Crônica | O dia que não nasceu.

Hoje eu não trabalhei, não aguardei pela hora do almoço, não botei o prato em cima da mesa, não entornei o copo de bebida, não sorri. Hoje eu não lavei roupa, não arrumei a casa, não movi nada de lugar, não troquei de roupa, não me olhei no espelho, nem cozinhei. Hoje eu não tomei sol, não andei na rua, não peguei fila, não paguei contas, não socializei. Hoje eu não fiz nada além de acordar, sentir tontura e sentar. Sentei, fiz o meu melhor, resisti mais tempo e me coloquei a dormir novamente, guardando forças pra um momento mais oportuno. Hoje o dia não nasceu e nem sei se deixei alguma semente pra que amanhã nasça. Quem sabe do meu histórico recente, sabe das minhas prioridades. Ninguém se importa. Todos hipócritas. Ao menor sinal de um dedo apontado evidenciando suas hipocrisias, se doem, se armam contra. Adoram dizer que apoiam causas humanas, exceto se precisar fazer algo. O rótulo é mais fácil de carregar e ainda dá um belo status diante da sociedade idiotizada que vive de aparências e mentiras. Se hoje o dia não nasceu, a maior parte da culpa é da sociedade que já tá morta. Acreditam estar vivos, afinal, andam, compram e falam. Apenas não pensam, porque isso revela o lado amargo da realidade. Covardes.

Rodrigo Meyer

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Crônica | Fugindo da seca.

Deitei e tentei dormir. Difícil foi encontrar uma forma de me acomodar. Nenhuma posição oferecia conforto razoável pra poder me desligar do mundo e ir pros braços de Morpheus. Passei a noite virando de um lado pro outro tentando burlar a dor no corpo. Controlar a mente era minha única saída. O corpo adoecia. Acordei inúmeras vezes e achei que era sorte por me livrar de sonhos tão enojantes. Da última vez, decidi levantar, bebi mais água, sentei na cadeira e tentei respirar com profundidade. Muitos rostos apareceram no mural de culpados dentro da minha memória. Eu sei da minha história tão bem quanto dos que sempre tentaram me sabotar. Sei, sobretudo, que a fraqueza do inimigo está naquilo que ele não pode enxergar. Tentei suportar uma ou duas horas diante do computador, mas prevaleceu a dor. Abri as janelas pra entrar um pouco de novidade. Deitei e voltei pro mundo dos sonhos, contando os dias para o fim do mês. Logo mais, se tudo correr bem, eu não estarei mais por aqui. Que fiquem os carniceiros disputando ódio, mesquinharia e podridão. Eu estarei praticamente viajando, para aquele lugar que pouca gente conhece, quase nunca falam e surtam de medo de um dia chegar perto. A mente dessas pessoas é puro deserto. Sobra areia, nada floresce. Essa gente não cresce.

Rodrigo Meyer