Crônica | Pitada de esperança.

Um tom desbotado começava a tomar conta do clima da casa. Do lado de fora, a sensação de que alí já não tinha vida. Do lado de dentro, um vazio igual ou pior. O cansaço não permitia pensar de maneira organizada sobre o que fazer com aquilo. Por sorte, o minimalismo ajudou a reduzir as opções. A cada dia que passa, a casa torna-se, cada vez mais, apenas paredes. Quando completamente vazia, será motivo de festa. Talvez eu possa comemorar, talvez eu não esteja mais por aqui. Enquanto o futuro não chega em definitivo pra me dizer, eu sigo acordando e dormindo, sentindo o cheiro de tempero na comida da vizinha. Me parece alguém que gosta de cozinhar. Às vezes dá vontade de me auto-convidar para um momento desses, especialmente nos dias em que está mais frio. Nas outras casas do bairro, tudo parece tão enfadonho e monótono que chego a pensar que por lá nem comida se faz. Quando eu me mudar, quero voltar a cozinhar. Algo tão simples e com um significado tão importante.

Rodrigo Meyer

Anúncios

Cansaço e comodismo são a mesma coisa?

A imagem que ilustra esse texto é parte da fotografia de autoria de Eslam Ashraf.

Será que há semelhanças entre cansaço e comodismo? Definitivamente não há, mas mesmo assim, por conveniência própria, muita gente gosta de chamar as pessoas cansadas de acomodadas. É apenas um jeito fácil de não ter que pensar no problema real pelo qual aquela pessoa passou a ponto de não estar conseguindo ser mais produtiva ou tão produtiva.

Nossa sociedade espera que sejamos ativos, principalmente pra dar conta das atividades básicas de trabalho e manutenção da vida. Muitas pessoas, infelizmente, perderam suas infâncias, quando tiveram que dar suporte a sua família, trabalhando em casa ou até mesmo fora de casa, pra aumentar um pouco que fosse a renda ou a alimentação. Muitas dessas crianças sem infância, tiveram que trocar a diversão pelo trabalho praticamente forçado, atuando desde jovens em serviços que até para adultos é pesado. Se uma pessoa percorre um histórico desse e em algum momento desenvolve depressão a ponto de não conseguir quebrar a rotina de dormir e acordar, um piano cai sobre suas costas pela opinião preconceituosa e opressiva das pessoas que chamam essa pessoa de ‘acomodada’. Pra piorar o quadro, se essa mesma pessoa tentasse ganhar credibilidade na sociedade, provavelmente não conseguiria, pois ficaria vista como alguém que não se esforça mais.

As pessoas fingem interesse em progresso social, estudo e trabalho, mas na verdade só estão destilando ódio contra as pessoas as quais elas nada sabem ou escolhem não saber. O preconceito de muitos força a visão a permanecer fechada, especialmente quando a realidade que poderia ser vista, evidencia a opressão e o opressor. Quando a realidade anuncia aos gritos os culpados de todo caos, dor e insucesso, as pessoas, acovardadas diante do fato de que não fizeram nada pra favorecer a sociedade, transferem essa culpa ao próprio oprimido, pra tentarem se isentar de qualquer responsabilidade. Não funciona, claro, e ficam irritadas e descontam essa irritação novamente aos seus oprimidos e a quem tenha exposto essa realidade.

As pessoas cansadas estão em toda parte. É a criança recolhendo latinhas de alumínio pra vender na reciclagem e tentar sobreviver, sem saber ao certo onde está sua infância; é o idoso abandonado pela família quando ele mais precisava de apoio; é a pessoa com a doença da depressão, sendo desacreditada na família, na escola, no trabalho, entre os amigos e na sociedade em geral, tentando simplesmente ficar vivo, mas sendo sabotado pelas químicas de seu cérebro; é a mulher que abandona o emprego e os estudos quando enfrenta a sensação de ruína em um estupro; é o desemprego anunciando portas fechadas na cara de pessoas dispostas a trabalhar e que passam meses sem opção alguma de dignidade, por vezes sem sequer conseguir manter-se limpo e com um currículo na mão pra suas próximas tentativas. Aqui eu poderia citar infinitos outros contextos onde as pessoas simplesmente podem se ver cansadas e, de forma nenhuma, acomodadas.

Acomodados, mesmo, são os que enxergam essas pessoas com maus olhos, que não param pra notar que elas chegaram em seus limites ou que simplesmente estão em condições que as impedem de fazer qualquer coisa sobre a situação em que estão. A sociedade sujeitou essas pessoas a uma inação ou a uma realidade tal, que somente a sociedade pode resolver e, claro, não quer resolver e não resolve. Acomodados são aqueles que evitam saber que é perfeitamente possível que todas as pessoas no planeta tenham farta comida, renda estável, estudo e uma atividade (profissional ou não) que contemple seu potencial, seus desejos ou objetivos. Acomodados são os que tem fortunas financeiras, privilégio na sociedade e mesmo assim escolhem não fazer bom uso disso com melhor aprendizado sobre si mesmo, sobre o mundo. São acomodados os que, apesar de terem um emprego e estarem plenamente bem de saúde física, fecham os olhos pra quem destoa dessa realidade. Aqui também são inúmeros os casos que poderíamos citar.

Somos uma sociedade hipócrita que enaltece os que fazem muito sem nenhum esforço ou barreira, chamando esses fracassados de líderes, exemplos, etc. Ao mesmo tempo, tornam insignificantes os que, apesar de imenso esforço, não conseguiram sair do buraco em que a própria sociedade os colocou. Se você jogar um peixe em um poço vazio, ele nunca vai sair do fundo, mas se o poço estiver cheio de água, a condição está favorável pra que um peixe ativo consiga permear todo o poço, como bem entender. O que nossa sociedade faz, usando ainda a metáfora do poço, é simplesmente construir um poço e nunca enchê-lo de água. Dessa forma, quem está fora do poço se vangloria de não estar lá embaixo e acusa quem está lá embaixo de ser acomodado demais pra subir. São construtores e donos desses “poços” os banqueiros; os corruptos; os que receberam imensas terras gratuitas do Estado e repassaram essas vantagens aos seus familiares; os herdeiros de pais ricos que nunca trabalharam um dia sequer na vida, bancados por um estilo de vida fácil, onde podem viajar sempre ao exterior, viver de investimentos e negócios abertos por seus parentes, esperarando passivamente o lucro abusivo cair em suas contas bancárias e desperdiçando suas comidas enquanto ofendem a classe trabalhadora em suas pseudo-conversas de mesa. Esses são tremendamente acomodados.

Vencedores, mesmo, são aqueles que permanecem vivos e dignos, apesar da vida dura que levam; os deprimidos que escolhem dormir pra não se suicidarem; os que se recusam a vida criminosa ou antiética, mesmo não vendo nenhuma oportunidade honesta de trabalho; os que escolhem ficar sozinhos, do que se envolver em relacionamentos tóxicos; os que preferem não enganar o público em troca de lucro fácil ou maior; os que não abaixam a cabeça pra violência do Estado e das quadrilhas paramentadas, mesmo sabendo da realidade; os que escolhem ser úteis ao mundo, mesmo tendo plena certeza de que é o mundo que lhes deve utilidade. Outra vez, inúmeros casos se encaixariam aqui.

Se houvesse tempo e menos cansaço, poderíamos listar cada um dos chamados ‘cânceres sociais’ e desmascará-los um a um, nesse nefasto sistema que favorece somente ao desonestos e antiéticos. Não se pode esperar que uma sociedade construída pelos mal intencionados, venha a ser uma construção diferente deles mesmos. Tudo que fazem é encontrar uma brecha fácil e barata pra explorar friamente qualquer outra pessoa que não tenha tido o azar deles em ter nascido em uma família ou contexto social que os coloca como fracassados acomodados em oposição aos que tiveram que optar pela dignidade, trabalho e, infelizmente, pelo pouco retorno dessas decisões em um ambiente onde honestidade e trabalho não são bem valorizados por quem já detém o dinheiro fácil e em grande quantidade, exceto quando a “valorização” é simbólica e ficíticia, reforçando “quão bom” é se esforçar pelo lucro desproporcional da empresa ou do chefe enquanto se ganha um pouco mais de água ou uma cesta-básica adicional pra não se ver morto por fadiga no trabalho.

Enquanto as pessoas acreditarem que não conseguem subir no poço seco por culpa delas mesmas, estarão compactuando com pessoas fracas que riem dessa situação ao mesmo tempo em que olham com nojo e desprezo aos que almejam dignidade. Forma-se, então, uma pseudo-teoria de que existem duas classes de seres humanos. Somente países que fracassaram nos principais temas chegam a tal conclusão absurda. O erro prático acompanha o equívoco de pensamento. Um exemplo de como se pode ser assertivo foi a ideia sugerida pela Suíça, em 2016, conforme esta notícia, que pretendia estabelecer uma renda equivalente a R$ 9 mil reais a todo e qualquer cidadão (R$ 2.270 reais para crianças), sendo o trabalho facultativo, apesar da renda. A ideia partiria do princípio de que todos pudessem ter a mesma renda, sem levar em conta quaisquer outros fatores prévios de riqueza ou status, permitindo um estilo de vida digno a todos. Todo o sistema financeiro para este feito é autossustentável, pois tem como alicerce o chamado “dividendo digital”, que é, a grosso modo, o dinheiro extra que se consegue por trabalho automatizado não-humano (máquinas e robôs), depois de ter feito o pagamento a todos os cidadãos. E engana-se quem pensa que isso acomodaria as pessoas, pois segundo pesquisas feitas à época, a preferência das pessoas era de justamente continuar trabalhando. O motivo, claro, é que uma vez que as pessoas não precisassem mais se sujeitar a empregos que não gostam só pra ter a renda necessária, elas poderiam finalmente trabalhar com aquilo que realmente gostam e ainda seriam pagas pra ter essa liberdade. Essa ideia, embora pareça inovadora, já existe há, pelo menos, 500 anos.

Ideias como a da Suíça, libertariam as pessoas dessa dependência do trabalho e, assim, elas poderiam exercer seus potenciais além desse setor da vida. Nasceriam deste contexto, inúmeros novos autores, artistas, pesquisadores, famílias com mais tempo pra dedicarem a si mesmos, e quaisquer outros tipos que, de outra forma, teriam dificuldade em substituir o trabalho por renda pela atividade por prazer. É como diz aquela frase: “Só é utopia se ninguém fizer.”.

E como seguimos dizendo obviedades nesse mundo enquanto elas ainda forem necessárias, vou registrar esses dois trechos da matéria da BBC:

Produzimos três vezes mais do que conseguimos consumir (…), mas isso não está acessível a todos. A renda mínima é um direito nesse contexto. Por que não tornar a riqueza acessível a todos?“, questiona o porta-voz do movimento pela renda mínima, Che Wagner, em entrevista à BBC Brasil.

É útil promover uma sociedade em que as pessoas tenham a estabilidade para tentar coisas novas (…), é útil dar a liberdade para as pessoas serem criativas. Isso vai ajudar muito a Suíça se for adotado“, opina Che Wagner.

E agora? Quem são os acomodados? A capacidade humana de inventar foi o que lhe poupou esforço ao longo da História. A própria invenção das máquinas e robôs são exemplos clássicos e atuais de como o ser humano pode se isentar do cansaço, se usar a realidade de modo inteligente e a serviço do bem-estar geral. Contudo, essa realidade futurista que estamos sonhando desde a Era Industrial, nunca se estabeleceu corretamente na maioria dos lugares, simplesmente porque as pessoas que almejam status e diferenciação social por meio do dinheiro, do poder, do sobrenome ou do cargo, ainda se acomodam e se acovardam diante dessa ideia frágil que é tentar ser melhor que outro ser humano, mesmo não tendo razão consistente ou qualidade pra tal pretensão. Ironicamente, é exatamente em modelos como esse proposto pela Suíça, que é possível que o ser humano possa, finalmente, ter renda e bem-estar sem ter a obrigatoriedade de trabalhar. Embora seja isso que muitos ricos no Brasil e em outros países pelo mundo desejem, na ideia concebida pela Suíça, além de ser possível, seria dado a todos os cidadãos.

Sendo realista e honesto, se eu tivesse essa liberdade financeira, podendo, inclusive, ser bem menor em valor, eu já teria optado por fazer estritamente o que eu gosto, sem me preocupar se as contas estariam pagas. Essa realidade é possível até mesmo fora dessa ideia suíça, desde que as pessoas se engajem em um sistema de interação realmente fluído. Quando, por exemplo, uma pessoa recebe um dinheiro pra exercer uma determinada atividade, automaticamente ela fica munida de dinheiro pra consumir produtos e serviços de outra pessoa, fazendo as próximas pessoas ficarem munidas de dinheiro pra fazerem o mesmo a outras e outras, sucessivamente. O problema está justamente quando o sistema não é fluído e uma única pessoa despeja uma quantia absurda de dinheiro somente em pessoas, produtos ou empresa que, ao invés de reverter esse dinheiro de volta pro fluxo, retém esse dinheiro por pura megalomania, para estruturar um “império” ainda maior de captação desse recurso. Esse é o exemplo clássico do que vemos hoje na maioria do mundo, onde apenas 8 pessoas detém mais dinheiro do que a metade mais pobre do mundo. Exatamente porque essa conta não fecha é que algumas pessoas ficam de fora do fluxo sadio de dinheiro e enveredam pela pobreza ao invés da igualdade de oportunidades.

Um sistema que é falho e fracassado a ponto de não ter apoio nem da matemática simples, não pode ser tolerado pelas pessoas se elas quiserem ser dignas e inteligentes o suficiente pra experimentarem a realidade aos moldes do que a Suíça suscitou para nossa reflexão em 2016. Aliás, vale lembrar que de 2016 pra cá, o Brasil conseguiu o inimaginável: estragar o que estava bom e piorar mil vezes o que não estava, apenas porque fracassados acomodados na corrupção da Política não tiveram vontade de trabalhar um dia sequer na vida e, se recebessem dinheiro do Estado para trabalho facultativo, ainda sim seriam um câncer, pois recebendo salários altíssimos como os atuais da Política brasileira, nada trabalham e ainda ficam com sede de mais dinheiro pelo caminho da corrupção. Agora que você conhece quem são os vagabundos desse planeta, fortaleça-se junto aos teus semelhantes, junto aos que lutam por ideais dignos e coerentes e fomente o aprendizado, a consciência e a recusa a modelos desnecessários no mundo. Sua inação lhe cobrará um preço caro: a sua própria piora junto com a piora exponencial do coletivo social. Quando você perde, a sociedade toda perde. Somos peças de um quebra-cabeça maior. Se cada indivíduo não estiver conectado ao necessário, nunca se desfrutará da harmonia do quebra-cabeça finalizado.

Há vários meses atrás eu distribuí livros novos gratuitos e, acredite se quiser, alguns supostos leitores de um enorme grupo de leitura, se sentiram incomodados com a prática. Desacostumados eles mesmos com a ideia de doar e dividir, desacreditam nos que fazem isso. Se esquecem que é exatamente entre os que menos tem, que figuram os que mais sabem partilhar. Quem compreende a dureza da miséria ou da injustiça é aquele que provavelmente irá agir contra tais equívocos no mundo. Sempre e toda a vez que eu pude, eu dividi o que eu tinha junto aos que estavam ao meu redor. Não cabe aqui fazer propaganda, porque não fiz mais que a minha obrigação diante dos contextos. Quando tive mais, dividi mais, quando tive menos, dividi menos, mas nunca deixei de dividir. Até mesmo em situações onde passei fome e que nada poderia comprar com 5 ou 10 centavos, optei por doar esse dinheiro a algum mendigo, que sobrevive, justamente, graças a arrecadação fracionada no coletivo. Se tivéssemos uma noção mais clara e menos doentia do mundo, bastaria preferir riqueza ao invés de pobreza e todos nós, poderíamos desfrutar de um mesmo padrão confortável e digno de vida. Não veríamos mendigos, nem bilionários dando declarações esdrúxulas como esta infeliz, herdeira de um império de mineração, que nunca trabalhou na vida pra reter a fortuna que lhe é atribuída hoje e que, mesmo assim, acha que o ideal ao mundo é que qualquer coisa acima de R$ 4 reais por dia é um salário muito caro pra se pagar a um ser humano. Me pergunto, então, se ela viveria o mês com 20 x R$ 4 reais = R$ 80 reais.

Esse tipo de gente acomodada, fraca, doente e mal intencionada só ocupa essas posições distorcidas na sociedade enquanto os próprios membros da sociedade se descuidam do que é importante de conhecer, fomentar e agir. Sei que muitos estão cansado da situação opressiva do mundo, mas se não pode entrar ativamente nessa batalha de combate ao erro, espera-se que, pelo menos, não critiquem nem criem barreiras para os que estão tentando fazer essa luta ocorrer. Cedo ou tarde a idiotice despenca e quanto mais alta estiver, maior será o impacto e mais garantida será a morte.

Rodrigo Meyer

Como eu enxergo o Instagram?

Quando esse aplicativo surgiu e se tornou popular também aqui no Brasil, eu não tive o menor interesse em me associar, pois o que eu entendia que era a essência dessa rede social era a cultura estereotipada que se formou rapidamente. Inicialmente (e até hoje ainda é bastante assim), as pessoas passavam o dia postando imagens captadas pelo próprio celular, tentando externar um padrão de vida que soasse superior e interessante. Fotografando os pratos de comida, as viagens ou simplesmente fazendo selfies, a grande parte das pessoas estava afogada nesse lifestyle de superficialidade que era registrar sua rotina desinteressante, tornando ela lapidada o suficiente pra ser uma imagem cativante que pudesse arrancar likes e seguidores. Enquanto a tendência geral era essa, eu simplesmente nem instalei o aplicativo no meu celular, pois não haveria com o que eu contribuir ou absorver valor nesse contexto.

Levou tempo pra eu perceber que, como em tudo o mais na sociedade, era possível tentar permear o espaço, sem aderir ao padrão de cultura estabelecido. Embora fosse óbvio que isso seria possível, ficava o questionamento se valia a pena o esforço de transferir conteúdo e contatos para essa nova plataforma, sendo que já existiam tantos outros meios de comunicação e exposição na internet. Pra mim, o minimalismo sempre foi importante e, a menos que eu realmente precisasse de determinado item, eu passava longe.

Meu celular não gera imagens nítidas e livres de ruído e tão pouco tem espaço pra armazenar tantas fotos. Nunca esteve nas minhas prioridades usar a câmera do celular pra criar fotografias, por isso nunca me interessei em publicar algo no Instagram. Sendo fotógrafo há mais de 17 anos, o Instagram, pra mim, era a antítese máxima da Fotografia. Quando vi a possibilidade de transferir fotografias reais pro celular e poder publicar essas fotos, imaginei que seria algo pelo menos divertido, pra poder encontrar pessoas que apreciavam fotos, outros artistas ou até mesmo ter alguma repercussão nesse meio, a medida em que o uso de smartphones estava crescendo bastante em relação aos computadores de mesa. Tomei fôlego e, bem tardiamente, abri minha conta com o resumo das minhas fotografias nessas quase duas décadas como fotógrafo. Mas, como toda rede social, tem suas regras, premissas e truques. Ganhar alguma visibilidade e interação por lá exigia conhecer uma série de fatores, tal como foi no Facebook, por exemplo. E pra isso, certamente eu não estava tão disposto, pois celular pra mim nunca foi ferramenta de trabalho, embora eu soubesse que muita gente estava se estabelecendo no Instagram pra ampliar seu público, suas mídias e controlar, assim, os rumos da sua carreira.

É evidente que o Instagram cresceu tanto que tornou-se uma plataforma de trabalho tão promissora quanto o próprio Youtube. As pessoas criam perfis e conteúdos com base num lifestyle que atrai seguidores e, portanto, visualizações. Isso gera interesse por parte de anunciantes e patrocinadores que querem ter sua marca ou produto expostos para aqueles seguidores. Nada muito diferente do que ocorre em quase toda mídia. O grande problema do Instagram, pro meu caso em particular, é que, por ele ser uma mídia de consumo rápido e raso, não há conteúdo relevante o suficiente pra que faça valer a pena. As pessoas que estão assistindo a tela do celular em aplicativos como este, estão apenas matando o tempo, vendo algumas fotos que enchem os olhos ou que suscitam alguma atenção. Pra mim, isso é o exemplo mais fiel do que é ser zumbi nos tempos atuais. Se tem uma coisa que eu não tenho estômago pra fazer é arrastar minha vida atrás de uma tela de celular.

As pessoas podem justificar que esse é um tipo de mídia, de entretenimento ou até mesmo um prazer pela curiosidade sanada, mas, ainda continua sendo uma pessoa consumindo seu tempo atrás de uma tela de celular, vendo tão somente fotos de anônimos, subcelebridades ou até mesmo celebridades. A versão eletrônica das revistas de fofoca, porém sem texto, sem contexto, resumido e formatado pra não precisar que o usuário do lado lá raciocine com absolutamente nada. A velha estratégia das mídias de massa do “sente e assista passivamente”. Para não passar a impressão de que é exatamente só isso que ocorre, é dado ao usuário a opção de interagir com alguns likes ou até de deixar um comentário abaixo de alguma foto. É evidente que ninguém em sã consciência vai ler centenas de comentários de seguidores, por mais que, eventualmente, houvessem centenas de pessoas dispostas a comentar em uma foto. Essa conta não bate exatamente porque o Instagram é uma rede social feita pra ser de consumo rápido. Você não está sentado em uma mesa com um computador e recursos extras, mas apenas com uma pequena tela na mão, lhe custando a mobilidade pra outras tarefas e exigindo sua atenção pra uma timeline que te força a olhar pra uma minúscula área, tal como um cabresto. Não é atoa que chovem cenas viralizando na internet de pessoas tropeçando na rua ou batendo a cabeça em postes, por não estarem olhando pra frente enquanto estão mergulhadas na tela do celular.

Isso não transforma outras redes sociais em algo melhor, até porque quase todas elas podem ser acessadas pelo celular também e, majoritariamente, já são. Apesar da minha crítica deixar poucos motivos pra se fazer uso desse aplicativo, eu entendo perfeitamente que ele tem sua serventia, especialmente por conseguir se adaptar a um modelo de vida que muitas pessoas estão tendo atualmente. Em um cenário onde as tecnologias são cada vez mais individuais e até íntimas, é natural que tudo seja desenvolvido para que seja portátil e personalizado a cada indivíduo, afinal isso atrai o público ao mesmo tempo em que é uma grande oportunidade pras empresas poderem chegar exatamente nas pessoas específicas que compõem seu target de consumo de produtos, marcas ou ideias. Mas, entender que isso seja uma realidade, não torna essa realidade automaticamente interessante. Enquanto pra muita gente o Instagram é indispensável, até mesmo por conta desse posicionamento profissional, pra mim, que estou a caminho de completar 36 primaveras, é algo que deixo para a geração anterior, um pouco mais jovem ou aos que estão realmente engajados em extrair dinheiro disso.

Perceba que essa não é uma crítica simplista para as pessoas que usam a plataforma, mas com certeza é algo que não se alinha com o que eu tenho vontade ou disposição de fazer do meu tempo ou vida. Soa como se eu tivesse me transformado em um ranzinza que reclama de tudo. Não há como negar que, enquanto o mundo for raso, qualquer um que tiver apreço por mergulhos profundos, vai ter muita dor de cabeça se tentar saltar nessas águas. Para evitar tal dissabor, eu simplesmente mudo de praia, por assim dizer. Enquanto alguns estão apreciando os 2 dedos de água desse “mar”, eu estou em outros cantos, buscando outras ideias, outro estilo de vida, outros propósitos no meu dia, outros aprendizados, outros conteúdos, outros objetivos pra minha existência. Isso não garante que eu seja alguém melhor que os demais, mas garante que eu seja melhor pra mim mesmo, dentro dos meus próprios anseios. E é só isso que eu estou construindo por aqui, enquanto me expresso e absorvo as expressões ao redor.

O mundo está sempre em transformação. Quando o Facebook começou, as pessoas literalmente desprezavam a rede social e hoje, ironicamente, sentem-se tão dependentes dela que, quando ela falha, vira notícia internacional, as pessoas se desesperam e começam a mover os olhos pra fora da tela do navegador com a terrível sensação de que há um mundo de coisas lá fora que precisa ser pensado, porque grita quando estamos em silêncio. O silêncio é o bem mais precioso e poderoso que o ser humano tem. É por isso que as mídias estão sempre tentando fazer algum barulho e converter sua atenção para eles. É isso que lhes garante visibilidade, fama, poder, dinheiro e perpetuação dos modelos e tradições sociais que, de outra forma, seriam intragáveis.

Estou ciente de que muita gente faz uso do aplicativo e pode se sentir em desprazer de ler que eu não tenho prazer algum pelo Instagram. Isso é comum e reflete apenas que o mundo é diverso e que as pessoas estão engajadas e conectadas com as coisas que fazem algum sentido pra elas em determinado momento e/ou contexto. Assim como está sendo válido pra elas o uso do aplicativo, pra mim também existem coisas das quais considero válido e que, eventualmente, pra alguém será desnecessário, sem valor ou incômodo. Eu não vim ao mundo pra dizer o que você deve ou não gostar e muito menos ser seu guru de realidade que vai apontar o caminho secreto. Cada um de nós recebeu uma vida com características próprias que nos colocam em responsabilidade por nós mesmos, para definir o que fazemos com aquilo que entendemos da realidade. Tudo que eu posso fazer, portanto, é tentar apontar luzes sobre a realidade pra que as pessoas ao redor se apercebam melhor do que antes, talvez, não estivesse tão visível para elas. O que elas decidem fazer após essa percepção é algo que só depende delas e eu não tenho nada com isso, enquanto isso não interferir na minha liberdade.

Exemplo de como as redes sociais estão se saturando pelo modelo comercial e massificado é que o Facebook alterou bruscamente seu modelo de rede social nos últimos tempos, como resposta a uma mudança igualmente brusca de uma grande parcela dos usuários. Muitas e muitas pessoas estão simplesmente abandonando o Facebook em definitivo, deletando suas contas e concentrando-se em um modelo de realidade mais offline, por assim dizer. Na tentativa de ainda ser relevante para a maioria, O Facebook se concentra em recursos populares como a possibilidade de vender produtos dentro da plataforma, inclusive automatizando isso para dentro de grupos.

Em paralelo a essa crise do Facebook, nasceu recentemente uma outra rede social chamada ‘Vero’ que promete exatamente o que muitas pessoas queriam e que não encontraram no Facebook: um modelo orgânico de distribuição dos conteúdos, eliminando qualquer artifício de hankeamento ou filtro, permitindo, assim, que qualquer pessoa tivesse o mesmo potencial de visibilidade que outros usuários. Essa isonomia, interfere bruscamente no modelo econômico da rede social, já que não é um ambiente onde ter mais dinheiro ou seguidores vá interferir no seu posicionamento diante dos demais usuários. Vale lembrar que houve um momento onde o próprio Instagram era algo mais orgânico voltado a amigos e familiares e logo se tornou um espaço de marcas e personalidades. Na última atualização, inclusive, o Instagram (que é de propriedade do Facebook há algum tempo) tornou-se um modelo de timeline que privilegia as pessoas com mais acesso e interação, tirando de vista todos os demais que não parecem grandes o suficiente pra serem úteis para anunciantes e patrocinadores.

Foi pensando nesse problema que a Vevo surgiu para contrariar esse modelo de fazer negócios. Ao invés de depender de usuários ou anunciantes que pagam pra terem maior visibilidade na rede, nasceu com a premissa de ser uma rede social sem anúncios em que toda estrutura é mantida pelo dinheiro de assinaturas anuais dos próprios usuários, dando gratuidade vitalícia para os primeiros 1 milhão de usuários, como forma de agradecer e promover a inserção das pessoas nessa nova tendência. Resta saber se, em uma realidade onde as pessoas mal possuem condições de se distanciar da pobreza e cultivam uma crescente dificuldade de trabalho digno e estável, se vão conseguir se destacar na sociedade, sem o uso da rede social paga, enquanto os que podem pagar por isso, estarão caminhando com certo privilégio. A suposta isonomia da rede social funciona muito bem para os que já estiverem dentro, mas em termos gerais, não tem isonomia alguma para a sociedade em geral, principalmente se levarmos em conta que o serviço de internet de grande parte do mundo é caríssimo e que há famílias que simplesmente nem possuem acesso ou acesso contínuo.

A internet é uma poderosa ferramenta de expressão, comunicação, educação e transformação do ser humano e, sempre que alguém não puder pagar pra desfrutar dessa realidade atual, ficará segregado do seu próprio potencial no mundo moderno. Embora as tecnologias avancem, há sempre alguém que estará por fora delas ou fazendo o pior uso possível das funcionalidades. O potencial na internet para quem tenta vencer, cai substancialmente se essa pessoa não tiver nem mesmo condição de acesso e disputa igualitária com os demais usuários. Além da questão numérica, outra barreira é a qualidade de compreensão e proveito que cada tipo de usuário vai ter dos conteúdos. Por isso é importante que apoiemos sempre iniciativas mais promissoras para o benefício de todos, principalmente dos que não possuem quase nada, ao invés de entregarmos de bandeja nosso potencial de progredirmos na vida. Façam suas escolhas, pois as apostas já foram feitas há muito tempo.

Rodrigo Meyer

Sobre o medo de morrer.

Sei que muita gente teme a morte, mas certamente não sou uma dessas pessoas. Consigo entender que as pessoas correm da velhice e da morte e, de alguma forma, vê-se que estão apegadas a este mundo de uma forma tal que, deixar de existir e partir pra outra situação nova, totalmente desconhecida, as apavora. Seja lá o que encontremos depois da vida, como uma continuação ou um ‘eterno nada’ silencioso, reafirmando a brevidade da vida, pra quem tem medo da morte, não importa muito quais são as características da morte, além do fato de que nosso corpo simplesmente para de funcionar e, então, apodrece.

Via de regra, temos receio daquilo que não conhecemos. O mistério assombra muita gente. As pessoas se assustam mais com o que não podem ver do que com o que está bem diante delas. É exatamente o caso de quando as pessoas temem um ambiente sem luz, simplesmente porque não sabem o que há neste ambiente. Alguns se aterrorizam com a mera possibilidade das coisas, fazendo valer a ideia de que uma possibilidade já é mais que suficiente pra impactar alguém, mesmo que esteja distante da realidade.

De certa forma, é basicamente isso que constitui o pensamento e crença das pessoas, em torno da religiosidade, espiritualidade ou mesmo das superstições. Quando o homem vivia em cavernas e mal dominava o fogo, aproveitar o dia requeria dele a luminosidade do sol e algum controle sobre o que ele estava vendo e sentindo. Era possível entender facilmente que alguém estava tocando nele, vendo a presença da pessoa próxima de si, mas tornava-se uma incógnita sentir insetos ou pássaros triscando seus corpos no escuro. Dessa incógnita, a mente se assusta, porque ela não conhece e não compreende. Aquilo que ela tenta resolver e não chega em um resultado, gera uma ansiedade e um desgaste imenso para o cérebro. Um mecanismo de proteção automático da mente é evitar o desconhecido. Para tal feito, alguns se agarram em explicações sobre a vida, sobre a morte e/ou o desconhecido em geral.

Nossa mente consciente nada sabe sobre o desconhecido. Tudo que se constrói na mente sobre a vida, a morte ou o invisível, é uma especulação, uma crença, um palpite ou uma tentativa de dar vazão ao desconforto diante do que não se sabe e que se quer muito saber. Para algumas pessoas, a forma encontrada de lidar com a morte, é idealizar ou acreditar que depois do falecimento do corpo, chegaremos a algum local positivo, alinhado com o que julgamos ser de melhor qualidade ou com mais benefícios. As pessoas nunca imaginam, por exemplo, que a suposta continuidade depois da vida corpórea, seja um ambiente pior. Não seria confortável para a mente, saber que está se aproximando de algo ruim. Seria uma situação semelhante de quando os vivos se apavoram com a morte e evitam qualquer coisa que os deixe próximos dela. O medo de envelhecer, em última análise, é exatamente isso. Sabendo que a cada vez que envelhecem, ficam mais próximos do fim da vida, muita gente fica em desprazer de envelhecer, pois é o mesmo que se aproximar da morte. Essa estrutura de pensamento é abrangente e antiga, tanto que a ideia de um inferno como punição para uma vida fora das regras, deixou muita gente com medo dominada. Mas, felizmente, essa não é a única maneira de se encarar a vida.

Muita gente, inclusive eu, não vive com essa preocupação diante da velhice ou da morte. A morte chegará pra todos, sem exceção. Não se pode viver achando que evitará morrer. Não há porque correr da morte, pois ela é um processo natural que já foi presenciada inúmeras vezes. A impressão que tenho é que, ao evitarmos a morte, estamos atribuindo valor no período em que estamos vivos. É interessante pensar que, apesar das catástrofes do mundo, do modo doentio das sociedades e sistemas políticos, as coisas ainda nos parece com um valor tal, que lutamos para não sair disso. É de se pensar que, enquanto estivermos felizes na vida, veremos prazer em continuar fazendo nossas atividades e desfrutando das satisfações em convívio com outras pessoas e até mesmo com os assuntos infinitos que o mundo nos permite tentar conhecer. Talvez seja esse rompante de disposição e prazer que faça muita gente valorizar a vida. Sinceramente, eu ainda não tenho essa resposta e, por enquanto, não tem sido um desconhecimento que me causa angústia nem ansiedade por respostas. A incerteza sobre a vida sempre existiu e as pessoas continuam nascendo e vivendo. A única diferença na qualidade de vida do indivíduo está justamente como ele gerencia esse desconhecimento. A depender de como ele interpreta, supervalorizando ou não o “problema”, isso pode deixá-lo com medo do desconhecido ou não.

A imaginação humana é poderosíssima. Se você apontar pra um ambiente vazio e fizer uma expressão de medo perto de outra pessoa, mesmo que você não tenha visto nada, tanto quanto a outra pessoa não viu, sua encenação de medo vai representar um problema para a pessoa ao lado. Ela vai ler a sua feição e a mente dela vai entender que há algo de perigoso, assustador, ocorrendo no ambiente e, pra ficar ainda mais bizarro, caso ela não tenha visto nada de fato, deixará a mente completamente ocupada tentando preencher essa lacuna. A mente pode simplesmente entrar em pânico ou formar uma imaginação que resolva esse mistério. Entender porque tanta gente possui medo da morte é entender que elas possuem medo do desconhecido e a morte é um dos maiores ‘desconhecidos’ que existem. Estando vivo não se pode experimentar a morte. Logo, esse é um assunto do qual morreremos sem desvendar. Mas porque isso precisa ser um incômodo?

É compreensível que o ser humano, por conta de sua estrutura, carregue consigo vários mecanismos de autopreservação, estando incluso nisso tudo que possa evitar perigos ou situações que, conhecidamente, levam para a morte em si ou para situações próximas, como os ferimentos graves, grandes dores ou doenças debilitantes. O ser humano está configurado geneticamente pra agir com base no seu instinto de sobrevivência. Porém, uma coisa é evitar a morte por conta do instinto e outra coisa é ter medo da morte. Talvez, no meio dessa salada de experiências humanas, morrer tenha cravado em nosso código genético a associação entre morte e medo, como uma estratégia de eficiência pro instinto. Se passamos a temer a morte, certamente ficamos mais engajados em evitá-la ou em lutar para adiá-la o máximo possível. Consigo entender essa possibilidade, mas trago algo a mais. Há nuances desse medo que não são saudáveis e tornam-se, por isso mesmo, uma contradição. Se a pessoa quer viver mais, ela precisa, então, controlar  o medo exagerado da morte. Se passa a vida inteira com medo de morrer, certamente não está tirando proveito real dos momentos da vida, além de estar provocando uma série de problemas na saúde física e mental que vão degradar seu estilo de vida até o ponto em que, problemas derivados serão potenciais motivos para sua morte precoce.

Eu sempre tive em mente que ter medo da morte é a garantia de pararmos de viver. Se deixamos de fazer as coisas que gostamos, por medo de acabar morrendo, simplesmente paramos de fazer tudo, pois pra morrer basta estar vivo. Imagine, por exemplo, alguém que evita cozinhar, por medo de uma falha no botijão de gás ou medo de uma faca escorregar de sua mão. Embora esse seja um exemplo exagerado, é com essa mesma premissa de lógica que muita gente está deixando de aproveitar o potencial de suas vidas, por medo não só da morte, como de inúmeras outras coisas igualmente ‘banais’, por assim dizer. As pessoas evitam até mesmo quebrar as correntes do sistema que as aprisiona, exatamente pelo medo de que o sistema faça o que está programado para fazer: controlar as pessoas pelo medo da morte. As pessoas se calam diante da realidade, com medo de que algum incomodado venha brecá-las com a morte. Porém, as pessoas se esquecem que, se ninguém tiver medo da morte, inclusive em um cenário onde as mortes de fato ocorram, o próprio sistema de controle pelo medo deixa de funcionar e o objetivo inicial dos opressores desaba. Um sistema só sobrevive se as partes oprimidas cumprem o papel esperado delas no jogo.

Poderia estender essa filosofia pelo viés político e sociológico, mas, por hoje, não é o foco do texto. Queria, a princípio, levantar uma reflexão que é bastante pertinente, ainda mais nos últimos anos onde as pessoas estão começando a se abrir pra certas mudanças de pensamento e de postura. Mesmo que pareça que o mundo está retroagindo na velocidade da luz, alguns passos na direção certa estão ocorrendo e, cada nova geração, carrega um pouco mais de entendimento e liberdade que a geração anterior, mesmo que isso não seja em todas as pessoas. Apesar de ser perfeitamente compreensível e aceitável que as pessoas não consigam concretizar um levante contra seus próprios medos e inseguranças da noite pro dia (principalmente se não houver cumplicidade coletiva), é preciso sempre deixar uma fagulha acesa, pra que o fogo sempre possa ser erguido no momento que for oportuno. Esmiuçar as questões humanas, sobretudo quando toca nessas fragilidades, exige um certo tato pra que possamos trazer mais benefício do que prejuízo ao pinçar um problema e propor uma análise ou solução.

Não existe uma regra de que você deva se transformar na pessoa que eu sou, afastando seu medo da morte. Eu não sei dizer se em algum momento da infância eu tive esse medo e o abandonei ou se sempre fui assim, sem medo de morrer. Claro que isso não significa que eu me exponho em vão a situações desnecessárias. Não ter medo de morrer não significa que tenho ansiedade por morrer. Apenas é algo que não me gera preocupações ou inseguranças. Pra mim está completamente tranquila a ideia de que, em algum momento, seja cedo ou tarde, morrerei por alguma situação. Dalai Lama, em uma de suas frases alerta para o conflito clássico humano, onde as pessoas se tornam depressivas quando vivem demasiadamente no passado ou ansiosas quando vivem demasiadamente no futuro. A solução óbvia, proposta por ele, é viver no momento presente, pois ele é o único momento real. O passado já foi e não podemos mudá-lo, enquanto que o futuro ainda não existe. Em consonância com essa ideia, eu penso que não tenho que lidar com o tema da morte hoje, pois ela é um evento futuro (além de inevitável e natural). Assim, nas minhas mãos está somente o que posso fazer da minha vida hoje e, deste hoje, eu escolhi viver, agir, pensar, me expressar, me engajar naquilo que eu acredito, sem medo de que a mudança positiva que proponho possa ser freada pela minha morte. Lembre-se que não se pode jamais matar uma ideia. Corpos vão, ideias ficam. O mundo muda, cedo ou tarde. Perde tempo, saúde e evolução, aquele que tenta adiar a mudança. Inspirem-se em seus melhores ideais, estejam unidos aos seus semelhantes e façam a mágica acontecer.

Rodrigo Meyer

 

O perigo do falso entretenimento.

O ser humano, assim como outros animais, busca por entretenimento. É uma necessidade natural e é buscada automaticamente pela mente. Exploramos o ambiente em busca de algo que possa prender nossa atenção e nos entregar alguma satisfação. Queremos ocupar nosso tempo de uma forma que faça valer o momento, simplesmente pra não nos sentirmos entediados ou sem propósito. Chegamos no mundo sem descobrir porquê e passamos nossa existência buscando ocupar da melhor forma possível esse intervalo misterioso até o falecimento do nosso corpo.

É nesse cenário que passamos a buscar entretenimento, às vezes assistindo um filme, conversando com alguém, dividindo uma piada, contemplando ou fazendo arte, se desafiando em um videogame, lendo um livro, escrevendo um poema, visitando a natureza ou mesmo observando o movimento na rua. Nossa mente precisa sempre se sentir ocupada pra que nossa existência faça algum sentido. Porém, infelizmente, muitos de nós se perde nessas buscas ou não encontra acesso ou interesse por variedades eficientes de entretenimento.

Quem já visitou um asilo de idosos alguma vez, provavelmente se deparou com uma cena desoladora. Ao menos dos que conheci no Brasil e os que pude deduzir pelas mídias de outros países, certamente é global a tendência de abandono pra essa fase da vida. Por vezes, sem recursos financeiros ou estrutura mínima pra essa comunidade, ficam sem ter como produzir algum entretenimento que contemple as necessidades, limitações e anseios dos tutorados. Não é preciso dizer que são frequentes os casos de depressão entre idosos. Estou citando essa parcela da população, justamente porque este contexto destaca uma questão primordial no ser humano de todas as idades. A sensação de não estar mais ativo, em uma espera passiva pelo dia da morte é o desprazer que mais assombra o ser humano. Enquanto jovem,  o ser humano luta para fugir basicamente de duas coisas: da velhice e da morte. E, claro, mesmo assim, sempre terá esse desfecho.

A vida nos exige que façamos algo dela e é exatamente por isso que estamos sempre em conflito com o que não ocupa o nosso tempo. Apesar de tantas coisas terem sido criadas para supostamente entreter o ser humano, muitas vezes isso não o está preenchendo de fato, podendo apenas estar conduzindo ele para uma morte passiva. Entenda que o problema não é sermos conduzidos até a morte, afinal isso é natural e todos nós chegaremos nela. O problema real é quando, eventualmente, a vida se torna tão somente a ligação vazia e direta entre nascer e se aproximar do fim. Esse intervalo é tudo que temos e por isso nos é sagrado, caro, de valor inestimável. Por isso, para todos nós, a vida não se resolve apenas por existirmos, sendo importante, portanto, exatamente aquilo que fazemos de nossa existência e quanta satisfação conseguimos obter dela.

Existem inúmeras formas de entretenimento para resolver o intervalo da vida junto da curiosidade humana. Em todas elas podemos experimentar momentos bons ou ruins, a depender da veracidade desses momentos. Dividir uma conversa, por exemplo, pode ser muito engrandecedor, mas se o assunto ou o interlocutor nos parece desagradável, podemos nos sentir entediados, cansados ou até irritados. Nesse caso, podemos facilmente identificar que tal entretenimento foi ruim e não nos preencheu, porém, existem outros tipos que, de tão comuns e maquiados pela sociedade, passam pela absorção do público sem o filtro da crítica. Ocorre, por exemplo, quando se trata de um programa de pseudo-humor com piadas sem graça, que ao invés de nos preencher o vazio,  apenas despeja referências rasas de sexo, preconceitos ou até discursos de ódio.

Por muitos anos na televisão aberta brasileira se via os quadros de programa como os de ‘videocassetadas’ onde se expunha uma compilação de vídeos de pessoas se machucando, caindo, escorregando, etc. Essa suposta demanda justificou, inclusive, a criação dos posteriores programas de violência ainda maiores e até mais explícitas, como os programas de tv nomeados de ‘policiais’, onde o público já insatisfeito se nutria de mais insatisfação, cultivando mais motivos pra odiar as pessoas enquanto enaltecia a violência até entrar no padrão mental do desprezo, do preconceito, da opressão, etc.

De tanto ver desgraça, mentira, preconceito e outros entulhos, dentro e fora da televisão, a mente fica insensível a todos esses estímulos, aceitando níveis cada vez piores de “conteúdo” e realidade. Manter a população acostumada ao inaceitável é a meta de muita gente que lucra as custas da ruína do público, durante essas milhares de horas diante desse falso entretenimento dentro e fora das mídias. Por isso, é importante filtrarmos aquilo que nos sujeitamos ou não a absorver ou vivenciar.

Você já deve ter ouvido a expressão “comer isopor” em referência a alimentos que, embora sejam visualmente volumosos, não sustentam o organismo, gerando, muito em breve, vontade de comer novamente. Da mesma forma ocorre com o falso entretenimento que, justamente por ser falso ou raso, te mantém vazio. Com este tipo de entretenimento, você tem a impressão temporária de preenchimento do vazio da vida, mas logo se apercebe que apenas “comeu isopor”. Esse hábito pode se tornar um vício e degenerar sua saúde física e mental. Enquanto a vida não para e o vazio continua, os viciados se tornam intolerantes com a ausência desse falso entretenimento, por efeito da crise de abstinência, similar ao que ocorre com o cigarro de nicotina que mesmo inútil, é requerido como se fosse necessário. Muita gente, inclusive, tem o ato de fumar nicotina, como equivocada tentativa de preenchimento do vazio da vida, perdendo saúde, tempo e dinheiro com algo tão vazio que nem mesmo dá “brisa” ou prazer real.

Quem em sã consciência compraria isopor para o almoço? Quem em sã consciência preencheria os dias de sua vida tentando rir do que não é engraçado ou tentando aliviar o estresse assistindo conteúdos estressantes? Se a conta não fecha, você está fazendo errado. Eu não quero dizer o que é que você tem ou não que escolher pra se entreter, pois isso é completamente subjetivo a cada pessoa. Algumas pessoas se ocupam em estudar idiomas, outras não possuem afinidade ou curiosidade por isso. Algumas se preenchem tocando um instrumento musical ou escrevendo poesias, enquanto outras podem preferir passar longe disso e desfrutar seu tempo cozinhando ou dividindo o prazer de uma refeição com alguém querido. Não importa que tipo de área se tenha interesse, desde que encontre meios sinceros de se entreter nessa atividade, pra não ser enganado com os tais “isopores” da vida. Descobrir aquilo que nos preenche, pode nos eliminar o medo desse incógnito vazio da vida e nos motivar em nossa missão, seja ela qual for.

Rodrigo Meyer

Seu medo, seu inimigo.

Na temática da autossabotagem, o medo ganha disparado. Indivíduos que baseiam suas vidas em uma grade constante de medo, estão sempre paralisados e aquém de seus potenciais. O motivo é muito simples. A medida em que determinam aquilo do qual possuem incerteza, insegurança, receio ou pouca resolução, tornam-se resistentes a isso, no sentido de armar uma postura de defesa, de recusa. E, claro, se recusamos algo, ficamos sem.

O ser humano consegue desenvolver muitas nuances de medo e consegue controlar também como e quando isso o afeta, desde que esteja em domínio na causa do medo ou do tema ao qual ele se refere. Há pessoas, por exemplo, que possuem medo de se envolver emocionalmente com outras e, por isso, recusam as oportunidades, incluso as positivas, apenas porque automatizaram uma defesa. Tal mecanismo de defesa, extensamente conhecido na Psicologia, faz as pessoas serem vítimas de si mesmas, antes de sequer terem a chance de se tornarem aquilo que não queriam inicialmente: tornarem-se vítimas de algo ou alguém.

Mas é claro que nada é tão simples como apenas definir o que sentir ou pensar sobre as coisas. A mente humana gera situações, ideais e estruturas com base em traumas, complexos e outros contextos que fragilizam o indivíduo a ponto de colocá-lo fora da lógica ou da naturalidade. A exemplo disso, algumas pessoas se sabotam, consciente ou inconscientemente, fugindo de monstros imaginários. Há quem sonhe com estilos de vida, empregos e todo tipo de realidade de carreira ou vida pessoal e, quando colocados a exercer essa jornada, recuam sob inúmeros pretextos. Alguns lançam mão do artifício de sentirem-se inaptos ou insuficientes pra tal feito. Vão dizer que não há saída pra eles ou que não podem aderir a algo, simplesmente porque as condições não permitem. É hora de criar mil e uma fantasias pra tornar aquela realidade desejada, porém assustadora, algo inalcançável. Começa, então, um show de desvios pouco racionais.

Sinta-se a vontade pra rir desse caso que vou usar de exemplo. É o primeiro que me vem na mente de forma instantânea. Trata-se de uma pessoa que passou a vida toda se queixando da vida difícil, dos poucos recursos financeiros, ao mesmo tempo em que, sempre que tinha qualquer progresso ou brecha para melhorar de situação, tomava alguma decisão que eliminasse as chances de desfrutar daquilo. Foi o caso, por exemplo, de quando, diante de uma promoção de cargo no emprego, decidiu pedir demissão ao invés de usufruir de um trabalho com melhores condições e muito melhor remunerado. Qualquer pessoa mentalmente saudável e sensata acharia um disparate essa conduta. Mas, pra uma pessoa que morre de medo de tornar-se próspera, qualquer porta pra essa guinada na vida era motivo pra se afastar, sem pensar muito. O único motivo pra se considerar esses medos patológicos é justamente a característica de oposição ao bem-estar da pessoa e da ausência de motivos racionais pra tal. Se pratica, por opção própria, uma conduta que não a ajuda a se sentir melhor ou a viver em melhores condições, então vê-se aí uma situação doentia.

Ainda nesse exemplo citado, a pessoa sentia-se tão apavorada com a ideia de prosperar, que sempre que tinha a sorte de conquistar algum dinheiro, fazia o pior uso possível desse dinheiro, exterminando ele em pouco tempo com algo completamente desnecessário. Uma vez compreendida a estrutura desse tipo de autossabotagem, pode-se imaginar inúmeros outros casos em todas as temáticas da vida, onde as pessoas simplesmente inventam motivos pra continuarem insatisfeitas com a vida. Cutucando suas mentes, voltando ao tempo da infância (provavelmente), frequentemente encontram as razões pelas quais sentem-se pouco merecedoras dos benefícios da vida ou da própria liberdade em viver. Quase sempre é uma interpretação automática da mente depois de associar que a postura ou palavra depreciativas de alguma figura importante (como um pai ou mãe) tenham sido convertidos em uma espécie de impressão sobre si mesmo com base nesse critério. Em resumo, é como se a mente da criança complexada pensasse: “se meus pais não me enalteceram, então eu não tenho valor” ou “se meus pais me diminuíram, então não tenho valor” ou ainda “se meus pais estavam ausentes, é porque eu não era importante pra merecer a presença deles”. Esse tipo de associação fácil é comum, mas é uma falha da mente, especialmente na infância em pessoas com baixa autoestima ou de mente mais frágil.

Contextos similares podem fazer as pessoas terem condutas de autossabotagem sem perceber que tudo aquilo de que fogem, pode simplesmente ser uma fantasia desnecessária. Ao mesmo tempo em que sentem-se mal pelos reveses que elas mesmas criam, não conseguem parar de criar. Essa automação na mente e nas condutas diante das decisões, pensamentos e relacionamentos, pode gerar uma espécie de personagem que toma o lugar do indivíduo, como que se já tivesse se esquecido quem ele é ou poderia ser, depois de ter passado tanto tempo endossando a figura diminuída, frágil, lida como incapaz ou não merecedora. Reverter essa visão e essa automação é uma tarefa que o indivíduo está habilitado a fazer, se assim quiser. O sucesso disso depende de quanta noção e disposição ele tem pra varrer e transformar a si mesmo. Não é fácil encontrar-se diante do espelho e falar umas boas verdades, antes de se estar devidamente imune ao peso delas. O caso é que verdades só pesam para quem as evita. Tão imaginário quanto os equívocos dos complexos é essa visão de que verdades são incômodas. Quando estamos em posição de querer viver melhor ao invés de nos prejudicar, a verdade torna-se algo que desejamos com afinco a ponto de sentirmos prazer e alívio em lidar com ela. E é tão somente isso que deve ser a vida.

Agora que sabemos que o medo é nosso inimigo, se não quisermos paralisar diante de nosso potencial na vida, precisamos reforçar nossas escolhas, nosso pensamento, nossa autoestima, nossa mente, revendo nossos problemas de infância, nossas crenças, nossas aceitações e recusas diante das figuras que julgamos importante, inclusive a que deveria ser a mais importante de todas: nós mesmos. Se tomarmos a iniciativa de nos presentear todos os dias com coisas boas, evitamos de fechar nossas portas para uma jornada melhor, maior ou, pelo menos, mais interessante. Não é o caso de pensar que, apenas tendo autoestima e coerência com nossas decisões, já seremos as pessoas mais sortudas do mundo, mas sempre que estivermos diante de alguma situação de oportunidade, teremos, ao menos, condições de tentarmos, de aceitarmos o que nos vem e fazermos o nosso melhor com aquilo. O que estiver ao nosso alcance, devemos fazer pleno uso e o que não puder, tudo bem. A vida começa a fazer um sentido diferente, quando percebemos que ela não é nem o passado, nem o futuro, mas exatamente o momento vivido em cada ocasião. Sinta-se livre pra desfrutar da vida, pois é basicamente isso que determina o resultado da equação. Uma vida melhor, está atrelada ao quanto pudemos aproveitar dos momentos e ter isso como nosso histórico na mente e nas relações com o mundo. Como em um jogo de xadrez, cada novo passo que damos, interfere nas novas opções que teremos em seguida. Não jogar não nos faz vencer e nos sabotar nos faz perder sem necessidade.

Rodrigo Meyer

Você tem ídolos apenas na Música e Cinema?

Quando falamos em cultura, existe uma tendência das pessoas na atualidade associarem isso a um combinado restrito de música e cinema. É como se todo o restante da expressão cultural sequer existisse. Eventualmente, em menor quantidade, algumas pessoas falam sobre comida, literatura, arquitetura, gírias, hábitos, festividades, folclore, personagens históricos, tradições familiares, tradições locais, costumes, figurinos, modos de socialização, de trabalho, metas, lifestyle, etc. Raras vezes vi alguém incluir como cultura autores contemporâneos de filme ou livro e ainda menos de pensadores ou filósofos que não fossem aqueles bizarros convenientemente forjados pela chamada ‘grande mídia’ para tentar encobrir a triste realidade da ignorância humana.

Navegue por aplicativos ou redes sociais e verá que as principais possibilidades para podemos expressar nossa personalidade diante da nossa cultura está, praticamente, restrita a esporte, música, cinema, televisão e marcas de produtos. Desde algum tempo o Facebook permite destacar ‘restaurantes’ como um dos grupos de informações de nossos profiles. Sejamos realistas: uma rede social desse tamanho lida com a média do público e a tendência de conduta. Como esperado, onde se fala muito de futebol, basquete, baseball e outros esportes populares no mundo ou em grandes regiões, há um espaço reservado pro usuário expressar sua apreciação ou apoio a times, instituições ou eventos relacionados a isso. Em contrapartida, você não verá o formulário das redes sociais, principalmente as que são tão grandes quanto o Facebook, indagarem aspectos “irrelevantes” da vida dos usuários como, por exemplo, seus ídolos na Filosofia ou  suas temáticas de estudo. Para a maioria deles, é mais importante e coerente saber aquilo que as pessoas geralmente estão coletivamente envolvidas. E, por isso mesmo, as redes sociais retratam apenas a limitação dos próprios usuários.

Contudo, o mundo virtual não é o único lugar onde podemos expressar ou exercer nossa cultura ou personalidade. Mas, mesmo offiline, ainda é difícil permear certas áreas da vida ao interagirmos com as pessoas, seja numa conversa ou dividindo atividades. Os campos de interesse da maioria das pessoas parece sumir a cada ano. Infelizmente essa não é apenas a minha visão dos fatos. Em 2016 uma pesquisa mostrava que praticamente metade da população brasileira não lia e que boa parte dessas pessoas nunca compraram um livro sequer na vida. Engana-se quem pensa que isso está relacionado aos preços dos livros, pois outras formas de conteúdos, mídias, produtos e serviços tiveram alta. É comum vermos as pessoas se dobrarem pra conseguir ver um ídolo da música, assistir a um show ou mesmo pagar o caro e péssimo serviço de internet pra poder consumir alguns vídeos de seus youtubers preferidos. Afinal, pra onde está indo o foco da humanidade em termos de cultura?

Não tenho tanta propriedade pra falar de todos os países, mas tenho uma noção geral de como anda a humanidade, por conta do que se torna mainstream em determinados países e acabam por se tornar internacionais e icônicos na televisão, internet e até mesmo na rotina diária de alguns locais, devido a globalização. Como se não bastasse estarem restritos a vídeo e música, grande parte do que consomem é de origem estrangeira, principalmente Estados Unidos e Inglaterra. Antes da internet, absorvíamos cultura estrangeira através de lentas inserções avulsas de viajantes, o que podia levar até 20 anos pra transportar a realidade de uma época para outra região do mundo. No Brasil, foi exatamente isso que ocorreu com o que chamamos de ‘Anos 80’, por exemplo.

Atualmente, o que estiver ocorrendo de tendência cultural em um local, abrangerá simultaneamente os demais países, devido a velocidade com que isso se propaga pelas mídias modernas. Em parte, algo excelente, pois traz diversidade de conteúdos e oxigena o mundo com o que vários tipos de pessoas tem pra oferecer. O ponto negativo disso é que ficamos golpeados com mais do mesmo, já que, em pouco tempo, as pessoas deixam de ter algo realmente próprio pra compartilhar, já que o conteúdo internacional recebido era, basicamente, o mesmo em todos os países. É fácil de resumir isso, fazendo uma analogia com o café: existe água e existe pó de café. Separados, eles são bem diferentes entre si. Mas depois que você os mistura, torna-se a bebida mundialmente conhecida que todos reconhecem o sabor e aparência, mas que já não pode mais ser desfeita pra isolar água e pó. Isso não é necessariamente ruim, pois traz a possibilidade de algo novo e permite que os que tinham apenas água, agora tenham tanto a água pura quanto o café finalizado. Da mesma forma, os que tinham apenas o pó de café, agora teriam também a possibilidade adicional da água. Novos conteúdos, de diferentes culturas e regiões, não são problemas, a princípio, pois são opções adicionais de soluções. Tornam-se um problema somente a partir do momento em que as pessoas se fecham para a criação ou valorização da própria cultura em detrimento do consumo restrito de uma cultura mastigada internacional ou de um país dominante nesse sentido.

Perdemos muito, em termos de cultura, quando abandonamos nosso Cinema em detrimento de grandes produções de Hollywood. Nos tornamos piores leitores e escritores quando abrimos mão da Literatura para focar exclusivamente em filmes, seriados, música e esportes. É evidente que cada pessoa tem preferências diferentes, mas se a ideia é ressaltar a diversidade dos indivíduos, nada mais contraditório do que ter uma massa de humanos, no mundo inteiro, vivendo basicamente sobre as mesmas realidades, os mesmos hábitos de consumo, os mesmos ídolos e áreas de interesse. Diversidade real é encontrar lugares onde as pessoas apreciam filmes americanos ao mesmo tempo em que apreciam outra nacionalidade ou estilo de cinema. Compreende? Se você sair a campo e perguntar para as pessoas quem são seus ídolos no esporte, a maioria conseguirá lembrar das mesmas figuras, provavelmente todas do futebol. Viajando pelo mundo e repetindo a pesquisa, você verá os mesmos nomes sendo citados, uma vez que o Brasil se tornou icônico no mundo pelos jogadores de futebol que começaram aqui e depois partiram pra times de fama internacional.

Tão ruim quanto não conhecer a cultura de outras regiões é conhecer apenas os estereótipos associados a elas. Isso é das coisas mais contraproducentes em cultura, pois já somos imensamente silenciados pelos governos e pelas pressões sociais / familiares. Nos tornamos pessoas moldadas por restrições do que podemos ser, fazer, pensar, ter. Passamos a acreditar nos sonhos alheios e não nos nossos próprios sonhos. Crescemos acreditando que é mais importante e/ou valioso ser fã de um artista da música do que criarmos nossa própria música, do nosso próprio jeito.

Assim como ocorre com a comida, a cultura enlatada também é inferior. A cultura enlatada é industrializada e feita pra ser consumida de forma instantânea e massiva. Talvez seja esse modelo de cultura industrializada que esteja dificultando o surgimento da cultura natural. Corremos o risco de não sabermos distinguir mais o que é artificial de natural. Quando penso nessa ideia, surge na minha mente preocupada a imagem de uma mexerica sem casca, separada em gomos, sendo vendida em uma bandeja de isopor coberta com plástico, pronta para o consumo, para que o fútil consumidor não tenha o “desprazer” de ter que descascar a fruta inteira. Quando me deparei com essa imagem na internet pela primeira vez, comecei a duvidar da capacidade humana. Era pra termos erradicado a fome e miséria no mundo e estarmos nos divertindo com carros voadores e holografia, mas estamos apenas andando pra trás e passando vergonha.

Uns 10 anos atrás, um escritor americano ganhava visibilidade no Brasil. Ainda hoje ouço as pessoas se referirem a ele como algo novo. Consigo entender que cada pessoa descobre os conteúdos ao seu próprio tempo, especialmente se não estiver tão mergulhada em moldes limitadores de moda ou tendência. E é exatamente isso que é o recomendável. É, de certa forma, bom saber que parte das pessoas não está amarrada a determinados modelos de consumo de conteúdo ou mídia. São essas pessoas que de fato estão absorvendo e/ou produzindo cultura natural de uma maneira mais saudável e útil. Essas pessoas é que, frequentemente, podem dividir conosco as ideias ou inspirações de um autor menos conhecido ou até mesmo anônimo. Inúmeras vezes tive minha esperança restaurada ao ver que alguém podia citar nomes na Psicologia além de Freud e Jung. Não se trata de desvalorizar as duas figuras, mas apenas incentivar mais conhecimento, através de outras portas. De maneira igual, está tudo bem conhecer Star Wars, mas o que temos no Cinema além disso? Quando poderemos sentar pra assistir algo que não seja mais do mesmo? Está tudo bem saber quem são os Beatles ou o Legião Urbana, mas quem mais está criando coisas interessantes nas esquinas esquecidas pelo grande público? Percebe?

A cultura, em essência, é tudo aquilo que todos nós podemos gerar, tanto pelos nossos hábitos do dia-a-dia, quanto pelas nossas criações e pensamentos. A cultura é tanto aquele livro que se torna best-seller quanto uma frase escrita em um muro da cidade. Cultura é o ‘arroz com feijão’ tão comum no Brasil, como também aquele prato que cozinhamos pela primeira vez pra tentar surpreender uma visita. É cultura o jeito de se vestir, de falar, de cumprimentar, de trazer algo divertido sobre a própria sociedade ou humanidade. É cultura aquele poema cimentado em um blog, aquele trecho de música autoral do anônimo que ninguém sequer pensaria em pesquisar e aquele projeto de arquitetura rabiscado num papel esquecido na gaveta. Também é cultura aquela turma que se reúne frequentemente num determinado bar, com suas roupas e estilos próprios, seu modo de encontrar entretenimento na noite, suas bebidas, suas piadas, seus planos de viagem, seus abraços, seus pedaços e mais pedaços.

Não existe mundo sem cultura. Tudo que somos é um ato cultural. Deixar a cultura de lado é deixar de exercer nosso próprio potencial humano. A medida em que nos rendemos a mesmice do mundo, nos concentrando somente nos estereótipos e clichês, ficamos menores, mais pobres de coração e de mente. O brilho nos olhos se perde a cada vez que nosso entusiasmo se afoga na repetição de coisas vazias e sem mensagem, pois tais coisas não nos fazem pensar, não nos fazem refletir, não nos incentiva a agir ou mudar, não nos permite exercer intervenções no mundo a nosso próprio favor e não nos desamarra de nossas próprias fraquezas. Tais coisas nos mantém acomodados, convenientemente iludidos e conformados, sem nunca incomodar quem lucra muito dinheiro às custas da nossa falta de percepção da realidade, da nossa precariedade na educação, da ausência de exercício de nossos pensamentos e direitos, como também da nossa facilidade em aceitar a pequenez como opção, pra esse mundo já tão restrito em diversidade. A cada vez que permitimos que o mundo fique menos diverso, damos um voto de incentivo para nossa própria anulação, nossa própria destruição. Nada mais ofensivo  para o ser humano que impedi-lo de sua autêntica transformação. Talvez nossos corpos e mentes estejam se adaptando, mas, definitivamente, não estamos evoluindo.

Rodrigo Meyer