Crônica | O orgulho em ser inútil.

Fui ao estabelecimento. Tudo muito bonito, organizado, exceto por aquele atendente, com a cara toda fechada, um desgosto pelo trabalho, uma falta de educação e atenção. A cada simples pergunta sobre os produtos, uma resposta seca ou até mesmo resposta alguma em claro sinal de desprezo. Eu sabia que ele nunca mudaria. Já é um idoso e não fez nada pra aprender a ser melhor, mesmo depois de tanto tempo na mesma atividade. Praticamente um apêndice do próprio comércio, tal como o apêndice no órgão humano, mantido enquanto não dói, mas que pouco sabemos da utilidade. Meu alívio é saber que ele está cada vez mais perto de se aposentar, que o comércio terá que mudar ou fechar e que eu continuarei educado e útil por onde passo. Sempre gostei de trabalhar. O que me dá energia é saber que estou sendo útil pra algo ou alguém. Mas nem todos pensam igual. Eu sou só alguém que acredita que atirar no próprio pé não é uma alternativa. A maioria das pessoas, por se darem esse tiro, acham que eu estou errado. Ai de mim, pobre coitado.

Rodrigo Meyer

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