar pelo que não volta, já encurtamos nosso caminho, indo diretamente para aquilo que já sabemos que nos faz bem agora. No final das contas, o que queríamos não era exatamente nos sentir vivos e despreocupados? De que outra forma podemos alcançar esse objetivo, se ficarmos presos nesse padrão de sociedade? Eu não vejo futuro algum em entrar em conflito constante, pra terminar a vida sem experimentar os resultados dos meus esforços. Eu quero viver o benefício hoje, porque depois de morto, nossos esforços só terão serventia para os que vierem depois. Se por um lado esse pensamento parece um tanto egoísta, por outro, é verdade que as pessoas podem aderir à mudança da percepção subjetiva por elas mesmas também. Para que não tenhamos que pensar nem no passado e nem no amanhã, talvez devêssemos deixar a escolha pela mudança de vida para cada indivíduo. Você escolheria se isolar da sociedade? Valeria a pena ficar pra ver algum modelo organizado de coletivo que pudesse entregar dignidade, tranquilidade e felicidade?

Mesmo que não tenhamos uma resposta definitiva, precisamos ter esse assunto na mente, se quisermos ser decentes com nós mesmos e com o resto da humanidade. O indivíduo que não tem dúvidas sobre as dores pessoais e alheias, não está se debruçando o suficiente no tema, o que denotaria uma falha primordial de caráter e/ou uma profunda deficiência no senso de humanidade. Enquanto vocês pensam um pouco mais sobre a vida individual e coletiva, eu vou tentar viver um dia diferente, pra ver se algum insight surge pra melhorar minha perspectiva de vida. Não me desejem sorte, nem morte. Me desejem uma vida bem vivida.

Rodrigo Meyer – Author

Prosa | Cartas, saudades e novos substantivos.

Esse texto é ficcional, incluindo os personagens e os acontecimentos. Qualquer semelhança com pessoas e episódios reais é mera coincidência. A imagem que ilustra esse texto é meramente ilustrativa, baseada em fotografia marcada como livre para utilização, segundo os filtros de pesquisa de imagem do Google.

Que saudade tenho de escrever cartas pra ela. Trocávamos correspondências como se fosse nossa única opção de contato, apesar da internet. Raramente nos víamos online. Me lembro como era gratificante abrir a caixa de correio e encontrar um envelope com a letra dela. Eu dedicava boa parte dos meus dias contemplando cada aspecto. Depois de retirar com o máximo cuidado a novidade da caixa de correio, levava pro quarto pra olhar mais de perto. Apesar da distância percorrida, o envelope se mantinha perfumado. Era como se eu estivesse conectado diretamente à ela, só de olhar para a carta.

Desde a primeira vez, adotei um padrão de corte na lateral, na intenção de preservar o máximo possível, quando fosse extrair a carta. Era caprichoso, quase que devotado. Adorava fechar os olhos e sentir o presente que eu havia ganhado. Observava o tipo de papel, o desenho das letras, o tom da tinta, os desenhos, a assinatura, os anexos cuidadosamente prensados, quase sempre flores ou folhas secas. Era agradável de ler, mas eu evitava de manusear por muito tempo, pois considerava o meu tesouro pessoal. Logo fui atrás de algumas pastas pra arquivar as folhas individualmente. Se tornou um ritual ou hobby e eu investi tempo e dinheiro nisso.

No final da noite, eu me sentava em uma sala fechada, ligava o rádio bem baixinho e deixava um abajur sobre a mesa. Enquanto ia relendo a carta dela, ia rascunhando a minha. Depois, quando acreditava ter dito tudo, fazia uma versão definitiva com a melhor letra que eu conseguia. Nem de longe eu alcançava a personalidade e a leveza da caligrafia dela, mas eu me cobrava pra ser legível e impor alguma beleza no que eu fazia. Fazia questão de escolher o tom da tinta e fechar o envelope logo em seguida, mesmo que só fosse enviar a carta no dia seguinte. Bons momentos em que estar ansioso era uma coisa positiva. Eu ficava entusiasmado, rindo sozinho e, se pudesse reparar, certamente veria brilho nos meus olhos.

Por muitas e muitas vezes repetimos esse processo de esperar pelo próximo contato, dedicar um tempo escolhendo alguns pequenos detalhes, desenhar palavras e prensar junto uma série de sentimentos e desejos. Ficava cada vez mais intensa a energia enviada e recebida naquelas cartas. Os envelopes quase que falavam sozinhos, tinha luz própria. E enxergar essa conexão tão peculiar com alguém, parecia ser a melhor e única forma de se viver a vida. Se pudéssemos, teríamos antecipado nosso relacionamento desde o primeiro dia.

Vivemos bons momentos, isso é inegável. A saudade que sinto hoje, me faz lembrar de cada um desses detalhes, porque tudo foi realmente muito importante. A saudade é exatamente isso. É saber que perdemos algo de imenso valor que queríamos ter por perto. Não quero especular como seria voltar no tempo e nem divagar sobre porque as coisas acontecem do jeito que acontecem. A vida se inicia, cresce, floresce e, claro, termina. Pessoas morrem, isso é natural. Cedo ou tarde, por um motivo ou outro, as pessoas deixam de nos fazer companhia. Lembrar que as pessoas não são eternas enquanto corpos, nos obriga a olhar pra nossa própria vida. Às vezes eu revisito minhas memórias, tentando me banhar desses momentos bonitos. Mas, se por um lado eles tem esse poder de nos encantar, por outro nos obriga a perceber que não temos mais aquilo. E, às vezes, isso dói, mas também há coisas que perdemos que são puro alívio.

Tenho saudade também pelo estilo de vida. Hoje já não tenho para quem escrever e, mesmo que tivesse, creio que não mais faria. Não é o tipo de interação que faz o devido sentido pra maioria das pessoas. Talvez o momento de escrever cartas já tenha passado e eu me tornei um triste saudosista. Talvez eu queira apenas reviver os sentimentos aos quais isso estava atrelado. Eu realmente não sei dizer. Sei apenas que são outros tempos, outras pessoas e até mesmo eu sou diferente. Me tornei alguém transformado por tudo que vi, vivi e venci, mas, sobretudo, por aquilo que não pude ver, não pude viver, muito menos vencer. Somos a soma de nossos acertos e erros, nossos fracassos e glórias. Se vivemos intensamente, é bem provável que tenhamos mais fracassos do que glórias. A vida não ameniza pra quem quer que seja.

O que faço eu com essa saudade? Onde enterro a minha vontade de escrever cartas? Talvez eu encontre outras formas de trocar tesouros, que não sejam simplesmente cartas manuscritas. Já pensei um bocado nisso e fiquei um tempo listando, de improviso, as coisas que eu gostaria de receber ou presentear, se houvesse alguém realmente digno desse momento. Muita gente não entende o valor das coisas, até que tenha recebido elas de alguém importante. Mesmo que seja um papel amassado, uma fotografia, uma peça de roupa ou um livro, tudo isso vira ouro, se nos causa um específico sorriso. São objetos que não possuem um valor especial em si, mas vindos das mãos certas viram tesouro no mesmo segundo. Foi muito bonito enquanto durou a sensação, mas depois de tantos anos, não havia mais nada que justificasse todas aquelas coisas acumuladas. Me livrei de cada uma delas, transmutando e ressignificando. Fica a saudade, claro, mas isso ainda pode ser discutido.

Quando olho pra esse buraco, sei que ele só existe, porque eu fiz disso algo que me ocupava mais do que devia. Se as coisas começam a pesar e nos impedir de seguir a vida, então é hora de mudarmos o valor que damos ao passado e nos empenhar mais naquilo que ainda temos pra fazer no presente. Não precisamos tentar apagar o que vivemos, pois nunca conseguiremos. Temos simplesmente que perceber que as coisas não são tão importantes como pensamos e que o peso delas na nossa mente, depende exatamente disso. Acho que é essa a resposta que eu preciso pra lidar com aquela saudade. Vou olhar pros meus próximos dias, tentando criar um mundo todo novo, longe daquelas velhas manias, aquelas histórias repetitivas. Tenho muito pra viver, muito pra dizer e, se eu não me sabotar, pode ser que eu vença a próxima partida. Vai depender dos novos hábitos que eu cultivar, das palavras escolhidas, das decisões que faço a cada dia. Eu mesmo dizia pra tanta gente quão importante era cuidar do próprio jardim e, por imenso descuido ou até acaso, eu parei de investir na minha própria vida. Mas, estejam avisados, principalmente eu mesmo, de que amanhã fará sol e eu serei minha própria notícia.

Rodrigo Meyer – Author

Custa caro ser feliz.

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Sentei pra ouvir música, como há várias semanas eu não ouvia. Mas não pude sentir o prazer que isso me dava anos ou décadas atrás. Algo em mim continua desligado, desconectado ou quebrado. Algo em mim grita silêncios, espalha tédio pelo meu dia. Esse algo me faz sentar na mesma cadeira todos os dias e não me deixa sentir descansado. É alguma coisa que me tira da cama para, logo em seguida, me jogar de volta. É algo que me tira o prazer de comer, a vontade de abrir as janelas e às vezes me desencanta até de abrir os olhos. Esses dias o chuveiro de casa queimou e a frieza da água já não me surpreendeu. Talvez, em um contexto normal, eu até reclamasse do azar, mas a verdade é que já não me importo. O chuveiro está queimado, a janela emperrada, a porta empenada e o portão enferrujado. Tudo combina bem com as dores nos joelhos, os olhos cansados, o peso nas costas, a angústia no peito, o frio nos pés.

O mundo parece corroído, lidando com uma vida enferrujada, o trabalho precário, o desemprego, o despejo, a miséria e a falta de perspectiva. Somos um mundo doente, tentando mover as juntas, antes que elas se acabem no atrito. Estamos aflitos e de aflição entendemos bem. Somos uma sociedade vendida como ‘feliz’ por muitos, mas que, na verdade, não está nada bem. Que felicidade é essa que todo ano bate recordes de suicídio, assassinatos, ódio de todo tipo, pobreza, desafeto e desconfiança? Quem é que está feliz de perder a vida todos os dias, de se vender por um prato de comida e não ter nem mesmo garantia de aposentadoria? A felicidade, ao contrário do que dizem os farsantes egoístas, não é uma simples escolha do indivíduo. Dizer tal absurdo, no alto dos seus privilégios sociais é só mais um motivo, entre milhares de outros, pra ninguém abaixo conseguir alcançar o tão desejado caminho da felicidade. Essa gente debocha da dor alheia e difunde a ideia, em mídia aberta, de que o caos não existe e que tudo só depende do olhar que damos às coisas. Nada pode ser mais desonesto e criminoso do que incentivar o conformismo entre os que mais sofrem na sociedade.

Essa gente mesquinha, egoísta, psicopata e desacreditada de todo e qualquer valor na vida, vive pelo dinheiro, poder e fama, pois é tudo que lhe resta na cabeça. Atropelam multidões apenas para apanhar seus próximos centavos. Enquanto isso, eu sento pra ouvir música, mas não sinto mais prazer algum. Também não tenho esperança pelo próximo dia de trabalho e nem sei o que faço nessa sociedade. Talvez eu acorde de um grande pesadelo, mas, por enquanto, tudo me parece real e profundamente amargo. Me enojo pela manhã de ver bandidos fardados abertamente nazistas, debochando das repercussões midiáticas das manifestações antirracistas que percorreram os Estados Unidos e o mundo, repetindo diversas vezes o mesmo ato criminoso que desencadeou tais manifestações. A escolha proposital do momento e dos detalhes de cada ato desses vermes fardados, deixam claro a referência e a intenção. Por isso e por muito mais, eu me sento pra ouvir música, mas já não sou capaz. Eu tento, aproximo os ouvidos, presto atenção, mas nada daquilo cativa a minha mente.

Você que me lê, talvez ainda não esteja do jeito que eu estou. Talvez ainda tenha brilho nos olhos, prazer pulsando pelos poros, virtudes a serem contempladas e dias divertidos à sua espera. Talvez você tenha esperança pelo momento em que essa pandemia propositalmente descontrolada chegue ao fim. Talvez você não adoeça sua cabeça de ver o genocídio na rua ao lado, os cemitérios entupidos e os hospitais colapsados. Talvez você não tenha apreço por nada disso, nem se importe de ver o mundo um pouco mais deteriorado, menos útil e menos mundo. Talvez seja só eu, sozinho no meu imaginário, definhando de dor, de infelicidade, sem saber pra onde vou amanhã, por não ser um daqueles desocupados com indigno título de filósofo ou doutor que brincam de política ao lado de fascistas em um país internacionalmente humilhado, devastado, miserável e indigno.

Sou, talvez, junto com milhões de outros brasileiros, a estranha exceção, a minoria que soma mais de 70% da população, o caso isolado que se vê sempre em toda esquina e a opinião meramente pessoal que, coincidentemente, é a mesma de um imenso coletivo. Dever ser um erro da Matemática, uma falha nas leis da Física e uma ruptura desconhecida com a “verdadeira realidade”. Talvez eu esteja feliz e não saiba, mesmo quando me sento pra ouvir música e sinto absolutamente nada. Por alguma razão misteriosa, olho pela janela e nada mais me importa, entro debaixo do chuveiro de luz apagada, pra não ofuscar essa suposta felicidade brilhante no banheiro. As cortinas estão fechadas, mas deve ser só ornamento pra festejar a euforia que dizem que sinto, mas que não consigo sentir. Deve ser a felicidade que chega sem chegar, a saúde pra nomear doenças, a vida pra representar a morte e assim por diante.

Debaixo das fardas e paletós, sujos de sangue, pólvora e cocaína, a imundice contamina mais que qualquer epidemia. Tem muito dela desde sempre e nos últimos anos foi ainda pior. A imundice se tornou o objetivo de uma classe tão vazia quanto esse mundo sem felicidade alguma. É desse vazio torto de uma parcela doentia, que o mundo se vê apodrecido, morto e sem esperança. Esse ambiente podre no mundo se torna o próprio gatilho que ativa as munições mais pesadas contra a qualidade de vida, a saúde mental, a dignidade humana, a vontade de viver. Nenhuma dessas doenças e mazelas chegam ao acaso e não são nada fáceis de se vencer. Quem me dera se fosse simples como apenas decidir ser feliz, quando nem mesmo a realidade física e química do meu corpo correspondem às alucinações e à falta de caráter desses estercos falantes. Permitir que os imundos tracem qualquer parecer sobre a felicidade da sociedade é dar palco pra quem não deveria sequer estar ocupando espaço físico ou simbólico em canto algum.

Hoje eu acordei, me sentei pra ouvir música e não pude sentir nada. Minha vida está corrompida há décadas e nos raros dias em que existiram sonhos, rapidamente sumiram pra dar espaço pra constante frustração e desejo sincero por vingança e revolução. O tempo passa e ainda estamos na mesma batalha. Batendo todo dia na mesma tecla, contra a alucinação coletiva, contra a barbárie do capitalismo e de sua versão final, o fascismo. Enquanto eu estiver vivo, vou acordar lembrando do que eu preciso, do que eu sinto e do que eu já não consigo mais sentir. Vou me lembrar de cada nome, cada detalhe, cada momento e chegarei cobrando um alto preço pela minha realidade roubada, meus anos de vida não vividos, minha saúde deteriorada e minha raiva acumulada. Só por ironia, me lembrarei de aplicar pesados juros, multas desproporcionais, impostos improdutivos e correções monetárias que façam ervilhas se tornarem o mais novo Universo em expansão. Vai ter poesia, drama, ficção, como toda boa obra de cinema, mas será tudo baseado em fatos reais, como a própria História nos convida para ver e fazer. Se forem necessárias as explosões, como costumam ser nos filmes de guerra, não me oponho. Que venham de todos os tons e megatons. Se um verme me diz que felicidade é questão de escolha, então eu vou dizer pra ele o que é que eu escolho pra me ver mais próximo de ser feliz. Que ele aguente o tranco, porque, como ele mesmo diz, basta assim decidir. Mudanças virão e eu não quero ouvir verme chorando de barriga cheia.

Rodrigo Meyer – Author

O tempo que você não tem, lhe foi roubado.

O tempo, além dos ciclos naturais das estações do ano e o movimento dos astros, é também uma construção social. E dentro dessa construção social é comum de vermos as pessoas criarem construções derivadas desse modelo. O tempo é relativo, mas também tem seu fator concreto. Mais importante do que entender o que é o tempo, é saber o que você faz dele.

Quando as pessoas dizem que não possuem tempo para determinada atividade, geralmente isso significa o oposto na realidade. O que ocorre é que as pessoas que sentem-se sem tempo, por vezes, estão apenas cegas de si mesmas, justamente por estarem ocupando o tempo delas com coisas superficiais e que não são reais prioridades. Quando elas notam alguma coisa da qual elas gostariam ou precisariam muito fazer e se apercebem sem tempo, é preciso refletir que outras coisas estão preenchendo o tempo a ponto de não haver espaço para algo que se quer muito

O dia na Terra tem em torno de 24 horas. É bastante tempo para o modo como estamos acostumados a experimentar nossas rotinas. Uma pessoa comum dentro da média, acorda pela manhã, segue para o trabalho ou estudo, pausa para almoçar, encerra o dia lá pelas 19h00 e retorna pra casa ou segue para alguma atividade de cunho pessoal. Considerando o percurso triste de muitos lugares, isso pode se arrastar por mais algumas horas de transporte. Com alguma sorte essa pessoa vai conseguir dormir as recomendadas 8 horas de sono, pra acordar à tempo de ir pro trabalho ou estudo no dia seguinte.

Se você segue essa rotina descrita acima, é muito provável que você esteja cansado. Seu trabalho te ocupa o dia todo, se levar em conta a soma do transporte, da refeição e do sono que te mantém vivo pro próprio trabalho. Em nenhum desses horários você teve lazer ou algum prazer incluso. É provável que não tenha tido sequer o tempo necessário para se questionar sobre sua condição atual e suas possibilidades paralelas. Como buscar alternativas, quando tudo que você tem é a rotina te algemando à um modelo que te cansa e te ocupa o dia todo?

Se você teve tempo e oportunidade pra ler esse texto, provavelmente você está com uma margem nos seu horário ou então teve a grata oportunidade de folgar por alguns dias na semana inicial do ano. Talvez, ainda, você tenha insônia e, ao invés de cumprir suas 8 horas de sono, você se cansa ainda mais diante da internet, em busca de atender o chamado da mente. Eu não tenho como prever com exatidão qual a sua situação, mas posso lhe dizer algo importante sobre tudo isso. Em qualquer cenário que você estiver, uma coisa não muda: o dia continuará tendo 24 horas e você tem nas mãos escolhas e responsabilidade para colocar na balança. Vejamos.

Se você é uma pessoa solteira, sem responsabilidade com cônjuge, filhos e nem lhe é requerido cuidados mais constantes e presenciais para seus pais ou parentes, você já está em vantagem em relação a muita gente. O Brasil é um país onde raramente as pessoas alcançam qualidade de vida e, por isso, mais atribuições de responsabilidade acabam por se tornar um fardo que faz muita gente desistir ou transbordar em condutas e sentimentos indesejados. Se lhe foi dada a condição da escolha sobre esses aspectos da vida, sinta-se agradecido, pois a maternidade ou paternidade, o cuidado de enfermos ou a aceitação de um trabalho que rouba todas as horas do dia em troca de um salário que custeia apenas a sobrevivência, é uma triste realidade de grande parte da sociedade.

Nessa altura você deve estar se perguntando, como é que pode haver tempo de sobra, se acabei de mostrar que a maioria das pessoas não dispõem de tempo suficiente. A verdade é um contexto mutável e não algo fixo e eterno. Se nos apercebermos de nossas funções no mundo, do nosso esforço, nosso potencial, nosso valor, nosso trabalho, nossas relações com o tempo, com as pessoas e com a sociedade, teremos condições de estimular em nós um senso crítico sobre o que não parece justo, certo ou realista sequer. Quando você se dá conta de que está trabalhando simplesmente pra continuar vivo para o próprio trabalho, você está sendo, em certa forma, escravizado pelo trabalho, apesar da ilusão do salário. Digo isso porque seu salário não é dado para você exatamente, mas custeia apenas sua alimentação, sua moradia, seu transporte e evita que você amanheça morto no dia seguinte e deixe de trabalhar por quem “precisa” da sua fracionada mão-de-obra. Se aperceba que você não usufrui do seu salário para nada que seja destinado à você mesmo, como o seu aprendizado, seu lazer, seu relacionamento afetivo com as pessoas, sua exploração da espiritualidade, o cuidado com a saúde do seu corpo e mente, a elaboração de uma rede firme e saudável de amizades, uma pausa para pensar o mundo, pensar você, pensar a vida, questionar os caminhos e os porquês. Perceba que num modelo de vida apertado assim, ocupando todas suas 24 horas, o tempo lhe é roubado. E se lhe roubam o tempo, é porque você tem tempo de sobra pra ser roubado. Ficou mais claro?

Todos nós temos, tivemos e sempre teremos 24 horas do nosso dia, para fazermos nossas escolhas. É claro que, diante de certas responsabilidades éticas, escolhemos, por exemplo, não negligenciar os cuidados com filhos e família, não subestimar o salário que nos permite dar assistência e sobrevivência para aqueles a quem tutelamos e/ou amamos ou simplesmente para cumprir nosso instinto de sobrevivência e nos mantermos vivos e à salvo nas necessidades mais básicas da Pirâmide de Maslow. Mas, acima das urgências de respirar, urinar, comer, se proteger do frio e do calor, dormir, se manter vivo e com o máximo de saúde possível, temos um outro patamar de realidade, que é talvez igualmente importante por mais que não seja exatamente o motivo da nossa sobrevivência como seres orgânicos.

Além da sobrevivência, temos o viver. Viver é infinitamente diferente de sobreviver. Enquanto o sobrevivente pulsa o coração e mantém ativa as ondas cerebrais para ser tachado de vivo, a pessoa que realmente quer viver e não apenas sobreviver, precisa encontrar função e satisfação além da manutenção do organismo, afinal o ser humano não é apenas o próprio corpo. Ser um ser humano é, antes de tudo, ser dotado de uma individualidade, uma consciência, uma personalidade, uma vontade (e aqui permita-me listar também a Vontade, com ‘V’ maiúsculo, em referência a essência de um indivíduo, como anunciado por uma certa vertente de conhecimento). Viver é, sobretudo, abandonar a servidão da sobrevivência e desfrutar a vida ao lado de seus potenciais e anseios. Existimos para nossos próprios propósitos e não temos que nos sujeitar a nenhum modelo imposto de sociedade, trabalho ou relacionamento. As premissas do mundo, são criações de outros seres humanos, tão comuns e/ou especiais como qualquer outro. Somos todos iguais e o problema na administração do nosso tempo e valor está justamente em alguém ser subjugado por outro, pra que o outro faça o que quer do tempo dele, enquanto a vítima segue pressionada a não ter nada, a não ser nada, a não poder querer nada.

As pessoas que detém 24 horas do seu tempo, tem um tesouro nas mãos. Deveriam fazer bom proveito disso, pra não acabarem infelizes, com sentimento de derrota, frustradas, deprimidas, doentes ou distantes dos seus potenciais, sonhos e responsabilidades. Escolhemos vender a nossa força de trabalho, pois acreditamos pouco na nossa autonomia. Desde que eu me conheço por gente, sempre almejei e sempre fui um profissional autônomo. Trabalhar para os outros nunca me foi uma opção a ser considerada. Claro que se eu me sentisse sem nenhuma segurança ou esperança, viria o pensamento de me sujeitar à exploração do trabalho convencional, afinal tentamos sempre nos mantermos ao menos vivos pela sobrevivência e depois pensamos em viver. Mas, enquanto me foi dada a oportunidade de escolher minha própria vida, escolhi arcar com a responsabilidade de viver na incerteza dos ganhos como autônomo, mas desacorrentado da falsa promessa de estabilidade de um salário mensal em uma empresa. Não me arrependo jamais de ter escolhido o meu caminho.

Eu não posso dizer que você tenha as mesmas condições que eu para tomar essa decisão assim, da noite pro dia, mas posso te contar da experiência de inúmeras outras pessoas em diversos contextos sociais e familiares. Posso te dizer que há pessoas que mesmo tendo uma vida relativamente confortável, escolheram ir para as ruas, para morar e explorar a realidade paralela, como também conheço os que abandonaram as ruas ou o risco de estar morando nelas, para coletar materiais recicláveis descartados, para construir sua própria autonomia na vida, sua moradia, seu tempo livre, sua relativa paz. Sorriso no rosto de pessoas tão distintas falam mais sobre quem elas são por dentro, do que o cenário que deduzimos no mundo físico delas. Para algumas pessoas, certas atividades parecem degradantes, para outras é a oportunidade de se sentirem livres. Obviamente, a sensação de encaixe e satisfação dessas pessoas não anula o fato de que outras muitas sentem-se invisibilizadas ou maltratadas pela vida exatamente por estarem na condição ou cenário em que estão. Para muita gente o abandono familiar, a miséria, a ausência de um lar além do improviso nas calçadas, é uma realidade dolorosa que as pessoas tentam contornar por meio da transformação de significado da vida, mas que, quando não conseguem, caem no abuso de álcool e outras drogas, como fuga de suas próprias realidades.

Começar a falar de tempo e terminar falando de classes sociais é o tipo de realidade que precisa ser visitada mais vezes por aqueles que não perceberam a conexão entre assuntos aparentemente desconexos. O texto não desvia sequer do título. O texto tenta suscitar na sua mente consciente, aquilo que o seu inconsciente já sabe. Por meio das críticas e exemplos que trago, eu espero com sinceridade que você levante um dia e perceba que há valor no seu indivíduo, por mais que a vida tenha insistido em mentir pra você, em te reduzir ou te desacreditar. A vida, de um modo mais subjetivo, são as relações humanas pelo mundo. É o que fazemos uns com os outros que determina como será a vida de cada um. Qualidade de vida nada mais é que manter relações positivas e justas entre as pessoas que interagem em um mesmo ambiente. Se cada indivíduo estiver são e feliz, acaba por descobrir que todos possuem 24 horas do dia pra serem cada vez melhores, num nundo cada vez mais consistente, sem ódio, sem preconceito, sem separação de classes, sem pressão, sem guerra sem coisas desnecessárias que ocupam o tempo de muitos.

E nem vou entrar na questão, por hoje, do desperdício de tempo de atividades como a obrigatoriedade ilusória de sair todo fim-de-semana, de dedicar horas do seu dia pra assistir passivamente a timeline do Facebook, Instagram e Youtube. Essa crítica da vida pós-internet é tão conhecida quanto a própria internet e as pessoas são conscientes disso mesmo quando incorrem no vício que elas não gostariam pra si. Disso já falei em outros textos e, se necessário, voltarei com abordagens diferentes futuramente. Retomemos a linha do pensamento.

Após você ter se apercebido do necessário, é hora de fomentar suas mudanças no coletivo. Sozinho, talvez faça boas coisas, mas em conjunto poderá fazer coisas maiores. Se tornar livre no seu próprio mundo pode ser uma bela conquista, mas, estimular para que todo o mundo seja o seu e de todos os demais pode ser a melhor coisa que você já fez. Encontre-se com as pessoas que pensam de maneira similar com a sua, esclareça os pontos falhos sobre o assunto, divida apoio, esteja lá para empoderar, para deixar um sorriso, um novo modelo de vida, um teor de esperança, um perfume de vitalidade, um pensamento que vá além da opinião e que permita que mais pessoas sintam-se engajadas como você a querer mais da vida do que apenas sobreviver. De início isso poderá ocupar boa parte do seu tempo, mas é uma boa maneira de ocupá-lo, bem melhor do que se enforcar em horas e mais horas de trabalho sem significado, pra que seu patrão compre um carro novo, reforme a casa, viaje pra praia, abra outra empresa e siga enriquecendo às custas do seu suado trabalho.

Me parece mais justo que você escolha pros seus dias a incerteza no final do mês, porque só se torna difícil quando pouca gente está fazendo. Se todos estivéssemos vivendo em um cenário de trocas entre autônomos pelo mundo todo, seríamos todos livres para sermos quem quiséssemos ser. Seriamos livres para pensar, ler, sentir, escrever, desenhar, construir, sonhar, viver. Viver! Vamos redescobrir o sentido da vida, olhando exatamente para os lugares onde ela não está. Se não há vida no seu trabalho ou nas suas relações sociais, mas apenas sobrevivência, é hora de repensar. Tudo bem se você concluir que não é uma mudança boa para você ou que você não tem os contextos necessários para tomar essa decisão. Eu não estou aqui pra te julgar. Eu vim exatamente pra lhe enxergar, dizer que você existe, que você importa e que você deve ser livre o máximo que puder. Tudo que eu posso fazer por você, na posição em que estou é te provocar reflexões, abrir as portas do meu mundo e sorrir diante da reciprocidade e sintonia que houver. Eu não posso tomar as decisões por ninguém e nem mesmo cobrar as pessoas para que tomem qualquer decisão na vida delas. Somos indivíduos e, como tal, há uma vida em cada um de nós, uma autonomia, uma responsabilidade própria, uma liberdade, um hall de escolhas e ações. Exerça sua individualidade, seja o protagonista da sua vida.

Obrigado pelo seu tempo e espero que o meu tempo dedicado nesse texto tenha gerado algo de útil pra você também, pois foi útil pra mim e só seria uma troca se fosse útil à ambos. Isso é o que fiz desse pequeno momento do meu dia e tenho certeza que ele vai me render mais tempo livre em algum momento lá na frente. Eu escolhi viver e escrevo porque é isso que eu desejo fazer.

Rodrigo Meyer – Author

Quem parou de rir, parou de ir.

Quem já foi afetado pela doença da depressão ou conhece alguém que esteve ou está em similar situação, sabe como isso interfere drasticamente nos progressos gerais desse indivíduo. Pessoas com imenso potencial acabam subaproveitadas quando a depressão lhes toca, afinal ninguém consegue se engajar tanto nas atividades, se não sente prazer pela vida. Em situações mais brandas que a depressão (embora até ela tenha nuances), as pessoas podem estar com distimia, que é um transtorno depressivo com sintomas menos severos que a depressão em si, porém mais duradouro. De qualquer forma, seja lá qual for o momento, intensidade e duração com que deixamos de rir sinceramente na vida, estamos parando de caminhar.

Quando uma pessoa tem depressão por muitos anos, pode acabar criando uma imagem mental de si mesma completamente distorcida, por associar o histórico de vida com sua personalidade ou realidade nata. Entender a diferença entre o estado depressivo e o modo “normal” de ser, é uma tarefa difícil, principalmente se você praticamente não teve bons momentos desde a infância. A ausência de parâmetros de felicidade por longos períodos pode interferir na compreensão desse estado ou realidade, em termos de comparação com o estado depressivo. Embora as pessoas saibam que estão tristes, desmotivadas e sendo sugadas pela própria depressão, a felicidade e o prazer parecem coisas impossíveis de se conseguir ou até mesmo abstratas demais pra serem concebidas. Mas é importante lembrar que essa percepção de pouca ou nenhuma esperança é tão somente uma distorção gerada pela própria depressão. Indivíduos deprimidos, possuem uma alteração cerebral sobre o sistema químico, bloqueando ou não aproveitando as químicas que estão direta e naturalmente relacionadas a sensação de prazer. A grosso modo, seria como dizer que o sujeito está imune a felicidade, independente das coisas que acontecem ao redor.

Mas, esse não é um texto apenas sobre depressão. É muito mais abrangente que isso. A grande realidade que precisamos ver aqui é que, por qualquer que seja o motivo, se tivermos um modelo de vida e pensamento que nos priva do riso, estamos ativando outros fracassos na vida. Dizem que sorrir abre portas e que rir é uma das conexões mais intensas que o ser humano consegue traçar socialmente. Temos esse hábito social em comum com os macacos e alguns estudos mostram que algumas outras espécies de animais fazem proveito consciente de certas substâncias, para fins recreativos, assim que entendem a relação entre prazer e consumo. É também visto em algumas espécies, algo que, antes, achava-se ser algo exclusivo dos humanos: a realização do sexo por prazer e não só por instinto de reprodução.

De forma geral, pra todos os seres, sentir prazer pela vida é basicamente a mesma coisa que aproveitar o potencial de si mesmos e da própria vida, seja lá o que ela seja. Uma vez que não sabemos ao certo o que fazemos e quais propósitos realmente temos nessa existência misteriosa, tudo que temos de garantia são nossos sentidos e percepções da realidade. Nossa presença social e também como indivíduos cobra de nós que estejamos mais do que em harmonia, cobra de nós que estejamos felizes o suficiente pra fazer valer os momentos vividos. Embora muita gente tenha tido uma vida longeva em estados menos entusiasmados, é fato que, na média, a tendência é que as pessoas com pouco prazer pela vida levem um estilo de vida mais destrutivo, menos saudável, com diversas somatizações. Quando a mente não vai bem, muito disso se transforma em implicações no corpo físico. Especula-se, por exemplo, que doenças como o câncer estão intimamente relacionadas com outros quadros e experiências, entre eles, as emoções contidas. Pessoas que estão amarguradas ou insatisfeitas por muito tempo, podem acabar somatizando esses e outros dramas em um câncer, devido ao desequilíbrio do sistema imunológico.

O lado bom da vida se expressa pelas coisas que nos dá diversão, felicidade, prazer e motivação em continuar a ser e fazer, especialmente quando permite que outros indivíduos ao redor experimentem esse contexto, tal como se todos estivessem compartilhando de uma mesma festa. Pessoas felizes constroem sociedades com grande interesse de preservar e fomentar felicidade. Através da empatia podemos dividir com outras pessoas as alegrias e dramas. As emoções humanas são possíveis de serem compreendidas e replicadas, em certo sentido, para que outra pessoa sinta aquilo. Essa conexão que temos configura um padrão natural e sadio, pois isso promove o bem-estar nas relações humanas e deixa as portas abertas para que os indivíduos possam exercer suas vidas com satisfação, liberdade e desejo em viver mais. Quando essa conexão não existe ou é altamente corrompida, as pessoas começam a não se importar umas com as outras, gerando um ambiente de desprezo, infelicidade, ódio, violência e pouco ou nenhum respeito e/ou valorização pelas demais pessoas.

Um padrão de vida que externaliza hábitos nocivos pra si e pros outros, invariavelmente, reforça um desequilíbrio que nasceu internamente no indivíduo, devido a inúmeras possíveis origens, inclusive, diversas delas, externas. Sociedades que oprimem, por exemplo, plantam a própria ruína, uma vez que geram pessoas insatisfeitas, infelizes e reativas a opressão. A receita garantida de aumentar problemas, ao invés de solucionar. A ausência do riso ou da felicidade, está intimamente ligada ao fracasso das expressões humanas, afinal realizamos tudo em dependência da motivação da própria vida. Precisamos ver sentido ou ter imenso prazer, ou perdemos a disposição ou interesse de desenvolver ou participar de algo. É assim que a vida deixa de ser uma opção interessante quando somos afetados pela depressão e, exatamente por isso, muitos depressivos podem vir a se tornar suicidas.

Embora pareça óbvio, ainda estamos em tempos em que obviedades precisam ser ditas. Então fica a mensagem de que ser feliz e estar em paz é melhor do que estar infeliz e incomodado. Mesmo que as pessoas digam que querem uma boa vida pra elas mesmas, elas se esquecem de que em nenhum momento conseguirão isso através da violência, da corrupção, da guerra, da opressão, do preconceito, da desconfiança, da perda de qualidade, da má educação e da valorização de arquétipos destrutivos. Enquanto as pessoas estiverem enaltecendo pessoas, instituições ou ideias que reduzem o ser humano em seu potencial de felicidade e bem-estar geral, estarão freando a própria sociedade e a si mesmas, impedindo que desfrutem de um ambiente favorável. O nome disso é “atirar no próprio pé e se queixar da dor.”.

Aquele que não é capaz de entender que é parte inseparável da equação, não conseguirá perceber que seu estado doentio é parte do que bloqueia e impede a sociedade de ser plena e satisfatória. Assim como o desequilíbrio nas químicas afeta o cérebro do deprimido, indivíduos desequilibrados em certos aspectos sociais afetam a sociedade. Partes adoentadas ou danificadas não cumprem a mesma função em uma máquina, seja ela um cérebro, um motor ou uma sociedade. Se não estamos rindo e expressando prazer, estamos sofrendo e estagnando, tanto individualmente quando coletivamente.

O próprio sentido de família e amizade, embora abstratos, explica como e porquê o ser humano depende de bons momentos pra conseguir existir coletivamente e ver sentido em si mesmo como peça dessa engrenagem maior. No fundo, tudo o que o ser humano são deseja é estar bem e compartilhar o bem. Qualquer desvio dessa premissa, confere, por vários motivos, patologias psicológicas ou psiquiátricas que devem ser devidamente cuidadas para não transbordar impactos e prejuízos aos demais indivíduos. Em teoria, as sociedades já fazem esse controle, ao estabelecer vigília, tratamento ou detenção a sociopatas ou a indivíduos que, de alguma forma, estão inaptos a viver em sociedade. Porém, bem longe do ideal, a realidade prática é que, ao invés das pessoas inadequadas e perigosas estarem controladas, elas figuram entre os cargos de maior relevância e impacto na sociedade. Não deveria ser surpresa nenhuma de que há uma lista interminável de criminosos de todo tipo, na política, na polícia, no comando de corporações, em pseudo instituições religiosas, etc. E é exatamente por estarem livres pra agir, que deixam esse legado tóxico ao mundo, em tudo e todos que tocam. Não é, portanto, exagero classificar esse tipo de membro da sociedade como um câncer que afeta as células sadias e destrói a saúde geral do organismo ou sociedade.

Sempre ouvimos a expressão “rir é o melhor remédio.” e de fato é. Se pudéssemos escolher clicar em um botão e mudarmos automaticamente para um padrão de felicidade, certamente faríamos. Ninguém gosta de sofrer. E se ninguém é feliz sofrendo, isso inclui não só o próprio indivíduo, como todos os demais. Ser racional e fazer uso da lógica a favor do próprio bem-estar emocional, físico e social é lutar extensamente para que nosso ambiente ao redor seja melhor, mais feliz, mais livre, com mais riso e menos dor. Trabalhos conscientes nesse sentido, incluem desde cidadãos comuns que escolhem um jeito de viver e de se expressar mais positivo, até indivíduos que entram pra alguma causa ou ação social que visa amenizar o sofrimento e suscitar mudanças de ação e de pensamento. Iniciativas como os ‘Doutores da Alegria’, que visitam pacientes em hospitais, vestidos de médicos-palhaços, ajudam os enfermos a se reposicionarem diante da própria situação e terem mais disposição de enfrentar seus dilemas. Estar doente é um contexto duro de se experimentar e sob isolamento ou pouco prazer, pode tornar-se um fator crucial na piora do quadro clínico.

Outras ações, como as que ocorrem em algumas ONGs ou iniciativas avulsas de assistência social, podem ser gratificantes a quem tenha visão sobre a teia que somos, mas também pode impactar bastante, uma vez que plantar a ajuda quase sempre implica em absorver a dor alheia por conta da empatia e do convívio contínuo em ambientes e contextos de sofrimento, guerra, doença, abandono social, etc. São frequentes as notícias de depressão entre psicólogos, médicos, psiquiatras, professores e ativistas sociais. Muitas vezes a mudança é tão gradual ou camuflada pela própria atividade, que eles não se dão conta do desfecho drástico a que estão submetidos quando afetados emocionalmente e psicologicamente por aquele ambiente. Por razão similar, estudantes de Psicologia, por exemplo, precisam ter alta antes de serem liberados para exercer a profissão. Embora seja altamente necessário e sensato tal filtro, na prática isso é feito de forma simbólica, distribuindo no mercado uma multidão de profissionais sem uma verdadeira alta de seus quadros psicológicos, sendo um terrível risco a saúde psicológica dos pacientes e, portanto, da sociedade em si. Pelo simples motivo de que você não colocaria um estuprador para atender pacientes que foram vítimas de estupro, você não colocaria certos formandos para clinicarem na área da Psicologia.

Assim, todos os dilemas que temos em nossa sociedade são mero reflexo das conturbações de cenários menores, como os países e suas gestões, as cidades e suas realidades, as condições de um bairro, o círculo de amigos, o ambiente de trabalho, a composição familiar, os relacionamentos ditos “amorosos” e, por fim, o universo interno do próprio indivíduo. Não se pode analisar a felicidade do mundo, sem antes, pensar extensivamente na felicidade do próprio indivíduo. Sociedades que ignoram o problema das peças, jamais poderão manter a totalidade da máquina estável. Simples assim.

Apesar de estar escrevendo com certa frequência, o que pra mim é relativamente fácil e interessante, por vezes eu não me sinto disposto ou apto a fazer o necessário. Enfrentei depressão a vida inteira e ainda não me vi seguramente distante desse malefício a ponto de dizer que não voltará a ocorrer. Neste meio, diz-se que depressão é o tipo de coisa que uma vez que se tenha, nunca mais há garantias de que não poderá recair. Sou o claro exemplo de quem parou de ir, porque parou de rir. Sempre fui uma pessoa com bastante senso de humor, ironizando o mundo com piadas e comentários sarcásticos, mas, apesar disso, estive infeliz, arrastando a doença da depressão por todos esses longos anos.

Deixar de rir, no sentido de não estar feliz por padrão, me impediu de ter momentos além daquelas exceções onde ria estritamente em determinados casos, especialmente com ajuda de fugas e estilos de vida que me deixassem vagando pelo tempo. A infelicidade me impediu de socializar, de estudar, de trabalhar, de lutar pelos meus objetivos e potenciais. A infelicidade deixou marcas indeléveis no meu histórico e também na minha saúde. Ela me tomou tempo, levou meu dinheiro e cavou um buraco de insatisfação onde eu não encontro mais amparo. Talvez seja a depressão tocando a campainha novamente, talvez seja a minha análise realista de que um ambiente tóxico e cada vez pior não pode ser viável pra quem deseja boas coisas nessa vida. Fico em dúvida, pois sempre me lembro dessa frase de Freud que nunca me canso de repetir:

“Antes de se autodiagnosticar com depressão, verifique se não está apenas cercado de idiotas.”

Quem tenta inventar bem-estar onde não tem, colocando princípios ilusórios de valores ou ideologias, está tão somente aumentando a própria cova. Sociedades que visam controlar aspectos superficiais, ignorando a origem dos problemas, estão apenas enxugando gelo. Se as pessoas realmente quisessem se ver livres e felizes, fariam exatamente o oposto do que está sendo feito coletivamente na maioria dos lugares. Ideologias que se preocupam em apagar incêndios locais com gasolina, sempre terão que lidar com incêndios e incêndios cada vez maiores. A estupidez e o egoísmo nunca foram soluções pra coisa alguma. Discordar disso é ser a prova disso. Premissas básicas de pensamento e relações precisam, necessariamente, incluir felicidade e liberdade sinceras. A felicidade falsa, expressa sem sinceridade pode ser muito mais tóxica que a tristeza sincera. Em depressão, por exemplo, eu continuo fazendo o melhor possível por mim e pelos outros. Mas uma pessoa em expressão insincera da felicidade, só está enganando a si mesma e iludindo milhões de outras pessoas de que a vida consiste nessa busca rasa, inútil, superficial e doentia de coisas que, na verdade, não deixam ninguém feliz de fato.

Se alguém parece satisfeito demais em um contexto inóspito, pode estar com Síndrome de Estocolmo, onde nega o sofrimento ou opressão experimentados, em defesa de seu próprio opressor. A opção menos provável é de estar em paz, apesar do caos percebido ao redor, o que, com plena certeza, é o caso de raríssimas pessoas e, portanto, não é algo que deva ser exigido por padrão. Não cobre das pessoas que elas estejam sempre de bom-humor, entusiasmadas, dispostas a trabalhar e lutar pelos objetivos e potenciais pessoais, enquanto elas estão enfrentando uma batalha inominável de sobrevivência a própria dor, a dor do mundo e a desnecessidade de tudo isso. Sempre que alguém tenta justificar os insucessos de uma pessoa deprimida, a colocando como culpada, eu, como deprimido, me sinto, ao menos, motivado em não ser tão cego e ignorante a ponto de achar que a vida de um indivíduo e sua bela e rosa exceção, tem qualquer relação com a realidade fora dessa bolha. Não tem, nunca terá e discordar não vai te fazer mais consistente nessa ausência de raciocínio e lógica.

Hoje eu simplesmente gostaria de rir, mas a tudo que olho, me parece insosso, desnecessário, sem graça, estúpido e doentio. Tal como alerta Freud, sinto como se estivesse cercado de idiotas e, portanto, com ou sem depressão não me veria em um contexto favorável. Existir nessa realidade intragável me obriga a repetir: melhorem!

As pessoas devem tentar ser o tipo de pessoa que elas gostariam de conhecer. Foi exatamente isso que eu fiz a minha vida inteira, exceto pela depressão que é algo ao qual não escolhemos e pouco ou nada controlamos. Se não puder sorrir para o mundo, tente pelo menos ser útil e sincero, sempre pautar suas ideias e ações em princípios de lógica e bem-estar coletivo, senão acabará infeliz do mesmo jeito e ainda será a razão principal da infelicidade dos demais. Acorde ou será acordado, pois bolhas estouradas não voltam a se regenerar. Aprenda a conviver com a realidade fora da bolha e perceberá que a solução interna é também a solução coletiva.

Rodrigo Meyer

Seu medo, seu inimigo.

Na temática da autossabotagem, o medo ganha disparado. Indivíduos que baseiam suas vidas em uma grade constante de medo, estão sempre paralisados e aquém de seus potenciais. O motivo é muito simples. A medida em que determinam aquilo do qual possuem incerteza, insegurança, receio ou pouca resolução, tornam-se resistentes a isso, no sentido de armar uma postura de defesa, de recusa. E, claro, se recusamos algo, ficamos sem.

O ser humano consegue desenvolver muitas nuances de medo e consegue controlar também como e quando isso o afeta, desde que esteja em domínio na causa do medo ou do tema ao qual ele se refere. Há pessoas, por exemplo, que possuem medo de se envolver emocionalmente com outras e, por isso, recusam as oportunidades, incluso as positivas, apenas porque automatizaram uma defesa. Tal mecanismo de defesa, extensamente conhecido na Psicologia, faz as pessoas serem vítimas de si mesmas, antes de sequer terem a chance de se tornarem aquilo que não queriam inicialmente: tornarem-se vítimas de algo ou alguém.

Mas é claro que nada é tão simples como apenas definir o que sentir ou pensar sobre as coisas. A mente humana gera situações, ideais e estruturas com base em traumas, complexos e outros contextos que fragilizam o indivíduo a ponto de colocá-lo fora da lógica ou da naturalidade. A exemplo disso, algumas pessoas se sabotam, consciente ou inconscientemente, fugindo de monstros imaginários. Há quem sonhe com estilos de vida, empregos e todo tipo de realidade de carreira ou vida pessoal e, quando colocados a exercer essa jornada, recuam sob inúmeros pretextos. Alguns lançam mão do artifício de sentirem-se inaptos ou insuficientes pra tal feito. Vão dizer que não há saída pra eles ou que não podem aderir a algo, simplesmente porque as condições não permitem. É hora de criar mil e uma fantasias pra tornar aquela realidade desejada, porém assustadora, algo inalcançável. Começa, então, um show de desvios pouco racionais.

Sinta-se a vontade pra rir desse caso que vou usar de exemplo. É o primeiro que me vem na mente de forma instantânea. Trata-se de uma pessoa que passou a vida toda se queixando da vida difícil, dos poucos recursos financeiros, ao mesmo tempo em que, sempre que tinha qualquer progresso ou brecha para melhorar de situação, tomava alguma decisão que eliminasse as chances de desfrutar daquilo. Foi o caso, por exemplo, de quando, diante de uma promoção de cargo no emprego, decidiu pedir demissão ao invés de usufruir de um trabalho com melhores condições e muito melhor remunerado. Qualquer pessoa mentalmente saudável e sensata acharia um disparate essa conduta. Mas, pra uma pessoa que morre de medo de tornar-se próspera, qualquer porta pra essa guinada na vida era motivo pra se afastar, sem pensar muito. O único motivo pra se considerar esses medos patológicos é justamente a característica de oposição ao bem-estar da pessoa e da ausência de motivos racionais pra tal. Se pratica, por opção própria, uma conduta que não a ajuda a se sentir melhor ou a viver em melhores condições, então vê-se aí uma situação doentia.

Ainda nesse exemplo citado, a pessoa sentia-se tão apavorada com a ideia de prosperar, que sempre que tinha a sorte de conquistar algum dinheiro, fazia o pior uso possível desse dinheiro, exterminando ele em pouco tempo com algo completamente desnecessário. Uma vez compreendida a estrutura desse tipo de autossabotagem, pode-se imaginar inúmeros outros casos em todas as temáticas da vida, onde as pessoas simplesmente inventam motivos pra continuarem insatisfeitas com a vida. Cutucando suas mentes, voltando ao tempo da infância (provavelmente), frequentemente encontram as razões pelas quais sentem-se pouco merecedoras dos benefícios da vida ou da própria liberdade em viver. Quase sempre é uma interpretação automática da mente depois de associar que a postura ou palavra depreciativas de alguma figura importante (como um pai ou mãe) tenham sido convertidos em uma espécie de impressão sobre si mesmo com base nesse critério. Em resumo, é como se a mente da criança complexada pensasse: “se meus pais não me enalteceram, então eu não tenho valor” ou “se meus pais me diminuíram, então não tenho valor” ou ainda “se meus pais estavam ausentes, é porque eu não era importante pra merecer a presença deles”. Esse tipo de associação fácil é comum, mas é uma falha da mente, especialmente na infância em pessoas com baixa autoestima ou de mente mais frágil.

Contextos similares podem fazer as pessoas terem condutas de autossabotagem sem perceber que tudo aquilo de que fogem, pode simplesmente ser uma fantasia desnecessária. Ao mesmo tempo em que sentem-se mal pelos reveses que elas mesmas criam, não conseguem parar de criar. Essa automação na mente e nas condutas diante das decisões, pensamentos e relacionamentos, pode gerar uma espécie de personagem que toma o lugar do indivíduo, como que se já tivesse se esquecido quem ele é ou poderia ser, depois de ter passado tanto tempo endossando a figura diminuída, frágil, lida como incapaz ou não merecedora. Reverter essa visão e essa automação é uma tarefa que o indivíduo está habilitado a fazer, se assim quiser. O sucesso disso depende de quanta noção e disposição ele tem pra varrer e transformar a si mesmo. Não é fácil encontrar-se diante do espelho e falar umas boas verdades, antes de se estar devidamente imune ao peso delas. O caso é que verdades só pesam para quem as evita. Tão imaginário quanto os equívocos dos complexos é essa visão de que verdades são incômodas. Quando estamos em posição de querer viver melhor ao invés de nos prejudicar, a verdade torna-se algo que desejamos com afinco a ponto de sentirmos prazer e alívio em lidar com ela. E é tão somente isso que deve ser a vida.

Agora que sabemos que o medo é nosso inimigo, se não quisermos paralisar diante de nosso potencial na vida, precisamos reforçar nossas escolhas, nosso pensamento, nossa autoestima, nossa mente, revendo nossos problemas de infância, nossas crenças, nossas aceitações e recusas diante das figuras que julgamos importante, inclusive a que deveria ser a mais importante de todas: nós mesmos. Se tomarmos a iniciativa de nos presentear todos os dias com coisas boas, evitamos de fechar nossas portas para uma jornada melhor, maior ou, pelo menos, mais interessante. Não é o caso de pensar que, apenas tendo autoestima e coerência com nossas decisões, já seremos as pessoas mais sortudas do mundo, mas sempre que estivermos diante de alguma situação de oportunidade, teremos, ao menos, condições de tentarmos, de aceitarmos o que nos vem e fazermos o nosso melhor com aquilo. O que estiver ao nosso alcance, devemos fazer pleno uso e o que não puder, tudo bem. A vida começa a fazer um sentido diferente, quando percebemos que ela não é nem o passado, nem o futuro, mas exatamente o momento vivido em cada ocasião. Sinta-se livre pra desfrutar da vida, pois é basicamente isso que determina o resultado da equação. Uma vida melhor, está atrelada ao quanto pudemos aproveitar dos momentos e ter isso como nosso histórico na mente e nas relações com o mundo. Como em um jogo de xadrez, cada novo passo que damos, interfere nas novas opções que teremos em seguida. Não jogar não nos faz vencer e nos sabotar nos faz perder sem necessidade.

Rodrigo Meyer

A autoestima das pessoas de mais idade.

Logo de cara é preciso deixar claro que em todas as idades, inclusive entre os mais idosos, existe diversidade, em termos de autoestima, de qualidade de vida, saúde, contextos, etc. Não há como dizer que alguns exemplos isolados retratam toda a comunidade de idosos. Com este texto eu pretendo tão somente despertar o olhar sobre algumas pessoas, alguns episódios e alguns contextos.

Quando eu era criança, olhava para os idosos e me punha a pensar como seriam essas pessoas em suas juventudes. Talvez essa fosse a maneira de tentar desvendar quem eram essas pessoas no momento presente e porque eram de tal maneira. Na maioria das vezes, via idosos com uma expressão de cansaço, um ar sério ou triste. Algumas raras vezes encontrava alguns em condições diferentes. É de se imaginar que o tempo vivido, a condição de saúde e a própria idade avançada em si desse a estes tais características. Mas é preciso dizer, também, que algumas outras pessoas parecem burlar tudo isso, como se fossem mais resistentes fisicamente e/ou mentalmente.

Ouvia que algumas pessoas ‘envelheciam melhor’, como se prolongassem a juventude por mais tempo que a média das pessoas. Sempre achei isso intrigante. Lembro que quando eu tinha uns 15 anos, aproximadamente, vislumbrei uma moça na calçada, em frente a um salão de cabeleireiro. Alguém havia comentado que se tratava da dona do estabelecimento e que já tinha 70 anos. Na época, não consegui tomar como verdade, porque nunca tinha visto uma pessoa de 70 anos com aquela aparência tão jovem. Eu nunca fui bom em distinguir idades, mas mesmo pra mim, foi fácil ver que a aparência não estava nem próxima do número, segundo o que minha mente conseguia pinçar de referências anteriores. Ela era uma pessoa muito ativa, de postura firme, com um andar fluído, um rosto bonito, um olhar marcante. Uma pessoa realmente bonita e, inclusive, atraente. Embora eu não apreciasse o estilo de suas roupas, era fácil ver que, ao estilo dela, ela caprichava em cada detalhe.

Diversos outros episódios similares foram surgindo com o tempo. Várias das pessoas que eu conheci durante os tempos de ensino, eram pessoas entre 30 e 80 anos. Algumas, mesmo com a mesma idade de outras, destoavam na aparência, principalmente pelo semblante. Enquanto algumas pessoas de 40 anos pareciam irritadas com a vida, outras pareciam estar se divertindo. Sorriso no rosto e brilho nos olhos parecia ser o que movia a beleza e jovialidade de algumas delas, enquanto que em outras, as dores e padrões tóxicos as consumia também fisicamente. Começava a ficar claro pra mim que o modo de vida dessas pessoas tinha um peso na equação.

Devido ao meu apreço por pessoas mais velhas pra dividir conversas e interações mais produtivas, eu socializei com muitas dessas pessoas em diversos contextos. E assim eu pude conhecer de perto a realidade de muitas dessas pessoas. Era interessante ver como a autoestima de algumas ajudava a sentirem-se tranquilas e felizes o suficiente pra externar um semblante melhor. E, claro, rendiam elogios entre os mais atentos. Eu notava, inclusive, em como essas pessoas mudavam de postura sobre si mesmas, sobre a vida, sobre o espaço em que socializavam. Parecia que ganhavam uma carga extra de energia para exercer as tarefas do dia ou até mesmo ficavam mais imunes ao stress e as situações infrutíferas da vida e do trabalho. Muito provavelmente, isso as ajudava a retomar um condicionamento físico, refletido, talvez, pelas regulações de hormônios ou algo do tipo.

Com algumas pessoas, por eu não ter conhecido elas em fases anteriores, não sei dizer se foram transformadas para melhor ou se sempre foram daquele jeito. Também não sei dizer se esse padrão de envelhecimento é raro ou se só me parece incomum por eu não ter conhecido um número maior de pessoas. Tudo que sei é que, a autoestima pesa muito na vitalidade do ser humano. Não é preciso dizer que o fator mental e emocional podem levar pessoas a somatizar doenças ou a levar uma vida cercada de hábitos prejudiciais. Uma boa alimentação, atividade física (inclusive o sexo) são fatores impactantes. Não há como negar que essa jovialidade ajuda inclusive a levarem uma vida mais ativa e estimulante, o que as faz manter o vigor, numa espécie de círculo-vicioso.

Do lado oposto, as pessoas com baixa autoestima, parecem alimentar problemas na mente e no corpo. Por vezes, o aspecto pouco receptivo de seus semblantes, a saúde abalada e a pouca disposição, podem repelir contextos prósperos de socialização, atrações físicas ou até mesmo criar um efeito bola-de-neve onde a condição em que se está baixa a autoestima e as faz deteriorar ainda mais a mente e o corpo, chegando em resultados que vão criar mais descontentamento, repetidamente.

Eu tenho 35 anos e adoraria chegar aos 70 anos com o vigor de algumas dessas pessoas que eu conheci. As pessoas ao meu redor comentam, às vezes, que eu pareço ser mais jovem do que a idade aponta. Eu não sei endossar ou negar isso, pois, como eu disse, tenho dificuldade de diferenciar idades e aparências. Conheci pessoas com a minha idade que tinham aspectos melhores, piores, iguais. Eu não sei como é que deveria ser uma pessoa de 35 anos. Me olho no espelho e fico com a impressão de que o tempo não está passando. A única coisa que me mostra o passar do tempo são os pelos brancos na barba, o cruzar dos meses no calendário e o acúmulo de memórias de situações vividas. Não sei se estou envelhecendo bem do ponto de vista físico, mas sinto que vivi bem a minha vida, fazendo sempre coisas incríveis, dando o meu melhor em tudo. Apesar de eu ter boa autoestima, não sirvo como parâmetro sobre o impacto disso na minha saúde física e mental, pois tive um histórico longo de depressão e deterioração da saúde com comida, álcool e sedentarismo. Felizmente tudo isso ficou pra trás há um bom tempo e é perceptível o impacto dessas mudanças.

Há uma obviedade que precisa ser dita: o bem-estar gera bem-estar e como diz a frase célebre, “mente sã, corpo são.”. Ter a mente jovem ajuda demais. O corpo agradece por cada risada sincera e profunda que você deu e por cada estresse que você evitou, quando viveu apontado pra outras direções melhores e mais úteis.

Rodrigo Meyer

Os robôs da cidade.

Observando pouco, muito pouco, você já consegue notar as pessoas perdidas em seus próprios hábitos. Repetem padrões desnecessários, que seriam facilmente evitáveis se tivessem alguma autonomia e autoconhecimento. Olhando ao redor, você nota que as pessoas estão todas agindo de maneira semelhante e cada vez mais artificiais. São, claro, por isso mesmo, completamente infelizes ou artificialmente ativas em uma falsa felicidade que nada mais é que a atenção diante das iscas à que são apresentadas todos os dias. Como um cavalo que persegue uma cenoura pendurada à sua frente, as pessoas vão caminhando em suas vidas, mesmo que não tenham um motivo próprio pra isso e mesmo que estejam infelizes.

Percorrem as escadarias, as calçadas, os elevadores e ocupam seus postos de trabalho. Todos os dias acordam ao mesmo horário, vestem-se do mesmo jeito, ganham o mesmo salário, conversam as mesmas coisas, veem as mesmas pessoas e falam os mesmos assuntos. Cercam-se dos mesmos desejos, dos mesmos hábitos, das mesmas maneiras e das mesmas pseudo-vontades.

Os robôs da cidade podem ser identificados nas casas lotéricas, persistindo em apostar em jogos improváveis dos quais não os tornarão mais ricos, mas levarão deles até as últimas misérias de moedas que lhes sobram de um salário ou aposentadoria já desesperador.

São também robôs na cidade, aqueles que entram aos supermercados e percorrem sempre a rota prevista pelos comunicadores, publicitários ou profissionais de marketing. Lá estão as pessoas levando uma infinidade de coisas das quais não precisam, mas são tomadas, por impulso, a levar sem questionar. Na frente dos caixas, onde apenas deveriam pagar, são novamente tentados a adquirir mais produtos, antes que se ausentem daquele labirinto tentador de produtos coloridos e bem embalados.

Esses robôs não sabem bem pra onde vão ou porque vão. Estão lá, com certa frequência, tão similar quanto a presença diante das telas do computador, celular ou televisão. Não entendem bem porque estão ouvindo aquelas pessoas falarem diante das câmeras, mas acomodam-se em serem telespectadores passivos de qualquer conteúdo, desde que não precisem pensar por conta própria. Assim como computadores, robôs precisam ser programados. Sem comandos não há ação. Se satisfazem pelo conteúdo mastigado, previamente organizado e propositalmente editado, como já refletido, para que sintam-se livres e leves, como um computador que não precisa mais de tanta memória, poder de processamento e energia pra calcular dados. Apenas armazenam conteúdos preexistentes e tornam-se, frequentemente, um bom player de todo áudio e vídeo que receberam.

Os robôs da cidade distribuem apoio financeiro e emocional a criadores de conteúdo questionáveis. Os mesmos que elevam individualmente suas vidas às custas de um público convenientemente ignorante e passivo. Muita gente disposta a ver, ouvir, replicar, compartilhar e disseminar, de todas as formas possíveis, mesmo que inconscientemente, cada um dos absurdos apresentados como se fossem a última obra prima do Universo.

Os robôs estão em todo canto. É fácil reconhecê-los. As roupas são iguais, as falas são as mesmas, a estrutura de repetição é previsível como encontrar água num oceano. São pessoas fáceis de compreender e difíceis de aceitar. Entre eles, entendem-se relativamente bem, o suficiente pra se sentirem unidos como uma grande família ou grupo de pertença. Mas, como todo robô, entra em conflito fácil com qualquer outro conteúdo que não seja compatível com aquilo que foram previamente programados pra aceitar e compreender.

Assim, ainda que iguais em certo sentido, são todos desiguais pelas incompatibilidades em suas particularidades. São unidos, contudo, pela idiotização massificada que, essa sim, é universal e propositalmente padronizada para que funcione em todo tipo de robô, independente do modelo.

Percebe-se, então, que o grande malefício é tão somente a ausência de pensamento autônomo. Não importa com qual programação sejam moldados, serão, enquanto robôs, sempre moldados sob a vontade de terceiros e nunca sobre sua própria vontade.

Robôs não conhecem, não sabem, não vivem. Robôs repetem, replicam, espalham. Robôs, tal como um boneco de marionete, depende completamente de comandos que não são dados por si mesmo. E há tantos outros robôs pela cidade, que já são tomados como normais, embora sejam apenas comuns, pois de normal não possuem nada.

Se um dia você se perguntar alguns porquês, talvez encontre robôs onde não imaginava encontrar. Você olha as pessoas respondendo mensagens ao celular, comprando roupas ou tentando fazer sucesso e percebe algo em comum nesses contextos todos. Condicionadas a fazer tudo da mesmíssima maneira que todos os demais fazem, replicam, principalmente, os erros grosseiros.

Falam de assuntos que não conhecem e de livros que nunca leram, mas opinam como se fossem grandes mestres, intelectuais de Janeiro a Janeiro. Concentram-se em rastejar em cima de alguma moda ou conteúdo popular na esperança de que serão inclusos nessa gigantesca máquina de exclusão social. Se sujeitam a vestir camisetas esportivas de instituições corruptas que levaram seus dinheiros e, mesmo assim, são veneradas como grandes instituições de grandes eventos de pseudo-cultura travestidas em vitrines de alienação e status.

Os robôs estão nas salas de aula, como sugerido pelo clipe “Another Brick in the Wall”, música de Pink Floyd. Em algum momento deveriam se rebelar, mas permanecem, na realidade, bem distantes do desfecho do clipe. São levadas a assimilar conteúdos fictícios já desmistificados, mas que não foram devidamente atualizados pelos professores que não foram reciclados. Médicos, advogados e letrados, repetem asneiras que já deixaram de ter sentido há bem mais que 3 décadas. E alunos formados, bem mais que deformados, acreditam que estão finalmente à par do conhecimento. Só lamento. Levarão adiante suas ignorâncias e estenderão essa confiança absurda para quando, infelizmente, tiverem a oportunidade doente de também darem aulas. Ensinarão, talvez, que não se pode estar em dois lugares ao mesmo tempo, sem saberem que já comprovou-se a capacidade de permanência de um mesmo átomo em locais distintos. Talvez ensinarão que o teletransporte é mera ficção, sem saberem que átomos de madeira já foram teletransportados de um canto a outro. Enfim, ensinarão que aprender bobagens é importante e que buscar conhecimento novo é desnecessário.

Há robôs dirigindo. Bom se fossem apenas os carros automatizados da Google. Na grande maioria são apenas as pessoas robotizadas que, mesmo diante de uma rua vazia pela madrugada, firmam-se no asfalto esperando o semáforo abrir, mesmo que seja totalmente desnecessário. Condicionadas a somente andarem com o farol verde, ficam congeladas diante do farol vermelho, mesmo quando, por exemplo, uma ambulância implora a saída dos carros pela frente pra que possa finalmente passar como lhe é de direito. As pessoas se preocupam muito mais se levarão alguma multa imaginária dos fiscais de trânsito do que em abrir caminho para uma ambulância. A idiotização é um clássico dos robôs. São máquinas, não pensam por si mesmos. Não refletem o cenário sozinhas, a menos que tenham sido programadas pra fazer alguma análise. Mas sempre limitados, sempre repetindo dados predefinidos e nunca satisfeitos, nunca terminados.

Há robôs de todos os tipos, todas as cores, todos os tamanhos. Alguns andam armados, empacotados de cinza e velcro. Outros, obedecem pedidos estúpidos e egoístas de personalidades em vídeos propositalmente sem conteúdo relevante. Não há entretenimento para robôs, porque robôs aceitam o vazio calados. Tudo que eles precisam é de dados. E quando não há inserção de dados, ficam bugados como um computador que tenta ler um drive de CD e não encontra CD algum. Ficam como um navegador que tenta carregar um site para mostrar, sem saber que o servidor não tem nada para entregar. Ficam em erro, paralisados, olhando pra lugar nenhum, com uma enorme ampulheta girando à espera de alguma salvadora ‘solução”. E quando finalmente a conexão volta, seguem, como sempre, o roteiro que lhe era previsto.

E, por incrível que pareça, foram programados pra não se acharem burros, afinal, até no nome, um smartphone é esperto. Sentem-se muito capazes, afinal, veja quantos aplicativos conseguem carregar e quantas imagens podem registrar. Quanto mais robotizados são, mais autônomos e inteligentes pensam ser. E assim, cria-se uma legião de pessoas aptas pra nova era da Inteligência Artificial. Farão tudo que for útil e necessário aos seus criadores e nunca se lamentarão de coisa alguma, pois robôs são incapazes de sentir dores. Se sentirão modernos, plenos, totalmente encaixados na sociedade, pertencentes à uma casta muito nobre: a casta dos degenerados.

Pela cidade, como desde muito tempo, hoje e futuramente, veremos cada vez mais gente, com pouco, quase nada, mas transformadas, configuradas pra que, quando não prestarem pra mais nada, sejam simplesmente descartadas. Aposentadoria será tirada dos códigos de programação, pois robô não tem família, não tem vida e não precisa nem mesmo de pensão. Robô, se programar corretamente, aceita ficar doente, pobre, carente. Com uma ou duas linhas fáceis de programação, robô aceita calado a violência, o estupro, a morte ou a prisão. Aceita ser varrido pro lixo, pois como máquinas que são, se objetificam sem recusar tal condição.

Ah, os robôs. Dominarão o mundo, não acima de seus criadores, mas ocuparão uma escala absurda de quantidade. Serão como produtos fabricados em série e serão, eles mesmos, os consumidores de suas produções, não sem antes trocar todo o esforço de produção por silêncio, obediência e baixo consumo de energia de forma que precise de pouca ou nenhuma atualização. A eficiência da servidão os colocará como o ápice da involução. Mas tudo bem, afinal, porque não?! Se alguém pode ser programado pra inexistir, quem vai discutir que esse é seu propósito e razão?

Tá cansado de ser robô e quer ver sentido na vida? Que tal começar a dar pane e se desconectar da Matrix que lhe aprisiona? Ande na contramão e comece a dizer ‘não’ para aquilo que seu pensamento próprio não puder encontrar boa razão.

Rodrigo Meyer

Voltas e recomeços.

Depois de dias sem postar, estou de volta com este texto. Aproveito o contexto pra discutir o próprio tema ‘recomeço’ e deixar algumas reflexões.

Por mais que desejemos uniformidade ou constância no nosso bem-estar, a maioria de nós passará por momentos difíceis e por diversos imprevistos. Mas nem todo imprevisto é ruim em si. A vida costuma se apresentar de forma inconstante, porque as pessoas são inconstantes e a própria Natureza é pouco dominada diante de sua grandeza e complexidade. O mais sensato é nos lapidarmos pra adquirir alguma habilidade de resiliência, como uma árvore que retorna para sua posição original depois de ser envergada pelo vento forte.

Por vezes, não é fácil entender e aceitar as coisas como elas são ou parecem ser. Temos sempre que estar um passo adiante da nossa zona de conforto, pois mesmo quando saímos de uma zona de conforto inicial, expandimos essa zona e a cada vez precisamos dar um novo passo pra não ficarmos acomodados naquilo que conquistamos. Eu tenho sentido que fiz grandes progressos por me colocar sempre em desafios. A vida se torna mais difícil quando queremos algo, porém se desistirmos,  a aparente facilidade disso nos mostra que apenas abdicamos de tentar e que não tentar exige nenhum esforço.

Encarei muitas situações incômodas desde sempre, mas sempre estive observando a realidade e a mim mesmo para poder compreender minhas opções. Quanto mais conhecemos o funcionamento das coisas, mais fácil se torna perceber onde e como podemos contornar os problemas. Alguns veem isso como criatividade. Eu acho que é apenas o curso natural das coisas quando se busca saídas. Existe uma frase que diz que ‘a necessidade é a mãe da invenção’.

Tem chegado a hora de eu me reinventar. Estou em busca de recomeços porque preciso deles. Recomeçar pode ser perturbador, porque somos levados de volta ao zero e temos que construir tudo novamente. Mas, por outro lado, temos conosco a experiência e a sabedoria que adquirimos em nossas outras empreitadas. Cada fase da minha vida eu dediquei esforço concentrado em certas atividades e áreas de estudo e tive a oportunidade de mergulhar em muita prática. Eu adquiri o tal de know-how que é tão importante em qualquer setor da vida.

Hoje, tentando maneiras novas de chegar na estabilidade e bem-estar, começo a olhar ao meu redor e a descobrir quais outras coisas estão ao meu alcance. Que outras ferramentas ou maneiras diferentes de usá-las poderão fazer a diferença pra mim? Fico imaginando as pessoas perseguindo sonhos alheios que não as pertencem e vejo muita gente dedicar esforço, tempo e até dinheiro em contextos que são natimortos. Aquilo que as pessoas descobrem tardiamente tende a ser algo obsoleto, pois tudo hoje em dia é muito passageiro. Vejo as pessoas se inspirando em ideias que já não podem mais prosperar ou que já estão saturadas de gente tentando.

Pensar o novo e estar à frente é sair dessa bolha de imitação das massas. Por mais que alguém esteja fazendo sucesso em algo, não significa que imitá-los será garantia de sucesso pra você também. Algumas pessoas iniciaram suas empreitadas em outros tempos, quando aquilo ainda fazia sentido ou quando aquilo ainda era novo o suficiente pra que houvesse pouca gente fazendo e muita gente interessada na novidade. E, atualmente, em um momento em que isso já atingiu um ápice de possibilidades, o futuro já está em outras coisas.

Você pode arriscar a sorte e tentar fazer mais do mesmo. Mas é muito mais garantido investir naquilo que será a próxima realidade, o próximo boom. Mas, não é tão fácil descobrir em que direção isso está. Não sabemos ao certo como será o futuro e nem como nós conseguiremos ou não nos posicionar nestas novas realidades. Tudo que podemos fazer é estarmos flexíveis, de mente aberta e sempre engajados em fazer cada vez mais coisas, arriscar o incerto, tentar o diferente, se permitir ao novo. Mudar pode nos tirar da zona de conforto, mas também pode ser a nossa única chance de conquistarmos algum outro conforto menos ilusório.

A maioria das pessoas não lida bem com a realidade. Elas não aceitam bem o estado em que estão, mas se esquecem que grande parte dessa realidade, às vezes, é fruto das próprias escolhas dessas pessoas. Quando alguém recusa insistentemente a olhar pra verdade diante do espelho e lapidar-se ao necessário, não há como esperar resultados positivos e grandes elogios adiante. Se nada fazem pra se tornarem melhores, como podem querer que o mundo as veja como melhores? Talvez entre eles, numa confusa troca de ilusões, possam brincar de ídolos versus fãs. Mas, fora dessa alucinação coletiva de mal gosto, a verdade é que valem igualmente pouco e vivem igualmente infelizes, sem vida própria e sem motivo válido. São pouco úteis, embora aparentem ser os mais requisitados.

Tão importante quanto saber recomeçar é aceitar com tranquilidade as situações fora do ideal. Não significa se conformar e nem mesmo idealizar isso, mas sim sentir-se bem, apesar disso. Há possibilidade de bem-estar em situações que acharíamos improváveis. Temos que reavaliar nossos padrões, nossas referências e nos colocar com outros olhos e outros sentidos diante das coisas. Algo parecido com aquele ditado que diz que ‘quando a vida te dá limões, faça uma limonada’.

Para seguir adiante com ou sem recomeços, é preciso entender quem se é, como o mundo funciona e quais seus limites e objetivos reais. Faça uma lista, mesmo que mental, de prioridades e estabeleça quais delas são mutáveis. Às vezes o que achamos ser imprescindível para o bem-estar hoje, pode ser descoberto como inútil ou até mesmo prejudicial.

Se não tivermos olhos sinceros pra dentro de nós mesmos e para a sociedade ao nosso entorno, seremos sempre a marionete manipulada que caminha pro abismo com um sorriso no rosto, acreditando ter sido levada ao ápice. Se você não entende bem porque está subindo, você não está no controle e talvez só esteja sendo erguido para um salto livre no abismo. O mesmo pode ser dito pra quem não sabe porque está caindo. Há uma frase que diz que ‘a realidade é do tamanho da sua mente’.

“Errar é humano, repetir o erro é burrice.”

Rodrigo Meyer